terça-feira, 29 de maio de 2018

CineOrquestra


Na última quinta-feira voltei ao teatro para acompanhar mais uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Sergipe, mesmo com protestos e greves, deu para chegar cedo e conseguir um bom lugar para sentar: boa visão e boa audição garantidas, foi só esperar começar a música.
E frise-se, o Teatro Tobias Barreto estava lotado. Inclusive com a presença de muita gente nova que foi assistir a orquestra pela primeira vez – é claro que o repertório da noite ajudava: Trilhas de grandes filmes de Hollywood – excelente proposta!
Com o programa na mão – aquela folha de papel com letras pequenas num papel escuro onde pouco ou quase nada se consegue enxergar e ler, no teatro devidamente escurecido para privilegiar o palco!
Então, com o programa na mão, chega o momento de curtir o som! – não sei se esta expressão se coaduna com a circunstância, mas vai lá…
Iniciada a apresentação, já com a presença dos músicos no palco, o maestro Guilherme Mannis, que dirigiu a noite, deu as boas vindas, fez os agradecimentos de praxe e comentou rapidamente o repertório daquela noite. Assim, ouvimos:

  • Jaws suíte, do filme “Tubarão” – de John Williams. Um clássico eterno. Uma escolha acertada para iniciar a noite.
  • Também de John Williams: Jurassic Park’s theme. A melodia facilmente ajuda a começar a trazer imagens de cinema à mente – A noite promete!
  • De Bernhard Herrmann: Psycho suíte, do filme “Psicose”. Mesmo quem nunca assistiu a obra de Alfred Hitchcock consegue sentir o pavor provocado pelas cordas da orquestra.
  • Voltando a John Williams: Superman March, do filme “Super homem”. O comentário ouvido foi que até dava sentir Clark Kent chegando à Fortaleza da Solidão.
  • E mais: Raider March, do filme “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida”. As aventuras do arqueólogo aventureiro são inesquecíveis.

(Um intervalo – até para os músicos tomarem fôlego pois as peças até aqui exigem muito deles)
Segue o concerto:

  • Do compositor italiano Ennio Morricone: The Ecstasy of Gold, do filme “Três homens em conflito”. Não conhecia o filme, nem tinha referências. Mas a música me reportou na hora a um bom faroeste. E veja que a primeira coisa que aparece pesquisando no Google é Clint Eastwood!
  • Voltando a John Williams, Star Wars – Marcha imperial e Sala do Trono. Peça indispensável com direito até a sabre de luz no lugar da batuta do maestro.
  • Mais: Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, suíte. Confesso que aqui eu me perdi um pouco durante a execução da música. Também essa franquia nunca foi muito do meu agrado.
  • E para terminar. De Kaus Badelt: Piratas do Caribe medley, do filme “A maldição do Pérola Negra”. É como se estivesse embarcando e navegando sob o comando do pirata Jack Sparrow.
  • Com direto ao bis: Aqui sem maiores dados, o tema do novíssimo Vingadores. Meu filho ao meu lado abriu um sorriso indisfarçável!

Mas é mais que isso: é música!
Sem mixagem, sem edição. Não eram efeitos sonoros ou tema subliminar. A música está ali acontecendo. É por isso – também – que gosto de ir ver a Orquestra ao vivo: a música, o som, a arte está ali. E não há tecnologia que substitua a alma do artista.
E deu até para entrar na música por ela mesma. Claro que num repertório como o CineOrquestra as sensações, lembranças e referências são tomadas pelo turbilhão de imagens que pipocam na cabeça com a evocação dos respectivos filmes. É inevitável não se deixar levar por Indiana Jones fugindo dos nazistas ou não embarcar no Pérola Negra – e isso é muito bom!
Mas repito: é mais que isso, é música! E foi possível um pouco mais que lembranças de películas.
Foi bom ouvir a música como arte singular. E até perceber detalhes e nuances das próprias músicas que certamente passaram despercebidos enquanto o foco ficava no enredo dos filmes – naturalmente.
Valeu a noite no teatro.
Parabéns Orquestra Sinfônica de Sergipe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 2ª parte


