terça-feira, 31 de março de 2020

BONHOEFFER – Teólogo e Pastor


Dietrich Bonhoeffer nasceu em 04/02/1906 em Breslau na Alemanha junto com sua irmã gêmea Sabine, oitavo filho de Karl Ludwig, um médico psiquiatra e neurologista de renome e de Paula von Hase, filha de um pastor-capelão do imperador da Prússia. 
Com seis anos de idade seu pai mudou-se para Berlim onde foi trabalhar na Universidade, o que favoreceu ao jovem Dietrich as condições de uma educação refinada e aristocrata. 
Aos dezesseis anos Bonhoeffer decidiu cursar teologia e seguir a carreira pastoral.  Começou cursando em Tübingen em 1923 mas logo retomou seus estudos em Berlim onde foi aluno dos principais mestres da chamada Teologia Liberal alemã – entre eles A. Harnack que ficou impressionado com o brilhantismo do jovem aluno.
No ano de 1927 conclui a graduação em Teologia com a publicação de sua dissertação: Sanctorum Communio.  No mesmo ano Bonhoeffer seguiu para Barcelona, na Espanha, onde dirigiria uma comunidade luterana de língua alemã e em 1929 retornou para Berlim com o objetivo de se habilitar para o ensino com a publicação de sua segunda tese: Ato e Ser. 
A tese foi aprovada, mas antes de assumir a cadeira de Teologia Sistemática na Universidade de Berlim, Bonhoeffer foi enviado aos Estados Unidos onde ele iria entrar em contado com a igreja americana, uma igreja que ele mesmo classificou como “protestantismo sem reforma”.
De volta a Europa, o teólogo alemão assumiu sua cadeira em Berlim onde exerceu profunda influência espiritual e intelectual sobre os estudantes.  Neste mesmo período conheceu pessoalmente o suíço Karl Barth e se envolveu com trabalhos pastorais e de capelania com estudantes e operários. 
Em 1933 Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha e Bonhoeffer marcou posição contra o nacional-socialismo alemão e a igreja oficial dos “irmãos alemães” junto com a chamada Igreja Confessante Alemã.  Este posicionamento determinaria o destino teológico e pessoal de Dietrich Bonhoeffer.  Como pensador cristão, ele deixaria definitivamente a linha filosófico-especulativa partindo para um trabalho mais engajado e militante; e como líder espiritual, lideraria os jovens alemães que buscavam se dedicar aos trabalhos pastorais.
A sua grande obra deste período foi a publicação em 1937 de Nochfolge (em português: Discipulado) e que tratou do que Bonhoeffer considerou ser a grande falha do cristianismo alemão: a graça barata.  Contudo já a partir de 1935 o compromisso com o Seminário de Finkenwalde ofereceu a Bonhoeffer a oportunidade de execução de sua principal obra: casar as experiências de teólogo-acadêmico com o trabalho pastoral ocupado com a vida comum, fé e espiritualidade dos formandos. 
É do testemunho dos tempos de vida comunitária em Finkenwalde que os exemplos deixados marcarão profundamente toda uma geração de pastores da Alemanha.  Mas foram também as experiências de Finkenwalde e o compromisso com o cristianismo ali vivido que forjaram o conceito de compromisso do cristão com o mundo e seus destinos – marca característica da teologia de Bonhoeffer – e o levaram às últimas consequências.
Ainda neste período, Bonhoeffer se propôs a escrever sobre a ética, obra para a qual esboçou escritos mas não conseguiu concluir.  Em 1949, contudo, seu amigo pessoal Eberhard Bethge reuniu seus escritos publicando o material. 
Também demonstrou a intenção de escrever algo sobre o que ele chamaria de Inventário do Cristianismo, conforme citou nas suas cartas da prisão, no qual daria ênfase ao culto.
A partir de 1936 a situação de Bonhoeffer se complicou.  Primeiro lhe foi cassado o direito de lecionar em Berlim por suas posições declaradas antinazistas e seu envolvimento em ações de resistência política e militar contra o regime; e depois com o Seminário de Finkenwalde que foi proibido de funcionar.  Neste momento lhe foi conseguido uma saída da Alemanha para ocupar o pastorado da uma paróquia em Londres, mas Bonhoeffer se recusou com as seguintes palavras:
Não só é meu dever ocupar-me das vítimas deixadas no chão por um louco que dirige desvairadamente um carro por uma estrada abarrotada, mas também fazer de tudo para impedi-lo de dirigir.
Em 05/04/1943, Bonhoeffer foi preso sob a acusação de cooperação num atentado contra Hitler.  Primeiro ficou detido numa prisão em Tegel, de onde escreveu a maioria dos escritos que depois comporão a obra Widerstand und Ergebung (em português: Resistência e Submissão) depois foi transferido para o Campo de Concentração de Buchewald em fevereiro de 1945 e no domingo 8 de abril, enquanto exercia atividade pastoral para os presos, pregando um sermão, Bonhoeffer foi levado para ser enforcado no dia seguinte. 
As últimas palavras do pastor Dietrich Bonhoeffer na atividade litúrgica a que se dedicara como compromisso vital foram emblemáticas, nelas ele pediu ao capitão Payne Best (oficial do serviço secreto britânico) para transmitir ao Bispo de Chichester – George Bell sua certeza:
Conte a ele que para mim é o fim, mas também o início. Com ele eu creio no princípio de nossa fraternidade cristã universal que se ergue acima de todo o ódio nacional e que a nossa vitória é certa - conte a ele que eu nunca esqueci suas palavras da nossa última reunião.
Sobre a obra e a contribuição de Bonhoeffer, Eberhard Bethge assim a resumiu:
Bonhoeffer quando tinha 20 anos disse aos teólogos: o vosso tema é a Igreja; aos 30 anos, disse à Igreja: o teu tema é o mundo; quando chegava perto dos 40 anos, disse ao mundo: o teu tema, que é o abandono, é o tema próprio de Deus.  Com esse tema ele não engana, mas abre a tua existência.

