sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

VERGA OU QUEBRA – Alguns apontes exegéticos sobre o Salmo 18:34

Recebi de um estimado amigo e colega pelas redes sociais:


Compartilho a minha resposta:

Andei dando uma estudada no texto em questão, vamos tentar entendê-lo melhor.
Em primeiro lugar vamos ler como alguns tradutores em português trabalharam com ele – isso sempre ajuda a entender (vou aproveitar e destacar o termo em questão) – se quiser também dar uma olhada em traduções para outras línguas, ajuda.

=> Almeida Revista e Corrigida (ARC)
Adestra as minhas mãos para o combate, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre. ..

=> Versão Almeida Atualizada
Adestra as minhas mãos para a peleja, de sorte que os meus braços vergam um arco de bronze.

=> NTLH
Ele me treina para a batalha para que eu possa usar os arcos mais fortes.

=> NVI
Ele treina as minhas mãos para a batalha e os meus braços para vergar um arco de bronze.

No texto em hebraico a palavra é ונחתה do radical נחת que literalmente deve ser traduzida: descer, dobrar, pressionar para baixo, daí impor, dominar, subjugar.  A ideia que o termo expressa é de usar de força de cima para baixo exercendo poder e autoridade sobre algo ou alguém.
Essa palavra aparece onze vezes no AT hebraico, e além da citação do Salmo 18, há outras duas ainda nos Salmos: em 38:2 – ... e sobre mim a tua mão pesou; e 65:10 – ... aplainando-lhes as leivas.
Quanto ao texto analisado, dando-se vazão a uma compreensão poética do texto – estamos tratando de Salmos! – eu entendo que a melhor interpretação seria: ...dá-me total controle sobre o arco.
Vamos nos aprofundar um pouco mais.
O Salmo 18 é um cântico de Davi e tem como título em hebraico: "Para o chefe músico de Davi , o servo do Senhor, que cantou ao Senhor as palavras deste cântico, no dia em que o Senhor o livrou das mãos de todos os seus inimigos e das mãos de Saul."
No contexto, Davi está afirmando sua crença que Deus é quem o cinge de força e em todos os aspectos o torna apto para enfrentar a batalha (veja os versos 32 a 36).  É esta crença que o faz reconhecer que Ele dá grande livramento ao seu rei (verso 50). 
Então, entre as habilidades que o Senhor dá, está ter todo o controle – fazer descer ou subjugar – até os imponentes arcos de bronze (melhores que os simples de madeira).
Pela força do Senhor, as mais formidáveis armas de guerra estão agora sob o meu mais absoluto controle e posso fazer o que quiser: dobrá-las, vergá-las, torcê-las ou empená-las – usá-las como bem entender.
Quanto a quebrá-lo no manuseio, em virtude da força do braço, embora não ofenda o hebraico (compare com 1Sm 2:10 em que aparece a mesma palavra e a tradução quebrantados não é forçada), penso que não é a melhor escolha de tradução e interpretação, além de não ajudar muito na poética e teologia do texto.  Eu não a adotaria.
Justificando mais a escolha de vergar como a melhor opção.  Lembremos que o uso do arco como veículo para a fecha se dá puxando (vergando) a corda, ou linha que está amarrado ao arco de modo a produzir empuxo suficiente para a flecha – e isso requer habilidade, mas também força.  É esta capacidade espiritual que o Senhor nos outorga: retesar o arco mais nobre e o dispor para a batalha.
Trazendo para a nossa lide diária, o Salmo nos diz que diante das batalhas inevitáveis desta vida, o nosso Senhor nos dá as armas necessárias e, mais que isso, nos torna capazes de manuseá-las de modo a que dela tiremos sempre seu melhor potencial.
Que assim nos faça o Senhor.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

As Cartas do Apocalipse

No início do livro da Revelação de Apocalipse em nossas Bíblias (capítulos 2 e 3), o autor transcreve sete cartas dirigidas a sete igrejas da Ásia com instruções, elogios e reprimendas.  Nestes dois quadros podemos ver um resumo do que ali é apresentado:



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O ESPÍRITO SANTO NA ADORAÇÃO

Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.
(Jo 4:24)
Logo após a ressurreição, estavam os discípulos reunidos quando Jesus apareceu no meio deles e assoprou sobre eles e disse-lhes: "Recebam o Espírito Santo" (Jo 20:22).  Com este gesto simbólico, o Jesus ressuscitado outorgou aos seus discípulos o Espírito e transformou para sempre a reunião dos seus seguidores.
A reunião dos discípulos era saudosa, o Mestre já havia partido, um sentimento de frustração e solidão dominava o ambiente – o Espírito soprado na reunião era a garantia da companhia solidária do divino no meio dos seus: Ele é o outro Consolador (Jo 14:16).  O encontro dos discípulos era sombrio e silencioso, a dor da saudade ocultava-lhe o cântico – o Espírito soprado entre eles deveria encher-lhe de palavras de salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5:18-19).
Culto cristão sem a presença do sopro do Espírito é pasmaceira triste e sem sentido.  Não há vida nem sentido em reunião de discípulos de Cristo sem que já se tenha recebido este sopro, que é vento e alma da Igreja. 
Vivamos e cultuemos nesta experiência espiritual.

(do livro "No Baú da Adoração" publicado em 2004)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O SUPÉRFLUO É ESSENCIAL

Terminei este final de semana de ler o livro do Tostão: A Perfeição Não Existe.  Logo que eu o vi numa livraria aqui em Aracaju em 2012 eu o comprei e desde então venho lendo aos pouquinhos – como doses homeopáticas receitadas pelo Dr.  Eduardo Gonçalves de Andrade.
Eu não tive o privilégio de ver Tostão jogando futebol – quando eu comecei a me interessar pelo ludopédio, lá pelo final dos anos 1970, ele já não frequentava os gramados – ficou o mito.
E com essa referência tomei o volume na livraria e resolvi me dar à sua leitura, já ali em pé mesmo.
Mas quem é Tostão?  O jornalista Juca Kfouri, que prefaciou o livro, assim o descreve:
Tostão foi um dos maiores craques que eu já vi.  E ele escreve como jogava.  Também em suas crônicas, consegue enxergar o que nós nem suspeitávamos e resolve tudo com simplicidade minimalista e delicadeza tocante.
O livro é uma "seleção das colunas publicadas na Folha desde 2000".  Mas como também não tive a oportunidade de ler no veículo original, para mim, todas eram inéditas.
E as li com gosto.  Então por que só terminei agora?
Como disse, os olhos percorreram as primeiras linhas ainda na livraria, só que a citação das pílulas homeopáticas, lá no primeiro parágrafo, foi só para apontar o autor.  Na verdade não me pareceu remédio a ser tomado de forma obrigatória e necessária.  Estava mais para uma caixa de bom-bom que um menino ganha e, para que não acabe logo, fica se deliciando aos poucos, um a um, os doces.  Tentando fazer render o máximo.
Assim eu fui lendo que a perfeição pode até não existir, mas que com um pouco de simplicidade e uma exorbitância de genialidade dá para chegar perto.
Coisa que só quem brincou como menino pode entender.
E entre várias boas tiradas do Tostão encontrei esta: o supérfluo é essencial – numa crônica de janeiro de 2009 em que trata de objetivos e objetividade, citando Millôr Fernandes e Nelson Rodrigues.
Só as companhias já valem o proseado!
Como pastor e escrevinhador – é isso que tenho sido – futebol para mim está longe de ser essencial.  Mas gosto de ver e ouvir gente que trata o assunto com profunda seriedade, mas sem nunca esquecer que é apenas futebol.
Tostão fez isso com a maestria que lhe é devida.
Futebol é realmente supérfluo, mas tratado como foi, acrescentou muita bagagem em meu repertório cultural e humano.  E com ele pude caminhar mais alguns passos.
O próprio Mestre Jesus já havia ensinado que a vida é mais que o alimento.  Nossa humanidade consiste em subsistência, trabalho, anseios, expectativas, mas também sonhos, beleza, arte, paixão.
Repito: coisa que só quem, depois da aula, escolheu correr atrás de uma bola ao invés de um prato de comida sabe o que é.
Então, que me perdoem a heresia, mas o futebol bem pode servir de metáfora para isso além de nós, e que nos faz humanos!
É verdade que futebol não coloca feijão na minha panela – como de resto para a maioria de nós – mas depois da magia da bola nos pés de um menino só resta concordar com a verdade que a perfeição não existe, mas para ser tornar como criança (insisto na citação de Zc 8:5 e Mt 18:3) é preciso reconhecer que o supérfluo é essencial.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Parábola das coisas – O TRAVESSEIRO

