terça-feira, 4 de agosto de 2020

FAUNA BÍBLICA - ANTIGO TESTAMENTO

O mundo bíblico aconteceu em um ambiente completamente distinto daquele que hoje vivemos. Muito dessas diferenças podem ser percebidas nos contatos que eles tinham com os animais que os cercavam.

Para ter uma ideia daquele mundo, veja aí três quadros dos animais citados nas páginas do AT - reconheço que a lista não está completa, mas trago aqui alguns que aponto como referência.

 

ANIMAIS BRUTOS –

 

 

ANIMAIS DOMESTICADOS –

 

 

AVES –

 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

EU NÃO PRECISO DOS SEUS BOIS

 

Um belo Salmo de Asafe descreve o Senhor Deus soberano presidindo a sua assembleia solene:

 

"O Senhor, o Deus Poderoso, convocou a humanidade.  
Ele convoca os céus e a terra
"
 (Sl 50).

 

Atributos grandiosos e singulares de Deus estão cantados de maneira exuberante em todo o Salmo; na segunda parte (versos 7 a 15), porém, quando o salmista dá voz poética ao próprio Deus, é que podemos perceber quem é o Senhor e como somos distintos dele.

Descrever Deus é sempre logicamente complicado, bem como nossa relação com ele.  Deus é amor (1Jo 4:8) e fogo consumidor (Hb 12:29).  E diante do Senhor não se pode achegar de mãos vazias (Ex 34:20), mas somos convidados a dele receber sem dinheiro e sem preço (Is 55:1-3).

Mas essa ambiguidade é apenas aparente, e Asafe aponta com maestria inspirada quem é o Soberano que rege a solene reunião e como o cultuamos.

Antes de prosseguir, deixe-me lembrar de que no ambiente do salmista a essência do culto consistia no sacrifício de animais em oferta ao Senhor.  E os outros elementos, como a música e os recitativos, apenas ornavam o momento do holocausto.

Vamos então atender à convocação para comparecer diante da assembleia e ouvir a demanda divina, conforme salmodiado.

Tudo começa com a apresentação das credenciais daquele que está demandando a adoração: "Eu sou Deus.  O seu Deus!" (verso 7).  Deus é o que é (leia Ex 3:14 e Is 44:6).

Ele requer adoração pelo que ele é em sua absoluta e íntima essência.  Não há necessidade de outros motivos alheios ao seu próprio ser e existência para que me prostre em oferta e culto.

Segue-se a reprimenda.  Aqueles cultuantes entenderam tudo errado.  Todo o ritual do culto e do holocausto não era uma finalidade em si mesmo.  A adoração não consistia em prover Deus ou alimentá-lo com seus víveres.

O Senhor nem só não tem carências para que precise ser suprido como também ele mesmo é o possuidor de tudo que existe (versos 9-13).  Ele é o criador e dono de tudo e estabeleceu um povo para seu louvor exclusivo (vá ao Sl 24:1 e a Is 43:21).

Quando nos achegamos ao nosso Deus em adoração não o fazemos por que ele seja um coitadinho e precise nas minhas ofertas.  Meus esforços ou minhas ofertas nada acrescentam a um Deus que já é completo em si mesmo.

E nesse ponto parece escorrer uma pitada de ironia bem humorada - alegria e bom humor também são características divinas essenciais.

— Eu conheço cada passarinho silvestre!

— Todos os bichos da fazenda e do campo estão no meu inventário!

— Fala sério, se eu tivesse fome, você acha que eu lhe diria?

— Realmente, eu não preciso dos seus bois!

Então, por que e como devo ofertar o holocausto?  Em que deve consistir minha adoração? Qual a razão da minha liturgia e do meu culto? 

E a resposta está cantada ao longo do Salmo:

 

"Tragam a Deus oferendas de gratidão.
Aclamem a sua glória. Pois é isso que o honra.
E sua salvação será revelada a vocês
"
(Sl 50)

 

terça-feira, 28 de julho de 2020

ASAFE, O LEVITA

 

Pelo menos uma dúzia de salmos é atribuída a Asafe e a sua família.  Mas, quem foi esse personagem?

Para conhecê-lo melhor, vamos voltar um pouco na história (leia toda a narração a partir de 1Cr 16).

Depois de conquistar Jerusalém e a estabelecer como sua capital, Davi entendeu que deveria edificar um santuário para o Senhor e um lugar onde repousaria a Arca da Aliança.  Aconteceu que, por intervenção divina, não coube a ele a concretização do seu desejo.

Porém, mesmo não tendo autorização para construção do edifício, o rei Davi cuidou para que tudo estivesse providenciado e devidamente ordenado.

