sexta-feira, 18 de junho de 2021

JESUS E O PROBLEMA DA TRADIÇÃO

  


Os fariseus e alguns Mestres da Lei sempre procuraram Jesus, mas, ao contrário da multidão, não para dele aprender ou receber de suas obras maravilhosas.  Eles queriam questionar sobre o comportamento de Jesus

(O episódio aqui citado está narrado no Evangelho de Marcos, capítulo sete).

Estava claro que Jesus tinha poder para realizar milagres e estabelecer o Reino de Deus, e isto ninguém podia mais negar (veja como termina o capítulo anterior do Evangelho).  Então os líderes religiosos da época tentaram uma outra abordagem para desqualificar Jesus e seu evangelho: a não conformidade com as tradições. 

Assim, tomaram como pretexto o caso das mãos que deveriam ser lavadas antes das refeições.

Aqueles homens da religião perceberam que os discípulos de Jesus não guardavam a tradição de se lavarem antes de comer e indagaram: Por que seus discípulos não seguem as tradições? (Mc 7:5).

Se Jesus e seus discípulos não guardavam as tradições da Lei, como poderiam ser legítimos representantes de Deus?

Jesus, tendo compreendido a intenção dos seus opositores, respondeu sobre a verdadeira razão de ser dos atos religiosos.  O que torna o ser humano impuro é a sujeira que vem do seu interior! (Mc 7:15). 

Através desta ilustração, Jesus não somente calou seus adversários como deixou um ensinamento valioso.  A tradição e o formalismo religioso não purificam o coração do ser humano.  E isto os fariseus não conseguiam compreender.  Eles pensavam que por cumprirem rituais estariam aptos para entrarem no Reino de Deus.

Ora, Jesus não quebrou ou renegou a Lei de Deus (como o faziam seus adversários em nome da tradição – leia Mc 7:13), antes ensinou que o importante não eram as ações exteriores, mas um coração contrito e levado pela entrega e motivações verdadeiras que tornam alguém puro.

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

UMA ESTRUTURA INTERNA DOS SALMOS

  


Ao contrário da divisão tradicional canônica que conhecemos em cinco livros e que não respeita relações contextuais ou temáticas, vários comentadores modernos têm optado em estabelecer uma relação estrutural interna mais relacionada com temas e usos litúrgicos. 

Quanto ao número destas divisões, estes têm variado dependendo da visão de cada autor e da abrangência que queiram dar ao uso dos textos.  Ou seja, seguindo a linha de autores como Mowinckel, Champlim, Durham, Weiser, Brueggemann entre outros, observamos que os temas principais do saltério percorrem transversalmente em todo o livro e, mesmo constituindo-se na sua maioria em temas relativamente homogêneos, são suficientemente abrangentes e ocorrentes para cobrir os mais diversos aspectos da vida humana.

 

Vejamos um pouco dessas propostas:

(1) Sigmund Mowinckel em The Psalms in Israel's Worship fez a sua classificação tomando como base o “culto em si, suas diferentes ocasiões, situações e atos”.  Segundo ele os salmos se dividem em: a) Salmos reais; b) Os hinos de louvor; c) Salmos para o festival de entronização de Javé; d) Salmos de lamentação nacional.

(2) O maior número de divisões interna atribuída ao Livro dos Salmos está na classificação de R.N. Champlim.  Na sua obra O Antigo Testamento Interpretado – versículo por versículo ele classifica os Salmos em 17 tipos, além dos chamados Salmos Penitenciais que ele os coloca numa classificação em separado. 

Para Champlim os três maiores grupos são os Salmos de Lamentação (com 65 Salmos), os Salmos de Ação de Graças e Louvor (com 27 títulos) e os Salmos Majestáticos (com 25 títulos).  Porém uma observação sobre esta classificação é que vários Salmos se encontram em mais de uma tipificação fazendo da relação uma exaustiva, mas pouco funcional lista de número de capítulos.

