terça-feira, 7 de abril de 2020

TESTAMENTOS, ALIANÇAS E PACTOS


O livro de Hebreus começa com a seguinte afirmação: "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por quem fez também o mundo" (1:1-2).
Neste fantástico documento cristão primitivo que reputamos por inspirado – por estar na Bíblia – o autor reconhece que nos tempos passados Deus havia falado.
Nosso Deus, embora seja supremo e tremendo, ele se revela aos seus.  Primeiramente aos pais pelos profetas, e finalmente através de Jesus Cristo.
O que temos aqui também é o testemunho primordial e bíblico de que o Livro Sagrado cristão – oriundo da própria vontade e revelação de Deus – é duplo desde a sua origem.
Há uma parte inicial que foi dada aos antepassados, mas que sozinha era incompleta, dependendo de uma segunda parte que foi dada a partir da própria revelação do Filho de Deus encarnado.

MAIS, POR QUE TESTAMENTO?

O termo já é bastante conhecido.  As duas partes da Bíblia cristã são chamadas de Testamento: o Antigo Testamento e o Novo Testamento.
Mas vamos nos deter um pouco na palavra em si.  A palavra Testamento no dicionário quer dizer: "Ato gratuito pelo qual alguém dispõe de seu patrimônio para depois de sua morte".
Biblicamente o termo é usado para significar pacto, aliança, concerto ou acerto feito entre Deus e os seres humanos. A própria Bíblia se refere a vários deles com maior ou menor extensão e implicação. Vejamos alguns exemplos:

§ A Noé Deus disse: "Contigo estabelecerei o meu pacto" (Gn 6:18).
§ Sobre Abraão é dito: "Fez o Senhor um pacto com Abrão" (Gn 15:18).
§ Em relação aos filhos de Israel o próprio Deus afirma: "Estabeleci o meu pacto com eles" (Êx 6:4).
§ A arca sagrada diante da qual o culto em Israel era oficiado é chamada de "Arca da Aliança" (Nm 10:33 / 1Rs 3:15 / Ap 11:19).
§ O sangue de Cristo foi derramado como selo do novo pacto (1Co 11:25).
§ É testificado aos Hebreus que em Cristo foi estabelecido uma nova e superior aliança (Hb 8:6).
§ Assim as duas grandes divisões da Bíblia são o registro das duas grandes alianças estabelecidas entre Deus e a humanidade.

Ao longo da história humana, Deus sempre tomou a iniciativa de vir ao encontro do ser humano. Mesmo caídos e rebeldes, homens e mulheres continuaram sendo as amadas criaturas de Deus que as procura como filhos.
Nesta procura, Deus estabeleceu acertos, pactos, alianças, testamentos e os deixou registrados para que em todas as épocas todos pudessem ter acesso ao mesmo amor misericordioso do Pai-Criador.
Sendo assim, ainda hoje podemos crer em um Deus que se importa fundamentalmente conosco, nos propondo um acerto de vida. Em Cristo podemos fazer um testamento eterno com Deus, baseado nas promessas que ele nos deixou escrito desde os tempos antigos.
Façamos pactos com ele.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

