quinta-feira, 20 de abril de 2017

O CREDO APOSTÓLICO – versão em língua grega

είς ενα Θεόν, Πατέρα, παντοκράτορα, ποιητήν ουρανού καί γής, ορατών τε πάντων καί αοράτων. 
Καί είς ενα Κύριον, Ίησούν Χριστόν, τόν Υιόν του Θεού τόν μονογενή, τόν εκ του Πατρός γεννηθέντα πρό πάντων τών αιώνων.  Φώς εκ φωτός, Θεόν αληθινόν εκ Θεού αληθινού γεννηθέντα, ού ποιηθέντα, ομοούσιον τώ Πατρί, ού δι 'τά πάντα εγένετο.  Ημάς τούς ανθρώπους καί διά τήν ημετέραν σωτηρίαν κατελθόντα εκ τών ουρανών καί σαρκωθέντα εκ Πνεύματος 'Αγίου Τόν δι' καί Μαρίας τής Παρθένου καί ενανθρωπήσαντα.  Επί Ποντίου Πιλάτου καί παθόντα καί Σταυρωθέντα τε υπέρ ημών ταφέντα.  Καί αναστάντα τή τρίτη ημέρα κατά τάς Γραφάς.  Καί ανελθόντα είς τούς ουρανούς καί καθεζόμενον εκ δεξιών τού Πατρός.  Καί πάλιν ερχόμενον μετά δόξης κρίναι ζώντας καί νεκρούς, ού τής βασιλείας ουκ εσται τέλος. 
Καί είς τό Πνεύμα τό ¨ Αγιον, τό Κύριον, τό ζωοποιόν, τό εκ τού Πατρός εκπορευόμενον, τό σύν Πατρί καί Υιώ συμπροσκυνούμενον καί συνδοξαζόμενον, τό λαλήσαν διά τών Προφητών. 
Είς μίαν, αγίαν, καθολικήν καί αποστολικήν Έκκλησίαν.  'Ομολογώ εν βάπτισμα είς άφεσιν αμαρτιών.  Προσδοκώ ανάστασιν νεκρών.  Καί ζωήν τού μέλλοντος αιώνος.  Άμήν.


O CREDO APOSTÓLICO – versão em língua latina

in unum Deum, Patrem Omnipotentem, Factorem cæli et terræ, visibilium omnium et invisibilium. 
Et in unum dóminum Iesum Christum, Filium Dei unigenitum, et ex Patre natum ante omnia sæcula.  Deum de Deo, Lumen de Lúmine, Deum verum de Deo vero, genitum, non factum, consubstantialem Patri: per quem omnia facta sunt.  Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de cælis.  Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria virgine, et homo factus est.  Crucifíxus etiam pro nobis sub Pontio Pilato; passus, et sepultus est, et resurrexit tertia die, secundum scripturas, et ascendit in cælum, sedet ad dexteram Patris.  Et iterum venturus est cum gloria, iudicare vivos et mortuos, cuius Regni non erit finis. 
Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem: qui ex Patre Filioque procedit.  Qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur: qui locutus est per prophetas. 
Et unam, sanctam, catholicam et apostolicam ecclesiam.  Confiteor unum baptisma in remissionem peccatorum.  Et exspecto resurrectionem mortuorum, et vitam ventúri sæculi.  Amen.

O CREDO APOSTÓLICO – versão em língua portuguesa

em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. 
Em um só Senhor: Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; que, por nós e por nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e se fez homem.  Foi também crucificado, sob o poder de Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado.  Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai.  Virá outra vez com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim.
No Espírito Santo, o Senhor que dá vida, e procede do Pai e do Filho; que, com o Pai e o Filho, é juntamente adorado e glorificado; Ele, que falou pelos profetas. 
E na igreja una, santa, universal e apostólica.  Reconhecemos um só Batismo para remissão dos pecados.  E esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir.  Amém.

terça-feira, 18 de abril de 2017

COMO ENTENDER O CREDO?

Durante os primeiros séculos do cristianismo, as discussões sobre a figura de Jesus Cristo e as relações intra-trinitarianas se tornaram cruciais.  Somente com a declaração do Credo Apostólico o assunto foi dogmatizado.  Com base na análise feita por Julio Andrade Ferreira em sua Antologia Teológica, veja como entender o Credo a partir da interpretação dos seus diversos termos.


quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mensagem da Páscoa - 2017

Na páscoa, nós, os seguidores de Cristo somos impulsionados a um profundo mistério, um mistério diante do qual nos maravilhamos.  Contemplamos este mistério que nutre nossa fé e enche nosso coração de assombro, amor e louvor.  Confessamos que está alem de nossa capacidade para explicá-lo plenamente em categorias racionais.  Porém nós damos testemunho dele com confiança e alegria, nós o celebramos como sagrada lembrança e o louvamos com gloriosa esperança.
Aquele que morreu no Calvário é a segunda Pessoa da Trindade.  É o Deus cuja auto-doação recordamos quando falamos da Cruz.  É o Eterno cuja cabeça está inclinada em amor sofredor na colina do Calvário.   Aquele que morreu no Calvário é Deus!
O Deus a quem servimos é o Eterno, que foi antes do tempo, vive no tempo e será quando o tempo já não exista mais.  Este é o Deus a quem os portais da morte não podem deter.  Ele que foi crucificado e logo posto em uma tumba emprestada não somente foi o criador e doador da vida, como também é a própria vida em si.
Ele que se identifica a si mesmo como "o caminho, a verdade e a vida", sopra o ar fresco de uma nova vida em nossa velha vida, guiando-nos a experimentar um novo nascimento.  O Senhor que é "a vida" comunica vida à nossa morte e traz alento de novidade onde os velhos costumes e as velhas prisões poderiam continuar entorpecendo ou imobilizando os viajantes na jornada da vida.
O Deus da Páscoa é o Pai que, em Jesus Cristo, abandonou o lugar preparado para os mortos, abriu o caminho da morte para a vida e, de uma vez para sempre, matou o monstro da própria morte.  É por isso que gritamos na vitória: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde, ó morte, teu aguilhão?" e declaramos "Mas graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (1Co 15:55-57).
Quando declaramos: "Cristo ressuscitou! Verdadeiramente ressuscitou!", contamos a história do mistério do Deus Trino que nos abre caminho através dos áridos desertos de nossos dias.  Deus atrai as pessoas ao seu Criador e Salvador e lhes confere o dom da vida abundante, que é tão poderosa que a morte não pode tirar.  Esta é a vida do futuro que se manifesta a si mesma no vai-e-vem de nossa existência cotidiana.
O Deus Trino ascende das maravilhas da colina do Calvário, entrega sua vida para que recebamos a vida e logo retoma a vida novamente para construir uma fortaleza de esperança na qual os seres humanos possam encontrar a confiança que o mundo não pode dar.
Quando celebramos a Páscoa, expressamos a certeza confiante de que o Cristo ressuscitado habita em nós mesmos quando vivemos em Cristo.  A nossa vida não é uma vida ordinária limitada entre os mistérios do nascimento e da morte.  Tão pouco é uma existência precária desprovida de alegria perpétua.  Na Páscoa, celebramos o dom da vida eterna que se faz possível através da morte e ressurreição do Filho de Deus! Aleluia!

Neville Callam
Secretario Geral – BWA
Abril 2017
Fonte: www.bwanet.org

terça-feira, 11 de abril de 2017

Conselhos bíblicos sobre adoração e culto – CAIM E ABEL

Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor.  Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das primeiras crias do rebanho.  O Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta.  Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou.
(Gn 4.3-5)


Sabemos que a celebração e a adoração são elementos indispensáveis de todo culto e de toda busca ao Senhor que se constitua como um verdadeiro encontro aceitável com Deus.
Do oferecimento de Caim e Abel, lá tão próximos da origem de todos nós, podemos aprender lições importantes e trazer aplicações necessárias para que nosso culto e adoração hoje sejam dignos do verdadeiro Deus.
# Comece reafirmando que seu culto e sua adoração é o resultado de um espírito alegre e grato pelo que Deus tem feito em sua vida.  Daí transforme sempre seus momentos de culto em festa espiritual (vá ao Sl 103:1-2).  Nunca deixe sua adoração se transformar em algo pesado e triste.
# Tome a iniciativa de adorar.  Não espere que apenas alguém o chame.  Deus já tem feito tanto em sua vida e somente isso já é motivo para celebrar.
# Ofereça a Deus o melhor do seu trabalho, e o resultado dos seus mais nobres esforços.  Deus assim o requer.
# Tenha cuidado, pois antes de olhar para sua oferta e seu culto, o Senhor estará olhando para você e sua atitude.  Embora haja maneiras apropriadas de se celebrar ao Senhor – ele mesmo já prescreveu algumas delas – porém o mais importante é a atitude do adorador (lembre da parábola do fariseu e do publicano em Lc 18:9-14).
# Seja grato a Deus pela aceitação que ele lhe concede.  Mas se for o caso de seu pecado causar rejeição, não abandone o altar de adoração.  Confesse seu pecado e volte-se para Deus pois certamente ele o aceitará de volta (confie nas palavras de Pv 28:13).


sexta-feira, 7 de abril de 2017

ALGO SEMPRE MUDA

A Bíblia relata diversos encontros de homens com Deus.  E são destes encontros que nós humanos podemos conhecer um pouco de quem é Deus.  Ele se dá a conhecer – se revela.  Sem esse ato da sua exclusiva misericórdia e graça jamais sequer tatearíamos a imagem do divino.
Folheando as páginas sagradas, enquanto observo os diversos e sucessivos encontros do Criador com suas criaturas, é fácil perceber que também sempre o ser humano é tocado, atingido, mudado nestes encontros.  Algo sempre muda.
Quer constatar isso? Acompanhe as transformações que relacionei:
=> Jacó subiu o vale de Jaboque mancando – Gn 32:31
=> Moisés desceu do Monte Sinai com o rosto brilhando – Ex 34:35
=> Os lábios de Isaías foram queimados – Is 6:6
=> Uma mulher sentiu estancar seu fluxo de sangue – Mt 9:22
=> O jovem rico saiu cabisbaixo – Mc 10:22
=> Na entrada de Jericó, o cego começou a enxergar – Lc 18:43
=> Saulo caiu sem enxergar – At 9:8
E por aí vai...
Eu vou concordar com você que cada um destes encontros listados, sem detalhes, está envolto em circunstâncias diferentes, causas e motivos distintos, modus operandi peculiares e, principalmente, consequências e desdobramentos particulares.
Mas você tem que concordar comigo também.  O estar na presença divina, sagrada e gloriosa, é demais para qualquer mulher ou homem.  Não há como resistir.  Não é possível estar na presença augusta e de lá sair do mesmo jeito.  Deus sempre muda algo em nós.  A alma é atingida e o corpo é tocado.
É gostoso demais desfrutar da intimidade com o Senhor! Mas, como resistir ao peso de sua glória? 
Verdade também é que algumas vezes a presença de Deus se mostra suave como uma brisa (Elias assim percebeu – 1Rs 19:12); outras, ruidosa (como foi no dia de Pentecostes – At 2:2).  Mas toda vez que a percebemos e experimentamos, ela mexe, futuca, cutuca, muda.  E faz de nós diferentes: Outro homem.  Outra mulher.
Agora, posso lhe garantir que se deixar levar pela presença transformadora do encontro com Cristo vale muito a pena!
E então? Está disposto ao encontro com Deus? Quer ver o que ele vai mudar?

