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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PORQUE HOJE É SÁBADO

 


Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

 

Assim começa o poema O DIA DA CRIAÇÃO de Vinicius de Moraes, publicado no livro "Poemas, Sonetos e Baladas" em 1946.

 

Lembro-me de ter lido pela primeira vez esses versos quando estudava Literatura Poética na Universidade, ainda no Recife, e guardei de memória os últimos versos da segunda estrofe (recordando inclusive seu padrão de verso/refrão, como o Sl 136):

 

Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado

 

Um sábado desses, espairecendo as ideias, fui buscar na Internet o poema completo. Encontrei, li, reli e compartilhei com meu filho.  E mais uma vez me vi envolto na poesia das palavras.  Recomendo a leitura.

 

Mas não vou me deter na análise crítica literária (isso é chato e mata a arte.  E por falar nisso, indico uma postagem sobre a arte no link).

Também não quero fazer uma abordagem humanística das ideias do texto (embora reconheça que, no campo da Antropologia Teologia, suas ideias renderiam várias páginas acadêmicas).

 

E um parêntese: enquanto hoje discutimos a escala de trabalho 5x2, Vinicius já reconhecia, na década de 1940, que "Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa".  Somente essa citação já vale o argumento.  Fechando o parêntese.

 

É bom também frisar que o poema começa citando o texto sagrado: "Macho e fêmea os criou. Bíblia: Gênese, 1, 27). E eu, ousadamente, acrescentaria outra das palavras de Jesus: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc 2,7).

 

Assim, para finalizar, devolvendo a palavra ao poetinha, sem muita argumentação, mas me vendo humanamente descrito:

 

Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

UM SALMO FÚNEBRE PARA 2021

 Agora que estamos encerrando esse ano de 2021, permita-me publicar um salmo nos moldes do 137: como cantaremos nessa terra estranha?


 

Ó Altíssimo! Tu és bom.
Teu amor indizível vai além das circunstâncias.

Mesmo com os olhos marejados,
não nos esqueceremos de ti.

 

Mas, como te cantaremos nessa noite que parece não ter fim!?

Como te bendiremos em meio a esses rumores de morte!?

 

Tu que és a própria vida.

 

A COVID traz morte,
mas a negação do cuidado e prevenção a agiganta.

A fome de nossos irmãos nos mata por dentro
e a ganância de uns nos fere a todos.

O gesto famigerado e anticristão da arminha no dedo convida à morte.
E só o crucificado para se apiedar de nós.

As fakes news espalham a morte.
Mas o silêncio da verdade é cúmplice delas.

O aborto gera a morte inocente.
Assim como a maternidade e a infância vilipendiadas.

O isolamento nos consome.
Pior é a insensibilidade.

O desmatamento para o agronegócio nos asfixia,
e a carestia e o desemprego embota a esperança.

A retidão está ausente,
e a justiça comprada a dinheiro.

Sem educação, saúde ou dignidade o povo perece.

O sexo irresponsável escancara o egoísmo dessa geração.
Mesmo que se use o argumento do amor.

Mulheres estão morrendo por quem as deveria amar
e nossas crianças abusadas por quem as deveria proteger.

As famílias se diluem,
pois os modelos e parâmetros nos envergonham.

E ainda, púlpitos se vendem
e já parece escassa alguma voz profética.

 

Todo isso fede a morte,
pois está preso pelos grilhões do pecado.
Sim. Tudo isso é pecado.

A esquerda sem Deus é estéril.
E a direita fanática é sepultura caiada.

 

Ora. Onde está ó morte a tua vitória?
Onde estão teus grilhões?

 

Acontece que tragada foi a morte na vitória.

E permaneço crendo que nada disso vai me separar do amor de Deus em Cristo Jesus.

E nós continuaremos a louvar e adorar ao Altíssimo e Eterno que conquistou a vitória no madeiro.

 

Aleluia! 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

DE BONS PODERES

 


De bons poderes sinto-me cercado,
Bem protegido e de fato consolado:
Assim desejo eu passar os dias
E ter convosco um ano de alegrias.

