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terça-feira, 13 de outubro de 2026

UMA CORUJA NO PARQUINHO


Na última quarta-feira, enquanto aguardava uns irmãos de fé para um estudo bíblico aqui em casa, percebi uma coruja pousada tranquilamente no parquinho infantil aqui no condomínio.  Era uma coruja que conhecemos como buraqueira.

 

Parêntese 1.  A foto é o registro do flagrante.
Parêntese 2.  Lá no final, vou listar algumas curiosidades.

 

Eu me aproximei devagar – receando que a ave voasse – e com o celular na mão.  Queria ter uma foto para contar.

Mas ela ficou bem ali, paradinha.  Olhou para os lados, esticou as asas (como se estivesse se espreguiçando), depois, acho que percebeu minha presença, então ficou me encarando.

Posicionei o celular para a foto.  Ouso pensar que a coruja fez até pose!  E fiz a captura da imagem.

Depois ficamos alguns instantes apenas parados.  Apenas nos olhando.  Ela e eu.  E foi minha mente que voou...

 

E, de uma ideia à outra, de uma referência à outra, de lembrança à outra, viajei ali.  Vou tentar aqui refazer por onde vagueei.

 

Primeiro lembrei do mau agouro do canto estridente da coruja.  Dizem que seu piado anuncia a morte (mas a coruja no parquinho permaneceu em silêncio).

Depois fui pousando aqui e ali – sem me deter em nenhuma cultura ou referência.

Os egípcios diziam que a ave podia transitar entre os mundos dos vivos e dos mortos.  Por isso representava a deusa Néftis.

Atena, deusa grega da sabedoria, tinha a coruja como sua companheira – talvez por conta de seus grandes olhos.

Entre os exércitos romanos, o voo de uma coruja sobre as tropas era um sinal que a batalha seria perdida.

Já para os hindus, a coruja apontava para a necessidade de ir além de objetivos materiais e procurar paciência, inteligência e sabedoria.

 

Rapidamente pensei que estava indo já longe, então deixei o caminho de lendas e culturas e simplesmente fui à popular descrição da coruja como essencialmente um bicho feio (e até me lembrei de uma antiga colega minha que era tão fã da ave que tinha uma coleção delas: de souvenirs a pinturas).

 

Independente do gosto estético popular ou das internações culturais, a coruja-buraqueira continuava ali, parada, com os grandes olhos em minha direção.  Impassível.  Imponente.  E essa foi a impressão que ela me causou: uma pequena ave de rapina que sabe seu lugar na grande cadeia alimentar, e por isso mesmo voa e pousa com nobreza.

 

Daí a deixei ali parada no parquinho e segui meu caminho para meu estudo bíblico.

Até tentei pensar em um final mais épico ou reflexivo, mas confesso que não me ocorreu nada.  Era apenas uma coruja no parquinho.

 

Algumas curiosidades sobre corujas:

 → As corujas pertencem a duas famílias: as Tytonidae e as Strigidae (a mais comum).  Ambas podem ser encontradas em abundância no Brasil.

 → Características 1 – existem mais 150 classificações catalogadas de corujas.  Como ave de rapina ela se alimenta basicamente de presas pequenas.  Algumas espécies de coruja podem chegar a 1,80 metros de envergadura.  A coruja-duende brasileira adulta não passa de 14 centímetros.

 → Características 2 – o pescoço de uma coruja pode girar até 270.  Seus olhos não se movem dentro do tubo ocular.  As orelhas em geral são assimétricas.  O voo da coruja é bastante silencioso já que suas penas possuem bordas especiais que cortam o ar sem fazer nenhum som.

 → Coruja Buraqueira – essa coruja recebeu esse nome por cavar buracos no solo onde coloca seus ovos.  É mais comum no interior do Brasil.  Seu nome científico é Athene cunicularia.

 → Pintura rupestre – foram encontradas na caverna de Chauvet, na França, pinturas rupestres datadas de 15.000 anos.

 → Nomes – no Grego clássico eles diziam: τύζω (tyzo); no Latim: bubo; na língua Tupi:  kabu'ré.  O Grego moderno chama de Κουκουβάγια (kookoovaya – essa palavra não aparece no texto bíblico).

