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terça-feira, 4 de agosto de 2026

MAGNIFICAT – Cântico ao Altíssimo



MAGNIFICAT – Um cântico feminino pelos 90 anos de minha mãe.

Reflexão baseada no Cântico de Maria em Lc 1.46-55.

 

Por que Maria magnificou ao Altíssimo?

* Porque ela conhecia o Todo-Poderoso e sabia da sua atuação graciosa

* Porque Deus gosta de nos colocar no meio da sua manifestação da história

* Porque diante da ação divina, nada me resta a fazer a não ser exaltá-lo.

 

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#adoração
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terça-feira, 25 de novembro de 2025

QUEM ADORA NO APOCALIPSE?



O Salmo 150 diz: “Tudo o que tem vida louve o Senhor” (Sl 150:6).  Também o hino cristológico conclui afirmando que diante do nome de Jesus “se dobre todo o joelho” e que “toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor” (Fl 2:9-10).  Em ambos os casos, contudo, embora sejam verdades bíblicas, não expressam o conceito de adoração conforme pode ser lido no Apocalipse.  Tanto no Salmo como no texto paulino o conceito mais apropriado seria de louvor.  Neles, nos textos citados, bem como em outros da Bíblia, o conceito é de elogio e reconhecimento dos atributos superiores de Deus em relação aos seres criados, mas não de adoração ou prostração submissa e voluntária diante da dignidade divina.

No Apocalipse, o louvor e a glória são apenas parte da adoração prestada a Deus (conforme Ap 7:12), atitude para a qual são convocados todos os servos do Senhor, tanto pequenos como grandes (conforme Ap 19:5).

A adoração completa, relatada em Apocalipse não é, entretanto, apenas pronunciada ou expressa com fórmulas, cânticos ou liturgias, e nem de maneira indistinta.  No Apocalipse, a adoração conclui o conceito de que somente os que podem comparecer diante do trono eterno podem manifestar a verdadeira e final adoração requerida pelo Cordeiro que é digno.

Mas quem são eles?  Na linguagem apocalíptica eles são indicados pelos 24 anciãos e pelos quatro seres viventes (conforme Ap 4:4 e 6; 5:8 e 14 e 19:4).  Quanto a identificação dos anciãos, Onesimus Ngundu no Comentário Bíblico Africano oferece uma sugestão:

Os vinte e quatro anciãos (4:4) provavelmente representam o povo de Deus, simbolizados pelas doze tribos de Israel e pelos doze apóstolos.  Os leitores judeus talvez ainda lembrassem as vinte e quatro ordens levíticas nomeadas para profetizar e louvar no templo (1Cr 25).

E quanto a identificação dos seres viventes, conclui:

As quatro formas sugerem que tudo o que há mais de nobre, forte, sábio e veloz no mundo natural, inclusive a humanidade, está representado diante do trono, participando do cumprimento da vontade divina e adorando a majestade de Deus.

Contudo deve-se destacar que não há uma identificação precisa ou exata dos que adoram.  No Apocalipse tais empreendimentos sempre serão incertos e estarão sujeitos a variáveis interpretativas.  Identificá-los enquanto personagens históricos – ou escatológicos – não permitirá uma compreensão bíblica de quem são e de que implicações está imbuída sua adoração.

Em toda a narrativa da visão do Apocalipse os que adoram são o que, tendo vindo das agruras da vida e vencido pelo sangue do Cordeiro – com as vestes brancas – agora podem servir ao Senhor continuamente (grego: λατρεύουσιν αὐτῷ ἡμέρας καὶ νυκτὸ – Ap 7:14-15).

Mas há um gesto ainda mais significativo que representa a atitude de adoração e indica quem verdadeiramente adora no Apocalipse.  No primeiro relato que o vidente faz depois das cartas (Ap 4), ele registra que os vinte e quatro anciãos se prostraram (grego: πεσοῦνται – literalmente: caíram) diante do que se encontra no trono e lançaram suas coroas (grego: βαλοῦσιν).  E então eles declaram: “Santo, Santo, Santo”; e “tu és digno”.  Ou seja, abrindo mãos de suas próprias coroas, eles estão por toda a eternidade se rendendo e se submetendo a quem pertence verdadeiramente toda glória honra e louvor (Ap 4:8-11).

