sexta-feira, 16 de setembro de 2022

HELWYS – DEUS E O REI

 

Estava revendo aqui alguns escritos e me deparei com uma citação de Thomas Helwys (1550-1616), um advogado inglês que consideramos como um dos fundadores do que hoje chamamos de Igreja Batista.

 

... men’s religion to God is between God and themselves. The king shall not answer for it. Neither may the king be judge between God and man. Let them be heretics, Turks [that is, Muslims], Jews, or whatsoever, it appertains not to the earthly power to punish them in the least measure.

 

... a religião do homem está entre Deus e ele.  O rei não tem que responder por ela e nem pode o rei ser juiz entre Deus e o homem. Que haja, pois, heréticos, turcos ou judeus, ou outros mais, não cabe ao poder terreno puni-los de maneira nenhuma.

 

Essas palavras escritas no livro "A short Declaration of the mystery of iniquity" (publicado em 1612) expressam o posicionamento de Helwys contra a Igreja estatal na Inglaterra e o consequente poder do rei sobre a fé de seus súditos.

Na época esse era um problema sério a ser enfrentado e o texto sobre o Mistério da Iniquidade foi um dos primeiros a advogar: (1) liberdade religiosa; (2) liberdade de consciência e (3) separação Igreja/Estado – princípios que depois seriam adotados como fundamentais pelos batistas mundo afora.

 

Realmente minha pesquisa inicial – a que me levou a citação de Helwys – tinha como mote a relação atual da Igreja na Inglaterra com a mudança na coroa britânica depois de sete décadas.  Ora, o mundo agora é outro, as mentalidades e demandas são diferentes, mas tradição inglesa ...

 

E uma coisa leva a outra.

 

Então comecei a tentar dialogar com Helwys, trazendo-o do seu século XVII inglês para nosso Brasil do século XXI.

Citei inicialmente a ele que, sob sua inspiração inicial, nós batistas “compramos essa briga” e conseguimos incutir o conceito que hoje pertence ao mundo civilizado.

Eu me vi expondo a ele que depois de tanto tempo e tanta luta para fincar a bandeira da separação Igreja/Estado como causa pétrea das democracias modernas (inclusive o Brasil) ainda há tanta escaramuça.

 

Acho que ele ficou abismado quando lhe falei a que ponto chegamos!

 

Mas ele, como advogado, me trouxe a argumentação a partir de sua convicção. 

A fé de um homem é questão exclusiva dele e ninguem, nem o Estado, nem o Congresso, nem o presidente, nem fundamentalismo de direita ou esquerda cristã, nem patrulha ideológica podem determinar o que eu devo crer ou confessar.

Que haja heréticos, blasfemos, apóstatas entre os cidadãos.  Mas que ninguem seja julgado pela fé – nem pela minha fé.  Pois a nenhum poder dessa terra foi dado o direito de julgar a doutrina e o culto alheio.

 

Foi assim que Helwys observou que ele encaminhou uma cópia de sua obra sobre o Mistério da Iniquidade ao Rei James I – com dedicatória e tudo – mas, mesmo assim, acabou preso por suas convicções.

É sempre assim: “o profeta nunca ceia na mesa do rei!

 

Para então finalmente trazer a memória o que pode dar esperança.  E nas palavras do Mestre Jesus:

 

Se o Filho libertar vocês, só assim vocês vão experimentar liberdade verdadeira.
(Jo 8:36)

 

Na imagem lá em cima,
o frontispício da obra
A short Declaration of the mystery of iniquity de 1612.
Fonte: wikipedia.org

terça-feira, 13 de setembro de 2022

POR AMOR DO SEU NOME

 

No final do Século VI a.C., a ascensão do Império Babilônico derrubou o Reino de Judá e dominou toda a região.  Cinco anos depois da primeira leva, Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote, iniciou seu ministério profético com uma bela visão da Glória de Javé nas margens do rio Quebar onde estava exilado.   

E o que impulsionou o profeta-sacerdote Ezequiel a cumprir fielmente a missão que lhe foi imposta foi uma firme convicção de possuir a Palavra de Deus viva e eficaz em sua boca. 