 

Ainda o passado nos tortura,
De dias maus nos pesa a amargura:
Senhor, concede às almas espantadas
A salvação, para a qual são preparadas.

 

Estende-nos o cálice amargo da dor,
E o bebemos sem embaraço,
Porque nos vem das tuas boas e queridas mãos;
Até sofrer com gratidão tu nos ensinas.

 

Mas se quiseres dar-nos alegrias
Ainda sob o sol dos curtos dias
Do mundo, lembraremos o passado,
E entregamo-nos ao teu cuidado.

 

Deixa que estas velas que chamejam
Um bom sinal de Ti, nas trevas sejam:
Permite que mais uma vez nos encontremos
Pois Tua luz brilha à noite, bem sabemos.

 

E quando se fizer silêncio ao nosso redor,
Deixe-nos ouvir os seus sons aumentarem,
Do mundo invisível em crescente abundância,
E todas as crianças cantem hinos de louvor.

 

De bons poderes protegidos,
Aguardamos tranqüilos o que há de vir.
Deus está conosco à noite e pela manhã,
E com certeza, a cada novo dia.

Dietrich Bonhoeffer
Ano Novo -1945

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

NO PRINCÍPIO – A PALAVRA

No princípio de tudo,
antes mesmo que o nada existisse.
Antes do big bang,
antes de qualquer partícula primordial,
antes do tempo e do primeiro momento,
só havia a Palavra.
Palavra eterna. Completa em si.
Semântica. Sublime.
Ela estava antes do tudo com Deus.
Diálogo perene. Companhia. Parceria.
Completude.
A Palavra é Deus.
Co-existente.
Onipotente.
Onipresente.
Onisciente.
Amorável.
Digna de toda adoração.
Lá no princípio do tudo,
tudo ela criou,
 pois sem ela nem o nada existiria.
Nela estava a vida,
sua essência e consistência.
Então a Palavra se fez gente,
carne como a nossa.
O Criador se esvaziou em criatura,
a eternidade baixou-se ao tempo,
porque queria viver entre nós,
do nosso jeito,
olhar o ocaso com nossos olhos,
sentir o suave ácido do damasco maduro,
chorar a perda de um amigo,
alimentar esperanças porvir,
sonhar acordado.
Então a Palavra se fez gente,
carne como a nossa,
e nós outros podemos contemplar,
vislumbrar,
a glória única vinda do Pai,
cheia de graça e de verdade.
E sendo carne, imerso em amor,
deu a todos os que crêem a dádiva
de se serem aceitos seus irmãos.
E assim fomos nós feitos filhos do Criador.


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

NO PRINCÍPIO – O SÉTIMO DIA

Tendo Deus terminado de criar todas as coisas:
as galáxias e os átomos,
os gigantes gasosos e a areia do mar,
os tempos e as eras,
a jubarte e o jabuti,
a mulher e o homem – suas imagens,
neste dia ele descansou.
Abençoou Deus o sétimo dia
e o santificou,
porque nele descansou de toda obra
que realizara na criação.
Santo é o descanso do obreiro,
sagrado o repouso do trabalhador.
Deus olhou e suspirou
satisfeito:
— Toda a minha grandiosidade e criatividade
estão espalhadas num DNA,
no rastro do cometa,
salpicado nas estrelas,
na gota de água,
na aurora boreal,
e no perfume do jasmim.
E nos deu a sua bênção
num sorriso da criança,
na chuva no sertão
e na prece que acalanta.
Dia separado de descanso e bênção,
dia para desfrutarmos de sua presença augusta,
dia de presente, dádiva, dom, graça.