sexta-feira, 27 de março de 2020

EXPERIMENTE O NOVO NASCIMENTO


O Evangelho de João conta que Jesus, tomando um chicote de cordas, expulsou todos aqueles comerciantes do templo e purificou o lugar (confira esta atitude de Jesus em 2:15).
E assim é: quando as negociatas com a fé tomam o lugar da verdadeira adoração contaminando a Casa do Pai (expressão de Jo 2:16), o Senhor apressa-se em providenciar o restabelecimento da ordem sagrada.
Depois deste primeiro episódio no templo, a repercussão foi imediata.  Enquanto alguns questionaram suas atitudes, muitos vieram a crer no seu nome (confira os versos 2:23-25).
Neste ambiente, um homem, Nicodemos – que é apresentado como um fariseu líder dos judeus – procurou Jesus para um conhecimento mais acurado (a história deste encontro está narrada em Jo 3 a partir do primeiro verso).
Nicodemos reconheceu que ninguém poderia realizar sinais como aqueles se Deus não estivesse com ele (leia no verso 2).  Assim ele pretendia questionar a Jesus.
O Mestre, contudo, vai direto ao assunto.  O Reino de Deus não está nos sinais ou maravilhas – isto não é o importante!  O Reino deve ser encontrado e visto através do novo nascimento.
Logicamente Nicodemos não entendeu o que Jesus estava querendo dizer.  Não se tratava de um nascimento físico, natural e humano, que Jesus estava falando; mas de uma nova vida, espiritual, sobrenatural e divina que lhe era proposta. 
Nisto consiste a essência da missão de Jesus.  Ao que o próprio Mestre passa a explicar a Nicodemos.  O verso de Jo 3:16 – um dos mais conhecidos de toda a Bíblia – é o resumo claro da missão do Cristo.
Deus amou o mundo, assim como ele é.  E como resultado deste amor ofereceu seu único Filho para proporcionar os meios para que todo o que for capaz de crer nele experimente o novo nascimento e receba a vida eterna.
E tem mais.  Embora tivesse sido necessário agir com rigor para purificar o templo; Jesus enfatiza que o seu objetivo maior não era julgar, mas providenciar que o mundo fosse salvo por ele (compare 3:17 com 3:36).