Continuemos com a análise. Agora nos detendo mais na expressão de Josué. Tive o cuidado de observar o texto em hebraico que tenho em mãos e me chamou a atenção o uso enfático do pronome de primeira pessoa: EU. Seja qual for o encaminhamento que se dê à sentença, tudo começa com a determinação do sujeito.
Pois bem, seguindo na linha de interpretação que temos adotado, Josué fez uma escolha. Diante das opções que se lhe descortinavam e baseado nas ações de Deus na história, o líder tomou a iniciativa, foi em frente e assumiu os encargos da decisão: sou eu, eu mesmo, e não outro. Isto é autoridade moral.
Somente quem tem tal autoridade empenhada pelo exemplo e credibilidade costurada pela caminhada pode se colocar na posição de protagonista da história familiar e se postar como padrão e modelo (entendo que as palavras de Paulo em Fl 3:17 podem ser lidas também nesta mesma linha de raciocínio).
Josué definiu sua escolha a partir de si mesmo. Isto colocou sobre seus ombros as responsabilidades da decisão. Como chefe de sua casa, ele não esperou que ninguém mais a conduzisse no serviço ao Senhor. Nem ficou apenas esperando que tal bênção lhe fosse atribuída como por encanto.
A lição de Josué que a mim fica demonstrada nesta disposição em primeira pessoa é que, se anseio e tenho o sonho de ver toda a minha casa rendida aos pés divinos, eu preciso pessoalmente tomar o encargo de assim conduzi-la. E tem mais. Só posso cobrar dos meus submissão e serviço ao Senhor se tal atitude já for padrão incontestável em minha vida.
Penso que o problema de viver tomando posse de promessas e declarações de bênção apenas é se eximir da responsabilidade. É mais cômodo esperar que seja feito que se dispor a fazer! Parece-me que ainda é indispensável a esta atual geração de líderes e crentes reassumir pessoalmente o papel de liderança moral diante de nossas famílias para que elas sejam colocadas no altar.
E então, o que começou comigo, chega a minha casa. Não deixa de ser curioso que, naquele momento de encruzilhada na história da nação de Israel, Josué tenha colocado como alicerce de sua escolha a sua família, não uma coletividade maior, e nem sequer mesmo a própria nação.
Fica difícil determinar se ele fez tal implicação propositadamente ou não. Mas também não vem ao caso aqui. A lição bíblica é esta. Ao colocar sua casa como seu foco de escolha ele deixou um inestimável ensinamento: somente com famílias servindo ao Senhor teremos um povo encaminhado na trilha correta.
Poderíamos dizer que Josué citou sua casa porque é sobre quem teria autoridade. Não me parecer ser o caso. Ele chefiava Israel e poderia impor o culto ao Senhor e a exclusão dos deuses antigos e locais. Porém, como já apontamos lá em cima, esta não seria uma decisão a se impor, mas uma escolha a ser feita consciente e responsavelmente. E começaria pela própria casa do líder, como padrão e modelo.
Como efeito de círculos concêntricos, a escolha que começou com Josué deveria ser padrão para sua casa para, só então, influenciar a sociedade e a nação.
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

terça-feira, 22 de maio de 2018

Em Espírito e em fogo



Realmente o texto citado está em Mt 3:11 –

Eu vos batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga.
(aqui na versão da NVI – os versos 11 e 12 para dar mais sentido à citação).

As citações paralelas são:
+ Mc 1:8 – “...batizará com o Espírito Santo.
+ Lc 3:16 – “... batizará com Espírito Santo e com fogo.
+ Jo 1:33 – “... o que batiza com o Espírito Santo.

Esse é um riquíssimo texto onde João, o Batista apresenta Jesus e compara seu ministério com o dele, reconhecendo a limitação histórico-temporal e espiritual do primeiro em relação segundo que estava por se iniciar. Vários elementos estão presentes nesta declaração e que podem – e devem – embasar aspectos importantes de nossa doutrina quanto à pessoa de Cristo, a nossa salvação, vivência espiritual-cristã e compreensão de igreja.
Mas vamos focar no tema do fogo – esta é a questão aqui.

