sexta-feira, 31 de julho de 2015

FORRÓ PRA JESUS

Pretendo me manter alheio às discussões sobre se é certo cantar forró na igreja.  Tenho pra mim que esse é o tipo de conversa que não vai a lugar nenhum.  É a mesma coisa que perguntar se valsa pode fazer parte da celebração cristã, ou jazz, ou guarânia, ou country, ou samba, ou barroco, ou sertanejo.  No mesmo balaio eu deixo a questão da sanfona: dá no mesmo querer saber qual o lugar no culto para o piano, o atabaque, o violino, a guitarra, a zabumba ou o órgão de tubo. 
— Oxente! E lembra o tempo em que se cismava em cultuar só em latim?
Em todos os casos a resposta será sempre a mesma! Então não vamos arengar por isso e vamos ao que interessa.
Nasci brasileiro e nordestino – e como isso é bom! Como cuscuz e macaxeira desde que me entendo por gente.  Só conheço duas estações no ano: o tempo de chuva e a falta dela (a maior parte do ano – primavera e outono só existem nos livros escolares e na televisão!).  Falando em escola, lá eu aprendi o abecedário e brinquei de manja.
E tem mais: hoje Aracaju já tem até catinga e barulho de cidade grande, mas o aboio ainda faz bem aos meus ouvidos, e o cheiro de mato molhado renova sempre o pulmão e a alma.  Sem dúvida, o sertão convive em minhas veias, mesmo sendo do litoral – com sol e tudo.
Mas falemos de música.  Entre tanta música que já ouvi na vida, e me levaram para mais perto do meu Deus – de J.S. Bach a Fanny J. Crosby –, poucas realmente conduzem minha liturgia e meu espírito em adoração festiva, exultante e celebrativa ou em contemplação sublime, reflexão introspectiva e prostração submissa (eita quanto palavreado difícil!) como um forró pra Jesus.
Bem, não sei se você conhece a diferença entre o verdadeiro forró pé-de-serra, o baião, o xaxado, o xote, a toada — 'pera aí que tem mais: o aboio (já citei), a embolada, o repente, a cantiga de ciranda — 'tá bom! Cada um tem sua musicalidade, com ritmo, melodia e harmonia próprios.  Seu jeito e tempero.  E por isso mesmo, cada um me leva a Deus de uma maneira.
— Se não conhece isso tudo, deixe de leseira, tome uma umbuzada e escute cada uma delas e se enriqueça.
E não se avexe não que eu vou confessar: em cada um destes ritmos e cantos está estampado um aspecto de mim mesmo.  E eu não somente os valorizo individualmente como também careço deles todos para que me sinta inteiro.  E minha alma vibra assim.  É por isso que sei que um bom e autêntico forro pra Jesus me faz louvar em espírito e em verdade ao meu Senhor.
Com o aboio ou a toada eu me sento calmamente na Sala do Trono do Altíssimo e ali minha alma é pacificada.  O pé-de-serra e a embolada reavivam as narrativas santas e o testemunho das bênçãos (aqui considere o cordel também).  O xaxado e o baião levantam a poeira e a adoração.  E por aí vai.
Mas toda questão tem que ser resolvida à luz da Bíblia, nossa referência.  O Sl 150 desafia: tudo que tem fôlego, louve ao Senhor e o Sl 47 instrui a louvar o Senhor com harmonia e arte.  E o povo nordestino muitas vezes ficou conhecido como um povo sofrido, explorado, ignorante, vivendo numa terra ressecada e sem esperança – e as vezes é isso mesmo.  Esse povo, porém, é cheio de cantorias, belezas, musicalidade, cultura e também de fé sincera e disposição de colocar tudo no altar divino para adorá-lo com o que tem de melhor em sua alma.  E assim faz para glória do Eterno, Senhor de toda melodia, harmonia e ritmo.
Antes de terminar, deixe ainda aproveitar a umbuzada para sugerir alguns nomes para quem quiser se iniciar no forró pra Jesus.  Sugiro conhecer os pernambucanos da Banda Sal da Terra, os candangos da Xote Santo, o baiano Sandro Nazireu, o também pernambucano Toinho de Aripibu, e Nelito – o sanfoneiro de Cristo.  Há mais gente boa por aí.  Mas para você ouvir e louvar, já dá pra o começo.
Um adendo.  Recentemente reencontrei o baiano Cláudio Couti que conheci cantando axé, mas que nos últimos trabalhos vem fazendo uma releitura interessante de canções já tradicionais, adicionando um bom tempero nordestino.  Não deixa de ser também uma boa pedida.
Então, venha louvar e adorar com um forró pra Jesus.  E sei que o Senhor da glória vai se achegar para ouvir e aceitar seu culto como um cheiro suave.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O QUE É O HOMEM?

