terça-feira, 31 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – história das palavras

 


O Português incorporou ao seu vocabulário a palavra sodomia que, em geral, aponta para uma conotação sexual, porém sem uma definição muito precisa.

Para entender bem o seu significado, é interessante acompanhar como essa palavra foi formada e como ela chegou até os dias de hoje.

 

A origem é diretamente associada à cidade de Sodoma e o episódio de sua destruição pelo Altíssimo por conta de seu pecado (já analisei as palavras com que a Bíblia se refere a esse pecado – link).

 

Agora é importante partir daí e olhar para como essa palavra e esse conceito caminhou na história e como ela nos chegou.  Isso vai ajudar a entender o seu significado.

Vamos lá:

 

→ O livro deuterocanônico de Sabedoria de Salomão (Sb 19.13-14), escrito grego do século I a.C., faz uma referência aos pecados de Sodoma, e seu castigo, como sendo a falta de hospitalidade (mas aqui a palavra sodomia não aprece no original – fala-se em pecadores: ἀμαρτωλοῖς).

 

→ Durante o século VI, o Império Romano do Oriente estava sofrendo uma serie de catástrofes naturais.  Então o imperador cristão bizantino Justiniano (482-565) estabeleceu uma lei punindo quem pecava contra a natureza, e contra quem jurasse e blasfemasse contra Deus de outras maneiras, tomando como exemplo a história das cidades de Sodoma e Gomorra.  Aqui ele incluiu uma conotação sexual aos pecados praticados pelos bizantinos.

 

→ São Pedro Damião (1007-1072), no “Livro de Gomorra” (em latim: Liber Gomorrhianus), denunciou os vícios do clero, incluindo os de natureza sexual.  Ele chamou de pecados de Sodoma (em latim: peccatum Sodomiticum) toda e qualquer atividade sexual que não tenha por objetivo a procriação, inclusive entre casais casados.  Importante lembrar que a Teologia Cristã medieval tratava o sexo como um “mal necessário”.

 

→ Por outro lado, o Mishneh Torah, um texto do Judaísmo Ortodoxo medieval (1170) afirma que "visto que a esposa de um homem é permitida para ele, ele pode agir com ela de qualquer maneira que desejar.  Ele pode ter relações com ela sempre que quiser e beijar qualquer órgão do corpo dela, e pode ter relações com ela de forma natural ou não natural [tradicionalmente, 'não natural' refere-se ao sexo anal e oral], desde que não desperdice sêmen sem propósito”.  (Aqui não há referência alguma ao termo sodomia).

 

→ São Tomás de Aquino (1225-1274), comentando Gn 1.28 que ordena a crescer e multiplicar, entende que o sexo sem esse objetivo é “não natural”, pois resultado das inclinações humanas e culturais sob a influência do pecado.

 

→ O primeiro registro do termo sodomia (em inglês arcaico: sodomie) aparece na Chronicle of Robert of Gloucester, datada de aproximadamente 1325.  Ele se refere à prática de sexo que chamou de “não natural”, ou seja, sem a intenção de gerar filhos, especialmente o sexo anal, independente de quem os pratique.

 

→ A perseguição pela Inquisição europeia aos cátaros e bogomilos no século XII insistiu na associação entre o termo sodomia e heresia, luxuria e bruxaria e satanismo.

 

→ Em 1533 o rei Henrique VIII promulgou o “Ato de Sodomia” (em inglês: Buggery Act) que previa pena de enforcamento para práticas sexuais como anal, oral, masturbação e bestialidade.

 

→ Em Portugal a primeira referência à sodomia se encontra nas Ordenações Afonsinas do século XIII, sendo julgadas pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição a partir de 1536.

 

→ Nos círculos acadêmicos e jurídicos brasileiros atuais, o uso do termo sodomia é desaconselhado por ser considerado impreciso e anacrônico.

 

 

terça-feira, 24 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – Palavras bíblicas

 


O episódio da destruição da cidade de Sodoma, narrado no Gênesis, é bastante figurativo na literatura e história cristã.  Criou-se até um termo para se referir ao tema: sodomia, como sinônimo de um pecado específico.

 

Mas, antes de chegar ao termo em si, vamos falar da cidade e de como a Bíblia se refere ao seu pecado.

 

→ A cidade de Sodoma estaria localizada no Vale de Sidim, ao longo da costa do Mar Morto e constituía um conjunto de cinco cidades-estados: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar.

→ Quanto a etimologia, embora não seja conclusiva, mas os principais comentadores associam o termo hebraico para a cidade de Sodoma (em hebraico: סדום) ao conceito de terra queimada, isto é, vulcânica.