Alguns detalhes da citação em grego para ajudar na compreensão do autor original:
αὐτὸς ὑμᾶς βαπτίσει ἐν πνεύματι ἁγίῳ καὶ πυρί·

Vamos lá:
=> A primeira coisa que me chama a atenção é jogo de preposições: o batismo de João é com (ἐνem) água, para (εἰς – no começo do versículo) arrependimento. A água é o instrumento; o arrependimento, o propósito. A água, a forma exterior; o arrependimento, a manifestação interior. Aqui a Chave Linguística propõe: “...tendo em vista...”.
=> O batismo de Jesus vai além. Ele é com (em) Espírito Santo e fogo: este é o veículo/instrumento da obra que Jesus faz. O propósito é limpar completamente a eira (continuação da frase no verso 12).

Quanto ao fogo em si. Acompanhe mais um pouco passeando pela Bíblia.

No AT, a presença do fogo, de maneira recorrente, representa a própria manifestação divina (veja por exemplo Êx 3:2 ou Nm 9:15). Também o fogo representa a ação de justiça, purificação e santificação do próprio Deus (lembre o Sl 21:9 e Êx 24:17; Is 30:27-30 e no NT Hb 12:29).
Há ainda a referência a Pentecoste (em At 2:1-4), mas creio que aqui a referência só seria indireta. Prefiro continuar com a compreensão da ação de Cristo – e do Espírito Santo – na vida do crente como presença purificadora.
É bom acrescentar aqui a Parábola do Trigo e do Joio em Mt 13:24-30 onde Jesus conclui destinando o joio imprestável ao fogo.
Outro texto interessante é a vocação de Isaías (Is 6:1-8). A visão da presença do Senhor é acompanhada de serafins (figuras flamejantes) e a casa se enche de fumaça. Contudo isso não é apenas um espetáculo (ainda que espiritual!). A presença real (batismo) de Deus exige santificação. No caso do profeta, o problema foi resolvido com a brasa viva que lhe tocou os lábios.
Ou seja, o fogo é a ação de Deus em nos limpar, purificar e capacitar para estar em sua presença.
A ilustração do fogo é ainda abundante na Bíblia: do fogo que consumiu Sodoma e Gomorra em Gn 19:24-25 ao fogo que destroi o diabo e seus assecla em Ap 20:9-10.

João entendeu seu batismo em água como um chamado ao arrependimento – um começo de experiência espiritual. O arrependimento nos alerta e traz de volta à presença sagrada. Mas somente Cristo quando opera em nós através do Espírito Santo pode consumir nosso pecado com seu fogo sagrado.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

EU VOS BATIZO EM ÁGUA


Vamos pensar um pouco sobre a cerimônia cristã do Batismo. Assim como a Ceia do Senhor, além de ser o cumprimento da instrução cristã, a cerimônia de Batismo é repleta de simbolismos e significados (e eu até creio que é por isso mesmo que elas são tão belas e importantes!).
No Batismo, da forma em que o celebramos, há todo o ritual de mergulho e saída da água que nos aponta para a morte e a ressurreição que, pela fé, já aconteceram em Cristo Jesus (bem explanado por Paulo em Cl 2:12) – além de ser um testemunho e proclamação da mesma fé.
Mas a água, instrumento ou veículo pelo qual o batismo acontece, pode ainda nos fornecer outras referências que enriquecem ainda mais o ato.
Água sempre nos lembra limpeza. Ao oficiar o Batismo como um banho ritual, posso também está demonstrando que minha vida já foi lavada e purificada. Sei que é o sangue de Cristo quem faz isso acontecer (veja tanto 1Jo 1:7 quanto a descrição da multidão em Ap 7:14), mas com certeza na água do batismo estou exteriormente demonstrando de forma simbólica aquilo que Jesus já fez no meu interior.
Com certeza devo também me lembrar que água é sinal de refrigério, alívio – principalmente tendo em mente o sol do sertão nordestino. Estando dentro da água, ao celebrar o Batismo, sou levado a bendizer o Senhor porque assim como no calor o corpo exterior se sente revigorado pela água, o meu homem interior se refaz com ânimo pelo bálsamo que Cristo traz. E nenhum texto diz isso de maneira mais poética que o Salmo do pastor: o Senhor, que é meu pastor, me conduz a águas tranquilas e me restaura o vigor (sei que todos conhecem o Sl 23, aqui citados os versos 1 a 3).
E ainda a água é indispensável como provisão. Sem água o corpo humano definha e morre. No Batismo em água sou confrontado com a Água Viva que dessedenta toda a sede espiritual. No cerimonial cristão tenho apenas o símbolo, mas ele poderá me reavivar na memória a alegria de já ter bebido da água que mata a sede eterna de minha alma (veja como Jesus usa esta figura com a mulher samaritana em Jo 4:13-14).
João, o batista anunciou o seu batismo em água como um sinal de arrependimento (leia em Mt 3:11). Hoje deve a igreja seguir seu modelo na certeza de que os símbolos da celebração testemunharão a minha fé já com a alma lavada, refrigerada e saciada. E assim cumpriremos a ordem deixada por Cristo para a glória dele.
(A partir de um post no sítio ibsolonascente.blogspot.com em 26 de março de 2010)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A MISSÃO COMO LIBERTAÇÃO