A cidade haverá de cair – esta foi a ênfase da mensagem do profeta até que sua profecia finalmente se cumpriu em 587 a.C.   

Depois da queda, porém, ele ainda retomou a ênfase e voltou a falar da ruína de Jerusalém, só que então a tonalidade foi outra: o mesmo Deus que pode destruir é o mesmo Deus que sempre está pronto para reconstruir, e assim se faria com Jerusalém.   

Finalmente a Glória de Javé voltou ao Templo, e em sua conclusão apocalíptica do livro Ezequiel continuou trazendo uma mensagem e um desafio bem vivos. 

Nem as adversidades do exílio, nem a aparente incompatibilidade das funções sacerdotais e proféticas, nem o descrédito do povo, nada conseguiu afastar o homem Ezequiel de seu alvo, seu objetivo.   

Este é o principal desafio que ele lança a nós, cristãos do século XXI.  Devemos ter em mente sempre a ideia de que o Deus que em seu zelo traz punição é principalmente movido para restaurar seu povo, e o faz por amor de seu nome

 

sábado, 10 de setembro de 2022

OS 144 MIL

Para entender os 144 mil selados do Apocalipse (citados nos capítulos 7 e 14) é interessante antes dar atenção ao número em si.

A indicação do número doze aponta para eleição e mil, multidão. Daí: 12 x 12 x 1000 = 144.000.  A multidão da multidão dos eleitos.

Sobre quem seriam eles.  Inicialmente os versos de Ap 7:3-4 já apontam para os 144 mil como os selados para serem servos de Deus.  E depois do detalhamento da lista, no verso 9, lemos que a multidão é composta de "uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, de pé, diante do trono e do Cordeiro".

Sei que tem muita teoria sugerida por aí sobre essa relação dos versos 5 a 8.  Em geral eu não comento interpretações (principalmente quando elas não se baseiam numa Teologia Bíblica muito sadia).  Mas, considerando que estamos lendo Apocalipse, entendo que uma boa e coerente exegese me leva a entender a lista como sendo apenas um simbolismo espiritual que representa todo o Israel de Deus.

Assim, numa leitura mais ampla do texto, temos aqui uma marcação no Apocalipse daqueles que Deus tem separado e selado para ele mesmo: os que foram comprados pelo Cordeiro.  Isso será sempre nossa garantia.  E por isso os 144 mil selados participam do coro celestial em adoração (Ap 14:3).

 

Aproveitando: duas sugestões para ajudar nessa compreensão –
Um texto aqui do Escrevinhando link
Um vídeo do YouTube link

 


Leia também o livro TU ÉSDIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

Disponível na:
AD Santos Editora

 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

ESCRITO NA PAREDE

No início de sua regência, o rei Belsazar (neto do grande Nabucodonosor II), resolveu dar uma festa, provavelmente para demonstrar maior glória e poder que seu antecessor, e para isso mandou buscar os utensílios que seu avô havia trazido do templo em Jerusalém, na deportação dos judeus, para neles servir o vinho (a história está narrada em Dn 5).

Enquanto a festa rolava, o inusitado aconteceu: o rei viu uma mão que escrevia umas palavras estranhas na parede!

 

‒ Que coisa será essa aí!?

 

Consultados os sábios da corte, nenhum deles foi capaz de decifrar aquele enigma.

Então, por curiosidade, aí vai o que estava escrito em aramaico, segundo o relato:

 

 

Mene (palavra duplicada no original) – com a grafia aramaica מנא (no grego da LXX: ΜΑΝΗ; e no latim da Vulgata: MANE).  Esse termo provavelmente deriva da palavra מָנֶה – uma porção ou dose; medida de peso ou monetária – geralmente em torno de 50 shekels

 

Tequel – com a grafia aramaica תקל (no grego da LXX: ΘΕΚΕΛ; e no latim da Vulgata: THECEL).  O significado exato do termo provém da expressão שקל – pesar em balança, equilibrar.