(Na imagem lá em cima, o quadro "Conversione di San Paolo" do italiano Caravaggio pintado no início do século XVII)

terça-feira, 4 de abril de 2017

Conselhos bíblicos sobre adoração e culto – O PRIMEIRO CASAL

Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim.
(Gn 3:8)


O culto que prestamos ao Senhor e a adoração que lhe rendemos deve ser para nós em primeiro lugar um momento e um lugar onde temos um encontro marcado com Deus.  Ali ouviremos a sua voz, e ali Deus se fará percebido e, mesmo que a consciência de pecado nos assuste, saberemos que toda a nossa existência só fará sentido neste encontro.
Deus nos criou para vivermos num jardim de delícias e somente quando nos encontramos com ele mesmo é que experimentaremos deste jardim! Nesta perspectiva:
# Mantenha uma regularidade em sua adoração e seu culto.  Embora seja eterno e onipresente, Deus se faz perceber no lugar e tempo da adoração.  Nisto a sua igreja deve ser a referência segura para seu culto.
# Dê atenção aos sinais que Deus lhe dá para sua presença sagrada.  Ao se habituar com estes encontros, você saberá identificá-los com clareza.  Isso fará seu culto fruir com mais naturalidade.
# Mesmo que eventualmente o pecado tenha lhe alcançado; nunca se esconda de Deus.  Embora possa parecer uma tendência natural, esta atitude de fuga só irá aumentar o vazio da alma.  Deixe-se ser envolvido pela presença divina pois é exatamente neste encontro que suas feridas serão curadas.
# E que nada nem ninguém faça você abandonar ou não priorizar em sua agenda o encontro com Deus (lembre Mt 6:33).

sexta-feira, 31 de março de 2017

PELAS SUAS FERIDAS

Devemos sempre trazer em nossa memória o texto profético de Isaías 53 que apresenta com maestria o tema do Servo Sofredor.  Não apenas por curiosidade ou referência teórica.  Mas por que provavelmente não exista em todo o AT um outro texto tão magnífico e cheio de poesia sobre a dor e o sofrimento do Ungido de Deus e de como, do sofrimento dele, o Senhor pôde produzir salvação e bênçãos para o seu povo.
Gosto de tomar como centro da profecia o verso cinco.  E aqui vai me chamar à atenção o final deste: ... e pelas suas feridas fomos curados.  Um bom resumo para o que é estampado pelo profeta.  Convido, pois, a se aprofundar um pouco mais na sentença para perceber o quanto o Senhor tem a nos dizer e prometer nestas palavras.
Acompanhando a interpretação que Pedro faz da profecia, sei que Isaías se refere a Jesus na cruz (confira em 1Pe 2:24).  O Servo Sofredor é Cristo no madeiro.  Ou seja, foi na cruz que se cumpriram os versos desta profecia; lá no seu sacrifício, Cristo Jesus tomou sobre si as minhas enfermidades (leia o verso quatro).  Estou entendendo que Deus não somente tomou conhecimento que meu corpo, por causa do pecado, está doente e sofre com dores físicas; Deus levou – carregou – sobre si, como resultado de castigo, as doenças que me afligem a carne.  Certamente minhas moléstias estiveram cravadas no madeiro maldito.
E o maravilhoso verso cinco completa que não somente sobre seu corpo estava minha dor, mas efetivamente no seu sacrifício houve cura para meus males: fomos curados!  Sabe o que isso realmente significa?  Todas as doenças, grandes ou pequenas, graves ou agudas que possam me afligir já foram alcançadas pelo poder que provém da cruz.
Mas me acompanhe mais um pouco.  Se é verdade que minhas dores já estão cravadas na cruz, então porque ainda doi tanto?  Segundo a Bíblia, posso reconhecer duas respostas que se completam.  Paulo aos Coríntios diz que a tribulação – dor – de agora é momentânea e eu devo passar por ela na certeza que está produzindo em mim uma glória eterna (veja 2Co 4:17).  Isto não é negar uma realidade incômoda, é pela fé viver a esperança, apesar das circunstâncias (confira também Rm 8:18).
Vivo hoje o provisório, e neste momento ainda estou sujeito ao corpo desta morte (palavras de Rm 7:24).  Porém a grande certeza e glória da profecia é que nenhuma de suas palavras deixa de se cumprir.  Aí eu devo apontar minha leitura a Revelação final.  João ouviu lá da eternidade uma voz forte que exclamou: Ele enxugará de seus olhos toda lágrima (em Ap 21:4).  Isto são palavras bíblicas e, portanto verdadeiras (ainda Ap 22:6).
Cristo levou sobre si as minhas doenças, isto é promessa que começou a se cumprir no Calvário e para a glória de Deus poderei experimentar a cura completa e gloriosa quando chegar o grande dia, e disso eu não vou me esquecer jamais: pelas suas feridas fomos curados.  Aleluia!

