sexta-feira, 19 de julho de 2019

Doenças da Alma – OSTEOPOROSE


Devemos analisar aqui mais uma doença que aflige nossa alma, a osteoporose. E como o próprio nome sugere, ela é a doença dos ossos porosos. É quando o cálcio que normalmente forma e constitui nossos ossos já não está sendo regularmente reposto e os ossos vão ficando fracos e quebradiços.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, "à medida que envelhecemos, ocorre uma perda natural e gradativa da massa óssea tanto nos homens como nas mulheres. Quando essa perda alcança um nível tão importante a ponto de desorganizar a estrutura dos ossos, aumentando a sua fragilidade e o risco de fraturas, temos então a osteoporose".
E mais: "em geral o que ocorre é que somente após complicações, como dores decorrentes de fraturas é que as pessoas passam a se preocupar. A osteoporose é conhecida como uma doença silenciosa pois não provoca sintomas. Diferentemente do que muitos pensam, cansaço, desconforto, dores articulares e musculares não podem ser atribuídas diretamente à doença e radiografias não são um bom exame diagnóstico."
Entre os fatores que contribuem para o aparecimento da doença podemos citar a queda nos níveis de hormônios provocada pela idade, vida sedentária, falta de cálcio e vitamina D, uso contínuo de determinados medicamentos e até algumas outras doenças como diabetes e artrite reumatoide.
Mas, além destas características físicas da doença, nossa atenção deve-se voltar para a osteoporose como mal que nos debilita a alma.
À medida que a nossa vida espiritual vai avançando em tempo, muitos acabam relaxando de alguns cuidados, é aí que a osteoporose espiritual acontece.
Na juventude espiritual, o vigor e o dinamismo disfarçam problemas que, ao longo da vida, vão se acumulando e quando se chega ao tempo da maturidade cristã, em vez de termos saúde para viver e desfrutar do tempo de plenitude, a fraqueza e o cansaço nos domina. Somos vítimas de osteoporose espiritual.
Faltou uma alimentação adequada lá no começo da vida cristã. O puro leite espiritual, que devia nos nutrir e garantir o cálcio necessário para o fortalecimento dos ossos espirituais, foi escasso e agora toda a estrutura de sustentação da alma já está tão porosa que mal aguenta nosso peso (sugiro ler 1Pe 2:2). Por isso muitos crentes velhos vivem encurvados – mas não por conta do peso, e sim por falta de densidade na alma.
Também faltou a muitos a quantidade apropriada de vitamina D. E, além da alimentação adequada, esta fonte de saúde é obtida através do sol. Cristão que não se expõe ao sol divino da justiça e à luz da vida no tempo e maneira apropriados (considere Ml 4:2 e Jo 8:12) acabam sofrendo de deficiência no espírito interior e, por conta disso, qualquer circunstância nessa vida os fazem quebrar.
Outros fatores acarretam pioras nos sintomas. Cristãos de vida espiritual sedentária. Cristãos que não consultam seu Médico da alma com a frequência devida nem se submetem aos tratamentos indicados. Cristãos que se descuidam dos níveis de hormônios santos na alma ao longo da vida. Certamente são cristãos que vivem em grupo de risco de desenvolverem a osteoporose espiritual.
E antes de finalizar, cabe uma pergunta: osteoporose da alma tem cura? Independente dos tratamentos que possam ser indicados para a osteoporose física, uma alma que sofra desta doença pode perfeitamente ter sua condição restaurada, não importando o tempo de vida espiritual nem o quão profunda esteja o mal ou o quanto a estrutura espiritual esteja comprometida.
O Cristo que garante fazer nova todas as coisas (entre outras passagens, a promessa pode ser lida em Ap 21:5); esse Cristo, Cordeiro e Deus, é tanto o Médico que nos cura como o próprio remédio que nos restaura. Sem dúvida, qualquer alma que se encontra fragilizada, curvada, oca por doença, pode ser refeita, restaurada, reestruturada. Cristo recompõe os ossos de minha alma.