Assim, Apocalipse demonstra o conceito mais amplo de toda a Bíblia de que, nas palavras de Ngundu, “a adoração não consiste apenas em palavras.  Pode ser expressa de várias maneiras, desde que seu ponto focal seja o culto a Deus e o reconhecimento de seu senhorio absoluto”.

 

 


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quarta-feira, 8 de outubro de 2025

CULTO CRISTÃO - Aula 01



Nesta primeira aula sobre Culto Cristão, apresentamos uma abordagem informativa e fundamentada sobre o significado, os elementos essenciais e a importância do culto na vida da igreja e do cristão.

Esta aula busca esclarecer conceitos fundamentais, como adoração, liturgia e comunhão, oferecendo bases teológicas e práticas para uma participação consciente e edificante nos cultos cristãos.

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terça-feira, 14 de novembro de 2023

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (4) – a esperança

Para um tempo de perda de esperança, o culto cristão é a esperança.

Voltando a observação à Pós-Modernidade posso notar que a situação de caos ou de desprovimento de historicidade levada aos seus últimos termos conduzirá a uma história sem esperança e a um presente sem futuro.  Ao amputar o passado como referência para estruturar o presente, a Pós-Modernidade negou a possibilidade de expectativa de futuro.  Cito Tarsis Lemos:

Todo esse caos moderno que levou a humanidade a um impasse radical, perdida nos labirintos de sua razão pura, sem solução no plano de sua horizontalidade finita, fez com que o olhar ensinado e aprendido a apenas se encantar com o espelho, redescobrisse a amplitude do firmamento.  A solução única está em se olhar para cima.  Não se critica a tecnologia que gerou o progresso, mas o progresso que avançou destruindo a civilização.  Progresso sem civilização é regresso ao estado de barbárie.  Nossa preocupação é com a sofisticação da barbárie que cria um retrocesso desumano.

O britânico Krishan Kumar comenta: "O pós-modernismo representa a ruptura interminável com o passado, por mais radical que este tenha sido em sua própria época; é o que dá ao modernismo o seu significado".  E, mais adiante, desvenda as consequências deste posicionamento: "Ao agir assim, de onde a teoria da pós-modernidade recebe seu principal impulso: não do anúncio de alguma coisa nova, em sentido positivo, mas na rejeição do velho, do passado da modernidade".

Ao se defrontar com este desenraizamento histórico que torna sombrio e obtuso qualquer futuro e esperança, o culto cristão se volta para aquele que é, que era, e que há de vir (Ap 1:8).  Na celebração cristã não está simplesmente a constatação do progresso contínuo do presente – como propunha a Modernidade – nem "eternização" do presente atemporal como demonstra a Pós-Modernidade; mas, como nos diz Paul Tillich:

No louvor à majestade divina, está incluído o louvor ao destino da criatura.  É por isto que o louvor a Deus desempenha um papel tão decisivo em todas as liturgias, hinos e orações.  Certamente, o homem não louva a si mesmo quando louva a majestade de Deus; mas ele louva a glória da qual participa através de seu louvor.

Compreendendo assim o culto como celebração, ainda que dentro da história, mas apontando para eventos supra históricos, é válido citar a observação do teólogo norte-americano Harvey Cox:

Na festividade, intensificamos nosso envolvimento na história e, paradoxalmente, nos abstemos de fazer história.  O evento que celebramos é histórico, passado ou futuro, tanto assim que nos ajuda a rememorar e a esperar.  Mas durante a celebração nós paramos de fazer e simplesmente estamos aí; movemo-nos, como diria Norman Brown, do "acontecer" para o "ser", e também isso é crucial.  Se não tivéssemos nem passado nem futuro para celebrar, vítimas seríamos dum presente a-temporal e anistórico.  Se, por outro lado não cessássemos jamais de fazer história nem nunca celebrássemos, descambaríamos igualmente num mourejar ininterrupto, já não conhecendo nem descanso, nem alegria, nem liberdade.

