terça-feira, 18 de junho de 2019

MINHAS REDES, MINHAS REGRAS


É fácil me achar por aí nas redes sociais. Não as escondo e até gosto de deixar disponível para qualquer contato necessário. Mensagens rápidas de texto, imagens, e-mail etc. São as incumbências dos tempos, ainda mais quando a distância nos impedem o encontro. Mas que fique claro: minhas redes, minhas regras – e só as submeto a Cristo, que é Senhor de tudo.

1. Minha prioridade é viver, não estar on-line. Sempre que posso, visualizo e respondo – é um compromisso. Quando não posso, não tem neura: fico off-line e continuo vivendo numa boa. E quando eu posto é porque creio que tenho algo para dizer.

2. Não leio textão (e isso vale para vídeos enormes). Se quiser apresentar um argumento e tratar dele comigo, seja objetivo na postagem e me chame para uma conversa sincera. Eu gosto da conversa.

3. Não compartilho correntes, campanhas, nem a última novidade ou descoberta. E quando a postagem que chega me pede para compartilhar, eu a descarto. Acredito que se é importante, haverá contato pessoal.

4. Figurinhas bonitinhas, gifs charmosos e tocantes e infinitos bom-dias são prontamente ignorados. Não insista. Agora, aquela foto inusitada – ou o por-do-sol – que você pessoalmente registrou são bem-vindas.

5. Política, filosofia, economia, futebol, psicologia, questões de gênero ou raça e afins são sérias demais para serem resumidas em postagens. E nem tente me doutrinar, nem destile seus preconceitos. Sobre questões assim, podemos trocar ideias – pessoalmente.

6. A vida pessoal dos famosos não me interessa, nem mesmo gospel. Em vez de me mostrar seu último lanche, me chame para compartilhar um com você. Em vez da self com biquinho, me procure para um abraço.

7. Teorias de conspirações é coisa que, em geral, não acredito, nem levo a sério. Para falar a verdade, minha primeira atitude é desacreditar, para depois, havendo comprovação razoável, eu eventualmente pensar no assunto.

8. Entendo a diferença entre o contato privado e os grupos. O que você me mandar no privado só será compartilhado com sua autorização, fique tranquilo. Já os grupos são, por definição, públicos. E parabéns e felicitações cabem melhor no privado.

9. Se tem algo que eu não possa lhe dizer pessoalmente por vergonha ou medo, eu jamais lhe direi nas redes sociais. E espero que você faça isso também. E prefiro olhar nos olhos e dizer o que é importante – sempre há mais riqueza e sinceridade assim.

10. Eu me dou a liberdade de interpretar emojis, emoticons e textos com abreviaturas como eu bem quiser. Tanto os que posto quanto os que recebo. Então, se for diferente de sua intenção e compreensão, tente outra técnica.

11. Bom senso e coerência são atitudes que eu valorizo muito. Tanto na vida ao vivo, quanto nas redes. Também ignoro e relevo erros de gramática ou outros equívocos de digitação. Mas tudo tem limite.

12. Acredite: eu tenho Bíblia – até várias edições. Então não transcreva textos bíblicos. Eu posso ler lá. Caso queira compartilhar alguma lição espiritual, apenas faça a citação do ‘endereço bíblico’. E se quiser tirar dúvidas, não se acanhe em postar e perguntar. Eu reconheço que não tenho resposta para tudo – isso só Jesus –, mas tenho o maior prazer e satisfação em pesquisar, responder e compartilhar o aprendizado.

EM TEMPO: Não substitua sua devocional bíblica diária por uma leitura de rede social.

