sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A PIEDADE QUE AGRADA A DEUS


Na história da humanidade, o ser humano sempre buscou praticar atos de piedade e religiosidade que representasse a sua busca em relação à divindade.
Lendo em minha Bíblia o capítulo 58 do livro da profecia de Isaías, parece-me é que o profeta tem esta percepção como pano de fundo para sua palavra.  Assim é que ele apresenta a palavra divina sobre qual é exatamente a prática da piedade – jejum – que agrada ao Senhor.
Tomando o jejum como exemplo, em primeiro lugar é preciso deixar claro que Deus não é contra atos de piedade ou jejum em si.  Em outras palavras, a religiosidade não ofende o Senhor nem afasta o adorador verdadeiro do seu trono.  Apenas que se cuide de o fazer do modo que agrade a ele.
No texto de Isaías, agrada mais a Deus a prática da justiça que os atos rituais (v. 6-7).  O Senhor busca fiéis que expressem em suas vidas diárias o senso de justiça e retidão que encontram no caráter do seu Deus.  Vida de oração e piedade sem comprometimento cristão não resulta em favor divino (veja ainda Mt 7:2).
O profeta também alerta para a necessidade de haver amor verdadeiro para com o próximo como credencial indispensável à prática da espiritualidade (v. 9).  O cuidado em preservar o direito do outro e tratá-lo como gostaria de ser tratado deve ser característica do fiel (veja ainda 2Ts 3:11 e Mt 22:39).
Por fim, o capítulo da profecia se refere à guarda do dia do Senhor como critério de piedade (v. 13).  Não que o Mestre faça diferença entre dia e dia; mas a verdade é que quando descuidamos de priorizar a busca do Senhor separando-lhe um tempo que seja particularmente seu, acabamos por fraquejar em nossa fé e piedade – não existe vida cristã sem exclusividade (veja ainda Hb 10:25).
Certamente nosso objetivo maior é encontrar nosso Pai divino e nos ver aceitos em sua presença, pois só assim alcançaremos sua mercê e graça.  Então que Deus nos faça piedosos e religiosos segundo o seu querer para sua glória.  Amém!

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A DOXOLOGIA DE JUDAS


A pequena Epístola de Judas, que em nossas Bíblias fica lá no finalzinho do NT, é uma das menos citadas e estudadas.  É até compreensível.  Ela tem relativamente pouco material – se comparada a outros escritores – e faz umas citações meio esquisitas: comenta uma disputa entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés e faz uma citação de Enoque (ambos não encontram paralelo em outras citações bíblicas).
Quanto ao seu autor, a tradição aponta esse Judas como sendo o irmão de Jesus.  Na verdade, esse era um nome bem comum no primeiro século na Palestina e não há nenhuma indicação inquestionável sobre quem seria ele.  O que se tem é uma citação de Eusébio na sua História Eclesiástica que aponta uma tradição do segundo século se referindo ao autor como sendo “Judas – dito irmão do Senhor pela carne”.
Vou deixar estas questões introdutória e me concentrar no que se tem de melhor neste pequeno escrito: a Doxologia com a qual ele conclui seu texto.

Àquele que é poderoso para impedi-los de cair
e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria,
ao único Deus, nosso Salvador, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre! Amém.


Quero analisar suas palavras.  Mas antes, deixe-me compreender o que é "Doxologia".  Segundo o dicionário, é uma fórmula litúrgica de arremate nas grandes orações (hinos, preces, versículos etc.) em que se glorifica a grandeza e majestade divinas.   E é isso mesmo que Judas faz aqui, ele arremata sua epístola com uma declaração que expressa a fé a convicção dos cristãos primitivos sobre quem é Deus e como devemos adorá-lo.
Duas palavras eu destaco como descrevendo o próprio Jesus Cristo. Poderoso (em grego: δυναμένῳ – nessa forma, particípio presente).  Dessa mesma raiz é a expressão do poder que foi outorgado aos discípulos na descida do Espírito Santo (confira At 1:8). 
A outra palavra é único (em grego: μόνῳ).  O livro da revelação do Apocalipse registra que os vencedores da besta entoavam o cântico de Moisés declarando ao Rei das nações que somente – o único – ele é santo (leia em Ap 15:4).
Judas reconhece que somente o que tem todo o poder para nos guardar dos tropeços e nos apresentar ao Pai imaculados pode merecer o louvor a ser declarado a seguir.
Então a ele seja…
Glória (em grego: δόξα) – literalmente: brilho, esplendor, fama, honra.  É essa mesma expressão que traduz a glória de Senhor que encheu o templo quando Salomão o inaugurou (veja 2Cr 7:1 – veja também no mesmo sentido Ap 15:8).  Ainda foi a fumaça de glória que estava no louvor dos serafins e impactou Isaías (confira Is 6:3).
Majestade (em grego: μεγαλωσύνη) – literalmente: grandeza.  O autor aos Hebreus usa essa expressão para se referir ao lugar de destaque e majestade onde fica o trono do Deus (em Hb 8:1).  E o Salmo 150 instrui a louvar ao Senhor por sua grandeza (Sl 150:2).
Poder (em grego: κράτος) – literalmente: força, governo.  Com essa palavra os gregos antigos se referiam às suas cidades-estado.  Apresentando a armadura de Deus, o apóstolo reconhece que somente sob o governo e poder do Senhor é que seremos fortalecidos (leia em Ef 6:10).
Autoridade (em grego: ἐξουσία) – literalmente: poder, domínio, jurisdição.  É com essa palavra que Mateus descreve toda a autoridade que o próprio Jesus declara estar em seu controle no céu e na terra (confira em Mt 28:18).

