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terça-feira, 17 de outubro de 2023

segunda-feira, 19 de junho de 2023

sexta-feira, 12 de maio de 2023

O que é servido à mesa em sua casa?

 

O mês de maio é reconhecido como o mês para se honrar as Mães, o que acaba despertando o sentimento mais familiar nas pessoas.

Todavia o que acalora o meu coração é lembrar que sentados à mesa em família (sem precisar do Dia das Mães) era plantado em nós valores singulares e preciosos que moldaram o nosso CARÁTER.  À mesa aprendemos sobre: RESPEITO, GRATIDÃO, GENEROSIDADE, HONESTIDADE, PERDÃO ...  Poderia seguir com a lista com esses valores do céu, mas não é necessário (Mt 7:16).

Foi à mesa, ouvindo as Escrituras, no culto doméstico, onde sentimos nosso coração queimar e os nossos olhos foram sendo abertos por causa da PRESENÇA DE JESUS conosco (Lc 24:13-35).  Foi lá que, quando Jesus batia à porta, papai e mamãe conscientemente abria e ELE ceava conosco (Ap 3:20).

O exemplo permanece. 

Ainda hoje nos reunimos com mamãe em volta da mesa e em nossas casas também.  A família cresceu: noras, genros, netos.

Apesar da falta de papai, o legado de ensino e fé deles continua tatuado em nossa existência.  Não tem como remover.

Nos reunimos à mesa e nela continua presente JESUS. Fazendo o coração queimar e os olhos da NOVA GERAÇÃO se abrirem.

Não pensem que somos perfeitos.  Mas à mesa também aprendemos que nesse lugar podemos perdoar e recomeçar em nossos relacionamentos.

Nessa mesa, além da comida que sacia a fome física, SEMPRE é oferecido alimento espiritual e continuamos forjando em nossa nova geração o caráter de Jesus como aprendemos.

Por que não vem de nós é DOM DE DEUS (Ef 2:8).

SOLI DEO GLORIA

Obrigado mãe e pai (in memoriam)

O que é servido à mesa em sua casa?

Texto escrito por Elda Nogueira (minha esposa)

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

GOD IS PARENTS

 


Escrevendo aos cristãos de Éfeso, o apóstolo Paulo faz o seguinte registro: ... por esta razão dobro os meus joelhos para o Pai ... pelo qual toda a família nos céus e na terra é nomeada (Ef 3:14-15).

Mas antes de refletir sobre a mensagem apostólica, quero fazer dois destaques linguísticos – creio que vão ajudar na compreensão do texto.

(1) O verbo que o texto grego usa para se referir a ação de dobrar os joelhos (κάμπτω τὰ γόνατά) indica uma atitude de reverência religiosa, quase que com intimidade (Paulo usou essa palavra também em Fl 2:10). 

(2) Deus é pai – mas preferi colocar o título em inglês: GOD IS PARENTS.  Observe: Chamar Deus de Pai é bastante comum para todos nós.  Aprendemos isto desde pequenos e repetimos como modelo de invocação mediante a Oração do Pai Nosso.   Mas esse conceito masculino de Deus não lhe faz jus.  Deus não é macho nem fêmea.  Esses são conceitos humanos e culturais.  Deus é Pai/Mãe.  Então entendi que a maneira como os ingleses chamam expressa melhor o conceito para nós modernos (e vai assim mesmo no plural, de propósito!) – GOD IS PARENTS.

Vamos ao texto de Efésios.

É verdade bíblica, doutrinária e teológica que o nosso Deus é o Senhor Todo-Poderoso, régio criador do universo.  Mas também é um PARENTS amoroso e cuidadoso.

Deus é nosso PARENTS porque é ele quem nos dá a vida e dele provém tudo o que somos e temos, pois todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez (Jo 1:3). 

Mas também, Deus é nosso PARENTS porque ele nos instrui e cuida de nós.  Com carinho ele chama: ouve, filho meu, e aceita as minhas palavras, para que se multipliquem os anos da tua vida (Pv 4:10). 

Deus, como PARENTS interessado, está sempre com suas melhores intenções voltadas para seus filhos e disposto a os amparar e guiar.

Então, eu dobro os meus joelhos e me aconchego diante de um PARENTS que se fez digno de minha reverência por ter sido morto e com seu sangue comprado toda tribo, língua, povo e nação – inclusive eu (Ap 5:9).

Sim.  GOD IS PARENTS.  E eu o louvo por isso.

 

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

SOBRE A INSTRUÇÃO DOS FILHOS

 
 


Sem dúvida alguma a presença de filhos recebidos como herança do Senhor é motivo de grande alegria ao coração de servas e servos de Deus. 

Creio que todos cantamos com convicção que belo é um nenezinho e que prazer um filho traz...

E o sábio vai além: "Os filhos dos filhos são uma coroa para os idosos." (Pv 17:6a).

Sabemos que todo privilégio traz junto a si iguais responsabilidades.  Então a partir da leitura bíblica de Provérbios quero apontar alguns dos deveres dos pais em relação aos seus filhos.

A primeira citação que quero fazer está em Pv 13:22.  O verso fala literalmente em herança deixada às gerações seguintes mas posso compreendê-lo como uma instrução livre para que cada pai e mãe deixe para seus filhos um exemplo digno de ser seguido.

Nesta linha de interpretação mais livre é como se dissesse que cada pai e cada mãe têm que trabalhar e se esforçar para servir como ponto de partida, referência e motivo de orgulho para toda a vida de seus filhos (leia a parte final do verso Pv 17:6).

Outra obrigação a se observar é que pais devem garantir à suas casas primeiramente a paz e a tranquilidade (afinal é melhor um pedaço de pão seco numa casa em paz do que o banquete entre brigas, como diz Pv 17:1).

Mas, usando a descrição da mulher virtuosa que de longe traz mantimento para sua casa (veja Pv 31:14), é dever também prover o sustento adequado para seus filhos não ocasionando que eles venham a ser forçados a trabalhar para ganhar a vida antes do tempo próprio.

Duas outras responsabilidades estão sobre os pais e devem ser lidas com partes da mesma tarefa: é preciso instruir seus filhos (leia especificamente Pv 22:6) e corrigi-lo quando necessário (inicialmente leia Pv 29:17).

Em diversas passagens a obrigação de instruir, disciplinar e corrigir os filhos aparece como responsabilidade primária que os pais têm em relação aos seus filhos.  É como se o texto bíblico compreendesse que as crianças que nos foram dadas como herança precisam ser conduzidas até poderem tomar suas próprias decisões e assumirem eles mesmos suas vidas.

