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terça-feira, 12 de maio de 2026

DIVERSIDADE DE DONS


 Entendemos que os dons distribuídos pelo Espírito têm por objetivo primeiro edificar a igreja em áreas que o próprio Deus entende necessárias.  E que, quando isso ocorre, toda a comunidade de fé é edificada e cresce.

Com base nas relações de dons que encontramos no Novo Testamento, gostaria de classificá-los por sua área de atuação.  Lembrando mais uma vez que todos são importantes na medida da necessidade e que não há hierarquia entre eles.

A primeira área de atuação dos dons seria mais pessoal.  Como citação, seria o dom de conhecimento, de sabedoria e variedade de línguas.  Neles, embora a ação se dê na área pessoal de cada crente, capacitando-os para ter uma compreensão mais aguçada das coisas espirituais, o objetivo final é levar a igreja a perceber melhor as verdades espirituais.

Uma segunda classificação, chamaria de social.  Os textos falam em contribuição, cura, ensino, fé, liderança, hospitalidade, pastoreio, serviço, entre outros (esse é o grupo com mais diversidade).  Aqui o objetivo claro é atender necessidades sociais, psicológicas, emocionais e funcionais da comunidade.

Uma última classificação seria a dos dons litúrgicos, ou de culto e celebração.  Seriam os dons de profecias, interpretação de língua, exortação, evangelismo, discernimento de espíritos.  Enquanto a igreja se reúne para cultuar e celebrar a Cristo as diversas manifestações espirituais acontecem, e os dons se manifestam para que ela possa ser conduzia de modo correta a uma adoração digna.

(Da Revista DIDASKALIA – 1º
quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)


Você pode ler mais sobre Dons Espirituais no Escrevinhando:
Para um estudo simples das palavras gregas que o apostólo Paulo usa para descrever os dons, indico os seguintes links do Escrevinhando:

terça-feira, 22 de julho de 2025

SEPARAÇÃO IGREJA x ESTADO – um pouco de história

 


A Reforma Protestante que chegou a Inglaterra nos séculos XVI e XVII foi provocada originalmente pela opção política do rei Henrique VIII de romper com a Igreja de Roma e assumir o controle da estrutura eclesiástica no seu país insular.  Ele não visava nenhuma questão doutrinária ou moral, pelo contrário, tinha como pano de fundo a justificativa de legitimar a quebra de seus votos conjugais.

Nesse contexto alguns sinceros cristãos ingleses entenderam que seria preciso deixar a tutela da igreja estatal inglesa e produzir uma verdadeira reforma que purificasses as congregações e seus fiéis dos erros históricos que foram acumulados, trazendo de volta a igreja a sua fidelidade primitiva. 

Entre esses cristãos estavam o ministro John Smyth e o advogado Thomas Helwys, que, num exílio na Holanda, deram início a um movimento que se entendia a partir da herança comum bíblica e do Credo Apostólico e se sentia familiarizado com as Solas postuladas pelo movimento da Reforma Protestante.  Contudo se firmaram e distinguiram por adoção de princípios gerais que os nortearam.

Entre esses princípios, é importante destacar: a suficiência das Escrituras; a liberdade de opinião; o sacerdócio universal de todos os salvos; a autonomia da igreja local; e a separação entre a igreja e o estado.

Com tais princípios gerais o grupo, que logo foi apelidado de Batistas – em referência a prática do batismo praticado por imersão – se expandiu e estruturou mantendo seus valores fundamentais.

O primeiro e principal princípio batista que nos distingue desde a origem é a intransigência quanto ao apego à Bíblia como única regra de fé e pratica.  Entre nós não há Credo preestabelecido por Concílio autorizado por poder superior, mas a Palavra de Deus nos é suficiente para estabelecer e embasar todos os nossos princípios de crença e conduta, de teologia e de ética, de doutrina e relacionamentos.

Partindo dessa compreensão bíblica, os batistas afirmaram como princípio desde a sua origem – os identificando como grupo cristão distinto – a afirmação de que cada crente em si exerce o seu sacerdócio diretamente diante de Deus com quem se relaciona também diretamente, prestando contas somente a ele como Senhor de sua vida – mesmo vivendo em comunidade eclesiástica.