Sexta parte das considerações sobre o livro Compromiso y Misión de Orlando Costas, publicado em 1979.

Há ainda o aspecto da missão como libertação. Este é o desdobramento que nos conduz a refletir sobre a visibilidade da missão e do compromisso da igreja. Neste ponto os exemplos se mostram mais eficazes na argumentação. De um lado há os que interpretam a missão como libertação apenas espiritual sem entrar a fundo em outras questões sociais, econômicas e políticas – como se comportaram as jovens igrejas fruto das missões protestantes na América Latina. De outro, Costas cita cristãos como Bartolomeu de las Casas no México, G. Carey em Bengala, A. Schweitzer na África, E. Strachan em Costa Rica – e acrescentaríamos D. Bonhoeffer na Alemanha nazista e M. Luther King na América racista – que “qualquer que seja sua teologia, têm participado em esforços para servir a homens e mulheres no nível de suas necessidades sociais” (p. 113). Homens dos quais o mundo não era digno (Hb 11).
A conclusão de Costas é contundente:
Porque a verdadeira prova da missão não é se proclamamos e fazemos discípulos ou se nos comprometemos na libertação social, econômica e política, senão se somos capazes de integrar as três coisas em um testemunho amplo e dinâmico. Daí que necessitamos pedir ao Senhor que nos liberte não somente desta situação inútil, senão que nos liberte para a integralidade na missão (p. 130 – itálicos no original).
Neste ponto Costas interpõe um artigo sobre o evangelho e os pobres que compensa uma transcrição de um bloco inteiro de texto quando ele procura argumentar o papel dos pobres dentro da missão da igreja:
Não sem razão Jesus ligou sua missão com a questão dos pobres, dos cegos, dos cativos e dos oprimidos: eles são a maior evidência da tragédia do pecado! O evangelho é para todo o que se veja quebrantado e maltratado. Para eles prega o Ano do Jubileu, a nova era de Deus, a libertação da história!
Por isso é que os pobres afetam profundamente a identidade da igreja. A igreja é tanto sinal do compromisso de Deus com os desditos quanto primícias da nova criação. Na igreja deve caber todo tipo de ser humano, mas mais que ninguém o pária, o quebrantado e o marginalizado da sociedade, porque a igreja é paradigma da nova humanidade que Deus está formando através da obra salvífica de Cristo, paradigma que se logra e materializa mediante o poder do Espírito Santo no meio da discordância e deformação da sociedade (p. 133-134 – itálico no original).


Continua...