Indo mais a fundo nesta leitura, vejo que quem não instrui e disciplina seu filho não o ama (dito claramente em Pv 13:24, mas veja também Pv 3:12) e a falta de ambas acaba produzindo vergonha à própria mãe (como está alertado em Pv 29:15).

Contudo devo enfatizar que o objetivo da instrução e da correção é produzir futuro e esperança sadia para nossas crianças e não lhes infligir dor e morte, nem ser motivado por vingança (a advertência está em Pv 19:18). 

Finalizando: Como pai, assuma o seu papel de garantir com carinho e amor a instrução, formação e seja o exemplo adequado que seu filho deverá seguir (tenha a coragem de dizer como Paulo em 1Co 11:1).

terça-feira, 5 de novembro de 2019

MARCAS DO MEU PAI




Ontem celebramos um culto em ação de graças pelo aniversário de minha irmã.  Ao final da festa, enquanto ficávamos por ali gastando os últimos fiapos de conversa, flagramos essa imagem aí: meu pai, num canto à parte com a velha amiga – uma Bíblia.
Filhos e neto se voltaram para a cena (o registro foi de André, o neto, em seu celular).  Apesar do peso dos anos, do brilho na mente cada vez mais ausente, do opaco insistente da visão, a intimidade de uma vida dedicada ao Livro ninguém apaga.
Lá estava ele como quem busca mais um diálogo com Aquele que sempre teve tanto a lhe dizer – a nos dizer.
Passei a madrugada tentando achar as palavras certas para citar e reconhecer o registro do legado incalculável do meu pai mas o novo dia amanheceu sem que as tenha encontrado. 
– Como colocar numa frase toda uma vida?
Ali estava o Pastor Jabes Nogueira e uma Bíblia.  Simplesmente eles.
E por me faltarem expressões, vou me permitir fazer uma citação.  Entendo que o Logos na canção "Marcas de Valor" consegue dizer com sua poesia melhor que qualquer descrição.
Esse tem sido meu pai:

Iguais a eles são bem poucos hoje em dia
Que realmente andam perto do Senhor
Que, já libertos de seus vícios e pecados, vivem como perdoados
Propagando a salvação
São tais pessoas que são fortes, sendo fracas
E, por isso, deixam marcas para outros como eu
Andarem perto do Senhor, verem milagres de amor
Pisar em marcas.

Oh!!! Glória!!!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

JESUS É O MODELO DE FAMÍLIA


O mês de maio é tradicionalmente denominado como o Mês da Família. Então, também é costume, durante este mês de maio, refletir sobre questões relacionadas às nossas famílias, buscando encontrar modelos bíblicos que nos servissem de paradigmas para nossas vidas diárias.
Hoje, neste último dia do mês e crendo ser a igreja compreendida como uma família em Deus, quero partir da instrução paulina para refletir: “sede imitadores de Cristo como filhos amados” (Ef 5:1).
Sendo a igreja uma família, Jesus Cristo é o nosso modelo; e é deste modelo filial que busco ouvir as palavras: depois de ter multiplicado pães e peixes, e enquanto apresentava à multidão a sua missão, Jesus disse explicitamente: “eu desci (…) para fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 6:38).
O próprio Jesus esteve entre os homens com a intenção exclusiva de cumprir aquilo que lhe foi atribuído pelo Pai que lhe enviou; e nós que queremos seguir o seu modelo devemos conduzir a nossa vida para que ela seja também exclusivamente um cumprimento da vontade do Pai.
Tudo o que somos e queremos deve sucumbir ante a vontade soberana de Deus que deve imperar em nossa vida.
Adiante, na sua Oração Sacerdotal (Jo 17), Jesus foi além quando se apresentou como modelo daquilo que espera que façamos. Ele falou sobre a missão dos discípulos, falou da santidade que se deve ter mas apresentou o objetivo disto tudo: “a fim de que sejam um; e com és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (verso 21).
Jesus rogou ao Pai que fôssemos iguais a ele: assim como há unidade entre Deus-Pai e Deus-Filho, deve haver unidade real entre nós – filhos – e nosso Pai celeste, e também entre nós mesmos. Esta é a vontade de Deus e este é o modelo proposto por Jesus para a igreja – família de Deus.
Tomemos o modelo de Jesus como nosso padrão. Assim seremos uma família segundo a vontade do Pai, para sua glória.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – conclusão


Ultimamente tenho visto campanhas falando em educação escolar, formação de cidadania, consciência social ou moralidade pública (e o pior é que às vezes até nossas igrejas colocam tais proposições como prioridade em suas agendas!). A verdade é que nada disso transfigurará o Brasil, a menos que comecemos em nossas casas um verdadeiro compromisso e disposição de servir ao Senhor.
E sabe mais? Sem aquilo que nos acostumamos chamar de educação cristã de berço, todo o nosso projeto eclesiástico de educação religiosa está fadado ao fracasso. Somente quando incutirmos em nossas casas, começando pelo compromisso dos líderes, verdadeiros valores espirituais e morais como: amor a Deus e ao próximo, serviço cristão, submissão humilde entre outros é que poderemos almejar por impregnar marcas relevantes em nossa sociedade (já experimentou aplicar instruções como Lc 10:27; Ef 5:21 e Fl 2:3 em sua casa?).
Para o último destaque da fala de Josué, quero mais uma vez me fazer valer da palavra em língua hebraica. O termo ali é servir cuja tradução e implicação mais usual é exatamente descrevendo um ato de render culto (como em Êx 12:25).
Mas penso que não seria de todo uma aberração ao sentido semítico da expressão se a atrelássemos à conotação em língua portuguesa: servir como trabalhar para, ou estar à disposição de. Mediante esta sugestão, então Josué estaria se colocando, junto a sua casa, para trabalhar e se empenhar em favor do Senhor como um servo prestativo e obediente. Ou seja, uma família pronta para o serviço, para entregar seu suor e vontade à inteira vontade de Deus.
Creio que posso entender as palavras do apóstolo Paulo na sua despedida dos líderes de Éfeso na mesma linha (também aqui numa tradução livre): Em minha vida, nada mais importa que me gastar no serviço do Senhor Jesus (leia o discurso em At 20, e o verso em destaque é o 24).
Contudo, quero insistir na compreensão de serviço como culto, celebração e adoração (se não me engano, a língua inglesa costuma empregar o termo assim!). Sendo assim, a escolha feita por Josué diante do povo, naquele dia em Siquém, seria que, começando por ele e abarcando toda a sua casa, ele preferia cultuar ao Senhor.
E aqui entendo esta como uma boa definição de culto em família. Entendendo o culto como um estar na presença do sagrado e dele desfrutar sua companhia, então é correto afirmar que Josué escolheu permanecer na presença do Senhor, tendo-o em sua companhia, como havia sido sua experiência toda a vida. E isso ele queria também para sua família. Era seu compromisso.
Diante de variedade de deuses, entidades e forças cósmicas, Josué decidiu que ele e sua família só se submeteriam em adoração ao Senhor Deus com o qual já tinha experiência. A companhia divina tinha sido certa, constante e soberana ao longo da caminhada.
Josué nascera ainda no Egito, ainda em tempos de escravidão, presenciou o mar aberto para que a libertação acontecesse, peregrinou pelo deserto, espiou a terra e a conquistou, sucedendo a Moisés. Ele sabia que isso era resultado da ação direta do Senhor. Sim, valia continuar servindo em adoração este Deus que nunca faltou em uma só de suas promessas (note a sua convicção em Js 23:14-15).
Foi assim que o grande líder israelita se comprometeu em estabelecer o culto ao Senhor como o único aceitável em sua casa. Nada além disso. Nada aquém disso.
Em conclusão, não posso deixar de considerar que nossas famílias hoje, de modo igual, continuam expostas a uma multiplicidade de deuses antigos e da modernidade, formatos religiosos e de culto, objetos de veneração e preocupação última. Todos eles querendo a primazia de nossa alma. A necessidade de escolha continua então imperiosa a cada um de nós: A quem vocês vão servir? A quem invocarão em adoração? Quem será sua companhia e preocupação última?
Que o próprio Senhor da Igreja nos dê líderes, servos e servas que digam: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor.
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

