terça-feira, 30 de novembro de 2021

NÃO CHORE


É interessante o paradoxo que vivenciamos na vida quando se afirma que, chorar é bom para alma, mas por vezes ouvimos, não chore.  Não faça do choro uma expressão dos seus sentimentos para se tornar refém de quem quer que seja.  Não chore porque as pessoas não vão te entender e vão até querer manipular sua vida por causa disso.  É o dilema existencial vivido por muitos em suas dores, seus sentimentos.  Querem expressar, precisam fazê-lo, mas são tolhidos, banalizados ou simplesmente desprezados.  Como poder superar a crise da alma quando precisa extravasar e colocar para fora aquilo que aperta o peito, comprime a emoção, fere no mais profundo do ser? Como não perder nossa humanidade em meio à tentativa da camuflagem quando mais precisamos continuar sendo gente que experimenta todos os seus dilemas diante dos ditames da vida? 

Porém, há outros momentos de nossa caminhada humana que depois de um tempo de choro, do extravasar da alma, podemos ouvir a voz mansa do Mestre Jesus Cristo dizendo: “Não chore”.  Em outras palavras estaria Ele dizendo para cada um de nós: “Não precisa continuar chorando.  Suas dores são minhas dores, sua angústia tomei-a na cruz, seu pesar não tem necessidade de continuidade, porque Eu Sou e estou aqui, junto com você”.  Que alegria podermos saber que é em meio ao chorar que podemos experimentar a manifestação da Graça de Deus, que é em meio ao turbilhão de dúvidas e crises que podemos ouvir sua doce voz, que é em meio à nossa humanidade vivida em sua plenitude que podemos experimentar o gozo do descanso e da renovação da própria vida.

Chorar e não chore; nesse dilema da vida encontra-se a beleza do ser gente e do poder perceber a plenitude a Graça e do viver do Senhor em cada um de nós.  É nesse sentido dicotômico que percebemos nossa fragilidade e o quanto carecemos do Senhor e de sua manifestação diretamente em nossa essência como humanos.  É nessa experiência de humanos que podemos vislumbrar um novo tempo, novas oportunidades e quanto nossas carências são alvo da Bondade e da Misericórdia do Senhor.  É nesse dilema de chorar e não chorar que podemos vivenciar a alegria comunitária do cuidar uns dos outros, experimentar em toda plenitude o que é ser gente, ser humano na mais pura expressão da palavra e de sua essência e com isso, continuar a caminhada no processo de santificação onde, plenamente, o humano e a manifestação da Graça de Deus se encontram e vivenciamos a doce voz do Senhor Jesus: “Não chore, não precisa continuar chorando, ‘porque Eu estou com você todos os dias, até à consumação dos séculos’ ”.

Gerson de Assis Perruci
Pastoral publicada no boletim da Igreja Batista das Alterosas/BH
– Domingo, 25 de setembro de 2016.


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

CELEBRANDO PELA CHEGADA DA ARCA

 


O texto bíblico nos diz que Davi, tendo entrado em acordo com as demais lideranças nacionais, compreendeu que a vontade do Eterno, o nosso Deus (1Cr 13:2) era trazer a Arca para Jerusalém.  Assim, convocou os sacerdotes e levitas e foi buscá-la na casa de Abinadabe.

Para esta tarefa construíram um carroção novo e partiram ... para buscar a Arca de Deus, Arca sobre a qual é invocado o Nome, o nome do Senhor dos Exércitos, que tem o seu trono entre os querubins acima dela (2Sm 6:2).

Durante o transporte, o texto informa que os bois que conduziam o carroção tropeçaram e Uzá, na intenção de segurar a Arca, esticou o braço em direção a ela, provocando a ira do Senhor, que o feriu; morrendo ele ali mesmo diante do Senhor.

Este incidente provocou medo em Davi; pois reconheceu a santidade exigida por Deus para poder se aproximar dele: Como vou conseguir levar a Arca de Deus? (1Cr 13:12).