 → Lenda de Suindara – na Amazônia contam que a jovem Suindara, filha de um feiticeiro, estava apaixonada.  Mas, à traição, foi morta pela mãe do amado.  No seu enterro colocaram uma imagem de uma bela coruja que o pai encantou com a alma da garota.  À noite a coruja foi cantar para a mãe assassina e pela manhã a mulher estava morta.  Daí a origem das corujas rasga-mortalhas.

 → J. K. Rowling – a coruja branca de Harry Potter, chamada Edwiges (em inglês, Hedwig), simboliza lealdade absoluta, amizade, proteção e a inocência da infância do protagonista.

 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

FILMES QUE ME MARCARAM – 2ª parte

Continuando a lista de filmes que influenciaram na minha formação como homem (ainda: ser humano diga melhor!), apresento mais alguns aqui.

Se quiser rever a primeira lista, aqui é o link.

Continuo recomendando cada um deles:

 

🎞️ A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO

🎥 Título Original em inglês: The Last Temptation of Christ.  EUA, 1988.  Dirigido por Martin Scorsese.  Baseado no romance homônimo do grego Níkos Kazantzákis, publicado em 1951.

⌨️ O enredo do filme retrata uma suposta vida de Jesus Cristo e a sua luta contra várias formas de tentação, incluindo medo, dúvida, depressão, relutância e luxúria.

✍️ Embora o filme traga um aviso explícito de se tratar de obra de ficção, sem base bíblica, o filme causou frisson e revolta em vários cristãos mundo afora.  Talvez tenha sido isso que me atraiu para assistir.  Detalhe: o diálogo (imaginado) do Jesus do filme com Paulo é primoroso.  E posso afirmar que não abalou em nada a minha fé nem a minha Teologia, pelo contrário, trouxe-me bons argumentos humanos para enriquecê-las.

 

🎞️ A LISTA SCHINDLER

🎥 Original em inglês: Schindler's List.  Filme norte-americano de 1993, dirigido por Steven Spielberg.  Embora o personagem principal, Oskar Schindler, seja real e histórico, o enredo é baseado num romance do australiano Thomas Keneally.

⌨️ O filme começa em 1939 com os alemães iniciando a relocação dos judeus poloneses para o Gueto de Cracóvia, pouco depois do início da II Guerra Mundial.  Enquanto isso, o empresário da Morávia Oskar Schindler, planeja fazer fortuna através de contratos com os nazistas.  Mas, o que começa como empreendimento capitalista, converte-se num plano de salvamento de judeus.

✍️ Obra fundamental para a compreensão do nazismo e seu rastro de destruição.  É bastante interessante acompanhar o humanismo e seu processo de formação na mente e alma de Schindler, em contraste com a deformação do Reich alemão.

 

🎞️ A PAIXÃO DE CRISTO

🎥 Título Original: The Passion of the Christ.  EUA (2004).  Produzido e dirigido por Mel Gibson.  Falado em hebraico, aramaico e latim.

⌨️ O filme cobre principalmente as últimas doze horas antes da morte de Jesus Cristo, conhecida como "a Paixão", iniciando-se com a agonia no Getsêmani, seguindo com a traição de Judas Iscariotes, a flagelação, o sofrimento de Maria e tendo a crucificação e morte de Jesus como ponto alto.  No final, uma breve descrição de sua ressurreição.

✍️ Começando pelos diálogos nas línguas originais, a obra se mostra bem fiel em retratar o ambiente em Jerusalém naquela última semana na vida de Jesus.  Eu o trouxe para mostrar lá no Sol Nascente, quando era pastor ali, e serviu de ponto de partida para uma rica e profunda discursão sobre o que evento significou para minha vida, fé e Teologia.  Penso que todo estudante que leve a sério sua jornada teológica deveria se incluir nesse debate.

