quarta-feira, 22 de abril de 2026

O NOME DO LIVRO DE APOCALIPSE

 


Apocalipse é o último livro na absoluta maioria das edições da Bíblia cristã.  Talvez apenas por ter sido o último a ser escrito, advogam alguns, ou por trazer a mensagem e ensinamento das últimas coisas, remetem outros, ou por ter sido alvo de intermináveis controvérsias e contestações ao longo da história, afirmam ainda outros.  A verdade é que desde as primeiras coleções de escritos cristãos seu texto encontra-se referido.

O título em português sempre foi Apocalipse.  Esta é a primeira palavra do livro em língua grega, e assim ele é nomeado.  No léxico grego-português do Novo Testamento, para esta palavra, aparece a sugestão de tradução: revelação ou exposição.  E além do título do último livro do cânon, aparece em Lc 2:32; Rm 8:19 e 1Pe 1:13 por exemplo.  Jerônimo ao produzir sua Vulgata – traduzindo o texto do grego para o latim popular – preferiu não traduzir esta expressão, mantendo-a apenas como transliteração, o que acabou gerando um termo técnico cristão a partir do latim: Apocalipse.  Ou seja, Jerônimo intitulou o livro: Apocalypsis Ioannis, e o primeiro verso ele traduziu: Apocalypsis Jesu Christi.  Daí seguiram-se várias traduções ocidentais.

Mas nem em todo lugar foi assim.  E para enriquecer o argumento, aí vai uma pequena relação: em alemão Lutero chamou o livro de Offenbarung e traduziu o verso como Dies ist die Offenbarung Jesu Christi.  A edição em inglês de King James nomeia o livro como Book of Revelation e traduz 1:1 assim: The Revelation of Jesus Christ.  Já em espanhol a edição Reina-Valera intitula: Apocalisis e o verso: La revelación de Jesucristo.  Semelhante ao francês (edição de Louis Segond) – título: Apocalypse; verso: Révélation de Jésus-Christ e ao italiano (Versione Riveduta) – título: Apocalisse; verso: La rivelazione di Gesù Cristo.  O que parece oferecer um critério europeu de divisão entre línguas neolatinas (preferindo a transliteração proposta pela Vulgata) e línguas mais ao norte (preferindo a tradução do termo).

Sendo assim, João Ferreira de Almeida seguiu o mesmo procedimento e usou o título Apocalipse para o último livro bíblico já em sua publicação do Novo Testamento em português que apareceu em 1681 – termo com o qual nos acostumamos até hoje.  E ele iniciou a tradução do texto propriamente dito com: Revelação de Jesus Cristo (aqui com a grafia da atualizada).

 

Extraído do livro: TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse

 

 


Leia todo o livro TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

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terça-feira, 14 de abril de 2026

VÍSCERAS DE COMPAIXÃO

O evangelista Mateus diz:

 

[Jesus], vendo as multidões, tem compaixão delas porque estavam angustiadas e espalhadas como ovelhas que não têm pastor.
(Mt 9.36)

 

Em linhas gerais, Mateus está narrando que o Mestre, enquanto percorria as cidades e vilarejos, notava as pessoas largadas e esquecidas na periferia do mundo e da religião.  E isso mexeu com ELE de uma forma única.

 

Aqui o grego bíblico registra uma palavra rara e com uma pronúncia complicada para nós falantes do português brasileiro: σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai – talvez um falante nativo do grego moderno tenha facilidade com esse conjunto de letras – eu com certeza não!).

Eu entendo que a compreensão dessa palavra evangélica seja fundamental para entender a passagem.

 

Antes.  Para situar.  Os gregos antigos tinham três palavras para descrever o sentimento e atitude de compaixão:

→ ἔλεος (eleos – a forma mais comum).  Literalmente misericórdia.  O termo era comum nas saudações cristãs (confira, por exemplo, Gl 6.16 e 1Tm 1.2).  Esta palavra está na raiz da expressão ἐλεημοσύνη (eleemosyne) – esmola.  Os gregos usam esse termo para traduzir o hebraico חסדhesed – o amor leal de Deus (como no Sl 5.8).