quarta-feira, 25 de março de 2020

PARA ESSE TEMPO


Boa tarde querido
Eu já tinha me decidido não escrever sobre esse coronavirus e nem sobre as implicações da pandemia e da quarentena.  Já tem muita gente fazendo isso e eu não sou especialista nem em infectologia nem em psicologia social.
Eu sei também que em meio a essa avalanche de informações tem coisa boa e útil - como também muita bobagem e sandice.
Só lembrando: Fake news é uma maneira abestada de chamar a mentira.  E Jesus disse que o diabo é o pai das fakes news (lá em Jo 8:44).
Quanto a vírus, pandemia, quarentena e doenças afins, não há nenhum versículo específico sobre o tema - até porque na época da Bíblia o conhecimento humano era outro.
Mas, atinando a sua questão e para também não passar em silêncio, permita-me três citações bíblicas:

1. Jesus disse que quando se espalharem as notícias sobre epidemias seria o tempo de ficar alerta, mas não para se angustiar pois ainda não é o fim (em Mt 24:6 o verso fala explicitamente sobre guerra, mas, no contexto do Sermão Escatológico de Jesus, entendo que extrapolar sobre doença não seria um exagero).

2. O texto da Oração de Habacuque é bem conhecido e também pode ser lido nesse contexto: "Ainda que dê tudo errado, com pandemia e quarentena, todavia eu continuarei me alegrando no Senhor e exultando naquele que me garante a salvação" (Hc 3:17-19).

3. E não podia deixar de citar Apocalipse - minha certeza é de que não há na Bíblia outro livro que traga mais segurança e conforto em tempos de crise quanto a Revelação do Senhor Jesus (1:1).
Diante do livro fechado com sete selos, a declaração dos anciãos ecoa por toda a eternidade: "Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5:9).  Sim.  Com a vitória sobre a morte Jesus assumiu o controle da história em suas próprias mãos.  Ele - e somente ele - é digno de comandar a história do ser humano, da igreja e das nações.

Como disse, não sou especialista em pandemia nem em psicologia social mas não tenho nenhuma dúvida que Cristo Jesus ainda é o Senhor da história e que tudo - absolutamente tudo - só terá um fim na glorificação daquele que requer toda adoração pois digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor! (Ap 5:12).

terça-feira, 24 de março de 2020

QUARENTENA



Interessante esse tempo chamado Quarentena.  Tive a curiosidade de olhar no dicionário. Mais alguém? Está escrito lá: ISOLAMENTO.  Você encontra também a informação que é um período de RESERVA.

Mas na verdade quando ouvimos nos remetemos a 40 dias.  É o que nos faz lembrar.

Ontem, no meu momento devocional me recordei de alguns episódios bíblicos.

Na Bíblia, se você prestar bastante atenção você vai ver quanto 40 dias é relevante para o nosso Deus:



-    A vida de Moisés foi modificada após 40 dias no Monte Sinai - Êx 24:18

-    Davi foi transformado pelo desafio de Golias, proferido por 40 dias- 1Sm 2:10

-    A situação de Elias foi alterada quando Deus o sustentou durante 40 dias com uma única refeição - 1Rs 19:8

-    Jesus foi fortalecido por 40 dias no deserto - Lc 4:2

-    A fé dos discípulos foi enraizada após 40 dias ao lado de Jesus após sua ressurreição - At 1:3

(Esses são apenas alguns fatos)



Em minha caminhada de fé tenho entendido que Deus não é Deus de coincidências: QUARENTENA PARA A IGREJA DE CRISTO?

Acredito que esses dias atuais são o chacoalhar de Deus para que nós, como "seu Povo",



-    Nos encontremos face a face com ele e sejamos modificados - como Moisés

-    Enfrentemos o gigante (pecado) que nos tem afrontado como servos separados (santos)- como Davi

-    Que ao receber de Deus o alimento para nossas almas vivamos d'Ele para chegarmos com fidelidade até o dia de sua volta - como Elias

-    Que nesse deserto (isolamento) o sustento do Senhor nos faça fortes - como Jesus

-    E como os discípulos, ao andarmos PERTO - AOS PÉS - de Jesus, com a fé enraizada, sejamos transformados pela renovação de nossa mente e não nos MOLDEMOS mais a esse mundo.