 

Parsim – com a grafia aramaica ופרסין (no grego da LXX: ΦΑΡΕΣ; e no latim da Vulgata: PHARES).  Aqui o verbo פרס (precedido da conjunção ו) que significa partir, quebrar, dividir em dois.

 

Voltando ao episódio bíblico.

O problema, contudo, dos sábios não foi linguístico.  Então essas explicações daí só servem para curiosidade mesmo.

O problema foi espiritual.  Ali estava exposta uma sentença divina e somente Daniel seria capaz de decifrar – e isso porque a ele tinha sido dada uma aptidão sobrenatural (relembre Dn 1:17).

Então o profeta do Senhor foi trazido à presença do rei e se prontificou em apresentar a compreensão espiritual daquelas palavras.  E elas eram duras:

 

‒ Ó rei Belsazar, Deus já avaliou o teu reinado e determinou o fim dele.  Porque fostes achado em falta, perderás já teu reino para teus inimigos (Dn 5:26-28).

 

E o texto bíblico conclui a narrativa do capítulo afirmando que naquela mesma noite o rei dos babilônios foi morto e o rei Dario, o medo, apoderou-se de seu reino.

 

A verdade bíblica é séria.  Deus não se deixa escarnecer (Gl 6:7).  Quando qualquer um zomba do que é sagrado, trazendo para um profano palácio aquilo que deveria estar no santuário, o próprio Senhor da história escreve sua sentença na parede.

 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O RICO, O CAMELO E A AGULHA

 

Estou pensando em escrever um ensaio sobre como Jesus lidou com as questões de pobreza e riqueza em seu ministério terreno, e como a igreja que o seguiu também tratou do tema.

Ainda estou na fase de pesquisa.  Comecei com o episódio do encontro de Jesus com o jovem rico (passagem bem conhecida e que foi registrada nos Sinóticos em Mt 19; Mc 10 e Lc 18).

Sei que este é um tema por demais complexo e por isso estou me detendo um pouco nessa fase da pesquisa para fundamentar algumas conclusões.  Então, como o trabalho parece que ainda vai demorar, vou compartilhar aqui alguns apontamentos iniciais (também na esperança de que comentários e contribuições me ajudem nessa empreitada).

Aqui, em destaque, a citação do fraseado sobre a dificuldade de um rico alcançar o Reino de Deus, registrado assim por Lucas (18:25):

 

É mais fácil um camelo entrar no furo de uma agulha
que um rico entrar no Reino de Deus!

 

Vamos lá.  Primeiro algumas análises de vocabulário da passagem, depois impressões iniciais do texto (vou evitar, por enquanto, citações de interpretações que tentam dar uma “ajeitada” na exegese!).

 

Antes, o contexto:

Jesus foi procurado por um personagem (não há citação do nome), indiretamente reconhecido como sendo jovem e rico, e que desejava saber o que fazer – como conquistar – para ter direito ao Reino.  Diante da proposta do Mestre e da recusa do interessado em seguir as instruções, Jesus citou a máxima que agora estudamos.

 

ANÁLISE DE VOCABULÁRIO –

 

Camelo (no grego κάμηλος e no hebraico גמל) – animal de montaria, típico do oriente médio (não há distinção nos termos para camelo e dromedário). 
No NT Grego há seis citações do animal – todas nos sinóticos.
No AT Hebraico ocorre mais de 60 vezes, sendo a primeira em Gn 12:16.

 

Furo (no grego τρύπημα – variante τρῆμαe no hebraico נקב) – literalmente, um furo ou buraco.  A forma como era referida inclusive o orifício na agulha onde se passava a linha para costura. 
No NT Grego a palavra só é citada nesta passagem.
No grego moderno é usada tanto no sentido médico-cirúrgico de perfuração, como num sentido geral.  Por exemplo: no furo que se faz para a aplicação de piercings.

 

Agulha (no grego βέλος, βελόνη e no hebraico מחט) – no léxico indica dardo, seta ou flexa.  Daí, por extensão, qualquer objeto com ponta afiada.
Aqui em Lucas é a única citação do termo nessa forma no NT Grego (em Ef 6:16 há um termo derivado que traduzimos como dardos).
Os sinóticos Mateus e Marcos usam outra palavra grega na mesma narração – ῥαφίς (do verbo ῥάπτω – costurar).
Os gregos modernos se referem com essa palavra ao peixe-espada.

