terça-feira, 19 de novembro de 2019

GILBERTO FREYRE E O PROTESTANTISMO BRASILEIRO


Gilberto Freyre, natural de Recife – Pernambuco, foi um dos intelectuais mais brilhantes que o Brasil conheceu no século XX.  Iniciou sua educação formal no Colégio Americano Batista do Recife e depois concluiu seus estudos superiores nos Estados Unidos, onde passou a estudar e publicar sobre o Brasil a partir do ponto de vista sociológico e antropológico.
Em sua palestra na Conferência do Nordeste, proferida em 1962 no Recife e intitulada: “O artista: servo dos que sofrem”, Gilberto Freyre assim analisou o protestantismo brasileiro:

É curioso que até agora o cristianismo evangélico só tenha concorrido salientemente para enriquecer a cultura brasileira com insignes gramáticos (...).  É tempo de o cristianismo brasileiro evangélico ir além e concorrer para esse enriquecimento com um escritor do porte e da fama revolucionária, eu diria também, de Euclides da Cunha; com um poeta da grandeza de Manuel Bandeira; com um compositor que seja outro Villa-Lobos, que componha baquianas brasileiras que sejam a interpretação ao mesmo tempo evangélica e brasileira de Bach.  Também um caricaturista ou teatrólogo revolucionariamente evangélico que pela caricatura ou pelo teatro denuncie os abusos dos ricos que para conservarem um privilégio de classe pretende se fazer passar por defensores ou conservadores de tradições religiosas ou mesmo do que se intitula às vezes, pomposa e hipocritamente, civilização cristã (...).  Acompanharei desde agora com maior simpatia aquelas suas atividades cristocêntricas que se desenvolvam em benefício do Brasil, e adaptando-se ao Brasil.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

NÃO TENHO PRATA NEM OURO


Depois da narrativa dos eventos acontecidos na manhã de Pentecostes (Atos capítulo 2), o capítulo seguinte se inicia afirmando que certo dia Pedro e João estavam subindo ao templo na hora da oração, às três horas da tarde (At 3:1 – NVI).
A referência ao templo nesse capítulo de Atos dos Apóstolos (e em todo o livro) é certamente ao templo judaico em Jerusalém e não a uma construção destinada ao culto cristão.  Mas o fato de os discípulos de Jesus o frequentarem e manterem sua piedade pessoal buscando aquele local de culto para suas orações é significativo, pois nos indica que mesmo tendo experiências íntimas e profundas com Deus, o local de adoração comunitária e pública não deveria ser esquecido pelos fieis (lembre Hb 10:25).
Vejamos o que diz o texto.
Numa destas idas ao templo, Pedro e João se encontraram com um aleijado de nascença que estava ali para mendigar (confira At 3:1-2).  Embora aquela fosse uma cena corriqueira e que após a descida do Espírito o grupo de seguidores de Cristo assumisse uma atitude coletiva de cuidado em relação aos necessitados, os apóstolos pararam e deram atenção especial àquele suplicante.
Como o próprio Jesus tinha feito no seu ministério terreno, ainda que visando atingir a coletividade dos seres humanos, ele sempre encontrou tempo e parou para dar atenção individualizada a quem necessitava.  Da mesma forma, os apóstolos pararam para oferecer auxílio particular ao mendigo aleijado na porta do templo.
O mais importante deste episódio, contudo, é a sequência que vem a seguir.
No verso seis: os apóstolos ofereceram a solução para o problema do aleijado – não uma solução paliativa ou uma simples esmola.  Não seria a prata ou o ouro que mudaria aquela situação.  O que Pedro e João ofereceram foi a transformação radical, a cura e solução definitiva, por que trataria da causa e não da consequência.  Se aquele homem mendigava por que era aleijado e não podia trabalhar, então agora ele ficaria livre de sua deficiência e poderia trabalhar para seu próprio sustento (o texto de Ef 4:28 opõe trabalho a furto, mas a instrução do sustento pode ser aplicada aqui).
Disse Pedro: "Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso lhe dou.  Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, ande"  (At 3:6).
No nome de Jesus a cura foi operada (veja ainda o verso 16 pouco adiante).  De forma objetiva e prática, Pedro anunciou que todo poder pertence ao Senhor e somente no nome dele seus discípulos realizam a obra (Jesus garantiu isso em Jo 14:12-14).  A cura foi operada – o milagre aconteceu somente no poder que há no nome de Jesus.  E isso deve nos ensinar que o mesmo poder ainda está ao alcance da igreja quando ela age na autoridade do mesmo nome (confira ainda Cl 3:17).
O que aconteceu a seguir (leia o verso oito) foi que o antes mendigo aleijado, agora curado, de um salto começou a andar e principalmente, entrou no templo saltando e louvando a Deus.  O resultado da manifestação poderosa através do nome do Senhor Jesus deve ser sempre a glorificação de Deus (Paulo diz isso em 1Co 10:31).  E mais: toda a vida e ação, bem como a pregação e o exercício de todo e qualquer dom ou manifestação espiritual no meio da igreja deve levar necessariamente à exaltação e à glória do Senhor (veja que na profecia de Isaías o Senhor já anunciava que não repartiria sua glória com ninguém – Is 42:8 e 48:11).
E um último destaque é que Pedro e João, diante da admiração do povo no pátio no templo, não perderam a oportunidade de anunciar o evangelho: Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados (At 3:19).
Este exemplo precisa ser seguido por todo discípulo de Cristo em qualquer tempo: o objetivo principal da igreja é anunciar o evangelho e desafiar as pessoas a tomarem uma decisão diante de Cristo mediante a confissão e arrependimento de pecados (ainda é paulina a instrução enfática de 2Tm 4:2).