Para um mundo pós-moderno desenraizado e principalmente sem poder oferecer perspectivas futuras, onde homens e mulheres não conseguem vislumbrar esperanças, nem mesmo em sua crescente busca religiosa, nem na espiritualidade que não lhe promete nada porque sabe não poder cumprir, o culto cristão apresenta a este ser humano o encontro com uma esperança concreta a qual se inicia no tempo presente e desemboca num futuro glorioso.  Sendo o culto uma celebração a ser realizada em meio da coletividade de fiéis que se congregam não somente para buscarem um encontro místico com o sagrado, mas também para se relacionarem com um Deus pessoal que se revela na comunidade, então esta celebração revestida do seu caráter diaconal e comunal apresenta uma esperança concreta que faz cada cultuante experimentar a certeza de coabitar desde já na comunidade de fé – a comunhão dos santos – a antecipação da "glória que em nós será revelada" (Rm 8:18).  É participando deste culto coletivo que o cristão então se torna consciente de não ter "aqui nenhuma cidade permanente", mas ter os seus olhos postos na "que há de vir" (Hb 13:14). 

É esta crença e esperança que ele celebra em seu culto: o encontro com Cristo "a esperança da glória" (Cl 1:27).

 


§. Esse é um extrato retirado do meu livro:
DE ADÃO ATÉ HOJE – um estudo do Culto Cristão

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§. Leia também:

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (1) – o místico e o misterioso

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (2) – o transcendente e o encontro com o sagrado

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (3) – a reordenação do mundo

 

Conheça mais outros livros meus:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
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terça-feira, 7 de novembro de 2023

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (3) – a reordenação do mundo

 

Para um tempo envolto em um mundo caótico, o culto cristão mostra-se com apresenta-se como a reordenação do mundo.

Uma das caracterizações mais marcantes da Pós-Modernidade é, sem dúvida alguma, a desorganização do mundo.  Enquanto que na Modernidade o ser humano procurou dar certa ordenação ao seu mundo, estabelecendo valores e criando "lugar" para todos os conceitos, na Pós-Modernidade esta ordenação não subsiste à fragmentação do mundo.  Se a ordenação da criação é o cosmo, o seu contraponto é o caos.  Leonildo Campos no mesmo texto citado a pouco argumenta:

O conceito de pós-modernidade pressupõe uma perspectiva de descontinuidade e de rompimento das fronteiras anteriormente delimitadas.  Assim, o ser humano estaria vivendo um processo social de atomização, tornando-se mais individualista, desprovido de historicidade, voltando-se para si mesmo, na busca de referências para o viver diário.

Posição com a qual Paula Muriel Belmes concorda ao citar David Harvey: "o que parece ser o fato mais assombroso do pós-modernismo é sua total aceitação do efêmero, da fragmentação, da descontinuidade e do caótico".  Sem dúvida, a Pós-Modernidade não conseguiu suprir o ser humano de referências consistentes.  O caos ameaça o cosmo pós-moderno e somente uma nova experiência fundante poderá resgatar esta humanidade.  Assim o culto cristão, como um contato com o sagrado, pode oferecer esta nova ordenação do mundo.  Rubem Alves no seu livro sobre O Enigma da Religião, considerando sobre o que chamou de "o segundo momento da experiência da conversão" expõe o que bem poderia ser entendido como o resultado de uma experiência cristã de culto:

Inesperadamente, entretanto, um milagre acontece.  O momento de crise e desestruturação da personalidade encontra uma solução.  A consciência ressuscita, transfigurada, como uma nova estrutura em que tanto os conteúdos emotivos quanto os cognitivos são radicalmente novos.  A experiência tem o caráter de milagre porque parece impossível descobrir um nexo entre o antes e o depois.  O homem se sente possuído por uma inebriante sensação de paz e alegria.  As tensões são resolvidas.  Sem saber como isto ocorreu, descobre-se transportado Nada para o Ser, das Trevas para a Luz, do Fim para o Princípio, da Morte para a Vida.  Encontrou a salvação.  Ou mais precisamente, foi por ela arrebatado.  Experiência preservada nos mitos cosmogônicos no miraculoso e inexplicável salto do caos para a ordem, dos abismos para a terra seca, do turbilhão para o jardim, das águas do mar para o rio da vida.

