sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

DEUS TEM ANTIPATIA



Há seis coisas que o Senhor odeia, sete coisas que ele detesta:
olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
coração que traça planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal,
a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos
.
 (Pv 6:16-19 – NVI)

Nesses versos do capítulo seis do livro de Provérbios, o autor bíblico aponta uma relação de atitudes perniciosas as quais Deus odeia e abomina, e acrescenta, fazendo uso da forma poética hebraica, dando ênfase a uma reação mais intensa: ele verdadeiramente detesta – ou seja: sua alma ojeriza.  Assim, são sete coisas que ofendem a Deus em seu íntimo.
Mas, antes de observar a relação de Provérbios, venha comigo para as duas palavras que expressam a reação de Deus.
A primeira é detestar, aborrecer ou odiar.  Aqui o verbo no original (hebraico: שנא) traz a ideia simples de desprezar ou ser incapaz de tolerar.  Aquela sensação que em nosso fraseado atual eu diria: eu tenho antipatia!
Pesquisando este termo no AT, eu vou à profecia de Amós e noto o jogo que o profeta faz com este verbo para indicar o que vai no coração de Deus.
Porque vocês odeiam aquele que defende a justiça no tribunal; eu odeio e desprezo as suas celebrações de adoração (confira Am 5:10 e 21).  As palavras de Deus, ditas pelo profeta, parecem ecoar algo como: Eu tomei antipatia de seus louvores e adoração porque eles não refletem a vida justa que eu exijo.
A segunda palavra é abominação.  Este substantivo hebraico (תועה) descreve uma coisa abominável, detestável, ofensiva.  É mais que uma sensação de desagrado, antipatia ou birra; é uma sensação que se move de dentro para fora provocada por asco e que gera uma repulsa violenta.  Mais uma vez citando o nosso palavreado atual eu diria: eu tenho asco e nojo!
Olhando o AT, observo que com essa mesma palavra o texto descreve a reação do Senhor diante de quem é desonesto em seus pesos e medidas e de quem se volta a ídolos. 
Maldito seja aquele que fizer imagens para adorá-las pois o Senhor abomina a idolatria.  Ele detesta todos aqueles que fazem essas coisas desonestas (em Dt 25:13-16 e 27:15).  O texto da Lei é forte, ele implica em que assim como Deus tem asco de quem se volta para a idolatria, ele também tem nojo da desonestidade.  E sobre isso tudo recairá a justiça de Deus.

Então, vamos voltar à relação de Provérbios.  Há seis coisas pelas quais Deus tem antipatia, sete coisas que ele tem asco e nojo:
1. Olhos altivos.  Literalmente quem olha de cima para baixo.  Ou seja, arrogância, orgulho.  Deus odeia a presunção mas concede graça aos humildes (leia em Pv 3:34 e também em 1Pe 5:5-6).
2. Língua mentirosa.  O sentido aqui é de falsidade.  Deus tem antipatia daqueles que não se apegam à verdade, mas a distorcem.  É preciso lembrar que o próprio Jesus descreveu o diabo como o pai da mentira (em Jo 8:44).
3. Mãos que derramam sangue inocente.  A vida estava no sangue – essa é a compreensão bíblica (confira Lv 17:11) – e a vida pertence somente a Deus (a frase é de Ez 18:4).  Logo, fazê-la escoar de maneira inocente ofende o Criador.
4. O coração que traça pensamentos perversos.  Jesus peitou os fariseus os acusando de se preocuparem com um exterior limpo mas mantendo um coração impuro – ele os chamou de hipócritas e de cemitério pintado (em Mt 15:18-20).  Esse coração peçonhento provocou nojo em Jesus.
5. Pés que se apressam para fazer o mal.  A profecia de Isaias amplia essa atitude de urgência perniciosa em praticar o mal advertindo que quem transforma todo o direito em caminhos tortuosos, jamais verá a paz (Is 59:8).  E isso incomoda Deus no seu íntimo.
6. A testemunha falsa que espalha mentiras.  De certo modo, aqui repete o que foi dito sobre a língua mentirosa.  É bom acrescentar que entre os mandamentos do Decálogo está: "Não fofocarás" (o nono mandamento em Ex 20:16 e Dt 5:20).
7. Aquele que provoca discórdia entre irmãos.  Entendo que esse é o mais incisivo.  Se por um lado, é bom que os irmãos vivam unidos (cito o Sl 133) e Jesus orou para que houvesse unidade entre seus seguidores (leia em Jo 17:21); por outro, Paulo cita as discórdias e facções como obras da carne e ainda adverte que quem assim procede não pode esperar pelo Reino de Deus (confira Gl 5:20-21).  Qualquer palavra, atitude, intenção ou sequer postagem em rede social que provoque intriga, discórdia ou desavença entre irmãos gera em Deus uma reação de antipatia, asco e nojo.