terça-feira, 12 de novembro de 2019

PARA ALÉM DE ATOS DOS APÓSTOLOS


O livro de Atos dos Apóstolos desenvolve um movimento que inicia em Jerusalém e aponta para Roma, a capital do Império.  É interessante, porém, alargar um pouco nossa visão histórica e perceber que o cristianismo primitivo, ainda no primeiro século, atingiu muitos outros lugares.
Embora o Livro de Atos se refira a números de convertidos, eles são sempre genéricos (em At 2:41 e 4:4 fala-se em três e cinco mil almas, porém o mais comum é multidão, como em At 4:32; 6:2 e 14:1), o que não nos permite traçar uma estatística exata do cristianismo primitivo.  Contudo, parece claro para a história que várias outras comunidades se formaram desde muito cedo a partir da pregação dos demais discípulos e de outros cristãos anônimos.
Além das grandes igrejas em Jerusalém e Antioquia e das igrejas fundadas pelo ministério de Paulo em suas viagens, há ainda outras igrejas indicadas em Atos apenas como uma referência indireta: no dia de Pentecoste muitos dos convertidos não eram de Jerusalém e devem ter levado a mensagem ao voltarem para sua casa (em At 2:9-11).  O eunuco igualmente deve ter levado a mensagem à Etiópia (em At 8:26-39).  Ao chegar em Damasco, Saulo já achou uma comunidade (em At 9:19).  E Pedro batizou vários na casa de Cornélio em Cesareia (em At 10:47).
No próprio NT temos indicação de igrejas que Atos não se ocupa em descrever: Pedro cita igrejas em Ponto, Galácia, Capadócia, províncias da Ásia e Bitínia (veja 1Pe 1:1); as sete igrejas do Apocalipse também são uma boa indicação (confira em Ap 1:11); e Paulo se refere a igrejas fundadas em Ilírico (em Rm 15:19), em Cencréia (em Rm 16:1), em Laodicéia (em Cl 3:15), e ao longo da Galiléia (em 1Co 16:1); como também a igreja dos colossenses que não é citada no Livro de Atos dos Apóstolos.
Outras comunidades cristãs fora da Palestina, que não são registradas, nem em Atos nem nas epístolas, também conheceram o evangelho desde aquele século: na Síria (igreja bilíngue, grego e siríaco); nos Bálcãs (atual Sérvia); em Alexandria no Egito (terra de Apolo – igreja de língua copta); no norte da África (atual Tunísia e Argélia) e na Espanha.
Para além das fronteiras romanas, houve igrejas em Partos e na Índia (segundo a tradição, fundada por Tomé); entre os citos (por André) e na Armênia (o primeiro país oficialmente cristão); e outras pequenas comunidades ao longo da Mesopotâmia. Contudo, infelizmente, várias destas igrejas cristãs não sobreviveram além do II ou III séculos.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