MARIA DE MAGDALA


Resolvi pensar um pouco sobre Maria Madalena.  Juntou os tempos de quarentena com os dias da Quaresma e a figura da Madalena me veio à mente.
— Qual a relação?
A despeito do que tradição, interpretações dúbias, citações apócrifas e sucessos pops tenham dito, Maria Madalena é uma figura bíblica.
Então, certo de que só vou me ocupar do que eu encontrar nas páginas sagradas, volto a questão: Qual a relação entre a Quaresma e a Madalena?
Resposta rápida: Maria Madalena aparece nos Evangelhos somente nos relatos da paixão – morte e ressurreição de Jesus (veja Mt 27 e 28 / Mc 15 e 16 / Lc 24 / Jo 19 e 20 – há uma exceção em Lc 8:1-2 quando o evangelista cita a Madalena entre as mulheres que davam suporte ao ministério de Jesus).
Vamos além.
A Bíblia não apresenta muitos detalhes sobre seus personagens – principalmente as mulheres.  Sabemos que ela era de Magdala, uma aldeia distante uns 10 km de Cafarnaum, a base do ministério de Jesus e que dela foram exorcizados sete demônios.
Idade? Aparência? Personalidade? Liderança? Manias? Jeitos? ... Nada! Nada! Nada!
Deixe-me logo aproveitar para apresentar a figura que tenho em mente quando leio sobre essa Maria de Magdala.
Eu penso nela como uma matrona, uma mulher de idade madura, respeitável pela experiência de vida e pelo procedimento.  Uma espécie de mãezona que passou a viajar junto com a caravana do Rabi Jesus ao longo do seu ministério.
Não sou o único a pensar nela assim, nem tenho documentos que sustentem essa visão, mas acho bem plausível e coerente.
Assim, chegamos ao pé da cruz no Monte Calvário.  O discípulo amado estava ali – o único dos discípulos homem – mas também a mãe do crucificado, sua tia, a mulher de Clopas e a Madalena (a lista está em Jo 19:25-26).
Ali estava ela, provavelmente com o rosto banhado de lágrimas.  Ideias confusas tumultuavam sua mente e uma terrível sensação de impotência a dominava.
Depois se ver livre de demônios, de caminhar com o Mestre, de compartilhar sonhos e expectativas: agora o duro madeiro.
Madalena no Gólgota me representa quando sinto o gosto amargo da frustração, o obscuro vazio, o incerto porvir.  E agora?  Não pode acabar assim!
Mas não acabou.
Na madrugada do primeiro dia é ela, a vivida Maria de Magdala que estava no jardim do sepulcro para cumprir seus últimos rituais fúnebres.
Não há tempo nem experiências que nos preparem para isso.
E eis que uma voz interrompe o choro: Mulher, por que choras? (Jo 20:15).
É o ressuscitado.  Aquele que a livrou dos sete demônios, deu-lhe a oportunidade e prazer da companhia na caminhada.  Aquele que a conhecia na intimidade a ponto lhe chamar pelo nome:  Maria! (verso 16).
Assim o novo irrompe sobre o caos e a incerteza da vida que precisa continuar, trazendo-lhe novo alento e significado.
Nesse tempo de Quaresma e quarentena, nesse tempo de recolhimento, reflexão e incerteza, estou com a Madalena, tentando disfarçar lágrimas e enxergar futuro.  Aqui é também que eu consigo ouvir aquele que venceu a morte me chamando pelo meu nome.
Então o jardim não é mais de sepulcro, nem é mais assustador, e nem muito menos solitário: Eu vi o Senhor! Ele vive!
Que nos traga Cristo consolo, esperança e nova intimidade, nesse tempo de solitude, como o fez com aquela senhora de Magdala.

