terça-feira, 16 de junho de 2026

O GRANDE APERREIO



No Sermão Escatológico, que o Evangelho de Mateus registra no capítulo 24, Jesus fala em guerras, fomes, pestes e terremotos. Embora enfatize que "ainda não é o final" (Mt 24.6).

Nesse contexto, Jesus também fala numa grande tribulação ímpar e na garantia de que esses dias deverão ser abreviados (nos versos 21 e 22).

 

Esse tema da Grande Tribulação é recorrente nos estudos de Teologia Escatológica – em vários sentidos e com várias correntes.  Não quero aqui percorrer entre tais posicionamentos.  Quero lhe atrair para uma leitura bíblica.

 

— 0 que está escrito no Texto Sagrado?

 

A palavra grega citada no Evangelho é θλῖψις μεγάλη (fala-se: thlipsis megalē).  Ela usualmente é traduzida do Koiné como tribulação, angústia, aflição, dificuldade ou opressão. 

Da mesma raiz do verbo grego θλίβω (fala-se: thribo) significando, oprimir, pressionar ou apertar para baixo.  O grego moderno usa esse verbo para indicar: entristecer, contristar, penalizar, mortificar – tanto num sentido físico como figurado.

Uma curiosidade sobre o termo “tribulação” em português.  Na origem latina está a palavra tribulatio que, por sua vez, vem de tribulum, uma ferramenta agrícola de madeira com pontas afiadas usada para separar o trigo da palha (debulhar). Tertuliano foi o primeiro autor cristão a usar no sentido teológico-escatológico para se referir ao conceito das perseguições e dificuldades que purificavam e testavam a fé dos cristãos.  Depois deles, vários pais da igreja depuraram o conceito.

 

Vamos ao texto.  O início do verso de Mateus 24.21 foi traduzido assim (em destaque a expressão):

→ Vulgata Latina – Erit enim tunc tribulatio magna.

→ Grego Moderno – Τότε γὰρ θέλει εἶσθαι θλίψις μεγάλη.

→ Hebraico – כי אז תהיה צרה גדולה

→ Inglês (KJV) – For then shall be great tribulation.

→ Inglês (NVI) – For then there will be great distress.

→ Inglês (MSG) – This is going to be trouble on a scale beyond what the world has ever seen.

→ Alemão (Luther, 1912) – Denn es wird alsbald eine große Trübsal sein.

→ Italiano (Riveduta, 1927) – Perché allora vi sarà una grande afflizione.

→ Espanhol (Reina Valera) – Porque habrá entonces grande aflicción.

 

As versões em Português desse mesmo verso dizem:

→ Almeida (ARC) – Porque haverá, então, grande aflição.

→ NVI – Porque haverá então grande tribulação.

→ NTLH – Porque naqueles dias haverá um sofrimento tão grande.

→ NVT – Pois haverá mais angústia que em qualquer outra ocasião.

→ BJ – Pois haverá então uma tribulação tão grande como nunca houve.

 

E eu, sendo estudante da Bíblia aqui no Nordeste do Brasil, traduziria:

 

— Porque existirá um grande aperreio.

 

Deixe-me citar (e comentar rapidamente) outros textos onde a palavra ocorre.  Deve ajudar a compreender o sentido:

 

    Jesus disse que o mundo nos empurraria para baixo, mas que no fim a vitória chegaria (confira Jo 16:33).

    Paulo aos romanos diz que nenhum aperreio pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8:35) e, além do mais, através daquele que nos ama, somos invencíveis (v. 37 – na versão tradicional de Almeida: “mais que vencedores”).

    Na visão de Apocalipse, um dos anciãos afirma que os vestidos de branco diante do trono do Cordeiro são os que, tendo vindo do grande aperreio, lavaram e branquearam suas roupas no sangue do Cordeiro (em Ap 7:14).  E Deus vai limpar dos seus olhos toda lágrima (leia até o verso 17).