sexta-feira, 25 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 2ª parte


Continuemos com a análise. Agora nos detendo mais na expressão de Josué. Tive o cuidado de observar o texto em hebraico que tenho em mãos e me chamou a atenção o uso enfático do pronome de primeira pessoa: EU. Seja qual for o encaminhamento que se dê à sentença, tudo começa com a determinação do sujeito.
Pois bem, seguindo na linha de interpretação que temos adotado, Josué fez uma escolha. Diante das opções que se lhe descortinavam e baseado nas ações de Deus na história, o líder tomou a iniciativa, foi em frente e assumiu os encargos da decisão: sou eu, eu mesmo, e não outro. Isto é autoridade moral.
Somente quem tem tal autoridade empenhada pelo exemplo e credibilidade costurada pela caminhada pode se colocar na posição de protagonista da história familiar e se postar como padrão e modelo (entendo que as palavras de Paulo em Fl 3:17 podem ser lidas também nesta mesma linha de raciocínio).
Josué definiu sua escolha a partir de si mesmo. Isto colocou sobre seus ombros as responsabilidades da decisão. Como chefe de sua casa, ele não esperou que ninguém mais a conduzisse no serviço ao Senhor. Nem ficou apenas esperando que tal bênção lhe fosse atribuída como por encanto.
A lição de Josué que a mim fica demonstrada nesta disposição em primeira pessoa é que, se anseio e tenho o sonho de ver toda a minha casa rendida aos pés divinos, eu preciso pessoalmente tomar o encargo de assim conduzi-la. E tem mais. Só posso cobrar dos meus submissão e serviço ao Senhor se tal atitude já for padrão incontestável em minha vida.
Penso que o problema de viver tomando posse de promessas e declarações de bênção apenas é se eximir da responsabilidade. É mais cômodo esperar que seja feito que se dispor a fazer! Parece-me que ainda é indispensável a esta atual geração de líderes e crentes reassumir pessoalmente o papel de liderança moral diante de nossas famílias para que elas sejam colocadas no altar.
E então, o que começou comigo, chega a minha casa. Não deixa de ser curioso que, naquele momento de encruzilhada na história da nação de Israel, Josué tenha colocado como alicerce de sua escolha a sua família, não uma coletividade maior, e nem sequer mesmo a própria nação.
Fica difícil determinar se ele fez tal implicação propositadamente ou não. Mas também não vem ao caso aqui. A lição bíblica é esta. Ao colocar sua casa como seu foco de escolha ele deixou um inestimável ensinamento: somente com famílias servindo ao Senhor teremos um povo encaminhado na trilha correta.
Poderíamos dizer que Josué citou sua casa porque é sobre quem teria autoridade. Não me parecer ser o caso. Ele chefiava Israel e poderia impor o culto ao Senhor e a exclusão dos deuses antigos e locais. Porém, como já apontamos lá em cima, esta não seria uma decisão a se impor, mas uma escolha a ser feita consciente e responsavelmente. E começaria pela própria casa do líder, como padrão e modelo.
Como efeito de círculos concêntricos, a escolha que começou com Josué deveria ser padrão para sua casa para, só então, influenciar a sociedade e a nação.
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