MISERICÓRDIA!!!  Que o Senhor nos livre de tais atitudes.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

CARTAS DO TINHOSO – Maldanado propõe um brinde


Em 1959 – quase duas décadas depois de ter publicado as Cartas de um Diabo a seu Aprendiz – o próprio C.S. Lewis retomou o tema acrescentando um novo cenário às Cartas onde o diabo escritor, agora sendo saudado numa Academia de Treinamento de Tentadores, propõe um brinde (e ainda hoje a maioria das edições, inclusive a que li agora, publica em conjunto).
No discurso em que o Maldanado (no original é Screwtape) responde à saudação que lhe é feita e propõe um brinde em retribuição às honrarias, ele faz um breve inventário de suas ações tentadoras no "setor inglês" e se esforça em encorajar os jovens tentadores recém-formados na Academia a seguir carreira.
O ponto inicial está focado na mediocridade do cardápio servido, devido às péssimas qualidades das almas humanas, pois "os grandes (e deliciosos) pecadores são feitos do mesmo material que aqueles fenômenos horríveis, os grandes Santos.  O desaparecimento virtual desse tipo de ingrediente pode significar refeições insípidas para nós".
Mas isso é só o mote para que o brinde se dirija ao que ele realmente quer apontar.  E eu entendo que três citações indicam bem o sentido do discurso.
Um. "Gostaria de fixar a sua atenção no movimento vasto, completo rumo ao descrédito, e, finalmente, à eliminação de todo o tipo de excelência humana – moral, cultural, social ou intelectual".
Aqui o tinhoso aborda o que ele chama de democracia.  Uma democracia doentia lastreada por uma educação pautada pela máxima de que "eu sou tão bom quanto você"; em que todos os indivíduos são finalmente nivelados por baixo, pela mediocridade, pelo que há mais vil e indolente na sociedade.  E uma sociedade com um modelo de democracia assim nunca produzirá nem incentivará o surgimento de seres humanos valorosos e excelentes. Onde todos são "zé-ninguém".
Dois.  "O valor supremo, para nós, de qualquer revolução, guerra ou fome está na angústia individual, na traição, no ódio, na raiva e no desespero que elas são capazes de produzir".
Embora o diabo possa trabalhar para que sociedades e nações se arruínem, o objetivo final será sempre a conquista da alma humana, seu alimento infernal.
E três.  Assim ele conclui seu discurso (penso que a citação vale por si mesma): "tendo dito isso, meus amigos, será péssimo para nós se o que a maioria dos humanos entenderem por religião se esvanecer da Terra, pois ela pode nos enviar pecados realmente deliciosos.  A fina flor do profano só pode crescer na vizinhança íntima do sagrado.  Em nenhum lugar a nossa tentação é tão bem-sucedida quanto precisamente aos pés do altar".

sábado, 11 de janeiro de 2020

SOBRE O PERDÃO, A FÉ E A HUMILDADE


Enquanto atendias as pessoas, Jesus ia ensinando a seus discípulos as lições necessárias.  Além de atender aos pequeninos e necessitados, Jesus continuou dando instruções aos que o seguiam bem de perto.
Estes ensinamentos indispensáveis formam um encadeamento de verdades espirituais que devem fazer parte da conduta, caráter e vivência de todo discípulo de Cristo.
Jesus começou falando sobre o perdão (acompanhe a partir de Lc 17:3).  O irmão arrependido deve sempre ser acolhido com o perdão, mesmo que isso ocorra incontáveis vezes.
Uma atitude assim era difícil, então os discípulos pediram para lhes aumentar a fé.  Ao que Jesus respondeu que não era uma questão de quantidade ou tamanho de fé, mas que ela deveria ser pura e sincera.
E esta lição levou a uma outra: a humildade.  O discípulo deve se reconhecer como verdadeiro servo de Deus e, em se colocando nesta posição, saber que a humildade é demonstrada quando a preocupação primeira são os interesses do Senhor e do seu reino.
Duas parábolas contadas por Jesus nos ajudam a compreender melhor estas lições: a humildade que a fé produz e o perdão que, sendo recebido de Deus, pode ser oferecido ao irmão.
A primeira dela é a parábola do juiz (leia em Lc 18:1-8).  Nela uma viúva insiste em suplicar que seu caso seja julgado, sendo por fim atendida.  Ali Jesus estava  ensinando que a fé é exercitada quando em humilde persistência se coloca as petições e anseios diante de Deus.
A segunda a seguir é sobre um fariseu e um publicano (em 18:9-14).  Nesta história Jesus ensinou que a atitude de presunção e arrogância não levou o fariseu a alcançar resposta a suas orações enquanto que o humilde publicano voltou para casa recompensado.
As mesmas lições ainda devem aplicadas em nossa vida, enquanto desenvolvemos nossa caminha e vida cristã.
(Extraído da Revista: "Lucas" – Editora Sabre)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

