terça-feira, 14 de agosto de 2018

IDENTIDADE BATISTA EM TEMPOS DE MUDANÇA


Há Igrejas Batistas na Rússia que são chamadas "Cristãos Evangélicos". Na Alemanha são chamadas "Igreja do Evangelho Livre". Algumas Igrejas Batistas na América do Norte são chamadas "Igrejas da Comunidade", e algumas na África são identificadas pelo nome da agência missionária que as deu origem. Em tempos de mudança, quando procuramos entrar em contato com uma cultura secular alienada, obviamente um número de Batistas em todo mundo sentem que o nome "Batista" não é necessariamente essencial para comunicar nosso alvo primário que é ganhar almas para Jesus Cristo como Senhor e Salvador! No entanto, em todas as nossas missões e evangelismo nosso alvo não é fazer batistas, mas fazer cristãos!!
Mas, isto significa que não temos uma identidade ou distintivo batista? Pelo contrário, é necessário lembrar que em nossos dias a herança a tradição Batistas nos é importante e por isso precisamos entender para comunicar a fé que proclamamos em Cristo Jesus como nosso único Senhor e Salvador!
Certamente como todos os cristãos históricos e ortodoxos, confirmamos as doutrinas básicas da Trindade, da divindade de Cristo, seu nascimento virginal, sua crucificação e ressurreição, bem como sua segunda vinda! Afirmamos com a Reforma Protestante a doutrina de "somente pela fé e pelas Escrituras, somente por Cristo e pela graça".
Então, em que os Batistas se distinguem e nos dá identidade, e que são marcadores importantes de nossa tradição em relação a outros cristãos?
  1. Batismo de crentes versus aspersão de crianças – os Batistas creem que uma pessoa quando chega à idade adulta deve fazer uma decisão pessoal de seguir a Jesus Cristo como seu Salvador e Senhor. Isto não pode ser feito em nosso lugar por um parente ou pela Igreja.
  2. Igreja livre versus religião estatal – os Batistas creem que a religião não pode ser coagida ou forçada pelo Estado ou por qualquer autoridade religiosa. Com certeza este conceito de liberdade religiosa e separação da Igreja do Estado é nossa maior contribuição à história religiosa da humanidade.
  3. Política congregacional versus autoritarismo episcopal – o princípio democrático de ser a congregação local a Igreja de Jesus Cristo em determinada área é um importante princípio eclesiológico dos Batistas. Os Batistas sentem que o cargo de bispo no Novo Testamento é diferente do autoritarismo dos bispos de hoje. Pela livre eleição de seus oficiais (pastores, bispos, diáconos, etc.), a Igreja local consegue sua liderança, e é crucial a participação dos leigos, homens e mulheres, na missão da Igreja.
  4. Associacionalismo versus relacionamento – em relação ao conceito de democracia congregacional acima descrito, há, no entanto, um forte entendimento histórico de que a Igreja local não está sozinha, mas está ligada com outras Igrejas locais da comunidade. Mas, é na base do voluntariado, sem nenhuma autoridade de uma igreja sobre a outra. Eis aí porque nossa união é na base do princípio do voluntariado.
  5. Liberdade de alma e lealdade à Bíblia versus coerção de credos e doutrinas – tendo visto a tragédia da inquisição, a queima de hereges e perseguição religiosa, os Batistas durante o período da reforma reconheceram que cada indivíduo deve fazer sua própria profissão de fé diante de Deus. Portanto, os credos podem ajudar na explicação da fé, mas não podem ser o instrumento para exclusão do universo da igreja. Em vez de credos, que são por natureza exclusivistas, os Batistas enfatizam a Bíblia, como a única autoridade em matéria de fé. A liberdade da alma pela liderança do Espírito Santo, tem sido o princípio que guia a interpretação bíblica da vida e da vitalidade na congregação. É por isto que os Batistas dizem que todos os Princípios de Fé não devem estar presos a credos, mas estes são apenas uma ajuda e devem sempre ser fiéis à Bíblia.
Outros historiadores e teólogos Batistas podem adicionar mais a nossa identidade Batista. O que foi dito aqui é apenas uma ligeira visão para ajudar os Batistas em todo o mundo a considerar a importância de nossa Eclesiologia Batista nas muitas mudanças de paradigmas e de situações nas quais devemos ministrar e fazer missões para espalhar o Reino de Cristo em nossas Igrejas locais e no mundo!
Denton Lotz
Secretário-Geral da Aliança Batista Mundial (entre 1988 e 2007).
Lá em cima, na imagem, a membresia da PIB Aracaju em frente ao templo na década de 1920.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ATÉ OS CONFINS DA TERRA


