segunda-feira, 31 de julho de 2023

Testando Deus – INVESTIGAÇÃO DE PALAVRAS

 

 

Recentemente postei uma reflexão sobre TESTANDO DEUS (veja no link).  Ali para fundamentar aquela reflexão eu fiz uma busca nas palavras dos originais das frases mais relevantes – em geral faço sempre assim).

Então resolvi aqui compartilhar um pouco da pesquisa.  Penso que pode enriquecer a exegese dos textos.  Aí vai.

 

O primeiro texto é o da tentação de Jesus no deserto – no Evangelho de Mateus.

Mt 4:7 – Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’” (NVI).

A frase no destaque em Grego –

Οὐκ ἐκπειράσεις Κύριον τὸν Θεόν σου.

O verbo grego é ἐκπειράζω – formado da preposição ἐκ + verbo πειράζω – no futuro indicativo ativo, 2ª pessoa do singular. 

Na forma sem preposição, o NT usa mais de quarenta vezes e a LXX outras 55.

Nessa forma preposicionada aparece no NT Grego em apenas quatro citações:

Aqui em Mt 4:7

Em Lc 4:12 – o sinótico paralelo

Em Lc 10:25 – quando um perito decide investigar Jesus

E em 1Co 10:9 – onde Paulo, numa série de recomendações, instrui a não pôr o Senhor à prova.

Essa é a opção que a LXX usou para traduzir Dt 6:16 – de onde o próprio Jesus foi buscar a citação de Mateus – inclusive a inflexão verbal.

No clássico helênico antigo, a palavra era usada para descrever a ação de um teste completo feito no intuito de se conhecer algo.

 

Há outros verbos gregos com sentidos próximos usados no Novo Testamento, como por exemplo: ἐξαπατάω – em Rm 16:18 e 2Co 11:3.  Mas aqui o sentido é de sedução e traz a conotação de ação maliciosa para induzir o erro.

 

Vamos a citação no Antigo Testamento.  O texto é Dt 6:16, onde a instrução é não repetir o erro de Massá e Meribá (numa referência retroativa ao episódio citado em Êx 17).

Em hebraico as palavras do Deuteronômio são:

לא תנסו את־יהוה אלהיכם כאשר נסיתם במסה׃

O verbo em destaque é נסה que nesse versículo está no piel imperfeito – 2ª pessoa masculino plural.

Esse verbo ocorre cerca de 36 vezes no texto hebraico em textos como 1Sm 17:39; 1Rs 10:1; Sl 26:2 e Dn 1:12 (aqui no imperativo), por exemplo.

Um detalhe é que, em todas as citações, o sujeito é sempre um agente humano ou o próprio Deus.

O sentido implícito que os dicionários nos oferecem para o entendimento do verbo é: “usar um objeto para verificar o resultado ou para testar sua aptidão”.

 

Assim, ligando os sentidos indicados nas expressões em hebraico e grego podemos compreender a instrução bíblica de não levar Deus – usando linguagem moderna – a um laboratório na tentativa de fazê-lo objeto frio de estudo isento de relacionamentos.

 

terça-feira, 25 de julho de 2023

ALGUNS GREGOS

 


João conta que, já em Jerusalém, alguns gregos mostraram interesse em conhecer Jesus (acompanhe em Jo 12:20-21).  O evangelista não nos dá maiores detalhes sobre quem eram estes gregos (talvez judeus da dispersão) e nem se Cristo chegou a conversar com eles.  Diz apenas que eles expressaram curiosidade sobre quem seria este tal de Jesus.

Então Jesus aproveitou para corrigir a compreensão equivocada que a multidão tinha a seu respeito.  Jesus tinha plena consciência que a glorificação do Filho do homem não se daria através de vitórias militares, mas que deveria passar necessariamente pela sua morte, e esta estava bem próxima.

E, como ilustração, Jesus apontou o exemplo do grão de trigo (observe Jo 12:24).  Para que o grão cumpra a sua missão e produza muito fruto, tem que morrer, pois só assim atinge sua meta.  Da mesma sorte ele mesmo deveria morrer para gerar vida naqueles que cressem em seu nome (este é o objetivo do Evangelho segundo João em Jo 20:30-31).

O que Jesus estava fazendo não era teatro ou entretenimento para despertar curiosidade, e nem iniciando uma revolução social na base de armas de guerra.  Ele estava atraindo para si todo homem e mulher que fosse capaz de crer nele, oferecendo-lhes a verdadeira luz da vida (confira em Jo 12:32-36).

 

terça-feira, 18 de julho de 2023

TESTANDO DEUS



Um dos pressupostos básicos do método científico é a experimentação.

Sobre isso, de acordo com o teórico europeu Abraham Wolf: "no método científico (mais especificamente no método experimental), uma experiência científica consiste na observação de um fenômeno sob condições que o investigador pode controlar".

 

Feitas essas considerações iniciais - e sem julgar sua validade - quero voltar meu olhar para o texto bíblico (explico já porque falei do método científico).

