sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

AUTOR E CONSUMADOR


Geralmente nós tomamos esta época de fim-de-ano como tempo de reflexão, quando avaliamos o que fizemos e projetamos o que devemos corrigir para alcançarmos nossos objetivos e metas.  Para a última reflexão do ano quero fazer um pouco isto também e com certeza vou me incluir entre aqueles que precisam de tal análise.  É como se dissesse: antes de escrever para outros, tomo primeiramente para mim as palavras que vão compondo o texto!
Devo me embasar em Hb 12:1-3 que tem seu ponto central na declaração de Jesus como o autor e consumador da nossa fé.
Mas antes de ler e compreender o texto e a expressão com a qual Hb apresenta Jesus, deixe-me fazer um destaque importante do contexto da declaração: o verso 1º fala que estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas.  Isto é verdade!  Basta olhar para o que Deus fez neste ano.  Realmente há entre nós muitas testemunhas daquilo que o Senhor é capaz e de quanto ele nos ama.  Tenho louvado bastante a Deus por minha Igreja.
Por outro lado, o texto também me diz que, apesar das bênçãos, há ainda o pecado que se avizinha.  Ou seja, mesmo diante de tudo o que Deus já fez, mas ainda estou sujeito ao pecado, à falha e ao deslize.  Infelizmente é verdade que nosso adversário continua tentando nos derrubar.  Assim continuo fazendo minha a exclamação e prece de Paulo em Rm 7:22-25.
É neste contexto que volto a considerar a sentença do texto e ela ganha contornos e força peculiares.  Meus olhos devem estar fitos em Jesus, e em mais ninguém ou em nada.  Embora as testemunhas sejam importantes para o crescimento e fortalecimento mútuo – e agradeço a Deus por elas; embora também o pecado e o diabo venham a turvar meu caminho – e suplico pela clemência divina; somente Jesus deve ser o modelo e alvo de minha jornada cristã.
O autor bíblico fala de Jesus como o autor da minha fé.  Ele é quem faz nascer e acontecer a fé e a firmeza em minha alma.  Só posso crer em Deus e confessá-lo porque, através do Espírito, Jesus a plantou dentro de mim.  Também é ele o alvo do que eu creio: o consumador.  Só a Cristo devo voltar-me como objeto de minha fé, culto e adoração, porque dele e para ele são todas as coisas (veja Rm 11:36).
Neste fim-de-ano, que seja Cristo Jesus, e não as pessoas ou as circunstâncias, quem domine minha vida e minha fé.  Para glória maior dele.
(Adaptado de reflexão publicada do sítio http://ibsolnascente.blogspot.com em dezembro de 2009)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Salmo 112 - uma leitura


Aleluia!
Como é feliz o homem que teme
o SENHOR
e tem grande prazer em seus
mandamentos.
(Sl 112:1)
Com estas palavras o Salmo 112 inicia um poema construído em ordem alfabética e que procura descrever qual deve ser o comportamento do homem que teme ao Senhor.
Como atitudes pessoais o salmo destaca:
> Empresta com generosidade (v. 5);
> Com honestidade conduz os seus negócios (v. 5);
> Reparte generosamente com os pobres (v. 9);
Como qualidades, vemos:
> Tem grande prazer nos mandamentos do Senhor (v. 1);
> A sua justiça dura para sempre (v. 3 e 9);
> O seu coração está seguro e nada temerá (v. 8);
E como resultado de sua conduta:
> Seus descendentes serão poderosos na terra (v. 2);
> Serão uma geração abençoada, de homens íntegros (v. 2);
> O justo jamais será abalado (v. 6);
> Seu poder será exaltado em honra (v. 9).
Estes atributos podem muito bem ser encontrados em Davi, quando demonstrou o valor da lealdade.  Diante de um homem assim devemos então prestar uma palavra de louvor ao nosso Deus: Aleluia! Deus seja louvado nas vidas de seus servos!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É NATAL, MAS PREFIRO A PÁSCOA!


Chegando ao final do ano, as casas e a cidade vão ficando enfeitadas, a agitação e as expectativas de festas, celebrações e comemorações já são bem vívidas.  Também é momento de reavaliações, projetos e reafirmações.  Isso sem falar nos presentes, lembranças, ceias e tudo o mais...  Natal é sempre assim!
Mas prefiro a páscoa!  Não tenho nada contra a festa natalina; ela também é bonita e gostosa.  Mas meu espírito cristão se inclina em especial para a festa pascoal.
Se me permite, acompanhe comigo.
Que a festa de Natal não é originalmente cristã, isso é verdade.  Os cristãos primitivos nem sequer citavam tal celebração e somente muito tempo depois tais festividades foram incorporadas ao calendário litúrgico cristão.  Mas não creio que seja este o problema.  Assim como as pessoas, as celebrações nascidas pagãs podem se tornar cristãs pela força transformadora do evangelho – e eu creio piamente nisto! (já leu Rm 12:2 nesta perspectiva?).
No Natal se celebra o nascimento virginal de Cristo, a encarnação, o cumprimento de profecias antiquíssimas.  Isso também não pode ser o problema, pelo contrário, é bom saber que no seu tempo Deus cumpriu sua palavra (veja Gl 4:4) e, afinal, o Deus-feito-homem é o centro de nossa história e isso só foi possível com o evento de Belém.
Paralelamente festejamos no Natal a união, a fraternidade e o companheirismo entre mulheres e homens e entre os povos.  É claro que tal espírito coincide profundamente com a mensagem cristã, e isso é válido! (como é significativo Jo 17:22).
Então, onde reside o ponto da preferência?  Veja o que o Natal me evoca, como sentimento associado (seria o tal espírito natalino?): troca, reciprocidade, cumplicidade; mas também opulência, prosperidade, grandiosidade e sucesso.  Nesta época sobressaem as grandes campanhas publicitárias, as imagens iluminadas, as mesas fartamente recheadas e decoradas, os presentes comprados e os sorrisos encomendados – isso sem falar na neve que meus olhos nordestinos insistem em estranhar!
Por outro lado, a Páscoa sempre me traz à memória a renúncia, a entrega apaixonada pelos que precisam da graça e nada têm a oferecer.  Natal é nascimento, Páscoa é morte.  Natal é berço, Páscoa é cruz.  Natal é expectativa, Páscoa é realização.  Natal é cristão, Páscoa é mais cristão ainda.  Natal é festa da humanidade, Páscoa é serviço cristão.
Sim, o Natal é lindo, mas eu prefiro a Páscoa.  Não vou me aborrecer com a festa ou com quem, a partir dela, celebra (e penso que até vou comer alguma ceia por aí); mas deixe-me preferir o sacrifício único do meu amado e lembrar que a todo instante do meu ano (e da minha vida), sem o Calvário, a estrebaria seria só mais uma data entre tantas outras a se incluir em nosso calendário de celebrações. 
Celebro o Natal: com os anjos canto as boas novas glorificando a Deus (o louvor dos anjos está em Lc 2:14); mas prefiro a páscoa celebrando-a com os anciãos na eternidade: "digno é o Cordeiro que foi morto de receber poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e louvor!" (lá em Ap 5:12).  E convido a todos a celebrar comigo.
(Publicado originalmente em www.batistasdesergipe.com em dez/2009)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parábola das coisas – o motor