 

Quanto ao verbo entrar (εἰσέρχομαι – aqui no infinitivo aoristo ativo), o adjetivo rico (πλούσιος) e a expressão Reino de Deus (βασιλεία τοῦ Θεοῦ), creio que não há muitas questões.

 

IMPRESSÕES INICIAIS –

 

O Mestre Jesus sempre foi brilhante em sua forma de falar, ensinar e inculcar suas lições.  Aqui eu consigo compreender claramente o uso do recurso de linguagem que chamamos de hipérbole – o exagero.

No uso desse recurso, Jesus, bem como seus ouvintes, deveria conhecer o Talmude Babilônico que citava a expressão: “como um elefante no fundo de uma agulha” para exemplificar algo implicitamente impossível.  Então ele deve ter adaptado o aforismo para se referir ao camelo, o maior animal do cotidiano daquele povo.

Assim, Jesus indicou a completa incoerência entre o enorme camelo e o pequeno furo onde passa a linha para a costura.  Da mesma maneira é completamente incoerente esperar que um rico possa conquistar o Reino de Deus. 

Chega a ser loucura pensar nisso!

Mas o Reino de Deus que Jesus veio instaurar seria um Reino de incoerências e impossibilidades, pois Deus – o Rei – é quem faz acontecer o impossível (minha base está na citação a seguir em Lc 18:27).

 

(Na imagem lá em cima,
uma gravura ilustrando a diferença entre camelo árabe e o camelo bactriano,
publicada originalmente no livro The New Student's Reference Work
de C.B. Beach em 1914
– fonte: wikipedia.org)

 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

O HOMO RELIGIOSUS

 

Deixe-me tentar compreender melhor como o humano se faz homo religiosus diante do mundo.  Ao dominar a autoconsciência, o ser humano se vê diante do cosmo que mais lhe parece o caos.  Desta percepção brotará o primeiro estímulo do que virá a ser a sua essência religiosa. 

(...)

Defrontando-se com a realidade imensa da existência que por si só não faz sentido, nem lhe aponta saídas, o ser humano se sente pequeno, fraco e incapaz de transformar o deserto num jardim, o caos num cosmo, a dúvida e a incerteza na confiança e promessa, o ser humano se faz religioso.  Em outras palavras, a sua inconteste e inevitável descoberta de si mesmo e do mundo que o cerca transforma este ser de animal apenas em um homo religiosus: ser humano significa necessariamente ser religioso.  A vida não pode ser somente isto.  É assim que a admiração se transforma em espírito religioso: o maior-que-eu/além-de-mim eu não tenho nem controlo, mas eu tenho a crença.  A poetiza brasileira Clarice Lispector exclamava: "Obstinada, eu rezo.  Eu não tenho o poder.  Tenho a prece".

Desta forma o ser humano se constitui enquanto ente em busca do outro que possa lhe dar sentido e completude diante de um cosmo que não lhe transmite a sensação de contiguidade. (...) Culto e adoração para o ser humano então é a garantia de respostas a suas indagações últimas e a certeza de que não será tragado pela existência caótica.  Na religiosidade busca-se colocar ordem no caos, apoiando-se nos deuses e crenças para que estes lhes sejam favoráveis. 

(...)

Outra observação teórica que posso fazer aqui é a partir das colocações do filósofo romeno Mircea Eliade.  No seu texto sobre O Sagrado e o Profano Eliade usou a expressão homo religiosus para descrever o ser humano, ou seja, um ser determinado acima de tudo pela sua religião e seu senso de adoração.  Na introdução do texto o próprio Eliade observou: "o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história".  E mais adiante, tratando mais claramente sobre como o ser humano encara a existência: "seja qual for o contexto histórico em que se encontre, o homo religiosus crê sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado".  O sagrado determina o ser humano, dando-lhe contornos dos quais ele não tem como escapar.  Estes contornos moldam o ser tanto na sua autocompreensão como nas suas tomadas de decisão.  Ou seja, esta visão faz do ser humano alguém que na sua existência está condicionado pelo transcendente. 

