terça-feira, 30 de janeiro de 2024

JUDAS – INTENÇÃO E TRAIÇÃO

 


A reposta sobre Judas pode ter uma resposta simples.  Mas, a partir dela, pode indicar outras direções de reflexão.

A leitura direta e objetiva do texto bíblico – isso é o que importa de verdade – não traz uma resposta simples para essa questão.  Não há sim ou não inquestionável no texto sobre a predestinação de Judas!

Na verdade, esse é um tema que o texto sagrado nunca trata como central em sua teologia.

 

Mas vamos olhar um pouco sobre o que os Evangelhos nos dizem sobre o Judas:

# Ele foi escolhido diretamente por Jesus para o ministério apostólico (Jo 3:16-19 / Lc 6:13-16);

# Junto a Simão Pedro, Judas é o apóstolo que mais vezes é citado pelo nome nos Evangelhos (cerca de 20 vezes);

# João cita que Judas fez objeção à oferta do perfume derramado para Jesus – sugerindo uma oferta para os pobres (Jo 12:4-5);

# João ainda lembra que era a responsabilidade de Judas tomar conta da bolsa – finanças e numerários – do grupo dos discípulos (Jo 13:29);

# Marcos, ao narrar a iniciativa da traição, diz apenas que Judas Iscariotes, um dos Doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus e que a proposta interessou os líderes religiosos (Mc 14:10-11);

# E Mateus acrescenta o valor – trinta moedas – e que Judas, a partir daí, passou a buscar uma oportunidade de entregar Jesus (Mt 26:16);

# Também Mateus fala do remorso de Judas após a traição, tendo devolvido as moedas e manifestado intenção de suicidar-se (Mt 27:3-10);

# Finalmente, o livro dos Atos – por ocasião da escolha de Matias como sucessor apostólico – observa que Judas abandonou este ministério indo para o lugar que lhe era devido (At 1:25).

 

Então chegamos ao ponto da traição: sua motivação, intenção e impulso.  Novamente vamos ler o texto sagrado:

Ao narrar o episódio da última ceia celebrada entre Jesus e seus discípulos, o evangelista João afirma que o diabo induziu Judas a trair Jesus (Jo 13:2) e que tão logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele (Jo 13:27).  Ou seja, a influência e intenção satânica só se apossou do apóstolo Iscariotes após a celebração pascoal, embora já o tivesse induzido a isso antes.

 

Uma digressão importante:  Tiago, em sua epístola, é enfático em afirmar que cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido.  E o texto segue: então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após consumado, gera a morte (Tg 1:14-15 – o destaque é meu).

 

— Judas vendeu Jesus pelo livre arbítrio ou estava predestinado a tal?

 

Como disse: a resposta não é explicita sobre se Judas estava “amarrado” histórica e situacionalmente ao destino da traição, embora fale da indução diabólica para tal vilania.

Também no texto – e isso é o importante – o que sobressai é a responsabilização do ser humano pelas consequências de suas próprias intenções e ações.

 

A oração que fica é que o próprio Senhor nos livre de trair àquele que nos chamou e confiou o ministério e que nos ama até o fim – apesar do que somos (Jo 13:1).

 

 

†† Aproveito para sugerir alguns outros textos que escrevi – e publiquei aqui no Escrevinhando – sobre os temas da Predestinação e do Livre Arbítrio

# TUDO ME É PERMITIDO – estudo dos textos de 1Co 6:12 e 10:23 – link

# EU SOU LIVRE – relato da experiência do Coral da Cristolândia cantando em Aracaju – link

# A SOBERANIA DE DEUS – uma análise do Rm 9:20-24 – link

# BATISTAS,CALVINISTAS e a SOBERANIA DE DEUS – estudo sobre a relação entre os princípios batistas e as doutrinas calvinistas – link

 

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

NÃO CONTE A NINGUÉM


Essa questão é bem peculiar:  Jesus disse literalmente

 

Não falem a ninguém que eu sou o Cristo! (Mc 8:30).

 

Para entender a questão, vamos começar (1) dando uma lida geral em passagens onde uma proibição parecida ocorre.  (2) Depois vamos tentar entender o que implica na interdição específica do texto.  (3) E, finalmente, o que isso tem a nos dizer.