sexta-feira, 11 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 1ª parte


Antes de refletir um pouco sobre a declaração de Josué e suas implicações para minha vida e da minha casa e igreja, sou levado a constatar que, em geral, a expressão bíblica é usada pelo nosso povo num sentido distinto daquele em que foi proferido inicialmente em Siquém.
Do jeito que ouvimos hoje a formulação: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" como jargão na boca, em adesivos, camisas ou em outros souvenir e badulaques, beira a uma formulação de magia (algo como wicca de crente!) usada para proferir promessa ou profecia autodeclarada. É como se ao pronunciar as palavras sagradas, Deus – e o próprio universo – estivesse sendo submetido à obrigação de agregar todos da minha casa à minha fé.
Parece absurdo, mas tem sido assim... contudo, deixemos a crítica de lado, e vamos ao texto, sua análise e às suas lições, pois é o que realmente nos interessa.
Dando-me à liberdade de uma tradução mais livre do verso bíblico eu diria: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Lendo o contexto, esta opção de tradução se esclarece melhor. Vejamos.
O grande Josué tinha consciência que estava no final de sua jornada, e por isso convocou os chefes nacionais para as últimas tratativas (confira Js 23:14). E o texto diz que líderes, juízes e oficiais de Israel compareceram diante de Deus (no primeiro verso do capítulo 24).
Todos estavam ali não para ouvir um velho a murmurar ou resmungar: no meu tempo... pelo contrário, eram os anos de experiência de Josué com o seu Deus que lhe conferiam os requisitos indispensáveis para conduzir o povo na presença do Senhor e desafiar a cada um deles a uma tomada de posição. Afinal, Deus estaria ali em Siquém. Josué o sabia. Israel também.
O discurso daquele dia teve como ponto de partida as poderosas ações de Deus na história do povo. Esta é uma prática que se tornaria padrão entre os homens e mulheres de Deus na Bíblia. Josué aprendeu desta maneira com seu mentor Moisés (atente Dt 32:7) e, depois dele, a história foi repetida em canções e serviu de base para a palavra profética (por exemplo o Sl 136 e Ez 20). E no NT Estevão usou o mesmo método (veja At 7).
A verdade é que nosso Deus sempre intervém e age na história dos seus, isso é graça e faz toda a diferença! Josué sabia disso por experiência própria.
Por ora, preciso confessar que, em nossos ajuntamentos, sinto falta de narrações que se inspirem na Revelação e transpirem para a história e não que vagueiem de um extremo da caatinga argumentativa para o aguaceiro da experiência. Aprendi que Deus está é no encontro da viração do dia no jardim (como é significativa a descrição deste encontro em Gn 3:8).
Prosseguindo com o contexto. Foi exatamente a experiência de Josué em liderar o povo que indicou que algumas escolhas fundamentais na vida não podem ser impostas de maneira arbitrária e autoritária. Por isso então ele apontou caminhos, deu opções. Com base na história, o povo deveria escolher: o deus dos pais, o deus da terra, ou Deus da história.
Ainda hoje ainda uma escolha deve ser feita. Diante de nós está a necessidade de escolhermos entre o deus estável da tradição (seja qual a for configuração religiosa ou espiritual com a qual ele se apresente), o deus sedutor da modernidade (com toda sorte de promessas ou experiências que descortinem), ou o Emanuel, o Deus que se fez história e habitou entre nós, cheio de graça e verdade (compare Mt 1:23 com Jo 1:14).
É neste ponto que a liderança de Josué se destaca mais uma vez. Antes que qualquer um dos chefes de família dissesse algo, ele tomou a dianteira e afirmou com convicção: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Ele não rogou bênção ou maldição (até porque já as tinha ouvido da boca de Moisés como ainda hoje eu leio em Dt 11:26-28). Também não apelou para acalantos espirituais ou bradou impropérios. Ele tomou uma decisão baseada no conhecimento que tinha da revelação de Deus e sua atuação na história de Israel.
Continua ...
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

AOS JOVENS PAIS

O segundo domingo de agosto é dedicado aos pais: o Dia dos Pais.  Como eu ainda estou criando o meu filho – tenho muito que aprender – sei que há alguns outros com mais experiência que eu – inclusive o meu próprio pai – que poderiam usar deste espaço para trazer lições valorosas.  Neste dia, reconhecendo as minhas limitações naturais, quero convidar aos jovens pais como eu, e àqueles que ainda pretendem ser pais, a passearem nas páginas bíblicas procurando instruções e conselhos válidos.
Aos jovens pais assim diz o Senhor:
Vou começar lendo o tradicional texto de Pv 22:6.  Ele diz que os pais devem ensinar, instruir e disciplinar seus filhos.  É claro que isso não tem a ver necessariamente com idade.  É dever de todo pai prover a educação adequada aos seus filhos.  No livro de Provérbios em vários trechos lê-se o convite para que os filhos ousam a instrução paterna (veja, por exemplo, Pv 4:1).  Esta deve ser uma postura a ser seguida. Instrua e treine seu filho para que ele saiba como se portar em toda e qualquer ocasião – isso vale tanto para questões sociais quanto espirituais.
Em segundo lugar, e igualmente conhecida, está a passagem que fala em não provocar ira, irritação, moléstia ou vingança nos filhos (em Ef 6:4).  A autoridade dos pais sobre os filhos deve ser natural e sempre buscar o entendimento – a maturidade esperada no comportamento dos pais deve levar a isso.  Os jovens pais precisam aprender esta lição: exerça a autoridade devida sobre seus filhos não através do medo ou terror, mas debaixo da orientação do Senhor (sublinhe o final do mesmo verso).
Nesta mesma linha de raciocínio: os pais sempre devem amar, cuidar, dar carinho a seus filhos.  Na parábola do filho pródigo contada por Jesus, o pai demonstra uma atitude de acolhimento que refaz e agrega o perdido e regressado (leia a parábola em Lc 15:11-32).  Filhos são para serem valorizados, desejados, queridos, respeitados e abraçados.  Desde cedo os jovens pais devem manter uma postura de afago para com seus filhos.  Lembre-se de abraçá-los e beijá-los.  Faça do seu colo e de sua casa um recanto gostoso de acolhimento e segurança.
Outro conselho importante eu posso tomar das palavras a Timóteo (conhecido como jovem pastor).  Em 1Tm 4:12 a atenção dele é chamada para que seu valor estivesse demonstrado em ele ser exemplo.  Mais que palavras, a postura correta do pai é ser um modelo e padrão do comportamento e vida para seus filhos – e como tenho aprendido isso em minha pouca experiência!  O comportamento e os valores da próxima geração são influenciados de maneira invariável pelo que esta faz ou deixa de fazer.  Assim, jovem pai, viva de modo a ser imitado (acrescente aqui as palavras de Paulo em 1Co 11:1).
E um último e mais importante conselho que leio na Bíblia: os pais devem sempre colocar seus filhos em oração diante do Senhor.  Foi num dos momentos de maior dor que Davi deixou a lição: o homem segundo o coração de Deus orou pelo seu filho (leia em 2Sm 12:16).  É dever sagrado de todo pai orar pelos seus filhos, interceder por eles e suplicar para que as misericórdias do Senhor estejam sempre em favor deles.  Esta instrução é fundamental a cada jovem pai crente: ocupe muito do seu tempo em oração pelo seu filho (lembre do que disse uma mãe – Ana – ao sacerdote em 1Sm 1:27).
Como disse lá em cima, estou consciente que ainda não tenho uma larga experiência no assunto, mas baseado na Palavra de Deus, que neste Dia dos Pais, nós jovens pais, possamos receber bem a herança que o Senhor nos deu (cito o Sl 127:3).  E o façamos para a glória divina, nesta e nas próximas gerações.