sexta-feira, 28 de junho de 2019

Doenças da Alma – DISTÚRBIOS ALIMENTARES


Para começar a refletir sobre alguns distúrbios alimentares e como eles afetam nossas vidas, devo alinhar duas constatações que me parecem óbvias. Primeiro: é verdade que muito do que somos e fazemos está diretamente relacionados à maneira como nos alimentamos – ou não! Segundo: vivemos numa época de exageros e em relação às questões de aparência há, distribuídos nas mídias, verdadeiras tiranias medonhas.
Dito isso, prossigamos. Por distúrbios alimentares, entende-se toda espécie de doença "que se define por padrão de comportamentos alimentares desviantes que afeta negativamente a saúde" (citação do Wikipédia). A página da internet ainda se refere a eles como transtorno ou patologia.
Algumas características e sintomas são identificados de modo geral em qualquer distúrbio alimentar. Eles estão ligados a situações de pressão social e cultural principalmente quanto à distorção da imagem. Podem atingir a todos – embora de maneiras diferentes – sem distinção de gênero, raça, classe social ou idade. Mais: em geral se manifestam a longo prazo. E acarretam outros problemas de ordem psíquica ou física.
Há ainda um dado a ser observado, pois preocupa. Segunda a Dra. Flávia Lopes Macedo, da UFJF, "uma característica de quem tem algum distúrbio alimentar é sentir vergonha do problema. Desse modo, nós temos que ficar atentos. Quando as pessoas têm outras questões de saúde, elas procuram atendimento, mas as portadoras de distúrbios alimentares não costumam fazer isso".
É assim que, em nossa série de reflexões sobre doenças da alma precisamos falar sobre os distúrbios alimentares que afligem o ser humano. Mas não é sobre como eles acontecem em nossos corpos apenas. São doenças da alma e do espírito humano.
Mais uma questão a ser pontuada antes de listar alguns distúrbios alimentares que afetam nossa alma. Embora o pecado da gula esteja ligado a problemas alimentares e muitos cristãos sucumbam a ele – crente come!!! – também não é sobre isso que vamos falar. Eis uma lista:
Alotriofagia – O nome é complicado mas o mal se refere ao impulso de comer de tudo, principalmente coisas sem valor nutricional ou até prejudiciais. Esse mal afeta cristãos que se sentem atraídos por se alimentarem de toda espécie de bobagem espiritual, sem nunca chegarem a estar minimamente nutridos no espírito.
Obesidade – É o acúmulo de gordura causado principalmente por dietas não balanceadas e fata de exercício. Acomete o cristão que vive se empanturrando de alimentos – pregações espirituais, estudos, leituras, congressos, campanhas, vigílias e afins – sem qualquer critério e nunca se aplicam aos exercícios espirituais.
Anorexia – Esse é um mal que infelizmente tem se tornando comum. Na maioria das vezes, por não ser capaz de avaliar corretamente seu perfil estético, o doente se recusa a comer, desejando ficar cada vez mais magro. Assim é que por questões de vaidade pura, ou traumas mais profundos, o cristão se vê acometido desta doença que o impede de perceber a bênção do vigor espiritual, recusando em receber os nutrientes divinos.
Bulimia – Também causado por uma visão distorcida, assim como a anorexia, porém neste caso, o doente até ingere alimentos, mas sempre depois provoca a expulsão destes através de dietas mirabolantes, diuréticos, jejuns sem sentido, exercícios em excesso e até vômitos. Quando o cristão sofre de bulimia da alma, seus comportamentos e atitudes forçam todo nutriente espiritual com o qual tenham eventualmente se alimentado a serem expulsos de suas vidas, não se beneficiando de nenhum deles.
Ortorexia – Só recentemente diagnostica por especialistas, essa doença consiste em uma obsessão por se alimentar somente com comida considerada saudável, daí a preocupação com normas e regras alimentares, excesso de zelo quanto ao que é impuro, prazos, ingredientes. Além de que são sempre doentes detalhistas minuciosos. Um cristão assim acaba sofrendo invariavelmente de carência em algum nutriente necessário para sua saúde, e, também desenvolve problemas como isolamento, farisaísmo e neurose espiritual.
Para prevenir e curar estes – e outros – distúrbios alimentares que afligem a alma humana só há uma recomendação indispensável, e foi dada pelo próprio Pão que desceu do céu: assim quem se alimenta de mim, viverá saudável pela vida que dou (em Jo 6:57-58).

terça-feira, 25 de junho de 2019

COMO O OCIDENTE SE TORNOU CRISTÃO


Historicamente, o primeiro reino a se declarar cristão foi o da Armênia por volta do II século; mas esta declaração e a existência de tal reino pouco ou quase nada influenciou na formação da mentalidade de cristandade ocidental.
Enquanto isto, os cristãos em geral viviam as agruras de comungarem de uma religião proscrita. Entre os judeus, onde a fé cristã começou, os primeiros seguidores de Cristo eram considerados como hereges politeístas e, portanto, deveriam ser silenciados.
Quanto do Império Romano, ele via o movimento cristão como uma ameaça à religião estatal e ao culto ao imperador propagado em Roma. Cabendo então a próprio imperador, e sua estrutura estatal se fazer valer do poder para reprimir, marginalizar e perseguir a Igreja.
Somente com Constantino que a situação começaria a mudar. No Edito de Milão de 313 o imperador decidiu dar liberdade de culto a todas as religiões, o que favoreceu grandemente a religião cristã.
O próprio Constantino não somente auxiliou na construção de diversos templos e capelas cristãos como também convocou o Concílio Ecumênico de Niceia, em 325, que deliberou, entre outros temas, sobre o Credo Apostólico. Foi Constantino também que transferiu para o bispo de Roma o título de “pontífice máximo”, antes atribuído ao próprio imperador e que depois serviu como justificativa para o domínio papal.
Com isso a Igreja passou a, progressivamente, assumir papel de destaque e a dispor de privilégios cada vez maiores dentro da sociedade romana até que, menos de um século depois do Edito de Milão, o imperador Teodósio declarou o Cristianismo como a religião oficial do Estado Romano através do Edito de Tessalônica de 380 que decretava:
Todos os povos sobre os quais exercemos regência bondosa e moderada devem (...) converter-se à religião comunicada aos romanos pelo divino apóstolo Pedro (...) e claramente professada pelo pontífice Damásio, como também pelo bispo Pedro de Alexandria (...)”.
Assim, estava decretada a união entre Igreja e Estado e que se tornaria marca da Igreja Católica chamada Romana. Com este decreto, por um lado os assuntos concernentes ao Estado Romano encontravam justificativa nos umbrais da Igreja institucionalizada e por outro, os inimigos hereges da Igreja seriam considerados inimigos do Estado e tratados com os rigores da lei.
Mais adiante, a união legal estabelecida por Teodósio encontrou respaldo ideológico no Império Carolíngio. Carlos Magno e seus sucessores associaram a fé católica ao poder estatal de modo que os dois se fundiram em um só corpo de representação simbólica.
Foi este espírito que o brasileiro Riolando Azzi chamou de sociedade sacral e que fez coincidir as fronteiras do império com as fronteiras da fé de modo que: ser fiel cidadão deveria implicar em necessariamente estar sob a tutela do rei – como mandatário político – e sob a tutela do papa ou bispo – como mandatários espirituais.
Estava formado o conceito de cristandade: as instituições do Estado e da Religião fundidas em um único corpo de propósitos.