Este é o dia que fez o Senhor;
regozijemo-nos,
e alegremo-nos nele.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

NO PRINCÍPIO – A OBRA PRIMA

E disse Deus:
façamos o homem conforme nossa imagem e semelhança.
E o que antes não era, começou a ser:
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus continua criativo!
Mas para uma obra prima,
novo processo de criação seria estabelecido.
À criatividade deveriam se somar o amor paternal
– maternal: façamos.
Cada detalhe, cada curva, cada nuance.
Pensado e planejado.
Com esmero e cuidado
 e carinho forjado.
Para uma tal criação seria preciso um modelo –
um modelo perfeito: Deus mesmo o seria.
Assim ele criou: homem e mulher os criou.
Macho e fêmea, ela e ele: ambos.
Ali estaria sua imagem e semelhança,
refletida qual espelho.
Pois feitos alma vivente, seriam
igual ao Criador.
Foi-nos dado seus contornos.
Criatividade, vontade, poder, domínio,
controle, auto-controle,
ímpeto, altruísmo, determinação,
pensamento, idéia, crítica,
lógica, inteligência, raciocínio,
consciência, censciência,
escolhas.
E nos abençoou:
— Fecundem-se; multipliquem-se.
— Encham a terra; povoem-na.
— Criem; gerem outros à minha imagem.
Assim Deus criou o homem e a mulher,
sua obra prima, para o louvor eterno de sua glória.
E Deus observou que ficou muito bom!
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.
Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o sexto dia.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

NO PRINCÍPIO – O SEXTO DIA

E disse Deus:
produza a terra seres vivos, selvagens e domésticos.
E o que antes não era, começou a ser:
continuaram nascendo toda e cada espécie de bicho,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
E se para tanta criatividade um dia só não foi suficiente,
com o mar e os céus cheios de vida,
nesse novo dia, na terra passou também a despontar
existência rica e colorida.
Chegaram os rebanhos e as manadas,
e todo tipo de miúda bicharada.
Carnívoros. Herbívoros.
Nas savanas, estepes, montanhas e planícies.
A terra se encheu de vida.
Galo, pato, pavão, ganso, peru, cocá, marreco,
touro, carneiro, bode, búfalo, porco,
cavalo, jumento, camelo, asno.
O pescoço da girafa,
a calma da preguiça,
a carreira do jaguar,
a força do bisão.
E tem mais:
O esquisito ornitorrinco,
a graciosa onça-pintada e
o saltitante macaco.
Assim, o Criador fez viver animais de toda espécie –
os que hoje conhecemos,
e os que já não mais caminham sobre a terra.
E Deus observou que ficou bom!


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

NO PRINCÍPIO – O QUINTO DIA

E disse Deus:
pululem as águas de seres vivos,
e voem as aves sobre a terra sob o firmamento.
E o que antes não era, começou a ser:
nasceram toda e cada espécie de bicho,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Multiplicaram-se os enxames e os cardumes
de todo ser vivente do mar e ar.
Os monstros marinhos e as serpentes,
répteis rastejantes e feras aladas.
E assim tomaram conta das imensidões do mares
e das expansões dos céus.
O singular cavalo-marinho
o forte aligátor,
o soberano tubarão,
a impávida cachalote,
o curioso camaleão.
Nos céus sobraram cores, sons e alegria. E lá ainda estão:
Papagaio, maracanã, periquito, calopsita, arara, jandaia, cacatua, tuim...
beija-flor, curió, canário, bem-te-vi, azulão, asa-branca, sabiá...
E haja criatividade!
Então o Criador os abençoou:
encham as águas e os ares.
Daí, cada um na sua espécie, na sua linhagem e
com seus gêneros se fizeram em quantidade.
E Deus observou que ficou bom!
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.

Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o quinto dia.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

NO PRINCÍPIO – O QUARTO DIA

E disse Deus:
haja luzeiros no firmamento.
E o que antes não era, começou a ser:
os céus, distintos por seus luminares,
souberam distinguir o dia da noite,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Tempos e estações,
inverno e verão, frio e calor,
o brando outono e a renovada primavera,
marés e monções, ventos e chuvas,
quarto-crescentes e minguantes, cheias e novas.
Um lugar e tempo próprio, marcado
para cada festival, cada reunião e festa sagrada.
Pois lá no firmamento um grande luzeiro agora conduz o dia,
um outro regula a noite,
e as estrelas servem de séquito.
E assim permanecem demarcados: o fim da escuridão
e o novo alvorecer.
E Deus observou que ficou bom!
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.
Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o quarto dia. 