Derivando também daí, afirmou-se primordialmente a liberdade de cada ser humano de expressar livremente suas mais diversas opiniões quanto às questões que tocam sua vida e sua comunidade – inclusive quanto ao tema da fé.  Em consequência, os crentes que seu reúnem em uma igreja local devem ter a autonomia suficiente para tratar, administrar e resolver suas questões locais, sem que nenhuma autoridade superior e alheia lhe determine como agir e proceder e crer.

Por extensão na defesa das liberdades individuais, como princípio fundante dos batistas sempre esteve a defesa de que a Igreja, enquanto instituição local e histórica, nunca deveria se submeter a que o rei – ou o poder político temporal – determinasse seu sistema de crenças e valores.  Nem deveria a instituição social – igreja – interferir nas decisões estatais.  Ficando cada uma a exercer seu domínio no seu campo específico.

Continuando na caminhada histórica, depois do primeiro momento europeu do grupo batista, e buscando encontrar um lugar para poder viver livremente seus princípios, parte do grupo migrou para a América do Norte.  Ali ajudou de maneira indelével na formação moral e social da nação a ponto de que alguns de seus princípios fossem incorporados como valores nacionais.

Essa influência batista, na formação dos Estados Unidos, foi tão forte – inclusive na questão das liberdades individuais e da separação da igreja e estado que foi atestada por Thomas Jefferson, um dos pais fundadores da nação.  Disse ele: “eu contemplo com reverência soberana que age de todo o povo americano, que declarou que sua legislatura deve 'fazer nenhuma lei respeitando um estabelecimento da religião, ou proibindo o seu livre exercício', assim, construindo um muro de separação entre Igreja e Estado”.

E, a partir daí, esses valores e princípios passaram a nortear todo o ocidente, onde se compreende que o estado deve se manter equidistante das questões de fé.  Inclusive no Brasil, que inseriu em sua Constituição de 1988, no seu artigo 5º – inciso VI, que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.”

(Da Revista DIDASKAIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

terça-feira, 27 de maio de 2025

A CATEDRAL

 


Um dia desses a minha tia me mandou um vídeo sobre como a arquitetura dos templos atuais tem se parecido com shoppings centers.  Gostei.  E, de saída, muitas linhas de pensamento começaram a se emaranhar.

Mas, antes, deixe-me dar os devidos créditos.  Fui procurar e achei, nas redes sociais, a postagem da Mariane Santana (@marianecsantana) de 25/04 na qual ela se refere à "arquitetura religiosa na sociedade do desempenho".

Puxei um fio de pensamento e, a partir dele, segui desenvolvendo de um ponto a outro, de uma ideia a outra, de um conceito a outro.

 

Historicamente o nosso Cristianismo sempre se mostrou aberto a dialogar com a sociedade e o mundo ao seu redor.  Aprendeu com o Mestre Jesus!  E esse diálogo tanto lhe trouxe benefícios como prejuízos – a questão não seria essa. 

Paulo, no NT, chegou a Atenas e se propôs a falar do "Deus desconhecido" (confira At 17:23).

Daí, chegando ao filosófico mundo helênico, os pais da igreja produziram boas reflexões.

No oriente, a fé cristã se revestiu de sua mística própria.

Durante o medievo europeu, o estudo ficou confinado aos mosteiros enquanto o populacho laico deu vez e voz ao sincretismo de fetiche.

Já quando o iluminismo varreu as ideias do velho continente, pensadores protestantes enriqueceram o colóquio com suas ponderações.

E por aí se foi...

 

Aqui o fio me trouxe de volta ao tema original: esses templos de hoje travestidos de shoppings e que são projetados "para facilitar o fluxo de capital".

É o diálogo cristão com a sociedade na sua pior versão.

Se Mamom é o deus dessa era capitalista em que o ganho e acúmulo requer para si a primazia da adoração, uma igreja que se submete à sua doutrina não pode estar servindo ao Deus cristão (essa é a lógica explícita de Jesus em Mt 6:24 / Lc 16:13).