terça-feira, 18 de junho de 2019

MINHAS REDES, MINHAS REGRAS


É fácil me achar por aí nas redes sociais. Não as escondo e até gosto de deixar disponível para qualquer contato necessário. Mensagens rápidas de texto, imagens, e-mail etc. São as incumbências dos tempos, ainda mais quando a distância nos impedem o encontro. Mas que fique claro: minhas redes, minhas regras – e só as submeto a Cristo, que é Senhor de tudo.

1. Minha prioridade é viver, não estar on-line. Sempre que posso, visualizo e respondo – é um compromisso. Quando não posso, não tem neura: fico off-line e continuo vivendo numa boa. E quando eu posto é porque creio que tenho algo para dizer.

2. Não leio textão (e isso vale para vídeos enormes). Se quiser apresentar um argumento e tratar dele comigo, seja objetivo na postagem e me chame para uma conversa sincera. Eu gosto da conversa.

3. Não compartilho correntes, campanhas, nem a última novidade ou descoberta. E quando a postagem que chega me pede para compartilhar, eu a descarto. Acredito que se é importante, haverá contato pessoal.

4. Figurinhas bonitinhas, gifs charmosos e tocantes e infinitos bom-dias são prontamente ignorados. Não insista. Agora, aquela foto inusitada – ou o por-do-sol – que você pessoalmente registrou são bem-vindas.

5. Política, filosofia, economia, futebol, psicologia, questões de gênero ou raça e afins são sérias demais para serem resumidas em postagens. E nem tente me doutrinar, nem destile seus preconceitos. Sobre questões assim, podemos trocar ideias – pessoalmente.

6. A vida pessoal dos famosos não me interessa, nem mesmo gospel. Em vez de me mostrar seu último lanche, me chame para compartilhar um com você. Em vez da self com biquinho, me procure para um abraço.

7. Teorias de conspirações é coisa que, em geral, não acredito, nem levo a sério. Para falar a verdade, minha primeira atitude é desacreditar, para depois, havendo comprovação razoável, eu eventualmente pensar no assunto.

8. Entendo a diferença entre o contato privado e os grupos. O que você me mandar no privado só será compartilhado com sua autorização, fique tranquilo. Já os grupos são, por definição, públicos. E parabéns e felicitações cabem melhor no privado.

9. Se tem algo que eu não possa lhe dizer pessoalmente por vergonha ou medo, eu jamais lhe direi nas redes sociais. E espero que você faça isso também. E prefiro olhar nos olhos e dizer o que é importante – sempre há mais riqueza e sinceridade assim.

10. Eu me dou a liberdade de interpretar emojis, emoticons e textos com abreviaturas como eu bem quiser. Tanto os que posto quanto os que recebo. Então, se for diferente de sua intenção e compreensão, tente outra técnica.

11. Bom senso e coerência são atitudes que eu valorizo muito. Tanto na vida ao vivo, quanto nas redes. Também ignoro e relevo erros de gramática ou outros equívocos de digitação. Mas tudo tem limite.

12. Acredite: eu tenho Bíblia – até várias edições. Então não transcreva textos bíblicos. Eu posso ler lá. Caso queira compartilhar alguma lição espiritual, apenas faça a citação do ‘endereço bíblico’. E se quiser tirar dúvidas, não se acanhe em postar e perguntar. Eu reconheço que não tenho resposta para tudo – isso só Jesus –, mas tenho o maior prazer e satisfação em pesquisar, responder e compartilhar o aprendizado.

EM TEMPO: Não substitua sua devocional bíblica diária por uma leitura de rede social.