Decidiu-se então que a Arca ficaria na casa de Obede-Edom em vez de trazê-la a Jerusalém.  Neste ponto da narrativa, o autor sagrado reconhece que:

 

A Arca do Eterno ficou na casa de Obede-Edom por três meses. 
E o Eterno abençoou tanto a ele quanto a sua família.
(2Sm 6:11 / 1Cr 13:14)

 

Quando Davi soube o que sucedera, determinou que somente os levitas poderiam carregar a Arca de Deus, pois para isso o Eterno os havia escolhido, e para ficarem sempre ao seu serviço (1Cr 15:2). 

Então foram à casa de Obede-Edom para finalmente completarem o trajeto até a cidade de Davi.  

O cortejo assim se seguiu: tendo à frente os levitas e sacerdotes que a cada seis passos sacrificavam ao Senhor (veja 2Sm 6:13), seguidos do rei e seus valentes que foram tomados de uma alegria e celebração com muita música, dança e louvor ao Senhor pelo que estava acontecendo.

Todo o texto transpira festa.  O regozijo é quase indescritível.  E o texto conclui observando que a Arca estava agora de volta, retomando o seu lugar como o elemento central na vida cultual do povo de Deus.  E que com isso a congregação dos filhos de Israel poderia viver como a nação eleita para ministrar diante do Senhor em adoração, tendo a frente levitas e sacerdotes consagrados:

 

Foi naquele dia que, pela primeira vez, Davi encarregou Asafe e seus parentes de louvarem o Eterno com salmos de gratidão.
(1Cr 16:7)

 

§ Na imagem lá em cima, uma reprodução de um manuscrito anônimo do século XIII.

 

§ Se quiser ler como eu ilustrei a chegada da Arca em Jerusalém e a dança extravagante do Rei Davi por aquele momento, veja na postagem: DAVI: A ARCA E A DANÇA nesse link.

 

Você encontra um estudo teológico sobre o Culto Cristo no meu livro:
DE ADÃO ATÉ HOJE - Um estudo do Culto Cristão

 


Disponível no:
Clube de autores
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Conheça também outros livros:
TU ÉS DIGNO - Uma leitura de Apocalipse
PARÁBOLA DAS COISAS

terça-feira, 23 de novembro de 2021

EMAÚS E A CONVERSA TEOLÓGICA

  


Tenho labutado na tarefa teológica já se vão algumas décadas.  Se somarem os anos de minha própria formação acadêmica com o tempo de magistério, a Teologia tem ocupado uma parte significativa em minha vida.

 

— Mas, o que é Teologia?

 

Recentemente, num depoimento gravado para uma TV local aqui de Aracaju sobre o tema, eu foquei a resposta na assertiva da Teologia como “um diálogo existencial do ser humano – e em especial da igreja – com e sobre Deus”.

Essa foi minha linha de raciocínio.  Assim, desdobrando e compreendendo o conceito:

Teologia não é a ciência de Deus, no sentido em que se colocam as ciências e seus saberes, uma vez que o objeto Deus não pode se submeter aos rigores, testes e ditamos metodológicos. 

Deus não pode ser levado ao laboratório!

 

Então resta o diálogo, a prece, a confissão da impotência, incerteza e fé.  E eu me lembro de Clarice Lispector sussurrando: “Eu não tenho o poder.  Tenho a prece".

 

Mas é necessário demarcar esse conceito.  Então devo tomar como paradigma as narrativas sagradas.  E minha mente teológica é atraída para aqueles dois discípulos saindo de Jerusalém na tarde do primeiro dia (a história está narrada em Lucas 24).

Naquela tarde, o clima e peso de luto eram indisfarçáveis.  Mas um terceiro companheiro de caminhada não somente mudou o ânimo dos caminhantes, como também deixou o legado da compreensão do que é – deve ser – Teologia.