Ou se adora ao Deus da cruz ou se adora ao deus do shopping.  Ou se busca o Reino de Deus ou se busca capital.  Os dois não são servidos juntos.

 

Então o fio me levou mais adiante (ou lá para traz).  E lembrei como me senti impactado quando tive a oportunidade de conhecer a Catedral de Colônia (isso já vão mais de vinte anos).  Confesso: sua arquitetura, como arte cristã, mexeu comigo.

 

Parêntese 1.  Já escrevi sobre o que é arte.  Está aqui no Escrevinhando (link).

Parêntese 2.  Sei que tenho uma foto minha lá na Catedral, mas por hora não achei, então resolvi ilustrar com uma imagem que colhi no pixabay.com.

 

Voltando à Catedral.

Sobre os detalhes históricos e de arquitetura não vejo necessidade de apontar.  Não tenho a técnica necessária e sei que na Internet estão disponíveis as informações.

 

Aquela Catedral gótica atraiu-me ao espírito de mistério e transcendência (e aqui sim transito em chão conhecido). 

O culto é "um momento cristão de celebração festiva, e também de reflexão, contrição e dedicação, porém, principalmente, um momento de encontro com Cristo" (do livro “DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão”).

E a arquitetura de nossos templos deve representar o solo sagrado – ainda que nosso Deus não habite em "templos feitos por mãos de homens" (citado por Estêvão em At 7:48 e repetido por Paulo em At 17:24).

A Catedral cristã com seu pé direito amplo, seus vitrais coloridos, suas sombras desfocadas, sua torre apontando para o alto apresentou-se a mim como um convite ao silêncio respeitoso e à reverência solene diante do Deus Altíssimo que se revela graciosamente ao ser humano em sua pequenez insignificante.

Ali eu fui atraído à adoração humilde ao que nos convida a receber de sua graça "sem dinheiro e sem preço" (leio assim em Is 55:1).

E parece até que daria para ouvir um Oratório de Bach ao fundo (para mim: a trilha sonora perfeita para contrição e adoração).

 

Parêntese final.  O livro DE ADÃOATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão está disponível no Amazonlink).

 

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A IGREJA E O RACISMO

 


A posição contrária ao segregacionismo racista foi bem compreendida pela nascente igreja cristã (apesar a implicância inicial de Pedro – citado em At 10).  E no Concílio de Jerusalém, narrado em At 15, a igreja se posicionou de maneira firme sobre tal questão.  Nas palavras do próprio Pedro abrindo a reunião:

[Deus] não faz distinção alguma entre nós e eles, pois purificou o coração deles por meio da fé (At 15:9).

 Foi, contudo, o apóstolo Paulo, em seu ministério entre os gentios, quem mais tratou do tema.  Já em seu discurso aos atenienses, o apóstolo afirmou que de um só fez Deus todos os povos, para que povoassem toda a terra (leia o discurso em At 17 e essa frase no verso 26).  Assim, a verdade bíblica inicial reafirmada no discurso diante dos filósofos gregos é que o mesmo Deus é o Criador de todos os povos e raças.  E, por isso, Deus, da mesma forma, ama a todos e dispensa interesse igual a todos.

Ou, voltando a Pedro, comentando sobre seu encontro com Cornélio, quando atestou sua mudança de postura, agora coadunando com o verdadeiro espírito e pensamento cristão:

— Agora eu entendo que Deus não tem preferências diferenciadas (At 10:34 – na versão tradicional de Almeida: ...Deus não faz acepção de pessoas).

Dessa forma, tomando como bases a interpretação paulina do posicionamento cristão em relação ao racismo e a intolerância presente em nossa sociedade, chego a seguinte compreensão:

 

Num mundo de divergências, onde o discurso de ódio parece encontrar eco, e o diferente passa a ser visto como algo a ser extirpado, as palavras apostólicas dizem:

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; derrubando a parede de separação que estava no meio (Ef 2: 14).