CARTAS DO TINHOSO – nós e eles


Guardei esta resenha para a Carta VIII das Cartas de um Diabo a seu Aprendiz de C.S. Lewis.  Já apresentamos uma primeira olhada (aqui está o link), lemos sobre o amor e o prazer (esse é o link) e sobre o tempo e a eternidade (e esse é o link).  E eu estou atribuindo o subtítulo de nós e eles.
Mas por que a Carta VIII mereceu um destaque especial.  Respondo de maneira direta: para mim, durante a leitura de todo o texto de Lewis, ela foi a melhor, a mais certeira e profunda.  Dá quase vontade de reproduzi-la por completo aqui.  Mas não vou fazer isso, apenas insistir na recomendação de que C.S. Lewis é leitura obrigatória!
É na Carta VIII onde o diabo instrutor reconhece que o ser humano é, por constituição do seu Criador, um ser essencialmente ambíguo, habita no tempo, mas nunca perde vista a eternidade e devido a isso "eles experimentam a constância apenas em meio à ondulação".  E nessa "série de altos e baixos" é que ficará evidenciado de maneira explícita quem é o "Pai nas Profundezas" e quais são seus objetivos em relação à alma humana de um lado; e quem é o Inimigo do tinhoso e quais os objetivos e seus métodos de trabalho de outro.
Claramente esta diferenciação é feita a partir da percepção de que os momentos de alternância e ondulação na vida humana "são meramente um fenômeno natural" e não resultado de ação ou tentação diabólica.  E, por conseguinte, "as orações feitas no estado de aridez são aquelas que o agradam mais".  As preces do deserto tendem a ser as mais profundas e as que mais tocam a Deus – isto é constatação!
Em linhas gerais, o diabo mesmo descreve suas intenções nos seguintes termos: "para nós, os humanos não passam de comida.  Nosso objetivo é a absorção da vontade deles na nossa, o aumento da nossa própria reserva de egoísmo à custa deles".  E mais: "o que nós queremos é apenas gado que possa acabar nos servindo de comida”.
E mais uma citação, agora da carta anterior, expande a intenção diabólica: "queremos que a Igreja permaneça pequena não apenas para que menos pessoas possam conhecer o Inimigo, mas também para que aqueles que o conhecem possam adquirir a intensidade inquietante e o falso moralismo defensivo de uma sociedade secreta ou de uma panelinha." (E algumas vezes tenho desconfiado que o diabo vem logrando êxito em comunidades pontuais!)
Aqui então a distinção entre o diabo e seu Inimigo se mostra.  Se por um lado o tinhoso anseia por refeição, por outro Deus "deseja servos que possam acabar se tornando filhos".  Ou, como escreve mais o Screwtape de maneira explícita, "nós desejamos sugar, ele deseja retribuir.  Nós somos vazios e queremos ser preenchidos; ele é pleno e, por isso, transborda".
Segue-se que forçosamente a essência, os métodos, os propósitos e objetivos divinos em seu relacionamento com os humanos são declarados pelo diabo ao seu aprendiz: "Ele quer realmente encher o universo com um monte de pequenas réplicas repugnantes de si mesmo".  Só que para isso ele nunca usa a técnica da "tentá-los" para virtude, pois isso seria um disparate, e o objetivo divino não seria alcançado. 
No projeto divino não há espaço para que vontade humana seja atropelada.  Ora, tal realidade espiritual é inconcebível pelo diabo, pois ele não compreende que a idéia do Criador é "fazer duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo; as criaturas devem ser um com ele, sem deixarem de ser elas mesmas; simplesmente anulá-las, ou assimilá-las não servirá aos seus propósitos".
Mais.  Ele planejou: "criaturas cujas vidas, numa escala em miniatura, serão qualitativamente como a sua, não porque ele as tenha absorvido, mas porque elas desejam se conformar de livre e espontânea vontade a ele".
E a frase que me saltou os olhos durante a leitura, pois foi capaz de mostrar rica, verdadeira e profundamente simples para descrever a relação entre a soberania absoluta de Deus e a vontade humana é: "... não valeria nada para ele, porque não pode violentá-los, pode apenas encantá-los".
(Bem, eu jamais usaria o verbo poder como uma negativa dita em relação a uma ação de Deus, mas como frase da pena do diabo...)
Vou dizer nas minhas palavras: para nos atrair, Deus não nos violenta a vontade, ele nos encanta – e repito: quanta verdade e beleza há aqui!
Deus nos encanta, fascina, atrai, convida ao amor.  Ele mesmo declara pelo profeta: "Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí" (Jr 31:3).  E Davi, em sua poesia, descreve a fascinação pincelada por Deus que o encantou: "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!" (Sl 8:1).
Mas ainda tem as ondulações humanas, a aridez da caminhada, os altos e baixos.  E mesmo nesses momentos em que o encanto e a fascinação parecem se diluir "Ele está preparado para intervir um pouquinho, no início.  Irá instigá-los com pequenos sinais de sua presença que, embora minguados, parecem grandes para eles, repletas de doçura emocional".
Pois até nos desertos da vida humana, e eu diria principalmente ali, a derrota do tinhoso é final.  O tentador reconhece: "e se o que restar for apenas a vontade de andar, ele ficará satisfeito até mesmo com seus tropeços. (...) Não haverá um perigo maior para a nossa causa do que quando um ser humano, que não mais deseja, mas ainda assim pretende fazer a vontade de nosso Inimigo, olhar em redor, para um universo do qual todo traço dele parece ter desaparecido, e perguntar-se por que foi abandonado e ainda obedece".
Sei que as linhas se alongaram.  Não tive como evitar.  Comecei reconhecendo que a Carta VIII foi a melhor, a mais certeira e profunda.  O que só comprovou que ler C.S. Lewis é nutritivo para a alma cristã.
Vai ficar faltando algo sobre o brinde proposto por Maldanado.  Mas isso fica para outra postagem.