 

(1) Em algumas outras passagens dos Evangelhos é registrado que Jesus instruiu e ordenou que seus atos e palavras não fossem divulgados:

 

+ Em seis citações de cura: a. a cura de um leproso (Mt 8:4); b. a cura de dois cegos (Mt 9:30); c. várias curas entre aqueles que o seguiam (Mt 12:16); d. a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5:43); e. a cura de um surdo e gago (Mc 7:36); e f. a cura de um cego em Betsaida (Mc 8:26).

§. Em casos assim, o que podemos entender é que Jesus estava evitando que seu ministério se desviasse do foco principal.  As curas e eventos miraculosos nunca foram a prioridade do Cristo, então quando trazia cura para alguém, ele tinha o cuidado de que não fosse esse o centro de atração das pessoas (considere Jo 6:26).

 

+ No evento da transfiguração Jesus disse tacitamente que os discípulos não contassem a ninguém o que tinham visto (em Mt 17:9 e Mc 9:9).

§. Aquela visão do Cristo glorificado (transfigurado) foi antecipada a apenas alguns discípulos.  E, embora restassem dúvidas até entre aqueles, a instrução de Jesus foi para que aguardassem até a revelação final e gloriosa do ressuscitado.

 

+ Após um caso de exorcismo – expulsão de demónio – Jesus proibiu que eles falassem quem Jesus era (narrado em Mc 1:34).

§. Aqui a situação é clara – é bem no início do ministério terreno de Jesus.  O diabo é o pai da mentira (considere Jo 8:44), então seria uma completa incoerência o Messias contar com o testemunho de demônios para confirmar seu testemunho.  Jesus que é a própria verdade (Jo 14:6).

 

(2) Sobre o episódio da declaração de fé de Pedro de que Jesus era o Cristo – o Messias (em Mc 8:30 e Mt 16:20); quando se busca nos comentaristas alguma explicação para a instrução de Jesus de os discípulos não falarem sobre a sua messianidade naquele momento, eles em geral apontam várias sugestões e hipóteses – nenhuma conclusiva. 

Pela minha compreensão, o que mais faz sentido é que naquele contexto de expectativa de judeus pela chegada de um Messias de conotações políticas e militares, anunciar que Jesus era o Messias prometido a Israel, poderia precipitar algum movimento equivocado que tentasse fazer dele um rei terreno que arregimentasse um exército para lutar pelo Israel histórico.  Nada mais estranho à proposta do Cristo.

Observe que pouco depois, na entrada em Jerusalém, a multidão cantou a Jesus nessa intenção (leia em Mc 11:9-10).

 

(3) E o que isso tem a nos dizer hoje?

Num mundo em que vivemos no qual imagem e publicidade parecem ser a norma, corremos sempre o risco de transformar nosso Cristo, nossa igreja e nossa fé em instrumento de marketing.  Não é nada disso que Jesus nos propõe.  Somos chamados para ter um relacionamento pessoal e intimo com ele (atente para Jo 15:15 e 1:12) e não para competir por popularidade e aceitação pública.

Também precisamos estar sempre atentos com nossa fé e nossas expectativas para que o evangelho não nos torne beligerantes por causas estranhas às propostas do próprio Cristo.  É importante considerar que ele afirmou para o político Pilatos que seu Reino não pertence aos parâmetros desse mundo (em Jo 18:36). 

Cristianismo não é um projeto de poder ou de dominação política nem social.  E usar seu nome como via para galgar posições políticas é o que Jesus pretendeu proibir quando interditou que anunciassem que ele era o Messias.

 

Que vivamos seu chamado a amar a Deus e ao próximo.  Para isso fomos atraídos ao Messias (indispensável ler Mc 12:28-24).

 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

REMADOR DO ÚLTIMO PORÃO



Em nossos dias, ser ministro da palavra é sinônimo de fama, glória e status.

A Bíblia, como um contraste dos nossos dias, coloca o ministro da palavra de Deus como um remador do último porão.

É aquele que rema sem ser notado, mas o barco continua andando. Para o verdadeiro ministro do evangelho de Jesus Cristo, o que importa é remar, remar, remar sem parar. Ele tem em mente que é servo, escravo e não senhor e trabalha não para ser servido, mas para servir.

Que o Espírito Santo em 2024 venha nos guiar em uma entrega sem esperar nada em troca.

Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!  1 Coríntios 9:16.