Na vida dita moderna, como a vivemos hoje em dia, todo mundo conhece um motor.  Mesmo que você não seja engenheiro mecânico ou não esteja familiarizado com seu funcionamento e muito menos se sinta capaz de construí-lo ou consertar um deles; você conhece um motor e deve estar cercado de alguns neste momento.
Para efeito de nossa consideração nesta parábola não quero pensar num motor qualquer, mas num motor à explosão como aqueles que equipam os carros que enchem nossas cidades e vias.  Assim, devo comparar a igreja e a tradição que a ela diz respeito a um carro e ao seu respectivo motor.  Acompanhe comigo – mas deixe-me dizer logo que também não sou engenheiro nem mecânico.
O ponto de partida da comparação é a realidade de que o motor é sempre parte de um todo maior.  Não faz sentido ter um motor que não esteja devidamente colocado em um carro.  E nem aquele conjunto de coisas será de verdade um automóvel sem que nele esteja colocado um motor.
Por agora creio que já deu para entender que sendo a igreja um carro e a tradição o seu motor; esta última terá como única função dar dinâmica e movimento à primeira, enquanto aquela lhe dar abrigo, razão e objetivo.  Mas continuemos a comparação.
É verdade que existem diferentes tipos de igrejas e tradições, como existem diferentes tipos de carros e motores: uns sãos barulhentos, outros silenciosos.  Alguns mais potentes, outros mais delgados.  Uns se destacam na carenagem do carro, outros quase não são percebidos.  Uns exigem um acompanhamento mecânico mais presente, outros funcionam quase que sem que mãos especializadas o toquem.  Alguns consomem muito combustível, enquanto outros são bem econômicos.  Todos, contudo são igualmente motores à explosão e também de modo igual foram colocados ali para cumprirem um papel: fazer do carro um automóvel.
Outro detalhe a se considerar é que alguns motoristas consideram o motor o item mais importante na hora de escolher ou valorizar um carro a ser avaliado, enquanto outros talvez sequer tenham se dado o trabalho de levantar o capô para verificar se há mesmo uma máquina ali.  Mas seja qual for o caso, um carro sem motor é sempre apenas uma carcaça inútil.
Importantíssimo também é destacar quatro outras características indispensáveis a um motor à explosão quanto ao seu funcionamento no conjunto do carro.  Primeiro: para trabalhar e gerar a força motriz que o carro precisa, o motor precisa de energia e principalmente combustível.  O mais bonito, potente e bem equipado motor para nada vai servir se não houver nele gasolina que o faça explodir para trabalhar.
Segundo: independente das características que tenha o motor do carro, ele nunca trabalhará sozinho.  No conjunto do automóvel o motor à explosão deve estar ligado a outras partes mecânicas que fazem a força gerada lá dentro de suas câmaras serem efetivamente transformadas em movimento e velocidade para o carro.
Terceiro: também precisa todo e qualquer motor ser dirigido – comandado.  Por mais moderno e auto-suficiente que um motor de carro possa parecer, ele sempre dependerá que alguém decida acioná-lo para que ele funcione.  Isto quer dizer que pode ser simples ou eletronicamente complexo, um motor sempre carecerá de controle.
E quarto.  Não deve ser esquecido que um bom motor exige manutenção e principalmente um bom óleo lubrificante para que suas partes interajam sem comprometer nem a elas mesmas nem o todo da máquina.  É o óleo que dará durabilidade ao motor e propiciará as condições para que ele resista às explosões internas sem fundir ou danificar-se.
Volto a dizer: igreja não é tradição – como carro não é motor.  Mas não dá para separar uma da outra.  Assim, para que sua igreja continue automotora, cuide do estofamento, da lataria e dos faróis, eles são importantes, mas principalmente levante o capô, avalie e cuide do motor que o Senhor colocou nela.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

VIDEIRA VERDADEIRA


"Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o viticultor. (...) Eu sou a videira; vós sois as varas."  Estas palavras são do próprio Cristo e podem ser lidas em Jo 15:1 e 5.  Com elas, Jesus se apresenta como a árvore de onde cada discípulo tira a seiva vital para sua vida e seu sustento.   Esta é a certeza gloriosa que nós em Cristo e Ele em nós, ligados como caule e ramos, temos garantia de podermos usufruir toda sorte de dádivas e traz consigo implicações:
Jesus observa que, mesmo ligados a Ele, há as varas que dão frutos e há as que não dão.  Assim é na igreja: há os crentes que frutificam e há os que não frutificam, ou seja, alguns trabalham e outros dão trabalho!
Aos que, estando ligados à seiva divina e frutificam, Jesus diz que limpa, poda e cuida para que possam dar mais frutos.  Aqui está demonstrado todo amor e carinho do Mestre para os seus servos que se mostram comprometidos com o Reino de Deus.  Ou seja: aqueles que estão ocupados, ganhando almas, cuidando do próximo, servindo em adoração, ensinando, em resumo, cumprindo a grande comissão; estes estão sempre a receber uma atenção especial de Cristo, demonstrada em bênçãos cada vez maiores – são crentes viçosos e bonitos!
Mas há os que, ainda ligados a Cristo, vivem de maneira infrutífera.  Jesus diz que estes ele corta.  Aqui é evidente que é uma referência à mão de Deus que pesa sobre os servos negligentes.  Ou seja: aqueles que vivem sem ocupação ou compromisso com o Reino de Deus, sem fazer nada de útil para glória de Deus; estes estão sempre carentes de realizações e bênçãos – são crentes raquíticos e feios!
Como crentes, estamos ligados à fonte da vida que é Jesus, isto deve nos fazer poder viver uma vida frutífera que em si gere mais vida e mais frutos e por fim a exaltação e glória plena do Senhor, afinal é para isto que vivemos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Salmo 84 – uma leitura