Então eu me somo a Judas na adoração a Jesus Cristo, Senhor nosso, por toda eternidade, declarando o AMÉM solene (Αμήν – אמן).

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

DAVI E O GIGANTE


A história do confronto entre o gigante Golias e o pequenino pastor Davi é uma daquelas que aprendemos desde criança nas classes de Escola Bíblica e que por diversos caminhos se tornaram conhecidas e citadas até fora de círculos cristãos e religiosos – ela está descrita em 1Sm 17.
Sua leitura, porém, sempre pode trazer novas lições para a nossa vida.  E se compreendermos a história como um modelo de batalha espiritual, então realmente teremos muito que aprender.  Por isso proponho aqui voltar os olhos para ela e buscar descobrir o segredo da vitória do menino Davi.
O verso 20 diz: levantando-se de madrugada... Aqui está o primeiro segredo da vitória de Davi.  Tudo começa numa madrugada quando ele se levantou e entrou na história.  Quando entro na história pelas madrugadas, posso lograr os mesmos êxitos.  Mas sabe o que mais a madrugada de Davi ensina?
Obediência.  Jessé tinha instruído a Davi para que ele fosse ao acampamento de guerra levar provisões para seus irmãos e em obediência o caçula levantou-se de madrugada.  A madrugada do cristão tem que ser fruto de uma vida obediente ao Senhor.  Em Lc 5:5 os discípulos, resignados, lançaram as redes apenas por que Jesus havia ordenado; e elas se encheram de peixes.
Antecipação.  Antes de saber o que aconteceria na frente de batalha, Davi se levantou de madrugada.  Se tenho uma luta a travar, preciso antes de enfrentá-la estar de pé nas madrugadas.  A instrução em Ef 6:11 é para estarmos alerta para quando a cilada me for lançada, de antemão já possa resistir.
Preparação.  Davi saiu logo cedo, mas deixou um outro pastor tomando contas das ovelhas de seu pai.  A busca pelo Senhor nas madrugadas não é desculpa para o relaxamento e a irresponsabilidade.  Na parábola contada em Mt 25:1-13 Jesus conta que cinco entre as virgens se prepararam antecipadamente e foram recompensadas.
Como Davi, quando o crente se levanta de madrugada ele se prepara adequadamente diante do Senhor para a batalha espiritual que deverá enfrentar, e a vitória é certa.
Mas a história não se encerra na madrugada.  A luta ainda está para ser travada.  Davi se levantou logo de madrugada e foi em direção ao desafio que nem ao certo sabia qual era. 
No momento seguinte, depois de se inteirar da situação e da afronta do gigante, o pastorzinho se dispôs a enfrentar o gigante e foi a uma audiência com o rei Saul (1Sm 17:31-40).  Mais uma vez a atitude de Davi indica como proceder diante da batalha espiritual que havemos de travar.
O texto diz que o rei ofereceu sua própria armadura, Davi a vestiu mas percebeu que não conseguiria guerrear com ela, foi então que decidiu usar a própria funda. 
Que lições podemos tirar deste evento?
Veja em primeiro lugar que a atitude do rei foi correta.  Não se pode ir a uma batalha sem o equipamento necessário, e para Davi foi oferecida a melhor.  Lá no NT, Paulo vai instruir a tomar toda a armadura de Deus (Ef 6:10-20) para que possamos enfrentar as astutas ciladas do diabo. 
É insensatez partir para a luta sem os cuidados necessários e por isto todo cristão que sabe das lutas a travar precisar se revestir da armadura espiritual.
Agora observem um detalhe importante.  Aquela armadura era de Saul e não se ajustou a Davi.  Isto me leva a compreender uma verdade importantíssima.  Nem tudo que serve para os outros é adequado para mim. 
Algumas vezes nos guiamos pelas experiências dos outros – que embora sejam boas e úteis, mas não são as minhas – e elas não vão se encaixar na minha realidade de vida cristã.  Davi se fez valer da própria funda a qual já estava acostumada a manejar.  O que se enquadra com a instrução de Ec 9:10 – Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.
Agora que o confronto é inevitável, pois já estamos no meio da batalha, vamos nos preparar adequadamente, usando aquilo que o próprio Senhor colocou em nossas mãos e nos adestrou para usar.
Ainda não acabou.
Acompanhando o pequenino guerreiro Davi, já levantei de madrugada para orar, já empunhei a armadura adequada para o combate, e agora chegou o momento de encarar o gigante que me desafia.  Lembre que em 1Sm 17:10 é dito que Golias afrontou o exército de Israel, e no v. 25 os israelitas demonstram medo diante da afronta.
Agora estão frente a frente o gigante militar Golias – totalmente armando – e o pequenino pastor Davi – apenas dispondo de sua funda.
Quando Golias viu seu oponente não se conteve em deboche: sou eu algum cão, para vires a mim com paus? (v. 43). 
A diferença entre os dois era visível: um era grande e guerreiro experiente, o outro miúdo e delgado.  Esta é uma boa ilustração de nossa batalha espiritual: meu adversário é grande e astuto em táticas de combate (1Pe 5:8), de mim mesmo nada posso nesta luta.
Mas é bom notar que isto não assustou nosso campeão. 
Sabendo-se incapaz de vencer, Davi apela para a única força que, sendo invencível, poderia lhe trazer a vitória: vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos (v. 45).  Aqui está todo o segredo da conquista de Davi. 
É importante levantar de madrugada – mas não é garantia de vitória.  É necessário tomar a armadura – também não é garantia.  A luta só é ganha quando é lutada no poder que há no nome do Senhor. 
Veja que Jesus assumiu para si todo o poder (Mt 28:18) e somente a este nome todo joelho se dobrará (Fl 2:10).
Sem dúvida alguma, nossas batalhas são enormes e desafiadoras, e nós ainda teremos de enfrentá-las com coragem e disposição.  Contudo se a travarmos exclusivamente no poder que há no nome do Senhor Jesus, alcançaremos a vitória. 
Para a glória do nosso Deus.
(Na imagem lá em cima: afresco de Michelangelo Buonarroti pintado em 1509 na Capela Sistina - Vaticano)