SDG – 1Co 10:31

sexta-feira, 14 de junho de 2019

O CULTO PRESCRITO POR DAVI


Então disse Davi a toda a assembleia:
“Louvem o SENHOR, o seu Deus”.
E todos eles louvaram o SENHOR,
o Deus dos seus antepassados,
inclinando-se e prostrando-se
diante do Senhor e diante do rei
.
(1Cr 29:20)
O texto destacado aqui se refere a uma celebração dirigida por Davi já nos seus últimos dias quando comemorou as dádivas para a construção do templo e anunciou Salomão como seu sucessor.
O rei sabia que seus dias estavam chegando ao fim e ainda neste momento demonstrou algumas de suas melhores características: como administrador hábil, nomeou Salomão de maneira inquestionável seu sucessor político e comandante-em-chefe das tropas militares; e como adorador fiel convocou o povo para uma celebração e adoração ao Senhor.
Esta cerimônia de louvor e adoração comandada pelo rei Davi se configurou como uma espécie de modelo ou projeto de culto que deveria ser prestado no santuário de Jerusalém a ser construído. Dela é possível apontar alguns destaques.
Em primeiro lugar, embora Davi soubesse que a construção do templo central provocaria uma mudança radical no modelo de adoração ocorrida até então, ele tinha a consciência de haver uma linha de continuidade entre o culto em Jerusalém e a adoração dos antepassados. Tanto no próprio louvor proferido pelo rei como pela resposta do povo há uma referência ao Deus dos pais (veja mais 1Cr 29:10).
Embora muita coisa nova estivesse acontecendo, o culto no templo não deveria ocorrer como um rompimento definitivo com as manifestações de Deus no passado. Na adoração de Davi estava o reconhecimento de que o mesmo Deus que o tinha escolhido e conduzido até aquele momento era o Deus que tinha se revelado ao patriarca Israel.
Isto daria historicidade e legitimidade ao seu culto, e Davi sabia da importância de tais elementos em sua adoração.
Na celebração real também pode ser observado um oferecimento de ofertas. A motivação inicial do culto já incluía as ofertas.
Davi sabia que ofertar a Deus e ao seu templo era suficiente motivo para já celebrar, e ele o faz com mais oferendas e doações. Acompanhados de muito louvor e alegria, foram colocados no altar de Deus mais de três milhares de animais para serem sacrificados em holocausto.
Chama a atenção na narração em língua original que a expressão usada para o oferecimento no culto de Davi – que em nossa língua é traduzida por holocausto – significa um sacrifício queimado totalmente (o verso é 1Cr 29:21). É como se o texto bíblico estivesse enfatizando que o oferecimento de Davi em seu culto era completo e que aquilo que o rei trazia para o Senhor em seu culto deveria ser para o próprio Deus apenas, sem esperar nada em troca.
Ainda precisa ser destacado que todo o culto oferecido pelo rei Davi está revestido de beleza e grandiosidade. Davi era uma artista – o que significava que sua alma era tocada pela beleza poética de forma diferenciada – além de que, como citado, aquela celebração deveria se constituir um modelo de culto para o futuro templo.
Tudo era muito belo, tudo era muito festivo. Aquilo era adoração na sua mais pura forma, com ofertas e cânticos diante de Deus. Se a alma estava prostrada em adoração diante de Deus, o corpo assim se posicionava e todo o culto se revestia da beleza da santidade de Deus – uma antecipação do esplendor do santuário que seria erguido (o próprio Davi no Sl 29:2 conclama a uma adoração assim).
E o texto descreve o desfecho deste culto: naquele dia comeram e beberam com grande alegria na presença do Senhor (1Cr 29:22).


terça-feira, 11 de junho de 2019

O SALTÉRIO E O SEU CONTEXTO LITÚRGICO



Paralelamente ao processo canônico que fez surgir e arranjou os diversos componentes do texto do Saltério, este livro foi o Hinário do Culto judaico de Jerusalém – principalmente no segundo templo. Em todos os momentos o Livro dos Salmos sempre esteve associado ao culto, que lhe serviu de inspiração e momento, e principalmente, além de manual e guia.
Mas não é só o culto formal no Templo que se utilizou dos poemas dos Salmos como forma de sua expressão. Toda a vida de adoração e de fé de judeus e cristãos foi influenciada por este texto. E a igreja cristã, desde o seu início, se utilizou do Saltério como guia de culto e adoração.
Embora estudiosos modernos tenham citado diferentes pontos de partida para os Salmos no contexto litúrgico, muitos parecem concordar com os já clássicos estudos do norueguês Sigmund Mowinckel (escritos em 1962) que afirmava a origem litúrgica do culto e dos salmos em Israel numa Festa da Entronização de Yahweh.
Ora, embora tal festa não esteja descrita ou ordenada explicitamente em parte alguma da tradição do AT, mas a ligação íntima entre os salmos e a liturgia é tida como certa por todos os comentadores.
Ainda o alemão Artur Weiser observa que no Saltério podem ser encontrados numerosos fragmentos da liturgia do culto e alusões a procedimentos cúlticos. E embora essas informações não nos permitam reconstituir nos detalhes a sequência da festa, mas revelam os elementos essenciais da tradição cúltica. O que pode nos indicar que o culto da festa da Aliança deve ser considerado o “contexto vital” (Sitz im Leben) da grande maioria dos salmos e dos seus gêneros literários.
São dos espanhol Luís Alonso Schökel estas palavras com as quais concluo:
Em geral, os salmos não expõem doutrina. Dirigindo-me a Deus, não o faço como mestre. E se ensino algo à assembleia, talvez como dirigente da liturgia, é para que se volte a Deus. Posso, na verdade, refletir em alta voz para proveito dos que me escutam, mas não para instruir a Deus.
... orar a Deus tem sentido e valor. No simples ato de orar, o homem crê fazer algo que vale a pena. Coloca-se num lugar de homem, humilde e nobilíssimo. Humilde, porque tem consciência de ser criatura perante o criador; nobilíssimo, porque se sabe interlocutor do Deus.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Doenças da Alma – ESCOLIOSE