 

E mais uma citação.  Comentando o texto do Apocalipse, eu fiz a seguinte reflexão:

 

Então, independente da compreensão que se tenha do evento escatológico específico que possa ser denominado como a grande tribulação, João em sua visão, contempla uma multidão de selados por Deus que, vindo das tribulações, agora podem adorar diante do trono.  Eles já podem experimentar em suas próprias vidas o desfecho final da certeza que a leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação (2Co 4:17).  O vidente não sabe como eles chegaram ali, nem a extensão dos tormentos que antecederam aquele momento, embora possa imaginar a partir das suas próprias tribulações e exílio.  Mas lhes foi dito que eles sobreviveram aos infortúnios da vida e, mesmo ainda lá, poderam ter a companhia do Deus que é fortaleza em tempos de tribulação (leia o Sl 46:1).  E a narração continua: razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário (Ap 7:15).

(No livro: Tu És Digno).

 

 


Indico a leitura do livro  TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

Disponível na:
AD Santos editora
amazon.com

 

terça-feira, 9 de junho de 2026

OS MORTOS LEMBRAM?

 



Estudo bíblico-teológico sobre o tema do que ocorre com o pós-morte. Os mortos podem ou não lembrar do que aconteceu nesse lado da existência? O que a Bìblia tem a dizer sobre o tema da vida depois da morte?


“Por que os vivos sabem que vão morrer; mas os mortos não sabem de nada e nem mais que terão recompensa. 
E a memória deles é esquecida.”
(Ec 9:5)



terça-feira, 2 de junho de 2026

ORAÇÕES E LEÕES

 


 

Chegando ao reinado de Dario, Daniel ainda continuava com prestígio na corte, enquanto outros homens da corte “procuravam um motivo para acusar Daniel” (Dn 6.4).

Usando de um estratagema, os adversários de Daniel levaram Dario a assinar um decreto proibindo, num prazo de trinta dias, a adoração a qualquer deus que não o próprio rei e que quem descumprisse tal decreto fosse lançado aos leões (Dn 6.7).

O decreto, contudo, não intimidou Daniel e quando ele foi flagrado orando ao seu Deus (Dn 6.11) foi denunciado e sentenciado, sendo jogado na cova dos leões para ser devorado (Dn 6.13-16).

Na manhã seguinte, o próprio rei foi verificar o que teria acontecido com Daniel e, para sua surpresa, constatou que o Deus vivo “enviou seu anjo e fechou a boca dos leões” (Dn 6.22).

Ficou então demonstrado tanto a intenção dos adversários em perseguir Daniel e o destruir, como a sinceridade de Daniel, que era fiel às suas obrigações e ao rei, e cuja intenção não foi afrontar Dario, mas manter sua fé no seu Deus.

Então, “porque havia confiado em seu Deus”, Daniel foi poupado de maneira milagrosa por Deus. E quando o tiraram da cova “não acharam ferimento algum nele” (Dn 6.23).

Assim, mais uma vez, o Deus de Daniel foi honrado e, com um decreto real, ficou ordenado que “os homens tremam e temam diante do Deus de Daniel, pois ele é o Deus vivo. Ele livra e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra” (Dn 6.26-27). Como ficou demonstrado no livramento de Daniel da cova dos leões.

 

(A partir da revista COMPROMISSO – Convicção Editora; Ano CXVII; nº 468.  Na imagem: Daniel in the Lions' Den – óleo sobre tela do pintor flamenco Peter Paul Rubens – cerca de 1614 a 1616; atualmente exposto no National Gallery of Art / Washington, D.C. – fonte: wikipedia.org)

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Bioética Cristã

 

econtato: 79 98874-2129 ou contato@setebase.com.br

Nesta videoaula sobre Bioética Cristã, são abordados os principais desafios éticos da atualidade à luz dos princípios cristãos e da cosmovisão bíblica. A aula é direcionada a compreender como a fé cristã orienta decisões em questões complexas relacionadas à vida, saúde e dignidade humana.

 

Para ter acesso ao nosso curso completo acesse: Hotmart/SETEBASE  

Mais informações: entre em contato: (79) 9 8874-2129 ou contato@setebase.com.br


quarta-feira, 20 de maio de 2026

AI DA CIDADE

O relacionamento de Deus com o povo de Israel se estabeleceu baseado numa aliança mútua. O Senhor que tirou o povo do Egito deu a eles seus estatutos e normas “pelas quais o homem viverá ao cumpri-las” (Ez 20.11). Mas o povo não seguiu as instruções divinas nem lançou “fora as abominações que encantavam os seus olhos” (v. 8).