→ A primeira citação do nome de Sodoma está em Gn 10.19 na relação dos descendentes de Cão / Canaã.

→ Flávio Josefo, na “História da Guerra Judaica”, descreve: a região de Sodoma como um “território outrora próspero por suas colheitas e pela riqueza de suas diversas cidades”.

 

Quanto ao que o texto bíblico e o que ele fala do pecado em si:

 

→ Em Gn 13.13 é dito que os homens de Sodoma eram malvados e pecavam em excesso contra o Altíssimo.  A palavra aqui em hebraico é רעra’ – que traz a ideia de intentar planos malignos.

→ Em Gn 18.20, o texto hebraico se refere ao pecado de Sodoma como חטאהhata’h (os gregos da LXX traduziram essa palavra como ἁμαρτία – harmartia), com o sentido de errar deliberadamente o alvo, o objetivo.

→ Ezequiel (Ez 16.49-50) usa a expressão עֲוֹן – avon – iniquidade, perversão da Lei divina (sobre a profecia de Ezequiel e a interpretação que ele faz do episódio, merece uma reflexão à parte).

→ No Novo Testamento Sodoma é citada dez vezes, tanto dos Evangelhos quanto nas Cartas e em Apocalipse, em geral indicando o castigo que a cidade sofreu pelos seus pecados, sem citá-los especificamente.

 

Merece análise à parte o verso de Judas (Jd 7) que trata de modo especifico dos pecados de Sodoma.

 

→ Aqui os pecados de Sodoma são referidos como ἐκπορνεύω – ekporneuo (essa palavra só aparece nesse lugar no NT Grego).  A Vulgata Latina traduziu fornicatae.  Lutero usou Unzucht (fornicação).  Almeida acompanhou com fornicação.  E a NVI preferiu imoralidade sexual.

→ O texto também indica que o pecado consistia em, literalmente, ir após outra carne (em grego: ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας – opiso sarkos heteras).  Lutero disse nach einem andern Fleisch (cobiçaram outra carne) e a NVI usa relações sexuais antinaturais.

 

Em Apocalipse a cidade de Sodoma é citada, junto com o Egito, em Ap 11.8 como uma indicação de cidade onde espiritualmente o nosso Senhor foi crucificado.

Refletindo sobre a citação de Sodoma no Apocalipse como cidade encarnação do mal, eu fiz o seguinte comentário no meu livro TU ÉS DIGNO:

 

E para não deixar de passear nas páginas bíblicas – serão elas que certamente nos ajudarão na compreensão e aplicação do texto – veja como outros textos se referem às cidades e sua relação com o Senhor.  A primeira vez que a Bíblia se refere a uma cidade é no contexto da punição e rebeldia de Caim.  O Gênesis nos conta que depois de se afastar da presença de Deus, Caim teve um filho e fundou uma cidade, dando o nome do filho à cidade (confira Gn 4:16-17).  E logo após o dilúvio a ideia de cidade continuou evocando rebelião contra Deus: vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance o céu (Gn 11:3) – e o resultado foi Babel e a confusão que se seguiu – chamo a atenção que nesta passagem a palavra hebraica usada para descrever a cidade rebelde é a mesma para a cidade imperial: Babilônia (pode comparar o hebraico de Gn 11:9 com Jr 50:28).

Há ainda outras cidades que, ao longo do texto bíblico, foram tomadas como exemplos da concentração de toda maldade e afronta contra o Senhor e seu povo.  No próprio Apocalipse, Sodoma e Egito já haviam sido citadas (volte a Ap 11:8).  E no Antigo Testamento duas sérias candidatas ao papel de encarnação-concentração total da maldade – a prostituta-símbolo – são: Nínive, na profecia de Naum (Na 3:4) e principalmente Tiro que tanto Ezequiel a condena pela presunção à divindade (Ez 28:2) como Isaías a repreende apontando seu ofício de prostituta (Is 23:16-17).

  


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quarta-feira, 18 de março de 2026

PEDRO, VOCÊ CONSEGUE ME AMAR?


 

Reflexão baseada no encontro de Jesus com Pedro, após a morte e ressurreição, 
Quando da restauração do Apóstolo:
Pedro, você consegue me amar? (Jo 20.15-17).