Sabemos que o Livro dos Salmos – ou Saltério – recebeu a composição final, no formato em que conhecemos hoje, para servir como hinário e manual litúrgico do segundo templo, construído na volta do exílio.  Contudo, também sabemos que seus diversos poemas individualmente refletem a progressão espiritual do povo de Deus desde muito cedo.  Neste aspecto, temos salmos que expressam como o povo, ao longo de sua história desejou estar diante do Senhor em sua casa:
Sei que a bondade e a fidelidade
me acompanharão todos os
dias da minha vida,
e voltarei à casa do SENHOR
enquanto eu viver.
(Sl 23:6)
Eu amo, SENHOR, o lugar da tua
habitação,
onde a tua glória habita.
(Sl 26:8)
Uma coisa pedi ao SENHOR;
é o que procuro:
que eu possa viver na casa do SENHOR
todos os dias da minha vida.
para contemplar a bondade do SENHOR
e buscar sua orientação no seu templo.
(Sl 27:4)
Os justos florescerão como a palmeira,
crescerão como cedro do Líbano;
plantados na casa do SENHOR
florescerão nos átrios do nosso Deus.
(Sl 92:12-13)
Alegrei-me com os que me disseram:
“Vamos à casa do SENHOR!”
(Sl 122:1)
Há um salmo dos coraítas – levitas encarregados por Davi pelas portas da Casa do Senhor – que reflete de maneira admirável o desejo pelo lugar da habitação do Senhor dos Exércitos: o Sl 84.
O tema central do salmo é a alegria por estar continuamente servindo no templo (veja os versos 1 e 4).  O salmo, contudo vai além, expressando o desejo por este momento; e o faz de maneira poética:
A minha alma anela, e até desfalece,
pelos átrios do SENHOR.
(Sl 84:2)
O desejo, a vontade maior, o sonho do salmista é poder – como ele observa os pardais e as andorinhas (veja Sl 84:3) – fazer ninho e morar na Casa do Senhor.  Com toda certeza não há lugar melhor para se estar que na Casa de Deus, em sua presença.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

HINOS INSTRUMENTAIS


Achei na Internet e baixei para meu computador um arquivo com mais de uma centena de músicas em formato MIDI intitulado "Hinos Antigos".  Dei uma busca procurando informações por direitos autorais, quem gravou, quem é (ou são) o instrumentista ou qualquer outra que fosse relevante e sinceramente não as encontrei (então, neste caso, vou me resguardar o direito de apenas comentar sem indicar o sítio de origem).
São todos arquivos de músicas instrumentais tocadas no que me parece ser um velho harmônio acompanhado apenas de um piano e, em alguns poucos casos mais um ou outro instrumento de percussão.  Não é difícil reconhecer o que está sendo executado – até porque eles estão nomeados com o número do hinário correspondente e o título.  Há hinos do amado Cantor Cristão e de sua releitura, o HCC (mas sei que eles são comuns a vários outros hinários evangélicos tradicionais).
Mas vamos ao que realmente interessa: o som que me delicio ouvindo.  Como não há letra ou canto – lógico! – as melodias se impõem por si só.  E para citar alguns, são hinos do quilate de Fonte És Tu de Toda Bênção (17 HCC); Mestre, o Mar se Revolta (408 HCC); Amigo Incomparável (81 CC); Rude Cruz (132 HCC); Servir Alegremente (420 CC); Jesus Pastor Amado (566 HCC), Meu Senhor Sou Teu (361 HCC) entre outros igualmente valorosos.
Alguns de tais hinos têm uma linha melódica simples, harmonia previsível e ritmo repetitivo enquanto outros apresentam soluções musicais bem mais ricas e elaboradas, mas com certeza todos são herdeiros de uma mesma tradição evangélica na qual gerações sucessivas de crentes foram doutrinados e louvaram de alma sincera diante do Senhor. 
Ouvi-los assim me traz a confortante certeza do sentimento de pertencer a tão significativa história.  Eles me dizem que eu não estou perdido ou largado na vida e no tempo, mas estou inserido em algo bem maior que eu mesmo e minha curta linha de vida: não sou efêmero!  Reconhecer estes acordes realmente faz bem a minha alma.
Antes prosseguir, contudo, não resisto em comentar algo teórico sobre o conceito e a importância de religião.  Como definição é o religare, aquilo que me liga a dá significado a minha existência.  Como conteúdo é o perfeito amálgama entre tradição e nova vitalidade onde ambos são igualmente indispensáveis.
Voltando aos velhos hinos, eles também são um impressionante testemunho de uma outra época e de uma outra agenda teológica da qual nos referimos às vezes com certo ar de nostalgia ou de verdadeira saudade, mas com certeza que já não consta da maioria de nossas canções modernas (não que eu seja contra estas últimas, pelo contrário, acho que há ainda hoje contribuições que só enriquecem nossa hinódia).
É certo que cantamos o que cremos (pelo menos deveria ser assim); bem como o inverso é verdadeiro: somos levados a crer naquilo que cantamos.  E se pouco cantamos hoje que no serviço do meu Rei eu sou feliz talvez seja porque isto já não esteja entre nossas prioridades cristãs.
Mas continuo ouvindo num moderno computador ressoar a melodia antiga que já faz parte de minha própria história de fé e nem preciso que a letra esteja ali para que eu me sinta familiarmente em espírito de adoração: Canta minha alma, canta ao Senhor, rende-lhe sempre ardente louvor.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ANTES DO BURBURINHO