terça-feira, 31 de março de 2020

BONHOEFFER – Teólogo e Pastor


Dietrich Bonhoeffer nasceu em 04/02/1906 em Breslau na Alemanha junto com sua irmã gêmea Sabine, oitavo filho de Karl Ludwig, um médico psiquiatra e neurologista de renome e de Paula von Hase, filha de um pastor-capelão do imperador da Prússia. 
Com seis anos de idade seu pai mudou-se para Berlim onde foi trabalhar na Universidade, o que favoreceu ao jovem Dietrich as condições de uma educação refinada e aristocrata. 
Aos dezesseis anos Bonhoeffer decidiu cursar teologia e seguir a carreira pastoral.  Começou cursando em Tübingen em 1923 mas logo retomou seus estudos em Berlim onde foi aluno dos principais mestres da chamada Teologia Liberal alemã – entre eles A. Harnack que ficou impressionado com o brilhantismo do jovem aluno.
No ano de 1927 conclui a graduação em Teologia com a publicação de sua dissertação: Sanctorum Communio.  No mesmo ano Bonhoeffer seguiu para Barcelona, na Espanha, onde dirigiria uma comunidade luterana de língua alemã e em 1929 retornou para Berlim com o objetivo de se habilitar para o ensino com a publicação de sua segunda tese: Ato e Ser. 
A tese foi aprovada, mas antes de assumir a cadeira de Teologia Sistemática na Universidade de Berlim, Bonhoeffer foi enviado aos Estados Unidos onde ele iria entrar em contado com a igreja americana, uma igreja que ele mesmo classificou como “protestantismo sem reforma”.
De volta a Europa, o teólogo alemão assumiu sua cadeira em Berlim onde exerceu profunda influência espiritual e intelectual sobre os estudantes.  Neste mesmo período conheceu pessoalmente o suíço Karl Barth e se envolveu com trabalhos pastorais e de capelania com estudantes e operários. 
Em 1933 Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha e Bonhoeffer marcou posição contra o nacional-socialismo alemão e a igreja oficial dos “irmãos alemães” junto com a chamada Igreja Confessante Alemã.  Este posicionamento determinaria o destino teológico e pessoal de Dietrich Bonhoeffer.  Como pensador cristão, ele deixaria definitivamente a linha filosófico-especulativa partindo para um trabalho mais engajado e militante; e como líder espiritual, lideraria os jovens alemães que buscavam se dedicar aos trabalhos pastorais.
A sua grande obra deste período foi a publicação em 1937 de Nochfolge (em português: Discipulado) e que tratou do que Bonhoeffer considerou ser a grande falha do cristianismo alemão: a graça barata.  Contudo já a partir de 1935 o compromisso com o Seminário de Finkenwalde ofereceu a Bonhoeffer a oportunidade de execução de sua principal obra: casar as experiências de teólogo-acadêmico com o trabalho pastoral ocupado com a vida comum, fé e espiritualidade dos formandos. 
É do testemunho dos tempos de vida comunitária em Finkenwalde que os exemplos deixados marcarão profundamente toda uma geração de pastores da Alemanha.  Mas foram também as experiências de Finkenwalde e o compromisso com o cristianismo ali vivido que forjaram o conceito de compromisso do cristão com o mundo e seus destinos – marca característica da teologia de Bonhoeffer – e o levaram às últimas consequências.
Ainda neste período, Bonhoeffer se propôs a escrever sobre a ética, obra para a qual esboçou escritos mas não conseguiu concluir.  Em 1949, contudo, seu amigo pessoal Eberhard Bethge reuniu seus escritos publicando o material. 
Também demonstrou a intenção de escrever algo sobre o que ele chamaria de Inventário do Cristianismo, conforme citou nas suas cartas da prisão, no qual daria ênfase ao culto.
A partir de 1936 a situação de Bonhoeffer se complicou.  Primeiro lhe foi cassado o direito de lecionar em Berlim por suas posições declaradas antinazistas e seu envolvimento em ações de resistência política e militar contra o regime; e depois com o Seminário de Finkenwalde que foi proibido de funcionar.  Neste momento lhe foi conseguido uma saída da Alemanha para ocupar o pastorado da uma paróquia em Londres, mas Bonhoeffer se recusou com as seguintes palavras:
Não só é meu dever ocupar-me das vítimas deixadas no chão por um louco que dirige desvairadamente um carro por uma estrada abarrotada, mas também fazer de tudo para impedi-lo de dirigir.
Em 05/04/1943, Bonhoeffer foi preso sob a acusação de cooperação num atentado contra Hitler.  Primeiro ficou detido numa prisão em Tegel, de onde escreveu a maioria dos escritos que depois comporão a obra Widerstand und Ergebung (em português: Resistência e Submissão) depois foi transferido para o Campo de Concentração de Buchewald em fevereiro de 1945 e no domingo 8 de abril, enquanto exercia atividade pastoral para os presos, pregando um sermão, Bonhoeffer foi levado para ser enforcado no dia seguinte. 
As últimas palavras do pastor Dietrich Bonhoeffer na atividade litúrgica a que se dedicara como compromisso vital foram emblemáticas, nelas ele pediu ao capitão Payne Best (oficial do serviço secreto britânico) para transmitir ao Bispo de Chichester – George Bell sua certeza:
Conte a ele que para mim é o fim, mas também o início. Com ele eu creio no princípio de nossa fraternidade cristã universal que se ergue acima de todo o ódio nacional e que a nossa vitória é certa - conte a ele que eu nunca esqueci suas palavras da nossa última reunião.
Sobre a obra e a contribuição de Bonhoeffer, Eberhard Bethge assim a resumiu:
Bonhoeffer quando tinha 20 anos disse aos teólogos: o vosso tema é a Igreja; aos 30 anos, disse à Igreja: o teu tema é o mundo; quando chegava perto dos 40 anos, disse ao mundo: o teu tema, que é o abandono, é o tema próprio de Deus.  Com esse tema ele não engana, mas abre a tua existência.

