O evangelista
Mateus diz:
[Jesus], vendo as multidões, tem compaixão delas
porque estavam angustiadas e espalhadas como ovelhas que não têm pastor.
(Mt 9.36)
Em
linhas gerais, Mateus está narrando que o Mestre, enquanto percorria as cidades
e vilarejos, notava as pessoas largadas e esquecidas na periferia do mundo e da
religião. E isso mexeu com ELE de uma
forma única.
Aqui o
grego bíblico registra uma palavra rara e com uma pronúncia complicada para nós
falantes do português brasileiro: σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai – talvez
um falante nativo do grego moderno tenha facilidade com esse conjunto de letras
– eu com certeza não!).
Eu
entendo que a compreensão dessa palavra evangélica seja fundamental para
entender a passagem.
Antes. Para situar.
Os gregos antigos tinham três palavras para descrever o sentimento e
atitude de compaixão:
→
ἔλεος (eleos – a forma mais comum).
Literalmente misericórdia. O
termo era comum nas saudações cristãs (confira, por exemplo, Gl 6.16 e 1Tm
1.2). Esta palavra está na raiz da
expressão ἐλεημοσύνη (eleemosyne) – esmola. Os gregos usam esse termo para traduzir o
hebraico חסד
– hesed – o amor leal de Deus (como no Sl 5.8).
→
οἰκτιρμός (oiktirmos). O sentido
é de clemência e compaixão. Aos colossenses
Paulo instrui a nos revestir de compaixão (leia em Cl 3.12). Essa é a palavra grega que o AT usa para a queixa
do profeta Jonas ao Senhor por ser clemente e compassivo (em hebraico: חנון – hanun
– em Jn 4.2).
→
σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai).
Essa é a palavra usada por Mateus.
E quero me aprofundar em seu
estudo.
No
Grego Clássico esse verbo é quase desconhecido.
Mas a sua raiz etimológica é bem conhecida. Siga comigo.
Os
antigos usavam o substantivo σπλάγχνα (splanchna) para indicar as partes
da vítima que eram oferecidas em sacrifício aos deuses. O termo se referia às
partes consideradas mais nobres dos animais: fígado, coração, rins e pulmões.
Usava-se também para designar os órgãos sexuais masculinos e o útero ou ventre
materno como locais dos poderes da concepção e do nascimento.
Então,
daí eles começaram a usar a forma verbal para designar o ato de comer as
entranhas dos animais sacrificados como forma obter poderes místicos e dominar
as artes adivinhatórias.
Mas,
somente no judaísmo helênico tardio que o termo σπλαγχνίζομαι começou a ser
usado como uma espécie de sentimento que move as vísceras (e o cristianismo herdou
essa compreensão).
É a
descrição daquele misto de sentimento que nos mexe por dentro, na intimidade e
essência do que somos e não se arrefece até que nos leve a uma ação prática em
favor do necessitado. Mais do que pena
ou dó, mais do que piedade ou caridade, é compaixão visceral que, como bom nordestino
eu diria: “que me embola as tripas” e me toma por completo de uma gastura existencial
pela situação do outro.
Foi
esse mover das vísceras, das entranhas, do mais profundo do seu ser essencial
que tomou Jesus ao ver as multidões carentes da periferia (e Tiago vai dizer
que Deus é cheio dessa misericórdia – em Tg 5.11).
E
humana e completamente envolvido por essa misericórdia essencial Jesus instrui
os seus discípulos de forma apaixonada:
A tarefa é tão grande e tem tão pouca gente para fazer! Peçam ao Senhor da obra que traga mais
pessoas para se compadecer desses!
(Mt
9.37-38)