É um desafio de nossa Igreja ganhar nossos vizinhos para Cristo e estabelecer o Reino de Deus entre nós, vencendo as forças do maligno que querem imperar por aqui. Por compreender a importância e a necessidade de nosso desafio, então: por que, neste contexto, se envolver e fazer missões além de nossas fronteiras? Se ainda nem alcançamos nossos vizinhos, por que nos preocupar com os haitianos, africanos e chilenos?
Para buscar uma resposta, quero partir da citação de Paulo que estava disposto a fazer tudo por causa do evangelho, para ser coparticipante dele (confira 1Co 9:23). E indo um pouco além, deixe-me apresentar pelo menos três razões porque devo fazer missões mundiais e por Cristo ir até aos confins da Terra.
Em primeiro lugar por que Deus viu e amor o mundo. Da mesma forma, é preciso que da minha igreja veja e ame o mundo (nenhum texto se compara a Jo 3:16). Mesmo estando nos céus, Deus olhou com amor pelas almas perdidas de todo o mundo e tudo o que fez foi movido por esta compaixão (veja Rm 5:8). É porque este amor me alcançou que devo buscar transmiti-lo na mesma dimensão a todo o mundo (ainda cito 1Jo 4:19).
Ainda convém enfatizar que a extensão da minha visão do Reino de Deus deve determinar o alcance da minha missão e do evangelho que estou a pregar. Se creio que o Reino abrange todo o mundo, também minha missão deve alcançá-lo.
Em segundo lugar porque como Cristo foi enviado ao mundo, também a igreja está debaixo do mesmo compromisso (Jesus disse isso em Jo 20:21). Jesus tinha uma missão a cumprir e nada o haveria de deter. Neste senso de determinação e objetividade, o próprio Mestre repassou sua missão de ganhar o mundo para o evangelho para seus seguidores (lembro de Jo 13:15). É porque fui enviado que não posso me esquecer da missão ao mundo.
Observe que a minha consciência clara, específica e mundialmente abrangente da missão é que estabelecerá o meu comprometimento com ela. Por ter tal consciência não posso descuidar antes de tê-la alcançado (veja ainda a instrução em 2Tm 4:5).
E em terceiro lugar porque o senso de urgência demonstrado por Cristo deve me influenciar de modo profundo (ainda Jesus em Jo 9:4). A certeza de que o tempo estava para se cumprir em breve motivou Jesus a ir sempre além e deve também mover minha igreja a continuar até os confins da Terra (já é clássico Mc 16:15). É porque sei que o tempo está próximo que não posso diminuir o alcance de minha missão.
Esta associação é fundamental: a convicção dos sinais dos tempos tem que me impulsionar a fazer missões no mundo. Se estou vendo os sinais acontecendo, preciso cumprir logo a missão (veja a advertência em Lc 21:31).
Como disse lá em cima, temos um compromisso com a expansão do Reino e do Evangelho aqui. Mas sei que nossa missão é muito maior, por estar na dimensão do amor enviado e urgente de Deus por este mundo todo. Que nada nos faça abandonar a missão e que possamos repetir com convicção: por Cristo vou até os confins da Terra.
(A partir de uma postagem no sítio ibsolnascente.blogspot.com em 12 de março de 2010)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

MAPA DOS TEÓLOGOS CRISTÃOS


Para atender a curiosidade de quem gosta de Geografia, História e Teologia, aí vão alguns mapas com a marcação do local de nascimento e/ou atuação de alguns dos principais teólogos e pensadores cristãos (tomei como base as imagens do Google Earth e indiquei os pontos).
Logicamente a lista não é completa – até porque isso seria impossível – e em cada imagem você vai sentir falta de alguém, mas já dá para uma ideia de como o cristianismo se moveu através dos anos.