sexta-feira, 27 de março de 2020

EXPERIMENTE O NOVO NASCIMENTO


O Evangelho de João conta que Jesus, tomando um chicote de cordas, expulsou todos aqueles comerciantes do templo e purificou o lugar (confira esta atitude de Jesus em 2:15).
E assim é: quando as negociatas com a fé tomam o lugar da verdadeira adoração contaminando a Casa do Pai (expressão de Jo 2:16), o Senhor apressa-se em providenciar o restabelecimento da ordem sagrada.
Depois deste primeiro episódio no templo, a repercussão foi imediata.  Enquanto alguns questionaram suas atitudes, muitos vieram a crer no seu nome (confira os versos 2:23-25).
Neste ambiente, um homem, Nicodemos – que é apresentado como um fariseu líder dos judeus – procurou Jesus para um conhecimento mais acurado (a história deste encontro está narrada em Jo 3 a partir do primeiro verso).
Nicodemos reconheceu que ninguém poderia realizar sinais como aqueles se Deus não estivesse com ele (leia no verso 2).  Assim ele pretendia questionar a Jesus.
O Mestre, contudo, vai direto ao assunto.  O Reino de Deus não está nos sinais ou maravilhas – isto não é o importante!  O Reino deve ser encontrado e visto através do novo nascimento.
Logicamente Nicodemos não entendeu o que Jesus estava querendo dizer.  Não se tratava de um nascimento físico, natural e humano, que Jesus estava falando; mas de uma nova vida, espiritual, sobrenatural e divina que lhe era proposta. 
Nisto consiste a essência da missão de Jesus.  Ao que o próprio Mestre passa a explicar a Nicodemos.  O verso de Jo 3:16 – um dos mais conhecidos de toda a Bíblia – é o resumo claro da missão do Cristo.
Deus amou o mundo, assim como ele é.  E como resultado deste amor ofereceu seu único Filho para proporcionar os meios para que todo o que for capaz de crer nele experimente o novo nascimento e receba a vida eterna.
E tem mais.  Embora tivesse sido necessário agir com rigor para purificar o templo; Jesus enfatiza que o seu objetivo maior não era julgar, mas providenciar que o mundo fosse salvo por ele (compare 3:17 com 3:36).

quarta-feira, 25 de março de 2020

PARA ESSE TEMPO


Boa tarde querido
Eu já tinha me decidido não escrever sobre esse coronavirus e nem sobre as implicações da pandemia e da quarentena.  Já tem muita gente fazendo isso e eu não sou especialista nem em infectologia nem em psicologia social.
Eu sei também que em meio a essa avalanche de informações tem coisa boa e útil - como também muita bobagem e sandice.
Só lembrando: Fake news é uma maneira abestada de chamar a mentira.  E Jesus disse que o diabo é o pai das fakes news (lá em Jo 8:44).
Quanto a vírus, pandemia, quarentena e doenças afins, não há nenhum versículo específico sobre o tema - até porque na época da Bíblia o conhecimento humano era outro.
Mas, atinando a sua questão e para também não passar em silêncio, permita-me três citações bíblicas:

1. Jesus disse que quando se espalharem as notícias sobre epidemias seria o tempo de ficar alerta, mas não para se angustiar pois ainda não é o fim (em Mt 24:6 o verso fala explicitamente sobre guerra, mas, no contexto do Sermão Escatológico de Jesus, entendo que extrapolar sobre doença não seria um exagero).

2. O texto da Oração de Habacuque é bem conhecido e também pode ser lido nesse contexto: "Ainda que dê tudo errado, com pandemia e quarentena, todavia eu continuarei me alegrando no Senhor e exultando naquele que me garante a salvação" (Hc 3:17-19).

3. E não podia deixar de citar Apocalipse - minha certeza é de que não há na Bíblia outro livro que traga mais segurança e conforto em tempos de crise quanto a Revelação do Senhor Jesus (1:1).
Diante do livro fechado com sete selos, a declaração dos anciãos ecoa por toda a eternidade: "Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5:9).  Sim.  Com a vitória sobre a morte Jesus assumiu o controle da história em suas próprias mãos.  Ele - e somente ele - é digno de comandar a história do ser humano, da igreja e das nações.

Como disse, não sou especialista em pandemia nem em psicologia social mas não tenho nenhuma dúvida que Cristo Jesus ainda é o Senhor da história e que tudo - absolutamente tudo - só terá um fim na glorificação daquele que requer toda adoração pois digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor! (Ap 5:12).

terça-feira, 24 de março de 2020

QUARENTENA



Interessante esse tempo chamado Quarentena.  Tive a curiosidade de olhar no dicionário. Mais alguém? Está escrito lá: ISOLAMENTO.  Você encontra também a informação que é um período de RESERVA.

