terça-feira, 24 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – Palavras bíblicas

 


O episódio da destruição da cidade de Sodoma, narrado no Gênesis, é bastante figurativo na literatura e história cristã.  Criou-se até um termo para se referir ao tema: sodomia, como sinônimo de um pecado específico.

 

Mas, antes de chegar ao termo em si, vamos falar da cidade e de como a Bíblia se refere ao seu pecado.

 

→ A cidade de Sodoma estaria localizada no Vale de Sidim, ao longo da costa do Mar Morto e constituía um conjunto de cinco cidades-estados: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar.

→ Quanto a etimologia, embora não seja conclusiva, mas os principais comentadores associam o termo hebraico para a cidade de Sodoma (em hebraico: סדום) ao conceito de terra queimada, isto é, vulcânica.

→ A primeira citação do nome de Sodoma está em Gn 10.19 na relação dos descendentes de Cão / Canaã.

→ Flávio Josefo, na “História da Guerra Judaica”, descreve: a região de Sodoma como um “território outrora próspero por suas colheitas e pela riqueza de suas diversas cidades”.

 

Quanto ao que o texto bíblico e o que ele fala do pecado em si:

 

→ Em Gn 13.13 é dito que os homens do Sodoma eram malvados e pecavam em excesso contra o Altíssimo.  A palavra aqui em hebraico é רעra’ – que traz a ideia de intentar planos malignos.

→ Em Gn 18.20, o texto hebraico se refere ao pecado de Sodoma como חטאהhata’h (os gregos da LXX traduziram essa palavra como ἁμαρτία – harmartia), com o sentido de errar deliberadamente o alvo, o objetivo.

→ Ezequiel (Ez 16.49-50) usa a expressão עֲוֹן – avon – iniquidade, perversão da Lei divina (sobre a profecia de Ezequiel e a interpretação que ele faz do episódio, merece uma reflexão à parte).

→ No Novo Testamento Sodoma é citada dez vezes, tanto dos Evangelhos quanto nas Cartas e em Apocalipse, em geral indicando o castigo que a cidade sofreu pelos seus pecados, sem citá-los especificamente.

 

Merece análise à parte o verso de Judas (Jd 7) que trata de modo especifico dos pecados de Sodoma.

 

→ Aqui os pecados de Sodoma são referidos como ἐκπορνεύω – ekporneuo (essa palavra só aparece nesse lugar no NT Grego).  A Vulgata Latina traduziu fornicatae.  Lutero usou Unzucht (fornicação).  Almeida acompanhou com fornicação.  E a NVI preferiu imoralidade sexual.

→ O texto também indica que o pecado consistia em, literalmente, ir após outra carne (em grego: ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας – opiso sarkos heteras).  Lutero disse nach einem andern Fleisch (cobiçaram outra carne) e a NVI usa relações sexuais antinaturais.

 

Em Apocalipse a cidade de Sodoma é citada, junto com o Egito, em Ap 11.8 como uma indicação de cidade onde espiritualmente o nosso Senhor foi crucificado.

Refletindo sobre a citação de Sodoma no Apocalipse como cidade encarnação do mal, eu fiz o seguinte comentário no meu livro TU ÉS DIGNO:

 

E para não deixar de passear nas páginas bíblicas – serão elas que certamente nos ajudarão na compreensão e aplicação do texto – veja como outros textos se referem às cidades e sua relação com o Senhor.  A primeira vez que a Bíblia se refere a uma cidade é no contexto da punição e rebeldia de Caim.  O Gênesis nos conta que depois de se afastar da presença de Deus, Caim teve um filho e fundou uma cidade, dando o nome do filho à cidade (confira Gn 4:16-17).  E logo após o dilúvio a ideia de cidade continuou evocando rebelião contra Deus: vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance o céu (Gn 11:3) – e o resultado foi Babel e a confusão que se seguiu – chamo a atenção que nesta passagem a palavra hebraica usada para descrever a cidade rebelde é a mesma para a cidade imperial: Babilônia (pode comparar o hebraico de Gn 11:9 com Jr 50:28).