Do século I até o Concílio de Niceia (ano 325) –


De Niceia até o início da Idade Média (ano 476) –


Idade Média –


Era da Reforma na Europa –


Séculos XVIII e XIX (Europa) –


Séculos XVIII e XIX (América) –


Século XX (Europa) –


Século XX e XXI (América) –


Pensadores cristãos Brasileiros contemporâneos –



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O VOTO NA BÍBLIA


Os exemplos de voto na Bíblia são sempre complicados. Como este tema é delicado, nem sempre os personagens bíblicos souberam adequadamente fazê-lo ou que tipo de expectativa gerar a partir dele. Sabemos, porém que o texto sagrado não esconde erros e falhas de seus herois. Mesmo apontando para a intervenção benéfica de Deus, os fatos equivocados estão narrados na Bíblia a fim de que até deles possamos extrair lições para a nossa vida de disciplina hoje. Vejamos três casos citados no AT.
Em primeiro lugar vejamos o patriarca Jacó. Depois de ter enganado seu pai e fugir de sua presença, Jacó dormiu e sonhou com a presença do Senhor em forma de uma escada que partia do céu e chegava a terra. Ao acordar ele teve medo (Gn 28:17) – note que embora seja uma motivação possível, esta não é a melhor para se buscar o Senhor e com ele estabelecer um pacto. A partir do medo, pela consciência da presença do Senhor naquele lugar, Jacó propôs um acordo com Deus, e deste acordo – segundo Jacó – haveria uma necessária implicação divina e uma contrarresposta do patriarca.
Observe que o voto de Jacó começou com uma condicional: se Deus estiver comigo... (Gn 28:20), e terminou com o seu compromisso: ...certamente te darei o dízimo (Gn 28:22). O erro de Jacó foi querer condicionar Deus ao seu voto. A companhia divina é certa e suas bênçãos são sempre independentes de nossas ações (veja Mt 28:20 e 1Co 12:11). Jacó ainda precisava aprender que sua atitude para com Deus devia ser sempre resposta à manifestação da graça e não uma provocação.
O segundo personagem que citaremos é Jefté. No caso dele, o voto está comprometido com uma série de incorreções, veja o texto:
E Jefté fez um voto ao SENHOR: "Se entregares os amonitas nas minhas mãos, aquele que estiver saindo da porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto".
(Jz 11:30-31)
Jefté repetiu o erro de Jacó em querer condicionar Deus e acrescentou uma promessa de entregar ao Senhor em holocausto aquele que viesse ao seu encontro. O erro do juiz de Israel estava em implicar uma terceira pessoa no seu voto (como disciplina o voto deve ser sempre pessoal) e acreditar que Deus seria honrado se uma vida humana lhe fosse entregue morta em holocausto. Ora, todas as vidas já são de Deus (veja Ez 18:10) e não há prazer divino na morte de ninguém (veja Ez 18:32).
O voto de Jefté foi precipitado por que não avaliou estas questões. Deus poderia dar a vitória sobre os amonitas independente do voto, como o fez em diversas outras ocasiões, e Jefté poderia ter oferecido a Deus outros sacrifícios de gratidão já previstos na própria Lei (veja a prescrição sobre ofertas pacíficas em Lv 7:11-21). E o resultado não poderia ser mais triste: quem saiu ao encontro de Jefté foi sua única filha, a qual teve que ser morta para pagar um voto desnecessário (veja Jz 11:34 e 39).
A santa mulher de Deus Ana é o terceiro exemplo de voto. Por se sentir desprezada em relação a Penina diante do seu marido Elcana, já que não tinha filhos, Ana fez um voto ao Senhor, e neste voto ela suplicou que sua humilhação fosse retirada recebendo a graça de gerar uma criança. A contrapartida de Ana seria que ela dedicaria ao Senhor o seu filho (veja 1Sm 1:11).
É importante acompanhar a história e perceber que o voto de Ana não foi um ato desesperado, nem foi inconsequente. O que mais aquela mulher queria era poder gerar um filho, seria sua maior graça, e ela estava disposta a devolvê-lo ao Senhor. Note a diferença entre Ana e Jefté: enquanto Jefté prometeu e entregou ao Senhor uma morte com tristeza de coração; Ana prometeu e devolveu ao Senhor uma vida como prova de sua gratidão!
E mais. O voto de Ana foi acompanhado de oração e quebrantamento na presença do Senhor (veja 1Sm 1:12-13). O voto era o compromisso pessoal da serva do Senhor em ofertar daquilo que tinha recebido das mãos poderosas, graciosas e divinas e não uma forma de querer "comprar" Deus.
Na sua oração, Ana se colocou em seu devido lugar aguardando a manifestação livre e soberana de Deus. Mais uma vez o resultado foi bem diferente em relação a Jefté. A criança que Deus deu a Ana foi Samuel, o juiz-profeta que marcou de maneira singular a história de Israel naqueles dias.
O voto livre, consciente e consequente de Ana não mudou os planos de Deus, mas permitiu que sua família fosse abençoada em participar de tais planos.
Um voto assim impacta toda nossa vida espiritual.