Escrevi este texto em agosto de 2010 (publicado em ibsolnascente.blogspot.com – a foto lá em cima é anterior).  Hoje já mais experiente, meu filho já maior, entendo que os conselhos continuam válidos aos jovens pais e aos mais amadurecidos: ensine e discipline seus filhos; exerça autoridade sem provocar ira; acolha-os e seja exemplo.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SOBRE FAMÍLIAS

A Bíblia começa afirmando que "no princípio criou Deus os céus e a terra" e é neste mesmo contexto que o texto sagrado nos diz que "não é bom que esteja só ... farei uma companheira".  O que nos dá claramente a entender que foi o próprio Deus quem primeiro idealizou a família.
Mas a família idealizada por Deus não uma organização etérea.  Ela existe dentro de um ambiente humano.  Com isto afirmamos que a família é um ideal divino dentro de construções humanas.  O que nos leva a compreender algumas lições importantes.
Como construção humana, a família está culturalmente condicionada; mas como ideal divino ela deve prover um ambiente que cumpra os seus objetivos de estabelecer mutualidade, companheirismo e fraternidade.  Como construção humana ela está sempre em processo e nunca definitivamente concluída; como ideal divino a família toma como modelo o relacionamento entre Cristo e a Igreja – puro e perfeito.
Sendo a família uma moeda de dupla face – humano-divina – devemos então compreender que é o próprio Cristo quem nos capacita para exercermos nossos papéis dentro do ambiente familiar.  Embora em outro contexto, mas as palavras de Paulo aos filipenses nos esclarece: "Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar" (Fl 2:13).
Neste mês de maio, quando refletimos sobre a família em seus várias aspectos e como devemos nos comportar nela, que sejamos impelidos a voltarmos nossas atenções a Deus que idealizou a família e nos colocou como seus agentes para a construção desta sociedade é que parte fundamental para a história humana.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

UMA FAMÍLIA NA BÍBLIA

O primeiro livro de Samuel no AT inicia nos falando de uma família – Deus gosta de começar suas intervenções por aqui!  A princípio parece uma família como outra qualquer; mas se olharmos cuidadosamente veremos que se trata de uma família diferenciada.  Vejamos alguns dos personagens que compõem esta família:
Em primeiro lugar vamos conhecer Elcana.  O texto diz que “havia certo homem de Ramataim...” e não entra em mais detalhes.  Mas vejamos que este levita de Efraim era um bom homem.  Como líder espiritual e responsável pela sua família, Elcana cumpria rigorosamente seus compromissos com o Senhor dos Exércitos e dava exemplo aos da sua casa (1Sm 1:3).  Veja outros exemplos de homens que foram sacerdotes para os da sua casa: Abraão (Gn 17:9); Jó (1:5); Josué (24:15) todos homens honrados e abençoados por Deus.
Também sobre Elcana devemos frisar que ele era completamente apaixonado pela sua esposa.  Note que ele se oferece em consolo a ela pela impossibilidade de gerar filhos, além disto, o texto diz que ele concedia à sua mulher poção dupla da oferta a ser entregue ao Senhor porque a amava (1Sm 1:5).  Que exemplo!  Parece que este homem já estava antecipando o que no NT estaria prescrito em Ef 5:25.
Sobre sua mulher Ana também dois destaques fazem dela uma mulher exemplar.  Em primeiro lugar ela se mostra uma mulher sábia ao tentar resolver seus problemas sem que isso desestruturasse toda a ordem familiar (nela cumpre-se Pv 14:1).  Mas principalmente Ana mostrou seu valor em ter buscado no Senhor a solução para o seu conflito: uma mulher que ora como Ana é capaz de mover os céus e transformar sua família (compare com Sl 37:5).
Como resultado deste casal, Deus fez nascer Samuel.  Um homem como poucos em toda a Bíblia.  Quando era ainda era criança já ouvia a voz de Deus (leia 1Sm 3).  Depois de se tornar homem feito, foi aquele que o Senhor levantou para ungir Saul e Davi reis de Israel e ser o porta-voz divino aos soberanos nacionais.  Com certeza Samuel foi o que foi também por influência da família que teve, pois Deus honra a fidelidade de seus servos (considere ainda Pv 22:6).
Esta é sem dúvida uma família que a Bíblia nos apresenta e que deve pautar a nossa família hoje.  Seja qual for o seu papel em sua casa, compare-se com o exemplo bíblico e procure viver do modo que mais agrada ao nosso Jesus.   Certamente ele também honrará nossa fidelidade hoje.  Que o Senhor abençoe sua família.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

PARA MINHA VÓ IDEA

A minha vó completou 70 anos.  Dizem que é ruim envelhecer, que a gente cansa, que a alegria não é mais a mesma de quando éramos criança.  Mas, pelo que eu conheço dela, é ótimo ter 70 anos – do jeito que ela tem.
Eu vejo minha vó fazendo o que gosta: ficar em casa, bordar e cozinhar.  Ela ainda é ocupada trabalhando na Igreja.
Ela gosta de ficar na companhia dos filhos – meu pai e meus tios – e do neto – no caso, eu.  Falando nos seus filhos, ela os criou muito bem, eu sei por que um deles é meu pai.  Ensinou eles a viverem pela Bíblia.
Não sei como foi o começo da vida dela – meu pai ainda não tinha nascido, quanto mais eu.  Me contaram que ela foi muito esperta e aproveitou bem a vida em Recife.
Namorou e casou com meu avô Jabes e veio morar aqui nesta cidade.  Fez muitos amigos e amigas.  Acho que ela é mais de Sergipe do que de Recife.  Ela foi professora – é capaz de ter alunos delas aqui.  Mas,– ah!– se aposentou.
Sei que tudo que ela ganhou foi dado por Deus, inclusive eu, meu pai e meus tios.  Ela gosta que eu vá para a casa dela.  Sempre que podem, ela e meu avô fazem meus gostos, mas claro, também me educam.
Obrigado, minha vó, pela felicidade que me deu e digo: PARABÉNS por seus 70 anos.