(Extraído do livro DE ADÃO ATÉ HOJE – um estudo do Culto Cristão)

 

 


O livro DE ADÃOATÉ HOJE – um estudo do Culto Cristão traz um estudo teológico sobre o Culto Cristo e está disponível no:

Clube de autores
amazon.com

 

Conheça também outros livros meus:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
PARÁBOLA DAS COISAS

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O EVANGELHO DE LUCAS

 



Os três primeiros evangelhos que encontramos no Novo Testamento procuram apresentar a figura histórica de Jesus Cristo partir de um mesmo ponto de vista, por isso nós o chamamos de sinóticos. 

Mas mesmo olhando de um mesmo ângulo, cada um dos evangelhos procura destacar um aspecto da vida e ministério de Cristo.

Lucas é um deles.  Embora tenha realmente muitos pontos em comum com Mateus e Marcos, mas ele é um evangelista próprio. 

Numa primeira olhada no texto é fácil detectar diferenças significativas.  Dos três, Lucas é o mais minucioso e baseia seu Evangelho nas narrativas.  Ele demonstra entender que Deus se revelou na história e será contando-a que Lucas nos apresentará Jesus, o filho de Deus.

Por outro lado, também se deve destacar nesta introdução que Lucas é alegre e inclusivo.  Ele sempre registra cânticos (veja por exemplo os cantos de Maria e Zacarias no primeiro capítulo ou a citação da alegria dos setenta ao regressarem da missão no capítulo nove). 

O Evangelho também se ocupa com os que são social, moral ou religiosamente excluídos (ele observa que Jesus tomou para si as palavras da profecia: compare Is 61:1-2 com Lc 4:18-19).

Quanto ao autor, ele mesmo não se apresenta – apenas dedica seu trabalho ao excelentíssimo Teófilo (veja Lc 1:3).  Por tradição, atribui-se a Lucas, o médico amado, companheiro de Paulo a autoria do texto (vá a citação de Cl 4:14). 

Lucas não foi testemunha ocular do Jesus histórico e ele próprio reconhece isso, mas a partir de um meticuloso trabalho de pesquisa e documentação de tais testemunhas compôs seu Evangelho, deixando-nos um relato fiel para que tenhamos plena certeza das verdades ali narradas (leia Lc 1:4).

(A partir da introdução da lição 01 da revista “Lucas” – Editora Sabre)


terça-feira, 9 de agosto de 2022

PARA QUE FOI ESCRITA A BÍBLIA?

 


Esta pergunta é fundamental.  Sem conhecermos o objetivo específico deste Livro, ele se torna apenas mais um escrito em nossa biblioteca.  É preciso assim saber exatamente para que este livro foi escrito, preservado, transmitido e chegou até nós.

Deixe-me apresentar duas respostas tiradas do próprio texto bíblico.

1.  Na segunda carta a Timóteo é dito: "Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra" (3:16-17). 

Ela é proveitosa para ensinar.  Tudo que eu preciso saber para viver aqui eu encontro na Palavra de Deus.  Também é proveitosa para repreender.  Tanto para corrigir nossa rota quando nos desviamos e perdemos o rumo certo de nossa vida, como para nos disciplinar em nossos erros e tropeços para que não sejamos apanhados em falhas.  A Bíblia nos mostra a justiça e correção divina; o seu plano perfeito para a humanidade em geral e para minha vida em particular.  E isto tudo com apenas um objetivo: para que o servo de Deus seja perfeito como Deus o é.

2.  O segundo texto a destacar está em João 20:30-31.  "Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome". 

Aqui é dito de maneira direta o objetivo das Escrituras.  A Bíblia foi escrita para que através dela pudéssemos crer que o homem Jesus é o ser divino – Filho de Deus – que se encarnou por amor da humanidade; e crendo nisto todos nós tenhamos a vida em seu nome.