Mas na verdade quando ouvimos nos remetemos a 40 dias.  É o que nos faz lembrar.

Ontem, no meu momento devocional me recordei de alguns episódios bíblicos.

Na Bíblia, se você prestar bastante atenção você vai ver quanto 40 dias é relevante para o nosso Deus:



-    A vida de Moisés foi modificada após 40 dias no Monte Sinai - Êx 24:18

-    Davi foi transformado pelo desafio de Golias, proferido por 40 dias- 1Sm 2:10

-    A situação de Elias foi alterada quando Deus o sustentou durante 40 dias com uma única refeição - 1Rs 19:8

-    Jesus foi fortalecido por 40 dias no deserto - Lc 4:2

-    A fé dos discípulos foi enraizada após 40 dias ao lado de Jesus após sua ressurreição - At 1:3

(Esses são apenas alguns fatos)



Em minha caminhada de fé tenho entendido que Deus não é Deus de coincidências: QUARENTENA PARA A IGREJA DE CRISTO?

Acredito que esses dias atuais são o chacoalhar de Deus para que nós, como "seu Povo",



-    Nos encontremos face a face com ele e sejamos modificados - como Moisés

-    Enfrentemos o gigante (pecado) que nos tem afrontado como servos separados (santos)- como Davi

-    Que ao receber de Deus o alimento para nossas almas vivamos d'Ele para chegarmos com fidelidade até o dia de sua volta - como Elias

-    Que nesse deserto (isolamento) o sustento do Senhor nos faça fortes - como Jesus

-    E como os discípulos, ao andarmos PERTO - AOS PÉS - de Jesus, com a fé enraizada, sejamos transformados pela renovação de nossa mente e não nos MOLDEMOS mais a esse mundo.



Como Povo de Deus é tempo de BUSCAR, SE HUMILHAR, SE ARREPENDER ... PARA QUE HAJA PERDÃO E CURA.



Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra.
2 Crônicas 7:14



 Elda Nogueira

sexta-feira, 20 de março de 2020

DAVI E MEFIBOSETE – O VALOR DA LEALDADE





A cena que destaco para essa reflexão começa com o rei Davi se lembrando do velho amigo Jônatas:
Resta ainda alguém da família de Saul a quem eu possa mostrar lealdade,
por causa de minha amizade com Jônatas? (2Sm 9:1).
Os servos de Davi lhe apresentaram Ziba, que tinha servido a Saul, e para ele o rei repete a pergunta só que agora dando um alcance maior: ... a quem eu possa mostrar a lealdade de Deus? (2Sm 9:3).  Ressalto que para Davi a lealdade dele, como servo ungido do Senhor, deveria ser o reflexo da lealdade de Deus para com aqueles que ele ama.
Ziba promoveu o encontro entre o rei Davi e Mefibosete – um filho de Jônatas que se tornara aleijado em um acidente enquanto era escondido por ocasião da morte do pai e do avô (leia 2Sm 4:4).  Era o único que tinha restado da linhagem de Saul e Jônatas e estava vivendo em condições de penúria, devido tanto a pilhagem de suas propriedades de herança quanto a sua condição de deficiente físico.
Agora, frente a frente: o rei e Mefibosete, Davi tinha a oportunidade de reparar o mínimo que fosse os sofrimentos causados aos descentes de Saul.
Só relembrando: Davi não comemorou a morte de Saul, muito pelo contrário, ordenou o castigo daqueles que promoveram a vingança sobre a casa de Saul (leia a passagem em 2Sm 4:9-12).
O texto descreve que foram seguidos todos os rituais do cerimonial da corte de Jerusalém quando Mefibosete chegou à presença do rei.  A diferença começou quando Davi passou a tratá-lo não apenas como um súdito qualquer, mas como alguém que deveria merecer um tratamento real diferenciado: Não tenha medo (2Sm 9:7).  O rei então ordenou que fossem restituídas as terras que eram de Mefibosete por direito de herança.  Era o mínimo que poderia fazer para que os erros cometidos no passado contra os descentes de Saul – que não tinham culpa pelos pecados deste – fossem reparados.
Mas Davi foi além. Quebrando todo o protocolo, ordenou que Mefibosete tivesse o direito de comer na mesa do rei dali em diante.  Com certeza esta era uma honraria dada a poucos.  Reconhecendo o seu lugar de apenas súdito, o jovem recusou; mas o rei insistiu pois esta seria a forma de Davi fazer cumprir suas promessas feitas a Jônatas (lembre-se que o juramento entre ambos, que se encontra em 1Sm 20:42, incluía o compromisso com as respectivas descendências).
Finalmente o rei Davi completou os benefícios que deveriam ser atribuídos ao descendente de seu amigo Jônatas: Mefibosete, por ser deficiente, certamente não teria condições de cultivar as terras que agora estavam sendo-lhe devolvidas; então Davi logo providenciou para que não lhe faltasse condições de provimento.  A Ziba, que já havia servido a Saul, foi dada uma ordem:
Você, seus filhos e seus servos cultivarão a terra dele.  Você trará a colheita para que haja provisões na casa do neto de seu senhor.  Mas Mefibosete comerá sempre à minha mesa. (2Sm 9:10)
A narração deste episódio conclui então observando que a partir de então Mefibosete passou a ser tratado como se fosse um dos filhos de Davi (veja 2Sm 9:11).  E para todos ficou demonstrado o valor que o rei dava a lealdade.  Valor este que deveria ser tomado como padrão na construção moral do povo.

