sexta-feira, 31 de março de 2017

PELAS SUAS FERIDAS

Devemos sempre trazer em nossa memória o texto profético de Isaías 53 que apresenta com maestria o tema do Servo Sofredor.  Não apenas por curiosidade ou referência teórica.  Mas por que provavelmente não exista em todo o AT um outro texto tão magnífico e cheio de poesia sobre a dor e o sofrimento do Ungido de Deus e de como, do sofrimento dele, o Senhor pôde produzir salvação e bênçãos para o seu povo.
Gosto de tomar como centro da profecia o verso cinco.  E aqui vai me chamar à atenção o final deste: ... e pelas suas feridas fomos curados.  Um bom resumo para o que é estampado pelo profeta.  Convido, pois, a se aprofundar um pouco mais na sentença para perceber o quanto o Senhor tem a nos dizer e prometer nestas palavras.
Acompanhando a interpretação que Pedro faz da profecia, sei que Isaías se refere a Jesus na cruz (confira em 1Pe 2:24).  O Servo Sofredor é Cristo no madeiro.  Ou seja, foi na cruz que se cumpriram os versos desta profecia; lá no seu sacrifício, Cristo Jesus tomou sobre si as minhas enfermidades (leia o verso quatro).  Estou entendendo que Deus não somente tomou conhecimento que meu corpo, por causa do pecado, está doente e sofre com dores físicas; Deus levou – carregou – sobre si, como resultado de castigo, as doenças que me afligem a carne.  Certamente minhas moléstias estiveram cravadas no madeiro maldito.
E o maravilhoso verso cinco completa que não somente sobre seu corpo estava minha dor, mas efetivamente no seu sacrifício houve cura para meus males: fomos curados!  Sabe o que isso realmente significa?  Todas as doenças, grandes ou pequenas, graves ou agudas que possam me afligir já foram alcançadas pelo poder que provém da cruz.
Mas me acompanhe mais um pouco.  Se é verdade que minhas dores já estão cravadas na cruz, então porque ainda doi tanto?  Segundo a Bíblia, posso reconhecer duas respostas que se completam.  Paulo aos Coríntios diz que a tribulação – dor – de agora é momentânea e eu devo passar por ela na certeza que está produzindo em mim uma glória eterna (veja 2Co 4:17).  Isto não é negar uma realidade incômoda, é pela fé viver a esperança, apesar das circunstâncias (confira também Rm 8:18).
Vivo hoje o provisório, e neste momento ainda estou sujeito ao corpo desta morte (palavras de Rm 7:24).  Porém a grande certeza e glória da profecia é que nenhuma de suas palavras deixa de se cumprir.  Aí eu devo apontar minha leitura a Revelação final.  João ouviu lá da eternidade uma voz forte que exclamou: Ele enxugará de seus olhos toda lágrima (em Ap 21:4).  Isto são palavras bíblicas e, portanto verdadeiras (ainda Ap 22:6).
Cristo levou sobre si as minhas doenças, isto é promessa que começou a se cumprir no Calvário e para a glória de Deus poderei experimentar a cura completa e gloriosa quando chegar o grande dia, e disso eu não vou me esquecer jamais: pelas suas feridas fomos curados.  Aleluia!

(Extraído do sítio ibsolnascente.blogspot.com em 13/08/2010)