Diante de um mundo organicamente desestruturado onde todos têm liberdade quase absoluta de vivenciar suas crenças e espiritualidades individuais sem compromissos, o ser humano pós-moderno vive o dilema: ter todas as possibilidades é o mesmo que não ter nenhuma, ou seja, com bem notou Edvar Gimenes, "pela hipervalorizarão dos sentimentos e relativização de verdades antes absolutas, a cultura da pós-modernidade gera conflitos entre formas mais racionais de expressões litúrgicas e outras mais emocionais", contudo, "o espírito, a necessidade e o desejo de adoração permanecerão!".  Assim é que o culto prestado pelos cristãos é estabelecido como a resposta possível a esta situação: o apóstolo Paulo escreveu aos Romanos sobre a necessidade de um "culto racional" (Rm 12:1) e aos Coríntios prescreveu que "tudo deve ser feito com decência e ordem" (1Co 14:40).  O culto cristão, mesmo sendo a expressão da alma faminta (retomo a expressão de James Houston), contudo em sendo feito "em espírito e em verdade" (Jo 4:23) compreende a única aceitável e melhor resposta à desestruturação pela qual passam homens e mulheres. 

Proporcionando um encontro entre o fiel cultuante e o Deus que no princípio ordenou o cosmo a partir do caos, o culto cristão fornece a possibilidade segura que novamente ele mesmo reordenará o mundo humano.  Isto é visto mais claramente no caráter querigmático e didático presente no culto cristão.  Se ainda neste tempo o homo religiosus procura respostas às questões sobre seu lugar no mundo e o que esperar dele, o culto cristão didaticamente lhe anuncia "novos céus e nova terra" (Ap 21:1).  Se no princípio foi a Palavra de Deus quem criou e deu ordem ao mundo (Gn 1); será a presença da mesma Palavra no culto através do querigma que haverá de trazer novamente ordem ao mundo caótico experimentado pela Pós-Modernidade.  Por meio da Palavra de Deus, o culto então anuncia a reconstrução do mundo dando-lhe significado e oferecendo soluções seguras às dúvidas humanas. 

 


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§. Leia também:

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (1) – o místico e o misterioso
O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (2) – o transcendente e o encontro com o sagrado


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quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (2) – o transcendente e o encontro com o sagrado

 


Para um tempo de sacralidade impessoal, o culto cristão apresenta-se como transcendente e encontro com o sagrado.

A segunda resposta à espiritualidade e à crescente religiosidade pós-moderna, de certo modo, está em contiguidade com a resposta anterior.  A mística contemporânea além de vazia em si, não reconhece o seu objeto de culto como sendo alguém que lhe responda pessoalmente.  A pós-modernidade tem buscado a transcendência – uma vivência além do dado objetivo buscado na modernidade científica – e o encontro com o sagrado como marcas características de seu tempo.  Nas palavras de Leonildo Campos, que encontro na introdução ao seu livro Templo, Teatro e Marcado, é típico deste tempo a "valorização da energia e da potencialidade do homem individual, interligado com as forças vivas do cosmo e do universo", o que eu chamaria de despersonalização da relação com o sagrado.  Ao encarar o cosmo como sagrado em sua totalidade, carece o ser humano pós-moderno de um relacionamento pessoal com o ente divino. 