Embora o Senhor tenha dado seus estatutos para que servissem de testemunho entre Deus e Israel (Ez 20.20), o povo, a começar por seus sacerdotes, não fez diferença entre o santo – aquilo que deveria ser separado para Deus – e o profano – aquilo que deveria ser rejeitado (Ez 22.26).

É verdade que o Senhor nunca desistiu do seu povo pois continuou buscando “entre eles um homem que levantasse o muro e se pusesse na brecha” (Ez 22.30); mas não achou ninguém dentre os filhos de Israel que fizesse esse compromisso com Deus e com o povo.

Restou o lamento: “Ai da cidade que derrama sangue sobre si mesma e faz ídolos contra si mesma, para se contaminar!” (Ez 22.3). E o conjunto de acusações contra a cidade infame incluía: derramar sangue (v. 6), desprezar os pais, oprimir estrangeiros, ser injusto com órfãos e viúvas (v. 7), profanar coisas santas (v. 8), caluniar (v. 9), adulterar (v. 11) e extorquir o próximo (v. 12). Todos pecados que afastam o ser humano dos caminhos de Deus.

Diante de tal quadro, o Senhor entregou ao profeta Ezequiel sua palavra. E o fez através da parábola das duas irmãs: Oolá e Oolibá; as quais ele mesmo identificou pelo nome: “Samaria é Oolá, e Jerusalém é Oolibá” (Ez 23.4).

Na narrativa, as duas irmãs “seguiam o mesmo caminho” (Ez 23.13) de prostituição com seus amantes assírios e egípcios e como consequência o Senhor já havia dado sua sentença: “Farei subir uma multidão contra elas e as entregarei ao tumulto e ao saque” (Ez 23.46).

E quando a sentença se cumpriu com a queda da cidade, registrada com data no livro profético (Ez 24.2), o Senhor ainda usou uma tragédia pessoal de Ezequiel para servir de sinal. Com a morte da mulher do profeta (o desejo dos seus olhos – Ez 24.16,18), ele foi instruído a não demostrar luto e a gemer em silêncio (v. 17), simbolizando a tragédia que se abateria sobre a nação os faria definhar e gemer (v. 23).

O motivo principal, contudo, de toda essa situação seria para que no fim todos soubessem quem é o SENHOR (Ez 26.27).

 (Da revista “COMPROMISSO” – Convicção Editora – Ano CXVII – nº 468)



Você pode ler um ensaio sobre o profeta Ezequiel no livro ENSAIOS TEOLÓGICOS

Disponível no:
Clube de autores
amazon.com

Conheça também outros livros:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão
PARÁBOLA DAS COISAS

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

DIVERSIDADE DE DONS


 Entendemos que os dons distribuídos pelo Espírito têm por objetivo primeiro edificar a igreja em áreas que o próprio Deus entende necessárias.  E que, quando isso ocorre, toda a comunidade de fé é edificada e cresce.

Com base nas relações de dons que encontramos no Novo Testamento, gostaria de classificá-los por sua área de atuação.  Lembrando mais uma vez que todos são importantes na medida da necessidade e que não há hierarquia entre eles.

A primeira área de atuação dos dons seria mais pessoal.  Como citação, seria o dom de conhecimento, de sabedoria e variedade de línguas.  Neles, embora a ação se dê na área pessoal de cada crente, capacitando-os para ter uma compreensão mais aguçada das coisas espirituais, o objetivo final é levar a igreja a perceber melhor as verdades espirituais.

Uma segunda classificação, chamaria de social.  Os textos falam em contribuição, cura, ensino, fé, liderança, hospitalidade, pastoreio, serviço, entre outros (esse é o grupo com mais diversidade).  Aqui o objetivo claro é atender necessidades sociais, psicológicas, emocionais e funcionais da comunidade.

Uma última classificação seria a dos dons litúrgicos, ou de culto e celebração.  Seriam os dons de profecias, interpretação de língua, exortação, evangelismo, discernimento de espíritos.  Enquanto a igreja se reúne para cultuar e celebrar a Cristo as diversas manifestações espirituais acontecem, e os dons se manifestam para que ela possa ser conduzia de modo correta a uma adoração digna.