A próxima doença que devo trazer para nosso conhecimento, reflexão e cuidados é a escoliose – ou "coluna torta" numa linguagem menos técnica. Como esse é um mal que, com facilidade, pode ser percebido visivelmente, desde os primeiros médicos gregos e hindus já havia prescrição e proposta de tratamento desta deformação física.
Ainda citando os termos técnicos, segundo a ABRACES, associação que cuida de pacientes com escoliose, ela pode ser definida como uma curvatura da coluna espinhal anormal, maior que 10º no plano coronal, podendo ser acompanhada de rotação das vértebras, apresentando-se como uma coluna em “S” ou em “C”.
Vamos ampliar um pouco nosso conhecimento. Ao citar a escoliose como uma doença que aflige a coluna, entendo ser apropriado também definir a coluna vertebral. Isso ajuda a entender o mal que a doença causa. Em termos gerais, a coluna vertebral é uma haste flexível formada pelas vértebras. Ela possui, entre outras funções, o sustentamento do corpo e a proteção da medula espinhal.
Observando então a vida e postura de muitos cristãos entre nossas igrejas, uma constatação é inevitável: a escoliose da alma é uma doença bastante recorrente. Visivelmente vários cristãos, membros de nossa comunidade de fé, estão com suas colunas espirituais tortas.
Independente das causas que levam a coluna espiritual do cristão a entortar – elas são variadas – o mal da escoliose espiritual pode ser listada em dois tipos de doentes: o primeiro grupo são das crianças e adolescentes na fé que, por problemas congênitos ou de má postura, desenvolvem um crescimento inadequado de suas estruturas ósseas da alma.
Sem uma formação adequada, as crianças na fé não conseguem manter o alinhamento de suas vidas e condutas espirituais e vão sistemicamente se entortando e deixando de apresentar um posicionamento saudável para um cristão.
O outro grupo de doentes, são os que, mesmo já mais maduros na fé, porém a postura cristã continuadamente errada e o sobrepeso que a vida lhes impõe faz com que suas colunas espirituais se deformem a tal ponto que nem sequer mais podem se manter eretos, estáveis e adequadamente sustentados.
Seja qual for o caso, a escoliose da alma provoca assimetria nos ombros e cintura espirituais, levando a que o corpo penda para um lado ou outro, nunca mantendo o equilíbrio sadio; também dificuldade motora, o que implica em perder liberdade e agilidade para seguir e administrar sua vida cristã. Além da óbvia deformação estética!
Prosseguindo o problema, outras complicações podem ser acrescentadas à doença como dores na alma, algumas até intensas; sensação de fadiga, principalmente depois de prolongado período de inércia espiritual; comprometimento da respiração, com a falta do fluir do Espírito; e até danos na medula e sistema nervoso espiritual.
Mas não devemos falar dos males sem lhes citar a cura. A escoliose espiritual caracterizada como má formação – ou deformação – da coluna precisa urgentemente ser corrigida. E a terapia – principalmente preventiva – foi recomendada pelo apóstolo-médico Paulo a Timóteo: Que nada lhe entorte em sua infância e juventude, mas mantenha a postura exemplar na palavra, no comportamento, no amor, na fé e na pureza (a receita está em 1Tm 4:12 – aqui me dando liberdade a uma leitura própria).
Se porém o problema da escoliose espiritual é cansaço e fadiga da coluna por excesso de peso, sobrecarga, postura ou exposição espiritual inadequada, o remédio é direto e oferecido pelo nosso Médico por excelência: Todos vocês que sofrem com escoliose espiritual, cansados de tanta carga, venham a mim e deixem aqui seu sobrepeso, levem apenas a minha leve e suave mochila (o texto é conhecido e está em Mt 11:28-30).
(Na imagem lá em cima, um detalhe do conhecido “Uomo vitruviano” desenhado por Leonardo da Vinci, provavelmente em 1490, e que atualmente faz parte da coleção da Gallerie dell'Accademia em Veneza / Itália)