Como de costume, hoje eu acordei antes do burburinho da cidade.  Em especial hoje quem me tirou da cama foi o despertador, mas não vejo isso como um problema, pois temos uma cumplicidade amigável.  Muitas vezes eu o antecipo e quando ele rompe o silêncio do resto de madrugada eu já estou me aprontando para a primeira tarefa do dia.
Antes dos compromissos da agenda profissional; antes da rotina do filho na escola; antes mesmo do quebra-jejum matinal; eu me reservo a um hábito que procuro manter com religiosa sacralidade, pois sei que o Inefável sempre desce para tabernacular pessoalmente comigo nas primeiras horas do dia – e como eu gosto disso e me faz bem!
No fundo de minha casa mantenho armada uma rede onde posso me reclinar nestes momentos preciosos.  Não gosto de me balançar com vigor (em geral me dá tontura), mas o suave marear, embalado pela brisa da manhã, ajuda a me sentir aconchegado em divinos braços paternos.  São momentos como este em que não há palavras nem liturgias, mas a alma é curada.
Entre o concreto que já cerca e abafa a casa onde moro, deitado na rede, ainda posso vislumbrar um pedaço precioso do firmamento.  E nesta manhã o céu está quase intocável, resta apenas um tênue floco de nuvem que mais parece um resto de algodão que foi lavado pelo vento à espera de que alguém o colha.  Cores não são o meu forte – nunca foi – mas o azul da manhã me parece de uma profundidade cativante.  E me sinto convidado e envolvido pelo resto de infinito que me inunda os olhos.
Agora, nada se compara ao canto dos pássaros.  Sou realmente agraciado com uma profusão de inúmeras e diferentes melodias que estes fantásticos cantores entoam toda manhã.  Sei que eles não o fazem para mim em especial.  Eles louvam o Criador.  Mas, como não me sentir celebrante da vida por poder desfrutar de tão esfuziante sinfonia!  Não existe ouro que valha estes minutos!
Então as palavras de Cristo são sussurradas ao meu ouvido: observem as aves do céu.  O Pai celestial as alimenta.  Agora elas são mais que tradição e letra morta; elas estão repletas de significado e atualidade e me dou o direito de simplesmente respirar fundo (antes que a poluição do dia torne isto impraticável) e deixo escapar uma exclamação sincera: Louvado seja teu nome, amado Senhor!
É porque o dia começou em tão sagrada presença que o stress das outras horas, a loucura do trânsito cada vez mais caótico, a correria da agenda insistentemente lotada, as intermináveis filas e contas para pagar, a futilidade das vitrines multicoloridas, a impaciência da convivência urbana impessoal, tudo isso se mostra miraculosamente transformado em apenas um tempo de espera para o próximo encontro pessoal com Cristo amanhã de manhã.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

UM RICO INSENSATO


Em uma certa ocasião um homem no meio da multidão pediu para Jesus arbitrar uma questão de herança entre ele e seu irmão.  De pronto o Senhor respondeu que não tinha sido para isso que desenvolvera sua missão, e completou com a seguinte recomendação:
Tenham cuidado e fiquem cabreiros com toda e qualquer avareza ou somiticaria; pois a vida do homem não se resume à quantidade de coisas que se ajunta (mesmo que se coloque um adesivo no vidro do carro dizendo que foi Deus quem deu!).
Antes de prosseguir a narração de Lucas (estou acompanhando Lc 12:13-21), deixe-me atinar para o fato que o relacionamento doentio do ser humano com o dinheiro, as riquezas e afins ocupou uma parte considerável do ministério e das pregações de Jesus Cristo.
Voltemos à narrativa do Evangelho.
No mesmo contexto da advertência quanto à ganância, o Mestre propôs a seguinte parábola (que aqui me dou a liberdade de recontar, como já venho fazendo com o texto em si).
A terra de certo homem rico produziu muito.  As commodities do agro-negócio lhe foram bastante favoráveis, e isso aliada a uma taxa de produtividade significativa, o que fez com que os recordes de sua safra rendessem lucros exorbitantes e consideráveis.  Aquele homem julgou então ter chegado o momento de rever suas estratégias e métodos: prosperidade e celeiros cheios exigiam depósitos maiores e tendas mais largas.  A segurança financeira possibilitava tomar posse de alguns confortos.
Então o rico e próspero homem tomou a seguinte resolução: agora tenho o direito de fazer o capital trabalhar para mim.  Viver apenas da renda já me é possível; pois, agora que estou na posição de cabeça, posso deixar àqueles que restam na cauda trabalharem para mim.
Neste ponto da parábola Jesus propositadamente dá um corte radical na sequência da narração, inserindo uma sentença divina que soa como um mistura de advertência e condenação:
— Homem!  Larga de tolice!  Essa noite você vai seguir o destino de todos os homens!  E tudo o que você juntou, vai ficar para quem?
E por fim, o próprio Mestre é quem oferece a aplicação da parábola: é isso o que acontece com aqueles que acumulam e guardam para si riquezas e propriedades, mas não conseguem ser ricos para com Deus.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

BARTIMEU, A MULTIDÃO E JESUS


Os três Evangelhos sinóticos contam que, na porta de entrada da cidade de Jericó, o cortejo que acompanhava Jesus encontrou um homem cego mendigando à beira do caminho (confira em Mt 20:29-34; Mc 10:46-52; Lc 18:35-43). 
Nenhum detalhe da narração ou das circunstâncias parece estranho ou absurdo.  Mendicantes ao longo das vias eram comuns na empobrecida Judeia do século I.  As multidões acompanharam Jesus com relativa frequência pelos mais diversos motivos.  E também é verdade que Jesus desenvolveu seu ministério de forma itinerante.  Mas olhando de per si os três personagens, quero destacar como cada um lidou com a situação e de que modo ainda hoje cada um de nós também o faz.
O primeiro personagem é o cego mendicante.  Marcos o chama de Bartimeu.  Segundo a narrativa dos evangelistas, o cego ao perceber a multidão, se inteirou do que se tratava; e ao saber que era Jesus, o Nazareno, se pôs a chamá-lo com veemência: "Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!" Por saber da sua situação e por crer que estava diante dele a única possibilidade de restauração, o cego clamou. 
Ao longo do caminhar da história, por vezes sou também levado à mendigar por migalhas de vida.  Mesmo não me faltando a subsistência material, o vazio e a carência existencial insistem em me colocar à margem.  Em tal situação é preciso aprender com Bartimeu e ter convicção e fé que somente Jesus pode mudar a minha história.  Então eu devo clamar também com veemência.
Como segundo personagem sou apresentado à multidão.  Os Evangelhos contam que eles estavam convivendo com Jesus há algum tempo e já tinham experimentado do seu poder e de suas maravilhas.  Mas agora estavam diante da concorrência do cego.  Aqui a multidão mostrou não ter ainda compreendido corretamente as lições do Mestre: com o desejo de possuir a exclusividade do Messias, eles foram incapazes de demonstrar amor e cuidado para com o próximo.
Vivendo com Cristo, tenho também sido agraciado com as bênçãos dele.  Mas é preciso confessar que ainda sou tentado por um ciúme doentio para com as coisas sagradas.  Nestes momentos é preciso deixar de lado a multidão e aprender a compartilhar a minha fé e atrair pessoas para o convívio evangélico.
Então aparece o próprio Jesus, o terceiro e principal personagem da história.  Ele apenas mandou chamar o cego e lhe perguntou o que queria.  Jesus conseguiu ouvir a voz de Bartimeu no meio da multidão e demonstrou real interesse pela sua situação: "Que queres que eu te faça?"  Sendo Filho de Deus e detentor de todo o poder, Jesus se dispôs a ajudar em qualquer que fosse o problema. 
Nunca foi a quantidade da multidão que atraiu Jesus, mas a voz dos indivíduos que clamam.  Ainda hoje, Jesus continua mais interessado em pessoas que em números ou estatísticas.  Por isso ele continua a ouvir qualquer filete de oração que eu lhe dirija.  Por outro lado, como tal poder e disposição ainda hoje estão ao meu alcance, pois o Cristo ainda tem amor e cuidado para com todos, então posso ter certeza que ele se apresenta para mim como meu ajudador.
Que deste encontro com o Mestre, meus olhos sejam abertos para a glória dele.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Salmos 24 e 96 - uma leitura