(Extraído do sítio ibsolnascente.blogspot.com em 13/08/2010)

terça-feira, 28 de março de 2017

AS RELIGIÕES DE MISTÉRIO NA GRÉCIA ANTIGA

Na religião popular grega antiga os ritos de mistério eram frequentes.  Enquanto Asclépio curava, os ritos de mistério de Elêusis, que associava promessas religiosas a garantias na agricultura, ofereciam também a certeza de renascimento depois da morte. 
O culto eleusino estava ligado à deusa Demeter – deusa da agricultura – e à sua filha Perséfone.  Segundo a mitologia, Perséfone foi raptada por Hades.  Quando sua mãe sentiu sua falta ela saiu à sua procura.  Durante a viagem, Demeter foi recebida pelos habitantes de Elêusis, um sítio sagrado perto de Atenas.  Como gratidão a deusa lhes ensinou os ritos secretos dos deuses que garantiam aos mortais tanto a certeza de boas colheitas (a fertilidade da terra) quanto o retorno da vida após a morte (a periodicidade das estações). 
Convém destacar que este culto atendia às duas características básicas da religiosidade: em primeiro lugar respondia aos anseios da vida e sua preservação aquém e além da morte, contudo também rompia com os cultos nacionais que se reservavam às camadas mais abastadas da população abrindo-se para qualquer homem ou mulher que tivesse conhecimento dos ritos secretos (mistérios) revelados. 
Robert Coleman observa que nos cultos de mistério "homens e mulheres, cativos e livres" obtinham as benesses da divindade através de um ritual de iniciação, ou purificação (myēsis) que os qualificava para a admissão em um culto anteriormente confinado aos cidadãos".  E completa:
A abertura do santuário eleusino aos atenienses coincidiu com uma onda de reavivamento religioso, o qual (expandindo para o território semítico no século sexto a.C.) infundiu na mente dos homens a idéia de uma possibilidade definida de felicidade numa vida futura, condicionada a uma comunhão íntima com os deuses que era alcançada na oferta do sacrifício.  Purificação é a chave do culto de mistério; pela palavra mistério se entende um rito no qual muitas coisas sagradas são exibidas, as quais não podem ser obtidas pelo cultuante sem ele ter passado completamente pela purificação prescrita.
Sabemos muito pouco como aconteciam as liturgias nos cultos de mistério pois suas práticas só eram reveladas aos iniciados que juravam mantê-las em segredo, assim não é possível comparar prática a prática os mistérios gregos e o cristianismo. 
Contudo, como no primeiro século o cristianismo era difundido às escuras devido às constantes perseguições sofridas pelos adeptos do novo culto e por a pregação cristã afirmar a certeza da ressurreição em Cristo Jesus como a garantia da vitória sobre a morte (1Co 6:14 e 15:55-57), bem como o ingresso na comunidade se dar através do batismo (At 2:42 passim) o qual poderia ser interpretado como um ritual de purificação e salvação (1Pe 3:21), somos levados a entender que, na mentalidade sincretista popular grega, as duas práticas cultuais acabariam por trocar influências entre si.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Parábola das coisas – O PERFUME

Uma das primeiras lembranças que tenho da minha avó falando em público (e talvez, sinceramente, a única!) era baseada naquele texto que diz sermos para Deus o agradável cheiro de Cristo (o texto bíblico seria 2Co 2:15 – acho).  As lembranças não são muito ricas, mas não me esqueci do contexto geral nem de achar curioso minha avó dizendo:
— Deus gosta de lhe cheirar e achar cheiroso!
Por esses dias estava reavendo aquelas memórias e deixei as ideias vaguearem um pouco pelos conceitos que podem ser agregados ao cheiro – daí, perfume.  Mas, que coisa seria essa, o perfume?
Para começar, os antigos criaram a palavra a partir do hábito que tinham para se fazerem cheirosos.  Eles costumavam queimar essências aromáticas e deixar os ambientes e os corpos serem impregnados com a fumaça.  E então tudo ganhava o seu aroma, o perfume – per fumum – pela fumaça.
Ah! E antes que esqueça.  Tenho outra lembrança da infância relativa ao olfato: a minha mãe sempre manteve um jasmineiro em seu jardim – ainda hoje tem um lá.  É claro: o suave e gostoso cheiro do jasmim permanece aconchegante e me faz respirar fundo com a sensação de estar em casa.
Mas, voltando ao perfume, veja o que ele pode me evocar.  Certamente não vou me ater ao apelo comercial que algumas marcas estampam – deixe que os da mídia façam isso – nem ao luxo e exclusividade que algumas essências indicam – isso não me interessa.  Quero pensar um pouco no perfume como uma parábola daquilo que eu exalo, ou posso exalar, e como isso influencia as pessoas que estão ao meu redor.
Bem, vou tomar duas citações bíblicas para me servirem de guia nesta compreensão.  Entendo que sempre o texto sagrado é rico em ilustrações e indicações.  Sei que há outros vários textos, mas dois serão suficientes: um ruim é um bom.
O sábio escreveu que "assim como a mosca morta  produz mau cheiro e estraga o perfume, também um pouco de insensatez pesa mais que a sabedoria e a honra" (Ec 10:1 NVI).  Assim, o primeiro perfume que andam espalhando por aí é cheiro de mosca morta.  Algumas vezes é só uma gota, mas como tem gente por aí fedendo a estupidez neste mundo! O perfume já deteriorou e a impressão que passa é de uma vida carcomida pela falta de sabedoria e honra.
Deixemos o mau cheiro... Eu prefiro o cheiro do jasmim.
Um outro texto que gosto muito é o que narra a história de Noé, quando ele saiu da arca e edificou um altar ao Senhor.  Ali é dito que Senhor sentiu o aroma agradável da adoração do patriarca e resolver estabelecer uma aliança.  E o texto prossegue com a afirmação: "Deus abençoou Noé" (Gn 9:1 – a narração do altar de Noé está nos versículos finais no capítulo anterior). 
E eu imagino Deus respirando fundo e se satisfazendo com cheiro gostoso que vinha daquele ato de culto e abrindo um belo sorriso.  O bom cheiro subiu aos céus e moveu Deus.
Agora, voltando ao texto citado por minha avó, imagine o que acontece quando Deus sente em nós o bom perfume de Cristo!?