 

🎞️ 10.000 AC

🎥 Título Original: 10,000 BC.  Nova Zelândia / EUA (2008), dirigido por Roland Emmerich, com Steven Strait e Camilla Belle

⌨️ Numa era pré-histórica, um caçador lidera um grupo através de um imenso deserto para encontrar o esconderijo de outra tribo, cujo líder raptou a mulher que ele ama.

✍️ Filme recente, entre os melhores que já assisti.  Valeu como uma aula de linguística, antropologia e da construção da humanidade enquanto ser histórico e comunitário.  Além de uma excelente demonstração de formação de liderança.  O plot twist final é meio clichê, mas o motivo romântico perdoa.

 

🎞️ TEMPOS DE PAZ

🎥 Filme brasileiro de 2009, dirigido por Daniel Filho, com roteiro de Bosco Brasil baseado em sua peça teatral "Novas Diretrizes em Tempos de Paz". 

⌨️ O enredo simples acontece em 1945 com o fim da segunda guerra quando um ator polonês chega ao Brasil e precisa convencer o agente da alfândega a deixá-lo ficar.  E lança um desafio de fazer chorar o duro agente.  E se conseguisse, ganharia salvo conduto.  O filme é basicamente o diálogo entre eles.

✍️ Já citei esse filme num texto que me propus a descrever o que é arte (leia no link).  Além das exuberantes atuações dos artistas Tony Ramos e Dan Stulbach, o argumento demonstra o poder que as palavras são capazes de exercer sobre a mente e a vida humana.

 

 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

FILMES QUE ME MARCARAM – 1ª parte

Na minha formação como homem (talvez: ser humano diga melhor!) e como estudante de Teologia, alguns filmes me marcaram.  Veja aí uma lista com alguns deles, entre os antigos e os mais recentes – apresentada na sequência por ano de produção.

Recomendo cada um deles:

 

🎞️ AMADEUS

🎥 Filme americano de 1984, dirigido por Milos Forman.

⌨️ A obra é uma interpretação livre da vida do compositor Wolfgang Amadeus Mozart e suas desavenças e ciúmes com o também compositor Antonio Salieri.

✍️ Valeu pela imersão na obra genial de Mozart e como ela nos fala a alma.  Sobre o Réquiem do Mozart, clímax do filme, eu até já escrevi (leia no link).

 

🎞️ INIMIGO MEU

🎥 Título Original: Enemy Mine.  EUA, 1985.  Dirigido por Wolfgang Petersen e baseado numa novela de Barry B. Longyear.

⌨️ Filme de ficção científica que narra a história de um soldado da Terra e de um alienígena Jeriba que, inimigos em uma guerra espacial, depois de perdidos ambos em um planeta inóspito, terminam por se tornarem profundamente amigos, dando lugar a consequências imprevisíveis.

✍️ De saída: para os fãs de Spielberg, talvez seu ritmo lento pareça monótono – e não sei se foi assim de propósito – mas penso que isso até ajude.  Entre as idas e vindas do enredo, o diálogo sobre Mickey Mouse é um dos melhores para se refletir sobre os conceitos de religião e como construímos nosso relacionamento com o sagrado.

 

🎞️ A MISSÃO  

🎥 Título Original: The Mission.  Filme britânico de 1986, dirigido por Roland Joffé.

⌨️ Com Robert de Niro no papel de Rodrigo Mendoza, ele é um mercador de escravos espanhol, que mata o próprio irmão na disputa pela mulher que ama.  Porém, o remorso o leva a juntar-se aos jesuítas, nas florestas brasileiras.  Lá, ele fará de tudo para defender os índios que antes escravizara.

✍️ No começo de minha formação teológica, esse filme ajudou a demolir alguns conceitos ingênuos de meu cristianismo (e a associação que fiz depois com a vida de Bartolomeu de las Casas – já falei sobre ele, leia no link – só fez fortalecer as bases de minha fé).  A cena final com o violino é sublime.

 

🎞️ EU SEI QUE VOU TE AMAR

🎥 Filme brasileiro de 1986 escrito e dirigido por Arnaldo Jabor.  Com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon.

⌨️ Um casal separado volta a se encontrar.  Sozinhos, eles decidem realizar um jogo da verdade sobre tudo o que já lhes aconteceu ao longo da vida.  

