terça-feira, 14 de abril de 2026

VÍSCERAS DE COMPAIXÃO

O evangelista Mateus diz:

 

[Jesus], vendo as multidões, tem compaixão delas porque estavam angustiadas e espalhadas como ovelhas que não têm pastor.
(Mt 9.36)

 

Em linhas gerais, Mateus está narrando que o Mestre, enquanto percorria as cidades e vilarejos, notava as pessoas largadas e esquecidas na periferia do mundo e da religião.  E isso mexeu com ELE de uma forma única.

 

Aqui o grego bíblico registra uma palavra rara e com uma pronúncia complicada para nós falantes do português brasileiro: σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai – talvez um falante nativo do grego moderno tenha facilidade com esse conjunto de letras – eu com certeza não!).

Eu entendo que a compreensão dessa palavra evangélica seja fundamental para entender a passagem.

 

Antes.  Para situar.  Os gregos antigos tinham três palavras para descrever o sentimento e atitude de compaixão:

→ ἔλεος (eleos – a forma mais comum).  Literalmente misericórdia.  O termo era comum nas saudações cristãs (confira, por exemplo, Gl 6.16 e 1Tm 1.2).  Esta palavra está na raiz da expressão ἐλεημοσύνη (eleemosyne) – esmola.  Os gregos usam esse termo para traduzir o hebraico חסדhesed – o amor leal de Deus (como no Sl 5.8).

→ οἰκτιρμός (oiktirmos).  O sentido é de clemência e compaixão.  Aos colossenses Paulo instrui a nos revestir de compaixão (leia em Cl 3.12).  Essa é a palavra grega que o AT usa para a queixa do profeta Jonas ao Senhor por ser clemente e compassivo (em hebraico: חנוןhanun – em Jn 4.2).

→ σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai).  Essa é a palavra usada por Mateus.    E quero me aprofundar em seu estudo.

 

No Grego Clássico esse verbo é quase desconhecido.  Mas a sua raiz etimológica é bem conhecida. Siga comigo.

Os antigos usavam o substantivo σπλάγχνα (splanchna) para indicar as partes da vítima que eram oferecidas em sacrifício aos deuses. O termo se referia às partes consideradas mais nobres dos animais: fígado, coração, rins e pulmões. Usava-se também para designar os órgãos sexuais masculinos e o útero ou ventre materno como locais dos poderes da concepção e do nascimento.

Então, daí eles começaram a usar a forma verbal para designar o ato de comer as entranhas dos animais sacrificados como forma obter poderes místicos e dominar as artes adivinhatórias.

Mas, somente no judaísmo helênico tardio que o termo σπλαγχνίζομαι começou a ser usado como uma espécie de sentimento que move as vísceras (e o cristianismo herdou essa compreensão).  

 

É a descrição daquele misto de sentimento que nos mexe por dentro, na intimidade e essência do que somos e não se arrefece até que nos leve a uma ação prática em favor do necessitado.  Mais do que pena ou dó, mais do que piedade ou caridade, é compaixão visceral que, como bom nordestino eu diria: “que me embola as tripas” e me toma por completo de uma gastura existencial pela situação do outro.

 

Foi esse mover das vísceras, das entranhas, do mais profundo do seu ser essencial que tomou Jesus ao ver as multidões carentes da periferia (e Tiago vai dizer que Deus é cheio dessa misericórdia – em Tg 5.11).

E humana e completamente envolvido por essa misericórdia essencial Jesus instrui os seus discípulos de forma apaixonada:

 

A tarefa é tão grande e tem tão pouca gente para fazer!  Peçam ao Senhor da obra que traga mais pessoas para se compadecer desses!
(Mt 9.37-38)

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – leitura bíblica



O livro de Gênesis narra que o Altíssimo se encheu de grande indignação contra as cidades de Sodoma e Gomorra porque o pecado delas era grande e muito grave, mas que decidiu primeiramente investigar para saber a extensão dos pecados, antes de impor seu veredito (cf. Gn 18.20-21).