→ οἰκτιρμός (oiktirmos).  O sentido é de clemência e compaixão.  Aos colossenses Paulo instrui a nos revestir de compaixão (leia em Cl 3.12).  Essa é a palavra grega que o AT usa para a queixa do profeta Jonas ao Senhor por ser clemente e compassivo (em hebraico: חנוןhanun – em Jn 4.2).

→ σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai).  Essa é a palavra usada por Mateus.    E quero me aprofundar em seu estudo.

 

No Grego Clássico esse verbo é quase desconhecido.  Mas a sua raiz etimológica é bem conhecida. Siga comigo.

Os antigos usavam o substantivo σπλάγχνα (splanchna) para indicar as partes da vítima que eram oferecidas em sacrifício aos deuses. O termo se referia às partes consideradas mais nobres dos animais: fígado, coração, rins e pulmões. Usava-se também para designar os órgãos sexuais masculinos e o útero ou ventre materno como locais dos poderes da concepção e do nascimento.

Então, daí eles começaram a usar a forma verbal para designar o ato de comer as entranhas dos animais sacrificados como forma obter poderes místicos e dominar as artes adivinhatórias.

Mas, somente no judaísmo helênico tardio que o termo σπλαγχνίζομαι começou a ser usado como uma espécie de sentimento que move as vísceras (e o cristianismo herdou essa compreensão).  

 

É a descrição daquele misto de sentimento que nos mexe por dentro, na intimidade e essência do que somos e não se arrefece até que nos leve a uma ação prática em favor do necessitado.  Mais do que pena ou dó, mais do que piedade ou caridade, é compaixão visceral que, como bom nordestino eu diria: “que me embola as tripas” e me toma por completo de uma gastura existencial pela situação do outro.

 

Foi esse mover das vísceras, das entranhas, do mais profundo do seu ser essencial que tomou Jesus ao ver as multidões carentes da periferia (e Tiago vai dizer que Deus é cheio dessa misericórdia – em Tg 5.11).

E humana e completamente envolvido por essa misericórdia essencial Jesus instrui os seus discípulos de forma apaixonada:

 

A tarefa é tão grande e tem tão pouca gente para fazer!  Peçam ao Senhor da obra que traga mais pessoas para se compadecer desses!
(Mt 9.37-38)

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – leitura bíblica



O livro de Gênesis narra que o Altíssimo se encheu de grande indignação contra as cidades de Sodoma e Gomorra porque o pecado delas era grande e muito grave, mas que decidiu primeiramente investigar para saber a extensão dos pecados, antes de impor seu veredito (cf. Gn 18.20-21).

A narrativa continua apresentando dois visitantes que, depois de terem sido recebidos por Abraão, vão até Sodoma, ficam hospedados com Ló, constatam os pecados sociais do povo e ordenam a Ló e aos seus para saírem da cidade pois o Altíssimo os tinha enviado para destruir aquele lugar (cf. Gn 19.13).

 

O texto bíblico vinha antecipando a percepção dos pecados de Sodoma sempre de maneira genérica (já em Gn 13.1).  Mas agora com a presença dos mensageiros divinos dentro da cidade, tais pecados ficaram evidentes.

 

Para entender melhor o contexto e como o próprio texto apresenta a infâmia dos sodomitas, vamos voltar um pouco.  A visita dos mensageiros ao patriarca Abraão, um pouco antes, nos ajuda nisso.

Na hora mais quente do dia, Abraão recebeu os visitantes, repetiu todos os protocolos de hospitalidade esperados, dando estadia, trazendo água para lavar os pés e servindo boa comida (cf. Gn 18.1-5).

Importante destacar que essa atitude chamou a atenção de Deus à ponto de ELE refazer sua promessa/bênção a Abraão e lhe oferecer intimidade (cf. Gn 18.17-19).