(3) John I. Durham no comentário contido em The Broadmann Bible Commentary classifica os Salmos em quatro grupos: 1. Hinos e Salmos de Louvor (com 74 Salmos), 2. Lamentos (com 56 Salmos), 3. Salmos Reais (com 11 Salmos), e 4. Salmos de Sabedoria (com 9 Salmos).  Esta divisão apesar de ser apresentada sem muita explicação teológica mostra um bom quadro de subdivisões que acaba se tornando bastante útil.

(4) Entre os comentadores, talvez o que mais se ocupada de alinhavar as razões e implicações de sua classificação seja Artur Weiser.  Na sua obra Os Salmos, ele chama simplesmente de gêneros literários dos Salmos.  São cinco os grupos: hinos; lamentações; salmos de ação de graças; bênção e maldição; poesia sapiencial e didática.  Esta classificação de Weiser, cuja argumentação teológica se mostra bem fundamentada, e é abrangente o suficiente para trabalhar inclusive com textos poéticos hebraicos fora do Saltério.

(5) O mais inovador e criativo, contudo, é Walter Brueggemann na sua obra The Message of the Psalms onde se propõe a classificar os Salmos a partir do uso que os fiéis fazem dos textos nas suas orações com os Salmos, porém sem se descuidar do trabalho crítico.  São as palavras de Brueggemann:

A discussão seguinte é organizada ao redor de somente três temas gerais, poemas de orientação, poemas de desorientação, e poemas de nova orientação. (...) Para organizar nossa discussão nesta maneira, nós propomos uma correlação entre os ganhos do estudo crítico (especialmente com Gunkel e Westermann) e as realidades da vida humana (entendendo para isto o uso de muitos Salmos na vida do orante).

A grande novidade do trabalho de Brueggemann é que ele faz uso dos textos a partir da própria aplicação que os mesmos tiveram para os primeiros leitores judeus tanto quanto hoje têm para os cristãos que usam os mesmos textos aplicando-os para as suas vidas cotidianas, quer individualmente, quer coletivamente. 

Ou seja, em todas as épocas o Livro do Saltério mostra-se atual e relevante pois a vida humana sempre está estacionada em algum destes pontos, ou está em movimento de um para outro ponto – assim esta classificação é ao mesmo tempo a mais abrangente e a mais específica.

 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

O PERIGO DAS RIQUEZAS

  


Houve um homem que procurou Jesus e por ele foi recebido.  É o encontro com o jovem rico (narrado em Lc 18:18-23).  Apesar de possuir bens e valores deste mundo, era alguém carente de espírito.  Por isso procurou Jesus, e a ele o Mestre também deu atenção.

Contudo, no caso específico, o encontro teve um desfecho: o homem preferiu continuar na posse de sua riqueza, ao invés de seguir as instruções de Cristo.

A este episódio seguiu-se um diálogo e comentários de Jesus sobre o perigo das riquezas e como elas podem atrapalhar alguém a entrar no reino de Deus.  A princípio Jesus indicou uma comparação aparentemente absurda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus (18:25).

O problema aqui não é a riqueza em si (como também não foi no caso da parábola do rico e Lázaro em Lc 16:19-31).  A crítica que Jesus faz é ao fato de que, quem as possui, confia mais nelas que em Deus, o que impossibilita a entrega pessoal aos cuidados e comando divinos.

Mas o que parece ser impossível aos homens – um camelo no fundo da agulha – é perfeitamente possível a Deus – um rico ser humilde e converter-se (confira 18:27).  A lição é que não se chega ao reino de Deus comprando posições ou por merecimento próprio, mas somente pela misericórdia e poder do Senhor.

E diante do questionamento sobre o desprendimento dos discípulos, Jesus acrescentou ainda mais uma verdade: todo aquele que, tendo deixado tudo para o seguir, esse será alvo de bênçãos terrenas e eternas (veja 18:30).