ELE PERMANECE FIEL


A frase "Deus é fiel" se tornou bem popular nestes dias.  Ela está escrita e decalcada em vários lugares: de estampas em camisas a adesivos para carros.  Contudo, é bom observar que mais que uma frase de efeito, aqui está uma afirmação básica de minha fé e esperança: o Deus em quem confio e no qual espero é fiel. 
Veja comigo então o que isto quer dizer.
Em 2Tm 2:13 está escrito: se somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.  Neste verso está resumida toda a razão da confiança e esperança que tenho em um Deus fiel.
Duas afirmações me saltam do texto:
Primeira: a fidelidade de Deus não depende de minha conduta ou posição.  Deus é fiel para comigo apesar de, eventualmente, eu não conseguir manter minha fidelidade para com ele.  Não há uma relação de causa e efeito entre a atitude de Deus e minha resposta.
Segunda: na mesma linha da anterior, é da essência da natureza divina ser fiel.  Deus é em si mesmo fiel: o seu modo próprio de ser é a fidelidade, ou seja, se deixar de ser fiel, deixa de ser Deus – este atributo divino é inquestionável.
E então, que devo fazer diante de um Deus que é essencialmente fiel?  É bom, ouvir o conselho do salmista: Entregue seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá (Sl 37:5).
A palavra do salmista pode ser percebida nos dois verbos:
a) Entregue – sendo Deus fiel então posso entregar meu caminho ao Senhor e deixar que ele o conduza para o melhor destino; e
b) Confie – ainda reconhecendo a fidelidade divina, resta-me apenas confiar e descansar inteiramente no Salvador que ele me valerá.
Deus é fiel!  Aleluia!  Que esta não seja apenas mais uma frase em minha vida; mas a expressão de louvor e gratidão de uma alma que aprendeu a se entregar e confiar inteiramente no Senhor.
Para a glória dele.  Amém.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

MARCAS DO MEU PAI




Ontem celebramos um culto em ação de graças pelo aniversário de minha irmã.  Ao final da festa, enquanto ficávamos por ali gastando os últimos fiapos de conversa, flagramos essa imagem aí: meu pai, num canto à parte com a velha amiga – uma Bíblia.
Filhos e neto se voltaram para a cena (o registro foi de André, o neto, em seu celular).  Apesar do peso dos anos, do brilho na mente cada vez mais ausente, do opaco insistente da visão, a intimidade de uma vida dedicada ao Livro ninguém apaga.
Lá estava ele como quem busca mais um diálogo com Aquele que sempre teve tanto a lhe dizer – a nos dizer.
Passei a madrugada tentando achar as palavras certas para citar e reconhecer o registro do legado incalculável do meu pai mas o novo dia amanheceu sem que as tenha encontrado. 
– Como colocar numa frase toda uma vida?
Ali estava o Pastor Jabes Nogueira e uma Bíblia.  Simplesmente eles.
E por me faltarem expressões, vou me permitir fazer uma citação.  Entendo que o Logos na canção "Marcas de Valor" consegue dizer com sua poesia melhor que qualquer descrição.
Esse tem sido meu pai:

Iguais a eles são bem poucos hoje em dia
Que realmente andam perto do Senhor
Que, já libertos de seus vícios e pecados, vivem como perdoados
Propagando a salvação
São tais pessoas que são fortes, sendo fracas
E, por isso, deixam marcas para outros como eu
Andarem perto do Senhor, verem milagres de amor
Pisar em marcas.

Oh!!! Glória!!!

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

HABITANDO NA SOMBRA


O Salmo 91 é certamente um dos mais conhecidos do Saltério.  Sem dúvida muitos já utilizaram suas palavras como expressão de sua súplica em momentos de angústia e temor.  Realmente a sua poesia é rica e seu conteúdo inspirado: Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo... Estas palavras nos dão conforto e alívio.
Buscando isto, quero me deter um pouco em duas destas palavras que se destacam no texto – ambas no verso um: entendo que elas nortearão todo o salmo.
SOMBRA – esta palavra pode ter duplo sentido.  Em diversos textos sombra está associada à morte; mas aqui no Sl 91 ela é sinal da proteção divina.  A referência é ao cuidado de uma grande ave que acolhe sua ninhada sob a proteção de suas poderosas asas. 
Na mesma linha, o Sl 57:1 expressa a oração do salmista suplicando pela sombra divina no momento de calamidade.
É bom saber que seja qual for a circunstância, ainda que um sol causticante, seco e desértico venha a me assolar, posso encontrar abrigo sob as asas do Senhor. 
Como é reconfortante ter uma sombra acolhedora onde é possível descansar das labutas desta vida!
HABITAR – também este verbo pode oferecer diversidade de interpretações.  Porém o que parece claro no salmo é que se faz uma mesma referência ao Sl 23:6.  Mais do que simplesmente passagens esporádicas diante do Senhor, é fundamental habitar – fazer morada – nos átrios do Senhor.
Não há outro lugar melhor que estar na presença divina.  E necessário que se viva nesta presença.  Toda a proteção da sombra de Deus pode ser dispensada para aqueles que habitam em sua presença.
Somente quando verdadeiramente habitamos na sombra Altíssima do Onipotente é que experimentaremos o cumprimento da promessa contida no último verso: Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação (Sl 91:16).

