sexta-feira, 31 de maio de 2013

INDO PELO CAMINHO

A associação entre cristianismo e a figura do caminho é bem antiga.  Podemos retomar ao dito de Jesus quando se apresentou como sendo o caminho em Jo 14:6.  Podemos também nos lembrar que este foi um nome dado ao conjunto dos seguidores do Mestre no primeiro século (veja a citação em At 9:2 por exemplo).  Ou ainda através de Pedro que nos fez lembrar que somos peregrinos nesta terra em 1Pe 1:1 e 2:11.
Aproveitando esta relação, gostaria de refletir um pouco hoje sobre o fato de vivermos no caminho e o que acontece com o cristão enquanto ele vai pelo caminho.  Três histórias do NT me dão alguma indicação.
Indo pelo caminho tenho a companhia de Jesus.  Foi o que aconteceu com dois dos discípulos em direção a Emaús no mesmo dia da ressurreição (o relato está em Lc 24:13-35).  No caso específico eles nem perceberam, a princípio, que estavam em companhia tão sagrada.  A verdade é que há uma promessa e uma garantia da presença real de Cristo e do seu Espírito no meio da igreja (a promessa de Cristo foi citada por Mt 28:19 e a garantia do Espírito é dita em Jo 15:26).
Indo pelo caminho experimento a cura que precisamos.  Lucas conta que de longe Jesus ordenou a dez leprosos que fossem se apresentar aos sacerdotes para atestar a cura e enquanto para lá se dirigiam perceberam que já estavam curados (confira a narração em Lc 17:11-19).  Infelizmente apenas um – o samaritano – voltou para agradecer; mas a cura foi efetiva para todos! Enquanto caminho sob a ordem divina neste mundo (lembra que Jesus confirmou que seria assim em Jo 17:15?), ele mesmo vai reconstruindo minha história e curando as feridas do corpo e da alma que a vida me infligiu (Is 53:5 é a profecia confirmada no NT em 1Pe 2:24).
O que as duas histórias anteriores têm em comum é que no caminho se deu a manifestação espiritual, porém nem todos os homens envolvidos poderam usufruir completamente dela.  Mas Deus nunca desiste! É aqui que a terceira história ajuda na compreensão.  Quando, com sinceridade e diligência, permaneço indo pelo caminho, Deus me encontra – e ainda que seja preciso, ele me derruba – e muda a minha história (relembre Paulo no caminho de Damasco em At 9:1-18).
O Senhor sabe o que vai em meu coração e os motivos que me levam a por os pés no caminho (como é belo todo o Sl 139!).  Alie a isto a verdade que ele nos ama profundamente (destaque Jo 15:13). Então devo constatar que indo pelo caminho o Senhor sempre demonstra interesse em mim; trata-me com firmeza, mas também com carinho e marca a minha trajetória.  E quando reconheço que ele é o Senhor do caminho, posso vivenciar uma profunda transformação em minha caminhada (Jesus chama isso de novo nascimento em Jo 3:5-6).
Que eu possa não apenas perceber que indo pelo caminho o Senhor caminha e trabalha ao meu lado, mas também que me deixe ser tocado e influenciado por aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.


(Texto republicado a partir de uma publicação original no sítio http://ibsolnascente.blogspot.com.br em 22/05/2009)

terça-feira, 28 de maio de 2013

DA LEI DE RECIPROCIDADE

Já temos aprendido que nos princípios do Sermão do Monte estão colocados os resumos de tudo aquilo que o Mestre pretendia estabelecer aos seus discípulos.  E no verso de Mt 7:12 isto é dito de modo explícito o que Jesus estabelece como padrão para o relacionamento entre seus seguidores: ... pois esta é a Lei e os Profetas. Efetivamente, então, qual é o resumo do que foi dito na Lei e nos profetas?
O resumo é simples: a lei da reciprocidade.  O seguidor de Jesus deve estabelecer como padrão de seus comportamentos e relacionamentos com outros fieis e com a sociedade em geral aquele tipo de atitude que gostaria de ver sendo dispensada a si mesmo.  Ou seja, como eu quero ser tratado, eu devo tratar os outros.  Jesus parece dizer que não há necessidade de maiores – ou mais detalhadas – regras de comportamento: se me dou valor e almejo por ser bem tratado então, em todas as minhas atitudes para com os outros, esta disposição deve ser a norma.
Importante também é destacar que o Mestre aponta como responsabilidade de iniciativa o seu discípulo.  Antes mesmo de saber como vão se comportar os que comigo convivem, ou que atitude tomarão ao meu respeito, é preciso assumir a iniciativa de buscar o bem que almejo ver no próximo.  A vida cristã tem que ser uma vida de iniciativa e ação, e não apenas uma existência de respostas e reações.
Discípulos radicais do Mestre Jesus Cristo: o Senhor resumiu tudo o que foi dito aos antigos sobre a convivência humana como uma Lei de Reciprocidade – e isto me é imposto como condição do discipulado.  Independentemente de como sou tratado, é preciso viver a iniciativa de buscar o bem que almejo na vida do próximo.  Que eu viva neste padrão para a glória do Mestre.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