Há ainda outras cidades que, ao longo do texto bíblico, foram tomadas como exemplos da concentração de toda maldade e afronta contra o Senhor e seu povo.  No próprio Apocalipse, Sodoma e Egito já haviam sido citadas (volte a Ap 11:8).  E no Antigo Testamento duas sérias candidatas ao papel de encarnação-concentração total da maldade – a prostituta-símbolo – são: Nínive, na profecia de Naum (Na 3:4) e principalmente Tiro que tanto Ezequiel a condena pela presunção à divindade (Ez 28:2) como Isaías a repreende apontando seu ofício de prostituta (Is 23:16-17).

  


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quarta-feira, 18 de março de 2026

PEDRO, VOCÊ CONSEGUE ME AMAR?


 

Reflexão baseada no encontro de Jesus com Pedro, após a morte e ressurreição, 
Quando da restauração do Apóstolo:
Pedro, você consegue me amar? (Jo 20.15-17).

 

Você pode ler sobre a restauração de Pedro no Escrevinhando:

1.     VOU PESCARlink

2.     PEIXE NA PRAIAlink

3.     A RESTAURAÇÃOlink

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

SANTIDADE E EXCLUSIVIDADE DE DEUS

 


O pensador judeu Martin Buber, explicando o conceito da palavra hebraica para santo, como aplicada a Deus no AT, assim diz: “Deus está separado do mundo e o transcende, mas Deus não está afastado dele.  Israel, ao imitar a Deus por ser uma nação santa, também não deve se afastar do mundo, mas sim irradiar uma influência positiva sobre ele através de todos os aspectos da vida judaica”.

Afirmar que Deus é santo equivale a reconhecer que ele é distinto e único – ao que o salmista canta: “Não há nenhum deus como tu, Senhor; não há nenhum que possa fazer o que tu fazes. Só tu és Deus” (Sl 86:8-10).

Mais que uma qualidade moral qualquer, ou um atributo relativo que pode ser quantificado, a santidade de Deus é o que há em sua essência e que o faz ser exclusivamente Deus.  Em tal sentido, ser santo, em suma, é ser como Deus é – nada mais nem nada menos que isso.

Vários atributos divinos são compartilhados com homens e mulheres, mesmo que em caráter relativo.  O Deus que é bom e justo criou os seres humanos compartilhando essas características.  Mas a sua santidade é distinção exclusiva do Criador que ele nos chama a compartilhar.

(A partir da Revista DIDASKAIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

 

Assim começa o poema O DIA DA CRIAÇÃO de Vinicius de Moraes, publicado no livro "Poemas, Sonetos e Baladas" em 1946.

 

Lembro-me de ter lido pela primeira vez esses versos quando estudava Literatura Poética na Universidade, ainda no Recife, e guardei de memória os últimos versos da segunda estrofe (recordando inclusive seu padrão de verso/refrão, como o Sl 136):

 

Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

 

Um sábado desses, espairecendo as ideias, fui buscar na Internet o poema completo. Encontrei, li, reli e compartilhei com meu filho.  E mais uma vez me vi envolto na poesia das palavras.  Recomendo a leitura.

 

Mas não vou me deter na análise crítica literária (isso é chato e mata a arte.  E por falar nisso, indico uma postagem sobre a arte no link).

Também não quero fazer uma abordagem humanística das ideias do texto (embora reconheça que, no campo da Antropologia Teologia, suas ideias renderiam várias páginas acadêmicas).

 

E um parêntese: enquanto hoje discutimos a escala de trabalho 5x2, Vinicius já reconhecia, na década de 1940, que "Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa".  Somente essa citação já vale o argumento.  Fechando o parêntese.

 

É bom também frisar que o poema começa citando o texto sagrado: "Macho e fêmea os criou. Bíblia: Gênese, 1, 27). E eu, ousadamente, acrescentaria outra das palavras de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2,7).

 

Assim, para finalizar, devolvendo a palavra ao poetinha, sem muita argumentação, mas me vendo humanamente descrito:

 

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

VIRTUDES DIVINAS

 


 

Em linhas gerais a resposta é bem simples e direta:  sobre Jesus Cristo, sendo 100% humano e 100% divino, não há como falar em maior ou menor virtude.  No homem de Nazaré está encarnado toda a divindade, então ELE personifica o absoluto de toda e qualquer virtude.  ELE é a referência das virtudes.