Continuo depois...

domingo, 5 de janeiro de 2020

PARÁBOLAS DAS COISAS – e outros escritos


Saiu a primeira compilação de textos do nosso Escrevinhando em forma de livro: "PARÁBOLA DAS COISAS – e outros escritos".  Tenho certeza que vai enriquecer sua leitura.

Ele está disponível no site do Clube de Autores (link).



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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O NASCIMENTO HUMILDE


Razões completamente alheias à vontade de José o levaram a Belém (leia em Lc 2:1-5).  Ele morava em Nazaré, mas para cumprir um decreto romano teve de ir com Maria, sua mulher, à cidade de Davi.  E em meio a esta movimentação cumpriram-se os dias de Maria dar à luz (dito no v. 6).
Toda aquela situação era desconfortável e o que Lucas no chama a atenção é a condição humilde já presente desde o nascimento de Jesus.  Narrando o seu nascimento em situação de completo desapego e falta de ostentação para um filho de rei, Lucas está nos dizendo que ele esvaziou-se a si mesmo para se tornar humano com cada um de nós (a frase é de Paulo e está em Fl 2:7).
Não havia uma acomodação adequada na estalagem e o casal teve que agasalhar sua criança recém-nascida numa manjedoura (veja 2:7).  E assim, uma história que começa quase de maneira despretensiosa, irá se moldar para ser a história da redenção do ser humano.
E sobre o nascimento humilde de Jesus conforme narrado por Lucas, completam a cena alguns pastores que cumpriam seu turno de guardar rebanhos nos campos e foram surpreendidos pela notícia maravilhosa (leia 2:8 em diante).
Eles não tinham muito a oferecer, mas tiveram o privilégio de testemunharem aquele evento formidável.  Primeiro ainda lá campo, quando ouviram o coral de anjos glorificando a Deus nas maiores alturas (v. 14) e depois por terem decidido ir até onde estava o menino para poderem ver o que Deus os tinha feito saber (v. 15).
Então, por fim, eles mesmos voltaram glorificando a Deus pelas coisas que tinham visto e ouvido (v. 20).
(Extraído da Revista: "Lucas" – Editora Sabre)