terça-feira, 31 de julho de 2018

MALIGNIDADES


Deixe-me começar dizendo que não vou apresentar um tratado de demonologia – um estudo sobre o demônio ou coisa parecida – nem do ponto de vista da Teologia, nem da cultura ou da história. Aqui é só um levantamento preliminar da terminologia referente aos seres do mal na tradição judaico-cristã (alguns chamam de anjos caídos ou decaídos).

Vamos lá. Em geral os termos de referência são (na lista, em ordem alfabética):
  • Abadon – Palavra hebraica que significa destruição (אבדון). No texto de Ap 9:11 o nome é dado ao anjo do abismo (o equivalente grego é Apolion – Ἀπολλύων).
  • Anticristo – Do grego ντίχριστος, literalmente o opositor a Cristo. Na epístola de 1Jo ele é citado como o que, no final dos tempos, haverá de se levantar e se caracteriza por não confessar que Jesus procede de Deus.
  • Asmodeus – Entidade do mal na mitologia judaica citada como governante de Sodoma e associada à luxúria. Seu nome em hebraico é אשמדאי e foi absorvido do zoroastrismo persa. Na literatura hebraica é citado no livro de Tobias.
  • Astarote – De acordo com a mitologia cananeia, esta deusa seria uma entre as esposas do deus Baal. Seus principais centros de adoração ficavam em Sidom e Tiro. Também é conhecida como Astarte (em hebraico עשתרת – na Bíblia em Jz 2:13).
  • Azazel – Em três usos: Nome hebraico dado ao bode expiatório citado em Lv 16. Na mitologia judaica extrabíblica, o anjo que tem a incumbência de relatar os pecados humanos diante do tribunal divino. Na catalogação de demônios da tradição católica, um dos sete demônios principais. Em hebraico a grafia é עזאזל.
  • Baal – No hebraico primitivo, a palavra בעל significava senhor, marido. Veio posteriormente a se tornar um nome genérico de vários deuses pagãos cananeus ou especificamente ao deus da tempestade dos povos semitas orientais.
  • Bafomé – Era um deus pagão representado com uma cabeça de carneiro ou de bode, um símbolo comum de procriação e fecundidade. O termo entrou no ideário cristão a partir da Idade Média e não encontra referência na Bíblia.
  • Belfegor – Divindade da antiga Palestina cuja estátua geralmente representava um homem de barba, corpo atlético e chifres. Na mitologia católica é uma dos sete espíritos que governam o inferno. Na Bíblia é citado em Nm 25:3 – בעל־פעור – quando a adoração idólatra ascende a ira de Deus.
  • Belial – Em hebraico, בליעל significa literalmente sem valor ou rebelde, daí ímpio ou imoral. No NT, o termo aparece em 2Co 6:15 e é usado para se referir ao Maligno, como a essência pessoal do mal.
  • Belzebu – Transliteração, aproximada, de Baal-zebub, que era o nome fenício do deus da cidade de Ecron (no grego: Βεελζεβούλ). Jesus usa o termo para se referir ao príncipe dos demônios (Lc 11:15ss).