terça-feira, 8 de outubro de 2019

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – Fenomenologia ou História?


Nos estudos das Ciências da Religião, Fenomenologia e História das Religiões apresentam-se como duas perspectivas de abordagem completamente distintas enquanto estudo humano, social ou individual.  Embora trabalhem como o mesmo “objeto” de pesquisa, as duas disciplinas partem de pressupostos distintos e de metodologias opostas na tentativa de descrever, classificar e compreender a religião.

Veja o que cada uma propõe:

→ A Fenomenologia entende a religião como um φαινόμενος – algo universal e totalmente perceptível e demonstrável. 
Ela busca sempre um objetivismo ontológico da sacralidade.  Ou seja, tirando a religião da história, busca compreendê-la como algo que pode ser percebido a priori e cujos pressupostos podem ser detectáveis de maneira clara e inequívoca em toda e qualquer manifestação – fenômeno – religiosa, independente dos fatores históricos, sociais e culturais que o envolvam. 
Para a Fenomenologia, o sagrado e o transcendente se impõem como características essencialmente humanas universalmente aceitas.  Neste sentido, tanto a própria religião quanto as suas manifestações podem ser estudadas enquanto fenômenos humanos em si como um objeto quase natural preexistindo à própria história. 
E indo além, é como se houve em um ponto remoto da própria história humana uma única religião que deu origem a todas as outras e cujos pressupostos podem ainda ser identificados em quaisquer fenômenos religiosos ainda hoje observados.
Um outro aspecto é que a Fenomenologia, por entender a transcendência e o sagrado como pressupostos universais, se pretende com alheia a qualquer interferência etnocêntrica em seus estudos.

→ A História das Religiões concebe a mesma como γενόμενος – resultado de processos historicamente variáveis tanto na sua formação como no seu desenvolvimento e alinhamento histórico e cultural.
Assim, as Ciências da Religião, enquanto estudo baseado na História das Religiões, traça seu escopo de trabalho a partir de uma comparação histórica dos processos de formação social e cultural dos povos, logo, se propõe a aceitar a religião a partir de se suas realizações sociais e culturais, precisando ser sempre mediada e avaliada a partir dos conceitos etnocêntricos do próprio trabalho de estudo histórico.
Ou seja, interagindo entre as Ciências Humanas, a História das Religiões problematiza o próprio conceito e categorias de “religião” como algo que só ocorre enquanto evento resultado das relações históricas e culturais, estando, portanto, dependente destes. 
E mais: ela apenas a concebendo enquanto manifestação histórica vinculada ao desenrolar das demais eventos históricos, sociais e culturais – nunca como buscará compreender, nem aceitar o sagrado como algo único ou sobrenatural, mas plural, como são as próprias manifestações histórico-culturais da humanidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Doenças da Alma – HIPOCONDRIA


