terça-feira, 3 de agosto de 2021

O DIA DO SÁBADO

  

Considerando sua questão, vamos a uma análise comparativa de traduções:

 

Versões antigas –

 

Texto original (hebraico) –
זכור  את־יום השבת  לקדשו   
Os dias da semana em hebraico antigo eram conhecidos apenas por números, assim o termo שבת (sabbat) equivale tanto ao numeral ordinal sétimo quanto ao dia da semana.

Versão grega (LXX) –
Μνήσθητι τὴν ἡμέραν τῶν σαββάτων ...
No grego antigo o termo para o sétimo dia era Κρονου (kronou) mas os tradutores da versão grega antiga preferiram o termo técnico τῶν σαββάτων (dos sábados), de onde vem a expressão no grego moderno é Σάββατο (sabbato).

Latina (Vulgata) –
Memento ut diem sabbati ...
Jeronimo, ao fazer sua tradução, optou pelo termo técnico sabbati no lugar do nome latino do dia da semana
dies Saturnī (dia de Saturno).

 

Vamos às línguas modernas –

 

Alemão (Versão de Lutero de 1545) –
Gedenke des Sabbatages ...
O reformador alemão seguiu a LXX e a Vulgata e usou Sabbatages ao invés de Samstag (nome do dia em alemão).

Inglês (versões KJV, NIV, New American Standard) –
Remember the Sabbath day …
As três versões em língua inglesa fazem o uso técnico do termo – Sabbath day – para traduzir o texto (o dia é nomeado Saturday).

Italiano (Versão Riveduta) –
Ricordari del giorno del riposo ...
Os italianos optaram pela descrição do conceito – giorno del riposo (dia de repouso) – no lugar da tradução sabato.

Francês (Biblie de Jérusalem) –
Tu te souviendras du jour sabbat ...
A versão francesa da Bíblia de Jerusalém (uma das melhores em línguas modernas) também segue as versões antigas e usa sabbat (em francês o dia é nomeado samedi).

 

Em português, todas as principais traduções, seguem a versão original de Almeida de 1681 e traduzem o texto como: Lembra-te do dia de sábado ...

 

Esse apanhado comparativo de traduções nos dão uma pista bastante segura de que todos eles compreendiam o mandamento da guarda do sétimo dia como um tempo exclusivo reservado ao Senhor em santificação e celebração da dádiva divina, e não como um ponto específico no calendário.

Nós cristãos, desde o início, estabelecemos o primeiro dia semana como o tempo reservado em santificação ao nosso Senhor em memória e celebração à ressurreição de Cristo (o nosso recomeço a partir da graça).

Essa compreensão já está no NT (veja por exemplo Jo 2:1 / At 20:7 / 1Co 16:6 / Ap 1:10).  Também escritores contemporâneos – cristãos e pagãos – registraram essa prática cristã.

Entendo que os cristãos celebrem junto em igreja – Corpo de Cristo – no seu dia de domingo (dia do Senhor – do latim: Dominica die) por que assim afirmam a vitória final e definitiva de Cristo e que com isso ele fez, faz e continuará fazendo a eternidade irromper sobre o tempo (acho que essa expressão é uma boa compreensão do jogo de palavras de Ap 1:8).

 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

DAVI E A SUCESSÃO – parte 2

 


Leia a primeira parte dessa reflexãolink

 

Deus havia prometido a Davi que não faltaria sucessor ao seu trono (1Rs 2:4) e Salomão era o escolhido para continuar esta linhagem por ter sido concebido como fruto do amor (2Sm 12:24-25).

Davi tinha plena consciência destes fatos e por isso não demonstrou preocupação, medo ou frustração quando um outro tentou usurpar o trono. Ou seja, quando se tem certeza de que Deus está no controle da situação, não deve haver motivos para desesperos ou falta de fé. O próprio Davi declarou:

 

Comprometa com o Eterno a sua jornada, confie nele e ele vai fazer acontecer.
(Sl 37:5)

 

Davi, como um homem já velho e que já tinha experimentado várias vezes daquilo que o Eterno é capaz de fazer, sabia que em nenhuma circunstância ele deixaria de cumprir as suas promessas.

Um homem que viveu segundo o coração de Deus, aprendeu a esperar pela resposta certa do Senhor.

Porém Davi não ficou apenas deitado esperando que as coisas acontecessem.  Imediatamente convocou sua equipe mais próxima, deu ordens expressas e cobrou resultados.

Com sua atitude Davi nos deixou a lição de que esperar em Deus tira de nós todo o medo e a angústia em relação ao futuro, mas não deve ser um motivo para preguiça ou comodismo.

Esperar em Deus, pelo contrário, deve produzir em cada um o senso de responsabilidade e a disposição certa para trabalhar cada vez mais para que a vontade de Deus aconteça em nossa vida.

E mais uma lição ainda pode ser destacada: o conselho dado por Davi ao seu filho, é mais que a fala de um rei, representa as palavras de um velho e sábio pai que se importa com o futuro de seu filho.  Esse mesmo conselho foi repetido diversas vezes pelo seu filho Salomão no livro de Provérbios (confira Pv 2:1; 3:1; 3:11; 3:21; 4:20; 5:1 entre outros).

Para os pais fica a lição da necessidade de instruir e encaminhar seus filhos nos santos caminhos (veja Pv 22:6).