  • Capeta – É usado em relação ao diabo em referência às antigas representações de sua figura com capa vermelha (daí o termo: capeta – pequena capa), além dos chifres e tridente. Esse termo é criação da língua portuguesa e não aparece na Bíblia.
  • Dagom – Nome do antigo deus cananeu e babilônico que, segundo o mito, teria sido o pai de Baal (em hebraico דגוןJz 16:23). Sua estátua representava uma figura de corpo humano com cabeça de peixe e se tornou o deus oficial dos filisteus.
  • Demônio – No grego clássico, δαιμῶν é uma força, ou potestade, que exerce algo. No NT o termo é usado, por exemplo, em Mt 8:31 se referindo aos espíritos malignos que atormentavam o gadareno, e em 1Co 10:20-21 demonstrando a oposição do culto verdadeiro a Cristo e da adoração idólatra.
  • Diabo – No grego, o adjetivo διάβολος significa caluniador, difamador. A expressão aparece no NT em textos como 2Tm 3:3 (aqui no plural) num sentido genérico e em 1Pe 5:8 como designação própria do Inimigo.
  • Dragão – Animal mitológico citado em Ap 12:9 como uma referência simbólica a Satanás (em grego: δράκων).
  • Hades – No grego ἅδης, era o nome do deus do mundo subterrâneo na mitologia grega, daí, o além-túmulo, a habitação dos mortos para onde vão todos os justos e injustos. Neste sentido equivale ao hebraico שאולsheol.
  • Legião – No exército romano (em latim legio), um destacamento com tropas de infantaria e cavalaria. Os Evangelhos (veja Mc 5:9) narram um exorcismo praticado por Jesus cujo demônio se autointitulou legião, por serem muitos.
  • Leviatã – Réptil mitológico fenício que, no texto de Jó 41 (em hebraico: לויתן), representa a figura do mal.
  • Lilith – Segundo uma antiga tradição judaica, seria a primeira mulher de Adão que se rebelou porque queria ser igual a ele. É uma figura sedutora de longos cabelos e que voa como uma coruja à noite procurando gerar descendência. Por extensão os judeus a associavam à figura de um demônio feminino. Em hebraico: לילית.
  • Lúcifer – A palavra latina Lucifer significa o que leva a luz, a estrela da manhã. O texto de Is 14 usa em referência ao rei da Babilônia talvez em referência deste a Satanás.
  • Mamom – Termo de origem semítica (aramaico: ממון, via grego: μαμωνᾶς) que aparece em textos como Mt 6:24 e personifica as riquezas – daí a divindade maligna que governa a cobiça.
  • Moloque – Um deus de origem amonita, cujo culto era celebrado com orgias e sacrifícios humanos pelo fogo. Sua estátua era representada com corpo humano e cabeça de touro e seu nome deriva da língua fenícia significando rei (em hebraico: מלךLv 18:21).
  • Potestade – Do latim potestas, poder, potência. Por extensão, as forças sobrenaturais que atuam no mundo.
  • Satanás – O termo hebraico שטןvia grego σατάν ou σατανᾶς – era usado inicialmente como referência a qualquer adversário (como em Mt 16:23). Mais tarde passou a personificar o Diabo, como adversário, ou inimigo, de Deus (veja em textos como Zc 3:1-2 e Lc 22:31-32).

