sexta-feira, 20 de setembro de 2019

DE ESCRAVO A IRMÃO CARÍSSIMO – Lendo a Epístola a Filemon


Eis o objetivo principal da Epístola a Filemon: o problema entre o rico Filemon e escravo Onésimo, ambos cristãos. 
Depois de introduzir apresentando-se como prisioneiro de Cristo Jesus e uma palavra de ações de graças pela fé e amor do destinatário, Paulo chega finalmente ao âmago da questão, e o faz de maneira enfática – mesmo não se utilizando de sua autoridade apostólica para ordenar – servindo-se apenas de paralelismo e jogo de palavras riquíssimos.
Vamos trabalhar um pouco com elas – as palavras.
Para provar que realmente houve uma mudança, Paulo joga com o significado do nome Onésimo (Ὀνήσιμος – literalmente: aquele que dá lucro – v. 11).  Ele, que tinha sido inútil (ἄχρηστος), agora, após o contato com o evangelho, tornou-se útil (εὔχρηστος), ou seja, apto para exercer as funções que lhe fossem atribuídas.
Mas a principal diferença entre o antes e o depois do evangelho está em como este serviço seria prestado: antes ele era escravo (δοῦλος – v. 16) mas agora seu trabalho consistia num serviço voluntário (διακονέω – v. 13 – aqui na forma verbal: servir), serviço este que é a base das relações cristãs, e que exige reciprocidade.
Tudo indica que Paulo tinha em mente fazer com Onésimo o que era feito com os libertos da sociedade romana.  Ainda que esta libertação fosse inter amicus, ou seja, sem a intermediação jurídica, o que o apóstolo queria era habilitá-lo a trabalhar como sócio de Filemon – situação prevista na lei romanos acerca dos escravos.  
A Vulgata Latina ajuda a entender este ponto de vista ao se referir ao serviço de Onésimo (v. 13) como ministreret pois era o que se esperava de um carissimum fratum ... et in carne et in Domino (veja o v. 16).  E aqui há indicação segura da lei romana de que a libertação e alforria legal de um escravo consistia inclusive em considerá-lo com sendo igual ao seu senhor perante a sociedade.
Há um outro ponto de vista importante a ser observado: a origem judaica de Paulo.  Ele certamente conhecia os preceitos bíblicos de que um escravo, ao ser liberto deveria lhe ser concedido sustento para o ajudar a começar a viver em liberdade (leia Dt 15:12-14).
Então Paulo apela para que a dívida de Onésimo fosse colocada na sua conta, e também pede para que este seja aceito e que uma dívida de Filemon para com Paulo fosse creditada a Onésimo.  É provável que daí saísse os proventos necessários para começar vida nova.
Sem dúvida, porém, tudo leva a crer que o apóstolo estava indicando uma aplicação direta e prática de Gl 3:28 onde fala na igualdade de todos dentro da comunidade cristã, logo não deve haver nem escravos nem livres (οὐκ ἔνι δοῦλος οὐδὲ ἐλεύθερος – observe que esta última palavra está ausente da Epístola a Filemon).  Isso tudo, contudo, baseado na suprema lei do amor.
Os números da época nos informam que no primeiro século – quando Paulo escreveu a Filemon – havia no Império Romano cerca de 70 milhões de escravos, e esta enorme quantidade de homens, mulheres e crianças à margem das oportunidades do processo social era, sem dúvida, um contingente expressivo capaz de, por uma revolução sangrenta, derrubar o império se houvesse quem os liderasse. 
Na visão cristã paulina, contudo, isso não resolveria o problema das desigualdades sociais: apenas mudaria de foco.  O apóstolo tinha a certeza de que somente um ser humano novo, influenciando a sua comunidade pode produzir relacionamentos inter-humanos novos e assim construir toda uma nova sociedade.  Ou seja, a solução só chegaria através da força revolucionária do amor cristão: através de homens e mulheres que encarnassem o amor a partir de suas comunidades.
Assim é que, lendo a Epístola a Filemon, ela desponta como um desafio emergente para a igreja de Cristo.  A igreja precisa descobrir onde ainda imperam as desigualdades entre os seres humanos para ali injetar uma dose de amor cristão.  Onde há escravos que precisam ser alcançados e transformados em irmãos caríssimos.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

DE LAS CASAS E AS VOZES DISCORDANTES LATINO-AMERICANAS


As relações entre a Igreja e o Estado, com a chegada dos cristãos ibéricos à América Latina no século XVI, embora se mostrassem hegemônicas e legitimadas por ambos os lados – Estado e Igreja – não eram unanimidades.  Diversas vozes discordantes se fizeram soar no Novo Mundo, procurando estabelecer novas relações onde os valores cristãos não estivesses submissos aos ditames monárquicos nem as ações dos reis carentes de aprovação eclesiástica.
Como no Brasil a efetiva ocupação por parte dos colonizadores portugueses só veio acontecer bem depois, então, consequentemente, as vozes levantadas por aqui só começaram a aparecer também depois.  Os primeiros a se destacarem são os nomes do padre jesuíta Antônio Vieira que nas suas pregações advogava a defesa dos índios contra a exploração dos portugueses.  O outro nome entre os brasileiros é o do poeta barroco baiano Gregório de Matos Guerra que como sua poesia criticou toda a sociedade contemporânea, inclusive os prelados que, segundo o poeta, estavam envolvida em escândalos incontáveis.
Assim, as únicas vozes discordantes ouvidas no século XVI na América Latina são dos padres espanhóis e o principal nome entre eles certamente é o de Bartolomeu de las Casas. 
De las Casas nasceu Sevilha / Espanha em 1484 e veio para a América em 1502 como encomendeiro junto com a segunda viagem de Cristóvão Colombo. 
Em 1507 tornou-se sacerdote dominicano e em 1511, ouvindo um sermão pregado pelo Frei António de Montesinos, no qual defendia a dignidade dos indígenas, De las Casas se sentiu profundamente impactado e, a partir daí, passou a defender os direitos dos índios. 
Entre os principais textos do dominicano, dois destaques: (1) Brevísima Relación de la Destruición de las Indias Ocidentales (publicado em 1542) que ele dedicou ao príncipe Felipe II de España e no qual ele denuncia os maus-tratos e atrocidades cometidas contra os povos indígenas das Américas nos tempos coloniais; e (2) Historia de las Indias (que começou a escrever em 1527 e se ocupou dela nos 35 anos seguintes).
Bartolomeu de las Casas chegou a ocupar o bispado de Chiapas, no México em 1544, de onde ele pregou a sua nova mensagem e tentou convencer as autoridades espanholas de que a exploração dos nativos era contrária aos ensinos cristãos defendidos pelos católicos.  Mas ele não logrou êxito em seu intento de convencer nem as autoridades políticas nem eclesiásticas.
Devido a perseguições, De las Casas precisou voltar a Espanha em 1547 onde tentou continuar sua missão, e acabou falecendo em 1566 sendo posteriormente conhecido como o primeiro sacerdote das Américas e o Apóstolo dos Índios e como o Procurador e Protetor Universal de Todos os Índios.
Uma citação pode enriquecer nossa compreensão destas vozes discordantes latino-americanas.  As palavras a seguir dão de uma pregação feita por António de Montesinos no quarto domingo do Advento de 1521, aqui na versão narrada pelo próprio Bartolomeu de las Casas:

Todos estais em pecado mortal e neles viveis e morreis, pela crueldade e tirania que usais com esta gente inocente.  Dizei: com que direito e com que justiça tendes estes índios em servidão tão cruel e horrível?  Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam  em suas terras mansas e pacíficas, em que haveis consumido tantas delas com morte e estragos nunca ouvidos?  Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhe de comer nem curá-los em suas enfermidades, que dos excessivos trabalhos, com que os carregais morrem, ou melhor, vós os matais, para tirar e adquirir mais ouro cada dia?  Que cuidado tendes de quem os doutrine e conheçam a seu Deus e criador, sejam batizados, ouçam missa, guardem as festas e domingos?  Eles não são homens?  Não têm almas racionais?  Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos?  Não entendeis isso?  Não sentis?  Como estais adormecidos de um sonho tão letárgico?  Tendes por certo, que no estado que estais não podeis vos salvar mais que os mouros ou os turcos que precisam e não querem a fé em Jesus Cristo.

(Na imagem lá em cima, Frei Bartolomeu de las Casas retratado pelo pintor mexicano Félix Parra em 1875 - fonte: wikipedia.com)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Doenças da Alma – ANEMIA


Há ainda uma doença da alma que deve requerer toda a nossa atenção e cuidado: a anemia.  E em nosso caso, tal cuidado e atenção é mais que justificável, uma vez que é um mal relacionado ao sangue – e não tem desvincular o sangue de nossa vida e fé!
Mas eu volto já ao sangue.  Por ora é preciso dar a palavra aos especialistas para que entendamos melhor do que se trata a anemia. 
De acordo com o Hemocentro da Unicamp, o termo anemia indica qualquer doença em que há uma redução da massa (ou quantidade) total de glóbulos vermelhos em um indivíduo.
E aqui está a maior problemática da anemia, como os glóbulos vermelhos são responsáveis pelo transporte do oxigênio para os tecidos, esta redução leva a uma menor liberação de oxigênio para todos os órgãos.
Em resumo: quando falta sangue – ou qualidade a ele – a vida corre risco.  E isso pode acontecer de tal maneira lenta ao longo da vida, que nem sentimos que já estamos morrendo, tentando se adaptar à vida rala, fraca e pobre de nutrientes e oxigênio.
Então, voltemos ao sangue.  No Livro da Lei nós lemos claramente que a vida da carne está no sangue (em Lv 17:11).  Só que com a Nova Aliança feita no Calvário, o sangue passou a ter para nós uma dimensão espiritual bem mais significativa.  Assim, a anemia da alma é muito mais grave e traz prejuízos mais danosos que a carência de glóbulos no sangue que irriga a carne.
É o sangue do Calvário que unicamente nos outorga vida.  Fomos perdoados, resgatados, remidos, salvos pelo sangue do Cordeiro pascal.  E se acha que é exagero, lembre o que diz a visão do Apocalipse: Bem-aventurados todos os que lavam as suas roupas no sangue do Cordeiro, e assim ganham o direito à árvore da vida, e podem adentrar na Cidade através de seus portais (Ap 22:14).
Na linguagem simbólica da profecia está a afirmação de que somente pelo sangue do Cordeiro é que poderemos adentrar nos portais eternos.
Agora, note a terrível complicação que é quando um cristão passa a ter anemia espiritual e já não lhe corre nas veias espirituais o sangue do Cordeiro na quantidade ou na forma adequada!
É claro que não vou questionar aqui a qualidade do sangue que recebemos diretamente da fonte sagrada, mas quando nossa dieta alimentar espiritual não está adequada ou há ferimentos em nossa alma que estão deixando o precioso sangue escorrer, então toda a nossa vida espiritual está correndo sérios riscos.
Que fazer então? É o próprio Jesus que dá a indicação ao se oferecer única e eternamente por nós: quem beber o meu sangue tem a vida eterna (Jo 6:54).  Para ter saúde e vida espiritual é preciso vencer a anemia da alma.  E no memorial da Ceia do Senhor relembramos e celebramos a transfusão espiritual que recebemos como resultado da graça infinita.
Bebem dele todos vocês.  Isso é o meu sangue da aliança (Mt 25:26-27).
Vou insistir no sentido memorial e simbólico da Ceia – assim como já fiz com o Apocalipse.  A vida não está no vinho, nem há sacralidade nele que me cure da anemia da alma.  Mas ele atiça meu senso espiritual de dependência daquele que me comprou pelo preço de seu sangue (devo citar aqui Ap 5:9).
Sem o sangue do Cordeiro correndo em minhas veias espirituais o que me resta é anemia e falta de oxigenação e nutrientes em todos os órgãos e tecidos que compõem minha vida espiritual.  E aos poucos vou até me acostumando a essa vida espiritual raquítica – mas realmente vou definhando até que já não reste mais vida em mim.
Mas o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado (palavras de 1Jo 1:7).  É esta purificação – transfusão – que eu celebro solene e alegremente na Ceia que me garante saúde e vida espiritual nutrida e saudável.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

TRADUZINDO MEU NOME


Aproveitei um restinho de tempo de folga para desafiar o Google com o meu nome próprio. Como seria ele escrito com alfabetos diferentes? A bem da verdade, achei algumas coisas bem interessantes. Mas antes de compartilhar estas curiosidades, deixe-me esclarecer um pouco sobre o meu nome em si e sobre a pesquisa:

Antes – não é muito certo, nem comum, traduzir o nome próprio – o chamado prenome. Essa foi a barreira inicial da pesquisa. Então resolvi fazer duas pesquisas em paralelo: uma com a pronúncia que reconheço e outra com o significado do nome.
Primeiro – o meu nome é de origem hebraica. Jabes significa seco. Foi esse significado que usei em minha pesquisa. Na Bíblia, além do uso comum indicando um lugar sem água, aparece também com uma referência a lugares – como no caso de Jabes-Gileade (em Jz 21:8) – ou a pessoas – como o pai do rei Salum (em 2Rs 15:13).
Segundo – o sobrenome de família Nogueira tem sua origem lá em Portugal. A primeira citação documentada é de D. Mendo Paes Nogueira, sobrinho de D. Mendo Nogueira, cavaleiro da Ordem do Templo, em 1089. Há ainda uma referência em 1258 a uma “Igreja de São João de Nogueira” entre as igrejas do bispado de Tui situadas no território de Entre Lima e Minho, também em Portugal. No Brasil, a primeira citação é a um tal de José Brás Nogueira que chegou de Portugal no século XVII e se tornou bandeirante na região da atual Bragança – Estado de São Paulo. Como Nogueira é uma árvore que tem como fruto a noz, trabalhei com esse significado também.
TerceiroFilho aparece em minha certidão de nascimento apenas para distinguir o meu nome do de meu pai. Sendo assim, eu trabalhei com esse significado na pesquisa, mas abandonei a expressão quanto a pronúncia.
Ainda – seguindo a tabela do Alfabeto Fonético Internacional (AFI), meu nome deveria ser falado assim: [ʒɑbes noˈɣejɾa̝]. Mas como sei que meu sotaque nordestino (frise-se: gostoso sotaque!) é peculiar, então reconheço que a pronúncia ficou um pouco a desejar no Google, mas fiz o melhor, explorando o Translate, e aproveitei para ouvir aquela voz mecânica do aplicativo tentando falar meu nome nestas línguas diferentes – foi divertido!
E mais – como não sou especialistas nestas línguas, se ocorrerem erros por aí, peço que corrijam.

Vamos lá

Grego – Ελληνικά
Pronúncia –
Ιάβης Νογήιρα
Significado –
Ξηρός Καρυδιάς Υιός
Cirílico (russo) – Кириллица (русский)
Pronúncia –
Жабес Ногейра
Significado –
Сухой Грецкий Сын
Hebraico – עברית
Pronúncia –
יבש נגיר
Significado –
בן־יבש אגוז
Japonês – 日本語
Pronúncia –
ジャベス ノゲイラ
Significado –
ドライ くるみ 息子
Coreano – 한국어
Pronúncia –
야베스 노게이라
Significado –
건조 호두 아들
Árabe – لعربية
Pronún
cia – جــبــش نــغــرـا
Significado –
جاف الجوز ابن



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A PRIMEIRA PEDRA




A pedra é uma coisa bastante citada nas páginas bíblicas. Tanto de maneira literal como figurada. Tanto se referindo a pequenos pedregulhos como a grandes rochas. Eu mesmo já comentei e refleti algumas vezes sobre esta coisa.
Gostaria hoje de retomar o tema da pedra. Agora no episódio citado em Jo 8:1-11.
Na narrativa, Jesus está assentado na porta do templo ensinando ao povo quando os mestres da lei e os fariseus trazem uma mulher apanhada em pecado e a apresentam a Jesus na intenção de apedrejá-la (tomaram como base Dt 22:20-22).
Pelo entendido da narração, eles já chegaram com as pedras nas mãos prontos para atirarem naquela mulher – ou talvez no próprio Jesus!
Diante da situação, o Mestre se cala e, como os acusadores insistiam, ele dá seguimento ao caso. Então o episódio oferece a oportunidade de refletir sobre as pedras que aqueles homens traziam nas mãos.
Entendo que, pelo menos, três realidades Jesus enxergou nas pedras que demonstraram a verdade por trás do fato.
Em primeiro lugar aquelas pedras demonstravam a falta de compaixão dos fariseus. No verso cinco eles citam a Lei de Moisés, até aí parece certo. Mas os olhos frios da Lei não podem ser usados com o intuito de destruir vidas: não foi esta a intenção divina, a joia preciosa da criação é o ser humano e não a Lei (Jesus insiste nisso em Mc 2:27).
O verso seis observa que havia intenções escusas por trás daquele gesto. As pedras nas mãos indicavam que uma atitude de dissimulação. Agindo assim de modo sorrateiro ele não poderiam atuar como juízes da Lei de Deus – nem sequer comparecer diante de sua face (considere Sl 24:3-4).
E ainda nos versos sete e nove o evangelista atesta que as pedras eram a prova de uma atitude arrogante e presunçosa que já beirava a hipocrisia. Todos tinham pecados, mas, mesmo assim, queriam apedrejar aquela mulher (leia o comentário de Jesus em Lc 6:41-42).
Hoje estamos com as nossas primeiras pedras em nossas mãos: Que elas demonstrarão? Que significado terão? O que Jesus verá? Que faremos com as primeiras pedras?




terça-feira, 3 de setembro de 2019

A BÍBLIA, A PALAVRA DE DEUS


A Bíblia é um livro singular na história da humanidade. Em todo o processo de sua confecção e transmissão ela se mostrou diferente de tudo que foi testemunhado pela humanidade. Mas, deixe-me colocar algo mais:

אA Bíblia é a Palavra de Deus, então todo e qualquer estudo que se faça a respeito dela, tem que ser feita sob a orientação divina. Portanto, a cada novo estudo procure buscar conhecer o que o Espírito Santo tem a dizer sobre o texto bíblico que está sendo destacado. Mesmo que o estudo pareça não trazer muito conteúdo prático, procure, na presença de Deus em oração, aprender cada dia aquilo que o Mestre deseja.
בA Bíblia é um conjunto de livros e assim deve ser compreendida. Embora façamos uma divisão no conjunto para facilitar didaticamente o estudo, não se esqueça que a Bíblia não pode ser dividida: todas as partes se completam e se ajustam perfeitamente entre si para apresentarem a verdade mais completa daquilo que Deus tem para falar.
גA Bíblia é um livro para ser vivenciado. Isto implica que a única maneira realmente eficaz de se adquirir um domínio satisfatório do seu conteúdo é manuseando-o diariamente. Assim, não deixe apenas para o período da aula na Escola Bíblica para ler e estudar a sua Bíblia. Se você realmente quer conhecer a Deus e sua vontade expressa neste livro, tem que todo dia ocupar seu tempo com a Bíblia.
דA Bíblia requer prática no seu manuseio. Isto é um pouco do que foi dito acima. Então observe que saber achar rapidamente todo e qualquer texto nas páginas da Bíblia realmente requer prática, e esta prática exige disciplina e exercício. Ou seja, se ainda não se acha capaz de abrir a Bíblia com facilidade em qualquer lugar, reconhecendo sua linguagem e conteúdo é preciso que esteja habituado a fazer isto, é uma questão de prática.
הA Bíblia fala por si mesma. Embora seja válido consultar outras fontes, nunca se esqueça de que a palavra final sobre qualquer assunto – inclusive sobre a própria Bíblia – será da Palavra de Deus orientada pelo Espírito Santo.
וA Bíblia tem de ser um livro pessoal. Então tome o seu exemplar e use-o da melhor forma possível. Estabeleça metas pessoais em relação a sua leitura; estabeleça também um método pessoal de ler e guardar as informações nela contida; e estabeleça ainda referências pessoais para se identificar com as palavras do Livro. Só nunca se afaste dele.
זA Bíblia é alimento para o cristão. Sem ela o cristão definha e morre espiritualmente. É ela quem nos sustenta e fortalece, ela é a Palavra do nosso amado Senhor que temos em nossas mãos. Não se deve ter vergonha da usá-la em nenhuma circunstância, mas para isto é preciso que ela seja realmente uma espada em nossas mãos e que saibamos manejá-la com destreza.


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Doenças da Alma – VERMINOSES


Um grupo de moléstias entre as mais comum no Brasil ao longo de sua história são as verminoses. E, sem nenhum tipo de preconceito, verme é um problema que atinge a todos, tanto da cidade quanto do campo, tanto crianças quanto adultos, tanto homens quanto mulheres, tanto ricos como pobres. É um mal infelizmente geral e igualitário!
Vamos às definições para entender melhor. A primeira constatação deve ser no sentido de esclarecer que não se trata de uma doença única (por isso o uso do plural). Trata-se de um conjunto de doenças. Daí prevenções, causas, cuidados e tratamentos serem também diferenciados.
Segundo o site do Ministério da Saúde, “verminoses é um grupo de doenças causadas por vermes parasitas que se instalam no organismo. Causadas especialmente pela falta de saneamento básico e hábitos de higiene, os vermes geralmente se alojam nos intestinos, mas podem abrigar-se também em órgãos, como o fígado, pulmões e cérebro”.
Outra definição também importante é o conceito de verme – ou parasita. De acordo com o Dicionário Michaelis: “diz-se de ou organismo que vive em outro organismo (hospedeiro), dele retirando seu alimento e geralmente causando-lhe dano”.
Os casos mais comuns de verminoses que atacam o brasileiro são a ascaridíase (mais conhecida como lombrigas), a teníase (ou solitária), a esquistossomose, a oxiuríase e a tricuríase.
Mas essa compreensão é apenas o ponto de partida para uma constatação maior e mais dura. Embora estejamos estudando nessa série sobre doenças da alma que afligem os crentes, muitas vezes de maneira individual e pessoal. Creio que aqui o problema se mostra mais grave e contundente. Há verminoses atacando e infectando a igreja brasileira. É um mal infelizmente geral e igualitário!
Considere comigo. A igreja é um corpo – o apóstolo Paulo disse isso de maneira clara e direta em 1Co 12:27. E como corpo que somos, temos sido atacados por vermes e parasitas que têm trazido danos à igreja como um organismo vivo como um todo.
Eu sei que tudo deve começar com o indivíduo que vem à comunidade cristã para cultuar e comungar. E é para eles que a advertência do Salmo faz sentido:
Quem subirá ao monte do Senhor, ou quem estará no seu lugar santo?
Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente (Sl 24:3-4).
E lembre que verminose está ligada a problemas de limpeza e higiene!
Porém o problema realmente fica mais sério quando levamos nosso olhar para a igreja como um corpo. Ela está contaminada com parasitas.
A igreja vive de maneira contante e inevitável em meio a um mundo terrivelmente contaminado. Foi Jesus quem constatou quando rogou que não nos tirasse desse mundo, apenas que nos livrasse da contaminação dos vermes que habitam nele (na oração descrita em Jo 17:15).
E entendo que a instrução apostólica tem esse contexto quando alerta: Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo (Fl 1:17).
Mas muitas vezes a falta de higiene espiritual e cuidados com a vida santa e o proceder cristão, a frouxidão moral, o desleixo com as pequenas atitudes tem infestado a igreja de parasitas que estão sugando nutrientes indispensáveis à vida saudável do corpo de Cristo e lhe causando danos tremendos.
Penso que as pequenas raposinhas para as quais Ct 2:15 já nos alertava também podem ser observadas aqui. São pequenas atitudes, brechas e vacilos. São pequenas concessões que nunca deveriam ser dadas pelo Corpo de Cristo, mas que nos infectam de vermes e parasitas e vão-lhe destruindo a sua saúde espiritual.
Considere que orgulho, vaidade, murmuração, fofoca, partidarismo, ciúmes (e a lista de obras da carne é grande…), são parasitas que como doenças se instalam na alma da igreja e a destroem.
Porém, contra todo esse tipo de infestação parasita só há uma salvaguarda realmente eficaz, é o próprio Cristo, nosso médico sanitarista supremo quem diz: Vós já estás limpos pela palavra que vos tenho falado; permanecei em mim, e eu permanecerei em vós (Jo 15:3-4).

terça-feira, 27 de agosto de 2019

OS REFORMADORES E O CULTO 4 – O Culto Anglicano

Concordo com Jaci Maraschin quando diz que, ao contrário da reforma protestante na Europa continental, a “Reforma Anglicana foi essencialmente litúrgica”, e mais, a publicação do Livro de Oração Comum – LOC (Book of Common PrayerBCP, em inglês) em 1549 equivaleria ao “aparecimento da obra teológica de Lutero e Calvino”.
O nome que comandou toda a reforma litúrgica nas Ilhas Britânicas foi o Arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer (1533-1555).
Observando esta reforma, é possível constatar que enquanto a reforma continental deixou uma herança teológica fundamental para o protestantismo, a reforma inglesa legou os traços mais indeléveis na tradição litúrgica ocidental.
Na reforma litúrgica proposta por Cranmer, embora se conservasse algo do antigo rito, a doutrina do sacrifício achou expressão como um “sacrifício de louvor e ação de graças” e a oferenda de “nós mesmos, nossas almas e corpos, para ser sacrifício racional, santo e vivo para Deus”.
Quanto ao Livro de Orações Comum, a própria Igreja Anglicana assim o descreve em seu sítio oficial:

Os reformadores ingleses, liderados pelo brilhante bispo Thomas Cranmer, decidiram produzir um livro de culto que integrasse a adoração, unificasse o povo de Deus, restaurasse a simplicidade da oração da igreja primitiva e enfatizasse a dignidade do sacerdócio de todos os membros batizados da Igreja, em vez dos poucos ordenados. Em outras palavras, eles decidiram juntar tudo.

E nas palavras do Pe. Rodson Ricardo, pároco da Igreja Anglicana da Natividade, em Natal / RN:

Este Livro é a alma e o espírito do anglicanismo. É a obra que aglutina e dá unidade a toda à confissão anglicana (…). Isso porque a reforma anglicana foi muito mais litúrgica que dogmática. Os teólogos anglicanos sempre se preocuparam mais em adorar a Deus, com beleza e dignidade, que em definir dogmas sobre ele. A expressão latina “Lex orandi, lex credenti” (“A lei que oro é a lei que creio”) define bem essa característica anglicana.

É ainda importante lembrar que foi na tradição de culto de Cranmer e no LOC/BCP que homens como os irmãos Wesley tiraram inspiração para seu culto.

(Na imagem lá em cima, reprodução da página de título do “Livro de Oração Comum”, de 1549. Fonte: Wikipedia.com)

Leia mais sobre OS REFORMADORES E O CULTO - 

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ALÉM DA VITÓRIA



Todos nesta vida vivem em meio a disputas e situações conflituosas. O fato de sermos servos do Deus Altíssimo não nos livra desta condição. Pelo contrário, Jesus nos preveniu que passaríamos por tribulações (lembre Jo 16:33). Foi em meio a estes embates que Paulo escreveu à igreja em Roma apontando para a vitória (a citação é Rm 8:31-39).
Para o apóstolo a vida do cristão é um risco constante: Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias (Rm 8:36 citando o Sl 44:22). O texto ainda fala em tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada (Rm 8:35). Por tudo isto estamos sujeitos a passar. Não há isenção para os crentes. Todas estas coisas poderiam nos afastar de Deus.
E aqui está o cerne da questão: somos derrotados não quando ou porque passamos por todas estas situações, mas porque nos deixamos levar por elas e nos afastamos de Deus. É a distância do Senhor que propicia os nossos fracassos.
Ainda nos versos 38 e 39 há outra lista a se considerar: morte, vida, anjos, demônios, o presente, o futuro, poderes, altura, profundidade, quaisquer outras coisas – em resumo nada. Sim, nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus. Este é o segredo da vitória. Quando estamos ligados a Cristo Jesus de modo a que nada nos separe dele, aí então podemos vislumbrar a vitória.
E o texto vai além: por estarmos unidos a Cristo somos mais que vencedores (Rm 8:37). Não é apenas uma vitória simples. É além da vitória. Será a conquista completa que nos está reservada, afinal, a morte foi destruída pela vitória (1Co 15:54).
Para a glória dele, vamos além da vitória.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

OS REFORMADORES E O CULTO 3 – Os Anabatistas


O termo anabatista foi cunhado a partir do grego: ἀνά + βαπτίζω – literalmente: batizar de novo (em alemão eles dizem: Wiedertäufer) e estariam incluídos entre os grupos que poderiam ser classificados como a ala mais radical dentre os da Reforma Protestante.
No dia 21 de janeiro de 1525, próximo a Zurique, na Suíça, os anabatistas fundaram sua primeira igreja reconhecida, tendo como base as seguintes afirmações:
(1) nas Escrituras Sagradas, em especial no Novo Testamento, estão toda a autoridade final;
(2) a igreja é uma irmandade formada unicamente de pessoas renascidas;
(3) a essência do cristianismo consiste no discipulado de Cristo; e
(4) a ética do amor rege todas as relações humanas.
Considerando que as práticas anabatistas deixavam às igrejas locais a autonomia necessária para gerir suas vidas individuais e na comunidade, então nem o grupo apresentou um nome de um teólogo reformador que se sobressaísse, nem naturalmente as práticas de culto que foram desenvolvidas pelos diversos grupos de anabatistas apresentavam uniformidade em todas as suas manifestações.
Então, mesmo não havendo um legado de culto unificado que remonte aos anabatistas, contudo, convém destacar que as suas celebrações, em geral, se caracterizavam por:
(a) um forte fervor espiritual;
(b) uma ênfase escatológica;
(c) ausência de ritos sacramentais e
(d) uma hinologia bastante desenvolvida.
Em geral, os grupos dos anabatistas foram bastante perseguidos, tanto por líderes católicos como por protestantes e pouco deixaram de herança para as gerações seguintes, porém sua influência pode ser sentida nos vários movimentos pietistas alemãs e ainda hoje é possível reconhecê-los entre os Menonitas e os Amish norte-americanos.
(Na imagem lá em cima, uma representação do início do século XVII da disputa sobre o batismo de 17 de janeiro de 1525 na prefeitura de Zurique. Fonte: wikipedia.org)

Leia mais sobre OS REFORMADORES E O CULTO - 
O culto luterano (link)
O culto reformado (link)
O culto anglicano (link)

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Doenças da Alma – VÍCIOS DE REFRAÇÃO


Em relação ao sistema ocular humano pode-se citar diversos males e problemas que atingem a visão e o olho em si, como a catarata, a conjuntivite, o estrabismo e o glaucoma por exemplo. Mas aqui quero focar minha atenção num conjunto de problemas que o Conselho Brasileiro de Oftalmologia chamou de Vícios de Refração e a partir deles compreender como tais alterações afetam a alma humana.
Em geral, tais vícios podem listados em quatro problemas, a saber:
Miopia – É a condição em que os olhos podem ver objetos que estão perto, mas não são capazes de enxergar claramente os objetos que estão longe.
O cristão míope na alma, por sua visão espiritual danificada, é incapaz de ver com clareza o que está um pouco além de si mesmo. Em consequência, não enxergando o outro, o próximo, acaba por se tornar egoísta, insensível e sem amor, e assim comprometendo toda a sua saúde cristã.
Hipermetropia – Ocorre quando o olho é menor do que o normal. Isso cria uma condição de dificuldade para que o cristalino focalize na retina os objetos colocados próximos ao olho.
Com uma condição assim, o cristão de olho pequeno, não é sequer capaz de notar o que Deus tem feito bem ao seu lado. Não conseguindo focalizar nas extraordinárias ações da graça divina manifestas próximas a si mesmo, ele fatalmente acaba não experimentando toda a grandeza do seu amor pessoal.
Astigmatismo – É causado por diferentes curvaturas corneanas ou por irregularidades na córnea, formando a imagem em planos diferentes o que ocasiona a distorção da mesma.
A retina espiritual irregular do cristão o impede de ver com nitidez a realidade que está ao seu redor pois suas lentes a captam de forma distorcida ou desfocada a qualquer distância. Essa impossibilidade de percepção correta gera uma alma fragmentada, insegura e doentia.
Presbiopia – Conhecida como “vista cansada”, manifesta-se normalmente após os 40 anos, criando uma dificuldade para enxergar de perto e de longe.
O peso dos anos, a mesmice dos horizontes e das experiências, o cansaço das retinas espirituais embaçam as vivas e vibrantes cores que enchiam e embelezavam os primeiros anos de caminhada cristã, tornando a jornada cada vez mais opaca e sem brilho.
Além destes vícios, há ainda outros problemas relacionados à capacidade do cristão de ver adequadamente tanto o mundo e as pessoas que nos cercam quanto a Deus e as suas manifestações multicoloridas e multiformes (confesso que gosto da expressão como ela aparece em Ef 3:10).
Para estes outros há um termo técnico: discromopsia. Mas podemos chamá-lo mais comumente apenas de daltonismo, que tem a ver com a incapacidade de percepção de espectros de cor específicos. E no que se refere ao olho físico, enquanto as primeiras estavam mais no campo de trabalho da oftalmologia, estas outras afetam mais a especialidade da neurologia.
Seja qual for o caso, quanto aos problemas de visão espiritual aos quais os cristãos se veem acometidos, o especialista médico de nossas almas tem a nos receitar não apenas óculos que corrijam a visão ou atenuem o problema. Ele é a cura.
E para comprovar isso, quero deixar que ele mesmo se apresente. Tomando para si as palavras proféticas, Jesus assumiu que sua missão consistia inclusive em recuperar a vista dos cegos (quando leu o livro de Isaías na Sinagoga de Nazaré em Lc 4:18).
Sei que há nessa passagem toda uma contextualização histórica e que a missão de Jesus deve aliar aspectos físicos e espirituais (já notaram quantos cegos, durante seu ministério terreno, ele curou!?). E até por crer que Jesus tanto cura o cego físico quanto corrige vícios e males de refração, daltonismo e demais incapacidades de visão espiritual é que posso ter a convicção de que ao ter minha visão tocada por Jesus poderei exclamar:
Uma coisa sei: eu tinha visão prejudicada e comprometida; era cego e agora vejo! (repetindo a expressão do ex-cego em Jo 9:25).