Assim, extraindo das linhas do texto:

 

# Teologia é o que faço no caminho.  Não no laboratório.  Enquanto a vida vai acontecendo, a Teologia vai sendo tecida.

# Teologia acontece quando o ressuscitado se mete no meio da minha conversa com meu irmão.  Nunca faço Teologia sozinho.  Preciso do outro, e juntos dialogamos com o divino que está entre nós.

# Teologia produz uma nova interpretação da realidade ao meu redor.  Ao fazer Teologia sou levado a perceber o mundo sob um nova e adequada ótica – um novo significado.

# Teologia se faz sempre a partir das Escrituras.  “Assim está escrito...”  A leitura do texto sempre é o ponto de partida do diálogo teológico, e o que lhe dá base e direcionamento.

# Teologia sempre aquece os corações.  Quando eu faço Teologia de verdade, há um calor santo que invade e irradia a partir do interior, tomando-me toda a existência.

 

E assim eu vou continuar minhas conversas teológicas.

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Senhor! Ouve nossa oração!

 


Um dia desses, numa rotineira olhada nos títulos expostos numa livraria aqui em Aracaju, o nome de Karl Barth estampado em um pequeno livro me chamou a atenção.

 

“Senhor! Ouve nossa oração!”

 

Estendi a mão, tomei o livro e comecei a degustação inicial.  E na última capa está escrito:

 

Possivelmente uma surpresa para muitas pessoas: uma publicação com orações de Karl Barth.  Pois ele é conhecido por ser um teólogo sistemático de estupenda produção intelectual.

 

E foi meu caso.  Surpreendeu-me uma coletânea de orações desse teólogo suíço que nasceu no final século XIX e produziu sua riquíssima Teologia – em quantidade e qualidade – na primeira metade do século XX.

 

— Sim.  Por essa ali eu não esperava.

 

Mas, antes de olhar para as orações compiladas no livrinho (são apenas 71 páginas), deixe-me redimir da surpresa.

É impossível fazer boa teologia cristã, centrada na Bíblia e com significativa relevância, sem que se nutra uma vida de piedosa oração solitária e em comunidade.  Outros grandes nomes que contribuíram com nossa Teologia e alicerce doutrinário também conheceram esse trilho.

É claro que alguém que nos legou Der Römerbrief em 1919 – obra que marcou a Teologia Bíblica do século XX – também faria fileiras entre os homens e mulheres de oração.

Acontece que eu não conhecia a obra em Português.

 

Então, vamos ao livro (no Brasil a edição é de 2013).

 

Já no prefácio, o próprio Barth inicia reconhecendo sua versão juvenil a “toda forma de solenidade relacionada ao culto”, logo nunca esteve entre seus projetos um texto que fornecesse condução litúrgica à Igreja.

Mas a vida e a adoração em comunidade e, principalmente, as prédicas ali proferidas o levaram nessa direção.  E assim as preces foram sendo escritas e depois compiladas.

Contudo, é bom ressaltar – nas suas palavras:

 

Minha ideia não é simplesmente que as orações sejam adotadas pelas comunidades ou por seus pregadores na forma em que se encontram, mas que elas possam ser lidas por um outro como estímulo para uma reflexão.

 

Lido o prefacio, passei às orações, e me vi orando junto – em Português – aos irmãos de língua alemã.

Aqui está a força da piedade e celebração cristãs.  Nossa oração e nosso culto é ao mesmo tempo local e universal; temporal e eterno; particular e comunitário.

E mais do que ritos para preencher uma fórmula de culto ou um calendário litúrgico, Barth deu voz à minha oração, recheada de adoração, súplica e esperança.

 

Enaltecemos-te por nos permitires, como teu povo reconhecer-te e louvar-te humildemente até o dia em que toda criatura será revelada perante ti e entoará o cântico novo em júbilo perante tua presença.  Amém.

 

E sê misericordioso, Senhor, também para com aqueles que, nesta manhã, em muitos outros lugares, reúnem-se como tua comunidade! [...] Dá-nos a todos discernimento e esperança, um testemunho claro e corações alegre – por Jesus Cristo, nosso Senhor! Amém.