✍️ Para quem trabalha com psicanálise, ou coisas do ramo, talvez o filme proponha uma excelente discussão.  Para mim, lembro que uma frase me marcou – e aqui cito de memória – porque atiçou minha mente teológica: — Deve haver uma palavra que, uma vez dita, mude o mundo!  Então minha associação com o Logos que se fez carne foi inevitável.

 

🎞️ A FESTA DE BABETE  

🎥 Original: Babettes Gœstebud.  Dinamarca (1987), dirigido por Gabriel Axel, e com roteiro baseado em um conto de Karen Blixen.

⌨️ A história se passa em 1871, num vilarejo nos confins da Dinamarca e tem seu ponto alto quando Babette – uma cozinheira parisiense refugiada naquele lugar fugindo da repressão da Comuna de Paris – oferece sua arte para celebrar o centenário do pastor local aos fiéis rabugentos.

✍️ Usei esse filme num texto sobre arte (leia no link).  Sobre sua influência: lembro-me de sentir o peso devastador do puritanismo religioso na vida das pessoas (o fundamentalismo provoca o mesmo efeito!), e como Deus pode se manifestar e trazer vida em abundância e com leveza e qualidade através da arte.  Também a cena da refeição comum me trouxe pontes teológicas interessantíssimas com a ceia pascoal celebrada por Jesus e repetida pela Igreja. 

  

Vou continuar essa lista:

→ FILMES QUE ME MARCARAM – 2ª parte – link

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

 

Assim começa o poema O DIA DA CRIAÇÃO de Vinicius de Moraes, publicado no livro "Poemas, Sonetos e Baladas" em 1946.

 

Lembro-me de ter lido pela primeira vez esses versos quando estudava Literatura Poética na Universidade, ainda no Recife, e guardei de memória os últimos versos da segunda estrofe (recordando inclusive seu padrão de verso/refrão, como o Sl 136):

 

Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

 

Um sábado desses, espairecendo as ideias, fui buscar na Internet o poema completo. Encontrei, li, reli e compartilhei com meu filho.  E mais uma vez me vi envolto na poesia das palavras.  Recomendo a leitura.

 

Mas não vou me deter na análise crítica literária (isso é chato e mata a arte.  E por falar nisso, indico uma postagem sobre a arte no link).

Também não quero fazer uma abordagem humanística das ideias do texto (embora reconheça que, no campo da Antropologia Teologia, suas ideias renderiam várias páginas acadêmicas).

 

E um parêntese: enquanto hoje discutimos a escala de trabalho 5x2, Vinicius já reconhecia, na década de 1940, que "Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa".  Somente essa citação já vale o argumento.  Fechando o parêntese.

 

É bom também frisar que o poema começa citando o texto sagrado: "Macho e fêmea os criou. Bíblia: Gênese, 1, 27). E eu, ousadamente, acrescentaria outra das palavras de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2,7).

 

Assim, para finalizar, devolvendo a palavra ao poetinha, sem muita argumentação, mas me vendo humanamente descrito:

 

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

E 2025 JÁ ESTÁ INDO

 


 

Na primeira postagem de 2025 aqui no Escrevinhando eu escrevi: JÁ É 2025 (está neste link).  E com certa admiração matemática constatei que nesse ano o longínquo ano 2000 distava a mesma lonjura (ou proximidade como queira perceber) de 2050!

 

Ali eu refleti sobre essa marca irresistível do tempo, e escrevi:

 

O tempo insiste em ter essa característica:  independente de nossa vontade ou expectativa, ele continua passando.  Mais lento ou mais rápido. Com tédio ou adrenalina.  Trazendo boas ou más lembranças.  O tempo continua implacável e passando.

 

Mas agora, nessa última postagem de 2025 – já beirando mais um novo ano – volto a deixar escorrer as ideias e tentar pescar o que vem daí.

 

Veja: o Brasil (acho que o mundo também) continua polarizado – o que não é bom para ninguém!  Mas ainda permaneço no fundamento e, radical mesmo, só sou em ser servo de Cristo (insisto na palavra servo).  E isso basta.