São da Teologia Sistemática de Tillich as palavras:

O símbolo "Deus pessoal" é absolutamente fundamental porque uma relação existencial é uma relação de pessoa-a-pessoa.  O homem não pode estar interessado de forma última por algo que seja menos do que pessoal.  E já que personalidade (persona, prosopon) inclui individualidade, surge a questão: em que sentido Deus pode ser chamado de indivíduo? Tem sentido chamá-lo de "indivíduo absoluto"? A resposta deve ser que tem sentido na medida em que ele pode ser chamado de "participante absoluto".  (...)

Significa que Deus é o fundamento de tudo que é pessoal.  E que ele traz dentro de si mesmo o poder ontológico de personalidade.  Ele não é uma pessoa.  Mas não é menos do que uma pessoa.

Diante de uma percepção do sagrado distante e despersonalizado e da certeza de que as suas próprias ações haveriam de lhe fazer sucumbir, o salmista ora: "Não me lances de tua presença" (Sl 51:11).  É neste contexto que o culto cristão deve se mostrar como um encontro com o sagrado, mas sobretudo um encontro com o sagrado personalizado que se revela e se dá a conhecer.  O culto cristão mostra-se como um encontro pessoal.  O místico medieval Bernardo de Clairvaux (1090-1153) dizia:

Não me importa quão cedo eles possam acordar e se levantar para orar na capela, numa madrugada gelada de inverno, ou nas altas horas da noite; eles sempre descobrirão que, antes disso, Deus estava acordado, aguardando-os, ou melhor, Ele os tinha acordado para buscarem a sua face.

No seu pequeno trabalho sobre Liturgia e Culto Cristão o Professor João Ferreira Santos coloca: "Na liturgia cristã se celebra a imanência de Deus, isto é, o ato em que o Deus Transcendente desce para estar com o homem, na pessoa de Jesus Cristo, o Verbo que se fez carne, o Parácleto que está conosco para sempre".  Ainda num texto devocional da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil de 2003 lê-se:

Sinteticamente, culto é "o encontro da comunidade com Deus".  Esse encontro só é possível porque Deus permite e reúne a comunidade.  Não é a comunidade que convoca, mas Deus se coloca à disposição (Mt 18:20) e foi Ele que ordenou que esse encontro acontecesse (1Co 11:24 e 25).  Deus ordena e vem ao encontro da comunidade no culto.  Não só o/a pastor/a, mas também a comunidade toda é responsável para que seja um bom encontro com Deus.  O/A pastor/a ajudam a comunidade a celebrar o culto, a celebrar o encontro com Deus.  A liturgia é justamente o "conjunto de elementos e formas através dos quais se realiza esse encontro".

Em outras palavras, o culto cristão é a celebração da presença divina no Encarnado; é a certeza de que o divino se fez história recriando a própria criação e transformando-a em simpática à vida humana.  Rubem Alves em Da Esperança afirma: "É na história que Deus e o homem engendram um futuro comum.  Este não é simplesmente um futuro que Deus cria para o homem, mas ele é criado por ambos, numa histórica cooperação dialógica.  Esta é a implicação necessária de sua encarnação: ele continua aberto ao homem".

Apontei que o culto cristão traz como um dos seus elementos fundamentais o caráter celebrativo e adorativo, e é exatamente por ter este caráter que o culto cristão pode oferecer respostas significativas para as questões existenciais humanas no contexto da Pós-Modernidade.  Diante de uma sacralidade impessoal e silenciosa, o culto cristão se apresenta como o encontro entre o ser humano e o Deus pessoal que se revela e para o qual devotamos a nossa adoração em um ato de celebração consciente e consequente.

Certamente neste ponto destaco a principal resposta cristã à pós-modernidade: o culto é eminentemente um encontro.  Não havia dúvida quando, No Baú da Adoração, eu afirmei: "culto é encontro, e encontro primordialmente com Cristo".  Ele, o culto, é a resposta ao desencantamento provocado pela pós-modernidade.  No culto cristão acontece a ocasião e a possibilidade do encontro com o sagrado, a certeza de que há um Deus pessoal e, mais que isso, um Deus que sendo imenso e transcendente ainda assim desce para coabitar com o ser humano.  "Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós, vimos a sua glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1:14), esta é a resposta mais clara que o culto cristão tem a oferecer a este tempo: a inefável glória do Criador pode ser alcançada através do contado pessoal no culto oferecido a ele.  O Deus adorado no culto cristão é o Infinito-Pessoal e foi personificado historicamente no Encarnado.

