A Bíblia, na
versão que tenho em minhas mãos, diz: “no princípio criou Deus os céus e a
terra – essas são as primeiras palavras do texto sagrado em Gn 1.1. E eu creio, sinceramente, que aqui temos bem
mais uma poética declaração teológica de fé do que um documento
histórico-científico.
Fiz aqui um
pequeno inventário do que autores cristãos falaram sobre o tema:
→ Autores como Justino Mártir, Irineu de Lyon e Tertuliano
já afirmavam que Deus não utilizou uma matéria pré-existente para moldar o
cosmos, mas chamou todas as coisas à existência apenas pela sua vontade e
Palavra.
→ Agostinho Hipona – tanto seu livro A Cidade de Deus
como no Comentário ao Genesis – expõe sua interpretação do início das
eras e dos tempos. Para o autor africano,
em relação ao “dia e a tarde e a manhã, seja adequado não o sentido literal,
mas o figurado e alegórico, de modo diferente do que estamos acostumados a
respeito desta luz quotidiana e corporal que vemos”. Concluindo ele que “todas as coisas foram
criadas ao mesmo tempo”.
→ Tomás de Aquino, teólogo católico medieval em obras como
o De Aeternitate Mundi, debateu se era racionalmente possível que o
mundo não tivesse um começo temporal, uma vez que a criação diz respeito à dependência
ontológica (causa do ser), e não necessariamente a um ponto de partida no
tempo. Outro ponto é que para ele a
ciência estuda as mutações e as leis do mundo físico, enquanto a criação
pertence ao campo da metafísica e da teologia (o fundamento de por que
algo existe em vez de nada).
→ Calvino se referia à criação como um “teatro da glória
de Deus”.
→ No Século XVII, o bispo Irlandês James Ussher, escreveu
o livro The Annals of the World onde descreve uma cronologia do mundo a
partir de sua própria compilação de todas as gerações de homens e mulheres
mencionados na Bíblia até chagar a Adão e Eva e fixou o momento da criação às 2h30
de domingo, 23 de outubro de 4004 a.C. (pelo padrão do Calendário Juliano). Ainda, por essa cronologia, o dilúvio
universal teria ocorrido no ano 2348 a.C.
→ Em 1890, William Henry Green, professor em Princeton, no
livro Cronologia Primitiva, comentando a obra de Ussher, afirmou: “Concluímos
que as Escrituras não fornecem dados para um cálculo cronológico anterior à
vida de Abraão; e que os registros mosaicos não fixam e não pretendem a
intenção de fixar a data precisa do dilúvio ou da criação do mundo”.
→ O teólogo alemão Jürgen Moltmann entendia que, em vez de
um produto estático do passado, a criação seria como um processo dinâmico e
perfectível, e continua a acontecer ao longo da história. Isso permite um diálogo harmonioso entre fé e
as teorias científicas da evolução.
→ O rabino judeu-brasileiro Nilton Bonder, num artigo
publicado no jornal O Globo em 2009, escreveu: “A Bíblia não tem pretensões de
ser um manual eterno da ciência, e sim da consciência. Sua grande revelação não é como funciona o
Universo e a realidade, mas como se dá a interação entre criatura e Criador. Seu tema maior é outro: a revelação de que o
Universo tem uma identidade, um Self”.
E devo concluir
esse (bem) pequeno inventário de citações com a recomendação de Agostinho de
Hipona sobre a prudência na interpretação das Escrituras:
E se lermos
alguns escritos sobre assuntos obscuros e muito ocultos aos nossos olhos, mesmo
divinos, que possam, salvando a fé na qual estamos imbuídos, apresentar várias
opiniões, não nos lancemos com precipitada firmeza a nenhuma delas, para não
cairmos em erro. Talvez uma verdade
discutida com mais cuidado venha destruir aquela opinião. Desse modo, não
estamos lutando em favor da opinião das divinas Escrituras, mas pela nossa de
tal modo que queremos que seja das Escrituras a que é nossa, quando devemos
querer que seja nossa aquela que é opinião das Escrituras.
Algumas sugestões
de leitura aqui no Escrevinhando:
Diante do Cosmo – link
Um Salmo de Davi – Salmo 8 – link
A criação – como tudo começou – link
No princípio – o começo – link
As obras do único Deus verdadeiro – link
Azul infinito – link