sexta-feira, 11 de maio de 2018

EU JÁ FIZ MINHA ESCOLHA – 1ª parte


Antes de refletir um pouco sobre a declaração de Josué e suas implicações para minha vida e da minha casa e igreja, sou levado a constatar que, em geral, a expressão bíblica é usada pelo nosso povo num sentido distinto daquele em que foi proferido inicialmente em Siquém.
Do jeito que ouvimos hoje a formulação: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" como jargão na boca, em adesivos, camisas ou em outros souvenir e badulaques, beira a uma formulação de magia (algo como wicca de crente!) usada para proferir promessa ou profecia autodeclarada. É como se ao pronunciar as palavras sagradas, Deus – e o próprio universo – estivesse sendo submetido à obrigação de agregar todos da minha casa à minha fé.
Parece absurdo, mas tem sido assim... contudo, deixemos a crítica de lado, e vamos ao texto, sua análise e às suas lições, pois é o que realmente nos interessa.
Dando-me à liberdade de uma tradução mais livre do verso bíblico eu diria: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Lendo o contexto, esta opção de tradução se esclarece melhor. Vejamos.
O grande Josué tinha consciência que estava no final de sua jornada, e por isso convocou os chefes nacionais para as últimas tratativas (confira Js 23:14). E o texto diz que líderes, juízes e oficiais de Israel compareceram diante de Deus (no primeiro verso do capítulo 24).
Todos estavam ali não para ouvir um velho a murmurar ou resmungar: no meu tempo... pelo contrário, eram os anos de experiência de Josué com o seu Deus que lhe conferiam os requisitos indispensáveis para conduzir o povo na presença do Senhor e desafiar a cada um deles a uma tomada de posição. Afinal, Deus estaria ali em Siquém. Josué o sabia. Israel também.
O discurso daquele dia teve como ponto de partida as poderosas ações de Deus na história do povo. Esta é uma prática que se tornaria padrão entre os homens e mulheres de Deus na Bíblia. Josué aprendeu desta maneira com seu mentor Moisés (atente Dt 32:7) e, depois dele, a história foi repetida em canções e serviu de base para a palavra profética (por exemplo o Sl 136 e Ez 20). E no NT Estevão usou o mesmo método (veja At 7).
A verdade é que nosso Deus sempre intervém e age na história dos seus, isso é graça e faz toda a diferença! Josué sabia disso por experiência própria.
Por ora, preciso confessar que, em nossos ajuntamentos, sinto falta de narrações que se inspirem na Revelação e transpirem para a história e não que vagueiem de um extremo da caatinga argumentativa para o aguaceiro da experiência. Aprendi que Deus está é no encontro da viração do dia no jardim (como é significativa a descrição deste encontro em Gn 3:8).
Prosseguindo com o contexto. Foi exatamente a experiência de Josué em liderar o povo que indicou que algumas escolhas fundamentais na vida não podem ser impostas de maneira arbitrária e autoritária. Por isso então ele apontou caminhos, deu opções. Com base na história, o povo deveria escolher: o deus dos pais, o deus da terra, ou Deus da história.
Ainda hoje ainda uma escolha deve ser feita. Diante de nós está a necessidade de escolhermos entre o deus estável da tradição (seja qual a for configuração religiosa ou espiritual com a qual ele se apresente), o deus sedutor da modernidade (com toda sorte de promessas ou experiências que descortinem), ou o Emanuel, o Deus que se fez história e habitou entre nós, cheio de graça e verdade (compare Mt 1:23 com Jo 1:14).
É neste ponto que a liderança de Josué se destaca mais uma vez. Antes que qualquer um dos chefes de família dissesse algo, ele tomou a dianteira e afirmou com convicção: Eu já fiz a minha escolha. Eu e os da minha casa nos comprometemos em servir ao Senhor. Ele não rogou bênção ou maldição (até porque já as tinha ouvido da boca de Moisés como ainda hoje eu leio em Dt 11:26-28). Também não apelou para acalantos espirituais ou bradou impropérios. Ele tomou uma decisão baseada no conhecimento que tinha da revelação de Deus e sua atuação na história de Israel.
Continua ...
(Da revista "EDUCADOR" – ano XXII – nº 85 – 2T14)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Santa Maria mãe de Deus