Nesta série de reflexões sobre Doenças da Alma analisamos mais de uma dezena de doenças, moléstias e transtornos causados por infestação de agentes externos ou por descuidados que infligimos em nós mesmos.  Males que têm raízes genéticas ou nos são trazidos pelo mundo que jaz no maligno e que nos rodeia.  Todas doenças que afligem o ser humano, obra-prima de Deus e, por isso, são males que os maculam, entortam, enfeiam, sujam e danificam por inteiro.
Em cada caso estudado, buscamos ir além da informação técnico-científica para tentar entender como uma moléstia assim adoece mulheres e homens, começando por macular sua alma e contaminando toda sua vida, sua fé, seus relacionamentos, sanidade e santidade.  Contudo, o mais importante foi buscar a cura para cada doença no receituário revelado e se deixar ser curado por aquele que é tanto o médico como o próprio remédio: o que dá a vida pelos seus (confirme esta doação em Jo 10:11).
Assim, pretendo trazer, propositadamente, para concluir a série, uma reflexão sobre a hipocondria – que eu vou chamar aqui de a doença das doenças, ou mania de doença.  Segundo o Hospital Israelita A. Einstein, hipocondria é uma obsessão com a ideia de ter um problema médico grave, mas não diagnosticado.
Muita gente vai considerar este problema como sintoma de maluquice, transtorno de quem só quer chamar a atenção, estresse, insegurança ou outra coisa o valha.  E estas atitudes podem tanto ter uma pitada de preconceito, como disfarçar uma boa dose de verdade.
Mas a doença é real.  Quem sofre com ela se vê angustiado pela possibilidade de uma tosse ser prenúncio de tuberculose, uma coceira ser diagnosticada como melanoma ou ainda uma palpitação como sintoma de grave disfunção coronária.
A tosse, a coceira e a palpitação não são inventadas.  Elas realmente estão lá causando transtornos.  Mas a preocupação desmedida de que sintomas pequenos indiquem algo grave leva o paciente a uma via crucis atrás de médicos especialistas, exames detalhados e novos diagnósticos, nunca se satisfazendo com os resultados indicados e aumentando a angústia, num círculo vicioso e ciclo infindável e crescente de doença.
Diante de tal quadro, constatamos que muitos cristãos padecem de sério problema de hipocondria espiritual e têm sua alma doente com sintomas superdimensionados e males cuja solução podem ser facilmente obtida, mas que acarretam dores e traumas terríveis que os acompanham por toda uma sofrida existência.
Um cristão hipocondríaco nunca é capaz de crer realmente que os inconvenientes fazem parte da vida – ele sempre acha ainda que precisa da bênção completa!  Ele é incapaz de entender que, embora real e algumas vezes dolorosas, a leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente (e como traz cura o texto de 2Co 4:17!).
É preciso desenvolver a fé para crer que a tosse é apenas uma irritação inconsequente e que não indica infecção espiritual – o Espírito continua ventilando a alma (Jo 20:22).  A coceira pode ser apenas a vida se renovando e devolvendo-lhe a força da juventude espiritual – o vigor e a beleza da tez espiritual estão se refazendo (Sl 103:5).  A palpitação, com certeza, é a alma se preparando para águas mais profundas – lá onde a pesca é maravilhosa (Lc 5:4).
E não há outra citação com a qual eu possa concluir esta série de reflexões sobre doenças da alma que nos afligem nesta caminhada cristã – ou especificamente sobre qualquer mania de doença que se venha a deixar contaminar a alma: é a certeza profética, proferida e cumprida gloriosamente.
Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e sobre si levou as nossas doenças, contudo nós o consideramos castigado por Deus, por ele atingido e afligido.  Mas ele foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados (Is 53:4-5).

terça-feira, 1 de outubro de 2019

NADA VAI SEPARAR – segunda lista


Depois de ter analisado as circunstâncias que o apóstolo Paulo listou daquilo que tenta nos separar do amor de Cristo (reveja a primeira lista aqui - link).  Retomo agora a relação apostólica apresentada no capítulo oito da Carta aos Romanos.