terça-feira, 10 de março de 2020

A PALAVRA FEZ-SE CARNE


O Evangelho de João começa com uma firmação categórica: No princípio era o Verbo (Jo 1:1).  E deixe-me logo dizer que penso que, de maneira proposital, João apontou para o primeiro verso da Bíblia: No princípio criou Deus (Gn 1:1).
Tudo começa com o Verbo.  Nada havia antes dele e tudo só existe a partir dele.  Ele é o princípio de todas as coisas.  E é João que não deixa dúvidas sobre quem é o Verbo: Jesus (leia 1:17).
Assim João pode começar seu Evangelho:  Jesus é o Verbo de Deus.  E tudo o que ele vai contar e refletir tem que manter este pressuposto bem firmado.  Mas antes vamos entender um pouco o que significa esta expressão: O Verbo.
A palavra em língua grega que João usa é Λόγος (Logos).  O termo era bem conhecido tanto de gregos como de hebreus na época do Evangelho.  A tradução usual que damos a este termo em português é Verbo.  Mas talvez isto não nos diga muito.  Entendo que uma tradução mais livre como Palavra seria melhor:
No princípio era a Palavra ... e a Palavra fez-se carne (Jo 1:1 e 14).
No primeiro século, intelectuais usavam este termo para se referir ao princípio teórico básico – ou conceito filosófico – que fundamentava toda a existência e seria através dela que as divindades se comunicariam com a humanidade.
Para João este conceito é pobre.  Ele vai além.  A Palavra é mais que um postulado teórico filosófico, é o próprio Deus que criou o mundo e se relaciona pessoalmente com homens e mulheres.
Não uma espécie de deus ou derivado qualquer da divindade, também não é uma aparência ou conceito metafísico.  É o próprio Deus em sua essência e plenitude.
E esta Palavra é Jesus.  João não tem nenhuma dúvida quanto a isso.  O que poderá ser observado não somente neste prólogo ao Evangelho, mas também ao logo do seu transcorrer.  Para demonstrar, confira ainda a expressão tirada da boca do próprio Cristo: Eu e o Pai somos um (Jo 10:30), e a confissão de Tomé: Deus meu (Jo 20:28).
Aprofundemos nesse conceito: A Palavra eterna e pré-existente tinha um propósito, e o cumpriu fazendo-se carne (Jo 1:14).
É verdade que ninguém pode ver Deus – aqui o Evangelho cita Moisés (compare Jo 1:18 com Ex 33:20).  Contudo, a Palavra apresentada no Evangelho de João é a expressão admirável da glória divina (1:14) e a revelação perfeita e absoluta de Deus (1:18).
Ou seja, embora seja verdade que a Palavra eterna seja Deus – e isso é essencial tanto para a fé com cristã em geral, quanto para o Evangelho em especial – mas o que João intenta demonstrar com seu texto é o Deus-Palavra que entrou na história humana.  O sublime se fez carne.  O eterno, temporal. 
E o fez por vontade própria, ao contrário do mundo que foi criado (compare os versos 3 e 14 onde João usa mesma expressão: fez-se para demonstrar a essencial diferença entre Criador e criatura).
Assim, um aspecto a se destacar na encarnação da Palavra divina é a compreensão de que ao se fazer carne, Jesus Cristo tornou-se completa e perfeitamente humano.  Ele não somente revela toda a divindade, com também assume toda a humanidade.  É um com Deus e torna-se um de nós.
Assim, desde o seu começo, João nos apresenta um Evangelho que procura refletir sobre a vida e história de Cristo, mais que apenas narrar seus episódios.  Ele inicia apresentando a Palavra divina e eterna, mas que se fez carne com o objetivo de revelar a luz e glória de Deus e de nos atrair para ser seus filhos.
Que possamos assim crer nele para fazer parte da família de Deus como filhos e desfrutar da graça e glória divina através de Jesus Cristo.