 

Você pode ler sobre a restauração de Pedro no Escrevinhando:

1.     VOU PESCARlink

2.     PEIXE NA PRAIAlink

3.     A RESTAURAÇÃOlink

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

SANTIDADE E EXCLUSIVIDADE DE DEUS

 


O pensador judeu Martin Buber, explicando o conceito da palavra hebraica para santo, como aplicada a Deus no AT, assim diz: “Deus está separado do mundo e o transcende, mas Deus não está afastado dele.  Israel, ao imitar a Deus por ser uma nação santa, também não deve se afastar do mundo, mas sim irradiar uma influência positiva sobre ele através de todos os aspectos da vida judaica”.

Afirmar que Deus é santo equivale a reconhecer que ele é distinto e único – ao que o salmista canta: “Não há nenhum deus como tu, Senhor; não há nenhum que possa fazer o que tu fazes. Só tu és Deus” (Sl 86:8-10).

Mais que uma qualidade moral qualquer, ou um atributo relativo que pode ser quantificado, a santidade de Deus é o que há em sua essência e que o faz ser exclusivamente Deus.  Em tal sentido, ser santo, em suma, é ser como Deus é – nada mais nem nada menos que isso.

Vários atributos divinos são compartilhados com homens e mulheres, mesmo que em caráter relativo.  O Deus que é bom e justo criou os seres humanos compartilhando essas características.  Mas a sua santidade é distinção exclusiva do Criador que ele nos chama a compartilhar.

(A partir da Revista DIDASKAIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

 

Assim começa o poema O DIA DA CRIAÇÃO de Vinicius de Moraes, publicado no livro "Poemas, Sonetos e Baladas" em 1946.

 

Lembro-me de ter lido pela primeira vez esses versos quando estudava Literatura Poética na Universidade, ainda no Recife, e guardei de memória os últimos versos da segunda estrofe (recordando inclusive seu padrão de verso/refrão, como o Sl 136):

 

Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

 

Um sábado desses, espairecendo as ideias, fui buscar na Internet o poema completo. Encontrei, li, reli e compartilhei com meu filho.  E mais uma vez me vi envolto na poesia das palavras.  Recomendo a leitura.

 

Mas não vou me deter na análise crítica literária (isso é chato e mata a arte.  E por falar nisso, indico uma postagem sobre a arte no link).

Também não quero fazer uma abordagem humanística das ideias do texto (embora reconheça que, no campo da Antropologia Teologia, suas ideias renderiam várias páginas acadêmicas).

 

E um parêntese: enquanto hoje discutimos a escala de trabalho 5x2, Vinicius já reconhecia, na década de 1940, que "Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa".  Somente essa citação já vale o argumento.  Fechando o parêntese.

 

É bom também frisar que o poema começa citando o texto sagrado: "Macho e fêmea os criou. Bíblia: Gênese, 1, 27). E eu, ousadamente, acrescentaria outra das palavras de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2,7).

 

Assim, para finalizar, devolvendo a palavra ao poetinha, sem muita argumentação, mas me vendo humanamente descrito:

 

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

VIRTUDES DIVINAS

 


 

Em linhas gerais a resposta é bem simples e direta:  sobre Jesus Cristo, sendo 100% humano e 100% divino, não há como falar em maior ou menor virtude.  No homem de Nazaré está encarnado toda a divindade, então ELE personifica o absoluto de toda e qualquer virtude.  ELE é a referência das virtudes.

 

Mas como esse é um tema fundamental de nossa fé – a divindade e a humanidade do filho de Maria – vou destrinchar um pouco.

 

Começando pelo Credo Cristão declarado no Século IV.  No texto aprovado pela Igreja é dito explicitamente:

 

Cremos em um só Senhor: Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; que, por nós e por nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e se fez homem.

Veja os destaques nas línguas originais:

→ Em Português – consubstancial com o Pai
→ Em Grego – ομοούσιον τώ Πατρί
→ Em Latim – consubstantialem Patri

→ Em Português – desceu dos céus, e se encarnou
→ Em Grego – κατελθόντα εκ τών ουρανών καί σαρκωθέντα
→ Em Latim – descendit de cælis et incarnatus est

Ou seja, o legado que os Pais da Igreja nos deixou foi a crença e a convicção absoluta de que Jesus Cristo (e somente ELE) possuiu de igual modo as duas naturezas: humana e divina.  E isso é fundamental para nossa Teologia.

 

Aproveitando.  Deixe-me citar versículos bíblicos sobre o tema:

 

& João 1.1 –
No princípio [só] havia a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.

& João 1.14 –
E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós, e a glória dele nos chamou a atenção – glória como de um unigênito do Pai, completo de graça e verdade.

& Colossenses 2.9 –
Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade...

& Hebreus 1.3 –
[0 Filho] é a expressão exata da substância de Deus.

& 1 João 4.2 –
... todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.