→ Segunda lista (agora os versos 38 e 39):
# Morte (θάνατος) – os gregos usavam este termo para se referir ao fim ou destino tanto da vida físico-biológica como espiritual-moral.  Mas sempre haverá a certa esperança de que a morte já foi tragada pela vitória da Cruz (o mesmo Paulo em 1Co 15:54).
# Vida (ζωή) – no dicionário da língua grega a definição deste termo é o tempo de vida de um organismo e, em particular, um ser humano (do nascimento até a morte ou outro ponto do tempo).  Que é a vossa vida?  É a pergunta retórica que Tiago faz para nos alertar sobre a necessidade de dependência de Deus em todo e cada plano de nossa existência (atente para Tg 4:14).
# Anjo (ἄγγελος) – Strong define esta palavra como um termo técnico significando, nas páginas da Bíblia, um mensageiro, geralmente um mensageiro (sobrenatural) de Deus, um anjo, transmitindo notícias ou ordens de Deus para os homens.  Nossa fé deve se basear na certeza de que Cristo está sentado no trono e que ele – somente ele – haverá de pisar em seus inimigos como estrado dos seus pés e que os anjos nada são que espíritos ministradores (conforme Hb 1:5-14).
# Principado (ἀρχή) – literalmente, de acordo com o dicionário: o princípio, o começo, o inicio, daí: aquele que é – ou se pretende – antes dos demais, acima de tudo, acima de tudo.  Também é na Cruz que temos a garantia de que todo principado já foi subjugado (confira em Cl 2:15).
# Coisas do presente (ἐνίστημι – aqui, particípio perfeito) – na raiz da palavra: colocar em.  Assim: aquilo que está aí, diante de.  Mais uma vez a Cruz.  Nossa garantia está em que Cristo se entregou a si mesmo para que não mais estivéssemos sob o poder deste tempo presente (declarado em Gl 1:4).
# Porvir (μέλλω) – o dicionário diz: o que está por vir: o que vai acontecer.  Ao ordenar que o vidente João escrevesse o Apocalipse, Aquele que vive pelos séculos dos séculos assumiu que as coisas que ainda hão acontecer, o porvir, estão sob seu controle absoluto (leia Ap 1:18-19).
# Poder (δύναμις) – esta palavra tanto pode implicar poder e força como habilidade e capacidade.  Os poderes deste mundo até simulam ser divinos e grandiosos, mas na verdade não passam de ilusão (como foi o caso de Simão em At 8:10-11).
# Altura (ὕψωμα) – o grego moderno usa esta palavra para indicar uma colina ou área de maior elevação.  Paulo escrevendo aos coríntios usa em sentido figurado apontando que nossas armas espirituais combatem toda altivez contra o conhecimento de Deus (em 2Co 10:4-5).
# Profundidade (βάθος) – propriamente, profundeza, ou mais: o que vai além da superfície.  Mesmo a mais profunda pobreza não é capaz de nos impedir de vivenciar o amor de Deus e compartilhar a sua misericórdia (veja o caso dos irmãos da Macedônia que mostraram generosidade – citado em 2Co 8:2).
# Qualquer outra criatura (τις κτίσις ἑτέρα) – o fraseado expressa a ideia do conjunto da criação, ou seja, qualquer outra coisa criada, mesmo alguma que não tenha sido citada.  Paulo resume assim, não dando margem para que nada fique fora de sua lista.

Então, voltando um pouco a leitura no capítulo oito, eu posso ter por certo que nada pode me separar do amor Cristo porque, embora toda a criação esteja sujeita à vaidade ainda hoje, mas na revelação dos filhos de Deus, no grande dia, todas estas forças e circunstancias estarão redimidas do cativeiro da corrupção e em nós se revelará a glória dos filhos de Deus (leia Rm 8:18-25)
Sim.  Nada vai nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.  Aleluia!!!

terça-feira, 24 de setembro de 2019

NADA VAI SEPARAR – primeira lista


Recentemente, numa reflexão eu fui levado a concluir que, por estarmos unidos a Cristo, somos mais que vencedores.  Não é apenas uma vitória simples; é a conquista completa que nos está reservada, afinal, a morte foi destruída pela vitória (leia toda a reflexão aqui).  Ali eu tomei como base as afirmações de Paulo escritas aos Romanos (no capítulo oito).

Revendo o texto, é fácil notar duas listas de situações que aparentemente poderiam nos separar do amor de Cristo.  Resolvi então atentar com um pouco de cuidado para cada uma das situações citadas pelo apóstolo.

Deixe-me compartilhar um pouco do que descobri.



→ Primeira lista (verso 35):

# Tribulação (θλῖψις) – segundo Strong: perseguição, aflição, angústia, tribulação.  Da mesma raiz do verbo oprimir, pressionar.  Jesus disse que o mundo nos empurraria para baixo mas que no fim a vitória chegaria (confira Jo 16:33).

# Angústia (στενοχωρία) – no léxico: aflição, dificuldade, problema.  A palavra grega relaciona o sentido desta expressão com a sensação de falta de espaço, sufocamento, confinamento.  O próprio Paulo afirma que a angústia sofrida por amor de Cristo pode motivar alegria e força (em 2Co 12:10).