(Da Revista DIDASKALIA – 1º
quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)


Você pode ler mais sobre Dons Espirituais no Escrevinhando:
Para um estudo simples das palavras gregas que o apostólo Paulo usa para descrever os dons, indico os seguintes links do Escrevinhando:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Os selados do Apocalipse

 



Ap 7:3 – “...até que selemos as testas dos servos do nosso Deus”.


Os que receberam o selo de Deus em suas testas são os que foram comprados pelo Cordeiro de toda as tribos, línguas, povos e nações para se constituírem reis e sacerdotes.


Leia mais sobre esse tema no Escrevinhando - link

terça-feira, 28 de abril de 2026

SOBRE O ARREPENDIMENTO



Os Evangelhos dizem que Jesus iniciou seu ministério anunciando a chegada próxima do Reino de Deus e a necessidade de arrependimento.

 

O Reino de Deus está próximo!  Arrependam-se e creiam no evangelho!
(Mc 1.15)

 

O tema do arrependimento não seria novo para os ouvintes do Mestre de Nazaré.  Profetas como Ezequiel já haviam abordado o tema (leia Ez 18) e João preparou o caminho do Messias também desafiando ao arrependimento, além de exigir um comportamento adequado (confira Mt 3.2 e 8).

 

Como tema central da mensagem de Cristo, o arrependimento requer uma análise mais minuciosa.  Assim, proponho um estudo no termo e depois uma reflexão sobre o tema.

O termo que os evangelistas usam em grego é μετανοέω (metanoeo – como verbo aparece cerca de 36 vezes no NT), e, na sua forma como substantivo, μετάνοια (metanoia – que ocorre 24 vezes).

A etimologia do termo original me leva a μετά + νοῦς que, literalmente, indica: além/depois + mente.  Ou, numa versão mais costumeira: mudança de mente.  Entendendo que os antigos usavam o termo νοῦς / mente para se referir tanto à sede do pensamento, quanto à faculdade espiritual pela qual a verdade de Deus é apreendida e posta em prática.

Então arrependimento seria uma proposta de mudança tanto de pensamento como apreensão das verdades divinas.

 

O apóstolo Paulo, escrevendo a Roma, fala em transformação (em grego: μεταμορφόω – metamorfoo) e renovação (em grego: ἀνακαίνωσις – anakainosis) da mente.  Enxergo como uma excelente definição de arrependimento no conceito bíblico (em Rm 12.2).

E ainda, para explicar melhor esse conceito, gosto como o pregador batista inglês C.H. Spurgeon (1834-1892) define: arrependimento – mudança de mente – “inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado…”

 

Nessa compreensão dos termos, penso que é importante diferenciar o arrependimento como padrão cristão (do grego: μετάνοια) para o sentimento de tristeza ou remorso (no grego seria λύπη – lype – Rm 9.2). 

Sobre isso, o texto de 2Co 7.10 esclarece que essa comoção de origem mundana resulta em morte, mas, importante, quando tem origem em Deus conduz ao arrependimento verdadeiro e, daí, a salvação.

 

E com essa citação já podemos nos encaminhar para a compreensão do tema.

 

Voltando à fala de Jesus, a citação é clara: Arrependam-se.  Aqui o verbo grego está no imperativo presente.  Ou seja, é uma ordem direta que precisa ser cumprida já. 

 

A chegada do Reino implica que a ordem divina coloca como condição para participação no Reino que um arrependimento aconteça.  Isso é pré-condição indispensável.  E, usando uma expressão latina: sine qua non!

Continuando a leitura bíblica como referência para nossa compreensão do arrependimento, como disciplina cristã, vamos a 2Pe 3.9.  No texto epistolar é atestado a garantia que o Senhor não está atrasado em sua promessa, mas está sendo longânime, dando oportunidade para todos venham a se arrepender.  Esse é o desejo divino e para isso ele sempre nos atrai (volte ainda a Ez 18.32).