terça-feira, 28 de março de 2017

AS RELIGIÕES DE MISTÉRIO NA GRÉCIA ANTIGA

Na religião popular grega antiga os ritos de mistério eram frequentes.  Enquanto Asclépio curava, os ritos de mistério de Elêusis, que associava promessas religiosas a garantias na agricultura, ofereciam também a certeza de renascimento depois da morte. 
O culto eleusino estava ligado à deusa Demeter – deusa da agricultura – e à sua filha Perséfone.  Segundo a mitologia, Perséfone foi raptada por Hades.  Quando sua mãe sentiu sua falta ela saiu à sua procura.  Durante a viagem, Demeter foi recebida pelos habitantes de Elêusis, um sítio sagrado perto de Atenas.  Como gratidão a deusa lhes ensinou os ritos secretos dos deuses que garantiam aos mortais tanto a certeza de boas colheitas (a fertilidade da terra) quanto o retorno da vida após a morte (a periodicidade das estações). 
Convém destacar que este culto atendia às duas características básicas da religiosidade: em primeiro lugar respondia aos anseios da vida e sua preservação aquém e além da morte, contudo também rompia com os cultos nacionais que se reservavam às camadas mais abastadas da população abrindo-se para qualquer homem ou mulher que tivesse conhecimento dos ritos secretos (mistérios) revelados. 
Robert Coleman observa que nos cultos de mistério "homens e mulheres, cativos e livres" obtinham as benesses da divindade através de um ritual de iniciação, ou purificação (myēsis) que os qualificava para a admissão em um culto anteriormente confinado aos cidadãos".  E completa:
A abertura do santuário eleusino aos atenienses coincidiu com uma onda de reavivamento religioso, o qual (expandindo para o território semítico no século sexto a.C.) infundiu na mente dos homens a idéia de uma possibilidade definida de felicidade numa vida futura, condicionada a uma comunhão íntima com os deuses que era alcançada na oferta do sacrifício.  Purificação é a chave do culto de mistério; pela palavra mistério se entende um rito no qual muitas coisas sagradas são exibidas, as quais não podem ser obtidas pelo cultuante sem ele ter passado completamente pela purificação prescrita.
Sabemos muito pouco como aconteciam as liturgias nos cultos de mistério pois suas práticas só eram reveladas aos iniciados que juravam mantê-las em segredo, assim não é possível comparar prática a prática os mistérios gregos e o cristianismo. 
Contudo, como no primeiro século o cristianismo era difundido às escuras devido às constantes perseguições sofridas pelos adeptos do novo culto e por a pregação cristã afirmar a certeza da ressurreição em Cristo Jesus como a garantia da vitória sobre a morte (1Co 6:14 e 15:55-57), bem como o ingresso na comunidade se dar através do batismo (At 2:42 passim) o qual poderia ser interpretado como um ritual de purificação e salvação (1Pe 3:21), somos levados a entender que, na mentalidade sincretista popular grega, as duas práticas cultuais acabariam por trocar influências entre si.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Parábola das coisas – O PERFUME

Uma das primeiras lembranças que tenho da minha avó falando em público (e talvez, sinceramente, a única!) era baseada naquele texto que diz sermos para Deus o agradável cheiro de Cristo (o texto bíblico seria 2Co 2:15 – acho).  As lembranças não são muito ricas, mas não me esqueci do contexto geral nem de achar curioso minha avó dizendo:
— Deus gosta de lhe cheirar e achar cheiroso!
Por esses dias estava reavendo aquelas memórias e deixei as ideias vaguearem um pouco pelos conceitos que podem ser agregados ao cheiro – daí, perfume.  Mas, que coisa seria essa, o perfume?
Para começar, os antigos criaram a palavra a partir do hábito que tinham para se fazerem cheirosos.  Eles costumavam queimar essências aromáticas e deixar os ambientes e os corpos serem impregnados com a fumaça.  E então tudo ganhava o seu aroma, o perfume – per fumum – pela fumaça.
Ah! E antes que esqueça.  Tenho outra lembrança da infância relativa ao olfato: a minha mãe sempre manteve um jasmineiro em seu jardim – ainda hoje tem um lá.  É claro: o suave e gostoso cheiro do jasmim permanece aconchegante e me faz respirar fundo com a sensação de estar em casa.
Mas, voltando ao perfume, veja o que ele pode me evocar.  Certamente não vou me ater ao apelo comercial que algumas marcas estampam – deixe que os da mídia façam isso – nem ao luxo e exclusividade que algumas essências indicam – isso não me interessa.  Quero pensar um pouco no perfume como uma parábola daquilo que eu exalo, ou posso exalar, e como isso influencia as pessoas que estão ao meu redor.
Bem, vou tomar duas citações bíblicas para me servirem de guia nesta compreensão.  Entendo que sempre o texto sagrado é rico em ilustrações e indicações.  Sei que há outros vários textos, mas dois serão suficientes: um ruim é um bom.
O sábio escreveu que "assim como a mosca morta  produz mau cheiro e estraga o perfume, também um pouco de insensatez pesa mais que a sabedoria e a honra" (Ec 10:1 NVI).  Assim, o primeiro perfume que andam espalhando por aí é cheiro de mosca morta.  Algumas vezes é só uma gota, mas como tem gente por aí fedendo a estupidez neste mundo! O perfume já deteriorou e a impressão que passa é de uma vida carcomida pela falta de sabedoria e honra.
Deixemos o mau cheiro... Eu prefiro o cheiro do jasmim.
Um outro texto que gosto muito é o que narra a história de Noé, quando ele saiu da arca e edificou um altar ao Senhor.  Ali é dito que Senhor sentiu o aroma agradável da adoração do patriarca e resolver estabelecer uma aliança.  E o texto prossegue com a afirmação: "Deus abençoou Noé" (Gn 9:1 – a narração do altar de Noé está nos versículos finais no capítulo anterior). 
E eu imagino Deus respirando fundo e se satisfazendo com cheiro gostoso que vinha daquele ato de culto e abrindo um belo sorriso.  O bom cheiro subiu aos céus e moveu Deus.
Agora, voltando ao texto citado por minha avó, imagine o que acontece quando Deus sente em nós o bom perfume de Cristo!?