Que os sete mil que não se dobraram, continuem remando até que Ele venha!

 

Pr. Antônio Sampaio
– IB Graça / Aracaju

 

Para ler algo sobre o termo grego que aqui dá base à tradução do texto como remador, indico a anotação que fiz no post SERVOS E REMADORES link.

 

SERVOS E REMADORES

  

Καθὼς παρέδοσαν ἡμῖν οἱ ἀπ’ ἀρχῆς αὐτόπται καὶ ὑπηρέται γενόμενοι τοῦ λόγου (Lc 1:2).

 


O fraseado do verso de Lc 1:2 em português é: "conforme nos foram transmitidos por (...) servos da Palavra" (NVI).

A palavra usada pelo autor bíblico em Grego é ὑπηρέτης que é bem interessante (a pronúncia huperetes é boa).

A tradução usual como servo é excelente.  Mas vamos enriquecer o significado: o termo é o resultado da soma da preposição ὑπό – em baixo + a raiz ἐρέσσω – remar.  Daí se dizer dos escravos nos barcos antigos que ficavam nos porões remando.

No texto do Evangelho, Lucas se refere aos ministros ou servos que dão testemunho como aqueles que efetivamente se ocupam do trabalho pesado e braçal de fazer as palavras do evangelho seguirem adiante.

 

 

Compartilhei uma boa reflexão escrita pelo Pr. Antônio Sampaio da IB da Graça / Aracaju sobre essa citação bíblica: REMADOR DO ÚLTIMO PORÃO – recomendo a leitura – link.



terça-feira, 2 de janeiro de 2024

ELE FAZ NOVA TODAS AS COISAS



Na visão inicial, João foi confortado pelo que vive pelos séculos dos séculos: não temas (Ap 1:17).  A multidão diante do Cordeiro também se sente confortada de maneira carinhosa com a promessa de que Deus os apascentará (Ap 7:16-17).  Mas é agora, na visão do novo céu e da nova terra, que o amor e cuidado se mostram por inteiro.  Penso que aqui deveria citar alguns textos sobre o amor incondicional de Deus e como ele se releva para nós.  Sei que é tarefa por demais incompleta, já que em toda a Bíblia as referências são inúmeras; desde Jr 31:3 onde o próprio Senhor diz: Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atraí; até o convite de carinho de Jesus: vinde a mim os cansados (em Mt 11:28).  Contudo, nenhuma expressão é mais enfática e contundente quanto 1Jo 4:8 – Deus é amor.

 

É exatamente este o tempero das palavras da visão registradas aqui: chegou o momento em que se enxugará toda lágrima, a morte não mais existirá, nem luto, nem dor.  Tudo isso já é passado (Ap 21:4).  Finalmente se cumpriram as profecias: ... pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53:5).  Com o que Paulo concorda: a morte foi vencida pela vitória (1Co 15:54-55 – citando Is 25:8 e Os 13:14).  E, dita para toda a eternidade: vinde benditos do meu Pai (palavras de Jesus em Mt 25:34), a frase recebe a chancela daquele que é o Alfa e o Ômega (Ap 1:8 e 21:6), que faz novas todas as coisas (Ap 21:5), que nos oferece de graça da fonte da água da vida (Ap 21:6 – ofertada também à mulher samaritana em Jo 4:13-14) e nos recebe como filhos amados (Ap 21:7 – leia mais Jo 1:12-13).

 

Realmente só ele pode declarar por sobre a história e a eternidade: está feito (Ap 21:6).  Quando o sétimo flagelo foi derramado, o anjo responsável por ele declarou: feito está (Ap 16:17).  Seria o fim da história das desgraças, depois cairia a grande Babilônia e viria o julgamento divino.  Agora é o que se assenta sobre o trono, único digno de adoração, quem declara.  É o fim da refeição da história humana no tempo. Depois seguirá o banquete da eternidade.  O Cordeiro de Deus encarnado havia declarado na cruz: está consumado (leia Jo 19:30).  Mas é com o túmulo vazio, o controle da história, da criação e dos portais eternos que ele assume a vitória que lhe é de direito (alinhe Ap 1:18 e 5:12-13 com Sl 24:7-10, Mt 28:18 e 1Co 15:54-58).

Extraído do livro: TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse. AD Santos Editora

 

 


Leia todo o livro TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

Disponível na:
AD Santos editora