Também: a igreja segue triunfante e perseguida (aqui e ali). Sinal que o Apocalipse já está em andamento e os sons da eternidade estão a ecoar (como o fazem há 20 séculos). E eu somente declarando minha adoração ao Único que é Digno.

(Por falar nisso: tenho um livro comentando o Apocalipse nessa perspectiva – recomendo a leitura. Para achá-lo, clique no link.)

Sobre Ciências e tecnologias não vou nem comentar.  Rapidamente ficaria obsoleto.  A humanidade continua criativa e o capital insiste em inventar soluções para problemas que eu nem sabia que tinha.  E talvez outros humanos também não.

 

E 2025 já está indo...
Continuamos correndo — prá onde?
Agenda cheia — de quê?
Muito barulho — o que se canta?
Brilhos intensos — algo a ver?
Relações intensas — efêmeras?
Ansiedade à flor da pele — e o que somamos?

 

Além do mais, a essa altura, começamos a perder a ilusão da eternidade.

 

Então, daqui a pouco vai amanhecer o ano novo, e a ampulheta continuará seu sucessivo derrame de areia: inflexível e constante.

Assim, antes que o último grão escoe, preciso apurar meus ouvidos para me deixar ser tomado pelas palavras daquele que desde sempre está assentado sobre o trono. Pois é dele que vem a reconfortante promessa:

 

"Eis que faço novas todas as coisas." (Ap 21:5)

 

 

Aproveitando, aí vai uma relação de postagens aqui no Escrevinhando sobre passagens de ano:

 

→ Já é 2025 – link
→ Ele faz nova todas as coisas – link
→ E o fim do mundo? – link
→ Um Salmo fúnebre para 2021 – link
→ Esse ano – link
→ Apenas hoje – link
→ A primeira segunda de 2014 – link
→ Não por enquanto – link

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

SEXTOU – prá casa!

 


Um Congresso Teológico me levou às Minas Gerais na semana passada.  Então chegou a sexta-feira e era momento de voltar para Aracaju – para casa.

 

Vamos à narrativa: sextou – prá casa!

 

Com o fim da programação na noite anterior, ficamos uns poucos para o último sono.  Boas conversas, bons momentos, restinho de fraternidade.

 

Amanheceu e, antes das seis, uma sinfonia canora me acordou (ah! não entendo de pássaros logo, não os identifiquei – sei que eram distintos!).

E não penso que o Criador os colocou ali somente por minha causa – não tenho essa pretensão.

Mas eles me despertaram e pude começar bem antes do burburinho.  É sempre salutar, antes das liturgias e das agendas, deixar a alma vibrar limpa na frequência do Eterno.

 

Descemos para um derradeiro café matinal mineiro: uma fruta, pão com ovo, um pedaço de bolo, biscoito e café quentinho feito na hora.   Simples, mas digno de um príncipe, pois foi feito na nossa intenção.  E vale mais que gastronomia gourmet.   

Deus abençoe as mãos que prepararam.

 

Pegamos a estrada em direção ao aeroporto.  O dia prometia!

 

Antes que esqueça: o Gerson foi comigo.  Além dos laços de sangue e de profissão, sempre enriquece tê-lo junto no caminho.

 

— Sim.  Em direção ao aeroporto.

 

Talvez até desse para antecipar o voo para fazer sem escalas.   Não deu.   Com as passagens marcadas, a previsão seria o dia todo aqui e ali até chegar em casa.   Assim fomos.

 

Sentamos juntos.  A conversa animada – nada de técnico ou específico: apenas fagulhas de lembranças comuns, observações pontuais dos transeuntes, uma ou outra citação e o mais...

Mas, aos poucos, as palavras vão se escasseando e os temas esparsos.  Então o silêncio chega.  Só que isso não é um problema.  Jamais.

 

Na verdade, não vou lhe definir do que se trata.

— Para certas coisas faltam palavras!

Certamente não seria obrigação, nem networking (assim em inglês fica mais ridículo ainda).