O tema da meditação de hoje pode não tocar o núcleo da mensagem do Evangelho, que é a justificação pela graça mediante a fé, mas é certamente um dos temas mais populares de discussão quando se trata de diferenças entre católicos e protestantes. Eles dizem que, de fato, os protestantes não acreditam na Virgem Maria e nos santos. O problema, no entanto, é mais complexo e é importante. Ele pode ser resumido em uma declaração enganosa. O personagem de Maria de Nazaré é fundamental para o Protestantismo. Claro que não dá fundamento a uma disciplina teológica específica que para os católicos é chamada Mariologia, mas ilustra as passagens decisivas da história da salvação da humanidade.
Deixe-me começar com três datas históricas e eventos relacionados a eles. Jerusalém, metade do quinto século a.C. (458-7 ca). O escriba Esdras chega à cidade que há algum tempo tem recebido de volta os judeus exilados na Babilônia. É o período da reconstrução do Templo e as reformas religiosas e políticas que afetam o povo de Israel naqueles anos. A reforma de Esdras se inspira na divulgação e conhecimento da Lei e na formação de um grande grupo de sacerdotes e lugares de culto, no conhecimento e na observância da Lei. A reforma fará do povo de Israel uma nação de judeus reais, que deve ser limitada para aqueles que possam provar, com registros genealógicos, sua descendência de judeus exilados. Quem não provar a sua pureza racial e ritual é considerado um bastardo. Mas nem todo mundo em Israel aceita esses princípios.
Uma parte do grupo sacerdotal lidera a oposição, que se expressa na compilação de alguns livros mesclados no cânon da Bíblia (que mostram, pela sua presença, que a Bíblia nem sempre é uniforme). Eles são o Livro de Jonas, o livro de Jó e do Livro de Rute. O último é uma obra de grande beleza, atravessada por histórias de amor e sofrimento, preocupações, esperanças e temores, de humildade e pobreza. O livro conclui, deixando-nos saber que Rute é uma ancestral direta do Rei Davi, Rute foi mãe de Obede, que gerou Jessé, que foi pai de Davi. Esta genealogia, no entanto, torna-se mais interessante se sabemos que Rute não era israelita, mas veio da terra de Moabe, um país não amigo, contra quem os profetas falaram muitas vezes. Aqui é o significado da genealogia. Os autores do livro de Rute argumentam que, sob as leis de Esdras, mesmo o rei Davi, o símbolo da aliança entre Deus e seu povo, ele seria imundo e bastardo, porque descendente de Rute, a moabita.
Esta história, tão distante no tempo a partir da história de Maria de Nazaré, tem, em todo caso, laços com ele. Laços bíblicos, tecidos a partir das Escrituras.
Segunda data, 74-80 d.C., em uma igreja oriental, talvez na Síria, talvez na Fenícia. Um cristão que tem sido chamado Mateus, na elaboração do Evangelho de mesmo nome, começa sua narrativa com a genealogia: a genealogia de Jesus. Mesmo esta não é uma seca coleção de nomes, mas quer expressar um sentimento, uma coleção de sinais significativos. Em meio a uma genealogia patrilinear está a presença de cinco mulheres. Eles são Tamar, Raabe, Rute, Bate-Seba e Maria. Essas mulheres não são mencionadas no número das ancestrais famosas: Sara, Rebeca, Raquel. Estas são de menor estatura, se comparadas a celebridades na história nacional. Mateus as cita provavelmente porque entraram na história do nascimento de Jesus de maneira pouco ritual. Tamar era a nora de Judá, filho de Jacó. Ela não se tornou mãe através dos filhos de Judá, mas por um estratagema fingiu ser uma prostituta e se juntou a seu sogro, gerando, assim, um dos antepassados de Cristo. Raabe era uma prostituta de Jericó que favoreceu a captura da cidade por Josué. Rute, como já dissemos, contaminou pureza racial de seu descendente Davi. Bate-Seba, mãe de Salomão, ela se juntou ao rei Davi através de uma história sombria, caracterizada por adultério e assassinato.
