sexta-feira, 29 de abril de 2011

E EU TRABALHO TAMBÉM

O dia 1º de maio é já tradicionalmente comemorado como o Dia do Trabalho.  A história principia com os trabalhadores de Chicago nos Estados Unidos que em 1886 entraram em greve geral reivindicando uma jornada de oito horas de trabalho e foram violentamente reprimidos pelas forças policiais, no que ficou conhecido como a Revolta de Haymarket – bem mais detalhes deste episódio com certeza você pode encontrar em diversas páginas da Internet.
Pensando no tema do trabalho e a sua relação com as narrativas sagradas, fui levado a por meus olhos no texto de Jo 5:27 – "Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando".  É sobre isto que eu quero refletir hoje: a relação de Deus o Pai e de Jesus com o trabalho, a atividade, a ocupação.
Logo de início deixe-me dizer que não consigo fazer a associação entre as tarefas divinas e a negação do ócio (daí a própria palavra: neg + ócio = negócio).  São outras as configurações do trabalho que continuamente o Pai e o Filho executam.  Acompanhe comigo um pouco desta reflexão trabalhista. 
Para Deus pelo menos quatro características são inerentes ao seu trabalho: ele é voluntário, é produtivo, é criativo e é ainda prazeroso.  E isto tudo junto.
Deus se predispõe a trabalhar voluntariamente.  Ninguém o obriga a fazer nada.  Tudo o que faz é resultado único e exclusivo da manifestação de sua vontade soberana.  Se você tem dúvida disso, dê uma lida na contestação que o Senhor faz a Jó: onde você estava quando lancei os alicerces da terra? (Jó 38:4 – mas leia todo o argumento divino daí até o final do capítulo 40). 
E Ele continua trabalhando.  Então desta forma, folgo em saber que toda ação divina em meu favor ainda é resultado de sua soberana e graciosa vontade.
Um outro ponto importante também é pensar que o trabalho divino é produtivo.  Tudo o que Ele faz redunda em algo útil e de valor.  Nada é desperdício; nada é por acaso.  Volto a dizer que não há aqui objeção ao ócio.  Há sempre razão de ser naquilo que Deus continua operando na história e em minha vida.
Eu sei, é verdade que ainda há circunstâncias nas quais realmente não entendo as ações e intenções de Deus.  Por causa delas então me lembro do que Jesus disse: "você não compreende agora o que estou fazendo; mais tarde, porém, entenderá" (dito a Pedro no lava-pés em Jo 13:7).  Assim posso continuar meditando no labor do Senhor.
Uma terceira característica do trabalho constante divino é a sua criatividade (confesso que é o traço que mais gosto!).    Não é difícil perceber isto: bichos e flores exuberantes; aves de cantos e cores sem fim; peixes de todos os tamanhos e formas; planetas e estrelas; verão e inverno e eu, tão imagem de Deus quanto você.  Na grande diversidade das coisas criadas vejo a imensa imaginação criativa do Senhor.
Penso que Davi já tinha ficado maravilhado com tão fantástica criatividade quando se admirou diante da obra de Deus: quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmastes" (cantado no Sl 8:3).  E o que vem a seguir só confirma quão inusitada pode ser a ação criativa de Deus:  diante de surpreendentes obras, quis Deus me fazer coroado de glória e honra.
Ainda percebo o trabalho de Deus como sendo algo prazeroso.  No poema do primeiro capítulo da Deus o mote: E Deus viu que ficou bom é repetido como um refrão dando-me a entender que, a cada novo ato de criação, o Pai sentia-se satisfeito.  Tinha prazer no que acabara de fazer.  Parece que até escuto Deus dizer: faço porque gosto! e como gosto de fazer isso!
Ora, o Pai continua trabalhando e Jesus trabalha também.  De boa vontade, gerando valor, com criatividade e com prazer e satisfação.  Esse é o Deus que age em meu favor.  Que o meu louvor assim também o seja.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