Ainda aos romanos, o apóstolo reconhece que as riquezas do juízo de Deus, através de sua benignidade, paciência e longanimidade, nos levam ao arrependimento e isso nos é dado como recompensa que leva à vida eterna (leia Rm 2.4 e 7).

 

Uma última citação deve concluir nossa compreensão:  (1) o Deus que não quer que ninguém se perca, (2) que exige arrependimento como condição para o Reino, (3) mas providencia por sua bondade o caminho para essa metanoia; é o mesmo se nos apresenta como nosso Παράκλητος (Paracletos) – nosso advogado que nos defende diante do Pai e Juiz, sendo ELE mesmo o sacrifício para nosso perdão.

Assim deve ser a vida dos cidadãos do Reino.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O NOME DO LIVRO DE APOCALIPSE

 


Apocalipse é o último livro na absoluta maioria das edições da Bíblia cristã.  Talvez apenas por ter sido o último a ser escrito, advogam alguns, ou por trazer a mensagem e ensinamento das últimas coisas, remetem outros, ou por ter sido alvo de intermináveis controvérsias e contestações ao longo da história, afirmam ainda outros.  A verdade é que desde as primeiras coleções de escritos cristãos seu texto encontra-se referido.

O título em português sempre foi Apocalipse.  Esta é a primeira palavra do livro em língua grega, e assim ele é nomeado.  No léxico grego-português do Novo Testamento, para esta palavra, aparece a sugestão de tradução: revelação ou exposição.  E além do título do último livro do cânon, aparece em Lc 2:32; Rm 8:19 e 1Pe 1:13 por exemplo.  Jerônimo ao produzir sua Vulgata – traduzindo o texto do grego para o latim popular – preferiu não traduzir esta expressão, mantendo-a apenas como transliteração, o que acabou gerando um termo técnico cristão a partir do latim: Apocalipse.  Ou seja, Jerônimo intitulou o livro: Apocalypsis Ioannis, e o primeiro verso ele traduziu: Apocalypsis Jesu Christi.  Daí seguiram-se várias traduções ocidentais.

Mas nem em todo lugar foi assim.  E para enriquecer o argumento, aí vai uma pequena relação: em alemão Lutero chamou o livro de Offenbarung e traduziu o verso como Dies ist die Offenbarung Jesu Christi.  A edição em inglês de King James nomeia o livro como Book of Revelation e traduz 1:1 assim: The Revelation of Jesus Christ.  Já em espanhol a edição Reina-Valera intitula: Apocalisis e o verso: La revelación de Jesucristo.  Semelhante ao francês (edição de Louis Segond) – título: Apocalypse; verso: Révélation de Jésus-Christ e ao italiano (Versione Riveduta) – título: Apocalisse; verso: La rivelazione di Gesù Cristo.  O que parece oferecer um critério europeu de divisão entre línguas neolatinas (preferindo a transliteração proposta pela Vulgata) e línguas mais ao norte (preferindo a tradução do termo).

Sendo assim, João Ferreira de Almeida seguiu o mesmo procedimento e usou o título Apocalipse para o último livro bíblico já em sua publicação do Novo Testamento em português que apareceu em 1681 – termo com o qual nos acostumamos até hoje.  E ele iniciou a tradução do texto propriamente dito com: Revelação de Jesus Cristo (aqui com a grafia da atualizada).

 

Extraído do livro: TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse

 

 


Leia todo o livro TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

Disponível na:
amazon.com

 

terça-feira, 14 de abril de 2026

VÍSCERAS DE COMPAIXÃO

O evangelista Mateus diz:

 

[Jesus], vendo as multidões, tem compaixão delas porque estavam angustiadas e espalhadas como ovelhas que não têm pastor.
(Mt 9.36)

 

Em linhas gerais, Mateus está narrando que o Mestre, enquanto percorria as cidades e vilarejos, notava as pessoas largadas e esquecidas na periferia do mundo e da religião.  E isso mexeu com ELE de uma forma única.

 

Aqui o grego bíblico registra uma palavra rara e com uma pronúncia complicada para nós falantes do português brasileiro: σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai – talvez um falante nativo do grego moderno tenha facilidade com esse conjunto de letras – eu com certeza não!).

Eu entendo que a compreensão dessa palavra evangélica seja fundamental para entender a passagem.