SDG – 1Co 10:31

sexta-feira, 14 de junho de 2019

O CULTO PRESCRITO POR DAVI


Então disse Davi a toda a assembleia:
“Louvem o SENHOR, o seu Deus”.
E todos eles louvaram o SENHOR,
o Deus dos seus antepassados,
inclinando-se e prostrando-se
diante do Senhor e diante do rei
.
(1Cr 29:20)
O texto destacado aqui se refere a uma celebração dirigida por Davi já nos seus últimos dias quando comemorou as dádivas para a construção do templo e anunciou Salomão como seu sucessor.
O rei sabia que seus dias estavam chegando ao fim e ainda neste momento demonstrou algumas de suas melhores características: como administrador hábil, nomeou Salomão de maneira inquestionável seu sucessor político e comandante-em-chefe das tropas militares; e como adorador fiel convocou o povo para uma celebração e adoração ao Senhor.
Esta cerimônia de louvor e adoração comandada pelo rei Davi se configurou como uma espécie de modelo ou projeto de culto que deveria ser prestado no santuário de Jerusalém a ser construído. Dela é possível apontar alguns destaques.
Em primeiro lugar, embora Davi soubesse que a construção do templo central provocaria uma mudança radical no modelo de adoração ocorrida até então, ele tinha a consciência de haver uma linha de continuidade entre o culto em Jerusalém e a adoração dos antepassados. Tanto no próprio louvor proferido pelo rei como pela resposta do povo há uma referência ao Deus dos pais (veja mais 1Cr 29:10).
Embora muita coisa nova estivesse acontecendo, o culto no templo não deveria ocorrer como um rompimento definitivo com as manifestações de Deus no passado. Na adoração de Davi estava o reconhecimento de que o mesmo Deus que o tinha escolhido e conduzido até aquele momento era o Deus que tinha se revelado ao patriarca Israel.
Isto daria historicidade e legitimidade ao seu culto, e Davi sabia da importância de tais elementos em sua adoração.
Na celebração real também pode ser observado um oferecimento de ofertas. A motivação inicial do culto já incluía as ofertas.
Davi sabia que ofertar a Deus e ao seu templo era suficiente motivo para já celebrar, e ele o faz com mais oferendas e doações. Acompanhados de muito louvor e alegria, foram colocados no altar de Deus mais de três milhares de animais para serem sacrificados em holocausto.
Chama a atenção na narração em língua original que a expressão usada para o oferecimento no culto de Davi – que em nossa língua é traduzida por holocausto – significa um sacrifício queimado totalmente (o verso é 1Cr 29:21). É como se o texto bíblico estivesse enfatizando que o oferecimento de Davi em seu culto era completo e que aquilo que o rei trazia para o Senhor em seu culto deveria ser para o próprio Deus apenas, sem esperar nada em troca.
Ainda precisa ser destacado que todo o culto oferecido pelo rei Davi está revestido de beleza e grandiosidade. Davi era uma artista – o que significava que sua alma era tocada pela beleza poética de forma diferenciada – além de que, como citado, aquela celebração deveria se constituir um modelo de culto para o futuro templo.
Tudo era muito belo, tudo era muito festivo. Aquilo era adoração na sua mais pura forma, com ofertas e cânticos diante de Deus. Se a alma estava prostrada em adoração diante de Deus, o corpo assim se posicionava e todo o culto se revestia da beleza da santidade de Deus – uma antecipação do esplendor do santuário que seria erguido (o próprio Davi no Sl 29:2 conclama a uma adoração assim).
E o texto descreve o desfecho deste culto: naquele dia comeram e beberam com grande alegria na presença do Senhor (1Cr 29:22).