terça-feira, 21 de março de 2017

OBRAS DA CARNE

Escrevendo aos cristãos da Galácia, o apóstolo Paulo fez uma lista do que ele chamou de obras da carne (Gl 5:19-21).  Veja a seguir uma relação dos termos que o apóstolo empregou e o significado de cada um deles:

No mesmo capítulo há também uma relação das características do Fruto do EspíritoVeja o quadro aqui.

quinta-feira, 16 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – E nós?

Depois de ler em Apocalipse que: (1) são sempre os que temem a Deus quem louvam (leia aqui) e (2) somente Cristo é merecedor de adoração (leia aqui); devo fazer a pergunta: E quanto a nós hoje?


Da leitura de Apocalipse, algumas observações devem ser levadas à adoração e ao culto em nossa igreja hoje.  Em primeiro lugar que o louvor e a adoração nos ocuparão por toda a eternidade, pois em nenhum lugar há tanta ênfase nesta atitude como no livro da profecia do NT.
Porém os destaques que percorrem todo o livro devem ser também os destaques de nossas reuniões de culto e adoração.  Primeiramente que louvor verdadeiro é atribuição de crentes verdadeiros.  Deus conhece o seu povo e sabe que os redimidos é que entoam a verdadeira canção de adoração ao Senhor (leia Sl 149:5 e Sl 30:4).
Em meio a todo desenrolar da história, e se desdobrando na eternidade, os salvos são aqueles que sempre trazem uma palavra de reconhecimento pelo que o Cordeiro fez em suas vidas, e isso trará sempre um cântico novo em nossos lábios (veja o Sl 149:1).
Do livro de Apocalipse também devemos aprender que todo louvor e glória pertencem exclusivamente ao Senhor Deus e ao Cordeiro.  Embora música e arte estejam intimamente ligadas ao ato de adorar, estas não podem significar um fim em si mesmo. 
Também o louvor não deve ter como alvo a obra da redenção – ou a fé nela – as bênçãos de Deus ou qualquer outra manifestação do poder e majestade divina.  Como bem acontece na narração bíblica, qualquer um que buscar a glória e louvor para si estará sob a influencia da besta e de seu falso profeta.
É bom lembrar que Deus não divide a sua glória com ninguém.  Muito mais que a primazia na adoração, ele exige de nós a exclusividade na glorificação.  Exatamente isso é o que Deus diz através do profeta:
Eu sou o Senhor; este é o meu nome!
Não darei a outro a minha glória
nem a imagens o meu louvor.
(Is 42:8)
Finalmente a leitura do livro apocalíptico, ao nos apresentar a adoração como destino eterno do ser humano (é bom lembrar que fomos criados para glorificar ao Senhor como está dito em Is 43:7), a Bíblia apresenta também o direcionamento e conteúdo que um verdadeiro culto cristão precisa ter para que cumpra o seu papel: celebração (Ap 5:9-10 e Sl 100:1); anúncio da mensagem do evangelho (Ap 10:15 e Sl 9:11); chamado à comunhão dos santos (Ap 19:17 e Sl 133:1). 
Só então nossa adoração será um culto verdadeiro ao Senhor: lugar de encontro espiritual e real com o Criador, com o Senhor Soberano, com o amado de nossa alma (Ap 21:3 e Sl 84:10).


terça-feira, 14 de março de 2017

FRUTO DO ESPÍRITO – lista

Na sua carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo fez uma relação do que seriam as características do Fruto do Espírito (Gl 5:22-23).  No grego a palavra está no singular mesmo – καρπός – fruto.  Veja a seguir o quadro comparativo das palavras gregas presentes no texto, sua tradução e outras citações:

Em 2011 eu escrevi uma série de reflexões sobre os Frutos do Espírito quando os comparei a uma jaca.  Leia aqui:



sexta-feira, 10 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – 2ª parte

Já refleti sobre a adoração no livro de Apocalipse quando observei que são sempre os que temem a Deus quem louvam – esta foi a primeira verdade essencial (leia aqui).  Continuando a refleti, veja o que posso dizer sobre mais:

A segunda verdade essencial que flui de todo o livro de Apocalipse é que somente Cristo é merecedor de nossa adoração:
“Digno é o Cordeiro
que foi morto
de receber poder, riqueza,
sabedoria, força,
honra, glória e louvor!”
(Ap 5:12)

