terça-feira, 21 de julho de 2026

A MORTE DE JOÃO, O BATISTA

Como um flashback o evangelista Marcos conta o que aconteceu com João, o Batista.  A prisão de João já havia sido citada em Mc 1.14, então, a partir de Mc 6.14 Marcos dá voz às lembranças de Herodes para narrar o que aconteceu com o precursor de Jesus.

Herodes mandou prender João, mas por receio da multidão e por ter ficado pessoalmente impressionado com a sua pregação ele evitou executá-lo.

O que aconteceu, porém, é que a pedido da filha de Herodias, a amante do rei, Herodes ordenou a sua decapitação.  A cena, embora seja cruel (narrada em Mc 6.21-28), merece alguma citação quanto à atitude de Herodes em relação a João.  Vejamos por dois ângulos.

Se, do ponto de vista do próprio Herodes, ele assumiu uma atitude ambígua em relação ao batista, pois tanto o respeitou e reconheceu ser ele um homem justo e santo não ordenando a sua morte imediata, mesmo o mantendo preso (confira em Mc 6:17-20); mas também deu mais valor à sua imagem pública diante dos convidados na festa de aniversário que a vida de um ser humano (e em Mc 6:26-27).

Por outro lado, vemos a atitude dos discípulos de João que, tendo ouvido o que ocorrera com ele, prontamente vieram, levaram o seu corpo e lhe deram uma sepultura digna, honrando sua memória (observe em Mc 6:29).

 

E quanto a nós, que reação a cena da morte do batista produz em nós?

 

terça-feira, 14 de julho de 2026

QUAL O MEU DESTINO?



A última grande questão humana a ser respondida sob a luz da crença monoteísta é sobre o destino do ser humano – a questão da finalidade da existência humana.  Tendo determinado a essência do seu ser e qual a função que tem a desempenhar nesta existência, falta-lhe determinar qual o destino que espera o ser humano.  A princípio podemos constatar que uma teoria que ignore uma possibilidade de resposta à questão do destino humano, tende naturalmente a se tornar uma teoria niilista na sua essência.  Se não há destino a ser buscado a existência torna-se vã – nula.  Ora, tal nulidade acaba por enfraquecer qualquer resposta que tenha sido dada às questões anteriores.  Se o homem não tem para onde ir e tudo acaba aqui então todo o seu esforço para dar significado a sua existência está fadado a fracassar num abismo vazio.

Otimista ou pessimista, todos os mitos contados pelas culturas antigas incluíam em suas narrativas a certeza de que haveria vida e destino para o ser humano depois desta vida agora.  Os egípcios construíram suas pirâmides aguardando a passagem dos seus faraós para vida futura.  Os orientais japoneses ainda hoje reverenciam os seus ancestrais fazendo com que os vivos se saibam parte deste destino comum.  Entre os gregos, Caronte é o barqueiro que tem a responsabilidade de levar os homens para o reino de Hades.  Igualmente os mitos babilônicos conclui a Epopeia de Gilgamexe com a expressão: "este é o destino da humanidade".  As palavras bíblicas parecem concordar com toda esta certeza de ter a vida humana uma finalidade e um destino: "... sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor" (1Co 15:58).

Um detalhe, entretanto, não pode escapar à nossa observação.  Em todas as narrativas o destino da humanidade está profundamente ligado aos seus deuses.  Para onde o ser humano vai, como e por que são questões que estão na competência de seus deuses decidirem.  Além de ter a certeza de que a existência humana não se encerra nesta vida e, por isto mesmo, tem sua destinação apontada para o além; ao atrelar seu destino aos deuses a humanidade cerceia a própria liberdade de escolha.  Se por um lado a certeza de que se esperamos somente nesta vida somos os "mais miseráveis entre todos os homens" (1Co 15:19); por outro é o próprio Deus quem nos destinou para sermos "conforme a imagem de seu Filho" (Rm 8:29).

Mas, enquanto aguarda a vida além, o ser humano continua vivendo nesta vida e traçando planos cuja realização não extrapolam a vida presente.  Numa analogia com a linguagem freudiana: enquanto a espera pela vida futura seria a supremacia do princípio do prazer – quando todos os males do presente serão superados e o paraíso enfim será estabelecido – os imperativos da vida presente representaria um triunfo do princípio da realidade – quando a incapacidade de realizar por conta própria o futuro faz o homem se ocupar na construção do tempo presente.

Com este quadro, a crença politeísta poderia ser uma hipótese de solução satisfatória.  Se tenho na minha relação de sagrado a presença de dois ou mais deuses, então posso atribuir a cada um deles em separado as incumbências de resolver os problemas do aqui e do além.  Mas a crença no politeísmo não contribui para a integração do ser, logo, tendo o ser desintegrado pela crença em vários deuses, sem identificação existencial e funcionalidade objetiva, como pode esta crença compor para que a integridade do ser seja estabelecida no que concerne à sua destinação?

Então resta-nos a opção da crença monoteísta, e certamente a formulação doutrinal cristã da esperança escatológica é mais consistente englobando no seu bojo todos os elementos de destinação e realização aqui e no além.  Nesta perspectiva, a análise que Gustavo Gutiérrez faz da escatologia cristã deva ser a resposta mais significativa para a questão: Qual o meu destino?