Estas são as mulheres que, na genealogia escrita por Mateus, precedem Maria de Nazaré. São mulheres que produzem contaminação, são as mulheres que produzem constrangimento, que criam problemas morais. E Maria? Nós conhecemos a história. A menina de Nazaré estava noiva de um jovem justo, chamado José. Antes de se ajuntarem, Maria se achou grávida pelo Espírito Santo. É quase sempre o caso. Quando o Espírito Santo atua há sempre algo que dá errado, algo que não vai como deveria. Pelo menos de acordo com os costumes e os valores consolidados. Porque é verdade. Esta intervenção do Espírito produz na história do cristianismo o tema da concepção virginal de Jesus. Tema fundamental para o catolicismo, mas que também cruza teologias protestantes delicadas. Tema certamente glorioso, mas que por razões de respeito, por motivos relacionados com a economia da minha palestra, eu não vou tratar. Porque o que eu acho que é importante é que, mesmo aqui, no caso de Maria, e através do trabalho do Espírito Santo, nos encontramos no contexto daquelas histórias de constrangimento, de problemas, de histórias de amor e afeto que não são histórias lineares, mas humanas, das pessoas humildes e pobres, histórias de mulheres que não podem ter filhos ou que os tinham pelo caminho errado. Para aqueles que conheciam Maria, ela não cumpriu as promessas de noivado, e por isso era uma mulher desonesta. A resposta de Maria a todos esse emaranhado intrincado é muito alta e muito simples: eu sou a serva do Senhor, ele fez comigo o que disse. Humilhação, aceitação humildade da vontade de Deus. A perda e coragem. A resposta de fé: a minha alma exalta o Senhor e meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua humilde serva. Eis que, de agora em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso fez em mim maravilhas e Santo é o seu nome.
Terceira data, 431 d.C., Éfeso, na Ásia Menor. Lugar e período de muita discussão entre os cristãos. O cristianismo se desenvolveu no Oriente através de lacerações dolorosas e debates acalorados. Um novo problema surgiu. Era difícil para alguns cristãos, que poderiam ser chamados espiritualistas, aceitar plenamente a humanidade de Deus. Deus habita as alturas elevadas, nós não. E também para o filho de Maria, para Jesus de Nazaré, como seria possível tornar mais racionalmente clara com distinções precisas? Por exemplo, se poderia dizer que Jesus, o filho de Maria, era apenas um homem, certamente eleito, porque guiado e inspirado pelo verdadeiro Cristo, eterno e verdadeiramente divino. Este, filho do Pai, o divino, mas não o filho de sua mãe. O Cristo-Deus no alto e Jesus em baixo, ligados, mas não unidos na mesma pessoa. Aqui está uma forma fácil e razoável para salvar a divindade de Deus, sem contaminá-la nem misturar com este mundo impuro. Toda a igreja, em seguida, se reuniu em conselho na cidade de Éfeso e decidiu que não, que não é assim. Ela entendeu que Cristo é o filho do Pai e também filho de sua mãe. E para expressar esse conceito em uma fórmula declarou Maria "Mãe de Deus". A fórmula pode parecer surpreendente hoje. A encarnação de Deus e a humanidade são coisas sérias. Elas indicam rebaixamento e aniquilação. Elas indicam a renúncia de Deus de sua santidade e separação. Elas indicam a renúncia de Deus à sua própria pureza. E tudo isso através do corpo de uma mulher. Então, Jesus Cristo, o Senhor é nascido de mulher.
Podemos agora avaliar a solidariedade de Maria com as outras mulheres da genealogia de Mateus. Todas essas mulheres quebram, de uma forma ou de outra, a obsessão com a pureza. Da pureza moral, de pureza étnica, a pureza da Lei. Maria rompe e contamina, com suas entranhas, a mesma pureza sagrada de Deus. Em seu corpo isso acontece, basta seguir a fórmula de Éfeso "mãe de Deus". O que acontece em seu corpo é que Deus não permanece puro em sua espiritualidade, em suas alturas. Deus se mistura com a carne de Maria, no seu ventre. Por esta razão dizemos aos irmãos católicos, respeitosamente, mas com firmeza, que estamos em desacordo com a santificação de Maria, com seus altares de culto. Maria pertence à história das misturas e dos embaraços, do mundo da natureza grande e problemática das grandes contradições. Ele pertence ao nosso mundo humano, ao emaranhado insolúvel de esperança e de miséria, humilhação e oração. Em seu louvor do Magnificat está toda a voz dos pobres, daqueles que são tão pobres que somente podem esperar em Deus, no Deus que exalta os humildes e enche de bens os famintos. Neste mundo, a menina de Nazaré está em sua casa. O mundo cuja pureza celestial nunca conheceu.
Amém.
Fabrizio Oppo
Fonte:
http://www.ucebi.it/biblicamente/