EU TENHO UM SONHO

"Eu tenho um sonho".  Esta frase é bem significativa para mim, principalmente pelo seu peso histórico.  Ela é o mote principal do discurso proferido pelo Doutor Martin Luther King Jr., pastor negro norte-americano, na Marcha sobre Washington em agosto de 1963 (em inglês: I have a dream).  Aquele discurso, sem dúvida, foi um marco na história da civilização cristã moderna e sempre gosto de repetir com uma pitada de santo orgulho: ele, o Dr. King, era pastor batista como eu.
Por outro lado, hoje nossos arraiais estão inundados de sonhos e sonhadores.  Há sonhos de todas as matizes, colorações e tonalidades.  Há sonhos pessoais, sonhos profissionais, sonhos familiares e sonhos eclesiásticos.  Mas há também os sonhos proféticos, os sonhos sagrados e os sonhos ungidos.  Ainda os sonhos de promessa, de prosperidade, de sucesso e de realização.  Sonhos...  Sonhos...  Sonhos...
Isso sem falar nos tais "sonhos de Deus".  Tais sonhos...  Bem, por mais que queira dar licença poética, mas é complicado conceber a idéia de um Deus que sonhe!  Ora, sonhar é abstrair e imaginar, é projetar e visualizar.  Por definição, requer um distanciamento entre a realidade e idealização.  Como aplicar isto a Deus? Deus não sonha: Deus É (e ponto!).
Mas vamos deixar o deus sonhador de lado. 
Hoje se canta sobre sonhos, prega-se sobre sonhos e se estimula a sonhar.  Eu até entendo que a realidade muitas vezes não é nada alentadora e sonhos são sempre bem vindos.  E, além do mais, uma pitada de sonho sempre ajuda a dar tempero à própria fé.
Mas preciso confessar: sinto falta de peso histórico nestes sonhadores gospels que pululam nossas fileiras.  Sinto falta do engajamento consequente de sonhadores como o Dr. King.  Talvez falte-nos sonhos que possam engendrar realidades novas para nós e para a realidade que nos cerca, imprimindo com ousadia e determinação uma marca cristã nesta geração.  Sonhos que se façam história!
Sim, eu ainda tenho um sonho.  E não tem nada a ver com conquistas ou realizações peculiares.  Eu sonho com o dia em que seremos verdadeiramente herdeiros cristãos desta rica tradição.  Que o próprio Senhor levante ainda hoje outros sonhadores da estirpe do Doutor Martin Luther King Jr.

terça-feira, 21 de maio de 2013

DO PEDIR, BUSCAR E BATER


Continuando nosso aprendizado do Discipulado Radical proposto por Jesus, chegamos a uma das mais alentadoras promessas feitas pelo Mestre: Peçam ... busquem ... batam (Mt 7:7-12), para que lhes sejas dado ... encontrem ... as portas se lhes abram.  Com estas palavras, o Senhor outorga aos seus discípulos uma disponibilidade incalculável de poder e virtude na sua caminhada radical.
Ao servo de Cristo é dada a liberdade de chegar ao trono de Deus e pedir, buscar e bater.  Como filho, a mim é dada a prerrogativa de colocar ao Pai aquilo que desejo e espero.  Na oração do fiel está uma chave poderosíssima, mas que deve ser usada com responsabilidade.  Vejamos duas implicações:
Segundo Jo 14:14 o próprio Mestre diz: o que vocês pedirem em meu nome, eu farei.  Posso realmente pedir o que está em meu coração ao Senhor, mas o segredo do sucesso da oração passa primeiro pelo reconhecimento que somente no nome poderoso de Jesus é que posso ter ousadia de dirigir minha petição ao Pai.
Lá em 1Jo 5:14 encontro o segundo segredo para o sucesso de minhas súplicas: se pedirmos alguma coisa de acordo com a vontade de Deus, ele nos ouvirá. Quando o meu pedido está em sintonia com a vontade do Pai Celeste, é promessa garantida que serei atendido.
Aos discípulos de Jesus está posta a promessa de que se pedirem, em oração, o próprio Deus – que é um Pai melhor que qualquer um aqui nesta vida – vai atender com o que tem de melhor.  Cheguemos a ele como filhos amados.