 

O evangelista Mateus nos conta que o diabo tentou Jesus no deserto, instigando-o a saltar do pináculo do templo; na expectativa que anjos o acolheriam (leia a narrativa toda em Mt 4:1-11).

Ao que Jesus prontamente respondeu: "não tentem o Senhor seu Deus" (v. 7).

O detalhe é que, em sua resposta, Jesus foi buscar uma citação lá na Torah bíblica: "não ponham à prova o Senhor, o seu Deus" (Dt 6:16).

Assim, enquanto o testador levantava dúvidas sobre as credenciais divinas do Filho, fazendo citações bíblicas maliciosamente enviesadas, este o respondia usando a Palavra em seu sentido pleno. 

Contra o uso maldoso de uma exegese tendenciosa, só a correta aplicação das Escrituras!

 

E aqui eu volto ao ponto da metodologia científica e, repito, não a estou menosprezando.  Pelo contrário: eu a estou colocando em seu devido e valoroso lugar: no laboratório.

 

Explico: os termos que tanto o autor antigo usou (em Hebraico) como o evangelista citou (em Grego) indicam a mesma ação: colocar Deus a prova. O problema maior não é duvidar expressamente de Deus (isso já seria terrível!).  A questão é que a sugestão diabólica equivaleria em colocar Deus num laboratório de testes e controlá-lo por meio de experimentos para conseguir extrair dele verdades e conhecimentos.

 

Ora, Deus não pode ser controlado, nem levado a laboratório – isso iria contrariar a sua essência.  Aqui a lógica é quase cartesiana: se é Deus não pode ser submetido a testes. E se é submetido a testes não é Deus.  Os dois conceitos se excluem mutuamente.

Então, a pegadinha do diabo faria Jesus negar sua divindade, qualquer que fosse o resultado do teste de laboratório.

 

Certamente a ciência – e seu método – tem seu valor em nos enriquecer de novos conhecimentos testados, às vezes refutados, experimentados e demonstrados.

 

Não me estranhe: eu creio que ciência é bênção – deve ser.

 

Mas o meu Deus, o Altíssimo, o Encarnado em Jesus de Nazaré, esse está - e sempre e essencialmente estará – além dos rigores e métodos da investigação científica.

Ele graciosamente se revela, dando-se a conhecer.  E mesmo que até se perscrute suas pegadas e indícios em um laboratório, nunca vou me relacionar com ele da maneira como o faço no meu quarto fechado (sugiro experimentar Mt 6:6).

 

O que passar disso é sugestão diabólica.

 

E que Jesus se revele para mim em sua graça divina, dando-me a conhecer os seus mistérios, que é Cristo em nós, esperança da glória (estou parafraseando Paulo em Cl 1:27).

 


# Se quiser ver uma análise exegética a partir de uma pesquisa linguística dessas passagens bíblicas, vá ao post Testando Deus - INVESTIGAÇÃO DE PALAVRAS - link  

terça-feira, 11 de julho de 2023

APOCALIPSE - LENDO AS CARTAS HOJE


 

Se pensarmos na igreja como um corpo histórico, nunca houve uma igreja homogênea, nem dentro dos próprios muros nem em relação de umas com as outras.  Assim, as igrejas do Apocalipse são fragmentos eclesiásticos que devem nos dizer verdades espirituais.  Vejamos.

Toda igreja está colocada em um contexto histórico e social e, de certo modo, troca influências com ele.  É sempre bom lembrar que foi Jesus quem pediu ao Pai que não tirasse seus discípulos do mundo, mas que apenas os livrasse do mal (na Oração Sacerdotal em Jo 17:15-16).  E então em meio a este mundo a igreja é desafiada a se manter fiel a Cristo e rejeitar as tentações, artimanhas e ciladas do tempo presente (compare com Rm 12:1-2).

No Brasil não há perseguição estatal ou institucionalizada que ameace tentando nos fazer negar a fé cristã.  Mas ainda em outros cantos do mundo esta ameaça é real.  Ler então que Jesus conhece nosso labor e perseverança diante das perseguições é certamente um alívio (veja o que é dito a Éfeso, a Esmirna ou a Filadélfia).  Mas mesmo que seja o caso das ameaças disfarçadas ou veladas que tentam minar nossa fé ou apenas relativizá-las, saber que nas pressões ainda podemos confiar nas promessas de sustento e companhia divina haverá de nos fortalecer (como dito a Pérgamo e a Laodiceia).

Por outro lado, sempre que a igreja está num contexto de opulência social e se vê tentada a sucumbir frente ao conforto que a vida moderna pode oferecer, é indispensável lembrar que em Cristo a nossa riqueza aparente não passa de pobreza profunda, cegueira e nudez vergonhosa (palavras duras ditas a Laodiceia).

(Extraído do livro TU ÉS DIGNO – Ed. AD Santos)

 


Leia todo o livro TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus.  Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

Disponível na:
AD Santos editora
Amazon

 

Ouça também uma reflexão no tema das Cartas do Apocalipse no YouTube