A narrativa continua apresentando dois visitantes que, depois de terem sido recebidos por Abraão, vão até Sodoma, ficam hospedados com Ló, constatam os pecados sociais do povo e ordenam a Ló e aos seus para saírem da cidade pois o Altíssimo os tinha enviado para destruir aquele lugar (cf. Gn 19.13).

 

O texto bíblico vinha antecipando a percepção dos pecados de Sodoma sempre de maneira genérica (já em Gn 13.1).  Mas agora com a presença dos mensageiros divinos dentro da cidade, tais pecados ficaram evidentes.

 

Para entender melhor o contexto e como o próprio texto apresenta a infâmia dos sodomitas, vamos voltar um pouco.  A visita dos mensageiros ao patriarca Abraão, um pouco antes, nos ajuda nisso.

Na hora mais quente do dia, Abraão recebeu os visitantes, repetiu todos os protocolos de hospitalidade esperados, dando estadia, trazendo água para lavar os pés e servindo boa comida (cf. Gn 18.1-5).

Importante destacar que essa atitude chamou a atenção de Deus à ponto de ELE refazer sua promessa/bênção a Abraão e lhe oferecer intimidade (cf. Gn 18.17-19).

 

Com os habitantes de Sodoma as posturas são completamente diferentes.  Embora Ló também tenha oferecido hospitalidade, os sodomitas quebraram todo o protocolo vital na cultura e convivência, e o pecado sexual aqui é apenas mais um ingrediente no grosso de ofensas cometidas por aquele povo.

 

E a ideia geral de Sodoma como a encarnação do mal ficou impregnada na memória espiritual do povo.  Em Deuteronômio, o exemplo dos pecados contra estrangeiros é lembrado como advertência na releitura da aliança (cf. Dt 29.22-23).

 

Já na Lei levítica dada por Deus a Israel está explícito que todo estrangeiro deve ser bem tratado e amado.  Isso é Lei perpétua que interessa diretamente ao Altíssimo, na mesma medida que o temor ao Senhor (cf. Lv 19.32-34).

Compreendo que o pecado principal de Sodoma pesou aqui!

 

Chegando aos profetas clássicos de Israel, eles retomaram constantemente o tema: Isaias e Jeremias comparam a destruição da Babilônia à de Sodoma (em Is 13.19 e Jr 50.40).  Ainda o profeta Amós compara a injustiça social e a opressão dos pobres em Israel aos pecados de Sodoma e afirma que a nação terá o mesmo fim (cf. Am 4.1 e 11).

 

Será o profeta Ezequiel, contudo, aquele que vai apresentar de forma mais direta os pecados e abominações de Sodoma e suas consequências.

Entre os vários exemplos e ilustrações proféticas para descrever os pecados de Jerusalém, Ezequiel conta a parábola das irmãs (Samaria, a irmã mais velha, Sodoma, a mais nova e Jerusalém que as superou em pecados).  Comparando a cidade com uma mulher que foi acolhida em seu nascimento, foi amada e adornada, mas que enveredou pela prostituição espiritual entregando-se à adoração de vários deuses, o profeta apresentou a indignação do Senhor com os pecados de Judá (cf. Ez 16.17).

 

Preste atenção.  Essa é a iniquidade de Sodoma, sua irmã: orgulho, desperdício de comida e preguiça, enquanto os pobres e necessitados não têm nada. 
Ela era arrogante e cometia abominações diante de mim. 
E, como vocês viram, eu a exterminei.
(Ez 16.49-50)

 

Na comparação profética, Jerusalém é descrita como pior que Sodoma.  E Deus o faz depois de listar os pecados cometidos (cf. Ez 16.51).

 

O que mais se destaca no texto e no contexto, é que Deus está a ponto de destruir Jerusalém e o motivo principal é o duplo pecado nacional:

 

(1) Adultério espiritual.  Ir em adoração atrás de outros deuses ofende profundamente o Deus zeloso da aliança.  A declaração primária da aliança de Deus com o povo é: “ouça Israel o Senhor é o Único”.  Na declaração de fé fundamental não há espaço para outra divindade (cf. Dt 6.4 – e Jesus assentiu em Mc 12.29-30).