terça-feira, 4 de junho de 2019

DUAS CITAÇÕES PATRÍSTICAS SOBRE O CULTO CRISTÃO


Justino Mártir (100-165) –
No capítulo I de sua Apologia (c. 150) Justino apresenta a visão que tinha do culto cristão. Em especial no verso LXVII está descrito o que seria a ordem ou estrutura de uma celebração litúrgica na igreja daquele período:
Aliás, no transcorrer dos dias, nunca deixamos de renovar entre nós estas lembranças. (...) Em nossas oblações, invariavelmente, louvamos o Criador de todas as coisas em nome de Jesus Cristo seu Filho e do Espírito Santo. No dia denominado de dia do sol há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto na cidade como no campo. Ali se dá a leitura das Memórias dos apóstolos ou das Escrituras dos profetas até onde o tempo permite. Terminada a leitura o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exortar à imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos levantamos e oramos juntos. Terminada a oração, do modo como já foi dito, traz-se pão e vinho com água. O presidente dirige a Deus orações e ações de graças, o povo aquiesce com a aclamação: Amém.
Reunimo-nos no dia do sol por ser o primeiro dia da semana, dia em que Deus, afugentando as trevas do caos [matéria], criou o mundo, neste dia também nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, pois crucificaram-no na véspera do dia de Saturno, e no dia posterior ao dia de Saturno, ou seja, no dia do sol, Cristo apareceu aos apóstolos e discípulos, ensinando-lhes estas coisas que, para vossa consideração, vos temos transmitido.
Hipólito de Roma (170-235) –
Citação extraída da Tradição Apostólica (c. 225) de Hipólito que ficou conhecida como a “Liturgia da Igreja Egípcia”:
Por esta razão, nós, em memória da sua morte e da sua ressurreição, oferecemos-te este pão e este cálice, dando graças a ti porque nos fizeste digno de apresentar-nos a ti e de servir como teu sacerdote. E te imploramos te dignes enviar teu Santo Espírito sobre a oblação de tua santa Igreja, concedendo que todos os teus santos que dela participem sejam feitos um para a plenitude do Espírito Santo e a confirmação de sua fé na verdade. Assim possamos louvar-te e glorificar-te por Jesus Cristo teu Filho [servo] através de quem seja glória e honra a ti, ao Pai e ao Filho com o Espírito Santo em tua santa Igreja, hoje e eternamente. Amém.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

JESUS É O MODELO DE FAMÍLIA


O mês de maio é tradicionalmente denominado como o Mês da Família. Então, também é costume, durante este mês de maio, refletir sobre questões relacionadas às nossas famílias, buscando encontrar modelos bíblicos que nos servissem de paradigmas para nossas vidas diárias.
Hoje, neste último dia do mês e crendo ser a igreja compreendida como uma família em Deus, quero partir da instrução paulina para refletir: “sede imitadores de Cristo como filhos amados” (Ef 5:1).
Sendo a igreja uma família, Jesus Cristo é o nosso modelo; e é deste modelo filial que busco ouvir as palavras: depois de ter multiplicado pães e peixes, e enquanto apresentava à multidão a sua missão, Jesus disse explicitamente: “eu desci (…) para fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 6:38).
O próprio Jesus esteve entre os homens com a intenção exclusiva de cumprir aquilo que lhe foi atribuído pelo Pai que lhe enviou; e nós que queremos seguir o seu modelo devemos conduzir a nossa vida para que ela seja também exclusivamente um cumprimento da vontade do Pai.
Tudo o que somos e queremos deve sucumbir ante a vontade soberana de Deus que deve imperar em nossa vida.
Adiante, na sua Oração Sacerdotal (Jo 17), Jesus foi além quando se apresentou como modelo daquilo que espera que façamos. Ele falou sobre a missão dos discípulos, falou da santidade que se deve ter mas apresentou o objetivo disto tudo: “a fim de que sejam um; e com és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (verso 21).
Jesus rogou ao Pai que fôssemos iguais a ele: assim como há unidade entre Deus-Pai e Deus-Filho, deve haver unidade real entre nós – filhos – e nosso Pai celeste, e também entre nós mesmos. Esta é a vontade de Deus e este é o modelo proposto por Jesus para a igreja – família de Deus.
Tomemos o modelo de Jesus como nosso padrão. Assim seremos uma família segundo a vontade do Pai, para sua glória.


terça-feira, 28 de maio de 2019

PLÍNIO E O CRISTIANISMO PRIMITIVO


Caio Plínio, conhecido como Plínio o jovem, foi um orador, poeta, jurista e político romano que viveu entre os séculos I e II da era cristã. Em 111 d.C. ele foi nomeado governador da Bitínia (atual Turquia). Chegando lá, teve de lidar com diversas situações relativas à população e a administração, entre eles estava um grupo até então desconhecido para ele e que eram conhecidos como cristãos. Foi então que ele resolveu escrever para o imperador Trajano expondo a situação, indicando as providências que havia tomado e pedindo apoio do Império.
Na carta, além reconhecer que verdadeiros cristãos nunca “veneravam vossa imagem e as estátuas dos deuses, amaldiçoando a Cristo”, Plínio assim descreveu as práticas e costumes cristãos, e o seu culto nos seguintes termos:


(…) quod essent soliti stato die ante lucem convenire, carmenque Christo quasi deo dicere secum invicem seque sacramento non in scelus aliquod obstringere, sed ne furta ne latrocinia ne adulteria committerent, ne fidem fallerent, ne depositum appellati abnegarent. Quibus peractis morem sibi discedendi fuisse rursusque coeundi ad capiendum cibum, promiscuum tamen et innoxiu.


