A última grande questão humana a ser respondida sob a luz da
crença monoteísta é sobre o destino do ser humano – a questão da finalidade da
existência humana. Tendo determinado a
essência do seu ser e qual a função que tem a desempenhar nesta existência,
falta-lhe determinar qual o destino que espera o ser humano. A princípio podemos constatar que uma teoria
que ignore uma possibilidade de resposta à questão do destino humano, tende
naturalmente a se tornar uma teoria niilista na sua essência. Se não há destino a ser buscado a existência
torna-se vã – nula. Ora, tal nulidade
acaba por enfraquecer qualquer resposta que tenha sido dada às questões anteriores. Se o homem não tem para onde ir e tudo acaba
aqui então todo o seu esforço para dar significado a sua existência está fadado
a fracassar num abismo vazio.
Otimista ou pessimista, todos os mitos contados pelas culturas
antigas incluíam em suas narrativas a certeza de que haveria vida e destino
para o ser humano depois desta vida agora.
Os egípcios construíram suas pirâmides aguardando a passagem dos seus
faraós para vida futura. Os orientais
japoneses ainda hoje reverenciam os seus ancestrais fazendo com que os vivos se
saibam parte deste destino comum. Entre
os gregos, Caronte é o barqueiro que tem a responsabilidade de levar os homens
para o reino de Hades. Igualmente os
mitos babilônicos conclui a Epopeia de Gilgamexe com a expressão:
"este é o destino da humanidade".
As palavras bíblicas parecem concordar com toda esta certeza de ter a
vida humana uma finalidade e um destino: "... sabendo que o vosso trabalho
não é vão no Senhor" (1Co 15:58).
Um detalhe, entretanto, não pode escapar à nossa
observação. Em todas as narrativas o
destino da humanidade está profundamente ligado aos seus deuses. Para onde o ser humano vai, como e por que
são questões que estão na competência de seus deuses decidirem. Além de ter a certeza de que a existência humana
não se encerra nesta vida e, por isto mesmo, tem sua destinação apontada para o
além; ao atrelar seu destino aos deuses a humanidade cerceia a própria
liberdade de escolha. Se por um lado a
certeza de que se esperamos somente nesta vida somos os "mais miseráveis
entre todos os homens" (1Co 15:19); por outro é o próprio Deus quem nos
destinou para sermos "conforme a imagem de seu Filho" (Rm 8:29).
Mas, enquanto aguarda a vida além, o ser humano continua
vivendo nesta vida e traçando planos cuja realização não extrapolam a vida
presente. Numa analogia com a linguagem
freudiana: enquanto a espera pela vida futura seria a supremacia do princípio
do prazer – quando todos os males do presente serão superados e o paraíso enfim
será estabelecido – os imperativos da vida presente representaria um triunfo do
princípio da realidade – quando a incapacidade de realizar por conta própria o
futuro faz o homem se ocupar na construção do tempo presente.
Com este quadro, a crença politeísta poderia ser uma hipótese
de solução satisfatória. Se tenho na
minha relação de sagrado a presença de dois ou mais deuses, então posso
atribuir a cada um deles em separado as incumbências de resolver os problemas
do aqui e do além. Mas a crença no
politeísmo não contribui para a integração do ser, logo, tendo o ser desintegrado
pela crença em vários deuses, sem identificação existencial e funcionalidade
objetiva, como pode esta crença compor para que a integridade do ser seja
estabelecida no que concerne à sua destinação?
Então resta-nos a opção da crença monoteísta, e certamente a
formulação doutrinal cristã da esperança escatológica é mais consistente
englobando no seu bojo todos os elementos de destinação e realização aqui e no
além. Nesta perspectiva, a análise que
Gustavo Gutiérrez faz da escatologia cristã deva ser a resposta mais
significativa para a questão: Qual o meu destino?
Não basta por isto reconhecer
que a escatologia se dá no futuro e no presente. Isto, com efeito, pode afirmar-se ficando no
nível de realidades "espirituais", futuras e atuais. Dir-se-á então, com uma expressão que nos
pode levar a engano, que a escatologia desvaloriza a vida presente; mas se por
"vida presente" se entende só "vida espiritual presente",
não estamos diante da correta compreensão da escatologia. Sua atualidade é uma realidade
intra-histórica. O conflito graça-pecado,
a vinda do reino, à espera da parusia são também, necessária e inevitavelmente,
realidades históricas, temporais, terrenas, sociais, materiais.
(...)
As promessas escatológicas
vão-se cumprindo ao longo da história, mas isto não quer dizer que se identifiquem
pura e simplesmente com realidades sociais determinadas; sua obra libertadora
vai além do previsto e desemboca em novas e insuspeitadas possibilidades. O encontro pleno com o Senhor porá fim à
história, e este já se dá na história.
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