terça-feira, 11 de junho de 2019

O SALTÉRIO E O SEU CONTEXTO LITÚRGICO



Paralelamente ao processo canônico que fez surgir e arranjou os diversos componentes do texto do Saltério, este livro foi o Hinário do Culto judaico de Jerusalém – principalmente no segundo templo. Em todos os momentos o Livro dos Salmos sempre esteve associado ao culto, que lhe serviu de inspiração e momento, e principalmente, além de manual e guia.
Mas não é só o culto formal no Templo que se utilizou dos poemas dos Salmos como forma de sua expressão. Toda a vida de adoração e de fé de judeus e cristãos foi influenciada por este texto. E a igreja cristã, desde o seu início, se utilizou do Saltério como guia de culto e adoração.
Embora estudiosos modernos tenham citado diferentes pontos de partida para os Salmos no contexto litúrgico, muitos parecem concordar com os já clássicos estudos do norueguês Sigmund Mowinckel (escritos em 1962) que afirmava a origem litúrgica do culto e dos salmos em Israel numa Festa da Entronização de Yahweh.
Ora, embora tal festa não esteja descrita ou ordenada explicitamente em parte alguma da tradição do AT, mas a ligação íntima entre os salmos e a liturgia é tida como certa por todos os comentadores.
Ainda o alemão Artur Weiser observa que no Saltério podem ser encontrados numerosos fragmentos da liturgia do culto e alusões a procedimentos cúlticos. E embora essas informações não nos permitam reconstituir nos detalhes a sequência da festa, mas revelam os elementos essenciais da tradição cúltica. O que pode nos indicar que o culto da festa da Aliança deve ser considerado o “contexto vital” (Sitz im Leben) da grande maioria dos salmos e dos seus gêneros literários.
São dos espanhol Luís Alonso Schökel estas palavras com as quais concluo:
Em geral, os salmos não expõem doutrina. Dirigindo-me a Deus, não o faço como mestre. E se ensino algo à assembleia, talvez como dirigente da liturgia, é para que se volte a Deus. Posso, na verdade, refletir em alta voz para proveito dos que me escutam, mas não para instruir a Deus.
... orar a Deus tem sentido e valor. No simples ato de orar, o homem crê fazer algo que vale a pena. Coloca-se num lugar de homem, humilde e nobilíssimo. Humilde, porque tem consciência de ser criatura perante o criador; nobilíssimo, porque se sabe interlocutor do Deus.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Doenças da Alma – ESCOLIOSE


A próxima doença que devo trazer para nosso conhecimento, reflexão e cuidados é a escoliose – ou "coluna torta" numa linguagem menos técnica. Como esse é um mal que, com facilidade, pode ser percebido visivelmente, desde os primeiros médicos gregos e hindus já havia prescrição e proposta de tratamento desta deformação física.
Ainda citando os termos técnicos, segundo a ABRACES, associação que cuida de pacientes com escoliose, ela pode ser definida como uma curvatura da coluna espinhal anormal, maior que 10º no plano coronal, podendo ser acompanhada de rotação das vértebras, apresentando-se como uma coluna em “S” ou em “C”.
Vamos ampliar um pouco nosso conhecimento. Ao citar a escoliose como uma doença que aflige a coluna, entendo ser apropriado também definir a coluna vertebral. Isso ajuda a entender o mal que a doença causa. Em termos gerais, a coluna vertebral é uma haste flexível formada pelas vértebras. Ela possui, entre outras funções, o sustentamento do corpo e a proteção da medula espinhal.
Observando então a vida e postura de muitos cristãos entre nossas igrejas, uma constatação é inevitável: a escoliose da alma é uma doença bastante recorrente. Visivelmente vários cristãos, membros de nossa comunidade de fé, estão com suas colunas espirituais tortas.
Independente das causas que levam a coluna espiritual do cristão a entortar – elas são variadas – o mal da escoliose espiritual pode ser listada em dois tipos de doentes: o primeiro grupo são das crianças e adolescentes na fé que, por problemas congênitos ou de má postura, desenvolvem um crescimento inadequado de suas estruturas ósseas da alma.
Sem uma formação adequada, as crianças na fé não conseguem manter o alinhamento de suas vidas e condutas espirituais e vão sistemicamente se entortando e deixando de apresentar um posicionamento saudável para um cristão.
O outro grupo de doentes, são os que, mesmo já mais maduros na fé, porém a postura cristã continuadamente errada e o sobrepeso que a vida lhes impõe faz com que suas colunas espirituais se deformem a tal ponto que nem sequer mais podem se manter eretos, estáveis e adequadamente sustentados.
Seja qual for o caso, a escoliose da alma provoca assimetria nos ombros e cintura espirituais, levando a que o corpo penda para um lado ou outro, nunca mantendo o equilíbrio sadio; também dificuldade motora, o que implica em perder liberdade e agilidade para seguir e administrar sua vida cristã. Além da óbvia deformação estética!
Prosseguindo o problema, outras complicações podem ser acrescentadas à doença como dores na alma, algumas até intensas; sensação de fadiga, principalmente depois de prolongado período de inércia espiritual; comprometimento da respiração, com a falta do fluir do Espírito; e até danos na medula e sistema nervoso espiritual.
Mas não devemos falar dos males sem lhes citar a cura. A escoliose espiritual caracterizada como má formação – ou deformação – da coluna precisa urgentemente ser corrigida. E a terapia – principalmente preventiva – foi recomendada pelo apóstolo-médico Paulo a Timóteo: Que nada lhe entorte em sua infância e juventude, mas mantenha a postura exemplar na palavra, no comportamento, no amor, na fé e na pureza (a receita está em 1Tm 4:12 – aqui me dando liberdade a uma leitura própria).
Se porém o problema da escoliose espiritual é cansaço e fadiga da coluna por excesso de peso, sobrecarga, postura ou exposição espiritual inadequada, o remédio é direto e oferecido pelo nosso Médico por excelência: Todos vocês que sofrem com escoliose espiritual, cansados de tanta carga, venham a mim e deixem aqui seu sobrepeso, levem apenas a minha leve e suave mochila (o texto é conhecido e está em Mt 11:28-30).
(Na imagem lá em cima, um detalhe do conhecido “Uomo vitruviano” desenhado por Leonardo da Vinci, provavelmente em 1490, e que atualmente faz parte da coleção da Gallerie dell'Accademia em Veneza / Itália)