(…) em reunir-se regularmente em certo dia antes do nascer do sol, entoar alternadamente entre os presentes um hino em honra de Cristo, como se de um deus se tratasse, e comprometer-se mediante juramento a não perpetuar alguns tipos de crimes, como se comenta, a não cometer furto nem roubo, nem adultério, a não faltar com a palavra dada e a não se negar a restituir um depósito quando chamados a pagar. Também manifestaram que, uma vez cumpridos esses ritos, tinham o costume de retirar-se e voltar a se reunir mais tarde para celebrar com comida, composta, ao contrário do que foi dito, de alimentos normais e inocentes.


Estas considerações do governador nos dizem basicamente duas coisas sobre a prática do culto cristão primitivo:
Uma – que o culto durante o período da igreja primitiva acontecia frequentemente nas primeiras horas do dia num “certo dia” (stato die), o que pode nos levar a interpretar como significando o domingo. E sempre era conduzido por cânticos de adoração a Cristo, considerando-o com verdadeiro Deus – sendo isso o que incomodou ao imperador e ao seu culto.
E outra – que as reuniões cristãs no primeiro século consistiam de celebrações em que se comia uma refeição completa em comum. Hoje entendemos que se tratava daquilo que denominamos de o partir do pão ou a Ceia do Senhor onde não apenas reavivam a memória do sacrifício de Cristo como comprimento da aliança e das profecias antigas e como a certeza das vindouras.

Observe que estas duas características do culto primitivo, mesmo representando ritos diferentes, mas deveriam ser compreendidas como compondo uma mesma estrutura de culto. Além do mais, os dois ritos em conjunto, como marcas do culto no período da igreja primitiva, indicavam que ela – a igreja – procurou destacar em sua celebração tanto as afirmações e anúncios contidos na Ceia do Senhor (como destacou Paulo na sua instrução em 1Co 11:26) quanto sua crença na divindade daquele a quem adoravam (Cl 1:15-20 e Hb 1:6).

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Doenças da alma - AUTISMO


Outra doença da alma que deve merecer atenção nessa nossa série de reflexões é o autismo. E antes que eu diga algo errado, deixe-me passar a palavra à APA – Associação Americana de Psiquiatria que identificou o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) como "um transtorno complexo do desenvolvimento que pode causar problemas com o pensamento, o sentimento, a linguagem e a capacidade de se relacionar com os outros".
Então aqui, nessa reflexão sobre o autismo, vou evitar o termo "doença da alma" e preferir "transtorno da alma". E nesse aspecto devo acrescentar que, embora diferente das moléstias com as quais temos nos deparado nesta série, por não se apresentar com infecções, rupturas ou danos físicos, o autismo precisa ser listado quando se aborda os males humanos.
Como a própria definição já indica, o autismo é um transtorno que faz o portador não desenvolver a capacidade de se relacionar adequadamente com as pessoas e o mundo que o cercam, tendo dificuldade até de falar e interagir. Além de que, é comum a incidência de movimentos estereotipados e repetitivos e certa deficiência mental.
Causas genéticas e fatores ambientais são citadas pelos estudiosos modernos como responsáveis pelo desenvolvimento do autismo e, sendo considerado um distúrbio crônico, não há tratamento padrão ou garantias de cura para este transtorno.
Indo além em nossa observação sobre o autismo da alma, ele é um transtorno do desenvolvimento grave que tem prejudicado a capacidade de muitos cristãos de se comunicarem e interagirem, tanto com o próximo e irmão e até com o Deus-Pai.
Algumas vezes, este transtorno passa despercebido na vida de muitos cristãos – estamos tão ocupados com a vida e a agenda eclesiástica que nem notamos os outros! Mas penso que a ocupação e correria da vida e agenda são apenas disfarces para o real problema: estamos acometidos de autismo espiritual.
Sei que transtornos como esse começam a se manifestar logo na infância, e se não tratados adequadamente podem se desenvolver em diversos graus de intensidade, dos mais leves com os quais com um pouco de cuidado é possível uma boa convivência, até mais graves que impossibilitam uma saudável interação cristã.
Há cristãos que na infância espiritual já manifestam este transtorno de desenvolvimento. Certamente eles terão dificuldade em desenvolver uma vida espiritual adequada que os faça interagir e se desenvolver em meio à comunidade e comunhão dos santos.
Mas quando os sintomas começam a aparecer, só há uma providência a ser tomada. Buscar a ajuda adequada do único terapeuta capaz de, não somente identificar o transtorno no seu nascedouro, como também promover o tratamento correto que possa mais que minimizar os efeitos, mas eliminá-lo por completo garantindo uma vida de relacionamentos espirituais saudáveis.
Jesus é o terapeuta. Só ele tem o domínio completo de todas as técnicas de cura para qualquer transtorno. E o seu tratamento é todo baseado no amor – mas não um amor-sentimento qualquer – o amor como somente ele é capaz de demonstrar.
Observe as caraterísticas do tratamento amoroso deste santo terapeuta. Em primeiro lugar ele é o único que tem amor suficiente para comprometer sua vida por um autista que não consegue devolver este amor (alinhe Jo 15:13 e Rm 5:7-8).
Sabe mais, a terapia amorosa promove realmente a cura completa de todo transtorno, tenha ele a origem que tiver, o alcance que tiver, as implicações e profundidade que tiver. Jesus, quando inicia o tratamento, o faz por completo – a cura é total e definitiva, pois ele vai até o fim (veja o que diz Jo 13:1).
E finalmente. Nada se compara à promessa de que, por mais estragada que esteja uma vida cristã e seus relacionamentos, Jesus fará novas todas as coisas, inclusive aquelas vidas que se fecharam transtornadas. É verdade, o TEA – Transtorno Espiritual do Autismo não mais causará dano (considere Rm 6:14 e principalmente a palavra divina escrita em Ap 21:5).