 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

PRELEST – uma ilusão espiritual

 


Pretendo considerar uma palavra relacionada à Teologia e a fé: PRELEST.  Traduzindo direto da língua russa (ПРЕЛЕСТЬ – com a ajuda do Google) a palavra significa “charme”.  Esse é um termo usado pela Teologia Ortodoxa oriental para indicar uma ilusão, fraude ou engodo espiritual.

(Procurei no Novo Testamento em russo essa palavra e não encontrei.  Com certeza, meu inexistente conhecimento da língua russa não me ajudou e, consequentemente, minha pesquisa na internet não me trouxe citações.)

Vários bons autores ortodoxos escreveram sobre esse tema e aqui eu quero destacar as reflexões do hierarca russo Santo Ignatius Brianchaninov, que escreveu bastante sobre o prelest.  Segundo ele:

― O engano espiritual é o estado de todos os homens sem exceção, e foi possível pela queda de nossos pais originais.  Todos nós estamos sujeitos ao engano espiritual. 
― A consciência desse fato é a maior proteção contra ele.  Da mesma forma, o maior engano espiritual de todos é considerar-se livre dele.

― O mundo está em um estado de engano espiritual e manifesta uma afinidade por aqueles que estão no mesmo estado. Mas despreza e rejeita aqueles que servem à Verdade...

Em linhas gerais, o prelest – ou estado de engano espiritual – acontece quando o ser humano, mesmo com boa intenção e buscando se aproximar de Deus e agradá-lo, se vê enredado por ilusões de procedência diabólicas que são tidas como verdadeiras.  Assim, o fiel acaba por aceitar a mentira como se fosse verdade.

Segundo Santo Ignatius Brianchaninov, dois são os tipos mais comuns de engodo em que o prelest se manifesta:

(1) Imaginação (Воображение).  Nesse caso, a pessoa floresce sua imaginação, sob influência sobrenatural, e tem visões de Jesus, ou de coisas espirituais, sem que tenha se arrependido ou “se purificado de suas paixões”.  Assim, essas visões, ou experiências de ser alcançado pelo sagrado, nada mais são que ilusões espirituais – não sendo verdadeiras, mesmo que tenham acontecido em momentos de devoção sincera.

(2) Autoconceito ou presunção (самомнение).  É aquela falsa ideia de retidão baseada na realização de disciplinas espirituais de piedade e virtudes supostamente dadas por Deus que faz com que se creia ter adquirido “méritos” junto a Deus.  Se no primeiro tipo em geral se confunde o sobrenatural com o divino, aqui a ilusão é mesmo espetacular e consiste em pensar nos próprios sentimentos religiosos como sendo sentimentos santos e divinos quando se ainda está completamente impróprio para eles.

 

Ambas as possibilidades de prelest indicam um certo padrão:

     a. A sinceridade espiritual;
b. Inconsistência entre a vida de busca de santidade e falta de arrependimento e quebrantamento;
c. Percepção equivocada da realidade espiritual;
d. Confiança nos sinais exteriores de santidades;
e. Aparência de cristianismo;
f. Apego à mentira e à ilusão em detrimento da verdade bíblica e divina.

Em todo caso, a melhor advertência ainda é a que nos foi dada por Tiago em sua epístola canônica:

Tornem-se praticantes da Palavra e não apenas ouvintes que se enganam a si mesmos.
Tg 1:22

Na imagem lá em cima: 
óleo sobre tela do russo Nikolai Nikolaevich Ge, 
intitulado Аэндорская волшебница (A Feiticeira de Endor), 
pintado em 1856. 
Atualmente na Galeria Estatal Tretyakov, Moscou.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 3ª parte

 


SIMÃO PEDRO DE NOVO – A RESTAURAÇÃO

Leia o início dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª partelink
SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª partelink

 

Faltava uma vida a ser restaurada – Simão Pedro.  Pedro sempre demonstrou um perfil de líder com espontaneidade e disposição para tomar atitudes.  Mas este ímpeto o levou a decisões vergonhosas.  Ele ainda precisava ser restaurado por Cristo.