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

NO PRINCÍPIO – O TERCEIRO DIA

E disse Deus:
sejam ajuntadas as águas que estão debaixo dos céus.
E o que antes não era, começou a ser:
cada água foi para seu lugar,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Oceanos infindos, mares e mares
... para que a terra seca apareça.
Cada coisa em seu lugar,
pois além de criativo,
também é organizado.
E Deus observou que ficou bom!
E disse Deus:
que faça brotar do chão relva verde
 e toda sorte de flora.
E o que antes não era, começou a ser:
a vida brotou novinha,
– a sequoia e a gramínea –
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Com água, luz, terra, clorofila e fotossíntese,
surge o grande milagre: A VIDA!
Exuberante biodiversidade.
Cada verde com sua flor,
cada flor com sua semente,
cada semente com sua fruta,
cada fruta com seu gosto,
cada gosto com sua cor.
E Deus observou que ficou bom!
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.
Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o terceiro dia.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

NO PRINCÍPIO – O SEGUNDO DIA

E disse Deus:
haja firmamento.
E o que antes não era, começou a ser:
o firmamento passou a estar,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Como um metal que vai se espalhando pelo batido do martelo,
como uma forja que do malho configura,
o azul de cima e o verde de baixo
começaram a encontrar seus próprios lugares –
águas e águas.
Assim Deus foi fazendo a abóbada que me cobre:
anil e firme.
Como uma proteção que sustenta a eternidade
e recobre a humanidade.
E assim é.
E assim o céu enche meus olhos.
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.
Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o segundo dia. 


sexta-feira, 29 de julho de 2016

NO PRINCÍPIO – O DIA UM

E disse Deus:
haja luz.
E o que antes não era, começou a ser:
a luz aconteceu,
pois ele chama à existência coisas que não existem.
Deus é criativo!
Trezentos mil quilômetros por segundo.
Explosões cósmicas. Siderais. Quânticas.
 Fragmentos de pura física. Química.
 Incontáveis sois.  Supernovas.
Elétrons. Nêutrons. Prótons.
Ondas. Bósons. Gravidade.
Partículas. Pulsares.
Quasares.  Fótons.
Radiação. Calor.
 Infinitude.
E=mC²
Pipocando, expandindo, formando, indo.
Luz, brilho, claridades.
E Deus observou que ficou bom!
O Criador então entendeu que luz e trevas
são partes integrando a criação.
Instados a coexistirem,
cada um do seu lado –  
à sua maneira.  Incompletos.
Criaturas diurnas noturnas.
Então começou o crepúsculo
e a tardinha abraçou a noite.
Mas eis que rompeu a manhã e,
como um sacrifício
de culto eterno, aconteceu
o dia um. 


sexta-feira, 22 de julho de 2016

NO PRINCÍPIO – O COMEÇO

No princípio de tudo,
antes mesmo que o nada existisse.
Antes do big bang,
antes de qualquer partícula primordial,
antes do tempo e do primeiro momento.
No princípio criou Deus os céus e a terra.
O céu lá em cima e o chão cá em baixo –
Deus criou o tudo:
porque só ele mesmo podia
sem nada fazer isto.
Mas, o que ele criou
no princípio, estava deserto,
ermo,
sem forma,
vazio,
amálgama de compostos –
o caos em formação.
Apenas as trevas profundas
cobriam a face do cosmos.
Um universo de nada.
E o hálito divino
soprava sobre a face das águas.
Qual útero cosmogônico,
teogônico,
a criação estava sendo gerada –
fecundada –
germinada por semente divina que pairava.
Mas isso era só o começo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O BRAÇO DO MENINO JESUS

Num texto recente (leia aqui), eu fiz referência à opinião de um dos meus professores sobre o poeta baiano Gregório de Matos (1636-1696) como o maior poeta brasileiro – seguido do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).  Sem querer entrar no mérito da questão, mas recolhendo a genial arte de Gregório com as palavras, vou citar aqui um poema onde ele destila um pouco de seu espírito crítico-religioso, que o levou a receber o apelido de boca do inferno.  Deguste:

 

AO BRAÇO DO MENINO JESUS QUANDO APARECIDO

 

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Carlos Drummond de Andrade
Do livro "Alguma poesia" (1930)

Encontrei este poema por acaso.  Folheando alguns livros na biblioteca da Faculdade, na tentativa de estudar Teoria Literária, eu me deparei com este versinhos – sem nenhum menosprezo – do poetinha mineiro Carlos Drummond de Andrade.  O autor da gramática o colocou no livro com o intuito de exemplificar qualquer coisa da tal Teoria.
Veja o que aconteceu...  Mas, antes, deixe me justificar.  Não vou comentar nada sobre o inigualável Drummond – é desnecessário.  Lembro apenas que o meu professor se referia a ele como o segundo maior poeta da história do Brasil (o primeiro foi Gregório de Matos).  Também não sou crítico literário, e nem pretendo ser para fazer análise teórica da poesia.  Tem gente que já faz isso.
Então, veja o que aconteceu.  Passados anos do meu primeiro contato com o poema, não tenho a mínima lembrança daquele livro onde o encontrei, e nem sequer a qual aspecto da teorização o autor se referia – isso o tempo me fez o favor de deletar da memória.  Mas as palavras do poema estão ainda bem vivas. 
Nem fiz questão de decorá-lo na hora, mas ainda hoje sou capaz de repeti-lo.  Não sei exatamente por que, mas ficaram gravadas.  Talvez por ter dado uma boa risada quando o li pela primeira vez. 
Isso sim é poesia.  E não precisa de teoria para entendê-la ou defini-la.  As palavras fazem seu trabalho: do título ao ritmo preguiçoso de cada verso.  E para terminar, a quebra do último verso: Eta vida besta, meu Deus.  Pronto.  Completo.
Ora, não tenho como saber qual era a intenção principal de Drummond ao escrever, mas eu sei que estes versos têm poder de provocar em mim aquela gostosa sensação da vida do interior – com toda a nostalgia que inclui.  E para mim isso é saudável!

(Na imagem lá em cima, a reprodução do quadro "Entre morros e roda d'água" pintado por Anita Malfatti, na década de 1950)

terça-feira, 2 de julho de 2013

IDOSO OU VELHO

Idoso é quem tem muita idade;
Velho é quem perdeu a jovialidade.
A idade causa a degenerescência do espírito.
Você é idoso quando se pergunta se vale a pena;
Você é velho quando, sem pensar, responde não.
Você é idoso quando ainda aprende;
Você é velho quando já nem ensina.
Você é idoso quando se exercita;
Você é velho quando apenas descansa.
Você é idoso quando ainda sente amor;
Você é velho quando só sente ciúmes.
Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida;
Você é velho quando todos os dias parecem o último de uma longa jornada.
Você é idoso quando seu calendário só tem amanhãs;
Você é velho quando só tem ontens.
O idoso se renova a cada dia que começa;
O velho se acaba a cada noite que termina,
Pois quando o idoso tem seus olhos postos no horizonte,
De onde o sol desponta e ilumina a esperança,
O velho tem a miopia voltada para as sombras do passado.
O idoso curte o que lhe resta da vida;
O velho sofre porque se aproxima da morte.
O idoso leva uma vida ativa.  Plena de projetos e plena  de esperanças.
Para ele o tempo passa rápido, mas a velhice nunca chega.
Para o velho sua hora se arrastam destituídas de sentido.
As rugas do idoso são bonitas, porque foram marcadas pelo sorriso;
As rugas do velho são feias, porque foram fincadas pela amargura.
Em suma, o idoso e o velho podem ter a mesma idade no cartório,
Mas têm idades diferentes no coração.


(Veja como este texto me chegou: eu o encontrei no livro "Musicalização na Terceira Idade" de Alzira M.B. de Araújo que o citou do trabalho de Isabelle Almeida Belchior, que, por sua vez o transcreveu de Luiz Farias aos seus 79 anos)