 

Com os habitantes de Sodoma as posturas são completamente diferentes.  Embora Ló também tenha oferecido hospitalidade, os sodomitas quebraram todo o protocolo vital na cultura e convivência, e o pecado sexual aqui é apenas mais um ingrediente no grosso de ofensas cometidas por aquele povo.

 

E a ideia geral de Sodoma como a encarnação do mal ficou impregnada na memória espiritual do povo.  Em Deuteronômio, o exemplo dos pecados contra estrangeiros é lembrado como advertência na releitura da aliança (cf. Dt 29.22-23).

 

Já na Lei levítica dada por Deus a Israel está explícito que todo estrangeiro deve ser bem tratado e amado.  Isso é Lei perpétua que interessa diretamente ao Altíssimo, na mesma medida que o temor ao Senhor (cf. Lv 19.32-34).

Compreendo que o pecado principal de Sodoma pesou aqui!

 

Chegando aos profetas clássicos de Israel, eles retomaram constantemente o tema: Isaias e Jeremias comparam a destruição da Babilônia à de Sodoma (em Is 13.19 e Jr 50.40).  Ainda o profeta Amós compara a injustiça social e a opressão dos pobres em Israel aos pecados de Sodoma e afirma que a nação terá o mesmo fim (cf. Am 4.1 e 11).

 

Será o profeta Ezequiel, contudo, aquele que vai apresentar de forma mais direta os pecados e abominações de Sodoma e suas consequências.

Entre os vários exemplos e ilustrações proféticas para descrever os pecados de Jerusalém, Ezequiel conta a parábola das irmãs (Samaria, a irmã mais velha, Sodoma, a mais nova e Jerusalém que as superou em pecados).  Comparando a cidade com uma mulher que foi acolhida em seu nascimento, foi amada e adornada, mas que enveredou pela prostituição espiritual entregando-se à adoração de vários deuses, o profeta apresentou a indignação do Senhor com os pecados de Judá (cf. Ez 16.17).

 

Preste atenção.  Essa é a iniquidade de Sodoma, sua irmã: orgulho, desperdício de comida e preguiça, enquanto os pobres e necessitados não têm nada. 
Ela era arrogante e cometia abominações diante de mim. 
E, como vocês viram, eu a exterminei.
(Ez 16.49-50)

 

Na comparação profética, Jerusalém é descrita como pior que Sodoma.  E Deus o faz depois de listar os pecados cometidos (cf. Ez 16.51).

 

O que mais se destaca no texto e no contexto, é que Deus está a ponto de destruir Jerusalém e o motivo principal é o duplo pecado nacional:

 

(1) Adultério espiritual.  Ir em adoração atrás de outros deuses ofende profundamente o Deus zeloso da aliança.  A declaração primária da aliança de Deus com o povo é: “ouça Israel o Senhor é o Único”.  Na declaração de fé fundamental não há espaço para outra divindade (cf. Dt 6.4 – e Jesus assentiu em Mc 12.29-30).

 

(2) Falta de acolhimento e atenção com o pobre, oprimido e estrangeiro.  Para o Deus Eterno da aliança, pecar contra o necessitado é tão repugnante quanto desprezar o próprio Deus (cf. Dt 10.19 – também, na sequência, o mandamento citado por Jesus em Mc 12.31).

 

Assim, a leitura bíblica me leva necessariamente à compreensão de que o verdadeiro pecado sodomita está ligado a falta de hospitalidade, compaixão e acolhimento ao peregrino, necessitado e pobre, pois isso sim ofende o Criador (cf. Pv 17.5), muito mais que intercursos sexuais, por mais desviantes que sejam.

 

 

Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA, acesse os links do Escrevinhando:
Palavras Bíblicaslink
História das Palavraslink

Abraão e os Três Anjos (em espanhol: Abraham y los tres Ángeles)
é uma pintura do pintor barroco espanhol Bartolomé Esteban Murillo,
criada na segunda metade do século XVII.
Está na coleção da Galeria Nacional de Arte em Ottawa.