André escreveu este texto em junho de 2006, quando tinha 11 anos, para ser lido no culto de gratidão de sua vó Idea Nogueira.

terça-feira, 9 de junho de 2015

UM DEUS MATERNAL

Nas antigas tradições de Israel, encontramos uma dupla consciência de que Deus é adorado na singularidade de ser único Deus: por um lado, temos a memória do nome que é dado a Deus como o Deus dos pais (Abraão, Isaque e Jacó), com tudo o que esta palavra pode evocar de grave e afetuoso; e, por outro lado, temos a ideia de que Israel foi adotado como um filho de Deus, que se torna assim o Pai de Israel para adoção (Os 11, Jr 3:19).  Esta ideia paterna de Deus é profundamente positiva e o israelita percebeu essa certeza como um benefício.  Ter por pai da nação o criador de tudo é, sem dúvida, um elemento de confiança, se o meu destino depende dele que é meu Pai.  Então eu posso ter a esperança de redenção.
Ao mesmo tempo, a própria ideia de criação dá ao conceito judaico de Deus uma dimensão maternal inegável.  Nos países vizinhos, ao lado do Deus-Pai havia a sua Ashera, a esposa, porque o macho precisa da fertilidade feminina para criar.  No sentido da criação bíblica, porque só há um Deus, ele deve ser tanto masculino (pai) e feminino (mãe), então podemos concluir que a fé de Israel em Deus consiste na fé como um "pai-maternal" como princípio da criação. 
Agora, vamos ver se essa percepção é corroborada pelos dados bíblicos.  Partimos do texto que nos guia na reflexão (Gn 1:1-2 e 27-29): "Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou".  Este exemplo seria suficiente, mas ao longo da história a dominação masculina (patriarcado) relegou a dimensão feminina de Deus a uma metáfora sem praticamente nenhuma relevância na reflexão teológica.  Somente uma imagem que integra os dois aspectos da imagem divina (masculino e feminino) faz justiça aos dados bíblicos irrefutáveis. 
Deus cria e a criação acontece através da Ruach, espírito e hálito divino que é Neshama, respiração, vento.  A santa Ruach em hebraico é palavra feminina.  A criação é a implantação da Ruach divina que faz eclodir num oceano imenso e escuro o nascimento primordial e sagrado da vida.  A imagem é a de uma pomba que choca seus ovos.  Às vezes, como a carícia da brisa do vento (a Ruach levou Israel como o pastor leva o seu gado no deserto – Is 63:14), ou como um vento forte que separa o mar para que o povo opresso possa escapar do genocídio planejado por Faraó.
Outra imagem que reforça o conceito de pai-materno é o uso de dois tipos de expressões relacionadas com os órgãos reprodutivos femininos, que dão nome ao amor misericordioso e incondicional de Deus.  A primeira palavra é rachamim – palavra que descreve a clemência e a misericórdia de Deus.  A raiz desta palavra é requem que significa "útero", os rachamim então são as partes do corpo feminino, onde a vida cresce, onde a criança cresce, é protegido/a, recebe nutrição e é a primeira "casa" do ser humano – da qual sempre sentiremos falta após o nascimento.  Ao aplicar esta expressão para Deus, rachamim significa que Deus, como a mãe, sente dentro de si o mesmo tipo de amor altruísta e feito de pura graça, é um amor invencível contra a qual nada se pode fazer (Is 49:15 diz: "haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama ... embora ela possa esquecê-lo, eu não me esquecerei do você!").  Ele evoca a intimidade do amor maternal que protege, conserva, perdoa de um modo tão misterioso e contínuo. 
A hesed divina é, portanto, o coração divino, desde o ventre de sua mãe, e apesar das infidelidades e pecados, renova o pacto, perdoa o pecado e dá ao pecador arrependido continuamente uma nova oportunidade para começar de novo o caminho de santificação.  A fé de Israel se volta para Deus, portanto, com esta profunda consciência de ser ele um pai com implicações maternas.  O Sl 77:9  numa tradução literal questiona se a ira de Deus encerrou a sua rachamim? Isto não é possível para Deus pois não pode "esquecer" sua hesed, sua compaixão misericordiosa.
Temos ainda a dimensão materna também na idéia de Sabedoria bíblica, hokma que às vezes é chamado de "filha de Deus".  O filho de Deus tem, portanto, características femininas, e não apenas masculinas, uma vez que Cristo é chamado "poder" (dynamis) e "sabedoria" (sophia-hokma) de Deus.  No capítulo 8 de Provérbios a Sabedoria é uma mãe que infunde e transmite a sabedoria da vida a seus filhos e filhas para que eles possam aprender os mandamentos por meio do temor a Deus, para ocupar o seu próprio lugar de colaboradores de Deus no cuidado da criação e dos outros e não para a sua destruição ou dominação perversa.  
Finalmente, encontramos no Novo Testamento a palavra que define Deus no feminino:  agape.  O pai de Jesus é agape, amor e isto está em perfeita continuidade com o que vimos no Antigo Testamento: é o amor agape de Deus, o pai-materno, que se derrama sobre o mundo (o primeiro filho) e dá a si mesmo, o Filho, o amado, para salvar e redimir um mundo que de outra forma estaria perdido.  Essa idéia de Deus "derramar" seu próprio Filho sobre o mundo pecaminoso e perdido  é então acompanhada pelo dom do Espírito, quando o Filho retorna ao pai-materno.  Deus continua a derramar o seu ser amor pelo carisma total Pneuma (palavra que traduz o hebraico Ruach no grego: Espírito).  Deus mesmo está se derramando sobre o mundo, sobre as relações humanas desfiguradas pelo pecado, para criar novas relações de filiação e dependência paterna e materna.
Deus não esconde dentro de si infernos ou paraísos para trazê-los no fim dos tempos, mas dentro de si ele é um Deus pai-materno.  Este é o princípio inclusivo divino que nós agora reconhecemos completamente na obra divina desde o início e que, por séculos, foram ofuscados por teologias inadequadas e que têm obscurecido a realidade da Trindade divina.