 


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§. Leia também:

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (1) – o místico e o misterioso

 

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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

O CULTO NA PÓS-MODERNIDADE (1) – o místico e o misterioso

 


Para um tempo de espiritualidade exacerbada, porém difusa, o culto cristão apresenta-se como místico e misterioso.

 

Num artigo publicado em O Jornal Batista no ano de 1996 eu já afirmava que "a despeito das previsões do Positivismo, o século XX tem visto ressurgir o espírito religioso.  Curandeiros, místicos e profetas povoam o nosso mundo secularizado".  Esta afirmação constatava que, embora a modernidade tenha primado pelo conhecimento do rigor metodológico científico, "o Sagrado tem feito com que os filhos da tecnologia de ponta se ajoelhem diante de sua irresistível sedução", nas palavras de Tarsis Lemos. 

Neste aspecto, como disse Atilano Muradas, "a pós-modernidade não é moderna quando valoriza o sagrado".  Porém, ao contrário da experiência mística da antiguidade, a espiritualidade pós-moderna já não está ligada a "parâmetros ou referências institucionais", segundo observação de Leonardo Boff, nem se apresenta de modo unívoco, mas como um "caleidoscópio de misticismos e mistificações" – a expressão é de Tarsis Lemos.  A pós-modernidade é um período por excelência onde toda e qualquer manifestação mística e religiosa deva ser considerada válida e mereça ser buscada.  E exatamente por ser algo difuso e sem referenciais objetivos é que este espiritualismo contemporâneo se torna insuficiente para atender aos anseios humanos.  Sendo sem profundidade, o misticismo pós-moderno não consegue superar a aridez da alma carente.  Esta alma, desraigada do mundo em que vive e sem perceber perspectivas seguras, e até por isso mesmo, se agarra cada vez mais ao espiritual, mágico e esotérico, continuando ainda vazia em si.  Com o que Asaph Borba concorda: "A pós-modernidade é regada pelo humanismo que acaba produzindo um vazio profundo".

Para responder a este misticismo vazio, Paul Tillich em sua Teologia Sistemática reconhece que o culto cristão vem a ser a "elevação responsiva da Igreja até o fundamento último do ser" o que deve incluir "adoração, oração e contemplação" – com o que Muradas concorda: "todo culto é de louvor, de adoração, de contemplação".  Enquanto que o misticismo e a espiritualidade pós-moderna buscam elevar – ou conduzir – o ser humano ao distanciamento e ao vazio; o culto é a resposta cristã a este vazio distante, não por que em si seja a solução, mas por ser ele o momento de "entrar em aliança com o Senhor" (Dt 29:12).  O culto cristão não é uma busca pela espiritualidade oca.  No culto, o cristão sabe a quem dirige a sua adoração: "nós adoramos o que conhecemos" (Jo 4:22).  O culto cristão não é – não deve ser – simplesmente uma sucessão de atos rituais, embora contendo conotações litúrgicas e espiritualizantes, mas uma reunião onde o conteúdo do encontro se sobressai.  Nunca é o rito religioso por si mesmo.  Questionado sobre se um culto essencialmente cristão é caracterizado mais pelas ações rituais ou pelas experiências existenciais, Rubem Amorese assim se expressou:

Não é possível conceber conteúdo sem forma, mas o contrário sim.  Portanto, a liturgia sempre estará presente, como forma do culto.  No entanto, o conteúdo, ou sejam, as experiências emocionais são mais importantes para Deus.  Essas experiências podem ser divididas, teoricamente em três: expressão, oferta e transformação.