QUANDO TERMINOU O SÁBADO

Marcos em seu evangelho inicia a narração da ressurreição observando que quando terminou o sábado (leia em Mc 16:1) algumas mulheres retomaram o processo de sepultamento do corpo de Jesus, interrompido pela chegada do sábado.
A informação aparentemente banal de que terminou o sábado pode gerar uma interessantíssima discussão teológica sobre o advento pascal como distintivo da superação da aliança vétero-testamentária e sabática e a instauração da nova aliança graciosa.
Bem, embora este seja um tema de real interesse e importância, hoje queria apenas lhe convidar para acordar cedo no primeiro dia da semana e acompanhar as mulheres em sua ida ao lugar da sepultura.  Na mesma tarde da crucificação, quando José de Arimateia levou o corpo de Jesus para colocar num sepulcro novo cavado na rocha, as mulheres apenas acompanharam e observaram o lugar onde ele fora colocado.  Elas ainda compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus e voltaram ao sepulcro ao alvorecer do primeiro dia da semana (este detalhe é destacado pelos quatro evangelhos).
Naquele início de manhã ainda fria de final de inverno e princípio de primavera, aquelas três mulheres sentiam o peso dos rituais da morte que se impunham.  A morte é dolorosa e não marca lugar na agenda: ela acontece.  Ninguém escolhe.  À dor da perda cruel, acrescia-se o desconforto do levantar muito cedo, trocando o acolhimento de leito matinal pela labuta enfadonha. 
Já era o primeiro dia da semana e chegara o momento de retornar à insana rotina da sobrevivência (lembre que à tarde do mesmo dia dois dos discípulos iam a Emaús com esse intuito – em Lc 24:13-27).  E as especiarias compradas eram um gasto sofrido feito para tentar suavizar a decomposição do corpo e das lembranças.  E ainda tinha a pedra:
— Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?
Quando a vida termina em dura morte só resta uma grande e pesada pedra a enterrar os sonhos, a afastar o aconchego, a sufocar a saudade.  Naquela hora as explicações teológicas – embora corretas – não enxugariam as lágrimas da ausência.
Mas eis que o inusitado acontece: a morte foi tragada pela vitória (gosto da expressão de Paulo em 1Co 15:54).  Nada explica a pedra não mais tapar a cova e o lugar está vazio: não está aqui! – foram as estranhas palavras ouvidas pelas mulheres.
O que era ritual de morte, pesado e imposto pela realidade, se reconfigurou em liturgia de vida, oferecida de graça.  Depois do choro que durou uma noite, o riso chegou com o raiar do primeiro dia (olhando esta cena, leio Sl 30:5 como tendo contornos proféticos).  A pedra removida e os lençois dobrados compunham o cenário perfeito para o sonho frustrado se converter em esperança real, a saudade do aconchego em acolhimento carinhoso e o desencanto da morte em promessa de vida.  Quando terminou o sábado, a morte se foi e a vida brotou.
Antes de terminar, deixe-me ainda lhe chamar mais uma vez a acompanhar as mulheres a vivenciar a chegada do primeiro dia da semana. Quando a vida e a rotina nada mais forem que prenúncios de rituais de morte, levante cedo e vá descobrir que o lugar onde fora posto o corpo inerte agora se converteu em lugar de prostração sagrada e adoração por que Ele está vivo.  Aleluia!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

HÁ UM RIO

Quando falo da minha origem, digo com certo orgulho que sou nordestino.  Isso me faz achar que tempo bom é chuva no sertão; o melhor lugar para descansar é numa rede debaixo da sombra da mangueira ou do umbuzeiro; mais gostoso do que água de moringa só suco de mangaba ou de caju e para passar o tempo, o bom mesmo é gastar saliva com pitomba.
Mas na verdade eu nasci em Aracaju que é uma cidade litorânea – foi por isso que a construíram e agora está até virando cidade grande... (outro tempo eu volto a falar da minha cidade).  Não sou do sertão ou do agreste e água corrente não é algo totalmente estranho para mim.  Ao contrário dos rios sazonais tristemente famosos no interior desta terra, por aqui o mais comum são rios perenes. 
A minha Aracaju é banhada pelo rio Sergipe, se bem que o verbo banhar já não se deve aplicar às suas águas.  Devo também citar o rio São Francisco que através de uma centena de metros de canos abastece de águas nossas torneiras.  Há o rio do Sal, o Vasa Barris, o Cotinguiba e o Poxim em cujas águas, com um pouco de boa vontade, ainda é possível a navegação.  Tem mais os canais do Tramandaí, Almirante Tamandaré e Aribé que resistem para não morrerem sufocados na urbanização.  Graças a Deus pelas águas daqui! 
Veja o encontro dos rio Sergipe e Poxim tendo Aracaju ao fundo
A realidade do povo de Israel não era assim.  Eles viviam sempre na ameaça de sucumbirem pelo deserto e não é de se admirar que toda sua idealização de paraíso esteja entremeada de rios e águas correntes.  Penso que foi este ambiente que fez os filhos de Coré cantarem que há um rio cujos canais alegram a cidade de Deus (palavras do Sl 46:4).  No contexto do Salmo em si, depois de afirmar que diante da adversidade, o refúgio seguro e a fortaleza sempre presente é Deus e que por isso nada os abalaria, nem mesmo a fúria das águas turbulentas, então o salmista introduz o tema do rio que alegra a morada do Altíssimo.  Ali há motivos para salmodiar.
Mas gosto demais da expressão em si: há um rio... independente do contexto do Salmo.  Talvez até esteja na alma nordestina, mesmo com todos os adendos já citados.  Gosto da ideia.  Gosto da poesia.  Gosto da sonoridade das palavras.  E parece que elas fluem na minha mente, as repito sempre como uma afirmação de adoração, confiança e esperança.
Um rio cujas águas alegram a cidade de Deus soa para mim como um rio perene (não sazonal) que corre calmo, sereno e tranquilo.  Um rio profundo e majestoso.  Ora, viver junto deste rio é saber que das suas águas poderei beber sempre e ter paz de espírito.  Ainda que a sequidão da alma seja enorme, suas águas cristalinas sempre estarão ao alcance do mais simples copo para dessedentar a alma (é inevitável não associar às palavras de Jesus ditas a mulher samaritana em Jo 4:14).  Por isso há alegria as suas margens.  Até parece que posso ouvir o som sossegado das águas do rio se misturando aos cânticos pelas obras do Senhor e pelos seus feitos estarrecedores na terra.
Na cidade de Deus, na morada do Altíssimo, lá onde Deus está, há um rio cujas águas profundas e calmas trazem paz e saciedade; mas principalmente alegria.  Que me faça o Senhor viver nas suas margens para glória dele.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