terça-feira, 21 de março de 2017

OBRAS DA CARNE

Escrevendo aos cristãos da Galácia, o apóstolo Paulo fez uma lista do que ele chamou de obras da carne (Gl 5:19-21).  Veja a seguir uma relação dos termos que o apóstolo empregou e o significado de cada um deles:

No mesmo capítulo há também uma relação das características do Fruto do EspíritoVeja o quadro aqui.

quinta-feira, 16 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – E nós?

Depois de ler em Apocalipse que: (1) são sempre os que temem a Deus quem louvam (leia aqui) e (2) somente Cristo é merecedor de adoração (leia aqui); devo fazer a pergunta: E quanto a nós hoje?


Da leitura de Apocalipse, algumas observações devem ser levadas à adoração e ao culto em nossa igreja hoje.  Em primeiro lugar que o louvor e a adoração nos ocuparão por toda a eternidade, pois em nenhum lugar há tanta ênfase nesta atitude como no livro da profecia do NT.
Porém os destaques que percorrem todo o livro devem ser também os destaques de nossas reuniões de culto e adoração.  Primeiramente que louvor verdadeiro é atribuição de crentes verdadeiros.  Deus conhece o seu povo e sabe que os redimidos é que entoam a verdadeira canção de adoração ao Senhor (leia Sl 149:5 e Sl 30:4).
Em meio a todo desenrolar da história, e se desdobrando na eternidade, os salvos são aqueles que sempre trazem uma palavra de reconhecimento pelo que o Cordeiro fez em suas vidas, e isso trará sempre um cântico novo em nossos lábios (veja o Sl 149:1).
Do livro de Apocalipse também devemos aprender que todo louvor e glória pertencem exclusivamente ao Senhor Deus e ao Cordeiro.  Embora música e arte estejam intimamente ligadas ao ato de adorar, estas não podem significar um fim em si mesmo. 
Também o louvor não deve ter como alvo a obra da redenção – ou a fé nela – as bênçãos de Deus ou qualquer outra manifestação do poder e majestade divina.  Como bem acontece na narração bíblica, qualquer um que buscar a glória e louvor para si estará sob a influencia da besta e de seu falso profeta.
É bom lembrar que Deus não divide a sua glória com ninguém.  Muito mais que a primazia na adoração, ele exige de nós a exclusividade na glorificação.  Exatamente isso é o que Deus diz através do profeta:
Eu sou o Senhor; este é o meu nome!
Não darei a outro a minha glória
nem a imagens o meu louvor.
(Is 42:8)
Finalmente a leitura do livro apocalíptico, ao nos apresentar a adoração como destino eterno do ser humano (é bom lembrar que fomos criados para glorificar ao Senhor como está dito em Is 43:7), a Bíblia apresenta também o direcionamento e conteúdo que um verdadeiro culto cristão precisa ter para que cumpra o seu papel: celebração (Ap 5:9-10 e Sl 100:1); anúncio da mensagem do evangelho (Ap 10:15 e Sl 9:11); chamado à comunhão dos santos (Ap 19:17 e Sl 133:1). 
Só então nossa adoração será um culto verdadeiro ao Senhor: lugar de encontro espiritual e real com o Criador, com o Senhor Soberano, com o amado de nossa alma (Ap 21:3 e Sl 84:10).


terça-feira, 14 de março de 2017

FRUTO DO ESPÍRITO – lista

Na sua carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo fez uma relação do que seriam as características do Fruto do Espírito (Gl 5:22-23).  No grego a palavra está no singular mesmo – καρπός – fruto.  Veja a seguir o quadro comparativo das palavras gregas presentes no texto, sua tradução e outras citações:

Em 2011 eu escrevi uma série de reflexões sobre os Frutos do Espírito quando os comparei a uma jaca.  Leia aqui:



sexta-feira, 10 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – 2ª parte

Já refleti sobre a adoração no livro de Apocalipse quando observei que são sempre os que temem a Deus quem louvam – esta foi a primeira verdade essencial (leia aqui).  Continuando a refleti, veja o que posso dizer sobre mais:

A segunda verdade essencial que flui de todo o livro de Apocalipse é que somente Cristo é merecedor de nossa adoração:
“Digno é o Cordeiro
que foi morto
de receber poder, riqueza,
sabedoria, força,
honra, glória e louvor!”
(Ap 5:12)