Texto escrito por Martin Ibarra.  O original em italiano intitulado: Il nostro Dio è un Dio "maternale" pode ser lido em http://www.chiesabattistadimilano.it

sexta-feira, 22 de maio de 2015

A FAMÍLIA DE DEUS


A Bíblia nos diz que no princípio Deus criou todas as coisas.  Neste processo, formou o ser humano a sua imagem.  Compreendendo assim, inicialmente devemos ver que Deus é o modelo que todo homem e toda mulher deve seguir.  Pensando em família, o modelo apresentado pelo Mestre deve ser então o parâmetro para as nossas famílias.
Como igreja, somos chamados de Família de Deus.  Como família, também nós – igrejas – temos virtudes e defeitos. Mas, sem dúvida, é pensando numa igreja-família que devemos aprender os acertos de uma para passá-los à outra e os vícios de cá para evitá-los lá.
Lendo a Carta aos Efésios podemos extrair pelo menos três parâmetros básicos que uma família deve apresentar para ser considerada Família de Deus – aqui penso tanto na minha igreja em geral como na minha casa em particular.  Vejamos:
Portanto, sejamos imitadores de Deus, como filhos amados (Ef 5:1).  A família deve ser lugar de crescimento.  Num lar onde o modelo divino prevalece, os pais são exemplos dignos a serem seguidos e os filhos sabem que seguir os seus passos é garantia de qualidade de vida (veja no Sl 132:12 uma promessa sobre isso).
Como filhos de Deus, devemos olhar para nosso Pai celeste e procurar imitá-lo em tudo.  Assim deve ser o padrão de relacionamento na Família de Deus.
Do qual recebe o nome toda a família nos céus e na terra (Ef 3:15).  A família precisa ser um lugar de referência. Ao colocar a família como referência, Deus estava estabelecendo um ambiente onde cada um dos seus filhos e filhas experimente a certeza de se saber incluído (lembre que foi disso que o filho pródigo sentiu falta ao lembrar da casa do pai na parábola em Lc 15:17).
Como Família de Deus é importante que transformemos nosso lar em um lugar onde todos possam ter referência e sentido para suas vidas.  Assim deve ser o parâmetro na Família de Deus.
Vocês já não são estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2:19).  A família tem que se tornar necessariamente um lugar de acolhimento.  O ambiente da família no modelo de Deus é o lugar onde cada um dos seus membros – do mais velho ao mais novo – se sente querido e acolhido e sabe que é bem vindo e tem abrigo (a promessa de Jesus sobre as moradas da casa do Pai em Jo 14:2 transpira um acolhimento assim).
Como na casa do Pai eterno, as nossas casas precisam ser um lugar que nos permita chegar e saber somos sempre bem-vindos.  Assim deve ser o lar que se espelha da Família de Deus.
Deus é o nosso Pai amoroso, e seu exemplo de família precisa ser valioso e indispensável para construirmos nosso lar e nossa igreja.  Que façamos deste exemplo nosso parâmetro de vida; para a glória exclusiva do Pai.

(Este texto apareceu pela primeira vez no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 30/04/2009)

sexta-feira, 8 de maio de 2015

CONSIDERANDO O SEGUNDO DOMINGO DE MAIO

Chegamos ao segundo domingo de maio – Dia das Mães – e sob esta inspiração, gostaria de refletir sobre algumas instruções bíblicas no trato dos filhos.  O sábio ordena: instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele (Pv 22:6).  E em Ef 6:4 eu leio: vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor.
Estes e outros textos bíblicos nos informam que os filhos – que são tidos como herança do Senhor (confira Sl 127:3) – são responsabilidade dos pais e mães que os têm.  As alegrias da maternidade vêm sempre acompanhadas da responsabilidade da criação.  Ou seja, diante de Deus, devo saber que os meus filhos são o meu ministério, e que Deus me confiou para que os eduque e instrua nos caminhos sagrados.  Ensinar a Bíblia, a buscar a Deus, a se comprometer com os valores do Reino de Deus são parte fundamental da herança que devo deixar para as próximas gerações.
A Bíblia ainda se refere à necessidade de repreensão e admoestação que também cabe aos pais em relação aos filhos.  Se sou responsável pelo processo educativo, também devo ser responsável pela correção – quando necessária – dos que estão sob o meu cuidado.
Tenho por certo que esta atividade atribuída aos pais e mães pela Palavra de Deus é por demais séria e compreende níveis de responsabilidades que por vezes excedem às reais capacidades da maternidade e paternidade.  Então só me resta uma opção:  Preciso clamar a Deus por nossos pais e mães para que o próprio Deus os capacite para cumprirem às suas missões.
Coloquemos nossas mães no altar de Deus!