 

(2) Falta de acolhimento e atenção com o pobre, oprimido e estrangeiro.  Para o Deus Eterno da aliança, pecar contra o necessitado é tão repugnante quanto desprezar o próprio Deus (cf. Dt 10.19 – também, na sequência, o mandamento citado por Jesus em Mc 12.31).

 

Assim, a leitura bíblica me leva necessariamente à compreensão de que o verdadeiro pecado sodomita está ligado a falta de hospitalidade, compaixão e acolhimento ao peregrino, necessitado e pobre, pois isso sim ofende o Criador (cf. Pv 17.5), muito mais que intercursos sexuais, por mais desviantes que sejam.

 

 

Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA, acesse os links do Escrevinhando:
Palavras Bíblicaslink
História das Palavraslink

Abraão e os Três Anjos (em espanhol: Abraham y los tres Ángeles)
é uma pintura do pintor barroco espanhol Bartolomé Esteban Murillo,
criada na segunda metade do século XVII.
Está na coleção da Galeria Nacional de Arte em Ottawa.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – história das palavras

 


O Português incorporou ao seu vocabulário a palavra sodomia que, em geral, aponta para uma conotação sexual, porém sem uma definição muito precisa.

Para entender bem o seu significado, é interessante acompanhar como essa palavra foi formada e como ela chegou até os dias de hoje.

 

A origem é diretamente associada à cidade de Sodoma e o episódio de sua destruição pelo Altíssimo por conta de seu pecado (já analisei as palavras com que a Bíblia se refere a esse pecado – link).

 

Agora é importante partir daí e olhar para como essa palavra e esse conceito caminhou na história e como ela nos chegou.  Isso vai ajudar a entender o seu significado.

Vamos lá:

 

→ O livro deuterocanônico de Sabedoria de Salomão (Sb 19.13-14), escrito grego do século I a.C., faz uma referência aos pecados de Sodoma, e seu castigo, como sendo a falta de hospitalidade (mas aqui a palavra sodomia não aprece no original – fala-se em pecadores: ἀμαρτωλοῖς).

 

→ Durante o século VI, o Império Romano do Oriente estava sofrendo uma serie de catástrofes naturais.  Então o imperador cristão bizantino Justiniano (482-565) estabeleceu uma lei punindo quem pecava contra a natureza, e contra quem jurasse e blasfemasse contra Deus de outras maneiras, tomando como exemplo a história das cidades de Sodoma e Gomorra.  Aqui ele incluiu uma conotação sexual aos pecados praticados pelos bizantinos.

 

→ São Pedro Damião (1007-1072), no “Livro de Gomorra” (em latim: Liber Gomorrhianus), denunciou os vícios do clero, incluindo os de natureza sexual.  Ele chamou de pecados de Sodoma (em latim: peccatum Sodomiticum) toda e qualquer atividade sexual que não tenha por objetivo a procriação, inclusive entre casais casados.  Importante lembrar que a Teologia Cristã medieval tratava o sexo como um “mal necessário”.

 

→ Por outro lado, o Mishneh Torah, um texto do Judaísmo Ortodoxo medieval (1170) afirma que "visto que a esposa de um homem é permitida para ele, ele pode agir com ela de qualquer maneira que desejar.  Ele pode ter relações com ela sempre que quiser e beijar qualquer órgão do corpo dela, e pode ter relações com ela de forma natural ou não natural [tradicionalmente, 'não natural' refere-se ao sexo anal e oral], desde que não desperdice sêmen sem propósito”.  (Aqui não há referência alguma ao termo sodomia).

 

→ São Tomás de Aquino (1225-1274), comentando Gn 1.28 que ordena a crescer e multiplicar, entende que o sexo sem esse objetivo é “não natural”, pois resultado das inclinações humanas e culturais sob a influência do pecado.