Para ler mais sobre Maria acesse:
MARIA - a mãe do Senhor
Cinco mães na Bíblia


sexta-feira, 4 de maio de 2018

A LEI E A PROFECIA


No livro de Provérbios há um que diz de maneira direta: Não havendo profecia, o povo se corrompe; mas o que guarda a lei, esse é feliz (Pv 29:18 ARA). Foi com tal pano-de-fundo que me ocupei em refletir o quanto o conhecimento bíblico é - deve ser! - importante para nós.
Veja logo de interessante que neste verso estão alinhados a profecia (no original significando revelação ou instrução divina) e lei (o conjunto de ditames prescritos). A antiga e consagrada tradição e a novidade revigorante. O espírito e a letra.
Daí foi fácil ser conduzido a pensar nos profetas clássicos de Israel. Até por que eles viveram numa época em que a Lei moisaica já estava cristalizada - escrita - e a voz do Senhor continuava ativa - falada.
Os profetas eram homens profundamente comprometidos com Deus e sua Lei revelada: seu conhecimento, aplicação e contextualização. Mas também revestidos de uma paixão contagiante pelo Deus que falou e fala. Assim se faz profecia.
Se por um lado a alma e as emoções daqueles profetas estavam sensíveis ao contato espiritual com a revelação cotidiana, por outro, suas mentes permaneciam aguçadas para assimilar e compreender a essência da Lei.
Assim:
O alerta profético sempre foi no sentido de que ao abandonar a Lei, seu conhecimento e estudo sistemático, o povo correia risco de perecer (compare profecias como as de Os 4:6 e 6:3-6; Is 1:3; Ml 2:8-9; Dn 9:11-13 entre outras).
Foi o ardor profético que desafiou o povo a estudar, conhecer, investigar, aprender e seguir o que está estabelecido por Deus em sua lei (folheei mais na Bíblia em Ml 2:7 e 4:4; Is 54:13; Mq 4:2; Ag 2:11 e por aí vai…).
Assim diante de nós hoje também está a Lei e a profecia. Uma não pode subsistir sem a outra. Ou atinamos nossos ouvidos espirituais para ouvir as profecias e também renovamos nossa sede de conhecimento da Palavra, ou não teremos nenhum dos dois.
(Do Boletim dominical da PIBA em 29/04/2018)

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A MISSÃO COMO CRESCIMENTO INTEGRAL


Quinta parte das considerações sobre o livro Compromiso y Misióin de Orlando Costas, publicado em 1979.

Mais um aspecto da missão é o crescimento integral. Costas observa: “no Novo Testamento, a ação do Espírito Santo se orienta sempre ao crescimento” (p. 77). Mas crescimento é um conceito multiforme. O crescimento cristão, fruto da missão, é inicialmente em largura: usando a figura da plantação, o ideal do crescimento em largura nos fala de crescimento numérico, e isto quer dizer: semeadura, cultivo, poda para somente depois haver colheita. Costas aqui expõe a idéia de que a missão não está restrita a um método qualquer que seja – como se fosse uma “vaca sagrada” – nem à igreja institucional – “como se o Espírito Santo estivesse sociologicamente atado à igreja e ao que ela poderia lograr” (p. 89).
Outro aspecto do crescimento é em profundidade. E para isto foi que o Senhor da missão dotou a igreja de habilidades especiais (Efésios 4:11-16). Compreendendo-se a idéia de crescimento integral em profundidade como missão da igreja observamos que esta deve ser: Conceitual, experiencial e orgânica. A profundidade conceitual implica “ampliar a própria compreensão da fé e da vida cristã e começar a correlacionar todos esses fatos, históricos e teológicos, acerca da pessoa de Cristo, com nossas respectivas situações vitais” (p. 93). O crescimento experiencial desafia-nos a conhecer a Cristo no serviço voluntário àqueles que estão a precisar – como Jesus que veio para servir e não para ser servido. O terceiro aspecto do crescimento em profundidade é orgânica que no leva ao desafio da koinonia – a comunhão que deve haver na comunidade, no “celebrar, compartilhar e orar em comum” (p.99). Costas insiste que esta “não é uma questão periférica” (p. 100).
Por último o crescimento integral deve ser em altura, o que aponta para o fato que o cristão é um povo para os demais. Costas afirma: “a fé cristã é pessoal; não é uma fé individualista” (p. 103). O crescimento em altura requer que a igreja se saiba como um povo que celebra a Cristo no meio dos povos; e é exatamente para isto que ela está aí, para ser uma comunidade sacramental que enquanto cultua busca produzir nossas realidades históricas no meio onde está inserida. Viver a fé em Cristo é cultuá-lo e isto quer dizer glorificar a Deus que por sua vez implica num testemunho eficaz no meio do povo. A liturgia cristã deve ser gerada num contexto de crescimento integral em altura para todos. Costas observa o exemplo de católicos e ortodoxos que “percebem com razão uma inter-relação muito perto entre culto e testemunho” (p. 110).