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

EM SIQUÉM COM JOSUÉ

O texto final do discurso de Josué, quando ele declara com convicção: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (encontra-se em Js 24:15), está entre as mais conhecidas e citadas passagens sobre família em toda a Bíblia.  Talvez seja por isso que sempre que nós nos propomos a refletir sobre ele corremos o risco de ser repetitivo ou pouco criativo e, por isso mesmo, desinteressante.
Tudo bem.  Eu estou disposto a correr este risco.  Mas para isso quero lhe convidar a usar sua imaginação espiritual – esse dom maravilhoso e engenhoso que nos foi dado pelo próprio Deus – a serviço da compreensão do texto.  Então, por favor, queira me acompanhar que eu vou a Siquém, tentar me juntar ao grupo que estará ali para ouvir o último discurso de Josué.
Sabendo que seus dias já se aproximavam do fim (ele disse isso em Js 23:14), o grande líder nacional Josué convocou todos os chefes de famílias e clãs de Israel para uma última reunião da confederação das tribos de Israel sob o seu comando (é no meio dessa gente que eu quero me misturar!).
É claro, aquela não seria apenas mais uma reunião como tantas outras reuniões eclesiásticas que enchem nossas agendas – com o velho Josué na liderança nunca seria assim!
O texto não fala sobre o horário da reunião – e nem é importante – mas já que estou usando minha imaginação espiritual, deixe-me compor o cenário, isso ajuda: a reunião deve ter acontecido logo nas primeira horas do dia, ou talvez já com o sol a se por (acho melhor! Para alinhar com a viração do dia em Gn 3:8).  Não acho que o sol estava a pino. 
Juntos, a liderança de cada casa de Israel se postaria para ouvir o que Josué ainda tinha para dizer.  É verdade que a tarefa da conquista não tinha sido concluída, mas era inegável que Deus não havia faltado com nenhuma de suas promessas (compare Js 13:1 com Js 23:14).
Quando então Josué tomou da palavra, eu conseguiria perceber um silêncio respeitoso na assembleia.  Aquele homem tinha o que dizer, e valeria a pena ouvi-lo.  Não era apenas um velho remoendo suas memórias gastas pelo passar dos anos.  À nossa frente estaria um ancião ainda vigoroso, cuja idade só lhe serviu como coroamento de virtudes raras e preciosas.
— Esse momento em Siquém para ouvir o velho Josué eu não perderia por nada!
As rugas certamente emolduravam sua face, mas elas me diriam que o espírito do guerreiro depurou-se.  Talvez já não houvesse o ímpeto juvenil, agora porém transbordavam sabedoria e maturidade.  Certamente estas compensavam aquele, e com vantagem!
Olhando o filho de Num, da tribo de Efraim, estaríamos diante da prova viva da ação e intervenção do Senhor em nossa história: nascido em tempos de escravidão no Egito (dali só restavam agora ele e Calebe de Judá), os anos pelo deserto, os passos como pupilo de Moisés e a liderança na conquista da terra só atribuíam credibilidade às suas palavras.
Diante de nós não estaria um aventureiro da fé ou um oportunista com um discurso religioso bonito.  Era um líder cuja vida testemunhava a favor de si – a estes valem a pena ouvir.
Tudo ali era significativo.  Até o próprio local da reunião.  Não sei por que não escolheram Siló, onde estava provisoriamente instalada a Tenda do Encontro e a Arca da Aliança.  Talvez poderia ser a opção mais lógica.  Penso que foi mais por razões históricas e não espirituais.
O encontro aconteceu em Siquém, cidade-refúgio dada aos levitas nas montanhas de Efraim (confira em Js 21:21).  Foi naquele lugar, sob o carvalho de Moré, que o patriarca Abraão ergueu o primeiro altar em adoração ao Senhor logo que chegou na terra (narrado em Gn 12:6-7).  Aquele quinhão de terra tinha história.  Toda a atmosfera transpirava aliança e compromissos antiquíssimos.  Além do mais, ali também era terra santa, onde Deus se habituara a falar com o povo.
Voltemos ao encontro.
Ao silêncio respeitoso, do qual já falei lá em cima, seguiriam-se as palavras de Josué.  Primeiro uma excelente, embora resumida, resenha histórica.  Mais que narrativas alheias, o que se ouviria naquele dia seria um testemunho de fé em primeira pessoa, de alguém que, pela própria experiência, era capaz de crer em um Deus que sempre intervém na história, e o faz por amor e aliança.
Então Josué terminaria desafiando o povo.  Parece que ele entendia que uma coisa deveria levar à outra.  Eu sei que estamos acostumados a recitar Js 24:15 como promessa, profecia, herança, declaração de garantia, súplica ou algo que o valha.  Mas naquele dia, em Siquém, as palavras não me pareceriam ter saído da boca do líder Josué com nenhuma destas conotações.  Era compromisso.  Era disposição.  Era um projeto de vida que começava pelo chefe da família e, a partir dele, contagiaria a todos.
Nas montanhas de Efraim, Josué estaria me desafiando a assumir a responsabilidade diante do Senhor de conduzir a minha família nesta senda sagrada: a minha casa servirá ao Senhor na exata medida em que eu assumir o eixo condutor deste serviço e adoração.
E tendo à frente um modelo e padrão como o de Josué, em Siquém eu ouviria o povo responder com convicção ao desafio: "nós também serviremos ao Senhor" (leia Js 24:18).
Volto a lembrar o exercício de imaginação espiritual proposto lá no início destas palavras.  Estando você comigo a ouvir o chamamento de Josué, que resposta daremos a ele? Faremos coro com os líderes de família de Israel? E na prática, em nossa vida e história, que resposta daremos?
E que o Senhor nos dê homens da estirpe de Josué.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

HÁ UMA IGREJA EM SUA CASA?

As saudações epistolares no NT em geral se referem às igrejas que se reuniam nas casas dos cristãos.  Esta era uma prática comum.  Sem templos próprios construídos, as comunidades de fé se encontravam nas casas dos crentes e lá prestavam seu culto, se alimentavam espiritualmente com a Palavra de Deus e desenvolviam a comunhão.
Aproveitando a ideia das igrejas nas casas e entendendo a importância desta atitude para uma vivência saudável dentro do Reino de Deus, mas olhando pelo prisma da casa, pergunto: há uma igreja em sua casa?
Para ajudar a responder, deixe-me apresentar algumas casas bíblicas e as características que fizeram delas um lugar apropriado à existência de uma igreja.
A primeira casa vem da parábola que conhecemos como do "Filho Pródigo" (confira a narração toda em Lc 15:11-31).  Aquele era realmente um lugar acolhedor, tanto para o filho mais novo ao voltar para casa, quanto para o mais velho que não quis participar da festa.
Uma casa que abriga uma igreja é sempre um lugar agradável, onde é bom e gostoso estar ali, onde a família tem prazer em estar (penso que para uma casa assim até posso extrapolar e citar o Sl 122:1).
Outra casa a ser mencionada é a de Timóteo (veja a referência em 2Tm 1:5).  Sua avó e sua mãe lhe deram uma base sólida e uma educação religiosa adequada a ponto de, já adulto, ele ainda poder usar como referência.
A igreja que está na casa é aquela que sabe fomentar valores cristãos nas gerações que estão chegando tanto pelo exemplo como pelo ensino propriamente dito; é onde a Palavra de Deus não é apenas uma teoria distante, mas está incorporada em todas as atitudes do cotidiano (considere o conselho dado pelo sábio em Pv 22:6).
Olhando o AT vejo a casa de Manoá – o pai de Sansão – também como um bom exemplo do que seria uma casa onde há ambiente adequado para uma igreja (leia a história em Jz 13).  Naquela casa, a prática da oração era costumeira e é isso que fez toda a diferença (em especial os versos 8-9).
Como na casa de Manoá, onde a vida se faz forjada pela prática constante da oração ali é o lugar onde há uma igreja e onde as bênçãos também são uma realidade (atente 2Cr 7:14).
Voltando ao NT, a última casa que quero citar é a das irmãs Marta e Maria (em especial no texto de Lc 10:38-42).  Naquela casa o próprio Jesus acostumou-se a ficar hospedado.  Ali se mostrou um lugar para receber o Senhor.
Esta é a marca principal da casa onde há uma igreja: a presença de Jesus é real e constante.  É exatamente a presença divina no interior da casa que faz daquele lugar algo diferenciado.  Somente quando o Todo-Poderoso com seu poder e glória baixa para habitar naquela casa é que ela será miraculosamente transformada em uma igreja de verdade (aproprie-se da promessa de Mt 18:20).
Volto a perguntar: há uma igreja em sua casa?  E oro para que cada uma destas características possa ser encontrada lá na sua casa e você possa sempre se referir ao seu endereço de moradia como o lugar onde a igreja de Cristo pode ser encontrada.  Para a glória dele.
 (Texto publicado pela primeira vez em 10/12/2010 no sítio ibsolnascente.blogspot.com)