Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para
nos salvar.
Assim
começa o poema O DIA DA CRIAÇÃO de Vinicius de Moraes, publicado no livro
"Poemas, Sonetos e Baladas" em 1946.
Lembro-me
de ter lido pela primeira vez esses versos quando estudava Literatura Poética
na Universidade, ainda no Recife, e guardei de memória os últimos versos da
segunda estrofe (recordando inclusive seu padrão de verso/refrão, como o Sl
136):
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
Um
sábado desses, espairecendo as ideias, fui buscar na Internet o poema completo.
Encontrei, li, reli e compartilhei com meu filho. E mais uma vez me vi envolto na poesia das
palavras. Recomendo a leitura.
Mas
não vou me deter na análise crítica literária (isso é chato e mata a arte. E por falar nisso, indico uma postagem sobre a
arte no link).
Também
não quero fazer uma abordagem humanística das ideias do texto (embora reconheça
que, no campo da Antropologia Teologia, suas ideias renderiam várias páginas
acadêmicas).
E um
parêntese: enquanto hoje discutimos a escala de trabalho 5x2, Vinicius já
reconhecia, na década de 1940, que "Trinta séculos lutou a humanidade pela
semana inglesa". Somente essa
citação já vale o argumento. Fechando o
parêntese.
É bom
também frisar que o poema começa citando o texto sagrado: "Macho e fêmea
os criou. Bíblia: Gênese, 1, 27). E eu, ousadamente, acrescentaria outra das
palavras de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem
por causa do sábado" (Mc 2,7).
Assim,
para finalizar, devolvendo a palavra ao poetinha, sem muita argumentação, mas
me vendo humanamente descrito:
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente
dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações
morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e
até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não
descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.