VOLTEI A ESCREVER

Já faz algum tempo que aprendi a escrever.  É claro que dito assim, esta frase é tão obvia quanto ambígua.  E assim é pois diz e esconde muita e alguma verdade.  Antes de minha primeira década de vida eu já era capaz de reconhecer e juntar letras e formar palavras.  Deste conhecimento básico e funcional da língua faço uso indispensável e sistemático todo dia.  A vida em sociedade impõe-nos tais necessidades.  Sempre é preciso anotar um número de telefone; algo na lista do mercado; algum compromisso na agenda e outras tantas pequenas grafias que vão nos marcando o cotidiano. 
Então por que estou dizendo que voltei a escrever?  Retomo um pouco de minha história pessoal.  Depois dos primeiros domínios das funções gramaticais, os anos me fizeram realmente saber escrever: transformar ideias em palavras e despejá-las num texto.  Houve um processo até empírico de ensaio e erro até me julgar capaz de produzir e dizer algo realmente proveitoso.
Antes de continuar preciso confessar que este empirismo ainda faz parte do procedimento de escrever.  Mas confessar também com certo acanhamento que não sou o poeta que gostaria de ser.   Já li que com outros é da mesma forma: somente depois de travada um luta entre palavras e ideias é que a trama do texto se compõe.  Imagino como as palavras torturaram Gregório de Matos até que a simplicidade fantástica moldasse sua sátira e sua devoção.
Voltando a minha trajetória: passei pela escola primária e secundária e de lá me lembro que alguns mestres me ensinaram a não ter medo da palavra nem do papel em branco.  Depois me graduei (é certo atestar que em alguns casos larguei a caminhada antes dos últimos passos).  Ainda pós-graduei e continuei enfrentando o desafio de escrever – e assumo que até gostei.
Outra digressão.  Sou levado a concordar com Rubem Alves que a academia vicia e entorta o gosto de escrever.  Entorta porque enquadra e na sua aparente neutralidade simplifica processos que são natural e gostosamente complexos.  Vicia à medida que condiciona ao reducionismo metodológico científico (só o termo já assusta!).
O tempo passou e pude ir trocando a roupa magistral pela pastoral.  E veja que tem sido bom seguir os helênicos, associando o trabalho pastoral ao poético como fazedor de ideias e palavras!
Antes de chegar ao voltar a escrever, preciso lembrar que Deus, através da IB Sol Nascente, me deu a oportunidade de nos últimos dois anos escrever com frequência e regularidade (ainda está lá no blog da igreja – http://ibsolnascente.blogspot.com).  Porém neste final de ano o Senhor me chamou para atuar diretamente na PIBA, e esta uma daquelas convocações que é preciso seguir com humildade cristã – e assim o fiz.
Mas deixei de escrever, tecer palavras.  Então senti falta do desafio do texto.  Quando comecei era a imensidão da folha em branco, hoje com a tecnologia é o abuso do cursor piscando que clama pela composição textual.  Ora, escrever é como um parto: quando a criança nasce é linda de ver e interessante de por nos braços, mas até chegar aí, dá um trabalho...  só que é imperioso e vale a pena...
Assim, voltei a escrever.  Retomo aqui a difícil mas gostosa tarefa de ser pastor com palavras e poeta com as almas.  E que mais uma vez o Senhor me ajude a louvá-lo nesta tarefa.