terça-feira, 29 de outubro de 2019

RUSSELL SHEDD E A ADORAÇÃO BÍBLICA

Apesar de não ser brasileiro de nascimento, o Dr. Russell P. Shedd (1929-2016), desenvolveu o seu ministério missionário e acadêmico no Brasil por várias décadas.
Depois da publicação de várias outras obras de caráter mais exegético-teológica, em 1987 veio à luz a obra Adoração Bíblica que, segundo é dito pelos editores no prefácio, tinha por objetivo levar os que acham a “rotina dominical vazia” a repensarem “todas as nossas idéias sobre o culto e a verdadeira adoração ao soberano Deus”.
Assim se estrutura o livro:

Capítulo I – O culto e a Adoração que Deus almeja
Capítulo II – O Vocabulário Bíblico
Capítulo III – A essência do Culto na Bíblia
Capítulo IV – A adoração e os sentidos
Capítulo V – O preparo para a adoração
Capítulo VI – A prática da adoração
Capítulo VII – Os efeitos da adoração
Capítulo VIII – Exemplos de adoração
Capítulo IX – Obstáculos à adoração
Capítulo X – A adoração na Igreja contrastada com a do Antigo Testamento

Vejamos um pouco sobre o pensamento de Shedd expresso no livro.
A base de toda a argumentação apresentada por Shedd é que toda expressão cultual e litúrgica cristã é motivada pelo fato de que “Deus ordena que o adoremos”.  A adoração bíblica é sempre uma resposta do crente obediente de estar na presença de Deus buscando obedecê-lo e comungar com ele daquilo que lhe foi feito em Cristo Jesus. 
Citando um escritor desconhecido, ele afirma que “a adoração transforma o adorador na imagem do deus diante do qual ele se curva”, o que o leva a refletir sobre a adoração na “igreja secularizada” onde é comum “professar a fé em Cristo, mas não se preocupar em expressar amor a Deus, que exige toda a sua força”. 
O que leva ao questionamento sobre se a Igreja no Brasil tem feito de sua adoração e liturgia alicerces para a suas vidas cotidianas.  Ao que o próprio Shedd responde:

Dividimos nossas vidas em dois compartimentos.  Um, envolvendo nossas atividades religiosas, exemplificadas pelo nosso cantar, orar, falar e testemunhar; outro envolvendo todas as atividades não religiosas: nossa conversa, sociabilidade, tempo de trabalho e lazer, sentados à mesa, ou atentos aos programas de televisão.  Uma dicotomia notável caracteriza a vida daqueles que reivindicam comunhão com Deus, afirmando ser residência do Seu Espírito.

Para Shedd, esta compartimentalização da vida do cristão secularizado é a completa desvirtuação do sentido próprio da adoração bíblica, que propõe a união entre Deus e seres humanos, união não somente expressa na liturgia mas que deve se estender em todos os aspectos da vida do crente,

Porque essa união sincera com Deus, em si mesma, juntamente com a prontidão em obedecer e adorar a Deus de modo aceitável, o conduz a louvá-lo através de seu ser e a glorificá-lo por meio de todos os seus atos.

Também deve ser notado que Shedd compreende a adoração bíblica não se revestindo somente se obrigações e responsabilidades.  Tem que ser prazerosa.  Ele cita Agostinho: “Deus encontra prazer em nós quando encontramos prazer nele”.  Assim, Shedd compreende com sendo estes os efeitos da adoração:

1.      Segurança;
2.      Comunhão e reconhecimento mútuos;
3.      Santificação;
4.      Visão transformada;
5.      Evangelização;
6.      Preocupação com a alegria de Deus.

Relacionando a liturgia com a responsabilidade cristã no mundo, Russell Shedd conclui que a adoração cristã traz implicações claras:

As reuniões públicas da igreja devem ter constantemente este objetivo em vista.  Seus membros, ao participarem da liturgia, devem ser estimulados a praticar atos de amor agapë e boas obras (Hb 10:24).  Reunida ou dispersa, a Igreja deve ser uma comunidade glorificadora.  Apenas esta adoração de duas faces é digna dele, que Se entregou pela Igreja com a intenção de garantir a sua perfeição (Ef 5:27). (...)  Pois não somos de nós mesmos, mas fomos comprados por um preço (1Co 6:20), e isto significa que os cristãos têm tanto tempo livre quanto os escravos!  Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (1Co 10:31).