Conhece-te a ti mesmo! – assim aconselhava Sócrates.  Deste conselho constatamos a tamanha dificuldade de se conhecer este eterno ser ambíguo:  misto de força e fraqueza, grandeza e pequenez.  Durante a história da humanidade muitos tentaram defini-lo.  Para Jean-Paul Sartre o homem é uma merda pensante, enquanto que para Nietzsche o homem é uma corda amarrada entre o animal e o além-do-homem, uma corda sobre o abismo.
Deste último conceito podemos perceber o caráter biológico do ser humano que, como animal, sente as mesmas necessidades orgânicas dos outros animais.  Mas não se limita a isso: o ser humano também tem a capacidade de escolha e autoconsciência, o que demonstra que ele é um ser psicológico.  Sendo capaz de escolher e fazer sua própria história, o ser humano se vê frente a possibilidade do erro, o que o colocaria no abismo, mas a sua capacidade de se responsabilizar pelas suas decisões demonstra que é um ser moral.  Tal moralidade apresenta-se contudo na sociedade, pois ninguém é uma ilha – logo, o ser humano é sem dúvida também um ser social.
Mas é próprio do ser humano o transcender, projetar o futuro e contemplar o além-do-homem.  Questionando e respondendo, o ser humano exercita o seu caráter filosófico e em se relacionando com o absoluto – Deus – mostra-se como ser teológico.  Ser que adora, único entre as criaturas!
E assim a Bíblia nos apresenta o ser humano.  Criado a imagem e semelhança do próprio Deus (Gn 1:26-27), com capacidade de autodeterminação e de dominação sobre as outras coisas e seres criados, o ser humano é a Imago Dei
Mas a questão se levanta: diante da grandeza infinita de Deus, que é o homem para que Deus se lembre dele?  O salmista então poeticamente responde afirmando o ser humano como coroa da criação, obra-prima de Deus, criatura com a qual o Criador se relaciona pessoalmente (Sl 8).
Criado com o objetivo de se relacionar com Deus, contudo, homens e mulheres podem usar a sua vontade própria para dizer não a Deus.  Distanciado de Deus, o ser humano perde então o seu caráter nobre da criação, escolhendo para si a autodestruição. 
Neste caso, Deus prova o seu amor para conosco em ter Cristo morrido por nós sendo nós ainda pecadores (Rm 5:8), restabelecendo assim dentro do ser humano a imagem maculada pelo pecado.  Em Cristo a criatura se refaz como novidade de vida, voltando ao seu estado primeiro de imagem límpida de Deus (2Co 5:17).
Glória e vergonha do universo – segundo Pascoal.  Ser que se relaciona.  Ser potencialmente ambivalente.  O ser humano é, porém, acima de tudo, o sujeito de sua história e objeto do amor divino.