terça-feira, 14 de maio de 2013

DOS CÃES E DOS PORCOS


No versículo 7:6 de Mt, Jesus profere uma frase que a princípio até pode parecer enigmática ou estranha: "não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem pérolas aos porcos".  E observando o contexto logo anterior provavelmente soe mais estranho ainda: Quem são os cães e os porcos?  Se não posso julgar, como saber a quem se refere esta passagem?
Porém quero desafiá-los a olhar o texto a partir de outro ângulo: o importante não é quem são os cães ou os porcos, e sim o que não posso lhes entregar.  Jesus está apontando aqui para o verdadeiro valor daquilo que ele mesmo me entregou.  O Discipulado que o Mestre propõe é santo e vale mais que qualquer pérola: isto é o que importa, então eu devo me questionar seriamente sobre qual o valor que tenho dado à vida cristã em minha existência: seguir a Cristo é ir a busca de algo de muito valor e por isto não pode ser desperdiçado com quem não sabe honrá-lo e valorizá-lo adequadamente.
E ainda entrelaçando no contexto anterior, o texto diz que não é da minha alçada julgar ninguém e que primeiro preciso me avaliar para saber quem eu sou e o que tenho feito.  Assim é que Jesus, de maneira muito contundente, me faz refletir sobre o tema: será que tenho sido cão ou porco, estando diante de tão grande bênção?  Tenho dado o valor devido àquilo que o Senhor tem me posto a fazer?
Antes de pensar em porcos ou nos cães, é preciso louvar a Deus por tão abençoada oportunidade que ele me tem concedido: possuir coisas santas que valem mais que pérolas.  É preciso também aprender a me comportar de maneira digna neste discipulado para que não venha a despedaçar todo o que o Mestre tem me outorgado, e assim viver o discipulado para a glória do Senhor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

POR QUE ACREDITO NA FAMÍLIA?


Falar sobre família sempre foi uma prática comum entre os pregadores cristãos.  O assunto está na Bíblia e realmente deve merecer a maior atenção de nossos púlpitos.  Em especial hoje em dia quando parece que foi deflagrada uma batalha espiritual contra a família.  Mas para início de conversa quero declarar que acredito piamente que esta batalha já está ganha! Mas por que eu acredito na família? Por que posso afirmar que as famílias vão prevalecer nesta guerra?
Afirmar como resposta inicial que é porque a família nasceu no coração de Deus e por ela o Senhor tem interesse particular é apenas reafirmar o já bastante conhecido.  Então me deixe tentar justificar minha convicção a partir da leitura da parábola do filho pródigo contada por Jesus e registrada por Lucas (confira Lc 15:11-32).
Na história narrada pelo Mestre, a família é um lugar onde há diferenças. E mesma nelas (ou apesar delas) há compreensão e respeito. Na parábola o pai tem dois filhos e cada um se comporta de maneira completamente diferente do outro; mas nem por isso são rejeitados ou desprezados por seu pai.
Acredito na família por que somos todos diferentes entre nós – e não há razão nenhuma para sermos iguais – e na família há lugar para todos.
Ainda na parábola a família retratada é um lugar de referência e acolhimento.  Lá pelo meio da história, o pródigo se lembra da casa do pai e reconhece que somente naquele lugar ele poderia ser acolhido, querido e bem tratado, mesmo depois de tudo que aconteceu. O detalhe é que o mesmo poderia ter acontecido com o outro filho no final da narração se ele escolhesse também ser acolhido pelo amor paterno.
Eu acredito na família porque sei que não importa qual seja minha história pessoal, sempre terei uma referência a me abrigar.
E finalmente, a história conta que foi na família que a vida do filho teve oportunidade ser reconstruída.  Foi na volta para casa que aquele garoto pode experimentar o que é verdadeiramente o perdão e o amor – isso só acontece num ambiente familiar – e assim também poder reconstruir sua própria história.  De pródigo rebelde a renascido querido.
É por isso que eu acredito na família como modelo cristão, pois é no seu seio que encontrarei as bases para que minha vida – que por vezes está maltrapilha – possa ser refeita com carinho e cuidado.
Sei que seria bastante utopia se afirmasse que toda família ainda hoje é assim.  Mas este é um modelo ideal que o Senhor apresentou para que, tendo-a por mira e construa a minha família.  Exatamente por ser o que ela é no projeto de Deus é que eu acredito que nossas famílias ainda estão no centro deste projeto.
Oremos que o próprio Senhor nos conceda famílias assim.