Não basta por isto reconhecer que a escatologia se dá no futuro e no presente.  Isto, com efeito, pode afirmar-se ficando no nível de realidades "espirituais", futuras e atuais.  Dir-se-á então, com uma expressão que nos pode levar a engano, que a escatologia desvaloriza a vida presente; mas se por "vida presente" se entende só "vida espiritual presente", não estamos diante da correta compreensão da escatologia.  Sua atualidade é uma realidade intra-histórica.  O conflito graça-pecado, a vinda do reino, à espera da parusia são também, necessária e inevitavelmente, realidades históricas, temporais, terrenas, sociais, materiais.

(...)

As promessas escatológicas vão-se cumprindo ao longo da história, mas isto não quer dizer que se identifiquem pura e simplesmente com realidades sociais determinadas; sua obra libertadora vai além do previsto e desemboca em novas e insuspeitadas possibilidades.  O encontro pleno com o Senhor porá fim à história, e este já se dá na história.

 

 


Você pode ler um ensaio completo sobre esse tema no livro ENSAIOS TEOLÓGICOS – Volume 2

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Clube de autores
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Conheça também outros livros:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão
PARÁBOLA DAS COISAS

terça-feira, 7 de julho de 2026

SOBRE CIDADES, CAMPO E ÁGUA

 


O texto bíblico diz que “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida” (Gn 2:7).  Pela compreensão sagrada, nossa vida está intimamente relacionada com a terra e o chão.  E até na sentença pronunciada após o pecado, a relação com a terra está explícita: “maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida” (Gn 3:17).

É do chão que sempre o ser humano tirou seu sustento; e em vários aspectos a própria existência depende do nosso relacionamento com a terra.  Desde os princípios da cultura humana, com a agricultura de subsistência, dependemos do que plantamos e colhemos – caso igual também com nosso gado que criamos.

Com o andamento da história da humanidade, contudo, a busca de algum conforto e segurança da vida coletiva levou a vários homens e mulheres a abandonarem os trabalhos nos campos em busca do que as cidades os podem oferecer.

No Brasil, essa tendência se intensificou a partir dos anos 1970, quando se acentuou o êxodo rural em busca das grandes cidades e oportunidades de emprego; chegando hoje a termos cerca de 85% da nossa população vivendo nas cidades (segundo o Censo IBGE Brasil 2022).

O êxodo rural é apenas um acúmulo de problemas ecológicos e de meio ambiente, tanto para os que vêm para as cidades, como para os que ficam no campo.

O ajuntamento de pessoas nas grandes cidades concentra os problemas.  O grande número de habitantes busca comer e viver com dignidade – o que é direito inalienável de todo ser humano.  Mas, vivendo em aglomerações, as ações humanas resultam em consequências em cadeia para todos.

Pelo menos dois problemas principais devemos encarar quando analisamos a vida humana nas grandes cidades modernas, e eles tem a ver com a água.  E como servos do Criador precisamos dar atenção a isso.

Em relação a água, é preciso cuidar tanto das chuvas, quanto água de consumo, além de como descartar as águas sujas de esgoto.

Sobre a questão das chuvas nos aglomerados urbanos, a situação é a seguinte: com o uso constante de asfalto, concreto e pedras em nossas cidades, os cursos naturais de água são gravemente alterados.  A consequência dessa prática é que as chuvas passam a se acumular nas cidades mudando por completo seus ciclos e causando danos incalculáveis.

Em atenção a esse problema, a solução é manter e cuidar de jardins, parques, hortos e outras áreas onde a terra possa receber livremente as águas da chuva e fazê-las escoar de maneira desimpedida.

Outro problema em relação a água é a contaminação das fontes e dos cursos naturais de águas.  As cidades, em geral, não cuidam de maneira apropriada, deixando que agentes químicos e orgânicos contaminantes poluam e encham de sujeira toda a água que chega disponível para a população.

Nesse mesmo âmbito, e de maneira recorrente, a falta de destinação adequada para a água usada em casas e indústrias, faz com que elas sejam despejadas em esgotos que, por sua vez, voltam aos córregos realimentando o clico de contaminação.

Quando a isso, de maneira simples, a melhor forma de minimizar os problemas com a água nas grandes cidades é reutilizar e reciclar o máximo possível, evitar desperdícios e cuidar das condições de saneamento.

Assim concluímos:

Fomos criados por Deus com amor e graça para viver nesse mundo.  Tudo o que precisamos para ter uma vida saudável e digna ele aqui nos entregou – bem como para deixar para as futuras gerações.  Mas também Deus nos colocou para administrar os recursos que ele nos confiou. 

A vida em sociedade, nos modelos urbanos que temos adotado, tem esgotados os recursos naturais e degradado o mundo belo que Deus criou.  Isso é ofensa e pecado contra o Criador e algo que avilta o ser humano.

Os nossos compromissos cristãos nos impõem a viver e trabalhar pela obra criada por Deus e a nós confiada em compromisso de administrá-lo de modo a poder sempre ver essa terra como um lugar bom – assim como o Criador o viu no sexto dia da criação (Gn 1:31).

 

(A partir de reflexão na Revista DIDASKALIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)