E para os filhos, a lição da obediência e respeito pelas palavras paternas (Ef 6:1).

terça-feira, 27 de julho de 2021

DAVI E A SUCESSÃO – parte 1

 


 

Com a velhice de Davi, Adonias, seu quarto filho, articulou uma manobra política para assumir o trono em lugar de seu pai, sem que o rei soubesse (leia o desenrolar dessa traição em 1Rs 1:1-27).

Quando Davi soube disso, ele chamou Bate-Seba, mãe de Salomão, o sacerdote Zadoque, o profeta Natã e Benaia, um dos seus generais e reafirmou sua intenção:

 

O meu filho Salomão me sucederá como rei e se assentará no meu trono em meu lugar.
(1Rs 1:30)

 

Assim, com instruções diretas (1Rs 1:32-35), estes assessores reais desautorizaram qualquer pretensão de Adonias e ungiram a Salomão como o futuro rei de Israel, conduzindo-o ao trono de Jerusalém.

Quando Adonias e seus seguidores souberam da unção dada a Salomão se acovardaram e se dispersaram (1Rs 1:49), mas o próprio Adonias foi se agarrar nas pontas do altar.

Como impostor ao trono, ele parecia reconhecer que aquele lugar não lhe era devido e que só lhe restaria apelar para que a clemência do Senhor poupasse a sua vida – o que num primeiro momento até que aconteceu, porém a sua própria presunção o traiu e o levou à morte (1Rs 2:23).

Com Salomão estabelecido no trono, Davi o chamou para uma última conversa, assumindo mais que o papel de rei preparando seu sucessor, mas sim o de um pai instruindo seu filho como se portar diante da vida:

 

Estou para seguir o caminho de toda a terra, por isso seja forte e seja homem.  Mantenha-se no que o Eterno, o seu Deus, exige: ande nos seus caminhos e obedeça aos seus decretos (...) e o Eterno manterá a promessa que me fez.
(1Rs 2:2-4)

 

E com estas instruções finais, o texto bíblico conclui a narração da vida de Davi afirmando que ele descansou com os seus antepassados e foi sepultado na Cidade de Davi (1Rs 2:10).

O que viria daí em diante extrapolaria em muito a vida deste servo de Deus, fazendo-o ponto de referência tanto para reis como para toda a nação escolhida por Deus e apontando para Cristo, o ungido Filho unigênito de Deus para todos as nações.

 

Leia a continuação dessa reflexãolink

sexta-feira, 23 de julho de 2021

NÃO CHAMES IMPURO

  


Foi para fazer a igreja entender que o Código de Santidade do AT deveria ser um distintivo dos adoradores de Deus e não um empecilho para qualquer pessoa se achegar à graça do evangelho, independentemente de sua origem ou condição social, que o Espírito agiu na história narrada no capítulo 10 de Atos dos Apóstolos.

 

Acompanhe a história em dois planos.

 

Em Cesareia, Cornélio, um oficial romano, foi visitado por um anjo que destacou seu coração piedoso e temente a Deus.  Embora ele não fosse herdeiro legal das tradições do AT, e por isso mesmo não seguisse as normas rituais determinadas, mas a sinceridade de sua alma em buscar ao Senhor foi percebida pelo Espírito Santo, que providenciou um modo de alcançá-lo pelo poder do evangelho.

Não seriam os rituais exteriores que impediriam um coração sincero de chegar-se a Deus.

Enquanto isso, o próprio Espírito cuidou de atrair Pedro para a missão evangélica na casa de Cornélio. 

Mas o apóstolo ainda estava dominado pela visão preconceituosa e limitada das interpretações da Lei, da vontade e da manifestação do amor de Deus.

Por volta do meio dia, enquanto esperava uma refeição, a visão espiritual tomou Pedro lhe ordenando comer alguns animais proscritos.

A princípio a situação incomodou o apóstolo: "de modo nenhum, Senhor! Jamais comi algo impuro ou imundo!" (At 10:14).

Ainda faltava a Pedro aprender que mais importante não eram formas e rituais.  O Senhor se ocupa prioritariamente com o interior do ser humano e seria exatamente lá onde deveria ser manifesta a santidade, e não em um conjunto de práticas.

A boa nova da graça tinha rompido com todas as barreiras culturais e religiosas e deveria a igreja levá-la a todos os que, com um coração sincero e temente a Deus, quisessem se comprometer com ele, mesmo que fora dos arraiais originais da fé.

Pedro foi sensível à lição espiritual da visão, e quando apareceu a oportunidade de expandir do evangelho na casa do gentio Cornélio ele de pronto se apresentou para o trabalho: "Eu sou quem vocês estão procurando" (At 10:21).

O que veio a seguir foi a abertura de uma igreja totalmente diferente em sua composição daquela que surgiu em Jerusalém.

Através da pregação de Pedro na casa de Cornélio, formou-se uma congregação cristã de gentios batizados em nome de Jesus Cristo e que receberam o mesmo Espírito divino da promessa (confira em At 10:44-48).

E são ainda do apóstolo Pedro as palavras que testificaram o novo modo de seguir adiante da igreja, tendo entendido que quem purifica e transforma é o próprio Deus, e faz isso de dentro para fora e não por rituais exteriores:

 

De verdade eu aceito que
Deus não tem preconceito com ninguém,
mas todos os que são fieis e retos
ele os acolhe.

(At 10:34-35)