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3:28)

E, para visualizar o contexto primitivo das citações, observe: os primeiros cristãos estavam tendo problemas com uma tendência tida espiritual (ou conservadora e preconceituosa) de separar os eleitos – judeus e prosélitos – dos gentios e pagãos.  Como se a graça e a verdade coubessem aos primeiros e o ódio restasse aos demais (o nome disso é preconceito, racismo e xenofobia, ou seja: pecado).

Foi contra essa postura virulenta anticristã que o apóstolo se posicionou.  Em Cristo não pode haver distinção entre “nós” e “eles”, e nem deve ter lugar nenhum discurso de intolerância (mesmo que seja disfarçado de zelo espiritual), pois o Senhor acatou a todos sem distinção.

Por que todos igualmente pecaram e por isso precisam todos imensamente da graça de Cristo (na linha de Rm 3:23).

 

No evangelho inaugurado por Cristo e anunciado por Paulo, o outro e o diferente são, em primeiro lugar, amados e acolhidos.  Nunca julgados e segregados.

Todas as nossas eventuais diferenças, frutos da etnia, da cultura, das posses – ou das escolhas que sejam – foram subjugadas na cruz de Cristo e nele fomos todos reconciliados de modo a nos tornarmos um só corpo em Cristo (sugiro ainda a citação de Cl 3:11).

Essa é a nova, grande e surpreendente verdade do Evangelho. Ele nos fez um.  Para a graça divina, todos são igualmente atraídos e por essa mesma graça somos todos feitos irmãos.  Pelo projeto da cruz, deve haver uma só humanidade.

É por isso que qualquer atitude de separação, racismo, xenofobia, intolerância ou arrogância é tão ofensiva para Deus: pois é um pecado que despreza tudo o que Jesus se encarnou para redimir, desconsidera a cruz e a sua obra e graça.

 

E, finalmente, as palavras do cântico eterno na sala do trono divino ecoado no Apocalipse reafirmam que em Cristo – e no seu sangue – está a extirpação do pecado e do racismo.  E a igreja deve cantar assim desde agora.

 

São essas as palavras eternas:

— Tu és Digno de tomar o livro e abrir seus selos; porque foste morto e pelo teu sangue compraste para Deus [gentes] de toda tribo, língua, povo e etnia (Ap 5:9)

 

Sobre o tema do Racismo, leia também:

> JUDEUS E SAMARITANOS – uma história de racismo link

> JESUS E O RACISMO link

> POR QUE A GALILEIAlink

> ELE NOS FEZ UMlink

 


terça-feira, 9 de abril de 2024

ÉTICA E ACONSELHAMENTO PASTORAL

 Respondendo a uma questão sobre as bases éticas e bíblicas do Aconselhamento Pastoral, eu ofereci a seguinte reflexão:

Inicialmente, em linhas rápidas, é preciso logo deixar observado que, no Brasil, a atividade de aconselhamento pastoral só deve ser feita sob a ótica espiritual (ou religiosa).  É vedado por lei o exercício de atividade de atendimento psicológico / psicanalítico por profissional não habilitado.

O pastor deve ser graduado em Teologia e, embora na sua formação acadêmica, tenha estudado sobre noções de aconselhamento/acolhimento (é assim nas instituições sérias!), ele não tem em si uma formação científica específica na área.

 

Em relação à base bíblica do aconselhamento pastoral: tudo começa com o amor (assim logo cito Cl 3:14).  Toda atividade cristã (e o pastor necessariamente se inclui aqui) deve começar pelo verdadeiro amor (lembre Mt 22:37-39).

A tarefa de aconselhamento pastoral deve ser exercida como uma forma concreta de acolhimento e vivência de amor cristão, procurando – através de linhas bíblicas – ensinar, redarguir, corrigir, instruir em justiça (2Tm 3:16).  Sob a orientação do Espírito Santo.

 

Acrescente: O apóstolo Pedro na sua primeira carta instrui aos presbitérios que pastoreiem e cuidem de seus rebanhos sem ganância, mas com a atitude de serviço.  E nunca ajam como caudilhos daqueles que lhes foram confiados pelo Supremo Pastor (1Pe 5:1-4).