Tenho mantido o costume de olhar as coisas presentes no cotidiano.  Nelas busco enxergar sempre fagulhas de lições me ajudem na caminhada da vida.  E de vez em quando escrevo sobre elas – são as parábolas das coisas.
Mas antes que estas linhas se tornem muito cansativas, vamos olhar para uma coisa que temos próximo todos os dias – ou melhor as noites: o travesseiro.
Vejamos de início o que encontramos, lendo sobre o tema.  No dicionário, a definição de travesseiro é uma espécie de almofada comprida que se atravessa sobre o colchão de lado a lado, para descansar a cabeça.
Como objeto útil, serve muito bem para as funções propostas: acalentar o descanso e o sono.  Fica ali, deixa-nos confortáveis e embala nossos sonhos – e há toda uma intimidade desenvolvida.  E é exatamente daqui que quero tomar o ponto de partida para examinar o travesseiro.  Como companheiro do recolhimento íntimo do sono, ele é excelente parábola da própria consciência.
Atentemos à consciência:
Algumas vezes a consciência pesa e as ideias tornam-se uma turbilhão.  Quando a vida e as decisões nos levam a caminhos dos quais a culpa e a vergonha são inseparáveis, o travesseiro da consciência fica duro e o sono terrível.
Para entender melhor, das páginas da Bíblia eu me lembro da narrativa do patriarca Jacó.  Quando fugia da casa de seu pai, em meio a viagem, ele parou e dormiu usando um pedra como travesseiro.  Longe de casa, tendo trapaceado seu irmão e mentido para seu pai, a noite do patriarca foi dura, como um travesseiro de pedra (leia a narrativa em Gn 28).
Mas há uma outra situação da consciência: limpa, leve, fluida, equilibrada, saudável.  Em perfeita harmonia com sua própria história e trajetória.  É um travesseiro macio para um sono reparador.  E não importa que o mundo lá fora esteja um caos.  A mente e corpo repousam tranquilos.
Ainda é na Bíblia que eu posso ler um exemplo perfeito para esta condição. 
Depois de um dia cansativo de trabalho na missão, Jesus instruiu seus discípulos a procurarem um repouso na outra margem do lago da Galileia.  E o texto diz que enquanto atravessam, Jesus apenas dormia na popa do barco, sobre um travesseiro – que sono gostoso! E um detalhe importante, enquanto dormia sossegado, uma tempestade assolava as águas (leia em Mc 4).
Quando a noite chega e a sós com meus pensamentos, lembranças, ideias e reflexões, apenas o travesseiro embala meu sono.  Então a pergunta final é inevitável: de pedra ou de pluma, onde tenho reclinado minha cabeça?


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Deus Existe

Como não ter Deus?!
 Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.
Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra.
É o aberto perigo das grandes e pequenas horas,
não se podendo facilitar – é todos contra os acasos.
Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.
Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma!  Porque existe dor.
E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses,
dos meninos sem pernas e braços.
Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos doidos – não dói sem precisar de se ter razão
nem conhecimento?  E as pessoas não nascem sempre?
Ah, medo tenho não é de ver morte, mas ver nascimento.  Medo mistério.  O senhor não vê?
O que não é Deus, é estado de demônio.  Deus existe mesmo quando não há.
Mas o demônio não precisa existir para haver – a gente sabendo que ele não existe,
aí é que ele toma conta de tudo.
O inferno é um sem-fim que nem se pode ver.  Mas a gente quer Céu é porque quer um fim:
mas um fim com depois dele a gente tudo vendo.
Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte.  Meu modo é esse.
Nasci para não ter homem igual em meus gostos.
O que eu invejo é sua instrução do senhor...


Extraído do livro "Grande Sertão: Veredas" (1956) do mineiro Guimarães Rosa.
A foto lá em cima é do sertão do Piauí.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A cronologia do profeta Ezequiel

O livro da profecia de Ezequiel é um dos livros com mais e melhor referências sobre datas que encontramos no Antigo Testamento.  Aqui procurei listar algumas destas datas que aparecem no texto bíblico com a provável equivalência em nosso calendário.