 

→ O primeiro registro do termo sodomia (em inglês arcaico: sodomie) aparece na Chronicle of Robert of Gloucester, datada de aproximadamente 1325.  Ele se refere à prática de sexo que chamou de “não natural”, ou seja, sem a intenção de gerar filhos, especialmente o sexo anal, independente de quem os pratique.

 

→ A perseguição pela Inquisição europeia aos cátaros e bogomilos no século XII insistiu na associação entre o termo sodomia e heresia, luxuria e bruxaria e satanismo.

 

→ Em 1533 o rei Henrique VIII promulgou o “Ato de Sodomia” (em inglês: Buggery Act) que previa pena de enforcamento para práticas sexuais como anal, oral, masturbação e bestialidade.

 

→ Em Portugal a primeira referência à sodomia se encontra nas Ordenações Afonsinas do século XIII, sendo julgadas pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição a partir de 1536.

 

→ Nos círculos acadêmicos e jurídicos brasileiros atuais, o uso do termo sodomia é desaconselhado por ser considerado impreciso e anacrônico.


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Palavras Bíblicaslink
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terça-feira, 24 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – Palavras bíblicas

 


O episódio da destruição da cidade de Sodoma, narrado no Gênesis, é bastante figurativo na literatura e história cristã.  Criou-se até um termo para se referir ao tema: sodomia, como sinônimo de um pecado específico.

 

Mas, antes de chegar ao termo em si, vamos falar da cidade e de como a Bíblia se refere ao seu pecado.

 

→ A cidade de Sodoma estaria localizada no Vale de Sidim, ao longo da costa do Mar Morto e constituía um conjunto de cinco cidades-estados: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar.

→ Quanto a etimologia, embora não seja conclusiva, mas os principais comentadores associam o termo hebraico para a cidade de Sodoma (em hebraico: סדום) ao conceito de terra queimada, isto é, vulcânica.

→ A primeira citação do nome de Sodoma está em Gn 10.19 na relação dos descendentes de Cão / Canaã.

→ Flávio Josefo, na “História da Guerra Judaica”, descreve: a região de Sodoma como um “território outrora próspero por suas colheitas e pela riqueza de suas diversas cidades”.

 

Quanto ao que o texto bíblico e o que ele fala do pecado em si:

 

→ Em Gn 13.13 é dito que os homens de Sodoma eram malvados e pecavam em excesso contra o Altíssimo.  A palavra aqui em hebraico é רעra’ – que traz a ideia de intentar planos malignos.

→ Em Gn 18.20, o texto hebraico se refere ao pecado de Sodoma como חטאהhata’h (os gregos da LXX traduziram essa palavra como ἁμαρτία – harmartia), com o sentido de errar deliberadamente o alvo, o objetivo.

→ Ezequiel (Ez 16.49-50) usa a expressão עֲוֹן – avon – iniquidade, perversão da Lei divina (sobre a profecia de Ezequiel e a interpretação que ele faz do episódio, merece uma reflexão à parte).

→ No Novo Testamento Sodoma é citada dez vezes, tanto dos Evangelhos quanto nas Cartas e em Apocalipse, em geral indicando o castigo que a cidade sofreu pelos seus pecados, sem citá-los especificamente.

 

Merece análise à parte o verso de Judas (Jd 7) que trata de modo especifico dos pecados de Sodoma.

 

→ Aqui os pecados de Sodoma são referidos como ἐκπορνεύω – ekporneuo (essa palavra só aparece nesse lugar no NT Grego).  A Vulgata Latina traduziu fornicatae.  Lutero usou Unzucht (fornicação).  Almeida acompanhou com fornicação.  E a NVI preferiu imoralidade sexual.

→ O texto também indica que o pecado consistia em, literalmente, ir após outra carne (em grego: ὀπίσω σαρκὸς ἑτέρας – opiso sarkos heteras).  Lutero disse nach einem andern Fleisch (cobiçaram outra carne) e a NVI usa relações sexuais antinaturais.