Além destes nomes, a cultura popular atribui a estas malignidades vários outros nomes: Capeta (este já citei lá em cima), tinhoso, encardido, coisa-ruim, capiroto, demo, rabudo e outros tantos que a criatividade for acrescentando.
E quanto a todos eles, só resta afirmar: “Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (1Jo 4:4).




sexta-feira, 27 de julho de 2018

TENHO SEDE


Uma das últimas palavras proferidas por Jesus na cruz foi: Tenho sede! (Jo 19:28). Mais que uma simples exclamação de um moribundo, a expressão na boca do Mestre naquele momento demonstra muito para nós – os seus seguidores – sobre quem era aquele homem e o que estava fazendo ali.
O próprio evangelista observa no verso citado que aquela exclamação foi feita para se cumprir a Escritura. O brado de Jesus na cruz nos diz claramente que o sacrifício ali executado era a cumprimento do propósito eterno de Deus. Lá no Éden diante do primeiro casal o Senhor havia prometido que o descendente da mulher feriria a cabeça da serpente (confirme em Gn 3:14).
Deus planejou cuidadosamente o resgate do ser humano e no tempo apropriado Cristo cumpriu o plano divino (veja Gl 4:4). Naquela na cruz Jesus estampava que a Palavra de Deus sempre se cumpre – o próprio Mestre declarou em Mt 24:35.
O grito de Jesus na cruz também mostra que ali na cruz estava não apenas a divindade encarnada, mas também um ser humano completo. Sabemos que para o sacrifício savífico para ser válido teria que ser executado por um homem. Ao dizer que tinha sede, Jesus estava deixando bem claro que era na condição de homem que assumia a maldição do madeiro.
Sobre isso é bom citar as palavras encontradas em Hebreus ao observar que Jesus se apresentou como o sumo-sacerdote que pode demonstrar compaixão por ter sido em tudo testado como ser humano, mas apenas sem pecado (leia em Hb 4:15).
Finalmente, ao ouvir Jesus exclamando desta forma no Calvário compreendemos até que ponto ele teve de se sacrificar para se apresentar como o salvador. Paulo escrevendo aos filipenses fala que Jesus esvaziou-se de todo o direito que lhe cabia como Deus para viver como servo e morrer na mais humilhante condição (é o hino cristológico de Fl 2:6-11).
Mas graças a Deus que quando trazemos a memória os eventos da cruz sabemos que a história da cruz não acaba na sede. Voltando a Paulo, ele afirma que, depois de tudo, o Filho unigênito de Deus venceu o último adversário e foi exaltado acima de todo nome (compare ainda com 1Co 15:54).
Assim, contemplemos a Jesus na cruz. E enquanto o ouvimos exclamar sua sede na certeza de que ali está o completamente Deus e o completamente homem saibamos: foi com sua obra e sacrifício que ele nos resgatou e que por isso devemos louvá-lo sempre. Para a glória de Deus.

terça-feira, 24 de julho de 2018

DEUS SE ARREPENDEU



Em geral, esse é um tema que realmente causa dúvidas quando lido de forma literal nas traduções tanto em português como em outras línguas modernas. Veja alguns exemplos de como os tradutores redigiram 2Sm 24:16:

Português (ARA): “… o Senhor se arrependeu daquele mal ...”
Português (NVI): “… o Senhor arrependeu-se de trazer essa catástrofe ...”
Espanhol: (Reina-Valera): “… Jehová se arrepintió de aquel mal …”
Italiano (Riveduta): “… lEterno si pentì della calamità chegli aveva inflitta ...”
Alemão (Lutero): “… reuete es den HErrn über dem Übel und ...”
Inglês (KJV): “… the LORD repented him of the evil ...”
Inglês (NIV): “… the LORD relented concerning the disaster ...”

Onde se apresenta o problema?
Se Deus não se arrepende, como atesta textos como Nm 23:19 e Ml 3:6, como é possível que o texto de 2º Samuel diga que ele se arrependeu? E nos outros textos como Gn 6:7 ou Êx 32:14?

