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terça-feira, 11 de agosto de 2026

FILMES QUE ME MARCARAM – 1ª parte

Na minha formação como homem (talvez: ser humano diga melhor!) e como estudante de Teologia, alguns filmes me marcaram.  Veja aí uma lista com alguns deles, entre os antigos e os mais recentes – apresentada na sequência por ano de produção.

Recomendo cada um deles:

 

🎞AMADEUS

🎥 Filme americano de 1984, dirigido Milos Forman.

⌨️ A obra é uma interpretação livre da vida do compositor Wolfgang Amadeus Mozart e suas desavenças e ciúmes com o também compositor Antonio Salieri.

✍️ Valeu pela imersão na obra genial de Mozart e como ela nos fala a alma.  Sobre o Réquiem do Mozart, clímax do filme, eu até já escrevi (leia no link).

 

🎞INIMIGO MEU

🎥 Título Original: Enemy Mine.  EUA, 1985.  Dirigido por Wolfgang Petersen e baseado numa novela de Barry B. Longyear.

⌨️ Filme de ficção científica que narra a história de um soldado da Terra e de um alienígena Jeriba que, inimigos em uma guerra espacial, depois de perdidos ambos em um planeta inóspito, terminam por se tornarem profundamente amigos, dando lugar a consequências imprevisíveis.

✍️ De saída: para os fãs de Spielberg, talvez seu ritmo lento pareça monótono – e não sei se foi assim de propósito – mas penso que isso até ajude.  Entre as idas e vindas do enredo, o diálogo sobre Mickey Mouse é um dos melhores para se refletir sobre os conceitos de religião e como construímos nosso relacionamento com o sagrado.

 

🎞A MISSÃO  

🎥 Título Original: The Mission.  Filme britânico de 1986, dirigido por Roland Joffé.

⌨️ Com Robert de Niro no papel de Rodrigo Mendoza, ele é um mercador de escravos espanhol, que mata o próprio irmão na disputa pela mulher que ama.  Porém, o remorso o leva a juntar-se aos jesuítas, nas florestas brasileiras.  Lá, ele fará de tudo para defender os índios que antes escravizara.

✍️ No começo de minha formação teológica, esse filme ajudou a demolir alguns conceitos ingênuos de meu cristianismo (e a associação que fiz depois com a vida de Bartolomeu de las Casas – já falei sobre ele, leia no link – só fez fortalecer as bases de minha fé).  A cena final com o violino é sublime.

 

🎞EU SEI QUE VOU TE AMOR

🎥 Filme brasileiro de 1986 escrito e dirigido por Arnaldo Jabor.  Com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon.

⌨️ Um casal separado volta a se encontrar.  Sozinhos, eles decidem realizar um jogo da verdade sobre tudo o que já lhes aconteceu ao longo da vida.  

✍️ Para quem trabalha com psicanálise, ou coisas do ramo, talvez o filme proponha uma excelente discussão.  Para mim, lembro que uma frase me marcou – e aqui cito de memória – porque atiçou minha mente teológica: — Deve haver uma palavra que, uma vez dita, mude o mundo!  Então minha associação com o Logos que se fez carne foi inevitável.

 

🎞A FESTA DE BABETE  

🎥 Original: Babettes Gœstebud.  Dinamarca (1987), dirigido por Gabriel Axel, e com roteiro baseado em um conto de Karen Blixen.

⌨️ A história se passa em 1871 num vilarejo nos confins da Dinamarca e tem seu ponto alto quando Babette – uma cozinheira parisiense refugiada naquele lugar fugindo da repressão da Comuna de Paris – oferece sua arte para celebrar o centenário do pastor local aos fiéis rabugentos.

✍️ Usei esse filme num texto sobre arte (leia no link).  Sobre sua influência: lembro-me de sentir o peso devastador do puritanismo religioso na vida das pessoas (o fundamentalismo provoca o mesmo efeito!), e como Deus pode se manifestar e trazer vida em abundância e com leveza e qualidade através da arte.  Também a cena da refeição comum me trouxe pontes teológicas interessantíssimas com a ceia pascoal celebrada por Jesus e repetida pela Igreja. 

 

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

SOBRE CIDADES, CAMPO E ÁGUA

 


O texto bíblico diz que “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida” (Gn 2:7).  Pela compreensão sagrada, nossa vida está intimamente relacionada com a terra e o chão.  E até na sentença pronunciada após o pecado, a relação com a terra está explícita: “maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida” (Gn 3:17).

É do chão que sempre o ser humano tirou seu sustento; e em vários aspectos a própria existência depende do nosso relacionamento com a terra.  Desde os princípios da cultura humana, com a agricultura de subsistência, dependemos do que plantamos e colhemos – caso igual também com nosso gado que criamos.

Com o andamento da história da humanidade, contudo, a busca de algum conforto e segurança da vida coletiva levou a vários homens e mulheres a abandonarem os trabalhos nos campos em busca do que as cidades os podem oferecer.

No Brasil, essa tendência se intensificou a partir dos anos 1970, quando se acentuou o êxodo rural em busca das grandes cidades e oportunidades de emprego; chegando hoje a termos cerca de 85% da nossa população vivendo nas cidades (segundo o Censo IBGE Brasil 2022).

O êxodo rural é apenas um acúmulo de problemas ecológicos e de meio ambiente, tanto para os que vêm para as cidades, como para os que ficam no campo.

O ajuntamento de pessoas nas grandes cidades concentra os problemas.  O grande número de habitantes busca comer e viver com dignidade – o que é direito inalienável de todo ser humano.  Mas, vivendo em aglomerações, as ações humanas resultam em consequências em cadeia para todos.

Pelo menos dois problemas principais devemos encarar quando analisamos a vida humana nas grandes cidades modernas, e eles tem a ver com a água.  E como servos do Criador precisamos dar atenção a isso.

Em relação a água, é preciso cuidar tanto das chuvas, quanto água de consumo, além de como descartar as águas sujas de esgoto.

Sobre a questão das chuvas nos aglomerados urbanos, a situação é a seguinte: com o uso constante de asfalto, concreto e pedras em nossas cidades, os cursos naturais de água são gravemente alterados.  A consequência dessa prática é que as chuvas passam a se acumular nas cidades mudando por completo seus ciclos e causando danos incalculáveis.

Em atenção a esse problema, a solução é manter e cuidar de jardins, parques, hortos e outras áreas onde a terra possa receber livremente as águas da chuva e fazê-las escoar de maneira desimpedida.

Outro problema em relação a água é a contaminação das fontes e dos cursos naturais de águas.  As cidades, em geral, não cuidam de maneira apropriada, deixando que agentes químicos e orgânicos contaminantes poluam e encham de sujeira toda a água que chega disponível para a população.

Nesse mesmo âmbito, e de maneira recorrente, a falta de destinação adequada para a água usada em casas e indústrias, faz com que elas sejam despejadas em esgotos que, por sua vez, voltam aos córregos realimentando o clico de contaminação.

Quando a isso, de maneira simples, a melhor forma de minimizar os problemas com a água nas grandes cidades é reutilizar e reciclar o máximo possível, evitar desperdícios e cuidar das condições de saneamento.

Assim concluímos:

Fomos criados por Deus com amor e graça para viver nesse mundo.  Tudo o que precisamos para ter uma vida saudável e digna ele aqui nos entregou – bem como para deixar para as futuras gerações.  Mas também Deus nos colocou para administrar os recursos que ele nos confiou. 

A vida em sociedade, nos modelos urbanos que temos adotado, tem esgotados os recursos naturais e degradado o mundo belo que Deus criou.  Isso é ofensa e pecado contra o Criador e algo que avilta o ser humano.

Os nossos compromissos cristãos nos impõem a viver e trabalhar pela obra criada por Deus e a nós confiada em compromisso de administrá-lo de modo a poder sempre ver essa terra como um lugar bom – assim como o Criador o viu no sexto dia da criação (Gn 1:31).

 

(A partir de reflexão na Revista DIDASKALIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Bioética Cristã

 

econtato: 79 98874-2129 ou contato@setebase.com.br

Nesta videoaula sobre Bioética Cristã, são abordados os principais desafios éticos da atualidade à luz dos princípios cristãos e da cosmovisão bíblica. A aula é direcionada a compreender como a fé cristã orienta decisões em questões complexas relacionadas à vida, saúde e dignidade humana.

 

Para ter acesso ao nosso curso completo acesse: Hotmart/SETEBASE  

Mais informações: entre em contato: (79) 9 8874-2129 ou contato@setebase.com.br


terça-feira, 31 de março de 2026

OS PECADOS DE SODOMA – história das palavras

 


O Português incorporou ao seu vocabulário a palavra sodomia que, em geral, aponta para uma conotação sexual, porém sem uma definição muito precisa.

Para entender bem o seu significado, é interessante acompanhar como essa palavra foi formada e como ela chegou até os dias de hoje.

 

A origem é diretamente associada à cidade de Sodoma e o episódio de sua destruição pelo Altíssimo por conta de seu pecado (já analisei as palavras com que a Bíblia se refere a esse pecado – link).

 

Agora é importante partir daí e olhar para como essa palavra e esse conceito caminhou na história e como ela nos chegou.  Isso vai ajudar a entender o seu significado.

Vamos lá:

 

→ O livro deuterocanônico de Sabedoria de Salomão (Sb 19.13-14), escrito grego do século I a.C., faz uma referência aos pecados de Sodoma, e seu castigo, como sendo a falta de hospitalidade (mas aqui a palavra sodomia não aprece no original – fala-se em pecadores: ἀμαρτωλοῖς).

 

→ Durante o século VI, o Império Romano do Oriente estava sofrendo uma serie de catástrofes naturais.  Então o imperador cristão bizantino Justiniano (482-565) estabeleceu uma lei punindo quem pecava contra a natureza, e contra quem jurasse e blasfemasse contra Deus de outras maneiras, tomando como exemplo a história das cidades de Sodoma e Gomorra.  Aqui ele incluiu uma conotação sexual aos pecados praticados pelos bizantinos.

 

→ São Pedro Damião (1007-1072), no “Livro de Gomorra” (em latim: Liber Gomorrhianus), denunciou os vícios do clero, incluindo os de natureza sexual.  Ele chamou de pecados de Sodoma (em latim: peccatum Sodomiticum) toda e qualquer atividade sexual que não tenha por objetivo a procriação, inclusive entre casais casados.  Importante lembrar que a Teologia Cristã medieval tratava o sexo como um “mal necessário”.

 

→ Por outro lado, o Mishneh Torah, um texto do Judaísmo Ortodoxo medieval (1170) afirma que "visto que a esposa de um homem é permitida para ele, ele pode agir com ela de qualquer maneira que desejar.  Ele pode ter relações com ela sempre que quiser e beijar qualquer órgão do corpo dela, e pode ter relações com ela de forma natural ou não natural [tradicionalmente, 'não natural' refere-se ao sexo anal e oral], desde que não desperdice sêmen sem propósito”.  (Aqui não há referência alguma ao termo sodomia).

 

→ São Tomás de Aquino (1225-1274), comentando Gn 1.28 que ordena a crescer e multiplicar, entende que o sexo sem esse objetivo é “não natural”, pois resultado das inclinações humanas e culturais sob a influência do pecado.

 

→ O primeiro registro do termo sodomia (em inglês arcaico: sodomie) aparece na Chronicle of Robert of Gloucester, datada de aproximadamente 1325.  Ele se refere à prática de sexo que chamou de “não natural”, ou seja, sem a intenção de gerar filhos, especialmente o sexo anal, independente de quem os pratique.

 

→ A perseguição pela Inquisição europeia aos cátaros e bogomilos no século XII insistiu na associação entre o termo sodomia e heresia, luxuria e bruxaria e satanismo.

 

→ Em 1533 o rei Henrique VIII promulgou o “Ato de Sodomia” (em inglês: Buggery Act) que previa pena de enforcamento para práticas sexuais como anal, oral, masturbação e bestialidade.

 

→ Em Portugal a primeira referência à sodomia se encontra nas Ordenações Afonsinas do século XIII, sendo julgadas pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição a partir de 1536.

 

→ Nos círculos acadêmicos e jurídicos brasileiros atuais, o uso do termo sodomia é desaconselhado por ser considerado impreciso e anacrônico.


Para ver mais sobre OS PECADOS DE SODOMA, acesse os links do Escrevinhando:
Palavras Bíblicaslink
Leitura Bíblicalink

 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

E 2025 JÁ ESTÁ INDO

 


 

Na primeira postagem de 2025 aqui no Escrevinhando eu escrevi: JÁ É 2025 (está neste link).  E com certa admiração matemática constatei que nesse ano o longínquo ano 2000 distava a mesma lonjura (ou proximidade como queira perceber) de 2050!

 

Ali eu refleti sobre essa marca irresistível do tempo, e escrevi:

 

O tempo insiste em ter essa característica:  independente de nossa vontade ou expectativa, ele continua passando.  Mais lento ou mais rápido. Com tédio ou adrenalina.  Trazendo boas ou más lembranças.  O tempo continua implacável e passando.

 

Mas agora, nessa última postagem de 2025 – já beirando mais um novo ano – volto a deixar escorrer as ideias e tentar pescar o que vem daí.

 

Veja: o Brasil (acho que o mundo também) continua polarizado – o que não é bom para ninguém!  Mas ainda permaneço no fundamento e, radical mesmo, só sou em ser servo de Cristo (insisto na palavra servo).  E isso basta.

Também: a igreja segue triunfante e perseguida (aqui e ali). Sinal que o Apocalipse já está em andamento e os sons da eternidade estão a ecoar (como o fazem há 20 séculos). E eu somente declarando minha adoração ao Único que é Digno.

(Por falar nisso: tenho um livro comentando o Apocalipse nessa perspectiva – recomendo a leitura. Para achá-lo, clique no link.)

Sobre Ciências e tecnologias não vou nem comentar.  Rapidamente ficaria obsoleto.  A humanidade continua criativa e o capital insiste em inventar soluções para problemas que eu nem sabia que tinha.  E talvez outros humanos também não.

 

E 2025 já está indo...
Continuamos correndo — prá onde?
Agenda cheia — de quê?
Muito barulho — o que se canta?
Brilhos intensos — algo a ver?
Relações intensas — efêmeras?
Ansiedade à flor da pele — e o que somamos?

 

Além do mais, a essa altura, começamos a perder a ilusão da eternidade.

 

Então, daqui a pouco vai amanhecer o ano novo, e a ampulheta continuará seu sucessivo derrame de areia: inflexível e constante.

Assim, antes que o último grão escoe, preciso apurar meus ouvidos para me deixar ser tomado pelas palavras daquele que desde sempre está assentado sobre o trono. Pois é dele que vem a reconfortante promessa:

 

"Eis que faço novas todas as coisas." (Ap 21:5)

 

 

Aproveitando, aí vai uma relação de postagens aqui no Escrevinhando sobre passagens de ano:

 

Já é 2025link
Ele faz nova todas as coisaslink
E o fim do mundo?link
Um Salmo fúnebre para 2021 – link
Esse anolink
Apenas hojelink
A primeira segunda de 2014link
Não por enquantolink

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

NIETZSCHE E O SER HUMANO

 


O primeiro livro de Nietzsche que tive acesso para ler foi “Assim falava Zaratustra”, ainda na década de 1980.  E, de lá, recolhi uma das melhores definições do ser humano fora da tradição cristã.

 

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-Homem: uma corda sobre o abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.

O grande do homem é ele ser uma ponte e não uma meta; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Só para citar:

O prussiano FW Nietzsche (1844-1900) talvez seja o nome que maior rejeição tem recebido entre cristãos conservadores.  Seus pensamentos radicais, sua filosofia quase anárquica e suas críticas contumazes à sociedade europeia que conheceu no século XIX fez dele um dos mais relevantes pensadores da modernidade.

Sobre o livro citado, o título em alemão é “Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen”.  Ele foi escrito entre os anos de 1883 e 1885 e segue as publicações do autor apresentando os temas principais de seu pensamento: a crítica da sociedade científica de seu tempo, o niilismo, a vontade de potência, a recorrência eterna (ciclo infinito da vida), e o além-do-homem.

E, sem pretender ser advogado do pensamento nietzschiano, quero apenas refletir sobre quem é o ser humano a partir da citação – como disse: uma das melhores definições do ser humano fora da tradição cristã.

É certo que qualquer definição que se proponha cientifica do ser humano é, no mínimo, imprecisa: a começar pela pretensa objetivação do método cientifico.  — Como posso ser objetivo em relação a mim mesmo?

Nietzsche fugiu dessa cilada.  Os rigores científicos tão em voga em sua época nunca foram seus métodos, nem lhe forneceram contornos.  Assim como ele criticou as pretensões na religião institucionalizada que conheceu no século XIX, ele igualmente criticou as ciências como expressão isenta da realidade (ele considerava apenas mais um dogma substituindo a religião!).

Assim, o filósofo abandonou a objetividade e buscou olhar o humano como um ser em passagem, em travessia, nunca um ser pronto, acabado.  Dessa forma, em constantes contradições e incoerências.

Nós humanos já não mais somos ordenados apenas pela nossa biologia (não mais um animal).  Uma marca indiscutível da humanidade é nossa capacidade de não se limitar aos instintos, aos domínios da natureza pura – para o bem e para o mal.  O nosso corpo físico nunca é nossa definição e limite.

Por outro lado, ainda não alcançamos a totalização de nossa competência (nem no século XIX quando Nietzsche escreveu, nem ainda nesse século XXI).  Esse potencial humano foi o que ele chamou em alemão de Übermensch, literalmente "além-do-homem", normalmente traduzido como "super-homem”.  O desenvolvimento dos seus próprios valores e autonomias, sem as amarras das instituições religiosas ou da moral científica.

Então, como continuamos apenas uma corda, um projeto, uma possibilidade; perigosa transição e travessia sobre a qual temos que trafegar nessa vida.

Ora, sem mais poder se apegar ao ponto de partida animal, nem ter completado todo o projeto, resta ao seu humano, na perspectiva nietzschiana, a possibilidade do vazio – do nada – do niilismo.

E aqui eu proponho o contraponto da poesia bíblica:

 

SALMO 8

 

Javé, nosso Senhor,
como é nobre o teu nome sobre a terra toda!
Tu que puseste tua imponência acima dos céus.

 

A partir de bocas infantis e daquelas que ainda amamentam
comandaste a força,
Para que teus cruéis inimigos fiquem em silêncio.

 

Enquanto me encanto com o firmamento, arte dos teus dedos,
a lua e a estrelas que desenhaste,

eu me questiono: que há na humanidade
para que possas lhe dar atenção?
E em um indivíduo para que te importes?

 

Porém a verdade é que os fizeste apenas pouco aquém da divindade,
e de glória e honra os adornaste.

 

Tu lhes atribuíste poder régio sobre o trabalho de tuas mãos,
calcando tudo aos seus pés:

 

Para demandarem sobre todo gado miúdo e graúdo,
bem com sobre todas as bestas dos campos,

 

Sobre as aves nos ares,
sobre os peixes nas águas e sobre toda vida que ali desliza.

 

Javé, nosso Senhor,
como é nobre o teu nome sobre a terra toda!

 

(Na imagem lá em cima: Retrato de Nietzsche por Edvard Munch, 1906, na Galeria Thielska, Estocolmo)

  

terça-feira, 14 de outubro de 2025

A ÉTICA E A CONDUTA

 


Segundo o Dicionário Aurélio, ética é “o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”.

Por essa compreensão, sabemos que a ética busca estabelecer critérios de conduta que sejam aceitáveis do ponto de vista da moral pessoal e social.  Ou seja, é o conjunto de atitudes que se apresentam como corretas nas relações humanas.

Nesse sentido, o estudo da ética procura oferecer respostas a questões como: o que é certo ou errado?  Bom ou mal? O que fazer em determinadas circunstâncias?  Como tomar decisões?  Qual a conduta adequada?

Assim, quando tratamos de conduta e comportamento ético, precisamos compreender que os padrões de atitudes podem ser distendidos em ética pessoal e ética social. 

Por ética pessoal entendemos o conjunto de condutas que implicam em ações no âmbito de casa pessoa.  As decisões que se originam no individuo, seus deveres pessoais e seus comportamentos morais.

Por ética social tratamos do conjunto de normas e princípios que regem a sociedade, a moralidade pública, os costumes e convenções que buscam o bem-estar social.

Em ambos os casos, a ética e conduta são sempre definidos pelo conjunto das sociedades e buscando estabelecer valores que possam ser compreendidos e compartilhados por todos os seus membros, e nunca pela vontade de um único sujeito.  Nas palavras de C.S. Lewis: “a coisa mais perigosa que podemos fazer é tomar um impulso de nossa natureza com o critério a ser seguido custe o que custar”.

(Da Revista DIDASKAIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

SEXTOU – prá casa!

 


Um Congresso Teológico me levou às Minas Gerais na semana passada.  Então chegou a sexta-feira e era momento de voltar para Aracaju – para casa.

 

Vamos à narrativa: sextou – prá casa!

 

Com o fim da programação na noite anterior, ficamos uns poucos para o último sono.  Boas conversas, bons momentos, restinho de fraternidade.

 

Amanheceu e, antes das seis, uma sinfonia canora me acordou (ah! não entendo de pássaros logo, não os identifiquei – sei que eram distintos!).

E não penso que o Criador os colocou ali somente por minha causa – não tenho essa pretensão.

Mas eles me despertaram e pude começar bem antes do burburinho.  É sempre salutar, antes das liturgias e das agendas, deixar a alma vibrar limpa na frequência do Eterno.

 

Descemos para um derradeiro café matinal mineiro: uma fruta, pão com ovo, um pedaço de bolo, biscoito e café quentinho feito na hora.   Simples, mas digno de um príncipe, pois foi feito na nossa intenção.  E vale mais que gastronomia gourmet.   

Deus abençoe as mãos que prepararam.

 

Pegamos a estrada em direção ao aeroporto.  O dia prometia!

 

Antes que esqueça: o Gerson foi comigo.  Além dos laços de sangue e de profissão, sempre enriquece tê-lo junto no caminho.

 

— Sim.  Em direção ao aeroporto.

 

Talvez até desse para antecipar o voo para fazer sem escalas.   Não deu.   Com as passagens marcadas, a previsão seria o dia todo aqui e ali até chegar em casa.   Assim fomos.

 

Sentamos juntos.  A conversa animada – nada de técnico ou específico: apenas fagulhas de lembranças comuns, observações pontuais dos transeuntes, uma ou outra citação e o mais...

Mas, aos poucos, as palavras vão se escasseando e os temas esparsos.  Então o silêncio chega.  Só que isso não é um problema.  Jamais.

 

Na verdade, não vou lhe definir do que se trata.

— Para certas coisas faltam palavras!

Certamente não seria obrigação, nem networking (assim em inglês fica mais ridículo ainda).

Era só a presença.  Era apenas saber que em qualquer aeroporto ou entroncamento da vida, não estávamos sós.  Estivemos ali.  Não eu e tu: nós.

E consegui me ver pensando que o Eterno se sentou na cadeira da frente, no saguão dos Confins, em silêncio, apenas como se quisesse dizer que ELE, mesmo sendo, gosta de estar.

 

Levantamos para comer, a conversa voltou a jorrar como uma fonte de renovo – ou filete da água.  Não havia secado.  Apenas guardada como tesouro que valia a pena usar no tempo certo para o próprio silêncio se revestir de preciosidade.

Nada de importante: a escolha do prato, uma ou outra citação, um diz aí...

Comemos juntos.

 

— Certas coisas têm preço.  Compartilhar uma fatia de pizza numa mesa de aeroporto tem vida e história.

 

Mais um trecho aéreo e já caia a noite quando, em Aracaju, meu filho nos apanhou na porta do aeroporto.

 

Assim: sextou – prá casa!

 

E agora o fim de semana promete.

 

terça-feira, 27 de maio de 2025

A CATEDRAL

 


Um dia desses a minha tia me mandou um vídeo sobre como a arquitetura dos templos atuais tem se parecido com shoppings centers.  Gostei.  E, de saída, muitas linhas de pensamento começaram a se emaranhar.

Mas, antes, deixe-me dar os devidos créditos.  Fui procurar e achei, nas redes sociais, a postagem da Mariane Santana (@marianecsantana) de 25/04 na qual ela se refere à "arquitetura religiosa na sociedade do desempenho".

Puxei um fio de pensamento e, a partir dele, segui desenvolvendo de um ponto a outro, de uma ideia a outra, de um conceito a outro.

 

Historicamente o nosso Cristianismo sempre se mostrou aberto a dialogar com a sociedade e o mundo ao seu redor.  Aprendeu com o Mestre Jesus!  E esse diálogo tanto lhe trouxe benefícios como prejuízos – a questão não seria essa. 

Paulo, no NT, chegou a Atenas e se propôs a falar do "Deus desconhecido" (confira At 17:23).

Daí, chegando ao filosófico mundo helênico, os pais da igreja produziram boas reflexões.

No oriente, a fé cristã se revestiu de sua mística própria.

Durante o medievo europeu, o estudo ficou confinado aos mosteiros enquanto o populacho laico deu vez e voz ao sincretismo de fetiche.

Já quando o iluminismo varreu as ideias do velho continente, pensadores protestantes enriqueceram o colóquio com suas ponderações.

E por aí se foi...

 

Aqui o fio me trouxe de volta ao tema original: esses templos de hoje travestidos de shoppings e que são projetados "para facilitar o fluxo de capital".

É o diálogo cristão com a sociedade na sua pior versão.

Se Mamom é o deus dessa era capitalista em que o ganho e acúmulo requer para si a primazia da adoração, uma igreja que se submete à sua doutrina não pode estar servindo ao Deus cristão (essa é a lógica explícita de Jesus em Mt 6:24 / Lc 16:13).

Ou se adora ao Deus da cruz ou se adora ao deus do shopping.  Ou se busca o Reino de Deus ou se busca capital.  Os dois não são servidos juntos.

 

Então o fio me levou mais adiante (ou lá para traz).  E lembrei como me senti impactado quando tive a oportunidade de conhecer a Catedral de Colônia (isso já vão mais de vinte anos).  Confesso: sua arquitetura, como arte cristã, mexeu comigo.

 

Parêntese 1.  Já escrevi sobre o que é arte.  Está aqui no Escrevinhando (link).

Parêntese 2.  Sei que tenho uma foto minha lá na Catedral, mas por hora não achei, então resolvi ilustrar com uma imagem que colhi no pixabay.com.

 

Voltando à Catedral.

Sobre os detalhes históricos e de arquitetura não vejo necessidade de apontar.  Não tenho a técnica necessária e sei que na Internet estão disponíveis as informações.

 

Aquela Catedral gótica atraiu-me ao espírito de mistério e transcendência (e aqui sim transito em chão conhecido). 

O culto é "um momento cristão de celebração festiva, e também de reflexão, contrição e dedicação, porém, principalmente, um momento de encontro com Cristo" (do livro “DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão”).

E a arquitetura de nossos templos deve representar o solo sagrado – ainda que nosso Deus não habite em "templos feitos por mãos de homens" (citado por Estêvão em At 7:48 e repetido por Paulo em At 17:24).

A Catedral cristã com seu pé direito amplo, seus vitrais coloridos, suas sombras desfocadas, sua torre apontando para o alto apresentou-se a mim como um convite ao silêncio respeitoso e à reverência solene diante do Deus Altíssimo que se revela graciosamente ao ser humano em sua pequenez insignificante.

Ali eu fui atraído à adoração humilde ao que nos convida a receber de sua graça "sem dinheiro e sem preço" (leio assim em Is 55:1).

E parece até que daria para ouvir um Oratório de Bach ao fundo (para mim: a trilha sonora perfeita para contrição e adoração).

 

Parêntese final.  O livro DE ADÃOATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão está disponível no Amazonlink).