Devo aqui ressaltar o que já observei tratando dos elementos do culto: o culto cristão traz na sua essência o caráter místico, porém este vem necessariamente acompanhado do elemento eucarístico.  Como disse ali, o culto cristão está envolvido em mistério e beleza, porém só se realiza na certeza de um encontro que, além de ser o momento especifico onde a terra e o céu podem se tocar (Gn 28:17), ele acontece na celebração eucarística da memória da intervenção divina na história em Cristo Jesus e na expectativa na irrupção do Reino (1Co 11:24-26).  Assim como resposta à postura mística vazia pós-moderna, o culto cristão apresenta um contato e um diálogo que completa o ser humano na certeza presente e necessária ao culto, a qual faz do seu momento não eventos autocentrados, mas encontros existencialmente significantes.

Comparando a espiritualidade pós-moderna bem marcada na proposta nos gurus orientais em oposição ao culto cristão que junto com a prática da disciplina cristã da meditação preenchem o cultuante, Rubem Amorese no seu livro Louvor, Adoração e Liturgia afirma:

Qualquer que seja a imagem, é importante ressaltar que, diferentemente da experiência do esvaziamento da mente, para falar com Deus é preciso interagir com ele, por meio de contemplação e audição.  Na correria da vida, vamos pegando uma lição aqui, outra ali, fazendo orações etc., mas raramente "meditamos na sua lei", raramente nos quedamos a conversar diretamente com ele.

O salmista demonstrou esta relação de intimidade ausente na mística pós-moderna, mas bem presente no mistério do culto cristão quando afirmou: "Até o pardal achou um lar, e a andorinha um ninho para si, para abrigar os seus filhotes, um lugar perto do teu altar, ó Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus.  Como são felizes os que habitam em tua casa; louvam-te sem cessar!" (Sl 84:3-4).

 


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terça-feira, 13 de junho de 2023

O CULTO COMO ENCONTRO

 


O culto cristão é uma experiência especial e fundamental de encontro.  Nele o cristão experimenta o momento mais sublime e o ápice de sua existência como criatura, ao ter a real oportunidade de se encontrar com seu Criador.  É isto que sua alma anseia no mais profundo.  Como ser eminentemente voltado para o além-de-si e vislumbrando possibilidades que podem lhe fugir ao controle em seu destino, questionando seu lugar e papel nesta existência, o ser humano, como homo religiosus, sabe que precisa do transcendente para dar sentido último a sua vida.  Para este homem o culto cristão é o tempo e lugar privilegiado onde e quando o encontro com o inefável se torna possível, reorganizando seu mundo e apontando-lhe esperanças.

Porém o culto cristão não é só uma experiência mística, um êxtase onde os mistérios da criação e da divindade se desanuviam e onde os céus se fazem presente na terra.  O culto cristão é resultado das expressões de adoradores que se submeteram ao crivo das instruções dadas pela revelação bíblica e ao longo de sua história acumularam manifestações cultuais as quais deram contornos a caracte­rísti­cas distintas que fazem da reunião dos cristãos não somente um evento distinto, mas um referencial para o encontro e relaciona­mento entre homens e mulheres cultuantes e o Cristo cultuado.

Assim, sem abdicar de sua cultura e muito menos de sua adesão aos princípios expostos na Revelação, o cultuante cristão vê se conciliarem em sua liturgia estes dois aspectos em um único movi­mento cultual.  O culto cristão é em primeiro lugar um encontro com Cristo, mas também por ser desta forma, pode e deve perfeitamente se caracterizar em encontro da Revelação divina com a cultura humana.  Todo culto cristão tem que ser fruto da obediência requerida pelo Senhor, mas também deve expressar a forma própria – individual e coletiva – do cultuante.