Davi não apenas juntou ouro, prata, ferro, pedra e madeira suficientes, como também contratou mão de obra especializada para os trabalhos de edificação do Templo.

Além disso, o mais importante no projeto deixado pelo rei Davi foi a própria ordenação do culto no Templo a ser construído.  A instrução real incluía a escala e distribuição de tarefas para sacerdotes e levitas.  Cada clã e família teria responsabilidades e incumbências específicas para com o serviço do culto.

Só lembrando: o rei Salomão (filho e sucessor de Davi) construiu o prédio sagrado e deu início ao culto no Templo em Jerusalém seguindo as especificações estabelecidas (veja a oração dedicação do templo e a resposta de Deus em 2Cr 7).

É nesse ponto que começamos a identificar quem foi Asafe, o levita.

Em 1Cr 25:1 o cronista registrou que Davi, juntamente com seu staff, ordenou que, dos descendentes de Levi, as famílias de Asafe, Hemã e Jedutum fossem escaladas para "profetizar com o acompanhamento de liras, harpas e címbalos".

Desses músicos, o texto destaca que Hemã e Jedutum eram do naipe das cordas (em instrumentos atuais seria o equivalente ao violão, guitarra e assemelhados - cuidavam de melodias e harmonias). Asafe, por sua vez, se destacou tocando címbalo (hoje seria o percussionista ou baterista da banda - confira 1Cr 16:5).  E todos cantavam.

Outra observação: às outras famílias de levitas cabiam outras tarefas na estrutura do santuário que não tinham relação necessariamente direta à música.

Asafe (seu nome em hebraico - אסף - significa ajuntador ou colecionador) foi o líder que mais se destacou entre os músicos e atuou como homem de confiança do rei.

Mais uma observação: Davi era músico e tinha a alma de artista, logo liderar equipes musicais durante a celebração ao Senhor era tarefa que se revestia da maior envergadura e responsabilidade.

Três temas mais destacados nos salmos de Asafe:

(1) O culto ao Senhor - é Deus que o preside e estabelece critérios para a adoração (veja, por exemplo, Sl 78 e 82).  Ele não precisa de nossa adoração (Sl 50), mas os adoradores são chamados a aclamá-lo com alegria (Sl 81).

(2) Súplica para quem Deus o ouça - o silêncio divino é angustiante e o que o salmista mais deseja é que o Senhor o responda (Sl 77, 80 e 83).

(3) Justiça, recompensa e prosperidade - embora ele possa até demonstrar certa inveja dos ímpios que prosperam, mas sabe que no fim a recompensa justa vem do Senhor para aqueles que lhe são fiéis (Sl 73, 75, 76, 82 e 83).

E lá mais adiante, quando da rededicação do Templo levada a cabo pelo rei Ezequias, o próprio texto sagrado equipara Asafe ao próprio Davi e o reconhece como compositor e profeta.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?

 

Depois de ter ouvido o chamado para levar a mensagem ao povo de Nínive, "porque a sua maldade subiu até a minha presença" (Jn 1:2), o profeta decidiu tomar um rumo diferente: embarcou para Társis decido que estava de fugir da presença do Senhor.

Veja que Deus poderia impedir o profeta de tomar a direção errada, mas ele sempre permite que os seus servos tomem as próprias decisões e assumam as responsabilidades por elas.  

Assim foi com Jonas: o Senhor permitiu que ele embarcasse no navio errado e assumisse as consequências desta decisão.  Mas por outro lado, o próprio Deus providenciou um meio para que outros não sofressem pelos erros do profeta.

Estando no navio errado, o Jonas procurou dormir no porão, provavelmente para aliviar o peso na consciência.  

Enquanto Jonas dormia, abateu sobre eles uma "tempestade tão violenta que o barco ameaçava arrebentar-se" (Jn 1:4).  Os marinheiros tentaram usar de todos os métodos para salvar a embarcação mas nada deu resultado.  Então eles entenderam que deveria haver uma causa para tamanha tormenta.

Foi nesta hora que, lançando sorte, chegaram ao nome de Jonas e o encontraram em seu esconderijo.  Assustados então eles lhe questionam:

 

Diga-nos, quem é o responsável por esta calamidade? Qual é a sua profissão? De onde você vem? Qual a sua terra? A que povo você pertence? (Jn 1:8)

 

O profeta então se apresentou:

 

Eu sou hebreu, adorador do Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra.
(Jn 1:9)

 

A fala do profeta deixou os marinheiros apavorados: "O que foi que você fez?" (Jn 1:10).  É como se eles estivessem ao mesmo tempo perplexos e indignados com a atitude do companheiro de viagem causador daquela desgraça: se você conhecia o Senhor e sabia do que ele é capaz, por que você foi fazer uma tolice dessas e nos colocar neste risco?