Era só a presença.  Era apenas saber que em qualquer aeroporto ou entroncamento da vida, não estávamos sós.  Estivemos ali.  Não eu e tu: nós.

E consegui me ver pensando que o Eterno se sentou na cadeira da frente, no saguão dos Confins, em silêncio, apenas como se quisesse dizer que ELE, mesmo sendo, gosta de estar.

 

Levantamos para comer, a conversa voltou a jorrar como uma fonte de renovo – ou filete da água.  Não havia secado.  Apenas guardada como tesouro que valia a pena usar no tempo certo para o próprio silêncio se revestir de preciosidade.

Nada de importante: a escolha do prato, uma ou outra citação, um diz aí...

Comemos juntos.

 

— Certas coisas têm preço.  Compartilhar uma fatia de pizza numa mesa de aeroporto tem vida e história.

 

Mais um trecho aéreo e já caia a noite quando, em Aracaju, meu filho nos apanhou na porta do aeroporto.

 

Assim: sextou – prá casa!

 

E agora o fim de semana promete.

 

terça-feira, 30 de maio de 2023

ELE NOS FEZ UM

 


Tenho visto e lido várias coisas sobre temas da última pauta das mídias.  Até me sinto atraído por comentar algo que está nos trending topics – confesso.  Mas nem quero apenas reproduzir posts alheio nem, muito menos, me apresentar como expert em generalidades.

 

CPMI, fake news, racismo, big techs, democracia, redes sociais, justiça, meio ambiente ... hashtag ... hashtag ... hashtag ...

 

Mas, como disse, não sou expert em generalidades – mesmo sendo tentado a dar pitaco em tudo – então vou me ater em citar do que posso falar: do texto sagrado.

 

Num mundo de divergências, onde o discurso de ódio parece encontrar eco, e o diferente passa a ser visto como algo a ser extirpado, procuro na Revelação alguma indicação segura sobre como me posicionar.  E encontro as palavras apostólicas que dizem:

 

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um;
e, derrubando a parede de separação que estava no meio
(Ef 2: 14).

 

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.
(Gl 3:28)

 

E, para visualizar o contexto primitivo das citações, observe: os primeiros cristãos estavam tendo problemas com uma tendência tida espiritual (ou conservadora) de separar os eleitos – judeus e prosélitos – dos gentios e pagãos.  Como se a graça e a verdade coubessem aos primeiros e o ódio restasse aos demais (o nome disso é racismo e xenofobia, ou seja: pecado).

Foi contra essa postura virulenta anticristã que o apóstolo se posicionou.

 

A regra é clara.  Em Cristo não há discurso de intolerância (mesmo que seja disfarçado de zelo espiritual), pois ele acatou a todos sem distinção.

Judeus, gregos, europeus, africanos, americanos e cubanos.

Doutores, analfabetos, ricos, pobres, proprietários, sem-terra, empresários e assalariados.

Casados, solteiros, ajuntados, virgens, sisudos, alegres, iguais e diferentes.

Por que todos igualmente pecaram e por isso precisam todos imensamente da graça de Cristo (na linha de Rm 3:23).

 

No evangelho inaugurado por Cristo e anunciado por Paulo, o outro e o diferente são, em primeiro lugar, amados e acolhidos.  Nunca julgados e segregados.

Todas as nossas eventuais diferenças, frutos da etnia, da cultura, das posses – ou das escolhas que sejam – foram subjugadas na cruz de Cristo e nele fomos todos reconciliados de modo a nos tornarmos um só corpo em Cristo (sugiro ainda a citação de Cl 3:11).

Essa é a nova, grande e surpreendente verdade do Evangelho. ELE NOS FEZ UM.  Para a graça divina todos são igualmente atraídos e por essa mesma graça somos todos feitos irmãos.

E pelo projeto da cruz, deve haver uma só humanidade.

É por isso que qualquer atitude de separação, racismo, xenofobia, intolerância ou arrogância é tão ofensiva para Deus: pois é um pecado que despreza a cruz e a sua obra e graça.

Cristo morreu para nos fazer UM nele.  E que nada nos separe de uma graça assim.