 

Mas como esse é um tema fundamental de nossa fé – a divindade e a humanidade do filho de Maria – vou destrinchar um pouco.

 

Começando pelo Credo Cristão declarado no Século IV.  No texto aprovado pela Igreja é dito explicitamente:

 

Cremos em um só Senhor: Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; que, por nós e por nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e se fez homem.

Veja os destaques nas línguas originais:

→ Em Português – consubstancial com o Pai
→ Em Grego – ομοούσιον τώ Πατρί
→ Em Latim – consubstantialem Patri

→ Em Português – desceu dos céus, e se encarnou
→ Em Grego – κατελθόντα εκ τών ουρανών καί σαρκωθέντα
→ Em Latim – descendit de cælis et incarnatus est

Ou seja, o legado que os Pais da Igreja nos deixou foi a crença e a convicção absoluta de que Jesus Cristo (e somente ELE) possuiu de igual modo as duas naturezas: humana e divina.  E isso é fundamental para nossa Teologia.

 

Aproveitando.  Deixe-me citar versículos bíblicos sobre o tema:

 

& João 1.1 –
No princípio [só] havia a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus.

& João 1.14 –
E a Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós, e a glória dele nos chamou a atenção – glória como de um unigênito do Pai, completo de graça e verdade.

& Colossenses 2.9 –
Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade...

& Hebreus 1.3 –
[0 Filho] é a expressão exata da substância de Deus.

& 1 João 4.2 –
... todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

DEUS E O TEMPO

 


Quando estudamos sobre a doutrina da eleição e predestinação é importante antes estabelecer outra doutrina teológica indispensável para a compreensão do tema: a eternidade de Deus.  O Salmo afirma uma verdade que ecoa desde antes que a própria terra tivesse sido criada: “de eternidade a eternidade tu és Deus” (Sl 90:2).

Essa é uma verdade fundamental na relação dos atributos que reconhecemos no nosso Deus: ele não se subordina ao tempo, mas, existindo fora e acima dele, tudo conhece e tudo domina.

Para tentar explicar essa verdade que, em certa medida, escapa a capacidade de compreensão da mente humana, Agostinho de Hipona começou estabelecendo uma definição para o próprio conceito de eternidade.  Diz ele: "Na eternidade nada passa, tudo é presente, ao passo que o tempo nunca é todo presente."

Então, comparando como Deus e os humanos encaram a realidade do tempo e da eternidade, o teólogo africano considera: "Em Deus não há, como em nós, a previsão do futuro, a visão do presente e a recordação do passado.  É totalmente diferente a sua maneira de conhecer, ultrapassando, muito acima e de muito longe, os nossos hábitos mentais."

Por tal afirmação, compreendemos que, por ser eterno em sua essência divina, Deus nunca está preso à sucessão dos tempos e das eras e que, sendo assim, o passado, o presente e o futuro como nós vivenciamos, são superados por uma existência em que toda e cada circunstância é vista e experimentada por Deus como um eterno agora.

Indo um pouco além nessa compreensão, tendo já afirmado que para Deus não há sucessão de tempo – logo sem antes ou depois – sendo que ele divinamente conhece o agora, como conhece o passado e conhece o futuro (e não há distinções nesses conhecimentos dele), vamos entender que torna-se impossível afirmar que “antes” que algo ocorresse, Deus o previu ou pré-determinou. 

Se nele não há “antes” nem “depois”, mas existe num eterno agora, então devemos reconhecer como verdadeiras as palavras de Eusébio de Cesareia quando afirmou que “o conhecimento prévio dos eventos não é a causa de que tenham ocorrido.  As coisas não ocorrem [somente] porque Deus sabe.  Quando as coisas estão para ocorrer, Deus o sabe”.

 

Texto extraído da Revista DIDASKAIA (2023) – IBODANTAS. 
A imagem é uma reprodução da obra “La persistència de la memòria” (1931) do pintor espanhol Salvador Dali, atualmente exposto no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque