sexta-feira, 24 de maio de 2019

Doenças da alma - AUTISMO


Outra doença da alma que deve merecer atenção nessa nossa série de reflexões é o autismo. E antes que eu diga algo errado, deixe-me passar a palavra à APA – Associação Americana de Psiquiatria que identificou o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) como "um transtorno complexo do desenvolvimento que pode causar problemas com o pensamento, o sentimento, a linguagem e a capacidade de se relacionar com os outros".
Então aqui, nessa reflexão sobre o autismo, vou evitar o termo "doença da alma" e preferir "transtorno da alma". E nesse aspecto devo acrescentar que, embora diferente das moléstias com as quais temos nos deparado nesta série, por não se apresentar com infecções, rupturas ou danos físicos, o autismo precisa ser listado quando se aborda os males humanos.
Como a própria definição já indica, o autismo é um transtorno que faz o portador não desenvolver a capacidade de se relacionar adequadamente com as pessoas e o mundo que o cercam, tendo dificuldade até de falar e interagir. Além de que, é comum a incidência de movimentos estereotipados e repetitivos e certa deficiência mental.
Causas genéticas e fatores ambientais são citadas pelos estudiosos modernos como responsáveis pelo desenvolvimento do autismo e, sendo considerado um distúrbio crônico, não há tratamento padrão ou garantias de cura para este transtorno.
Indo além em nossa observação sobre o autismo da alma, ele é um transtorno do desenvolvimento grave que tem prejudicado a capacidade de muitos cristãos de se comunicarem e interagirem, tanto com o próximo e irmão e até com o Deus-Pai.
Algumas vezes, este transtorno passa despercebido na vida de muitos cristãos – estamos tão ocupados com a vida e a agenda eclesiástica que nem notamos os outros! Mas penso que a ocupação e correria da vida e agenda são apenas disfarces para o real problema: estamos acometidos de autismo espiritual.
Sei que transtornos como esse começam a se manifestar logo na infância, e se não tratados adequadamente podem se desenvolver em diversos graus de intensidade, dos mais leves com os quais com um pouco de cuidado é possível uma boa convivência, até mais graves que impossibilitam uma saudável interação cristã.
Há cristãos que na infância espiritual já manifestam este transtorno de desenvolvimento. Certamente eles terão dificuldade em desenvolver uma vida espiritual adequada que os faça interagir e se desenvolver em meio à comunidade e comunhão dos santos.
Mas quando os sintomas começam a aparecer, só há uma providência a ser tomada. Buscar a ajuda adequada do único terapeuta capaz de, não somente identificar o transtorno no seu nascedouro, como também promover o tratamento correto que possa mais que minimizar os efeitos, mas eliminá-lo por completo garantindo uma vida de relacionamentos espirituais saudáveis.
Jesus é o terapeuta. Só ele tem o domínio completo de todas as técnicas de cura para qualquer transtorno. E o seu tratamento é todo baseado no amor – mas não um amor-sentimento qualquer – o amor como somente ele é capaz de demonstrar.
Observe as caraterísticas do tratamento amoroso deste santo terapeuta. Em primeiro lugar ele é o único que tem amor suficiente para comprometer sua vida por um autista que não consegue devolver este amor (alinhe Jo 15:13 e Rm 5:7-8).
Sabe mais, a terapia amorosa promove realmente a cura completa de todo transtorno, tenha ele a origem que tiver, o alcance que tiver, as implicações e profundidade que tiver. Jesus, quando inicia o tratamento, o faz por completo – a cura é total e definitiva, pois ele vai até o fim (veja o que diz Jo 13:1).
E finalmente. Nada se compara à promessa de que, por mais estragada que esteja uma vida cristã e seus relacionamentos, Jesus fará novas todas as coisas, inclusive aquelas vidas que se fecharam transtornadas. É verdade, o TEA – Transtorno Espiritual do Autismo não mais causará dano (considere Rm 6:14 e principalmente a palavra divina escrita em Ap 21:5).


terça-feira, 21 de maio de 2019

UMA PRIMAZIA CRISTÃ - Bonhoeffer e a Graça preciosa


Em dois textos Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) expõe seu conceito fundamental sobre aquilo que é realmente importante para o serviço litúrgico da igreja e para o cristão no mundo: Discipulado (publicado iniciantemente em 1937 – em alemão: Nachfolge) e Ética (obra que não chegou a ser concluída).
Inicialmente, preciso destacar que a percepção de Bonhoeffer vai além de apenas uma vida de devoção pessoal exclusiva, a vida litúrgica do cristão e da igreja no mundo deve partir do contato sagrado com o Jesus encarnado e crucificado para se transformar em ações concretas que façam diferença na sociedade.
Foi neste direcionamento ele escreveu sua teologia opondo dois conceitos a partir do tema da graça como peça fundamental do universo doutrinário cristão: a graça barata e a graça preciosa.
Por graça barata, Bonhoeffer entende como sendo aquele sentimento de relaxamento cristão por se acreditar que em se obter a graça divina isto nada implica na vida cotidiana do cristão. Afirma ainda que este tipo de concepção da graça é fruto de um culto do literalismo que prega um perdão sem arrependimento e um batismo sem disciplina. Esta graça não faz diferença na vida do cristão e, por isto mesmo, não faz nenhuma diferença na atuação da igreja no mundo.
Do outro lado está o conceito de graça preciosa, por ter custado a Deus a vida de seu Filho. Esta graça exige disciplina de um comprometimento exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo. Ou seja, a vida litúrgica do cristão e da igreja tem que ser de um comprometimento ético disciplinado que indique o reflexo de um seguir a Jesus Cristo.
Para Bonhoeffer, este conceito de ética deveria ser a expressão exata de experiência de Cristo. Na vida do Jesus encarnado, crucificado e ressurreto está toda demonstração do engajamento cristão que se espera do discípulo.
Na ética do discipulado, que implica seguir a Jesus, está expresso também um dos conceitos mais caros para a teologia de Bonhoeffer: a relação entre o último e o penúltimo. O último é, e sempre deverá ser, o evento justificador da parte de Deus. A palavra justificadora de Deus jamais abandona sua posição de última palavra.
É no processo de justificação oriundo da graça de Deus que o ser humano atinge o seu fim último, fim este em relação ao qual tudo o mais se torna transitório e penúltimo. Daí que a liturgia disciplinada do cristão deve ser sempre na direção e na intenção do último através da concretização de penúltimos.
Nas palavras do próprio Bonhoeffer: Derradeiro e penúltimo estão intimamente ligados. Cabe aqui, pois, reforçar o penúltimo através de uma pregação mais enfática do derradeiro, bem como proteger o derradeiro através da preservação do penúltimo.
Mas, ainda refletindo na obra sobre o discipulado, depois de compreender sobre os conceitos de graça e suas implicações, Bonhoeffer apresenta um estudo sobre o Sermão da Montanha para compreender que a Comunhão dos Santos não é a comunhão ideal de pessoas isentas de pecado e perfeitas (…). Ao contrário, é a comunhão que se mostra digna do Evangelho do perdão.
Ou seja: A disciplina permeia toda a vida da Igreja. Nela existe uma ordem de sequência fundamentada no serviço da misericórdia. A origem de qualquer prática disciplinar é a pregação da Palavra de acordo com as duas chaves. Ela não se restringe à reunião litúrgica, porquanto o oficiante, em nenhuma circunstância, está licenciado de sua missão. “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta como toda longanimidade e doutrina.” (2 Tm 4.2) Esse é o início da disciplina eclesiástica.




sexta-feira, 17 de maio de 2019

HAVIA UMA GRANDE PEDRA


A família do Lázaro era muito próxima a Jesus. Sempre que o Mestre passava por Betânia, ele recebia acolhida naquela casa. Acontece que o texto de João 11 nos conta que Lázaro ficou doente e veio a falecer. Esta foi a situação que Jesus encontrou ao chegar naquela ocasião.
O texto diz que, ao ver isto, ele chorou e pediu para ver onde tinham colocado o corpo de Lázaro. Mas também é dito que havia uma grande pedra obstruindo a entrada da gruta onde jazia o morto.
Prontamente Jesus dá uma ordem: Tirem a pedra (Jo 11:39). Aqui começa a virada da história. Sob o poder divino a morte foi vencida. E embora deva crer que todos os elementos narrados como reais; posso compreendê-los de modo figurado para extrair lições para nossa vida.
Acompanhe comigo.
De um lado da pedra está morto um amigo de Jesus, do outro lado está Jesus com poder para ressuscitar. Ele então ordena que a pedra seja removida. Do mesmo modo, a pedra é aquilo que se coloca entre a minha história e a ação miraculosa de Deus. Mas o que seria esta pedra em minha vida hoje?
Posso apresentar três respostas:
(a) A pedra representa a preguiça e o comodismo que não me deixa agir e ainda bloqueia a ação divina – Pv 6:6 condena a atitude preguiçosa.
(b) A pedra também pode representar a incredulidade pois quem tem pouca fé não pode ver a manifestação do poder de Deus – Mt 8:26 questiona a falta de fé dos discípulos.
(c) A pedra ainda pode representar o pecado que impede Deus de agir com liberdade em minha vida – Is 59:1-2 diz claramente que são as iniquidades que separam o fiel de Deus.
Nesta vida passamos todos nós por problemas e privações e sempre há pedras que impedem a ação livre e soberana de Cristo em nossas vidas. Obedeçamos a Jesus e tiremos as pedras que estão entre nós e nosso Deus, e ele fará maravilhas em nosso meio.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

A PINTURA DE JESUS


Geralmente eu primeiro escrevo os textos, releio o que escrevi para possíveis correções – reconheço que algumas vezes erros me escapam – e, depois, quando chega a hora de publicar aqui no Escrevinhando, é que vou procurar uma imagem que ilustrar um pouco a ideia do que foi escrito – ou simplesmente para não ficar “sem cor” a publicação!
Desta vez resolvi fazer o contrário. E a razão se justifica. Procurando outras coisas na internet, acabei por encontrar esta imagem aí (no sítio supercuriosos.com). Então resolvi partir da imagem para a reflexão.
Reconheço que a internet está bastante recheada de imagens e ilustrações das mais diversas sobre o tema. Depois de cruzar com esta, tirei um tempo e fui catar outras tantas – achei coisas interessantíssimas. Mas como foi ela que primeiro me chamou a atenção, quero tomá-la como ponto de partida aqui.
O artigo na página respectiva é intitulado de: “Essas são 5 das mais antigas pinturas de Jesus Cristo da história” e foi postada em março de 2018 (mas só vi agora). Ali, esta imagem é descrita como O Bom Pastoruma representação pouco habitual de Jesus Cristo, nesta pintura, Cristo aparece com um carneiro nos ombros – um símbolo das almas que ele salvou. Essa imagem foi encontrada nas Catacumbas de Calisto, em Roma, e acredita-se que tenha sido feita em meados do século 3.
Algumas observações a partir da própria descrição da imagem. Realmente, Jesus Cristo é o nosso Bom Pastor. Ele foi e é o centro de nossa fé. Representá-lo em imagens pode até ter um aspecto pedagógico, em especial contextualizando seus traços e ministério, e isso não é ruim. Mas sempre haverá um risco de descambar em idolatria. E mais:

(a) A representação é realmente pouco habitual. As imagens que se popularizaram, principalmente no Ocidente cristão, costumam mostrar um Jesus barbudo, sisudo, másculo, de feições pouco semitas. Aqui Jesus mais parece um garoto romano (também não semita!). De qualquer forma, não se tornou padrão.
(b) Por falar em estilização, no Oriente o que se tornou padrão foram os ícones de Jesus, chamados de Pantocrator – o Onipotente.
(c) Chamou a atenção também a figura do carneiro. Jesus foi apresentado por João Batista como o Cordeiro de Deus (figuração que o Apocalipse vai reaproveitar). Mas aqui ele é quem carrega o cordeiro. Acho que seria uma boa ilustração para Jo 10:11 e os Sl 23:1 e Sl 100:3.
(d) Sobre as almas que ele salvou, é bom notar que o tema da salvação como resultado da ação exclusiva de Cristo em manifestar sua graça já estava presente desde os primórdios da fé cristã.
(e) Embora eu reconheça as situações sociais e embates que levaram os primeiros cristãos a adorarem nas catacumbas, não deixa de ser significativo que foi lá entre os mortos que algumas das marcas mais duradouras da fé daqueles irmãos ficaram gravadas. Somente o verdadeiro cristianismo (está na moda chamar de raiz!) pode levar vida a um lugar onde jaz a morte.

Contudo, para mim, o principal que evoca olhar imagens com o essa é trazer um pouco mais de historicidade à minha fé e riqueza à minha herança cristã e cultural. Que o Bom Pastor nos faça fieis a ele pois sei ele nunca vai deixar que os lobos devorem seus carneiros.
SDG

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Doenças da Alma – VIROSES


Com certeza, essa situação é bem comum. Uma série de sintomas e mal-estar nos leva ao médico, e o doutor pronuncia seu diagnóstico: – É virose! E, para os ouvidos leigos, essa sentença se impõe com uma ambiguidade quase pior que a própria doença. – O que será que eu tenho!?
Antes que o mal cause estragos maiores, vamos entendê-lo. Por virose se diz de todo mal e doença causado por um vírus – minúsculos agentes infeciosos que invadem nossos corpos e trazem transtornos vários. Ou seja, virose não uma doença específica (por isso, no título usei o plural).
Em geral os sintomas físicos são febres, vômitos e diarreias – que é o corpo reagindo ao agente do mal e tentando expulsá-lo – dores espalhadas pelo corpo e falta de apetite. Nas viroses mais simples os sintomas costumam desaparecer em poucos dias, é que o próprio corpo ganhou a batalha contra os invasores.
Viroses também infectam nossa alma e causam sintomas espirituais. A febre, que é um calor doentio. Vômitos e diarreias, na tentativa de extirpar o mal espiritual. Dores, pois a alma já está sofrendo. Falta de apetite, quando a luta se torna mais complicada.
Então, para não ficar nestes diagnósticos generalizados, permita-me citar algumas mais comuns viroses da alma que podem acometer um cristão:
Sarampo – Os sintomas em geral são as manchas na pele (embora possa vir acompanhado de febre, dores, tosse e corrimento nasal). O sarampo mancha a alma do cristão e é transmitido pela saliva contaminada pelo vírus da malícia e maledicência.
Rubéola – É bem parecido com o sarampo, embora seu agente infeccioso seja diferente, com diagnóstico de manchas avermelhadas. O perigo maior é quando infecta grávidas, pois causa malformações no feto. O cristão doente de rubéola espiritual precisa de tratamento urgente para que não gere cristãos também deformados.
Catapora – Também conhecida como varicela. Apresenta como sintoma, além dos comuns a outras viroses, bolhas e caroços generalizados. Essa doença requer cuidados especiais por que costuma deixar sinais e imperfeições na alma que ficam como traumas e sequelas para a vida toda.
Dengue – E aqui faço acompanhar das suas irmãs: chikungunya e zica. Tida como doença tropical, a dengue infecta a alma e ali permanece em período de incubação, quando não apresenta sintomas, até que finalmente expõe todo o seu mal. Geralmente debilita o cristão, incapacitando-o para seu trabalho santo, e algumas vezes termina em morte espiritual.
Caxumba – Ou papeira. Visivelmente a marca mais característica é o inchaço das glândulas da saliva (no pescoço) o que implica na dificuldade de ingerir o sólido alimento espiritual. Se não tratada pode levar inclusive à surdez espiritual, mal que vai comprometer a boa saúde da alma, e à infertilidade.
Varíola – Essa está entre as mais antigas moléstias conhecidas da humanidade, porém hoje a doença é tida como erradicada. Ela trazia como sintomas o aparecimento fístulas que são caroços que deformam completamente o corpo. Todo mal que deforma nossa alma também deve ser erradicado.
Raiva – Virose que ataca o sistema nervoso central provocando sintomas como confusão mental, agressividade, alucinações, paralisia motora e salivação excessiva entre outros. Ela é transmitida no contato com animais infectados. Na alma, esta doença causada pelo contato com bestas espirituais raivosas, provoca toda espécie de transtorno, destruindo o sistema espiritual central e levando fatalmente à morte.
Estas são apenas algumas viroses (sei que há outras que também infectam nossa alma). Mas em todo caso o importante é a prevenção que se dá, na maioria dos casos, através de vacinação apropriada e principalmente com a adoção de medidas de higiene e alimentação adequada.
Veja o que o Médico recomenda como medida de prevenção à qualquer virose:
Tomem a santa e correta vacina divina que os fará resistir ao diabo, mantenha-a em dia. Cuidem da higiene espiritual: limpem as mãos e purifiquem seus corações (leia a profilaxia completa em Tg 4:7-10).


terça-feira, 7 de maio de 2019

NOS ÚLTIMOS DIAS



No texto de 2Tm 3:1-5, o apóstolo Paulo lista uma série de características que dominarão os seres humanos e as sociedades nos últimos dias, dias que o próprio texto bíblico chama de tempos terríveis (em grego: καιροί χαλεποί). Veja a relação a seguir e, sem nenhum alarmismo escatológico, perceba como ele está descrevendo a nossa cultura e momento.

# Egoístas – φίλαυτος (única vez no NT) – amante de si mesmo, egocêntrico. Uma sociedade que considera o eu, o self e a própria imagem em primeiro lugar.
# Avarentos – φιλάργυρος (também em Lc 16:14) – amante do dinheiro, dos bens, das coisas. Quando o ter vale mais que o ser.
# Presunçosos – ἀλαζών (também em Rm 1:30) – pedante, alguém que fica falando de suas próprias realizações. Vive-se das exposições em redes sociais.
# Arrogantes – ὑπερήφανος (mais outras quatro vezes no NT) – altivo, orgulhoso. Alguém que se julga e a seus pares superiores aos outros.
# Blasfemos – βλάσφημος (mais outras três vezes no NT) – caluniador, mentiroso. A valorização e irresponsabilidade em espalhar fake news.
# Desobediente aos pais – γονεῦσιν ἀπειθής (mais cinco vezes no NT) – alguém que não segue as instruções dos pais, hesitante. Uma sociedade que não considera os valores herdados, mais que busca o novo pelo novo.
# Ingratos – ἀχάριστος (também em Lc 6:35) – não grato, mal agradecido. Um tempo onde a graça é escassa.
# Ímpios – ἀνόσιος (também em 1Tm 1:9) – irreverente, profano, não devoto. Já não se reconhece valores ou decretos divinos a serem respeitados.
# Sem amor pela família – ἄστοργος (também em Rm 1:31) – sem afeição, frio, duro, destituído de amor por aqueles que naturalmente o exigem. Isolamento social e falta de busca pelo contato a conchego sincero e familiar.
# Irreconciliáveis – ἄσπονδος (também em Rm 1:31) – implacável, alguém cuja hostilidade não lhe permite trégua. A dominação das batalhas e disputas virtuais e sociais,
# Caluniadores – διάβολος (mais outras 36 vezes no NT, tanto no sentido adjetivo como aqui, como indicando o nome do Acusador: Diabo) – acusador, aquele que promove intriga na esperança de conseguir algum benefício. A culpa é sempre do outro.
# Sem domínio próprio – ἀκρατής (única vez no NT) – incontinente, sem autocontrole, dissoluto, estourado. Uma sociedade que não quer reconhecer seus próprios limites.
# Crueis – ἀνήμερος (única vez no NT) – incivilizado, selvagem, bárbaro, brutal, briguento. A lei da força sobre a razão e bom senso.
# Inimigos do bem – ἀφιλάγαθος (única vez no NT) – alguém que não ama o bem, que prefere o mal. Os valores estão trocados na sociedade.
# Traidores – προδότης (também em Lc 6:16 e At 7:52) – alguém que trai o seu país ou que não cumpre com seu juramento ou palavra. A honra e verdade perderam importância.
# Precipitados – προπετής (também em At 19:36) – atrevido, imprudente, alguém que age sem pensar nas consequências. A valorização do aqui, rápido e urgente em detrimento do perene e eterno.
# Soberbos – τετυφωμένος, particípio perfeito passivo de τυφόομαι (também em 1Tm 3:6 e 6:4) – orgulhar-se, exaltar-se, encher-se com fumaça. Uma sociedade sem consistência em seus reais valores.
# Mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus – φιλήδονος μᾶλλον φιλόθεος (ambos os substantivos só aparecem aqui no NT) – alguém que prefere os prazeres mais que de Deus. Sobressai a cultura da satisfação e do prazer sobre a obediência e amor a Deus.
# Tendo aparência de piedade – ἔχοντες μόρφωσιν εὐσεβείας (a expressão completa só aparece aqui, o termo isolado para ‘aparência’ também em Rm 2:20) – alguém com reverência ou piedade aparente, apenas na forma mas sem conteúdo. O cinismo da hipocrisia do politicamente correto que disfarça um coração e atitude preconceituosa e vil.
# Mas negando-se ao poder – τὴν δὲ δύναμιν αὐτῆς ἠρνημένος – aqui, particípio perfeito médio de ἀρνέομαι (como verbo ou particípio, também aparece outras 31 vezes no NT) – alguém que se dispõe a pôr em prática uma mentira, uma negação prática. Anarquia prática, quando as regras básicas de autoridade são desconsideradas.

Diante disso tudo, a ordem é direta: Afaste-se desses também. Aqui não é nosso lugar.


sexta-feira, 3 de maio de 2019

SOB A PERSPECTIVA PROFÉTICA


O centro do culto no AT era o sistema de sacrifícios e holocaustos; através dos seus rituais os seres humanos se tornavam aptos para comparecerem na assembleia, diante de Deus, tinham seus pecados perdoados, sua adoração aceita e orações respondidas.
Era na imolação de animais que o adorador encontrava refúgio no Senhor, e este se lhe tornava favorável (veja o caso do altar construído por Davi na eira de Araúna em 2Sm 24:25).
Mas aquilo que era para ser instrumento tornou-se um fim em si mesmo, e o rito passou a ocupar – ele mesmo – a finalidade da adoração.
É neste contexto que Deus veio através do profeta recolocar as coisas nos seus devidos lugares. Primeiramente Oseias apresentou a proposta do Senhor: o centro do culto e da adoração não está no ritual ou na forma em que ele se desenrola e sim na atitude do coração com que o adorador se achega ao altar (leia Os 6:6. Jesus vai afirmar que o Reino de Deus deve estar dentro do adorador – Lc 17:21).
No oráculo profético está a advertência contra aqueles que se confiavam no fato de os ritos continuarem sendo ministrados, para poderem viver suas vidas de maneira irresponsável perante a Lei.
Deus diz através de Oseias que seu desejo é realmente que seus fieis o conheçam e mantenham um coração misericordioso. Tendo primeiro estabelecido estes princípios, então os ritos poderiam ser executados e aceitos perante o Senhor.
Para entender melhor a extensão desta palavra de Oseias, deixe-me fazer uma leitura de outro profeta. Amós é mais duro e incisivo em suas críticas à religiosidade ritual e superficial:
Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes. Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal, isso não me agradará. Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não lhes darei a menor atenção. Afastem de mim o som de suas canções e a música das suas liras. Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!”
(Am 5:21-24).
Neste texto de Amós, Deus está dizendo que cansou – está farto – das celebrações, festividades e cultos apresentados pelos filhos de Israel.
O culto em si, por melhor que seja e se apresente, não era garantia de ser aceito pelo Senhor. Pelo contrário, um culto que não expressasse a vida do adorador diante do altar chegava a irritar a Deus!
Não era que o culto estava ritualmente errado, ou a forma e a liturgia do culto precisasse ser reavaliada, ou melhor trabalhada. Numa interpretação em linguagem mais livre, é como se Deus dissesse:
Vocês entenderam tudo errado!
A palavra profética ao avaliar o culto israelita não ia em direção a análise da forma, do estilo, do que poderia ou não ser oferecido como elemento sacrificado. O profeta trouxe e expôs a necessidade de haver coerência entre o culto apresentado ao Senhor e a vida de ética pessoal e responsabilidade social.
O mesmo Deus que instituiu as leis referentes ao culto e sua forma é quem exigia amor ao próximo e conduta reta e santa como prerrogativas do culto.


terça-feira, 30 de abril de 2019

A MANIFESTAÇÃO DO ESPÍRITO – distinções comparativas entre Atos 8 e 10


Dentre as manifestações perceptíveis do Espirito Santos no livro de Atos do Apóstolos duas nos chamam a atenção, são elas: as manifestações narradas nos capítulos oito e dez.
Elas são destacadas não por terem objetivos específicos, pois todas as manifestações do Espírito Santo registradas neste livro também o tiveram, mas por serem tão distintas entre si e, mesmo assim, ainda expressarem os mesmos princípios gerais.
No capítulo 8 de Atos o Espírito Santo é derramado sobre os samaritanos. Ali é quando o evangelho rompe a primeira a barreira, saindo dos círculos fechados dos judeus e galileus em Jerusalém. No capítulo 10 ele vem sobre os gentios ainda pela primeira vez para que o preconceito contra eles também fosse quebrado. Porém, em ambas, a causa primeira é única: fazer com que o evangelho nesses lugares e contextos pudesse ser reconhecido pelos cristãos de Jerusalém. Além do mais, em nenhum dos casos os que receberam, pediram a manifestação.
No caso no capítulo 8, a manifestação ocorre sob a instrumentalidade da imposição de mãos sobre os que receberam o Espírito, enquanto que no capítulo 10 o Espírito se manifestou enquanto Pedro ainda falava.
Outra diferença significativa é que em At 8 os que receberam o Espírito já haviam sido batizados em água, enquanto que em At 10 os que receberam a manifestação são tidos apenas com tementes a Deus e estavam tendo contato com a mensagem cristã pela primeira vez. Logo, o Espírito Santo e sua manifestação não é fruto de aperfeiçoamento cristão e nem se caracteriza como uma segunda bênção e nem, muito menos, como privilégio de alguns pois em ambos os casos a manifestação se deu sobre todos os que estavam presentes na reunião.
Também merece atenção que no capítulo oito não é registrado o falar em línguas enquanto que, no capítulo dez, tal fato é registrado. Isso nos leva a crer que falar em línguas estranhas não é uma forma fixa ou padrão único de o Espírito Santo se manifestar de modo perceptível – pode acontecer ou não.
E, por fim, outra diferença é que depois da manifestação anotada em At 8 os discípulos voltaram anunciando o evangelho de cidade em cidade e na manifestação de At 10 apenas é dito dos que receberam o Espírito, que eles foram batizados.
A verdade bíblica exposta, comparando as diferentes manifestações perceptíveis do Espírito Santo, é que ele sempre age no meio da igreja mas se manifesta quando e como quer, e onde ele mesmo julga necessário.


sexta-feira, 26 de abril de 2019

Doenças da Alma – HEPATITE


Mais uma doença da alma merece nossa atenção, a hepatite – neste caso, um termo genérico para se referir a diferentes tipos de moléstias que afligem o ser humano. Em linhas gerais, hepatite é uma inflamação do fígado causada por vírus, acúmulo de gordura, reação alcoólica ou medicamentosa, ou ainda outros fatores de menor incidência.
Antes de dar atenção à hepatite, como mal, é importante conhecer o fígado, o órgão diretamente afetado pela inflamação. O fígado é a maior glândula do corpo humano e pertence ao sistema digestivo, funcionando como a principal usina de processamento do corpo. Ele produz a bile que atua na digestão, armazena nutrientes e promove uma verdadeira desintoxicação do organismo.
Sendo assim, o bom funcionamento do fígado é sinal de que toda a ‘máquina’ está funcionando bem. O contrário também é verdade: a hepatite aponta para problemas que, muitas das vezes, vão além do próprio órgão.
Da mesma forma acontece com a alma. Para manter uma vida espiritual saudável e produtiva é sempre necessário se alimentar adequadamente e esse alimento ser absorvido, processado e fornecer nutrientes para todo o corpo. Mas fatores diversos inflamam o fígado espiritual impossibilitando o mesmo de funcionar a contento – e ainda tem a problemática da intoxicação da alma.
É certo que o ser humano está constantemente exposto a vírus espirituais e, por falta de vacinação ou proteção adequada, eles podem se infiltrar causando males e doenças. A própria Bíblia já instrui para se estar alerta e vigilante pois o diabo, como terrível vírus, nos circunda procurando a quem infectar (de 1Pe 5:8).
Mas quando esta barreira espiritual falha, por falta de vigilância quer na proteção adequada quer na insistência em uma alimentação não-saudável, a hepatite espiritual compromete toda a vida humana. A digestão espiritual não se realiza como deveria, os nutrientes necessários não são armazenados nem distribuídos de forma correta e suficiente, e nem a desintoxicação da alma nos livra de outros tantos males.
Fica o alerta. Como muitas vezes somos relaxados na proteção devida às investidas do vírus-diabo! Como comemos tanta ‘porcaria’ espiritual por aí e nosso fígado sofre!
E pode piorar. Em alguns casos a infamação hepática chega a tal ponto que se configura como cirrose – que é uma condição médica em que o fígado deixa de funcionar por completo. E da mesma forma na alma. Há casos em que a inflamação do fígado espiritual é tão grave que ele deixa de funcionar, trazendo como consequência a morte espiritual do cristão.
Essa é a sequência: uma prevenção mal feita ou alimentação inadequada, uma infecção viral no fígado espiritual, o vírus diabólico do pecado se aloja e, se não tratado, inutiliza o órgão impossibilitando a absorção dos nutrientes pela alma humana e o contaminando por completo, daí segue-se a morte espiritual.
Um mal espiritual como esse requer toda a atenção, exames preventivos e cuidados ininterruptos. Há vacinas a serem tomadas. Barreiras a serem estabelecidas. E a alimentação deve ser balanceada e saudável – lembre-se de que o fígado está ligado ao aparelho digestivo.
Quanto à alimentação, a recomendação é simples e conhecida. Prefira a saudável alimentação espiritual que provém da palavra de Deus (nunca se esqueça de Mt 4:4 e observe também Jr 15:16 e 1Pe 2:2). A escolha correta do se come fará uma diferença fundamental. O outro caminho é doença e morte.
Quanto à barreira de proteção contra as infestações virais, o receituário bíblico aponta para uma aproximação e submissão integral ao próprio Deus para que não haja contaminação (leia em Tg 4:7-10). E o texto ainda fala em mãos lavadas, coração puro, tristeza pelo pecado e humilhação diante de Deus.
Quem assim procede e se alimenta de Deus terá vida e saúde (leia o desafio de Am 5:4).

terça-feira, 16 de abril de 2019

EU SOU O PÃO


A Ceia do Senhor é um momento sublime na vida e na liturgia da igreja. É quando trazemos à lembrança e fazemos aflorar tudo o que de mais significativo temos em nossa vivência e em nossa fé. Em nossos cultos, a Ceia é apresentada na Mesa do Senhor em dois elementos: o pão que simboliza o corpo de Cristo e o vinho que aponta ao sangue (veja explicado didaticamente em 1Co 11:23-26). Assim quis o próprio Cristo.
Quando o Mestre fez associar na memória dos discípulos o pão com a sua própria carne e o vinho com seu sangue, mais que uma ligação aleatória ou simplesmente simbólica, ele evocou lembranças profundas dos seus.
Creio que na Ceia deve haver pontos de ressignificação dos elementos pascoais; porém com certeza o que Jesus trouxe à memória apostólica naquela celebração foi sua apresentação como o Pão enviado por Deus para saciar a fome humana (tenha em mente Jo 6:51).
Hoje, quando celebramos a Ceia do Senhor, Jesus continua se apresentando como o Pão Vivo que desceu do céu e nos alimenta, sacia, nos torna plenos e satisfeitos.
Como pão, ele nos alimenta com sua paz (marque Jo 14:27). Num mundo onde a paz está na ordem do dia, mas que nunca a encontra por completo, Jesus nos inunda com a sua paz. Quando comemos deste pão somos lembrados da verdadeira paz do Senhor que excede todo entendimento (Paulo usou esta expressão em Fl 4:7).
Comungando do pão na Ceia, também nos lembramos que fomos repletos do amor inigualável e consequente (é fundamental Jo 13:1). É claro que não há amor como este e somos tomados por ele de maneira graciosa. A memória que é evocada no comer do pão faz-nos repletos deste amor doado (ainda são de Jesus as palavras de Jo 15:13).
Duas outras lembranças devem ser destacadas enquanto se come do pão na mesa do Senhor – talvez elas sejam menos tangíveis e, assim por isso mesmo mais poéticas e belas. O Pão de Deus nos sacia de vida (considere Jo 10:28). Não é só vida eterna num sentido temporal – isto é muito pouco – somos saciados de vida plena, completa. Quando comemos deste pão devemos nos lembrar que em Cristo nos tornamos cheios de vida (considere como promessa cumprida e celebrada no pão o que é dito em Jo 10:10).
O Pão Vivo que de maneira memorial comemos na Ceia também nos faz cheios, repletos, saciados da divindade (está claro o que é dito em Jo 12:45). Toda alma humana precisa do inefável, do algo mais, para se saber realizada, satisfeita, plena: Jesus nos deu esta oportunidade ao apresentar o Pai e outorgar o Espírito (note Jo 14:9 e 20:22). Comendo deste pão minha mente e alma têm que ser levadas a adorar àquele que se fez carne para que contemplássemos a glória divina (como é lindo Jo 1:14!).
Hoje, quando celebramos a Ceia do Senhor e trazemos à memória o Pão da Vida, principalmente tão próximo da celebração da Páscoa Cristã (maior evento de nosso calendário), devemos comê-lo como quem celebra a alma plena e saciada de paz, amor e vida; satisfeitos por estar na presença do Eterno.
Que comamos deste pão pascal louvando a Deus por ter nos dado tal privilégio.
(Publicado originalmente no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 19 de março de 2010)

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Doenças da Alma – ESCLERODACTILIA


Devo começar esta reflexão honrosamente me referindo ao brilhante texto do colega Diogo Magalhães, escrito quando ainda estávamos estudando no Seminário do Norte em Recife, lá pela segunda metade dos anos de 1980, intitulado: "Cuidado: O Mal da Esclerodactilia Anda Solto". Foi a primeira vez que vi o termo esclerodactilia.
Veja o que diz a ciência médica mais atual sobre este mal: esclerodactilia é uma espécie de esclerose sistêmica progressiva que consiste no endurecimento de juntas e articulações, principalmente nas extremidades digitais – o mal do dedo duro. Deixemos, porém, os males do corpo apenas e vamos nos ater à doença da alma.
No texto do Diogo este mal é descrito pelos seguintes sintomas: "mórbido desejo de preocupar-se com o alheio, vontade incontrolável de falar mal do próximo, criticando e apontando sempre o negativo e nunca o positivo, impiedade, incapacidade de amar verdadeiramente, irresponsabilidade para com o outro, impossibilidade de fazer elogios e de incentivar, alienação e desinteresse para com a própria vida, vazio interior e até casos extremos de sadismo".
Concordando com esta análise, eu diria que é uma relação de sintomas bastante preocupante e, infelizmente, bem presente em vários indivíduos e comunidades cristãs. O que só vem a provar que esta doença da alma ainda aflige a muitos. São cristãos enfermos que, acometidos deste mal espiritual, vivem com o dedo em riste buscando apontar erros e falhas alheias.
Diante de tal diagnóstico não é difícil perceber a causa do definhamento e invalidez de homens e mulheres outrora de espírito saudável. À medida que o mal avança, as mãos que deveriam ministrar amor, bondade, acolhimento e graça passam a impingir dor e culpa fazendo com que toda saúde espiritual seja comprometida e, sem dúvida, seus sintomas se alastrem fazendo adoecer o ser humano por completo.
Ora, Jesus já havia alertado sobre esta doença no seu Sermão da Montanha ao apresentar a ilustração do argueiro e da trave no olho como padrão de julgamento (confira em Mt 7:1-58). Contudo, para tais problemas só há uma cura verdadeira: o amor gracioso e curador de Deus, e este refletido em nossas vidas e procedimentos. E para embasar esta certeza alinhe textos como Rm 5:6-8; 1Pe 4:8 e 1Jo 4:10-11 entre outros.
Mas vamos um pouco além. Acredito que há uma outra perspectiva pela qual é possível identificar esta doença que tem vitimado muitos cristãos. A esclerodactilia da alma também pode ser diagnosticada como o mal que faz o doente sempre apontar para outro a culpa que lhe é devida.
O primeiro caso deste tipo de esclerodactilia descrito na Bíblia é o de Adão. O texto do Gênesis narra que naquela viração do dia, depois do pecado original, Deus foi ao seu encontro no jardim. O que veio a seguir foi que o primeiro homem em pecado e, exatamente por isso, acometido desta doença da alma manteve o dedo-duro e transferiu para mulher a culpa de suas ações: “… a mulher que me deste...” (Gn 3:12).
E assim, esse mal, como doença hereditária, tem contaminado outros tantos. A culpa é sempre do outro que me induziu, que me abusou, que não me protegeu, que me excitou, que não me alertou. A culpa é da outra geração, da família, dos amigos, da igreja, da internet, dos mais velhos, da sociedade, da mídia, da escola. E por aí se vai com o dedo sempre duro transferindo culpas e responsabilidades. E o mal continua se proliferando e adoecendo as almas.
Contra este tipo de esclerodactilia só há uma cura: arrependimento e confissão. E na Bíblia ela foi exemplificada na parábola do filho que volta à casa do Pai:
Eu pequei contra o céu e diante de ti (a parábola está contada em Lc 15:11-31 e a confissão do filho está no verso 18).
E que a nossa oração constante seja a feita por Davi, quando o profeta Natã imputou-lhe o grave pecado cometido, pois somente assim estaremos livres da esclerodactilia da alma:
Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a tua justiça (Sl 51, aqui citados os versos 1, 10 e 14).