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

SABEDORIA E MILAGRE


Duas linhas disputam a primazia das idéias do ser humano de hoje: de um lado o conhecimento representado pela ciência e por outro a fé exposta na religiosidade.  Com ênfases diferenciadas e apelos mais ou menos populares, a nossa cultura nos ensinou que tudo deve passar ou pelo crivo do que dominamos pelo saber ou pelo que subjugamos pelo crer.
Mas esta dualidade não é novidade.  O apóstolo Paulo parece que já enfrentava questões assim quando se debatia com gregos e judeus em seu trabalho missionário de divulgação da fé cristã.  Os gregos exigiam sabedoria, conhecimento e ciência – diziam que sem estes não era possível seguir o cristianismo.  Os judeus queriam ver o milagre, o sobrenatural, o fantástico para poderem atestar a sua crença. 
Aos coríntios Paulo reconheceu a exigência (leia em 1Co 1:22).  Diante deste impasse, o apóstolo respondeu aos dois lados: a. nem um conhecimento árido do cristianismo seria a resposta à alma humana; e b. nem a demonstração de poder nos milagres será suficiente para responder ao chamado de Cristo. 
A mensagem que ele anunciava não atendia à curiosidade natural da busca pelo conhecimento.  Embora seja preciso conhecer a verdade, isto só não é suficiente! (considere Jo 8:32).
Também não se resume a uma fé milagreira que esteja disponível para atender às necessidades.  Mesmo sabendo que em Cristo está depositado todo o poder (considere também Mt 28:18).
Mas nós pregamos a Cristo crucificado (1 Co 1:23).  Aqui está a essência da mensagem cristã: o centro do que pregamos é a renúncia e crucificação do nosso Senhor.  Jesus se esvaziou até a morte de cruz para que, e somente então, Deus o recolocasse em seu lugar de glória (Fl 2:5-11). 
A vida cristã que anunciamos é em primeiro lugar uma vida de renúncia e crucificação.  Daí o regozijo na presença de Deus-Pai (Mt 16:24).  Nunca vai se reduzir a adquirir sabedoria e conhecimento, nem de vivenciar o milagre e a fé.
Para que sabedoria e milagre, conhecimento e a fé, nos sejam outorgados, é preciso tomar primeiro o caminho da cruz – assim se faz o cristianismo que pregamos e devemos viver. 

terça-feira, 22 de outubro de 2019

QUEM FOI O PROFETA EZEQUIEL?



Pouco apreciado pelos cristãos modernos por suas visões, oráculos e ações não muito comuns, Ezequiel é um dos profetas que, depois de estudado a fundo, desponta no horizonte do fenômeno profético israelita com uma mensagem das mais belas, um forte engajamento sócio-político e uma firmeza inabalável.
Em hebraico o nome do profeta – e o título do livro – é יחזקאל, nome comum a outras pessoas no tempo do Antigo Testamento e significa Deus é Fortaleza ou Deus é Força.  A forma "Hezekiel" (donde vem o aportuguesamento: "Ezequiel") foi formada por Lutero da versão da Septuaginta (Ιεζεκιήλ) e se assemelha a "Iezekiel" usada pela Vulgata Latina.
Este pregador do exílio, apesar de não ser citado no Novo Testamento, é um desafio para qualquer um que se diga despenseiro da Palavra de Deus, em qualquer lugar ou época, pelo seu método, seu estilo, seu zelo, seu carinho próprio pelo povo de Israel, mas principalmente pela solidez e convicção da sua mensagem.

Mas, quem foi o profeta Ezequiel?