(Da revista "Lucas" – Editora Sabre)

terça-feira, 8 de junho de 2021

CULTUAMOS EM CELEBRAÇÕES FESTIVAS

  


Creio na alegria da salvação que o Senhor nos dá e por isso nossa adoração tem que se manifestar em abundante alegria.  

Mas, às vezes, sinto em algumas de nossas igrejas um carregamento tão pesado que parece nem estarmos diante do Deus da glória.

Além do mais, eu estou convencido de que culto é encontro com Deus, o que deve necessariamente indicar que na presença dele a alegria é completa (leio isso em Sl 16:11).

Este é o assunto que tem me ocupado há muito tempo, e cada vez mais creio que o Senhor tem me chamado para ser um arauto (lembro o meu tempo de ER), um divulgador da adoração como expressão de nossa alegria pela presença inaudita do noivo no meio da igreja.

Não que tenha o direito de julgar o servo alheio, mas em Cristo penso eu que ou transformamos nossos cultos em verdadeiras celebrações festivas da multiforme graça de Cristo ou nosso cristianismo se esvaziará em apenas um conjunto de crenças sistematizadas.

Estou apenas compartilhando e fomentando o assunto para à glória de Deus.

 

(Em março de 2009 eu postei em ibsolnascente.blogspot.com essa fomentação. 

Aqui refaço a leitura daquela postagem)

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

JESUS CHOROU

  


O versículo de Jo 11:35 é bastante curto e bem conhecido.  Diz apenas: Jesus chorou.  A demonstração desta característica essencialmente humana de Jesus é quase única nos Evangelhos (a outra citação de choro de Jesus foi sobre Jerusalém e está narrado em Lc 19:41). 

Mas para entendê-la melhor é preciso observar o contexto. 

O choro de Jesus não foi um desespero de derrotado diante da fatalidade da morte.  O choro era humano – pois Jesus assim o foi.  As lágrimas externavam uma profunda compaixão e solidariedade diante da dor naquela situação.

A história segue.  Depois do diálogo com Marta (citado nos versos anteriores), Jesus procurou conversar com a outra irmã – Maria.  Na conversa, Jesus se viu profundamente envolvido e tocado com toda situação e pelo luto do momento. 

A dor da perda sentida pelas irmãs e o choro dos que as acompanhava agitou Jesus em seu espírito (confira Jo 11:33).

Mesmo sendo Deus (confira novamente o que ele disse a Marta) e tendo ciência do sobrenatural que estava por acontecer, Jesus foi tocado pela dor humana daquelas mulheres.  E chorou com elas.

Deste detalhe narrado por João é importante destacar que Jesus Cristo, mesmo em sua grandeza e infinitude divina, veio ver e se envolver com a vida humana, suas dores e mazelas. 

O Verbo que se fez carne e habitou entre nós a ponto de podermos ver a glória de Deus refletida nele (relembre Jo 1:14), é também movido de compaixão a ponto de se comover com homens e mulheres que choram as suas dores.

É esse Jesus que chora conosco ainda agora.

terça-feira, 1 de junho de 2021

AS RIQUEZAS DE OFIR

  


Quem está familiarizado com o texto bíblico já deve ter lido sobre Ofir.  E mesmo que não seja esse o seu caso, se você está acostumado com as gírias e as músicas gospels com certeza já foi apresentado ao ouro de Ofir.

 

— Mas, o que será esse tal de Ofir?

 

O termo em língua hebraica (אופיר) é usado no AT cerca de uma dezena de vezes e parece se referir a um destino fenício cujo ponto geográfico ainda é ignorado (obviamente hipóteses não faltam).  E além das narrativas históricas, há citação do ouro de Ofir nos livros de Jó e Isaias.

 

Para acalentar a curiosidade, vamos lá...