Considerando isto, convém observar que o esse tempo de hoje tem se mostrado um tempo de mudanças profundamente significativas na vida e pensamento da humanidade, especialmente ocidental.  Tendo esgotado as possibilidades de encontrar soluções às suas questões existenciais no modelo da modernidade, agora o ser humano passa gradativamente a rejeitar tal modelo de conhecimento objetivo e respostas absolutas para se voltar a questões mais subjetivas e respostas relativas – é o tempo da pós-modernidade.  Acontece que este tempo não é capaz também de responder aos seus anseios, e além do mais ainda levanta maiores e mais complexas questões: na tentativa de fazer renascer uma mística já adormecida pela moderni­dade, homens e mulheres pós-modernos, em vez de gerarem espe­rança, convivem com um imenso vazio.  Foram-se as esperanças e o individualismo substituiu o sentimento de pertença.  A nova espiritua­li­dade é em sua configuração despersonalizada e voltada para um panteísmo ausente de respostas.

Diante de questões como estas sou levado a concluir que o culto ainda se mostra como a mais significativa resposta oferecida pelo cristianismo a este tempo.  Para um mundo sem perspectivas, uma despersonalização do mundo com o crescente individualismo e um reencantamento mágico, o culto cristão se apresenta como a celebra­ção da vitória definitiva de Cristo e a certeza de que o mundo não está à deriva, mas ainda resta esperança.  O culto cristão coletivo faz de seus participantes verdadeiros coparticipantes do destino humano manifesto na graça de Cristo, celebrada na liturgia cristã do culto.

(Do livro: DE ADÃO ATÉ HOJE – um estudo de Culto Cristão)

 


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segunda-feira, 22 de agosto de 2022

O HOMO RELIGIOSUS

 

Deixe-me tentar compreender melhor como o humano se faz homo religiosus diante do mundo.  Ao dominar a autoconsciência, o ser humano se vê diante do cosmo que mais lhe parece o caos.  Desta percepção brotará o primeiro estímulo do que virá a ser a sua essência religiosa. 

(...)

Defrontando-se com a realidade imensa da existência que por si só não faz sentido, nem lhe aponta saídas, o ser humano se sente pequeno, fraco e incapaz de transformar o deserto num jardim, o caos num cosmo, a dúvida e a incerteza na confiança e promessa, o ser humano se faz religioso.  Em outras palavras, a sua inconteste e inevitável descoberta de si mesmo e do mundo que o cerca transforma este ser de animal apenas em um homo religiosus: ser humano significa necessariamente ser religioso.  A vida não pode ser somente isto.  É assim que a admiração se transforma em espírito religioso: o maior-que-eu/além-de-mim eu não tenho nem controlo, mas eu tenho a crença.  A poetiza brasileira Clarice Lispector exclamava: "Obstinada, eu rezo.  Eu não tenho o poder.  Tenho a prece".

Desta forma o ser humano se constitui enquanto ente em busca do outro que possa lhe dar sentido e completude diante de um cosmo que não lhe transmite a sensação de contiguidade. (...) Culto e adoração para o ser humano então é a garantia de respostas a suas indagações últimas e a certeza de que não será tragado pela existência caótica.  Na religiosidade busca-se colocar ordem no caos, apoiando-se nos deuses e crenças para que estes lhes sejam favoráveis. 

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Outra observação teórica que posso fazer aqui é a partir das colocações do filósofo romeno Mircea Eliade.  No seu texto sobre O Sagrado e o Profano Eliade usou a expressão homo religiosus para descrever o ser humano, ou seja, um ser determinado acima de tudo pela sua religião e seu senso de adoração.  Na introdução do texto o próprio Eliade observou: "o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história".  E mais adiante, tratando mais claramente sobre como o ser humano encara a existência: "seja qual for o contexto histórico em que se encontre, o homo religiosus crê sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado".  O sagrado determina o ser humano, dando-lhe contornos dos quais ele não tem como escapar.  Estes contornos moldam o ser tanto na sua autocompreensão como nas suas tomadas de decisão.  Ou seja, esta visão faz do ser humano alguém que na sua existência está condicionado pelo transcendente. 

(Extraído do livro DE ADÃO ATÉ HOJE – um estudo do Culto Cristão)

 

 


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