Embora a besta, apresentada como aquele que pretendia reinar em lugar do Cordeiro, tenha requerido para si a adoração (no capítulo 13 de Apocalipse é narrada esta pretensão – também na tentação de Jesus no deserto quando o diabo lhe pediu adoração em Mt 4:9); tal exigência não tem nenhum valor no desenrolar dos eventos, pois o texto também narra que a besta foi presa e vencida e que a ordem dada àquele que com Cristo venceu é que adore a Deus! (Ap 19:10).
No Apocalipse e na eternidade toda honra, glória e louvor só cabem àquele que venceu e, sendo as primícias entre os mortos, nos ama e por isso nos libertou dos nossos pecados (assim Cristo é apresentado em Ap 1:5).
No louvor expresso no Apocalipse vemos a essência de todos os elementos constitutivos do verdadeiro culto cristão: a celebração pela vitória do Cordeiro (Ap 5:9-10) juntamente com o seu anúncio (Ap 10:15) e um chamamento à reunião de celebração (Ap 19:17). 
Contudo o destaque principal é o encontro eterno do Cordeiro com a sua noiva, pois na eternidade o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá (Ap 21:3), encontro este que é a essência do culto cristão pois representa a presença de Cristo no meio da igreja que cultua e adora.

terça-feira, 7 de março de 2017

SALMO 23 – 1828

         O Senhor he quem me conduz: nada me poderá faltar:
         Elle me poz n’um lugar abundante de pastagens.  Elle me educou ao pé de huma água que fortifica:
         Elle converteo a minha alma.  Elle me conduz pelas veredas da justiça, para glória do seu nome.
         Porque ainda que em ande no meio da sombra da morte, eu não temerei mal algum, porque tu estás comigo.  A tua vara e o teu báculo forão a minha consolação.
         Tu preparaste huma meza diante de mim contra aquelles que me attribulão.
         Tu ungiste d’óleo a minha cabeça.  Que admirável he o meu calis, que tem virtude de embriagar!
         Assim que a tua misericórdia me seguirá todos os dias da minha vida, para que eu habite por longuíssimo tempo na casa do Senhor.

(A Santa Bíblia: Contendo o Velho e o Novo Testamento traduzidos em portuguez segundo a Vulgata pelo Padre Antonio Pereira de Figueiredo.  Londres : 1828)

sexta-feira, 3 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – 1ª parte

Sempre repito que, comparando Apocalipse a outros livros do NT, posso ver claramente que nenhum livro traz tantos registros de adoração e louvor como o livro da Revelação: são refrões dos cânticos e afirmações quanto à adoração. 
Sei que ele é um livro de visões e relata a vitória final de Cristo, mas, acima de tudo seu assunto é a glorificação de Cristo: este é o tema central da profecia – aqui é a razão de tanta expressão de louvor e adoração.
Na leitura do livro de Apocalipse duas verdades essenciais transparecem em todas as declarações de louvor: a) são sempre os que temem a Deus quem louvam; e b) somente Cristo é merecedor de adoração.
Quanto à primeira declaração: no próprio livro há uma instrução direta quanto àqueles que devem adorar e cultuar:
Então veio do trono uma voz conclamando:
“Louvem o nosso Deus,
todos vocês, seus servos,
vocês que o temem,
tanto pequenos como grandes!”
(Ap 19:5)

Seguindo o raciocínio podemos listar os adoradores em Apocalipse:
# Capítulo 4 – os quatro seres viventes;
# Capítulo 5 – os quatro anciãos e milhares de anjos;
# Capítulo 7 – a multidão de vestes brancas;
# Capítulo 11 – os vinte e quatro anciãos;
# Capítulo 12 – uma forte voz dos céus;
# Capítulo 15 – os que tinham vencido a besta;
# Capítulo 16 – um anjo;
# Capítulo 19 – uma grande multidão nos céus.

Para mim, fica então demonstrado que a partir da revelação bíblica, o louvor e a adoração eterna é função e atribuição daqueles que, tendo lavado as suas vestes no sangue do Cordeiro, têm acesso direto à árvore da vida, a Cidade e ao trono do Deus (leia sobre as vestes brancas em Ap 22:14).
Embora seja verdade que no dia do grande tribunal de Deus toda língua vai confessar que Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai (conforme dito em Fl 2:11), este reconhecimento e confissão do senhorio eterno não significam adoração, mas uma submissão – ainda que involuntária – à vontade daquele que venceu.
Contudo louvor e adoração verdadeira é o que sai da boca do povo redimido como demonstração de sua gratidão pela obra do Cordeiro e com alegria por participar das suas bodas.