# Perseguição (διωγμός) – estritamente no dicionário se diz de uma perseguição por motivos religiosos ou morais.  O mesmo Paulo afirma que há glória diante da igreja quando ela mantém a fé mesmo diante das perseguições (em 2Ts 1:4).

# Fome (λιμός) – mais do que apenas uma falta momentânea de alimento, o sentido é de muita fome devido à falta de comida em uma área, daí também carestia.  Lucas assim se refere ao período de escassez vivido em Israel quando o profeta Elias foi à viúva de Serepta e fez seu azeite multiplicar milagrosamente (leia em Lc 4:25).

# Nudez (γυμνότης) – tanto num sentido de absolutamente nu (como em Mc 14:52) como se referindo a alguém pobremente vestido (como em Tg 2:15).  Escrevendo à rica Igreja de Laodiceia, o Amém aconselha a comprar dele mesmo roupas brancas para que se cubra a sua nudez (em Ap 3:18).

# Perigo (κίνδυνος) – Strong se refere a risco, e o sítio wiktionary.org fala de qualquer possibilidade de perda ou dano (vida ou propriedade).  Apresentando seu currículo missionário aos coríntios, Paulo diz que viveu sempre diante de perigos, mas foi nessa situação que ele entendeu seu ministério (acompanhe a lista em 2Co 11:23-30).

# Espada (μάχαιρα) – o termo remete a um sabre ou adaga usada para duelo e que provoca uma morte cruel e violenta.  O autor aos Hebreus diz que vários herois do passado vivenciaram poder escapar do fio da espada pela fé (em Hb 11:34).



Antes que lista fique grande demais, vou limitar a relação aqui ao verso 35.  Ainda há mais empecilhos que tentam nos separar do amor de Deus em Cristo, e Paulo continua listando nos versos 38 e 39 a seguir.

Veja no próximo post a segunda lista (link aqui).

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

DE ESCRAVO A IRMÃO CARÍSSIMO – Lendo a Epístola a Filemon


Eis o objetivo principal da Epístola a Filemon: o problema entre o rico Filemon e escravo Onésimo, ambos cristãos. 
Depois de introduzir apresentando-se como prisioneiro de Cristo Jesus e uma palavra de ações de graças pela fé e amor do destinatário, Paulo chega finalmente ao âmago da questão, e o faz de maneira enfática – mesmo não se utilizando de sua autoridade apostólica para ordenar – servindo-se apenas de paralelismo e jogo de palavras riquíssimos.
Vamos trabalhar um pouco com elas – as palavras.
Para provar que realmente houve uma mudança, Paulo joga com o significado do nome Onésimo (Ὀνήσιμος – literalmente: aquele que dá lucro – v. 11).  Ele, que tinha sido inútil (ἄχρηστος), agora, após o contato com o evangelho, tornou-se útil (εὔχρηστος), ou seja, apto para exercer as funções que lhe fossem atribuídas.
Mas a principal diferença entre o antes e o depois do evangelho está em como este serviço seria prestado: antes ele era escravo (δοῦλος – v. 16) mas agora seu trabalho consistia num serviço voluntário (διακονέω – v. 13 – aqui na forma verbal: servir), serviço este que é a base das relações cristãs, e que exige reciprocidade.
Tudo indica que Paulo tinha em mente fazer com Onésimo o que era feito com os libertos da sociedade romana.  Ainda que esta libertação fosse inter amicus, ou seja, sem a intermediação jurídica, o que o apóstolo queria era habilitá-lo a trabalhar como sócio de Filemon – situação prevista na lei romanos acerca dos escravos.  
A Vulgata Latina ajuda a entender este ponto de vista ao se referir ao serviço de Onésimo (v. 13) como ministreret pois era o que se esperava de um carissimum fratum ... et in carne et in Domino (veja o v. 16).  E aqui há indicação segura da lei romana de que a libertação e alforria legal de um escravo consistia inclusive em considerá-lo com sendo igual ao seu senhor perante a sociedade.
Há um outro ponto de vista importante a ser observado: a origem judaica de Paulo.  Ele certamente conhecia os preceitos bíblicos de que um escravo, ao ser liberto deveria lhe ser concedido sustento para o ajudar a começar a viver em liberdade (leia Dt 15:12-14).
Então Paulo apela para que a dívida de Onésimo fosse colocada na sua conta, e também pede para que este seja aceito e que uma dívida de Filemon para com Paulo fosse creditada a Onésimo.  É provável que daí saísse os proventos necessários para começar vida nova.
Sem dúvida, porém, tudo leva a crer que o apóstolo estava indicando uma aplicação direta e prática de Gl 3:28 onde fala na igualdade de todos dentro da comunidade cristã, logo não deve haver nem escravos nem livres (οὐκ ἔνι δοῦλος οὐδὲ ἐλεύθερος – observe que esta última palavra está ausente da Epístola a Filemon).  Isso tudo, contudo, baseado na suprema lei do amor.
Os números da época nos informam que no primeiro século – quando Paulo escreveu a Filemon – havia no Império Romano cerca de 70 milhões de escravos, e esta enorme quantidade de homens, mulheres e crianças à margem das oportunidades do processo social era, sem dúvida, um contingente expressivo capaz de, por uma revolução sangrenta, derrubar o império se houvesse quem os liderasse. 
Na visão cristã paulina, contudo, isso não resolveria o problema das desigualdades sociais: apenas mudaria de foco.  O apóstolo tinha a certeza de que somente um ser humano novo, influenciando a sua comunidade pode produzir relacionamentos inter-humanos novos e assim construir toda uma nova sociedade.  Ou seja, a solução só chegaria através da força revolucionária do amor cristão: através de homens e mulheres que encarnassem o amor a partir de suas comunidades.
Assim é que, lendo a Epístola a Filemon, ela desponta como um desafio emergente para a igreja de Cristo.  A igreja precisa descobrir onde ainda imperam as desigualdades entre os seres humanos para ali injetar uma dose de amor cristão.  Onde há escravos que precisam ser alcançados e transformados em irmãos caríssimos.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