Embora a besta, apresentada como aquele que pretendia reinar em lugar do Cordeiro, tenha requerido para si a adoração (no capítulo 13 de Apocalipse é narrada esta pretensão – também na tentação de Jesus no deserto quando o diabo lhe pediu adoração em Mt 4:9); tal exigência não tem nenhum valor no desenrolar dos eventos, pois o texto também narra que a besta foi presa e vencida e que a ordem dada àquele que com Cristo venceu é que adore a Deus! (Ap 19:10).
No Apocalipse e na eternidade toda honra, glória e louvor só cabem àquele que venceu e, sendo as primícias entre os mortos, nos ama e por isso nos libertou dos nossos pecados (assim Cristo é apresentado em Ap 1:5).
No louvor expresso no Apocalipse vemos a essência de todos os elementos constitutivos do verdadeiro culto cristão: a celebração pela vitória do Cordeiro (Ap 5:9-10) juntamente com o seu anúncio (Ap 10:15) e um chamamento à reunião de celebração (Ap 19:17). 
Contudo o destaque principal é o encontro eterno do Cordeiro com a sua noiva, pois na eternidade o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá (Ap 21:3), encontro este que é a essência do culto cristão pois representa a presença de Cristo no meio da igreja que cultua e adora.

terça-feira, 7 de março de 2017

SALMO 23 – 1828

         O Senhor he quem me conduz: nada me poderá faltar:
         Elle me poz n’um lugar abundante de pastagens.  Elle me educou ao pé de huma água que fortifica:
         Elle converteo a minha alma.  Elle me conduz pelas veredas da justiça, para glória do seu nome.
         Porque ainda que em ande no meio da sombra da morte, eu não temerei mal algum, porque tu estás comigo.  A tua vara e o teu báculo forão a minha consolação.
         Tu preparaste huma meza diante de mim contra aquelles que me attribulão.
         Tu ungiste d’óleo a minha cabeça.  Que admirável he o meu calis, que tem virtude de embriagar!
         Assim que a tua misericórdia me seguirá todos os dias da minha vida, para que eu habite por longuíssimo tempo na casa do Senhor.

(A Santa Bíblia: Contendo o Velho e o Novo Testamento traduzidos em portuguez segundo a Vulgata pelo Padre Antonio Pereira de Figueiredo.  Londres : 1828)

sexta-feira, 3 de março de 2017

ADORAÇÃO EM APOCALIPSE – 1ª parte

Sempre repito que, comparando Apocalipse a outros livros do NT, posso ver claramente que nenhum livro traz tantos registros de adoração e louvor como o livro da Revelação: são refrões dos cânticos e afirmações quanto à adoração. 
Sei que ele é um livro de visões e relata a vitória final de Cristo, mas, acima de tudo seu assunto é a glorificação de Cristo: este é o tema central da profecia – aqui é a razão de tanta expressão de louvor e adoração.
Na leitura do livro de Apocalipse duas verdades essenciais transparecem em todas as declarações de louvor: a) são sempre os que temem a Deus quem louvam; e b) somente Cristo é merecedor de adoração.
Quanto à primeira declaração: no próprio livro há uma instrução direta quanto àqueles que devem adorar e cultuar:
Então veio do trono uma voz conclamando:
“Louvem o nosso Deus,
todos vocês, seus servos,
vocês que o temem,
tanto pequenos como grandes!”
(Ap 19:5)

Seguindo o raciocínio podemos listar os adoradores em Apocalipse:
# Capítulo 4 – os quatro seres viventes;
# Capítulo 5 – os quatro anciãos e milhares de anjos;
# Capítulo 7 – a multidão de vestes brancas;
# Capítulo 11 – os vinte e quatro anciãos;
# Capítulo 12 – uma forte voz dos céus;
# Capítulo 15 – os que tinham vencido a besta;
# Capítulo 16 – um anjo;
# Capítulo 19 – uma grande multidão nos céus.

Para mim, fica então demonstrado que a partir da revelação bíblica, o louvor e a adoração eterna é função e atribuição daqueles que, tendo lavado as suas vestes no sangue do Cordeiro, têm acesso direto à árvore da vida, a Cidade e ao trono do Deus (leia sobre as vestes brancas em Ap 22:14).
Embora seja verdade que no dia do grande tribunal de Deus toda língua vai confessar que Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai (conforme dito em Fl 2:11), este reconhecimento e confissão do senhorio eterno não significam adoração, mas uma submissão – ainda que involuntária – à vontade daquele que venceu.
Contudo louvor e adoração verdadeira é o que sai da boca do povo redimido como demonstração de sua gratidão pela obra do Cordeiro e com alegria por participar das suas bodas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A ALEGRIA É O REINO DE DEUS