 

Hoje há no Distrito de Braga, em Portugal, uma praia chamada de Ofir.  Ali algumas lendas tentam associar esse destino turístico às referências bíblicas.  Mas carece de comprovação histórica.

 

Também há um personagem citado no Antigo Testamento chamado Ofir entre os descendeste de Sem (confira em Gn 10 e 1Cr 1).

 

A referência mais segura, porém, vem de textos como 1Rs 9 onde indica que o rei Salomão teria uma frota de navios ancorados nas margens do Mar Vermelho e de lá iriam periodicamente buscar riquezas em Ofir – em especial o ouro dali que se destacava por ser finíssimo, puro e raro.

Anos depois de Salomão, o rei Josafá tentou enviar também uma frota para buscar ouro em Ofir, mas não teve êxito (conforme 1Rs 22:48).

 

Além disso, pouco se sabe.

 

— Ali seriam as minas do rei Salomão?

 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

E SE TUDO DER ERRADO?

  


Semanas atrás, sentado numa cadeira de acompanhante de paciente, noite adentro numa sala de acolhimento hospitalar, enquanto observava meu pai sendo cuidado por profissionais e o sono parecia algo fora de cogitação, comecei a fazer um rápido inventário de ideias e observações.

Mas não fui adiante a ponto de construir um texto.  Cheguei a colocar algumas frases no tablet, que ficaram apenas num alinhavo (até porque os cuidados requeriam minha atenção).  Então resolvi fechar a tela.

 

Como disse, isso foi semanas atrás.  Depois, alternei entre intenções de concluir a tarefa e incertezas quanto ao conteúdo (esse tempo é assim!).

 

— É verdade!  Tem texto que é desse jeito.  Difícil de fluir!

 

Agora decidi retomar aquelas linhas para compartilhar finalmente algo que está lá no inventário de ideias e observações.

Assim, aceite meu convite para caminhar um pouco comigo nesse meu edifício mental e visitar alguns diferentes cômodos.

 

Logo de entrada percebo que ansiedade e aperreio são bem marcas que caracterizam esse tempo e momento.

Antes.  Estou lembrando de já ter postado aqui no Escrevinhando vários textos que contornam esse tema.  Depois vou procurar fazer uma relação do que já escrevi.  Por hora, vamos continuar observando.

A modernidade, com suas teorias, ciências e engenhocas tinha prometido estabilidade, segurança, controle e um progresso de tranquilidade e prosperidade.  Tudo falácia!

E esse tempo de pandemia só escancarou o problema.

No mundo moderno, não restaram nem estabilidade, nem segurança e muito menos controle da vida e da existência.  Logo não há nem progresso, nem tranquilidade e nem prosperidade.

 

— E se tudo der errado?

 

Então para os consultórios de psique não faltam pacientes.  Nos hospitais, a angústia da incerteza é somatizada.  E acrescente-se os leitos cheios com doentes de síndromes respiratórias.

Já perdi as contas de quantos eu conheço que, de alguma maneira, estão carecendo de apoio e cuidados por sofrerem com a mente e alma quebrados.  Além dos que realmente se viram contagiados por um vírus pandêmico.

E o pior são aqueles que sofrem com os dois: o pulmão infectado e a alma abafada. Falta ar e falta anima.

Caminhemos mais.

As crises se sucedem e, às vezes, se atropelam.  As famílias se esfarelam.  O emprego e a economia não dão sinais de melhora.  A saúde está sucumbindo diante da morte.  A violência e seus defensores se sobressaem.  A injustiça e insanidade parecem triunfar.  O desgoverno assumiu o caos.

 

— Como manter a esperança e continuar?

— E se tudo der errado?

 

Também há as querelas e queixumes de comunidades de fé.  Mas como sei que não tenho nem o direito nem o cabedal para julgar ninguém, então não vou abrir essa porta do meu edifício mental.

Decididamente vou passar adiante.

Corredor adiante, quero ir direto para o cômodo onde sei que posso encontrar resposta para a questão inicial (até porque já estou achando pesada demais essa caminhada).