Como Povo de Deus é tempo de BUSCAR, SE HUMILHAR, SE ARREPENDER ... PARA QUE HAJA PERDÃO E CURA.



Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra.
2 Crônicas 7:14



 Elda Nogueira

sexta-feira, 20 de março de 2020

DAVI E MEFIBOSETE – O VALOR DA LEALDADE





A cena que destaco para essa reflexão começa com o rei Davi se lembrando do velho amigo Jônatas:
Resta ainda alguém da família de Saul a quem eu possa mostrar lealdade,
por causa de minha amizade com Jônatas? (2Sm 9:1).
Os servos de Davi lhe apresentaram Ziba, que tinha servido a Saul, e para ele o rei repete a pergunta só que agora dando um alcance maior: ... a quem eu possa mostrar a lealdade de Deus? (2Sm 9:3).  Ressalto que para Davi a lealdade dele, como servo ungido do Senhor, deveria ser o reflexo da lealdade de Deus para com aqueles que ele ama.
Ziba promoveu o encontro entre o rei Davi e Mefibosete – um filho de Jônatas que se tornara aleijado em um acidente enquanto era escondido por ocasião da morte do pai e do avô (leia 2Sm 4:4).  Era o único que tinha restado da linhagem de Saul e Jônatas e estava vivendo em condições de penúria, devido tanto a pilhagem de suas propriedades de herança quanto a sua condição de deficiente físico.
Agora, frente a frente: o rei e Mefibosete, Davi tinha a oportunidade de reparar o mínimo que fosse os sofrimentos causados aos descentes de Saul.
Só relembrando: Davi não comemorou a morte de Saul, muito pelo contrário, ordenou o castigo daqueles que promoveram a vingança sobre a casa de Saul (leia a passagem em 2Sm 4:9-12).
O texto descreve que foram seguidos todos os rituais do cerimonial da corte de Jerusalém quando Mefibosete chegou à presença do rei.  A diferença começou quando Davi passou a tratá-lo não apenas como um súdito qualquer, mas como alguém que deveria merecer um tratamento real diferenciado: Não tenha medo (2Sm 9:7).  O rei então ordenou que fossem restituídas as terras que eram de Mefibosete por direito de herança.  Era o mínimo que poderia fazer para que os erros cometidos no passado contra os descentes de Saul – que não tinham culpa pelos pecados deste – fossem reparados.
Mas Davi foi além. Quebrando todo o protocolo, ordenou que Mefibosete tivesse o direito de comer na mesa do rei dali em diante.  Com certeza esta era uma honraria dada a poucos.  Reconhecendo o seu lugar de apenas súdito, o jovem recusou; mas o rei insistiu pois esta seria a forma de Davi fazer cumprir suas promessas feitas a Jônatas (lembre-se que o juramento entre ambos, que se encontra em 1Sm 20:42, incluía o compromisso com as respectivas descendências).
Finalmente o rei Davi completou os benefícios que deveriam ser atribuídos ao descendente de seu amigo Jônatas: Mefibosete, por ser deficiente, certamente não teria condições de cultivar as terras que agora estavam sendo-lhe devolvidas; então Davi logo providenciou para que não lhe faltasse condições de provimento.  A Ziba, que já havia servido a Saul, foi dada uma ordem:
Você, seus filhos e seus servos cultivarão a terra dele.  Você trará a colheita para que haja provisões na casa do neto de seu senhor.  Mas Mefibosete comerá sempre à minha mesa. (2Sm 9:10)
A narração deste episódio conclui então observando que a partir de então Mefibosete passou a ser tratado como se fosse um dos filhos de Davi (veja 2Sm 9:11).  E para todos ficou demonstrado o valor que o rei dava a lealdade.  Valor este que deveria ser tomado como padrão na construção moral do povo.