Logo depois da cerimônia do lava-pés, Pedro tinha se disposto a seguir a Jesus, mesmo que fosse preciso morrer por isso; mas logo depois o havia negado (compare Jo 13:37 com 18:26-27).  Isto abrira uma ferida enorme na alma do discípulo e Jesus estava ali para curá-lo e devolvê-lo à missão.

Então, depois de terem comido (leia Jo 21:15), Jesus pôs em prática o processo de restauração de Simão Pedro.  A mesma pergunta foi repetida três vezes, e uma resposta dada a cada uma delas.  Mas ali cada detalhe era importante para que aquele homem pudesse voltar a ser o escolhido de Cristo.

Observe que Jesus o chamou de Simão, filho de João.  O próprio Jesus tinha colocado nele o nome de Pedro – a rocha (veja Jo 1:42).  Mas chamá-lo de Simão trazia à sua lembrança o homem anterior.  Naquele momento, Jesus estava restaurando Simão para que ele o capacitasse a chegar a ser Pedro.

É como se Jesus dissesse: eu te chamei para ser Pedro, e você por conta própria nunca vai fazer isso acontecer.  Só eu transformo vidas.

E por três vezes Jesus insistiu: — Tu me amas? (v. 15-17).  Aquela repetição desarmou o espírito de Simão e Jesus o restaurou (leia o verso 17). 

O ponto central mais uma vez é o amor.  A condição para que Simão Pedro cumprisse a missão de apascentar as ovelhas que Jesus lhe confiava não era sua personalidade ou seu ânimo impulsivo e voluntarioso, nem o seu perfil de liderança, era o amor (considere Jo 14:15). 

E foi com este amor que Jesus lhe restaurou.

 

Leia o início dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª parte – link
SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª partelink

 

* Na imagem lá em cima, uma arte pintada aqui em Aracaju na parede da IB Graça (@gracaigrejabatista), pelo Korea Graffiti (@korea.jpz).
Verdadeiramente divina!

 

sexta-feira, 22 de julho de 2022

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª parte

 SIMÃO PEDRO DE NOVO – PEIXE NA PRAIA

 

Volte à primeira parte dessa reflexãolink 

João continua a narrativa com o amanhecer do novo dia (em Jo 21:4).  Depois da noite frustrante, Jesus estava ali na praia, mas nenhum dos discípulos o reconheceu à princípio.

Na sequência do texto: Jesus perguntou sobre o que havia para comer, os pescadores assumiram que não tinham nada, mas resolveram atender à instrução de lançar mais uma vez as redes ao mar (acompanhe a leitura em Jo 21:5-6).

Somente com as redes completamente cheias é que perceberam que era Jesus quem falava com eles (veja o v. 7).  Pedro então, mais uma vez tomou a iniciativa e foi até à praia ao encontro com Jesus.

Tudo naquela situação era inesperado e surpreendente: Jesus na praia (v. 4), o número de peixes pescados já com dia alto (v. 6 e 11), haver peixes na brasa e pão na praia (v. 9) e a rede não ter se partido (v. 11).

Depois de Pedro, que seguiu na frente à nado, os outros pescadores também chegaram à margem e então Jesus estabeleceu um diálogo, do qual pelo menos duas lições podem ser extraídas:

Primeira.  Já havia peixe e pão na brasa (veja o verso 9).  Jesus Cristo os providenciara de antemão.  Mas mesmo assim ele pediu para trazer os peixes que haviam sido pescados (v. 10).  Jesus não precisava dos esforços dos pescadores – ele já tinha os peixes assados – mas mesmo assim queria contar com o esforço daqueles homens, e os valorizava.

Segunda.  Jesus os chamou para comer (leia no v. 12).  A cena deve ter trazido à memória o episódio da multiplicação de pães e peixes lá no início do ministério de Jesus (volte a Jo 6:1-13).  É como se Jesus, com isso, estivesse ensinando que ainda era o mesmo e continuava pronto para atender todas as necessidades daqueles que o seguissem.

 

Leia mais dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª partelink

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 3ª partelink