 

Antes.  Para situar.  Os gregos antigos tinham três palavras para descrever o sentimento e atitude de compaixão:

→ ἔλεος (eleos – a forma mais comum).  Literalmente misericórdia.  O termo era comum nas saudações cristãs (confira, por exemplo, Gl 6.16 e 1Tm 1.2).  Esta palavra está na raiz da expressão ἐλεημοσύνη (eleemosyne) – esmola.  Os gregos usam esse termo para traduzir o hebraico חסדhesed – o amor leal de Deus (como no Sl 5.8).

→ οἰκτιρμός (oiktirmos).  O sentido é de clemência e compaixão.  Aos colossenses Paulo instrui a nos revestir de compaixão (leia em Cl 3.12).  Essa é a palavra grega que o AT usa para a queixa do profeta Jonas ao Senhor por ser clemente e compassivo (em hebraico: חנוןhanun – em Jn 4.2).

→ σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai).  Essa é a palavra usada por Mateus.    E quero me aprofundar em seu estudo.

 

No Grego Clássico esse verbo é quase desconhecido.  Mas a sua raiz etimológica é bem conhecida. Siga comigo.

Os antigos usavam o substantivo σπλάγχνα (splanchna) para indicar as partes da vítima que eram oferecidas em sacrifício aos deuses. O termo se referia às partes consideradas mais nobres dos animais: fígado, coração, rins e pulmões. Usava-se também para designar os órgãos sexuais masculinos e o útero ou ventre materno como locais dos poderes da concepção e do nascimento.

Então, daí eles começaram a usar a forma verbal para designar o ato de comer as entranhas dos animais sacrificados como forma obter poderes místicos e dominar as artes adivinhatórias.

Mas, somente no judaísmo helênico tardio que o termo σπλαγχνίζομαι começou a ser usado como uma espécie de sentimento que move as vísceras (e o cristianismo herdou essa compreensão).  

 

É a descrição daquele misto de sentimento que nos mexe por dentro, na intimidade e essência do que somos e não se arrefece até que nos leve a uma ação prática em favor do necessitado.  Mais do que pena ou dó, mais do que piedade ou caridade, é compaixão visceral que, como bom nordestino eu diria: “que me embola as tripas” e me toma por completo de uma gastura existencial pela situação do outro.

 

Foi esse mover das vísceras, das entranhas, do mais profundo do seu ser essencial que tomou Jesus ao ver as multidões carentes da periferia (e Tiago vai dizer que Deus é cheio dessa misericórdia – em Tg 5.11).

E humana e completamente envolvido por essa misericórdia essencial Jesus instrui os seus discípulos de forma apaixonada:

 

A tarefa é tão grande e tem tão pouca gente para fazer!  Peçam ao Senhor da obra que traga mais pessoas para se compadecer desses!
(Mt 9.37-38)

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – leitura bíblica



O livro de Gênesis narra que o Altíssimo se encheu de grande indignação contra as cidades de Sodoma e Gomorra porque o pecado delas era grande e muito grave, mas que decidiu primeiramente investigar para saber a extensão dos pecados, antes de impor seu veredito (cf. Gn 18.20-21).

A narrativa continua apresentando dois visitantes que, depois de terem sido recebidos por Abraão, vão até Sodoma, ficam hospedados com Ló, constatam os pecados sociais do povo e ordenam a Ló e aos seus para saírem da cidade pois o Altíssimo os tinha enviado para destruir aquele lugar (cf. Gn 19.13).

 

O texto bíblico vinha antecipando a percepção dos pecados de Sodoma sempre de maneira genérica (já em Gn 13.1).  Mas agora com a presença dos mensageiros divinos dentro da cidade, tais pecados ficaram evidentes.

 

Para entender melhor o contexto e como o próprio texto apresenta a infâmia dos sodomitas, vamos voltar um pouco.  A visita dos mensageiros ao patriarca Abraão, um pouco antes, nos ajuda nisso.

Na hora mais quente do dia, Abraão recebeu os visitantes, repetiu todos os protocolos de hospitalidade esperados, dando estadia, trazendo água para lavar os pés e servindo boa comida (cf. Gn 18.1-5).