Venha comigo abrir a porta certa.  A porta que me abre à palavra do Altíssimo.

No meu edifício mental há um canto especial onde os textos sagrados são referência e fornecem a necessária estabilidade a toda a minha construção existencial.

É aqui o tear onde as linhas se fazem tecidos, onde a carência encontra aconchego, a incerteza conhece a garantia, a ansiedade se desfaz e a vida aporta como um barco num seguro cais.

 

— Não se turbe o vosso coração (gosto do palavreado mais tradicional dessa citação de Jo 14:1 – traz uma certa familiaridade ao texto sem perder significado).

 

— Mas, e se tudo der errado?

 

Diante da ansiedade e aperreio, da incerteza, do desgoverno e do caos, da falta ar e de ânimo; se a perspectiva é tudo dar errado, tudo muda quando eu revejo a carta aos exilados:

 

Porque eu sei o que estou arquitetando para você – é o que diz o Eterno.
Planejo paz e não calamidade – para lhe dar futuro e esperança.

(a carta está transcrita em Jr 29).

 

E como citei lá em cima, aí vai a relação de alguns links que tangenciaram esse tema aqui no Escrevinhando: 

 

O Reino - ansiedade, divisão e somalink 

Apenas hoje link

A ilusão da eternidade - link

Até quando? - uma leitura do Salmo 74 - link

Da ansiosa solicitude - link

Não por enquanto - link

Carga tortalink

Doenças da Alma - links

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

A CRIAÇÃO – COMO TUDO COMEÇOU?

  


Há o mundo, a terra, o universo.  Eles estão aí.  São reais.  Existem.  Meus sentidos podem perceber.  E assim como os espaços e coisas, também o tempo com sua flecha, do passado para o futuro.

 

— Mas, como tudo isso começo?  Qual sua origem? 

 

A Bíblia, com convicção reverente, afirma categoricamente que em princípio, foi Deus quem criou tanto os céus quanto a terra (Gn 1:1).  E partindo daí tudo é desdobramento dessa verdade inicial.

Do ponto de vista teológico e filosófico, entendo que quem melhor apresentou uma interpretação para a realidade existente – coisas e tempo – foi Agostinho de Hipona (recomendo a leitura).

 

Mas os seres humanos, ao longo de suas trajetórias, tentaram oferecer respostas para esse começo.  Veja algumas de forma resumida:

 

Os gregos antigos diziam que no início só havia o Caos vivendo nas trevas, no nada, então ele resolveu criar Gaia, Eros, Nyx e Tártaro.  Gaia, por sua vez, criou Urano e eles geraram os primeiros deuses.  E daí vieram os humanos.

Na Mesopotâmia eles criam que tudo começou com Apsu e Tiamat que deram origem aos outros deuses.  Um dia, num ataque de fúria, Apsu quis matar seus filhos, mas em um contra-ataque Enki – um dos filhos – matou Apsu e do seu corpo morto criou a terra e o céu.

A crença entre os egípcios era de que tudo começou quando Atum, o primeiro deus, surgiu do Num, o caos aquático primordial, e expeliu Shu e Tefnut que, por sua vez, procriaram gerando Osíris, Isis, Seth e Néftis.  Outra variante do mito afirmava que das águas do Num emergiu uma ilha e ali as divindades masculinas colocaram suas sementes sobre a flor de lótus e a fecundaram. A flor então se fechou durante a noite e quando se abriu de manhã dela saiu o deus na forma de um menino que criou o mundo.

De acordo com a antiga mitologia chinesa Panku, também conhecido como Hoen-Tsin, que representa o caos primordial, cresceu 30 quilômetros por dia durante 11.500 anos e das pequenas criaturas em seu corpo, carregadas pelo vento, nasceram os seres humanos e animais espalhados pelo mundo.