O questionamento seguinte foi consequência: "O que devemos fazer com você, para que o mar se acalme?" (Jn 1:11).  O texto bíblico narra que os marinheiros, suplicando pela clemência divina, jogaram Jonas no mar e, com isso, simplesmente o mar "se aquietou" (Jn 1:15).

O primeiro capítulo do livro da profecia de Jonas conclui então observando que aqueles homens do navio ofereceram um sacrifício e se comprometeram através de votos.

A Jonas restou apenas ser engolido por um grande peixe providenciado pelo próprio Senhor.

 

terça-feira, 21 de julho de 2020

PAÍSES NA BÍBLIA

As narrativas bíblicas sempre se reportam a um ponto no tempo e no espaço.  História e geografia fazem parte do texto.  A seguir listei alguns países em seus nomes atuais e que foram citados nas Escrituras.  O mapa eu copiei no Google Maps apontando sua indicação.

 

Arábia (hebraico: ערב / grego: Ἀραβία) - no AT há diversas citações aos reinos existentes na península árabe (exemplo: 2Cr 9:14).  No NT, Paulo diz que após sua conversão foi ao deserto da Arábia (em Gl 1:17).

Chipre (grego: Κύπρος / latim: Cyprius) - a terra de nascença de Barnabé (At 4:36).  A ilha de Chipre foi o primeiro destino de Paulo em sua primeira viagem missionária (At 13:4).

Egito (hebraico: מצרים / grego Αἴγυπτος / latim: Ægyptus) - um dos lugares mais citados em toda a Bíblia: os impérios e reinos ao longo do vale fértil de Rio Nilo, na África.  Desde a descida do patriarca Abraão por causa da seca (em Gn 12:10) até a referência simbólica no Livro da Revelação (Ap 11:8).

Espanha (grego: Σπανία / latim: Hispaniam) - a única citação está na Carta de Paulo aos Romanos (Rm 15:24-28) onde o apóstolo demonstra interesse em expandir até lá o evangelho.  Pelo momento histórico a referência deve ser à península hispânica (hoje Espanha e Portugal).

Etiópia (hebraico כוש / grego Αἰθιοπία / latim: Æthiopiam) - país com bastante citações em passagens do AT (como em Ez 30:4), embora algumas vezes a referência seja traduzida apenas como a "terra de Cuxe" (como em Gn 2:13).  No NT há a citação do eunuco etíope (grego: Αἰθίοψ - At 8:27) que foi alcançado por Filipe. Talvez aqui a indicação geográfica implique em áreas que atualmente abrangem o sul do Egito, o Sudão e a atual Etiópia.

Grécia (hebraico: יון / grego: Ἑλλάς / latim: Græcia) - no AT, os profetas Daniel e Zacarias citam a nação grega (Dn 11:2 / Zc 9:13).  No NT, as citações aos gregos e suas terras são diversas (por exemplo At 20:2).  Em ambos os testamentos a referência mais precisa talvez seja apenas a um Estado existente na península helênica e não a nação grega como a conhecemos.

Índia (hebraico: הדו) - na apresentação do livro de Ester é dito que os domínios do rei Assuero (Xerxes) se estendiam até a Índia (Et 1:1).

Irã (grego: Ιράν) - o país que hoje denominamos como Irã (o nome só veio a aparecer no século III d.C.) era citado como a Pérsia (hebraico: פרס / grego: Περσίς), em referência ao Império estabelecido pelos reis Dario, Xerxes e Ciro (veja por exemplo Ed 6:14 e 2Cr 36:23).

Iraque (hebraico: עיראק) - com esse nome, o lugar só passou a ser denominado a partir do século VI d.C.  A região da Mesopotâmia (entre os rios Tigre e Eufrates - hebraico: ארם נהרים / grego: Μεσοποταμία) é certamente o lugar mais citado na Bíblia (depois de Canaã e Israel).  No Iraque ficava a Torre da Babel (Gn 11:9).  Do Iraque saiu Abraão (Ur dos Caldeus - Gn 15:7).  O Iraque extirpou o reino de Israel (Assíria - 2Rs 17:23).  Para o Iraque foram levados cativos judeus (Babilônia - 2Cr 36:6).  No Iraque vários profetas desenvolveram seus ministérios (nas marques do rio Quebar - Ez 1:1).  Habitantes do Iraque estavam presentes no Pentecoste (At 2:9).  Em Apocalipse, o Iraque é citado simbolicamente (Ap 18:2).