 

Indo um pouco mais.  Preste atenção que no texto de Ef 4:11 o apóstolo cita o ministério de pastoreio entre os dons (carismas) com os quais o próprio Espírito capacita a igreja.

 

Curiosidade:  o termo em grego no texto citado é ποιμήν que implica literalmente, no dicionário, um pastor, alimentador, protetor e governante de um rebanho.

Ou seja: o pastorado é um ministério a ser exercido entre a Igreja de Cristo por homens e mulheres que foram escolhidos, designados e espiritualmente capacitados por Deus para cuidarem do rebanho a eles confiados pelo Cabeça da igreja – Cristo.

 

E para concluir: a passagem da restauração de Pedro e seu comissionamento é bastante significativo nessa compreensão (leia Jo 21:15-17).

— Pedro, você me ama?

— Então cuide de minhas ovelhas!

 

 

Aproveitando, utilizando da metodologia da oposição de conceito, leia algo que escrevi sobre o que seria exatamente o contrário do ministério pastoral

O CAUDILHO ECLESIÁSTICOlink

Também, sugiro duas respostas que já ofereci a temas similares:

SOBRE MINISTÉRIO PASTORALlink

APTIDÃO E PASTORADOlink

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

A ATUALIDADE DOS DONS

 


A questão dos dons espirituais tem provocado algumas das discussões bastante acaloradas em círculos eclesiásticos. E entre os pontos de discussão está sobre a atualidade dos dons e sua aplicação ainda para a igreja do século XXI.

Para responder a questões assim, devemos nos voltar em primeiro lugar ao Texto Sagrado na busca indicações seguras.  E a primeira constatação é que não há verso bíblico que indique que os dons apresentem “data de validade”.  Ou sejam em nenhuma parte do Novo Testamento é dito de maneira explícita que haveria um tempo quando os dons se tornariam obsoletos.

Por outro lado, Paulo indicou que os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis (Rm 11:29).  E mesmo que o contexto onde lemos esse versículo se refira a salvação eterna dos crentes, mas a compreensão pode ser bem estendida para nosso estudo.

A verdade bíblica é indiscutível quando afirma que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13:8), que ele se comprometeu em estar com seus discípulos até os confins dos tempos (Mt 28:20) e que não os deixaria órfãos, enviando seu Espírito (Jo 14:18 e 26).

Quanto a atualidade e a validade dos dons hoje?  O que podemos compreender é que enquanto a igreja tiver necessidades espirituais e sociais que precisem ser supridas, o Espírito está capacitando seus servos para desenvolverem ministérios que atendam a tais necessidades.

(Da Revista DIDASKALIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

APTIDÃO E PASTORADO

 

Para responder sua questão, eu preciso fazer algumas considerações:

 

Primeiro – a escolha e vocação para o ministério na igreja é da exclusiva competência de Cristo, o Cabeça e dono da igreja (considere Jo 15:16).  Os critérios são dele e ninguém está, por si só, apto para exercer (lembre Rm 3:10).  Ou seja, ELE escolhe quem quer e então ELE mesmo é quem capacita e torna apto.

Segundo – os pecados do passado não definem nosso futuro (independente do tempo).  O perdão que Cristo oferece, a partir do seu sacrifício da cruz, é completo e final (alinhe Cl 2:13-14 e Mq 7:18-19).  Havendo arrependimento e confissão: há perdão verdadeiro em Cristo (importante 1Jo 1:9).

Terceiro – sei que existe o problema do escândalo (e isso é grave!). Há advertências nessa área e Jesus levou muito a sério o cuidado com os pequeninos (leia Mt 18:6-9).  Então qualquer decisão espiritual e ética tem que considerar esse aspecto.  Mas, insisto, a decisão final é sempre da competência do Senhor da igreja.

Quarto – aqui eu lhe apresento apenas uma breve reflexão bíblica e teológica do assunto e não um posicionamento inflexível e cabal sobre questões pontuais.  Essas precisariam ser analisadas de modo individual e peculiar.

 

Foi bom você consultar – esse é sempre um bom caminho (e é bíblico – Pv 11:14).  Você começou acertando.  Meu conselho é que insista em colocar o problema diante do Altíssimo que ELE vai dar o direcionamento correto.  E se quiser conversar mais, estamos à disposição.