terça-feira, 10 de março de 2020

A PALAVRA FEZ-SE CARNE


O Evangelho de João começa com uma firmação categórica: No princípio era o Verbo (Jo 1:1).  E deixe-me logo dizer que penso que, de maneira proposital, João apontou para o primeiro verso da Bíblia: No princípio criou Deus (Gn 1:1).
Tudo começa com o Verbo.  Nada havia antes dele e tudo só existe a partir dele.  Ele é o princípio de todas as coisas.  E é João que não deixa dúvidas sobre quem é o Verbo: Jesus (leia 1:17).
Assim João pode começar seu Evangelho:  Jesus é o Verbo de Deus.  E tudo o que ele vai contar e refletir tem que manter este pressuposto bem firmado.  Mas antes vamos entender um pouco o que significa esta expressão: O Verbo.
A palavra em língua grega que João usa é Λόγος (Logos).  O termo era bem conhecido tanto de gregos como de hebreus na época do Evangelho.  A tradução usual que damos a este termo em português é Verbo.  Mas talvez isto não nos diga muito.  Entendo que uma tradução mais livre como Palavra seria melhor:
No princípio era a Palavra ... e a Palavra fez-se carne (Jo 1:1 e 14).
No primeiro século, intelectuais usavam este termo para se referir ao princípio teórico básico – ou conceito filosófico – que fundamentava toda a existência e seria através dela que as divindades se comunicariam com a humanidade.
Para João este conceito é pobre.  Ele vai além.  A Palavra é mais que um postulado teórico filosófico, é o próprio Deus que criou o mundo e se relaciona pessoalmente com homens e mulheres.
Não uma espécie de deus ou derivado qualquer da divindade, também não é uma aparência ou conceito metafísico.  É o próprio Deus em sua essência e plenitude.
E esta Palavra é Jesus.  João não tem nenhuma dúvida quanto a isso.  O que poderá ser observado não somente neste prólogo ao Evangelho, mas também ao logo do seu transcorrer.  Para demonstrar, confira ainda a expressão tirada da boca do próprio Cristo: Eu e o Pai somos um (Jo 10:30), e a confissão de Tomé: Deus meu (Jo 20:28).
Aprofundemos nesse conceito: A Palavra eterna e pré-existente tinha um propósito, e o cumpriu fazendo-se carne (Jo 1:14).
É verdade que ninguém pode ver Deus – aqui o Evangelho cita Moisés (compare Jo 1:18 com Ex 33:20).  Contudo, a Palavra apresentada no Evangelho de João é a expressão admirável da glória divina (1:14) e a revelação perfeita e absoluta de Deus (1:18).
Ou seja, embora seja verdade que a Palavra eterna seja Deus – e isso é essencial tanto para a fé com cristã em geral, quanto para o Evangelho em especial – mas o que João intenta demonstrar com seu texto é o Deus-Palavra que entrou na história humana.  O sublime se fez carne.  O eterno, temporal. 
E o fez por vontade própria, ao contrário do mundo que foi criado (compare os versos 3 e 14 onde João usa mesma expressão: fez-se para demonstrar a essencial diferença entre Criador e criatura).
Assim, um aspecto a se destacar na encarnação da Palavra divina é a compreensão de que ao se fazer carne, Jesus Cristo tornou-se completa e perfeitamente humano.  Ele não somente revela toda a divindade, com também assume toda a humanidade.  É um com Deus e torna-se um de nós.
Assim, desde o seu começo, João nos apresenta um Evangelho que procura refletir sobre a vida e história de Cristo, mais que apenas narrar seus episódios.  Ele inicia apresentando a Palavra divina e eterna, mas que se fez carne com o objetivo de revelar a luz e glória de Deus e de nos atrair para ser seus filhos.
Que possamos assim crer nele para fazer parte da família de Deus como filhos e desfrutar da graça e glória divina através de Jesus Cristo.