Não há muitas informações extra bíblicas sobre o profeta, sua vida e atividade, mas o que, à leitura de seu livro, podemos perceber é que o profeta Ezequiel nasceu de uma linhagem sacerdotal.  Seu pai, Buzi, foi sacerdote provavelmente do clero de Jerusalém e Ezequiel, assumindo o sacerdócio, assumiu também a responsabilidade da direção espiritual do povo judeu nas terras babilônicas, para onde foi levado na primeira deportação em 597 a.C. 
Passou a morar em Tel-Abibe perto da cidade de Nipur, nas margens do grande canal, ou seja, o rio Quebar, de onde, devido a liberdade de movimento que os exilados tiveram deve ter conhecido a cidade da Babilônia, o que certamente influenciou a sua mensagem e atividade, quer no seu espírito, quer na sua forma. 
(Prova da liberdade de movimento do povo no exílio babilônico são os achados em forma das tabuinhas cuneiformes referindo-se a Joaquim, rei de Judá, na corte babilônica).
Com trinta anos, idade em que um levita, ou sacerdote, começaria a servir no Templo, Ezequiel começou seu ministério profético (pelo menos é o que deixa transparecer o primeiro verso do livro da profecia – embora alguns estudiosos citem a data deste verso como sendo uma data internacional). 
Posso pensar que talvez Deus o tenha escolhido para a missão profética como compensação pela impossibilidade de ele servir no Templo em Jerusalém, que seria o sonho de todo o sacerdote.  
Casou-se no sexto ou nono ano depois do exílio, porém a delícia dos seus olhos (cf. 24:16) morreu pouco antes da queda final de Jerusalém em 587 a.C.  Mas por ela o profeta não chorou nem se enlutou, segundo as ordens do Senhor, fato este que serviu de sinal para o que haveria de acontecer por ocasião da queda de Jerusalém.
Já foi dito que Ezequiel era "um cataléptico, um neurótico, uma vítima do histerismo, um psicopata, e até mesmo um esquizofrênico paranoico específico, além de ter sido creditado com poderes de clarividência e de levitação" (citado por John B. Taylor).  Porém esta afirmação é contestada pelo fato de que todas as ações do profeta são baseadas num zelo excessivo pela Lei e Palavra de Javé e por uma compaixão indescritível pelo seu povo; fato que é peculiar a quase todos os profetas de Israel.
Quanto a sua morte, ainda por não haver outra informação segura, nenhum dado concreto ou documento arqueológico, além da tradição dos seus discípulos, e de que seu livro se encerra com uma visão futurista, no estilo apocalíptica, não é possível afirmar nada, porém fala-se que ele foi morto por um príncipe, provavelmente em Judá, ou ainda por um colega seu por pregar contra a idolatria. 
É verdade, também, que seus discípulos e seguidores guardaram vivos seus ensinos e tradições durante vários séculos chegando até o tempo neotestamentário e de Flávio Josefo.
(Na imagem lá em cima, a escultura do Profeta Ezequiel feita por Aleijadinho na virada do século XVIII no adro dianteiro do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas – Minas Gerais.  Crédito da imagem: iphan.gov.br)

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A PIEDADE QUE AGRADA A DEUS


Na história da humanidade, o ser humano sempre buscou praticar atos de piedade e religiosidade que representasse a sua busca em relação à divindade.
Lendo em minha Bíblia o capítulo 58 do livro da profecia de Isaías, parece-me é que o profeta tem esta percepção como pano de fundo para sua palavra.  Assim é que ele apresenta a palavra divina sobre qual é exatamente a prática da piedade – jejum – que agrada ao Senhor.
Tomando o jejum como exemplo, em primeiro lugar é preciso deixar claro que Deus não é contra atos de piedade ou jejum em si.  Em outras palavras, a religiosidade não ofende o Senhor nem afasta o adorador verdadeiro do seu trono.  Apenas que se cuide de o fazer do modo que agrade a ele.
No texto de Isaías, agrada mais a Deus a prática da justiça que os atos rituais (v. 6-7).  O Senhor busca fiéis que expressem em suas vidas diárias o senso de justiça e retidão que encontram no caráter do seu Deus.  Vida de oração e piedade sem comprometimento cristão não resulta em favor divino (veja ainda Mt 7:2).
O profeta também alerta para a necessidade de haver amor verdadeiro para com o próximo como credencial indispensável à prática da espiritualidade (v. 9).  O cuidado em preservar o direito do outro e tratá-lo como gostaria de ser tratado deve ser característica do fiel (veja ainda 2Ts 3:11 e Mt 22:39).
Por fim, o capítulo da profecia se refere à guarda do dia do Senhor como critério de piedade (v. 13).  Não que o Mestre faça diferença entre dia e dia; mas a verdade é que quando descuidamos de priorizar a busca do Senhor separando-lhe um tempo que seja particularmente seu, acabamos por fraquejar em nossa fé e piedade – não existe vida cristã sem exclusividade (veja ainda Hb 10:25).
Certamente nosso objetivo maior é encontrar nosso Pai divino e nos ver aceitos em sua presença, pois só assim alcançaremos sua mercê e graça.  Então que Deus nos faça piedosos e religiosos segundo o seu querer para sua glória.  Amém!

terça-feira, 15 de outubro de 2019

A DOXOLOGIA DE JUDAS


A pequena Epístola de Judas, que em nossas Bíblias fica lá no finalzinho do NT, é uma das menos citadas e estudadas.  É até compreensível.  Ela tem relativamente pouco material – se comparada a outros escritores – e faz umas citações meio esquisitas: comenta uma disputa entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés e faz uma citação de Enoque (ambos não encontram paralelo em outras citações bíblicas).
Quanto ao seu autor, a tradição aponta esse Judas como sendo o irmão de Jesus.  Na verdade, esse era um nome bem comum no primeiro século na Palestina e não há nenhuma indicação inquestionável sobre quem seria ele.  O que se tem é uma citação de Eusébio na sua História Eclesiástica que aponta uma tradição do segundo século se referindo ao autor como sendo “Judas – dito irmão do Senhor pela carne”.
Vou deixar estas questões introdutória e me concentrar no que se tem de melhor neste pequeno escrito: a Doxologia com a qual ele conclui seu texto.