 

Aproveitando: aí vão três links que podem ajudar a pensar no tema:

 

Sobre ministério pastoral – respostas sobre minha visão e chamado para o ministério pastoral – link

 

Pecado lavado – reflexão sobre a dádiva do perdão ofertado por Cristo na cruz – link

 

Como entender Mt 18:10 – a partir de um questionamento, uma análise da figura folclórica do “anjo da guarda” e a verdade do cuidado com os pequeninos – link

 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

HELWYS – DEUS E O REI

 

Estava revendo aqui alguns escritos e me deparei com uma citação de Thomas Helwys (1550-1616), um advogado inglês que consideramos como um dos fundadores do que hoje chamamos de Igreja Batista.

 

... men’s religion to God is between God and themselves. The king shall not answer for it. Neither may the king be judge between God and man. Let them be heretics, Turks [that is, Muslims], Jews, or whatsoever, it appertains not to the earthly power to punish them in the least measure.

 

... a religião do homem está entre Deus e ele.  O rei não tem que responder por ela e nem pode o rei ser juiz entre Deus e o homem. Que haja, pois, heréticos, turcos ou judeus, ou outros mais, não cabe ao poder terreno puni-los de maneira nenhuma.

 

Essas palavras escritas no livro "A short Declaration of the mystery of iniquity" (publicado em 1612) expressam o posicionamento de Helwys contra a Igreja estatal na Inglaterra e o consequente poder do rei sobre a fé de seus súditos.

Na época esse era um problema sério a ser enfrentado e o texto sobre o Mistério da Iniquidade foi um dos primeiros a advogar: (1) liberdade religiosa; (2) liberdade de consciência e (3) separação Igreja/Estado – princípios que depois seriam adotados como fundamentais pelos batistas mundo afora.

 

Realmente minha pesquisa inicial – a que me levou a citação de Helwys – tinha como mote a relação atual da Igreja na Inglaterra com a mudança na coroa britânica depois de sete décadas.  Ora, o mundo agora é outro, as mentalidades e demandas são diferentes, mas tradição inglesa ...

 

E uma coisa leva a outra.

 

Então comecei a tentar dialogar com Helwys, trazendo-o do seu século XVII inglês para nosso Brasil do século XXI.

Citei inicialmente a ele que, sob sua inspiração inicial, nós batistas “compramos essa briga” e conseguimos incutir o conceito que hoje pertence ao mundo civilizado.

Eu me vi expondo a ele que depois de tanto tempo e tanta luta para fincar a bandeira da separação Igreja/Estado como causa pétrea das democracias modernas (inclusive o Brasil) ainda há tanta escaramuça.

 

Acho que ele ficou abismado quando lhe falei a que ponto chegamos!

 

Mas ele, como advogado, me trouxe a argumentação a partir de sua convicção. 

A fé de um homem é questão exclusiva dele e ninguem, nem o Estado, nem o Congresso, nem o presidente, nem fundamentalismo de direita ou esquerda cristã, nem patrulha ideológica podem determinar o que eu devo crer ou confessar.

Que haja heréticos, blasfemos, apóstatas entre os cidadãos.  Mas que ninguem seja julgado pela fé – nem pela minha fé.  Pois a nenhum poder dessa terra foi dado o direito de julgar a doutrina e o culto alheio.

 

Foi assim que Helwys observou que ele encaminhou uma cópia de sua obra sobre o Mistério da Iniquidade ao Rei James I – com dedicatória e tudo – mas, mesmo assim, acabou preso por suas convicções.

É sempre assim: “o profeta nunca ceia na mesa do rei!

 

Para então finalmente trazer a memória o que pode dar esperança.  E nas palavras do Mestre Jesus:

 

Se o Filho libertar vocês, só assim vocês vão experimentar liberdade verdadeira.
(Jo 8:36)

 

Na imagem lá em cima,
o frontispício da obra
A short Declaration of the mystery of iniquity de 1612.
Fonte: wikipedia.org