terça-feira, 4 de junho de 2019

DUAS CITAÇÕES PATRÍSTICAS SOBRE O CULTO CRISTÃO


Justino Mártir (100-165) –
No capítulo I de sua Apologia (c. 150) Justino apresenta a visão que tinha do culto cristão. Em especial no verso LXVII está descrito o que seria a ordem ou estrutura de uma celebração litúrgica na igreja daquele período:
Aliás, no transcorrer dos dias, nunca deixamos de renovar entre nós estas lembranças. (...) Em nossas oblações, invariavelmente, louvamos o Criador de todas as coisas em nome de Jesus Cristo seu Filho e do Espírito Santo. No dia denominado de dia do sol há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto na cidade como no campo. Ali se dá a leitura das Memórias dos apóstolos ou das Escrituras dos profetas até onde o tempo permite. Terminada a leitura o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exortar à imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos levantamos e oramos juntos. Terminada a oração, do modo como já foi dito, traz-se pão e vinho com água. O presidente dirige a Deus orações e ações de graças, o povo aquiesce com a aclamação: Amém.
Reunimo-nos no dia do sol por ser o primeiro dia da semana, dia em que Deus, afugentando as trevas do caos [matéria], criou o mundo, neste dia também nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, pois crucificaram-no na véspera do dia de Saturno, e no dia posterior ao dia de Saturno, ou seja, no dia do sol, Cristo apareceu aos apóstolos e discípulos, ensinando-lhes estas coisas que, para vossa consideração, vos temos transmitido.
Hipólito de Roma (170-235) –
Citação extraída da Tradição Apostólica (c. 225) de Hipólito que ficou conhecida como a “Liturgia da Igreja Egípcia”:
Por esta razão, nós, em memória da sua morte e da sua ressurreição, oferecemos-te este pão e este cálice, dando graças a ti porque nos fizeste digno de apresentar-nos a ti e de servir como teu sacerdote. E te imploramos te dignes enviar teu Santo Espírito sobre a oblação de tua santa Igreja, concedendo que todos os teus santos que dela participem sejam feitos um para a plenitude do Espírito Santo e a confirmação de sua fé na verdade. Assim possamos louvar-te e glorificar-te por Jesus Cristo teu Filho [servo] através de quem seja glória e honra a ti, ao Pai e ao Filho com o Espírito Santo em tua santa Igreja, hoje e eternamente. Amém.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