Vários salmos bíblicos expressam a alegria e o reconhecimento pelo poder real que podemos experimentar em nosso ato de adoração ao Senhor, e sem dúvida, eles podem representar o espírito exaltado e a alegria incontida de Davi naquele dia quando ele liderou o povo na entronização da arca em Jerusalém.
Quem é este rei da glória?
O SENHOR dos Exércitos;
ele é o Rei da glória.
(Sl 24:10)
Dêem ao SENHOR
a glória devida ao seu nome,
e entrem nos seus átrios
trazendo ofertas.
Adorem o SENHOR
no esplendor da sua santidade;
tremam diante dele todos os
habitantes da terra.
(Sl 96:8-9)
Mas há um Salmo de gratidão de Davi que o livro das Crônicas registra como tendo sido entoado exatamente quando a Arca chegou a Jerusalém (1Cr 16:8-36).  Neste salmo pelos menos dois aspectos nos sobressaem aos olhos:
(a) Em toda a estrutura do salmo, verbos no imperativo dão o tom da composição: dêem graças...  divulguem...  cantem...  gloriem-se...  olhem...  rendam graças...  adorem...  sendo inclusive repetidos ao longo do texto.  Isto nos aponta para a necessidade de mover nossa vida e adoração sempre em busca de cumprir o imperativo de reconhecer e louvar o Senhor com alegria e celebração pelo que Ele é e pelo que Ele tem feito em nossas vidas.
(b) Também percorrendo a composição do salmo encontramos o reconhecimento de que o louvor só cabe ao Senhor e que diante dele sempre haverá a necessidade de se expressar uma alegria infinita e um temor reverente:
Pois o SENHOR é grande
e muitíssimo digno de louvor;
Ele deve ser mais temido
que todos os deuses.
(1Cr 16:25)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

PORQUE EU ERRO


Durante a vida e o ministério de Jesus aqui nesta terra, ele por várias vezes teve de disputar com adversários que com insistência tentavam apanhá-lo em falhas e contradições – mas considere que sempre saiu vitorioso! 
Em meio a tais disputas, os debatedores usam de artifícios variados: insinuações, acusação direta, ironia, leitura bíblica forçada, casuísmos, entre outros.  Numa delas, os saduceus, grupo político-religioso ligado ao staff do templo em Jerusalém, questionaram sobre um possível casamento a se realizar depois da morte. 
Observe que, como resposta, Jesus apenas desfez o argumento dos seus adversários mostrando-lhes seu erro fundamental: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus" (o debate está em Mt 22:23-33 e a citação é do verso 29).
Assim, tomando como base esta afirmação do Mestre, quero esclarecer quais os motivos que me levam a errar em minha vida e caminhada cristã. 
Em primeiro lugar eu erro quando não conheço as Escrituras.  O conhecido Sl 119:11 diz: "Escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra ti" e em Ap 10:9 o apóstolo recebe a instrução: "Toma-o, e come-o".  Para que eu não erre é preciso que estude, obedeça e ame a Palavra de Deus.  É necessário que tenha na boca e no coração as palavras desta Lei, que medite nelas de dia e de noite, que aprenda a viver segundo as suas instruções.  Sem a Bíblia o crente fraqueja e tropeça.  Somente baseado neste Livro poderei me fortalecer e seguir em frente afastando o erro da minha trajetória.
Um segundo aspecto que causa o erro em minha vida é quando eu desconheço o poder de Deus.  Ao final de sua trajetória, Jó exclamou: "Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido" (confira Jó 42:2) e a Marta Jesus afirmou que "se creres, verás a glória de Deus" (em Jo 11:40).  Sozinho nada posso fazer e por isto mesmo só me manterei com servo leal a Cristo se depositar toda a minha confiança do poder absoluto do Senhor.  O crente só se mantém firme quando conhece em sua própria vida o poder de Deus.  É na convivência e na experimentação deste poder na vida cotidiana que poderei seguir os passos do Senhor sem tropeços nem erros.
Que as palavras de Jesus aos saduceus possam me servir de alerta a nunca errar em minha caminhada cristã.  Que possa sempre acertar, conhecendo a cada dia a Palavra de Deus e o seu poder.  

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PRA QUE DEUS FEZ O CAJU?