terça-feira, 7 de julho de 2015

A prédica dominical de Albert Schweitzer

Muitas vezes o valor de um ensinamento se perde porque aquele que o transmite não tem a delicadeza e a humildade de adaptar suas palavras ao modo de entender daquele que ouve.   A respeito disto, o grande teólogo, filósofo e médico Albert Schweitzer, que viveu missionariamente na África, nos deixou bela lição.  Confira.
“Prego todos os domingos pela manhã na minha missão de Lambaréné, na África.  A maioria da minha congregação nada sabe sobre o cristianismo.  São trabalhadores em trânsito, vindos de pontos distantes do interior.  Dentro em pouco, voltarão para a sua terra onde comprarão uma esposa e se casarão.
Pouco a pouco os meus doentes e os seus acompanhantes aparecem, sentando-se entre os alojamentos e a encosta da montanha, à sombra dos telhados.  Toco num pequeno órgão portátil.  A congregação não pode cantar em conjunto, pois é formada de indígenas que falam seis dialetos diferentes.  Não exijo que fiquem sentados e em silêncio.  Acendem o fogo para preparar comida, dão banho nos filhos e os penteiam, consertam as suas redes de pesca.  Dois intérpretes traduzem o que digo.
Os meus sermões têm de ser muito simples.  Os que me escutam nunca ouviram falar de Adão e Eva, dos Patriarcas, dos Profetas.  Mas quando falo da diferença entre o coração inquieto e o coração em paz, até os mais selvagens entre eles sabem o que estou querendo dizer.  E quando apresento Jesus como aquele que traz a paz com Deus, eles compreendem.  Se da minha prédica eles podem levar consigo alguma coisa do Evangelho do Cristo, plantei uma semente.
Tenho de falar de maneira concreta para ser compreendido.  Por exemplo, a pergunta de São Pedro a Jesus sobre se basta perdoar sete vezes não pode ser deixada assim, como uma generalidade.  Tenho de esclarecer o conceito com exemplos tirados da vida deles.  Disse-lhes recentemente o seguinte:
Aparece alguém que se sabe que não presta.  Essa pessoa insulta você, mas Jesus diz que se deve perdoar, e você fica calado.
Mais tarde, a cabra do vizinho come as bananas do seu almoço.  Em vez de puxar discussão, você diz apenas que a culpa é da cabra dele e que, portanto, é justo que ele lhe dê outras bananas.  Se ele não concordar, você sai em silêncio, pensando que Deus faz as bananas crescerem com tal abundância no seu sítio, que você não tem necessidade alguma de brigar por tão poucas.
Depois disso, um homem que levou as suas quatro cargas de bananas para vender na feira junto com as dele, só lhe dá o dinheiro correspondente a três cargas, dizendo que foi só isso o que você lhe entregou.  Você tem vontade de dizer-lhe na cara que ele é um mentiroso.  Mas pensa que há muitas mentiras de que só você sabe e que Deus tem de perdoar, e volta para a sua cabana sem nada dizer.
Quando você vai acender o fogo, percebe que alguém levou parte da lenha que você foi buscar ontem no mato.  Mais uma vez você força o coração a perdoar e deixa de procurar o ladrão para entregá-lo ao chefe.
À tarde, você vai sair para trabalhar na roça, quando descobre que alguém apanhou a sua boa faca de mato, deixando em lugar dela uma velha faca cheia de dentes que você reconhece.  Você pensa então que já perdoou quatro vezes e pode perdoar a quinta.  Embora fosse um dia em que muitas coisas desagradáveis aconteceram, você se sente feliz, como se o dia tivesse sido dos mais calmos.  Por quê? Porque o seu coração está alegre, tendo obedecido à vontade de Jesus.
À noite, você quer ir pescar.  Não encontra o seu facho.  Fica furioso e chega à conclusão de que já perdoou demais nesse dia.  Mas de novo Jesus, o Senhor, domina o seu coração.  Você pede um facho emprestado e desce para o rio.
Chegando lá, não encontra a sua canoa.  Alguém foi pescar com ela.  Você então se esconde, furioso, atrás de uma árvore, com a idéia de tomar todo o peixe do intruso quando ele voltar e depois entregá-lo ao comandante do distrito.  Mas, enquanto espera, o seu coração começa a falar.  Repete muitas vezes o que Jesus disse: Deus não pode perdoar os nossos pecados, se não perdoarmos aos nossos semelhantes.  Quando o homem volta afinal, você sai detrás da árvore diz-lhe que Jesus força você a deixá-lo ir em paz.  Não exige nem o peixe, mas acredito que ele o dê, espantado com o fato de você não querer brigar.
Você então vai para casa, feliz e orgulhoso de ter conseguido perdoar sete vezes.  Mas se nesse mesmo dia Jesus chegasse à sua aldeia e você passasse diante dele, pensando que ele iria elogiá-lo, Jesus lhe diria apenas, como disse a São Pedro, que não basta perdoar sete vezes, que é preciso perdoar mais sete vezes e mais sete e muitas mais, até que Deus possa perdoar os seus muitos pecados.
Vejo pelos rostos dos que me ouvem como estão comovidos.  Muitas vezes pergunto-lhes se o coração deles está de acordo com o que foi dito.  Respondem sim, quase sempre.
Ao fim do sermão, faço-os juntarem as mãos e muito lentamente faço uma breve oração.  Muito tempo depois do “Amém”, as cabeças ainda estão curvadas sobre as mãos.  Quando a suave música recomeça, as cabeças se erguem.  Ficam imóveis até que os últimos acordes se dissipam.  Quando me retiro, meu povo se levanta.  Retira-se com a Palavra de Deus viva.