DE LAS CASAS E AS VOZES DISCORDANTES LATINO-AMERICANAS


As relações entre a Igreja e o Estado, com a chegada dos cristãos ibéricos à América Latina no século XVI, embora se mostrassem hegemônicas e legitimadas por ambos os lados – Estado e Igreja – não eram unanimidades.  Diversas vozes discordantes se fizeram soar no Novo Mundo, procurando estabelecer novas relações onde os valores cristãos não estivesses submissos aos ditames monárquicos nem as ações dos reis carentes de aprovação eclesiástica.
Como no Brasil a efetiva ocupação por parte dos colonizadores portugueses só veio acontecer bem depois, então, consequentemente, as vozes levantadas por aqui só começaram a aparecer também depois.  Os primeiros a se destacarem são os nomes do padre jesuíta Antônio Vieira que nas suas pregações advogava a defesa dos índios contra a exploração dos portugueses.  O outro nome entre os brasileiros é o do poeta barroco baiano Gregório de Matos Guerra que como sua poesia criticou toda a sociedade contemporânea, inclusive os prelados que, segundo o poeta, estavam envolvida em escândalos incontáveis.
Assim, as únicas vozes discordantes ouvidas no século XVI na América Latina são dos padres espanhóis e o principal nome entre eles certamente é o de Bartolomeu de las Casas. 
De las Casas nasceu Sevilha / Espanha em 1484 e veio para a América em 1502 como encomendeiro junto com a segunda viagem de Cristóvão Colombo. 
Em 1507 tornou-se sacerdote dominicano e em 1511, ouvindo um sermão pregado pelo Frei António de Montesinos, no qual defendia a dignidade dos indígenas, De las Casas se sentiu profundamente impactado e, a partir daí, passou a defender os direitos dos índios. 
Entre os principais textos do dominicano, dois destaques: (1) Brevísima Relación de la Destruición de las Indias Ocidentales (publicado em 1542) que ele dedicou ao príncipe Felipe II de España e no qual ele denuncia os maus-tratos e atrocidades cometidas contra os povos indígenas das Américas nos tempos coloniais; e (2) Historia de las Indias (que começou a escrever em 1527 e se ocupou dela nos 35 anos seguintes).
Bartolomeu de las Casas chegou a ocupar o bispado de Chiapas, no México em 1544, de onde ele pregou a sua nova mensagem e tentou convencer as autoridades espanholas de que a exploração dos nativos era contrária aos ensinos cristãos defendidos pelos católicos.  Mas ele não logrou êxito em seu intento de convencer nem as autoridades políticas nem eclesiásticas.
Devido a perseguições, De las Casas precisou voltar a Espanha em 1547 onde tentou continuar sua missão, e acabou falecendo em 1566 sendo posteriormente conhecido como o primeiro sacerdote das Américas e o Apóstolo dos Índios e como o Procurador e Protetor Universal de Todos os Índios.
Uma citação pode enriquecer nossa compreensão destas vozes discordantes latino-americanas.  As palavras a seguir dão de uma pregação feita por António de Montesinos no quarto domingo do Advento de 1521, aqui na versão narrada pelo próprio Bartolomeu de las Casas:

Todos estais em pecado mortal e neles viveis e morreis, pela crueldade e tirania que usais com esta gente inocente.  Dizei: com que direito e com que justiça tendes estes índios em servidão tão cruel e horrível?  Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam  em suas terras mansas e pacíficas, em que haveis consumido tantas delas com morte e estragos nunca ouvidos?  Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhe de comer nem curá-los em suas enfermidades, que dos excessivos trabalhos, com que os carregais morrem, ou melhor, vós os matais, para tirar e adquirir mais ouro cada dia?  Que cuidado tendes de quem os doutrine e conheçam a seu Deus e criador, sejam batizados, ouçam missa, guardem as festas e domingos?  Eles não são homens?  Não têm almas racionais?  Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos?  Não entendeis isso?  Não sentis?  Como estais adormecidos de um sonho tão letárgico?  Tendes por certo, que no estado que estais não podeis vos salvar mais que os mouros ou os turcos que precisam e não querem a fé em Jesus Cristo.

(Na imagem lá em cima, Frei Bartolomeu de las Casas retratado pelo pintor mexicano Félix Parra em 1875 - fonte: wikipedia.com)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Doenças da Alma – ANEMIA


Há ainda uma doença da alma que deve requerer toda a nossa atenção e cuidado: a anemia.  E em nosso caso, tal cuidado e atenção é mais que justificável, uma vez que é um mal relacionado ao sangue – e não tem desvincular o sangue de nossa vida e fé!
Mas eu volto já ao sangue.  Por ora é preciso dar a palavra aos especialistas para que entendamos melhor do que se trata a anemia. 
De acordo com o Hemocentro da Unicamp, o termo anemia indica qualquer doença em que há uma redução da massa (ou quantidade) total de glóbulos vermelhos em um indivíduo.
E aqui está a maior problemática da anemia, como os glóbulos vermelhos são responsáveis pelo transporte do oxigênio para os tecidos, esta redução leva a uma menor liberação de oxigênio para todos os órgãos.
Em resumo: quando falta sangue – ou qualidade a ele – a vida corre risco.  E isso pode acontecer de tal maneira lenta ao longo da vida, que nem sentimos que já estamos morrendo, tentando se adaptar à vida rala, fraca e pobre de nutrientes e oxigênio.
Então, voltemos ao sangue.  No Livro da Lei nós lemos claramente que a vida da carne está no sangue (em Lv 17:11).  Só que com a Nova Aliança feita no Calvário, o sangue passou a ter para nós uma dimensão espiritual bem mais significativa.  Assim, a anemia da alma é muito mais grave e traz prejuízos mais danosos que a carência de glóbulos no sangue que irriga a carne.
É o sangue do Calvário que unicamente nos outorga vida.  Fomos perdoados, resgatados, remidos, salvos pelo sangue do Cordeiro pascal.  E se acha que é exagero, lembre o que diz a visão do Apocalipse: Bem-aventurados todos os que lavam as suas roupas no sangue do Cordeiro, e assim ganham o direito à árvore da vida, e podem adentrar na Cidade através de seus portais (Ap 22:14).
Na linguagem simbólica da profecia está a afirmação de que somente pelo sangue do Cordeiro é que poderemos adentrar nos portais eternos.
Agora, note a terrível complicação que é quando um cristão passa a ter anemia espiritual e já não lhe corre nas veias espirituais o sangue do Cordeiro na quantidade ou na forma adequada!
É claro que não vou questionar aqui a qualidade do sangue que recebemos diretamente da fonte sagrada, mas quando nossa dieta alimentar espiritual não está adequada ou há ferimentos em nossa alma que estão deixando o precioso sangue escorrer, então toda a nossa vida espiritual está correndo sérios riscos.
Que fazer então? É o próprio Jesus que dá a indicação ao se oferecer única e eternamente por nós: quem beber o meu sangue tem a vida eterna (Jo 6:54).  Para ter saúde e vida espiritual é preciso vencer a anemia da alma.  E no memorial da Ceia do Senhor relembramos e celebramos a transfusão espiritual que recebemos como resultado da graça infinita.
Bebem dele todos vocês.  Isso é o meu sangue da aliança (Mt 25:26-27).
Vou insistir no sentido memorial e simbólico da Ceia – assim como já fiz com o Apocalipse.  A vida não está no vinho, nem há sacralidade nele que me cure da anemia da alma.  Mas ele atiça meu senso espiritual de dependência daquele que me comprou pelo preço de seu sangue (devo citar aqui Ap 5:9).
Sem o sangue do Cordeiro correndo em minhas veias espirituais o que me resta é anemia e falta de oxigenação e nutrientes em todos os órgãos e tecidos que compõem minha vida espiritual.  E aos poucos vou até me acostumando a essa vida espiritual raquítica – mas realmente vou definhando até que já não reste mais vida em mim.
Mas o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado (palavras de 1Jo 1:7).  É esta purificação – transfusão – que eu celebro solene e alegremente na Ceia que me garante saúde e vida espiritual nutrida e saudável.