Para ajudar a resolver a questão vamos dar em primeiro lugar uma rápida passagem no vocabulário hebraico. Ele vai nos ajudar a começar a entender.

Na língua original do AT há duas expressões que podem ser traduzidas por arrependimento – ou o verbo arrepender – são elas:
תשובה (teshuvah) – a partir do radical לשוב (lashuv), em geral num sentido de retornar, voltar atrás, assumir que errou. Esta palavra está nos textos de Ml 3:6 e 1Sm 15:29 quando declaram que Deus não é humano para se arrepender.
נחם (nâham) – esta palavra quando aplicada a Deus geralmente é traduzida como arrepender (como no caso de 2Sm 24:16 e Gn 6:7). Mas quando aplicada ao ser humano é traduzido como consolar ou compadecer por alguém em tempo de luto (como por exemplo em Gn 24:67).

Penso que um bom texto para ajudar a entender esta diferença seja Jn 3:10 – onde os dois termos aparecem lado a lado. Na narrativa do profeta Jonas, os ninivitas (humanos) se arrependeram e se converteram (voltaram atrás dos pecados cometidos – em hebraico שוי), enquanto Deus se arrependeu (mudou sua proposição em relação àqueles homens – em hebraico וינחם).

Entendendo melhor. Enquanto os seres humanos precisam de quebrantamento, confissão e volta (o filho pródigo faz isso na parábola de Lc 15), Deus – baseado nas palavras proféticas e no novo posicionamento do povo – aplicou um novo direcionamento aos seus propósitos. O Senhor não errou para ter que voltar atrás!


sexta-feira, 20 de julho de 2018

UM CAMALEÃO NA SALA DE ORAÇÃO


Lembro-me de quando pastoreava nossa congregação em Sol Nascente e mantínhamos o santo costume de nos reunir em uma sala de oração antes do culto dominical das 18h (ainda creio que muitas bênçãos que nos chegaram ali foi resultado destas intercessões).
Também lembro que num domingo chegamos para a oração e lá havia um enorme bicho, lá pelos idos de maio de 2009. Na época, cheguei a publicar algo na página da Congregação na web, e é de lá que vou copiar as palavras a seguir.

Antes de prosseguir deixe-me dizer três coisas:
1. Apesar de sermos uma igreja ambientada num espaço urbano, não é raro bichos dos mais diversos frequentarem nosso espaço. Desde os mais comuns como cachorros, gatos e ratos, até alguns inusitados como morcegos, corujas, gaviões entre outros. Eles são criaturas do Senhor e bem-vindos a sua casa.
2. Ninguém aqui é especialista em fauna, daí que se o bicho do caso não for realmente um camaleão, pouco importa, o que vale é a reflexão.
3. A foto lá em cima foi tirada por meu filho André no seu celular, logo eu, como pai, perdoo a falta de qualidade técnica.

Mas vamos a reflexão:
O bicho na sala de oração foi retirado com cuidado e colocado numa árvore que sombreia nosso terreno, mas ficaram alguns crentes para orar – como sempre fazem – e eu então ponderei: que lição eu aprendo disto?
Um crente camaleão na sala de oração de uma igreja pode ser um péssimo sinal, algo como alguém dissimulado, um lobo disfarçado de ovelha (para citar a ilustração de Jesus em Jo 10).
Sabemos que o camaleão é um bicho notório pela sua capacidade de se camuflar, mudar a tonalidade da pele para enganar seus inimigos e predadores e assim não ser apanhado.
Sei que em Mt 13 Jesus já nos advertia sobre a presença inevitável do joio no meio do trigo, mas realmente quando um camaleão se disfarça de crente e se mistura na sala de oração, ele pode passar despercebido por aqueles que estão com ele orando, mas não passará impune pelo crivo do Senhor (veja que no final Cristo em pessoa haverá de separar o trigo do joio).
De verdade não é possível evitar a presença de camaleões no meio da sala de oração de nossas igrejas, mas precisamos cada um de nós trabalhar e vivermos nosso compromisso cristão para que não sejamos apenas um disfarce – ou simulação – de cristão no meio da sala de oração.
Que Deus assim nos faça.