(Condensado de “The Record")

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Parábola das coisas – O CUSCUZ

Se você não nasceu ou morou por estes lados, talvez não saiba o que é cuscuz.  Então deixe-me lhe dar uma dica – tentando explicar para quem nunca viu ou experimentou: cuscuz é uma espécie de bolo, feito com farinha de milho em banho-maria (acho que o nome é esse).  Em geral se come acompanhado, salgado ou doce, mas que é bom de todo jeito.
Talvez esta não seja a melhor definição gastronômica da iguaria, mas, como toda comida que se preze, não cabe nas especificações técnicas.  Só comendo. 
Então vamos começar de novo: se você nasceu ou morou por estes lados, com certeza você conhece cuscuz.  E sabe que ele é bom.
Cuscuz é comida nossa.  É coisa que pode ser achada todo dia em casa de sergipano.  Na casa do mecânico e no apartamento da doutora.  Tem gente que come só com manteiga, outros com carne de sol.  Uns gostam de juntar com leite, outros preferem cobri-lo com ovos.  Pode ser servido no café-da-manhã, acompanhar o feijão no almoço, e ainda como prato principal da janta.  E sempre fornece sustância para todo mundo.  E me disseram que até já consta dos cardápios de restaurantes chiques! O que não muda a essência: cuscuz é comida básica do nosso povo.
Antigamente se fazia cuscuz ralando o milho e deixando o farelo cozinhar enrolado num pano.  Hoje é muito fácil achar a massa pronta em qualquer supermercado – e tem de toda qualidade – para preparar rapidamente um bom e nutritivo cuscuz.  E o nobre alimento continua sua missão de sustentar o povo.
Então eu paro e observo o cuscuz e não é difícil perceber que ele serve muito bem como parábola que nos descreve.  Sem muita definição, somos o que somos.  E antes de qualquer elaboração teórica, estamos aí.  Assim como o cuscuz, que independente de pressupostos nutricionais ele está aí, presente na mesa.
Mas as comparações não param só nisso.  Somos feitos de massa simples.  Foi preciso também ralar um pouco e com um pouco de água fomos colocados em banho-maria e a vida bem devagar vai nos cozinhando e nos fazendo ser o que nos tornamos.
Cuscuz na mesa, a arte culinária encontra seu lugar.  Um ovo mexido, um leite quente derramado em cima, quem sabe um pouco de charque.  Ou, se preferir, leite de coco que também fica maravilhoso.  Tudo combina com o simples cuscuz e enriquece o prato, mas nada muda sua essência: é a nossa comida de todo dia.
Nós somos assim.  A vida nos fez.  E são os acompanhamentos que colocamos que acrescentam sabor e saber a ela.  Somos tudo isso e nada mais que isso.  Massa feita gente, e as misturas que a caminhada da existência nos acrescenta podem até dar um gostinho próprio a qualquer um, mas não muda o que realmente somos: humanos.
E o cuscuz me traz a lembrança o poema sagrado da criação: Deus formou o ser humano do pó da terra e cobriu com a sua imagem (confira em Gn 1:26).  Massa simples com cobertura diferenciada.
E como o salmista também não conhecia cuscuz, ele não o usou como parábola da vida humana – mas bem que poderia.  Veja o que ele disse:
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?
Tu o fizeste um pouco menor do que os seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. 
(Sl 8:3-5 NVI)
Nesta vida, sei que não passo de cuscuz.  Mas, ainda bem que Deus colocou coisa boa sobre mim e por isso eu o louvo.