 

Em Apocalipse a cidade de Sodoma é citada, junto com o Egito, em Ap 11.8 como uma indicação de cidade onde espiritualmente o nosso Senhor foi crucificado.

Refletindo sobre a citação de Sodoma no Apocalipse como cidade encarnação do mal, eu fiz o seguinte comentário no meu livro TU ÉS DIGNO:

 

E para não deixar de passear nas páginas bíblicas – serão elas que certamente nos ajudarão na compreensão e aplicação do texto – veja como outros textos se referem às cidades e sua relação com o Senhor.  A primeira vez que a Bíblia se refere a uma cidade é no contexto da punição e rebeldia de Caim.  O Gênesis nos conta que depois de se afastar da presença de Deus, Caim teve um filho e fundou uma cidade, dando o nome do filho à cidade (confira Gn 4:16-17).  E logo após o dilúvio a ideia de cidade continuou evocando rebelião contra Deus: vamos construir uma cidade, com uma torre que alcance o céu (Gn 11:3) – e o resultado foi Babel e a confusão que se seguiu – chamo a atenção que nesta passagem a palavra hebraica usada para descrever a cidade rebelde é a mesma para a cidade imperial: Babilônia (pode comparar o hebraico de Gn 11:9 com Jr 50:28).

Há ainda outras cidades que, ao longo do texto bíblico, foram tomadas como exemplos da concentração de toda maldade e afronta contra o Senhor e seu povo.  No próprio Apocalipse, Sodoma e Egito já haviam sido citadas (volte a Ap 11:8).  E no Antigo Testamento duas sérias candidatas ao papel de encarnação-concentração total da maldade – a prostituta-símbolo – são: Nínive, na profecia de Naum (Na 3:4) e principalmente Tiro que tanto Ezequiel a condena pela presunção à divindade (Ez 28:2) como Isaías a repreende apontando seu ofício de prostituta (Is 23:16-17).


Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA, acesse os links do Escrevinhando:
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0 livro TU ÉS DIGNO – uma leitura deApocalipse está disponível no Amazon.com

 

 

quarta-feira, 18 de março de 2026

PEDRO, VOCÊ CONSEGUE ME AMAR?


 

Reflexão baseada no encontro de Jesus com Pedro, após a morte e ressurreição, 
Quando da restauração do Apóstolo:
Pedro, você consegue me amar? (Jo 20.15-17).

 

Você pode ler sobre a restauração de Pedro no Escrevinhando:

1.     VOU PESCARlink

2.     PEIXE NA PRAIAlink

3.     A RESTAURAÇÃOlink

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

SANTIDADE E EXCLUSIVIDADE DE DEUS

 


O pensador judeu Martin Buber, explicando o conceito da palavra hebraica para santo, como aplicada a Deus no AT, assim diz: “Deus está separado do mundo e o transcende, mas Deus não está afastado dele.  Israel, ao imitar a Deus por ser uma nação santa, também não deve se afastar do mundo, mas sim irradiar uma influência positiva sobre ele através de todos os aspectos da vida judaica”.

Afirmar que Deus é santo equivale a reconhecer que ele é distinto e único – ao que o salmista canta: “Não há nenhum deus como tu, Senhor; não há nenhum que possa fazer o que tu fazes. Só tu és Deus” (Sl 86:8-10).

Mais que uma qualidade moral qualquer, ou um atributo relativo que pode ser quantificado, a santidade de Deus é o que há em sua essência e que o faz ser exclusivamente Deus.  Em tal sentido, ser santo, em suma, é ser como Deus é – nada mais nem nada menos que isso.

Vários atributos divinos são compartilhados com homens e mulheres, mesmo que em caráter relativo.  O Deus que é bom e justo criou os seres humanos compartilhando essas características.  Mas a sua santidade é distinção exclusiva do Criador que ele nos chama a compartilhar.

(A partir da Revista DIDASKAIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)