terça-feira, 17 de julho de 2018

TERMOS A PARTIR DE THEOS



Sabe quantos termos eu achei no Dicionário a partir do radical grego Θεός (Theós – Deus)? Veja a lista abaixo:

Teocentrismo – Diz-se do sistema filosófico ou religioso que é centrado em Deus.
Teocracia – Forma de governo em que o poder e a autoridade emanam diretamente de Deus. O povo assim governado é chamado Teocrático
Teocrasia – Doutrina neoplatônica que prega fusão completa do ser humano com Deus.
Teodiceia – Parte da Filosofia que se ocupa em estudar a existência e natureza de Deus de maneira racional.
Teofania – Aparição triunfante de Deus de maneira visível e histórica. Também chamada de epifania ou hierofania.
Teofobia – Refere-se àquilo, ou àquele que tem horror (fobia) a Deus e às coisas divinas.
Teofórico – Aquele, ou aquilo, que conduz ou leva Deus. Por extensão: o veículo do sagrado e divino.
Teogonia – Nas religiões politeístas se referia à doutrina do nascimento dos deuses e da formação dos mundos.
Teologal – Diz-se daquilo que se relaciona, ou pertence à Teologia.
Teologastro – Depreciativamente se diz do teólogo medíocre, cuja argumentação demonstra-se sem fundamento.
Teologia – A ciência ou estudo acerca de Deus. Por Teologia Cristã, compreendemos o diálogo que a comunidade de fé faz sobre Deus e com Deus.
Teologismo – Discurso onde predomina um abuso ou exagero dos princípios teológicos. Por extensão, qualquer reducionismo teológico.
Teologizar – Discorrer acerca da Teologia; fazer Teologia. Também pode ser dito Teologar, no sentido de dialogar na esfera da Teologia.
Teologúmeno – Diz-se de qualquer princípio teológico.
Teomancia – Refere-se à prática de adivinhação por suposta inspiração divina.
Teomania – Em Psicologia se refere a um estado de loucura onde o doente se julga ser um deus. Por extensão, qualquer desvio mental que faz com que a pessoa se considere como emissário especial de Deus. Teomante seria a pessoa que sofre de tal mal.
Teonomia – Sistema pelo qual se designa a aplicação de leis e controles a partir do próprio Deus.
Teonomismo – Princípio que apregoa que a lei e vontade de Deus são a autoridade suprema em quaisquer questões morais.
Teônomo – Tecnicamente é um nome atribuído a Deus.
Teopsia – Fenômeno que consiste na aparição súbita da divindade.
Teosebia – Reverência a Deus, piedade, religião. Daí: um culto prestado a Deus.

Acrescente alguns termos diretamente do grego:

Theologoumenon – No grego é o particípio passivo do verbo θεολογέω – falar de Deus. Tecnicamente em Teologia se usa para expressar todo ditame teológico.
Theotokos – Do grego θεοτόκος, mãe de Deus. A partir das controvérsias do século III, o termo foi usado em relação a Maria para se referir a ela como a própria mãe de Deus.
Theourguia – No grego θεουργία. O ato de manipular certos objetos com o intuito de convocar a presença divina em estátuas ou em médiuns humanos.

E do grego bíblico no NT:

Θεοδίδακτος – Ensinado por Deus (1Ts 4:9).
Θεομαχέω – Lutar contra Deus (At 23:9).
Θεομάχος – Lutando contra Deus (At 5:39).
Θεόπνευστος – Inspirada por Deus (2Tm 3:16)
Θεοσέβεια – Reverência a Deus, piedade, religião (1Tm 2:10).
Θεοσεβής – Temente a Deus, devoto (Jo 9:31).
Θεοστυγής – Odiador de Deus (Rm 1:30).
Θεότης – deidade, divindade (Cl 2:9).