O caju está muito ligado a mim e a minha história, não somente pela minha cidade natal – e até mesmo por ela – Aracaju, o lugar das araras no cajueiro, mas também porque me lembro bem de haver grandes áreas urbanas ainda abertas com cajueiros – isso era nos idos da infância, já que vários deles nem existem mais.
Mas olhe bem: o caju é uma coisa curiosa.  Nem para ser chamado de fruto serve, pois a semente e o poder de reprodução está na castanha e não no caju mesmo.  Então, considerando isso, a seguinte questão me vem à mente: pra que Deus fez o caju? Com que serventia? Que finalidade ele pretendia?
Sei que biólogos e botânicos discorrerão sobre as qualidades nutricionais do caju, ou sobre seu papel no ecossistema da mata atlântica, ou ainda algo que o valha.  Sinceramente eu penso que estas são razões secundárias.  Os motivos principais de Deus ter feito o caju são outros.
Quando Deus me criou, ele me dotou de cinco sentidos extremamente sofisticados e nisto eu acho que está a resposta sobre o para que o Criador ter feito o caju: pelo menos três dos meus sentidos Deus acalenta com o caju.
No final do terceiro dia da criação Deus olhou satisfeito a vegetação que ele havia acabado de criar com suas sementes, flores e frutos (leia lá em Gn 1:11-13).  Assim, para compartilhar a alegria de ver o colorido exuberante da criação, Deus fez para mim o caju.
Preste atenção no vermelho ou amarelo vibrante de um caju maduro.  Deus o fez para trazer alegria aos meus olhos.  Na beleza do colorido do caju, o Senhor tanto acaricia minha visão quanto me mostra de um jeito explícito seu cuidado e amor para comigo.
Há um segundo sentido.  O texto bíblico diz que o Senhor aspirou satisfeito o cheiro da oferta de Noé (em Gn 8:21).  Neste detalhe penso que está um segundo motivo para o caju.  Deus fez o caju para que eu também tivesse o privilégio de desfrutar da satisfação do cheiro suave.
É verdade que há entre as frutas algumas com um cheiro mais forte e marcante, mas poucas são tão suavemente peculiares como o caju.  Com certeza Deus fez assim para a satisfação do meu olfato.  O cheiro doce e tropical do caju foi colocado ali por Deus para que meu nariz se sentisse cheio e regalado e pudesse com isso me atinar para que do mesmo jeito eu devo estar cheio do Espírito que sopra.
O terceiro sentido com o qual Deus me dotou e que é por demais interessante quando se trata de caju é o paladar.  Note que neste caso é puramente humano o deleite da degustação (já atentou para o Sl 50:10-13?).  Pois é: Deus fez o caju exclusivamente para que eu possa encher minha boca de sua gostosura.
O caju é um simples mimo do Senhor para mim.  Em nada o Criador precisaria do cajueiro, das castanhas, e muito menos do caju, mas ele teve tanta atenção e carinho por mim que resolveu fazer o caju.  O sabor único do caju é uma dádiva de amor e afeição gratuitos de Deus.
Sabe pra que Deus fez o caju?  Tenha certeza: ele fez o caju com cores, cheiro e sabor para que eu o desfrute.  Então, da próxima vez que você tiver a fantástica oportunidade de ter um caju em suas mãos, desfrute do presente de Deus, delicie-se com ele e principalmente louve o Senhor Criador por ter tanto carinho e cuidado com você.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Parábola das coisas – um chinelo


Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento bíblico sabe que um dos métodos mais usados por Jesus para ensinar e repassar suas lições aos discípulos e ouvintes em geral era através de parábolas.  E como ele fez isso com maestria!
Em resumo, a parábola nada mais é que uma pequena narração que apresenta uma lição significativa – no caso de Jesus, de cunho moral e espiritual – cuja interpretação está no todo e não nas partes individualmente e que por se relacionar com aspectos comuns e cotidianos dos seus ouvintes podiam ser entendidos e assimilados com muito mais propriedade.
Este parágrafo anterior talvez possa parecer muito técnico para descrever o jeito simples do Mestre falar.  Se este for o caso, me permita tentar usar do mesmo método – contar uma parábola – para tanto demonstrar o que isso quer dizer como apontar uma lição a partir de alguma coisa bem presente no nosso dia-a-dia: um chinelo!  Não sei como você está acostumado a usar, mas aqui no Nordeste o nome é este mesmo: sim, um chinelo!  Desses que você tem em casa e usa quando chega e quer calçar algo que é seu e lhe deixa à vontade.
Um chinelo é isso: você sempre reconhece o seu e para usá-lo não é preciso de cerimônias.  Está certo que existem hoje em dia uma variedade enorme de chinelos e sandálias e que alguns são rebuscados e chiques.  Mas o chinelo de verdade é aquele que lhe provoca a sensação gostosa de familiaridade, intimidade, de estar em casa.
Já pensou que seguir a Cristo também tem que ser assim: como um chinelo.  A vida cristã é para ser uma experiência vivida como algo tão íntimo e pessoal como um chinelo: familiar e bem à vontade!
Como tem sido sua vida cristã?  Como sapados apertados ou como bons chinelos?  Como você tem se sentido em sua caminhada cristã?  Peça a Deus para andar calçado assim.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A DEFESA DE PAULO


Sempre gostei muito do apóstolo Paulo e procurei me espelhar na vida dele.  As suas experiências de vida foram ricas e valorosas para mim em todos os sentidos.  Um destes episódios interessantes está narrado em At 21 e 22 quando de sua chegada a Jerusalém.  Diante do alvoroço que ocorreu na cidade, Paulo fez uma reflexão sobre a sua história pessoal para com isto apresentar sua defesa.  E de tal reflexão quero extrair lições espirituais valiosas.  Acompanhe comigo alguns destaques:
No verso 22:7 Paulo diz que caiu por terra ao ouvir a voz do Senhor.  Ele estava perseguindo a Igreja por julgar fazer a vontade de Deus.  Jesus então reconheceu a sua intenção e veio ao seu encontro.  Ao se encontrar com o Deus verdadeiro a quem desejava seguir, Paulo caiu por terra.    Tomado pelo encontro, o judeu zeloso se viu caído – ruíram-se todas as suas defesas e ele se deixou envolver pela presença que o estava tomando.
Sei que o encontro pessoal com Cristo é maravilhoso e pode nos levar ao êxtase, algumas vezes nos derruba ou fazem desabar nossas certezas e convicções.  Mas o certo é que sempre diante de Cristo sou alcançado para corrigir minha rota e desafiado a me colocar bem onde Deus me quer.
A partir do chão Paulo podia começar a experimentar a grande novidade – o evangelho – e isso deveria ser mais que um corpo de doutrina, ou a defesa de uma verdade; mais que intenções ou atitudes religiosas e moralmente corretas.  Assim, aparentemente caído e sucumbido ante a grandeza da realidade do encontro, Paulo teve a sua vida radical e profundamente tocada e transformada, seus valores e convicções retocados e suas prioridades e objetivos refeitos.
O que Paulo estava vivenciando era simplesmente um encontro pessoal com Cristo, não uma conversão como resultado de um convencimento intelectual ou moral.  E isto o estava completando – preenchendo o seu ser. 
Agora observe a primeira instrução que Paulo recebeu: "Levante-se..." (no verso 10).  Provavelmente Paulo poderia estar ainda confuso sobre a nova experiência e sobre como se portar diante dela – todo cristão de verdade já se sentiu assim um dia.  É como se Jesus tivesse dito a Paulo: é bom estar em minha presença, mas ainda há muito que eu quero fazer através de sua vida, portanto se levante a vamos procurar o que fazer... 
Com certeza são palavras como estas que Deus fala em nossos momentos de profunda experiência espiritual: levante e vá ao trabalho!  Foi assim com os discípulos no monte da transfiguração (leia em Mt 17:1-7).  Também aconteceu com o profeta Isaías (confira em Is 6:8). E ainda foi o caso de Moisés em Horebe (narrado em Êx 3:16)
Que desta experiência do apóstolo Paulo, eu possa aprender todo dia como é bom ter encontros com Cristo e que destes encontros possa tirar forças para trabalhar sempre mais.  Para a glória dele.
(Na foto lá em cima, a reconstituição facial de Paulo feita pelos especialistas do LKA Renânia do Norte-Vestfalia - Alemanha - fonte: wikipedia.org)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Salmo 2 - uma leitura