Talvez o título desta reflexão não soe bem ao afirmar que o Reino de Deus (aquilo que Jesus veio implantar como é dito em Mt 4:17) corresponda à alegria pura e simples.  É que lendo Paulo devo entender exatamente assim:
Pois o Reino de Deus não é comida nem bebida,
mas justiça, paz, e alegria no Espírito Santo.
(em Rm 14:17 – com o devido destaque).
Entendo ainda que nesta época de alergias e festividades de Carnaval, anunciadas e cantadas, seria até temerário associar uma coisa à outra.  Contudo, é este o ponto a se enfatizar.  Alegria não é isso que se festeja no reinado de Momo, mas o que só se encontra vivendo sob a soberania de Deus.  Ou seja, será comparando uma com outra que quero fazer sobressair a alegria da cidade do grande Rei (a expressão poética é a do Sl 48:1-2).
A primeira afirmação a ser feita é que a alegria do Reino de Deus é gerada em nós pelo próprio Espírito Santo.  Paulo, ao listar os frutos do Espírito que devem ser produzidos e encontrados pelos que nele vivem, coloca de início a alegria (veja Gl 5:22).  Com isto o apóstolo está demonstrando que a vida do cristão tem que ser uma vida alegre por sua natureza, assim como é da natureza da mangueira produzir manga e do coqueiro produzir coco.
Entendo nesta implicação pelo menos duas outras que devo destacar aqui.  A alegria do Reino de Deus é completa em si mesma e, ao contrário da carnavalesca, não depende de estímulos externos para acontecer e nos inundar (leia Jo 17:13).  Embora possa até ser sazonal, mas é sempre resultado de sua maneira própria de ser e existir – é fruto. 
O livro de Atos nos conta que os convertidos de Antioquia ao se encherem do Espírito se encheram da verdadeira alegria (e continuaram cheios como é o que diz At 13:52).  E penso que a instrução paulina para nos enchermos do Espírito deve de imediato também nos fazer transbordar completamente de alegria (note bem que em especial no verso de Ef 5:18 a plenitude do Espírito está em oposição à alegria imperfeita e precária do vinho).
Outra implicação da alegria do Espírito que é marca do Reino de Deus é que ninguém pode nos tirar.  Jesus garantiu que embora nossa tristeza pudesse ser real, ela seria eventual e transitória, mas a alegria que ele nos prometeu, esta sim, seria eterna (confirme em Jo 16:22).  Ao contrário da alegria deste mundo, a nossa não é circunstancial, então nenhum fator externo pode alterá-la em nada.
Volto a Paulo para citá-lo quando disse aos cristãos de Corinto que mesmo em tribulações ele podia experimentar o transbordamento de sua alegria (leia em 2Co 7:4).  É claro que nesta afirmação deve está implícita uma dose – e grande – de fé e esperança (pelo menos é isso que aponta Rm 8:18).  Ou seja, se a alegria deste tempo explode no Carnaval ela vai acabar em cinzas.  A nossa, contudo, pode até ser provada pelo fogo momentâneo das tribulações, mas redundará numa alegria eterna.
Sim, a alegria é o Reino de Deus, não a alegria efêmera e aparente destes dias, mas a verdadeira, profunda e eterna que só o Espírito nos confere.  Que assim ele nos faça.

(Do sítio ibsolnascente.blogspot.com em 12/02/2010)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO – uma conclusão sobre a doxologia final

O texto do Novo Testamento nos diz que Jesus orou e ensinou os seus discípulos a orar.  Seguindo os ensinamentos do Mestre, a igreja primitiva orou santificando o Pai, suplicando pelo Reino e pelo pão cotidiano, pedindo perdão por pecados e ansiando por livramento do mal.  Em suas liturgias e devoções, os primeiros cristãos se voltaram a Deus-Pai e daí tiraram a inspiração para sua religiosidade e praxes.
Quanto à exaltação triunfante da doxologia final da Oração do Pai-Nosso ensinada por Jesus, tudo leva a crer que o próprio Jesus, naquele contexto, não proferiu aquelas palavras; isto é o que indica a sua ausência no texto paralelo (Lc 11) e a omissão em alguns documentos significativos que testemunham a tradição evangélica.  Mas o fato de estar presente em outros escritos já desde o segundo século, leva-nos a compreender que os próprios cristãos, provavelmente ainda misturados nas sinagogas e por ela influenciados, justapuseram as palavras que hoje podem ser encontradas em algumas versões de Mt 6:13. 
A constatação de que certamente o Jesus histórico não ensinou a orar com a doxologia não prova que em outro contexto os discípulos não tenham ouvido da boca do próprio Cristo tais palavras – suposição sem qualquer referência histórica e que nada diz sobre o uso na Igreja.  Parece-nos certo contudo que, assim como hoje, o cristianismo primitivo se afeiçoou mais da versão de Mateus do que da de Lucas, a usou com mais frequência, e viu nela o contexto ideal para a exaltação doxológica que hoje encerra a Oração.
Talvez tomando como exemplo textos como 1Cr 29:11 e toda tradição judaica, os cristãos se deram a liberdade – com a aquiescência do redator evangélico ou não – de orar exaltando o Pai e reconhecendo que dele é o reino, o poder e a glória para sempre.  Pareceu a eles, como parece a nós hoje, que assim a Oração ficaria “composta”.
Diante disto, e tomando como base a tradição cristã à qual nos referimos acima, parece-nos adequado continuar orando para que venha sobre nós o Reino que pertence ao próprio Pai, para que possamos ser livres do mal no poder de Deus e para que ele seja santificado em glória.  Ensinado pelo próprio Jesus histórico ou não, a doxologia já faz parte de nossa tradição evangélica e, neste caso, uma feliz e acertada tradição, que convém ser respeitada e mantida, mesmo porque não fere em nada as intenções explicitadas pelo Mestre que ensinou a orar.