Na cosmogonia guarani tudo que existe nasceu e foi nomeado a partir de um som produzido no mundo superior, o Espírito-Música, o Grande Som Primeiro, esse som desdobrou-se em formas que seriam pais e mães de seus filhos, as palavras-almas.

A mitologia nórdica acreditava que a terra fazia parte de um disco cósmico junto a outros reinos. Asgard, terra dos deuses, Jotunheim, terra dos gigantes, e Niflheim, a terra dos mortos governadas por Hela.  Porém, de modo geral, não se indica com detalhes como tudo surgiu.

 

E hoje, as ciências em suas fronteiras, como a física quântica e a cosmologia, também buscam respostas.  Elas falam sobre coisas como o big bang, probabilidades e singularidades.  E procuram respostas sobre o como aconteceu e acontece (esse é o ofício deles).

Mas algumas perguntas ainda assustam: por que existe algo e não apenas o nada?  Qual o sentido final do cosmo?

E como sei que há complexidades entrelaçadas nessas questões, vou apenas buscar resposta na beleza poética do salmista:

 

Enquanto me encanto com o firmamento, arte dos teus dedos,
a lua e a estrelas que desenhaste,

eu me questiono: que há na humanidade
para que possas lhe dar atenção?
E em um indivíduo para que te importes?

 

Porém a verdade é que os fizeste apenas pouco aquém da divindade,
e de glória e honra os adornaste.

(Salmo 8)

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

FANNY CROSBY – AOS PÉS DA CRUZ


Em qualquer lista que se faça de homens e mulheres que enriqueceram o louvor e a adoração da igreja de Cristo tem que constar indiscutivelmente o nome da norte-americana Fanny Crosby (eu a inclui na relação dos 100 nomes que todo evangélico brasileiro precisa conhecer – veja a lista em duas partes: 1ª parte link e 2ª parte link).

A vida dessa mulher já foi devidamente biografada em textos, livros, filmes e links de internet, mas sempre que a revisitamos a nossa fé e nosso cristianismo são realimentados.

— O que estou fazendo aqui, então?

Coloquei fones nos ouvidos e, enquanto escuto corais cantando versões originais, vou tentar compartilhar algo para aquecer também seu coração.

Alguns detalhes, para contextualizar: Frances Jane Crosby nasceu em 1820 e ainda criança perdeu completamente a visão.  Ele era letrista e poetisa inigualável – tanto em qualidade quanto em quantidade – mas, em geral, não colocava melodia em seus poemas.

Conheceu o evangelho enquanto sua avó lia a Bíblia para ela, vindo a se filiar inicialmente a Igreja Episcopal Metodista. Mas certamente seu legado ultrapassa qualquer fronteira denominacional.  

E ao falecer em 1915, a seu pedido, foi colocado simplesmente em sua lápide: Tia Fanny – Ela fez o que podia (em inglês: Aunt Fanny – She hath done what she could).

 

 

Ela certamente fez a igreja Cristo louvar e adorar.  E ainda hoje continuamos cantando as lyrics da F.J. Crosby.

 

A Deus demos glória, ela nos chamou, na certeza de Que segurança! Sou de Jesus! Também nos desafiou a orar: Quero o Salvador comigo pois Meu Senhor, sou teu e meu lugar é sempre Junto a ti.  Por isso eu me entrego e Onde quer que for, irei.

 

E Crosby ainda continua atual quando diz:

 

Não consentir, não consentir,
Que qualquer dor ou tristeza, venha apagar teu amor.
Oh não temer, nunca ceder,
Em teus apertos te lembra, que Cristo é teu Protetor!

 

Mas a cruz de Cristo foi o lugar onde Fanny Crosby encontrou seu lugar:

 

Mais perto da tua cruz
Quero estar, ó Salvador!
Mais perto, para a tua cruz,
Leva-me, ó meu Senhor!