Àquele que é poderoso para impedi-los de cair
e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria,
ao único Deus, nosso Salvador, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre! Amém.


Quero analisar suas palavras.  Mas antes, deixe-me compreender o que é "Doxologia".  Segundo o dicionário, é uma fórmula litúrgica de arremate nas grandes orações (hinos, preces, versículos etc.) em que se glorifica a grandeza e majestade divinas.   E é isso mesmo que Judas faz aqui, ele arremata sua epístola com uma declaração que expressa a fé a convicção dos cristãos primitivos sobre quem é Deus e como devemos adorá-lo.
Duas palavras eu destaco como descrevendo o próprio Jesus Cristo. Poderoso (em grego: δυναμένῳ – nessa forma, particípio presente).  Dessa mesma raiz é a expressão do poder que foi outorgado aos discípulos na descida do Espírito Santo (confira At 1:8). 
A outra palavra é único (em grego: μόνῳ).  O livro da revelação do Apocalipse registra que os vencedores da besta entoavam o cântico de Moisés declarando ao Rei das nações que somente – o único – ele é santo (leia em Ap 15:4).
Judas reconhece que somente o que tem todo o poder para nos guardar dos tropeços e nos apresentar ao Pai imaculados pode merecer o louvor a ser declarado a seguir.
Então a ele seja…
Glória (em grego: δόξα) – literalmente: brilho, esplendor, fama, honra.  É essa mesma expressão que traduz a glória de Senhor que encheu o templo quando Salomão o inaugurou (veja 2Cr 7:1 – veja também no mesmo sentido Ap 15:8).  Ainda foi a fumaça de glória que estava no louvor dos serafins e impactou Isaías (confira Is 6:3).
Majestade (em grego: μεγαλωσύνη) – literalmente: grandeza.  O autor aos Hebreus usa essa expressão para se referir ao lugar de destaque e majestade onde fica o trono do Deus (em Hb 8:1).  E o Salmo 150 instrui a louvar ao Senhor por sua grandeza (Sl 150:2).
Poder (em grego: κράτος) – literalmente: força, governo.  Com essa palavra os gregos antigos se referiam às suas cidades-estado.  Apresentando a armadura de Deus, o apóstolo reconhece que somente sob o governo e poder do Senhor é que seremos fortalecidos (leia em Ef 6:10).
Autoridade (em grego: ἐξουσία) – literalmente: poder, domínio, jurisdição.  É com essa palavra que Mateus descreve toda a autoridade que o próprio Jesus declara estar em seu controle no céu e na terra (confira em Mt 28:18).

Então eu me somo a Judas na adoração a Jesus Cristo, Senhor nosso, por toda eternidade, declarando o AMÉM solene (Αμήν – אמן).