JESUS É O MODELO DE FAMÍLIA


O mês de maio é tradicionalmente denominado como o Mês da Família. Então, também é costume, durante este mês de maio, refletir sobre questões relacionadas às nossas famílias, buscando encontrar modelos bíblicos que nos servissem de paradigmas para nossas vidas diárias.
Hoje, neste último dia do mês e crendo ser a igreja compreendida como uma família em Deus, quero partir da instrução paulina para refletir: “sede imitadores de Cristo como filhos amados” (Ef 5:1).
Sendo a igreja uma família, Jesus Cristo é o nosso modelo; e é deste modelo filial que busco ouvir as palavras: depois de ter multiplicado pães e peixes, e enquanto apresentava à multidão a sua missão, Jesus disse explicitamente: “eu desci (…) para fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 6:38).
O próprio Jesus esteve entre os homens com a intenção exclusiva de cumprir aquilo que lhe foi atribuído pelo Pai que lhe enviou; e nós que queremos seguir o seu modelo devemos conduzir a nossa vida para que ela seja também exclusivamente um cumprimento da vontade do Pai.
Tudo o que somos e queremos deve sucumbir ante a vontade soberana de Deus que deve imperar em nossa vida.
Adiante, na sua Oração Sacerdotal (Jo 17), Jesus foi além quando se apresentou como modelo daquilo que espera que façamos. Ele falou sobre a missão dos discípulos, falou da santidade que se deve ter mas apresentou o objetivo disto tudo: “a fim de que sejam um; e com és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (verso 21).
Jesus rogou ao Pai que fôssemos iguais a ele: assim como há unidade entre Deus-Pai e Deus-Filho, deve haver unidade real entre nós – filhos – e nosso Pai celeste, e também entre nós mesmos. Esta é a vontade de Deus e este é o modelo proposto por Jesus para a igreja – família de Deus.
Tomemos o modelo de Jesus como nosso padrão. Assim seremos uma família segundo a vontade do Pai, para sua glória.


terça-feira, 28 de maio de 2019

PLÍNIO E O CRISTIANISMO PRIMITIVO


Caio Plínio, conhecido como Plínio o jovem, foi um orador, poeta, jurista e político romano que viveu entre os séculos I e II da era cristã. Em 111 d.C. ele foi nomeado governador da Bitínia (atual Turquia). Chegando lá, teve de lidar com diversas situações relativas à população e a administração, entre eles estava um grupo até então desconhecido para ele e que eram conhecidos como cristãos. Foi então que ele resolveu escrever para o imperador Trajano expondo a situação, indicando as providências que havia tomado e pedindo apoio do Império.
Na carta, além reconhecer que verdadeiros cristãos nunca “veneravam vossa imagem e as estátuas dos deuses, amaldiçoando a Cristo”, Plínio assim descreveu as práticas e costumes cristãos, e o seu culto nos seguintes termos:


(…) quod essent soliti stato die ante lucem convenire, carmenque Christo quasi deo dicere secum invicem seque sacramento non in scelus aliquod obstringere, sed ne furta ne latrocinia ne adulteria committerent, ne fidem fallerent, ne depositum appellati abnegarent. Quibus peractis morem sibi discedendi fuisse rursusque coeundi ad capiendum cibum, promiscuum tamen et innoxiu.


(…) em reunir-se regularmente em certo dia antes do nascer do sol, entoar alternadamente entre os presentes um hino em honra de Cristo, como se de um deus se tratasse, e comprometer-se mediante juramento a não perpetuar alguns tipos de crimes, como se comenta, a não cometer furto nem roubo, nem adultério, a não faltar com a palavra dada e a não se negar a restituir um depósito quando chamados a pagar. Também manifestaram que, uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes.


Estas considerações do governador nos dizem basicamente duas coisas sobre a prática do culto cristão primitivo:
Uma – que o culto durante o período da igreja primitiva acontecia frequentemente nas primeiras horas do dia num “certo dia” (stato die), o que pode nos levar a interpretar como significando o domingo. E sempre era conduzido por cânticos de adoração a Cristo, considerando-o com verdadeiro Deus – sendo isso o que incomodou ao imperador e ao seu culto.
E outra – que as reuniões cristãs no primeiro século consistiam de celebrações em que se comia uma refeição completa em comum. Hoje entendemos que se tratava daquilo que denominamos de o partir do pão ou a Ceia do Senhor onde não apenas reavivam a memória do sacrifício de Cristo como comprimento da aliança e das profecias antigas e como a certeza das vindouras.

Observe que estas duas características do culto primitivo, mesmo representando ritos diferentes, mas deveriam ser compreendidas como compondo uma mesma estrutura de culto. Além do mais, os dois ritos em conjunto, como marcas do culto no período da igreja primitiva, indicavam que ela – a igreja – procurou destacar em sua celebração tanto as afirmações e anúncios contidos na Ceia do Senhor (como destacou Paulo na sua instrução em 1Co 11:26) quanto sua crença na divindade daquele a quem adoravam (Cl 1:15-20 e Hb 1:6).