quarta-feira, 4 de março de 2020

INTRODUÇÃO RÁPIDA AO PENTATEUCO


O documento inicial da Revelação constitui o primeiro bloco de livros da Bíblia: os Livros da Lei ou Pentateuco.  Este bloco é formado pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
O termo Pentateuco é de origem grega (Πεντάτευχος) e significa cinco volumes, dando a entender que os compiladores originais tinham a ideia de que estes textos deveriam compor cinco partes de uma mesma obra.  Em hebraico o nome é תורה (pronuncia-se Torah – Lei).  Assim é chamado porque nestes livros estão registradas as formações do universo, do ser humano e das nações e, principalmente, estão colocadas as leis relevadas por Deus para regerem toda a obra criada em geral e os seus escolhidos em particular nas suas vidas diárias e na adoração.
Estes cinco livros testemunham a revelação dada por Deus por volta do século XV a.C. a Moisés no Monte Sinai – os 10 Mandamentos (confira Êx 20) – e também a descrição de diversas outras leis, bem como a trajetória do povo escolhido das suas origens até a formação da nação.
Vejamos rapidamente os cinco livros, um a um como eles se nos apresenta hoje:

# Gênesis – Em hebraico o título é בראשיתNo Princípio e é isto exatamente que significa o seu nome.  Quanto ao conteúdo: Dos capítulos 1 ao 11 trata das origens de todas as coisas, como Deus formou o universo e todas as criaturas e preservou para que, apesar da rebeldia e pecado humanos a obra de Deus não fosse destruída.  A partir do capítulo 12 o texto se ocupa em narrar a trajetória dos patriarcas Abraão, Isaque, Jacó e seus filhos, como eles foram escolhidos por Deus para darem início à nação e como eles, mesmo sem nenhuma prerrogativa especial e ainda algumas vezes tendo falhado, puderam contar com o cuidado e manifestação divinos ao seu favor.  O texto termina com os filhos de Israel indo ao Egito a fim de salvarem suas vidas da fome, ficando aos cuidados de José.
# Êxodo – O segundo livro da Bíblia é chamado em hebraico de שמות Os Nomes, já que no original se nomeiam os livros pela primeira expressão que aparece.  A palavra êxodo significa saída e este é o tema central do livro.  O livro começa narrando as atribulações sofridas pelos descentes de Israel na terra do Egito (onde passaram cerca de 400 anos) para a partir daí mostrar Deus chamando a Moisés para ser o libertador e organizador do povo, como parceiro privilegiado do diálogo com Deus.  No Êxodo estão narrados os últimos dias da escravidão, as manifestações poderosas de Deus em libertar o povo, os primeiros passos da saída e o início das leis entregues ao povo através de Moisés.
# Levítico – Seguindo o mesmo modelo de nomear os livros, em hebraico o livro é chamado ויקראE Chamou.  O título que nós adotamos é uma referência à tribo de Levi, escolhida para ser sacerdotal e ministrar diante do altar do Senhor.  Este livro continua apresentando as diversas leis dadas por Deus ao povo, sendo que a ênfase recai sobre o culto, sua ordenação, instrumentos e formas e a participação das famílias levitas, seus papeis e funções.  Uma outra ênfase a se destacar é a extensa lei a cerca da santidade que encontramos neste livro.
# Números – Em hebraico seu nome é simplesmente במדברNo Deserto.  Como o texto se ocupa muito da contagem do povo em suas tribos e sua distribuição no acampamento e nos planos de Deus, o livro ganhou este nome para nós.  No livro de Números está o primeiro contato da nação com a terra prometida quando são enviados os espias que trazem um relatório detalhado de Canaã.  Os textos narrativos completam o conteúdo do livro contando as inconstâncias do povo enquanto atravessava o deserto.
# Deuteronômio – O quinto livro é chamado em hebraico דברים – As Palavras.  O nome que adotamos significa literalmente Segunda Lei, ou Repetição da Lei.  O texto apresenta primordialmente os discursos que Moisés teria proferido diante do Rio Jordão, pouco antes de sua morte e da travessia do povo.  Nestes discursos o patriarca relembra aquilo que foi dito e instruído por Deus – daí o nome do livro – conclamando o povo a ser fiel àquilo que lhe foi ordenado apresentando uma relação de bênçãos advindas da obediência da Lei e maldições causadas pela desobediência.  