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

DAVI E O GIGANTE


A história do confronto entre o gigante Golias e o pequenino pastor Davi é uma daquelas que aprendemos desde criança nas classes de Escola Bíblica e que por diversos caminhos se tornaram conhecidas e citadas até fora de círculos cristãos e religiosos – ela está descrita em 1Sm 17.
Sua leitura, porém, sempre pode trazer novas lições para a nossa vida.  E se compreendermos a história como um modelo de batalha espiritual, então realmente teremos muito que aprender.  Por isso proponho aqui voltar os olhos para ela e buscar descobrir o segredo da vitória do menino Davi.
O verso 20 diz: levantando-se de madrugada... Aqui está o primeiro segredo da vitória de Davi.  Tudo começa numa madrugada quando ele se levantou e entrou na história.  Quando entro na história pelas madrugadas, posso lograr os mesmos êxitos.  Mas sabe o que mais a madrugada de Davi ensina?
Obediência.  Jessé tinha instruído a Davi para que ele fosse ao acampamento de guerra levar provisões para seus irmãos e em obediência o caçula levantou-se de madrugada.  A madrugada do cristão tem que ser fruto de uma vida obediente ao Senhor.  Em Lc 5:5 os discípulos, resignados, lançaram as redes apenas por que Jesus havia ordenado; e elas se encheram de peixes.
Antecipação.  Antes de saber o que aconteceria na frente de batalha, Davi se levantou de madrugada.  Se tenho uma luta a travar, preciso antes de enfrentá-la estar de pé nas madrugadas.  A instrução em Ef 6:11 é para estarmos alerta para quando a cilada me for lançada, de antemão já possa resistir.
Preparação.  Davi saiu logo cedo, mas deixou um outro pastor tomando contas das ovelhas de seu pai.  A busca pelo Senhor nas madrugadas não é desculpa para o relaxamento e a irresponsabilidade.  Na parábola contada em Mt 25:1-13 Jesus conta que cinco entre as virgens se prepararam antecipadamente e foram recompensadas.
Como Davi, quando o crente se levanta de madrugada ele se prepara adequadamente diante do Senhor para a batalha espiritual que deverá enfrentar, e a vitória é certa.
Mas a história não se encerra na madrugada.  A luta ainda está para ser travada.  Davi se levantou logo de madrugada e foi em direção ao desafio que nem ao certo sabia qual era. 
No momento seguinte, depois de se inteirar da situação e da afronta do gigante, o pastorzinho se dispôs a enfrentar o gigante e foi a uma audiência com o rei Saul (1Sm 17:31-40).  Mais uma vez a atitude de Davi indica como proceder diante da batalha espiritual que havemos de travar.
O texto diz que o rei ofereceu sua própria armadura, Davi a vestiu mas percebeu que não conseguiria guerrear com ela, foi então que decidiu usar a própria funda. 
Que lições podemos tirar deste evento?
Veja em primeiro lugar que a atitude do rei foi correta.  Não se pode ir a uma batalha sem o equipamento necessário, e para Davi foi oferecida a melhor.  Lá no NT, Paulo vai instruir a tomar toda a armadura de Deus (Ef 6:10-20) para que possamos enfrentar as astutas ciladas do diabo. 
É insensatez partir para a luta sem os cuidados necessários e por isto todo cristão que sabe das lutas a travar precisar se revestir da armadura espiritual.
Agora observem um detalhe importante.  Aquela armadura era de Saul e não se ajustou a Davi.  Isto me leva a compreender uma verdade importantíssima.  Nem tudo que serve para os outros é adequado para mim. 
Algumas vezes nos guiamos pelas experiências dos outros – que embora sejam boas e úteis, mas não são as minhas – e elas não vão se encaixar na minha realidade de vida cristã.  Davi se fez valer da própria funda a qual já estava acostumada a manejar.  O que se enquadra com a instrução de Ec 9:10 – Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.
Agora que o confronto é inevitável, pois já estamos no meio da batalha, vamos nos preparar adequadamente, usando aquilo que o próprio Senhor colocou em nossas mãos e nos adestrou para usar.
Ainda não acabou.
Acompanhando o pequenino guerreiro Davi, já levantei de madrugada para orar, já empunhei a armadura adequada para o combate, e agora chegou o momento de encarar o gigante que me desafia.  Lembre que em 1Sm 17:10 é dito que Golias afrontou o exército de Israel, e no v. 25 os israelitas demonstram medo diante da afronta.
Agora estão frente a frente o gigante militar Golias – totalmente armando – e o pequenino pastor Davi – apenas dispondo de sua funda.
Quando Golias viu seu oponente não se conteve em deboche: sou eu algum cão, para vires a mim com paus? (v. 43). 
A diferença entre os dois era visível: um era grande e guerreiro experiente, o outro miúdo e delgado.  Esta é uma boa ilustração de nossa batalha espiritual: meu adversário é grande e astuto em táticas de combate (1Pe 5:8), de mim mesmo nada posso nesta luta.
Mas é bom notar que isto não assustou nosso campeão. 
Sabendo-se incapaz de vencer, Davi apela para a única força que, sendo invencível, poderia lhe trazer a vitória: vou contra ti em nome do Senhor dos Exércitos (v. 45).  Aqui está todo o segredo da conquista de Davi. 
É importante levantar de madrugada – mas não é garantia de vitória.  É necessário tomar a armadura – também não é garantia.  A luta só é ganha quando é lutada no poder que há no nome do Senhor. 
Veja que Jesus assumiu para si todo o poder (Mt 28:18) e somente a este nome todo joelho se dobrará (Fl 2:10).
Sem dúvida alguma, nossas batalhas são enormes e desafiadoras, e nós ainda teremos de enfrentá-las com coragem e disposição.  Contudo se a travarmos exclusivamente no poder que há no nome do Senhor Jesus, alcançaremos a vitória. 
Para a glória do nosso Deus.
(Na imagem lá em cima: afresco de Michelangelo Buonarroti pintado em 1509 na Capela Sistina - Vaticano)