Já sabemos que Davi foi considerado como o rei-modelo em Israel e alguns salmos o tomam por referência exatamente desta forma.  Entre eles vamos destacar aqui o Sl 2, certamente ele aponta a Davi como o rei idealizado por Deus.
O Salmo começa citando a revolta e a tomada de posição de outros reis adversários contra o ungido do Senhor.  Quando os inimigos se levantam contra o escolhido de Deus, Ele pessoalmente se apresenta para defendê-lo:
“Eu mesmo estabelecerei o meu rei
em Sião, no meu santo monte”.
(Sl 2:6)
Este salmo é uma declaração de amor e benevolência do Senhor para como o seu servo:
Pede-me, e te darei as nações
como herança
e os confins da terra como tua
propriedade.
(Sl 2:8)
Diante desta promessa, o salmista não tem dúvida alguma em proclamar:
Adorem o SENHOR com temor;
exultem com tremor.
(Sl 2:11)
Somente mais um detalhe a se observar em relação ao Sl 2: as palavras do verso 7 foram quase que literalmente citadas pelo Espírito Santo ao ratificar o batismo de Jesus (compare Mt 3:17; Mc 1:11 e Lc 3:22).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A ÚLTIMA CEIA


Em três versículos, Lucas introduz o tema da celebração da última Ceia entre Jesus e os seus discípulos (toda a narrativa da última Ceia está em Lc 22:7-23 e os versos em destaque são do 14 a 16).  Nestes versos o evangelista parece captar algumas lições preciosas daquilo que o Mestre estava realizando com o seu círculo mais próximo.
Eu lhe convido então a ler comigo estes três versículos para buscar entender porque eu gosto tanto desta celebração na vida cristã.
No verso 14 eu leio: "quando chegou a hora, Jesus e os seus apóstolos reclinaram-se à mesa".  Comer e beber desta Ceia foi a celebração de um momento de intimidade entre Jesus e seus seguidores.  Estavam todos ali reclinados à mesa desfrutando da companhia uns dos outros e da maravilhosa presença do Mestre.  Ninguém deve cear sozinho e naquele salão mobiliado eles celebravam o fato de estarem juntos.
Expandindo esta ideia, observo também a mesa como significando estarem todos compartilhando de uma singular igualdade.  Mesmo que a imagem que você forme em sua mente daquele episódio seja a pintura de Leonardo da Vinci (penso que não tinha toda aquela pompa), você vai concordar comigo: ao se reclinarem juntos, os discípulos assumiam que entre eles não havia hierarquia formal.
A partir do verso 15 Jesus começou a falar: "Desejei ansiosamente comer esta Páscoa com vocês antes de sofrer".  É como se Jesus estivesse dizendo que estava completamente tomado pelo desejo de que esta Páscoa fosse comida entre eles.  A vontade soberana de Deus era partilhar daquela passagem com seu povo.
Em outras palavras, entendo como se Jesus nos estivesse dizendo claramente que a celebração de sua Paixão – aqui antecipada na Ceia – era parte do seu desejo especial.  Alguma coisa moveu o Senhor a deixar sua glória eterna e vir me resgatar, e isto foi seu desejo desde sempre.  E nas palavras daquela celebração me sinto tocado pela transpiração da paixão divina.
E no verso 16 Jesus completou: "... não comerei dela novamente até que se cumpra no Reino de Deus".  Com isto Cristo dá a entender que aquilo que eles estavam celebrando era apenas o provisório, enquanto se aguarda o definitivo que haverá de se manifestar: o Reino de Deus.  Nos elementos ali presentes estava a declaração de fé e certeza do estabelecimento do reino e domínio eterno.
O Mestre instruiu a celebrar o passado como quem anuncia o futuro.  Não como saudade ou nostalgia vazia, mas como quem, com ousadia, anuncia a antecipação da superprodução – o trailer de um verdadeiro blockbuster, para usar a moderna linguagem cinematográfica – que tem o próprio Cristo como produtor, realizador e personagem principal e do qual também faremos parte.
Assim Jesus Cristo celebrou com os seus discípulos, logo antes de completar a sua missão, em comunidade, desejando que seu gesto fosse repetido pela igreja, celebrando-o e anunciando-o. Assim, verdadeiramente gosto e me realizo quando o faço em minha comunidade de fé.  Celebremo-lo desta forma.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Salmo 59 - uma leitura


Vários salmos na Bíblia são classificados como Salmos de imprecação: ou seja, são poemas em que se pede que o Senhor livre da perseguição, dê proteção, mate e vingue o inimigo.  Em destaque, analisemos o Sl 59 que se enquadra nesta classificação e em cujo título lemos:
Para o mestre de música.  De acordo com a melodia Não Destruas.  Poema davídico, quando Saul enviou homens para vigiarem a casa de Davi a fim de matá-lo.
Outros salmos como 18, 52, 54 e 57 também apresentam títulos semelhantes e em todos eles o salmista é sincero diante de Deus pedindo não somente que o livre de seus inimigos, mas que os destrua completamente:
Consome-os em tua ira,
Consome-os até que não mais
existam.
(Sl 59:13)
A essência porém que emana do salmo é que embora exista um espírito de vingança no íntimo do salmista – e ele é sincero em confessar, atitude que apreciável por Deus – o que sobressai é a confiança inabalável de que somente o Senhor é quem pode trazer vitória e livramento:
O meu Deus fiel
virá ao meu encontro
E permitirá que eu triunfe
sobre os meus inimigos.
(Sl 59:10)
Também se deve destacar que o espírito de salmista, sempre e em qualquer situação, é de louvor ao Senhor:
Ó minha força, canto louvores a ti;
Tu és, ó Deus, o meu alto refúgio,
o Deus que me ama.
(Sl 59:17)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A EXCLUSIVIDADE DIVINA