quarta-feira, 4 de março de 2020

INTRODUÇÃO RÁPIDA AO PENTATEUCO


O documento inicial da Revelação constitui o primeiro bloco de livros da Bíblia: os Livros da Lei ou Pentateuco.  Este bloco é formado pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
O termo Pentateuco é de origem grega (Πεντάτευχος) e significa cinco volumes, dando a entender que os compiladores originais tinham a ideia de que estes textos deveriam compor cinco partes de uma mesma obra.  Em hebraico o nome é תורה (pronuncia-se Torah – Lei).  Assim é chamado porque nestes livros estão registradas as formações do universo, do ser humano e das nações e, principalmente, estão colocadas as leis relevadas por Deus para regerem toda a obra criada em geral e os seus escolhidos em particular nas suas vidas diárias e na adoração.
Estes cinco livros testemunham a revelação dada por Deus por volta do século XV a.C. a Moisés no Monte Sinai – os 10 Mandamentos (confira Êx 20) – e também a descrição de diversas outras leis, bem como a trajetória do povo escolhido das suas origens até a formação da nação.
Vejamos rapidamente os cinco livros, um a um como eles se nos apresenta hoje:

# Gênesis – Em hebraico o título é בראשיתNo Princípio e é isto exatamente que significa o seu nome.  Quanto ao conteúdo: Dos capítulos 1 ao 11 trata das origens de todas as coisas, como Deus formou o universo e todas as criaturas e preservou para que, apesar da rebeldia e pecado humanos a obra de Deus não fosse destruída.  A partir do capítulo 12 o texto se ocupa em narrar a trajetória dos patriarcas Abraão, Isaque, Jacó e seus filhos, como eles foram escolhidos por Deus para darem início à nação e como eles, mesmo sem nenhuma prerrogativa especial e ainda algumas vezes tendo falhado, puderam contar com o cuidado e manifestação divinos ao seu favor.  O texto termina com os filhos de Israel indo ao Egito a fim de salvarem suas vidas da fome, ficando aos cuidados de José.
# Êxodo – O segundo livro da Bíblia é chamado em hebraico de שמות Os Nomes, já que no original se nomeiam os livros pela primeira expressão que aparece.  A palavra êxodo significa saída e este é o tema central do livro.  O livro começa narrando as atribulações sofridas pelos descentes de Israel na terra do Egito (onde passaram cerca de 400 anos) para a partir daí mostrar Deus chamando a Moisés para ser o libertador e organizador do povo, como parceiro privilegiado do diálogo com Deus.  No Êxodo estão narrados os últimos dias da escravidão, as manifestações poderosas de Deus em libertar o povo, os primeiros passos da saída e o início das leis entregues ao povo através de Moisés.
# Levítico – Seguindo o mesmo modelo de nomear os livros, em hebraico o livro é chamado ויקראE Chamou.  O título que nós adotamos é uma referência à tribo de Levi, escolhida para ser sacerdotal e ministrar diante do altar do Senhor.  Este livro continua apresentando as diversas leis dadas por Deus ao povo, sendo que a ênfase recai sobre o culto, sua ordenação, instrumentos e formas e a participação das famílias levitas, seus papeis e funções.  Uma outra ênfase a se destacar é a extensa lei a cerca da santidade que encontramos neste livro.
# Números – Em hebraico seu nome é simplesmente במדברNo Deserto.  Como o texto se ocupa muito da contagem do povo em suas tribos e sua distribuição no acampamento e nos planos de Deus, o livro ganhou este nome para nós.  No livro de Números está o primeiro contato da nação com a terra prometida quando são enviados os espias que trazem um relatório detalhado de Canaã.  Os textos narrativos completam o conteúdo do livro contando as inconstâncias do povo enquanto atravessava o deserto.
# Deuteronômio – O quinto livro é chamado em hebraico דברים – As Palavras.  O nome que adotamos significa literalmente Segunda Lei, ou Repetição da Lei.  O texto apresenta primordialmente os discursos que Moisés teria proferido diante do Rio Jordão, pouco antes de sua morte e da travessia do povo.  Nestes discursos o patriarca relembra aquilo que foi dito e instruído por Deus – daí o nome do livro – conclamando o povo a ser fiel àquilo que lhe foi ordenado apresentando uma relação de bênçãos advindas da obediência da Lei e maldições causadas pela desobediência.