(Texto republicado a partir de uma publicação original no sítio http://ibsolnascente.blogspot.com.br em 05/06/2009)

terça-feira, 7 de maio de 2013

DO JULGAMENTO DO IRMÃO


Chegamos ao capítulo 7 do Evangelho de Mateus – é a última etapa de nossa aprendizagem sobre o Discipulado Radical.  Aqui o texto retoma o tema do relacionamento com o próximo – em especial com o meu irmão e companheiro de discipulado – abordando diretamente a questão do julgamento.
A instrução é direta: não julguem (Mt 7:1).  E sobre isto é preciso compreender pelo menos duas verdades.  Primeiro que não tenho o direito de emitir qualquer julgamento sobre meu próximo: isto é competência do Mestre (Lc 6:40) e somente ele pode avaliar quem realmente sou e que valor tenho.  Também é preciso ser dito que o servo é propriedade do Senhor e cabe a ele fazer o que bem quiser (Rm 14:4).
Em segundo lugar, Jesus chama a atenção para a lei da reciprocidade: o que faço aos outros voltará a mim mesmo (Lc 6:31). Se trato os outros com amor e cuidado, assim serei tratado.  Se sou áspero e duro, assim se portarão comigo.  E Jesus vai mais além: Se reconheço que tenho defeitos sérios (uma trave nos olhos!) como posso querer avaliar os erros circunstanciais do meu próximo (apenas um argueiro!).
É esta atitude arrogante de julgar e avaliar o irmão, como se fosse da minha alçada poder fazer isto, que o Mestre chamou de hipocrisia – fingimento.  Quem se arvora no direito de estabelecer quem é bom ou ruim, certo ou errado diante de Deus, acaba sempre se portando com um sepulcro caiado: belo e cheio de boas intenções por fora, mas morto por dentro (veja a exclamação de Jesus em Mt 23:27).
Que o Senhor me livre da atitude temerária de julgar meu irmão, transformando minhas palavras em bênçãos àqueles que me rodeiam para a glória de Deus.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

AUTO-ANÁLISE


Instruindo a Igreja em Corinto sobre a correta ministração da Ceia do Senhor, o apóstolo Paulo advertiu sobre a necessidade da auto-análise para que o cristão estivesse apto para verdadeiramente celebrá-la (confira em 1Co 11:28).  Ou seja, para o apóstolo, além de ser um momento de comunhão com o Senhor – quando relembramos seu sacrifício – e proporcionar também comunhão com os santos – a fraternidade da igreja é instaurada – a Ceia deve levar a um olhar introspectivo.
Pensando neste auto exame, eu poderia falar sobre como controlar o corpo (com base em 1Ts 4:4); como ter uma mente correta (em Fl 4:8); como manter o coração livre do pecado (em Sl 119:11); como manter relações cristãs com os irmãos (em Rm 12:10) ou mais ainda como se portar neste mundo (em Ef 5:15).
Tudo isto é bom; é útil; é válido; e principalmente é bíblico.  Mas quero aqui lembrar de Davi no Sl 139.  Neste Salmo exuberante, o rei Davi fez uma completa auto-análise e foi levado a uma palavra de oração que tem muito a me dizer hoje sobre minha atitude durante a celebração da Ceia do Senhor.  Acompanhe comigo:
No v. 23 o rei-salmista pede: sonda-me ... prova-me.  Se desejo realmente fazer uma reflexão interior que me purifique e me prepare para celebrar a Ceia do Senhor então é preciso que o próprio Senhor venha a me sondar e me provar.  Somente o olhar do Senhor pode ir buscar ao que tenho escondido no mais oculto de minha vida.  E somente quando me coloco inteiramente ao seu dispor é que conseguirei ser provado e aprovado para comparecer diante dele.
E a oração de Davi termina com a súplica: guia-me pelo caminho eterno (v. 24).  Quando Deus me esquadrinha por dentro, compreendo que não há nada em mim que me faça apto para a vida que ele me propõe.  Então tenho que realmente suplicar que o próprio Senhor me firme os passos.  Este é o resultado da auto-análise proposta para o fiel que está diante da Ceia do Senhor.
Que eu faça deste salmo-oração minha postura diante dos elementos memoriais da Ceia do Senhor.  Para sua glória!