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

UM SÓ CUIDADO


Eu me lembro de ter ouvido  a canção "Não Tenhas Sobre Ti" pela primeira vez ainda nos meados dos anos 1980 logo depois de ela ter sido lançada.  E nunca mais saiu da minha memória.
Para citação, tenho guardadas algumas referências da época – mas hoje é fácil atualizar via internet.  A composição, atribuída a Jefferson Ferreira e Josué Rodrigues, foi gravada inicialmente no LP MILAD 1 em 1986.  Ainda para citação, o grupo goiano MILAD – Ministério de Louvor e Adoração foi um grupo que se apresentava como fruto da visão que Deus concedeu para formar um ministério que pudesse agenciar trabalhos nas áreas das "artes-cristãs".  O MILAD se manteve em atividade entre os anos 1984 e 2003 e o Wikipedia se refere a ele como um dos mais notórios e conceituados da música cristã brasileira nos anos 80.
Depois desse parágrafo grande de citação, vamos voltar para a canção.
Na época em que conheci a canção, eu estava aprendendo a tocar os primeiros acordes no violão – não me tornei um expert nessa arte! – e ser capaz de tocá-la com as três ou quatro cifras da versão simplificada que me passaram era realmente o máximo.
Talvez seja por essa lembrança que a canção não foi mais esquecida.
Pode ser que sim, mas hoje penso que as razões de ela ter grudado são outras.  É certo que as sequências melódicas e harmônicas são atraentes, mas ninguém guarda memórias, principalmente afetivas, a partir de dados e referências técnicas.
Depois daquele contato inicial com a canção, ela voltou a mim em várias outras ocasiões e circunstâncias e sempre indo se agasalhar no mesmo ponto de minha alma.
Então aqui está o motivo da lembrança persistente e reforçada: a música, como comunicação de arte que é, tem o poder nos tocar (que pleonasmo delicioso!).
E se quiser ler mais sobre o que é arte e a força que ela representa, eu já publiquei três diálogos sobre arte (aqui está o link). 

E sendo mais específico sobre a canção em si, deixe-me compartilhar o que ela diz para mim.
A melodia se funde perfeitamente com o texto e o conduz a outro nível.  Assim, juntas, melodia e letra, soam como se fossem entoadas como uma canção de ninar na voz suave de uma mãe – ou do Pai Eterno se preferir – e eu então me sinto nesse colo materno/divino sendo carinhosamente acalentado.
Se conseguir manter a canção em sua mente enquanto degusta esta reflexão penso que vai ser melhor.  Canções de ninar têm que vibrar a partir do interior, da alma, e não dos ouvidos.  Se conseguir, bom!  De qualquer forma, note as palavras da canção.  Posso citá-las de cor.
Não tenhas sobre ti, um só cuidado qualquer que seja
Pois um, somente um, seria muito para ti.
Mas como!?  A vida está cheia de aperreios, como não se esgarçar nem se estressar nos cuidados!?
E o refrão coloca tudo no seu lugar:
É meu, somente meu, todo trabalho
E teu trabalho é descansar em mim.
Agasalhado no colo divino eu posso simplesmente descansar e relaxar ao ouvir sua voz declarando que se ocupa comigo (não preciso me pre-ocupar!).  Sim, ela se ocupa com meu cuidado.  E isso é suficiente.
Mas a vida continua...
Então eu chego à segunda parte da canção:
Não temas quando enfim, tiveres que tomar decisão
Entrega tudo a mim, confia de todo coração.
Eu bem que queria ficar no colo para sempre, mas não dá!  Só que também aqui não há problema, pois posso seguir confiante, tem quem me dê suporte nas minhas decisões.
E volto ao refrão já agregando novos significados ao aconchego.
Poderia terminar por aqui, a canção está completa.  Mas meu senso de Sola Scriptura me exige uma citação, e não vou me furtar dela:
... lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, por ele tem cuidado de vós (1Pe 5:7).