terça-feira, 21 de maio de 2019

UMA PRIMAZIA CRISTÃ - Bonhoeffer e a Graça preciosa


Em dois textos Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) expõe seu conceito fundamental sobre aquilo que é realmente importante para o serviço litúrgico da igreja e para o cristão no mundo: Discipulado (publicado iniciantemente em 1937 – em alemão: Nachfolge) e Ética (obra que não chegou a ser concluída).
Inicialmente, preciso destacar que a percepção de Bonhoeffer vai além de apenas uma vida de devoção pessoal exclusiva, a vida litúrgica do cristão e da igreja no mundo deve partir do contato sagrado com o Jesus encarnado e crucificado para se transformar em ações concretas que façam diferença na sociedade.
Foi neste direcionamento ele escreveu sua teologia opondo dois conceitos a partir do tema da graça como peça fundamental do universo doutrinário cristão: a graça barata e a graça preciosa.
Por graça barata, Bonhoeffer entende como sendo aquele sentimento de relaxamento cristão por se acreditar que em se obter a graça divina isto nada implica na vida cotidiana do cristão. Afirma ainda que este tipo de concepção da graça é fruto de um culto do literalismo que prega um perdão sem arrependimento e um batismo sem disciplina. Esta graça não faz diferença na vida do cristão e, por isto mesmo, não faz nenhuma diferença na atuação da igreja no mundo.
Do outro lado está o conceito de graça preciosa, por ter custado a Deus a vida de seu Filho. Esta graça exige disciplina de um comprometimento exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo. Ou seja, a vida litúrgica do cristão e da igreja tem que ser de um comprometimento ético disciplinado que indique o reflexo de um seguir a Jesus Cristo.
Para Bonhoeffer, este conceito de ética deveria ser a expressão exata de experiência de Cristo. Na vida do Jesus encarnado, crucificado e ressurreto está toda demonstração do engajamento cristão que se espera do discípulo.
Na ética do discipulado, que implica seguir a Jesus, está expresso também um dos conceitos mais caros para a teologia de Bonhoeffer: a relação entre o último e o penúltimo. O último é, e sempre deverá ser, o evento justificador da parte de Deus. A palavra justificadora de Deus jamais abandona sua posição de última palavra.
É no processo de justificação oriundo da graça de Deus que o ser humano atinge o seu fim último, fim este em relação ao qual tudo o mais se torna transitório e penúltimo. Daí que a liturgia disciplinada do cristão deve ser sempre na direção e na intenção do último através da concretização de penúltimos.
Nas palavras do próprio Bonhoeffer: Derradeiro e penúltimo estão intimamente ligados. Cabe aqui, pois, reforçar o penúltimo através de uma pregação mais enfática do derradeiro, bem como proteger o derradeiro através da preservação do penúltimo.
Mas, ainda refletindo na obra sobre o discipulado, depois de compreender sobre os conceitos de graça e suas implicações, Bonhoeffer apresenta um estudo sobre o Sermão da Montanha para compreender que a Comunhão dos Santos não é a comunhão ideal de pessoas isentas de pecado e perfeitas (…). Ao contrário, é a comunhão que se mostra digna do Evangelho do perdão.
Ou seja: A disciplina permeia toda a vida da Igreja. Nela existe uma ordem de sequência fundamentada no serviço da misericórdia. A origem de qualquer prática disciplinar é a pregação da Palavra de acordo com as duas chaves. Ela não se restringe à reunião litúrgica, porquanto o oficiante, em nenhuma circunstância, está licenciado de sua missão. “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta como toda longanimidade e doutrina.” (2 Tm 4.2) Esse é o início da disciplina eclesiástica.