Às vezes é bom rever alguns conceitos e reflexões.  Trazendo-os novamente à memória não somente realimentamos nossa alma com verdades que podem ter ficado esquecidas no emaranhado da vida, como também podemos extrair novas lições de velhos conceitos.   Assim quero trazer hoje aqui uma reflexão que escrevi para a capa do boletim de nossa então congregação em agosto de 2004.  Ela foi baseada em Is 43:1-13.  Eis a palavra pastoral:

O texto profético parece uma declaração apaixonada que o Senhor dá sobre Ele mesmo e sobre o seu povo.  Vejamos os destaques:
No verso 11 Deus diz: “Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador”.  Aqui temos a afirmação da absoluta exclusividade de nosso Senhor.  Sempre é proveitoso reafirmar que o nosso Deus é único e não divide sua glória com ninguém.  Toda a Bíblia clama pela singularidade de Deus.  Só há adoração e culto quando há o reconhecimento de que nosso Deus – com o seu Filho e o Santo Espírito – é único.
Desta compreensão da exclusividade divina advém então a observação de nosso papel como seres humanos dentre a obra criada.  É o próprio Deus quem afirma que estamos entre os que “criei para minha glória, e que formei, e fiz” (verso sete). Em primeiro lugar, não resta dúvida que somos apenas criação de Deus e tudo o que somos deve estar subordinado a esta certeza.  Mas o texto é claro quando aponta o objetivo da criação: fomos criados para a exclusiva glória de Deus, e, debaixo desta ordenação, todos os planos humanos devem sucumbir.  Fomos criados e existimos somente para a glorificação de Deus!
Não nos esqueçamos que tudo o que somos só terá alcançado os verdadeiros propósitos se forem para a glória de Deus.  Aleluia!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Salmo 20 - uma leitura


O Sl 20 é um canto de vitória.  Embora ele comece com uma súplica no tempo da angústia (Sl 20:1), a partir do verso 6, Davi expressa toda a sua convicção de que o Senhor dará vitória ao seu ungido.  A certeza de que dos céus o Senhor responde às orações com poder salvador dava tranquilidade para que ele enfrentasse todo e qualquer embate que lhe viesse sem temer.  Por isso este é um salmo de vitória.  Quando sabemos que o Deus em quem depositamos confiança concede vitórias então nos erguemos e estamos firmes (Sl 20:8).
Deve ter sido a esta confiança que Davi recorreu quando se dispôs a enfrentar o gigante Golias.  Compare as palavras do Salmo com as do próprio Davi como resposta dada aos insultos do filisteu e veja que somente alguém que é capaz de depositar fé no Senhor dos Exércitos, o Deus vivo de Israel, pode assim declarar:
Alguns confiam em carros e
outros em cavalos,
mas nós confiamos
no nome do SENHOR, o nosso Deus.
(Sl 20:7)
E o salmo faz ecoar o canto de louvor e alegria pela vitória que somente o Senhor pode conceder:
Saudaremos a tua vitória com
gritos de alegria
e ergueremos as nossas bandeiras
em nome do nosso Deus.
(Sl 20:5)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

TRANSFORMADOS.COM


As crianças de nossa Igreja estiveram envolvidas no projeto Transformados.com na Escola Bíblica.  O tema é por demais sugestivo, principalmente se pensarmos nelas, nas crianças, e no mundo em que elas estão vivendo.  Preste atenção:
PlayStation, mp3, TV a cabo, Internet, wireless, wii, iPad, MSN, celular, netbook, Xbox, iPhone, facebook, 3DS, you tube, pen drive, iPod, WiFi, tablets, twitter, chip, GPS.  Estes e outros gadgets estão no cotidiano real ou virtual de nossas crianças como parte de suas próprias existências (e se você, como eu, nem sabe direito o que é e para que serve vários destes gadgets, posso lhe garantir que a maioria é apenas quinquilharias eletrônicas).
Assim, somos todos, de certo modo, arrastados neste mundo em constante transformação e ebulição onde as tecnologias se sucedem com velocidades desconcertantes; os relacionamentos e as redes sociais (bem como as formações e informações) virtuais superam os palpáveis; o possuir e o controlar são recomendáveis; e tudo é muito fluído, rápido, efêmero e provisório.
Por extensão nossos valores, critérios, moralidade e verdades mais substanciais têm acabado ganhando as mesmas configurações.  Penso que se o apóstolo Paulo estivesse diante desse nosso mundo como esteve da Atenas pós-clássica nos acusaria igualmente de tentar encontrar Deus tateando as coisas que nós mesmos fazemos (a expressão é de At 17:27, mas leia todo o discurso entre os versos 22 e 31).
E então, frente a esta nova geração que hoje apenas brinca em sua infância, mas que logo estará assumindo seus destinos, corremos o risco de nos tornarmos irrelevantes (ao contrário da instrução paulina em Fl 2:15-16).
Diante disso tudo, a solução ainda é bíblica.  Aos Romanos Paulo enfatizou a não haver aceitação, acomodação ou conformação com o padrão do mundo que rodeia a igreja (a citação é de Rm 12:2 e isso valia tanto para o século primeiro como para o nosso hoje).  Não que as quinquilharias sejam em si problemas, mas os valores que os cercam são um desafio real e evangélico à nossa vida e modelo cristãos.
Em Cristo só nos resta o compromisso constante de assumir a verdadeira transformação.  E com certeza Paulo não estava falando de inconstâncias, mas de uma transformação radical (porque chega à raiz da vida), básica (porque leva em consideração a base sólida da fé) e essencial (porque vai além do formato implicando no conteúdo).
No meio desta geração ponto-com, que possamos ser verdadeiramente transformados.com Deus e em Cristo para poder experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.