Importante destacar que essa atitude chamou a atenção de Deus à ponto de ELE refazer sua promessa/bênção a Abraão e lhe oferecer intimidade (cf. Gn 18.17-19).

 

Com os habitantes de Sodoma as posturas são completamente diferentes.  Embora Ló também tenha oferecido hospitalidade, os sodomitas quebraram todo o protocolo vital na cultura e convivência, e o pecado sexual aqui é apenas mais um ingrediente no grosso de ofensas cometidas por aquele povo.

 

E a ideia geral de Sodoma como a encarnação do mal ficou impregnada na memória espiritual do povo.  Em Deuteronômio, o exemplo dos pecados contra estrangeiros é lembrado como advertência na releitura da aliança (cf. Dt 29.22-23).

 

Já na Lei levítica dada por Deus a Israel está explícito que todo estrangeiro deve ser bem tratado e amado.  Isso é Lei perpétua que interessa diretamente ao Altíssimo, na mesma medida que o temor ao Senhor (cf. Lv 19.32-34).

Compreendo que o pecado principal de Sodoma pesou aqui!

 

Chegando aos profetas clássicos de Israel, eles retomaram constantemente o tema: Isaias e Jeremias comparam a destruição da Babilônia à de Sodoma (em Is 13.19 e Jr 50.40).  Ainda o profeta Amós compara a injustiça social e a opressão dos pobres em Israel aos pecados de Sodoma e afirma que a nação terá o mesmo fim (cf. Am 4.1 e 11).

 

Será o profeta Ezequiel, contudo, aquele que vai apresentar de forma mais direta os pecados e abominações de Sodoma e suas consequências.

Entre os vários exemplos e ilustrações proféticas para descrever os pecados de Jerusalém, Ezequiel conta a parábola das irmãs (Samaria, a irmã mais velha, Sodoma, a mais nova e Jerusalém que as superou em pecados).  Comparando a cidade com uma mulher que foi acolhida em seu nascimento, foi amada e adornada, mas que enveredou pela prostituição espiritual entregando-se à adoração de vários deuses, o profeta apresentou a indignação do Senhor com os pecados de Judá (cf. Ez 16.17).

 

Preste atenção.  Essa é a iniquidade de Sodoma, sua irmã: orgulho, desperdício de comida e preguiça, enquanto os pobres e necessitados não têm nada. 
Ela era arrogante e cometia abominações diante de mim. 
E, como vocês viram, eu a exterminei.
(Ez 16.49-50)

 

Na comparação profética, Jerusalém é descrita como pior que Sodoma.  E Deus o faz depois de listar os pecados cometidos (cf. Ez 16.51).

 

O que mais se destaca no texto e no contexto, é que Deus está a ponto de destruir Jerusalém e o motivo principal é o duplo pecado nacional:

 

(1) Adultério espiritual.  Ir em adoração atrás de outros deuses ofende profundamente o Deus zeloso da aliança.  A declaração primária da aliança de Deus com o povo é: “ouça Israel o Senhor é o Único”.  Na declaração de fé fundamental não há espaço para outra divindade (cf. Dt 6.4 – e Jesus assentiu em Mc 12.29-30).

 

(2) Falta de acolhimento e atenção com o pobre, oprimido e estrangeiro.  Para o Deus Eterno da aliança, pecar contra o necessitado é tão repugnante quanto desprezar o próprio Deus (cf. Dt 10.19 – também, na sequência, o mandamento citado por Jesus em Mc 12.31).

 

Assim, a leitura bíblica me leva necessariamente à compreensão de que o verdadeiro pecado sodomita está ligado a falta de hospitalidade, compaixão e acolhimento ao peregrino, necessitado e pobre, pois isso sim ofende o Criador (cf. Pv 17.5), muito mais que intercursos sexuais, por mais desviantes que sejam.

 

 

Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA, acesse os links do Escrevinhando:
Palavras Bíblicaslink
História das Palavraslink

Abraão e os Três Anjos (em espanhol: Abraham y los tres Ángeles)
é uma pintura do pintor barroco espanhol Bartolomé Esteban Murillo,
criada na segunda metade do século XVII.
Está na coleção da Galeria Nacional de Arte em Ottawa.