 

Que sejam ainda essa a nossa canção e a oração da igreja de Cristo:

 

Quero estar ao pé da cruz, de onde rica fonte
corre franca, salutar, do calvário monte.

Sim na cruz, sim, na cruz, sempre me glorio
e descanso encontrarei salvo além do rio.

 

quarta-feira, 19 de maio de 2021

VIDA EM COMUNHÃO – resenha – conclusão

 


Já tendo analisado quase toda a obra Vida em Comunhão (reveja a parte 1, a parte 2, e a parte 3 dessa resenha), chegamos a quarta e última parte dessa resenha, onde vamos observar as considerações de Bonhoeffer sobre a confissão e a santa ceia – expressões complementares da vida em comunhão cristã. 

Parte-se da constatação de que todo ser humano traz em si a essência do mal.  O homem natural – numa linguagem calvinista – é um decaído.  Esse mal que habita homens e mulheres, por fim isola-os e os conduz a ruína.  E pior, “quem fica sozinho com o seu mal, fica totalmente só”. 

Para resolver este problema, somente a graça divina expressa em Jesus.  Aqui reconheço este tema central na teologia de Dietrich Bonhoeffer: Jesus Cristo encarnado, crucificado e ressurreto é a razão de ser da Igreja, seu modelo e sua realização. 

Sendo assim, a confissão de pecados que deve ser dirigida a Cristo, pois somente ele enquanto divino perdoa pecados, tem que ser expressa na comunidade fraterna e cristã, lugar onde se manifesta neste tempo presente a graça salvadora de Cristo para este mundo, “assim o chamado à confissão e à absolvição fraterna dentro da comunhão cristã é conclamação à grande graça de Deus na comunidade”.

É a cruz de Cristo a garantia da vitória do projeto cristão sobre qualquer projeto que este mundo possa apresentar; por isto, que o cristão deve se espelhar nela para a sua verdadeira humanização.  E todo este projeto da cruz passa para a igreja através da confissão.  Nas palavras Bonhoeffer:

Na confissão acontece o irrompimento para a cruz.  A raiz de todo pecado é a soberba.  Quero viver para mim mesmo, tenho direito a mim mesmo, a meu ódio e minha cobiça, minha vida e minha morte.  Mente e carne da pessoa estão inflamadas de soberba, pois justamente em seu mal a pessoa quer ser igual a Deus.  A confissão a um irmão é a mais profunda humilhação; machuca, torna-o pequeno, abate a soberba horrivelmente.

Esta humilhação, Bonhoeffer compara à de Jesus, fazendo o sacrifício dele relevante para nós:

Foi o próprio Jesus Cristo que sofreu publicamente em nosso lugar a morte-vergonha do pecador.  Não se envergonhou de ser crucificado como malfeitor.  E não é nada mais que a comunhão com Jesus Cristo que nos conduz à morte vergonhosa da confissão, para que de fato tenhamos comunhão na cruz de Cristo. Essa cruz destrói toda a soberba.  Não encontraremos a cruz de Cristo se não formos até onde ela pode ser encontrada, a saber, na morte pública do pecador.

E finalmente Bonhoeffer nos conduz à conclusão de que “se esta ordem se aplica a cada culto, a cada oração, quanto mais valerá para a celebração da Santa Ceia”. 

Na celebração eucarística cristã está depositada toda a experiência litúrgica que faz com que a vida do cristão seja relevante neste mundo moderno.  A liturgia em comunhão atinge seu alvo.  “A vida em comunhão dos cristãos sob a Palavra atinge seu alvo no sacramento”.

 

 

Para conhecer um pouco mais sobre Dietrich Bonhoeffer, sugiro ainda as seguintes leituras:

§ Bonhoeffer - teólogo e pastor link

§ Bonhoeffer e a andoração brasileiralink

§ Vida em Comunhão - a esperência de Finkenwalde link

§ Bonhoeffer e a graça preciosalink

§ Bonhoeffer: liturgia e comunhãolink