Israel (hebraico: ישראל / grego: Ἰσραήλ) - o lugar onde se concentram as principais ações descritas na Bíblia.  A terra que Deus prometeu aos patriarcas (terra prometida - hebraico: הארץ המובטחת - Gn 12:7).  A terra conquistada (Canaã - hebraico: כנען - Nm 34).  O Reino unificado de Davi (2Sm 5:5).  No NT, Israel torna-se a representação do povo escolhido de Deus (Ef 2:12).

Itália (grego: Ἰταλία) - diversas citações do país em si.  Tanto o próprio país, ou a área da península itálica (como em At 27:6), como de sua capital: Roma (grego: Ῥώμη - Rm 1:7).

Jordânia (hebraico ירדן) - a Jordânia só ganhou independência e passou a usar essa nomenclatura no século XX d.C.  Nos tempos bíblicos as áreas a leste do rio Jordão eram ocupadas pelas tribos amonita, moabitas e edonitas (1Rs 11:1).

Líbano (hebraico: לבנון) - a região a norte de Israel rica em florestas de cedro e outras madeiras nobres é citada cerca de setenta vezes no AT (de Dt 1:7 a Zc 11:1).

Líbia (hebraico: פוט / grego: Λιβύη / latim: Libyæ) - as terras a oeste do Egito são referidas várias vezes no AT como Líbia (como em Na 3:9).  No episódio de pentecoste, a relação citada inclui cidadãos oriundos da Líbia (At 2:10).

Palestina (hebraico: פלשתינה / grego: Παλαιστίνη / latim: Palæstina) - o nome da região foi dado pelo Império Romano a partir do hebraico (Filístia - פלשת).  A região dos filisteus (povos indo-europeus conhecidos como povos do mar) e suas principais cidades são citadas várias vezes no AT (como Gaza - hebraico: עזה - Jz 16:1 e Asdode - hebraico: אשדוד - 1Sm 5:1).

Síria (hebraico: ארם / grego: Συρία) - ou a terra dos arameus.  É um pais situado em planícies férteis ao norte de Israel.  Ali floresceu um império que batalhou diversas vezes contra Israel (Reino do Norte - 2Rs 8:28).  Para Damasco, capital da Síria, Paulo se dirigia quando se converteu (At 9:2).

Turquia (grego: Τουρκία) - a nação turca que hoje ocupa a península da Anatólia na Ásia e se estende até a Europa não é citada explicitamente com esse nome na Bíblia.  O nome só foi adotado no século XIV d.C.  Na época, a região era denominada de Ásia Menor (grego: Μικρὰ Ἀσία ou Ἀνατολή), porém diversas e variadas cidades e regiões dali são citadas no NT (como por exemplo a Galácia, a Panfília, Frígia e Cicília - At 2:10).

 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

A AUTOCOMPREENSÃO DE JESUS

 

Lucas diz que Nazaré foi a cidade escolhida para seu primeiro contato mais formal com o povo – uma espécie de apresentação oficial.  Lá Jesus tinha crescido e com certeza era bastante conhecido de todos.

Num sábado, Jesus repetiu o gesto costumeiro de ir à sinagoga e então levantou-se para ler (confira em Lc 4:16).  Ele abriu o Livro de Isaías (em nossas Bíblias consta do capítulo 61), leu o texto profético e o aplicou para si mesmo cada uma daquelas palavras: hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir (v. 21).

Na compreensão de Jesus, o que fora dito ao profeta deveria ser lido na sua intenção.  Assim deveria ser descrita a sua missão.  A missão que Jesus teria a cumprir era exatamente de evangelizar os pobres, proclamar liberdade e apregoar o ano aceitável do Senhor.

Em resumo.  Já na primeira apresentação, Jesus se define como aquele que veio em busca dos perdidos, dos excluídos da sociedade, dos sem esperança, dos alheios a religião oficial, mas que a todos eles o evangelho deveria ser oferecido.  Esta seria a prioridade de Jesus em sua missão.

Contudo, neste primeiro contato a reação foi contrária – ele não foi bem aceito: não é este o filho de José? (v. 22).  Aqueles homens não foram capazes de reconhecer no homem Jesus a manifestação divina real e presente.

Então que Jesus decidiu levar a mais adiante seu ministério.  Foi a Cafarnaum onde muitos se maravilharam com sua doutrina e teve a oportunidade de realizar seus milagres iniciais (leia Lc 4:31 em diante).

Acontece que Cafarnaum também não deveria o destino final de sua missão e ele apontou que era preciso ir a outras cidades também, pois – como ele disse – para isso é que fui enviado (Lc 4:43).

(Publicado originalmente na Revista "Lucas" - Editora Sabre)