... por que dele é
o reino,
o poder
e a glória,
para sempre.
Amém!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

A CRÔNICA DO "AGÁ"

Para aqueles que julgam que para o Criador de todas as coisas há diferença entre homem e homem, e para aqueles que se julgam superiores ou inferiores a outros, prestem bem atenção nesta linhas que seguem.
Enquanto para uns no alfabeto existem letras mais importantes, existem outros que além disto fazem discriminação entre as letras.  Acham estes que um "A" ou "E", ou ainda um "C" ou um "M" ou "S" têm mais importância pois é difícil ou quase impossível se escrever um belo texto sem usá-los.
Há, contudo, letras que são ditas até desnecessárias pois quase  não as usamos, como um "X".  E o que dizer do "H"?
O "H" (que se escreve sem "h" – agá) é de uma importância incrível, por estranho que pareça.  Veja: como saberíamos a hora certa se, ao tirarmos o "H" do relógio, a gramática do tempo se transformasse em uma exclamação – ora!?
E o que dizer da pobre velha que ao roubar-lhe o "H" estaríamos pondo-a em perigo de se queimar com a parafina que provavelmente deverá escorrer da vela!
E o "H-mudo" que muitas vezes faz a diferença importante para o criador de cavalos, que ao selecionar os animais não quer que se tire o "H" de seu haras para que não tenha que pegar na enxada para arar a terra.
Há ainda palavras que precisam deste "H-mudo" para lhe dar a devida dignidade e herança histórica.  Que seria do homem, do hino, e do hebreu, entre outros, se lhe tirassem este começo, teríamos de chamá-los de 'omem', 'ino' e ' ebreu'.  Seria 'orrível'.
E o "A", quanta coisa podemos fazer juntando-lhe um simples "H".  O qual não se pronuncia.  Sem o "H" seria apenas uma preposição ou artigo.  Colocando-se depois, temos um susto, que exclamação: ah!  E antes, como as coisas existiriam se não houvesse o ?
Juntando-o com outras consoantes mudamos o sentido de certas palavras.  Temos certeza que se dormiria mais traquilamente sem o perigo do fogo se tirássemos o "H" da chama e a transformássemos numa cama.  E aproveitando o "H" no sono para podermos ter um belo sonho.
Quem iria errar se o "H" da falha fosse calado com a voz de uma fala hábil apenas no conhecimento.
E o que diríamos de se colocar uma mala dentro de uma malha?  Seria mais fácil trocarmos o lugar do "H" e botar a malha dentro da mala.  Então exclame com um bom "H": oh!
Bem, você que acha que não tem utilidade do Reino do Mestre, lembre-se de que mais inútil é o "H", pois você é obra-prima de Deus e o "H" é apenas a oitava letra de um alfabeto criado pelo homem.
Trabalhe.  Mesmo que seja como um simples agá – ou hagá – pois para Deus até isso tem muita importância.

*** Escrevi este texto ainda adolescente – lá pelos anos 1980. 
Para publicá-lo aqui, foi preciso apenas digitá-lo,
pois o tinha guardado em versão ainda datilografada,
e fazer pequenas correções gramaticais. 
No mais, conservei as idéias e fraseado originais,
como testemunha da época.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Os Filhos de Jacó

Jacó foi o terceiro dos grande patriarcas bíblicos.  Seu nome foi mudado para Israel e dos seus filhos descendem as doze tribos israelitas.  Veja neste quadro uma relação dos filhos de Jacó e um pouco mais sobre seus nomes, filiação e a bênção que lhes foi dirigida por seu pai:


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Juízes em Israel

A fase na história de Israel que corresponde ao período entre a chegada e conquista da terra prometida e o estabelecimento dos reis é conhecido como o Período dos Juízes de Israel.  Na narrativa bíblica está descrito no livro que leva o mesmo nome – Juízes – entrando pela narrativa do primeiro livro de Samuel.  Esta é uma relação do juízes que lideraram os israelitas neste período:


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A GRAÇA – de Lucado a Yancey

Aproveitei uns dias de folga no final do ano para atualizar a leitura.  Na minha biblioteca caseira sempre há alguns volumes que acrescento ao longo da caminhada e que por razões diversas vão sendo preteridos.  Assim foi com o texto de Max Lucado: "Graça".  Não lembro exatamente quando ele chegou, mas nunca foi lido, até este fim-de-ano.  Assim, eu o peguei e li quase de uma tomada só.
O tema em si já é naturalmente empolgante: A GRAÇA.  Entre as declarações que embasaram a Reforma Protestante nos séculos XVI e XVII uma delas afirmava: sola gratia – somente a graça.  A nossa fé e toda a nossa formulação cristã estão firme e profundamente alicerçadas na crença que somente a graça divina, manifesta em Cristo, conforme relatada nas páginas sagradas, é o que pode aliviar o peso que sobrecarrega nossa alma e pode nos abrir os portais eternos de volta à casa Paterna.
E assim Lucado começa a descrevê-la: A graça é a melhor ideia de Deus.  O pecado e a culpa sempre pesam sobre nós, corroendo nossa vida e a transformando numa antecipação do inferno.  Esse é o problema central da humanidade.  E é exatamente para resolver tal problema que a graça se manifestou em Cristo Jesus.  E nesta equação entre pecado, culpa, castigo e amor divino é que a graça se manifesta.  Como colocar tudo isso numa mesma fórmula?  Lucado assim resolve:
Deus não ignorou seus pecados, para que não suceda que concorde com eles.  Ele não puniu você, para que não suceda dele destruir você.  Em vez disso, ele encontrou uma maneira de punir o pecado e preservar o pecador.  Jesus assumiu sua punição e Deus deu a você o crédito pela perfeição de Jesus.
E então é por conta desta ideia maravilhosa que Lucado chega à conclusão de seu livro com a seguinte proposta:
Deixe-o fazer o trabalho dele.  Deixe que a graça triunfe sobre sua história de prisão, crítica e consciência culpada.  Veja a si mesmo pelo que você é – projeto pessoal de reconstrução de Deus.

Então, voltando ao meu roteiro de leituras de fim-de-ano, resolvi ler mais uma vez o texto de Philip Yancey sobre o mesmo tema.  O título em inglês é What's So Amazing About Grace? (em português: Maravilhosa Graça).  Em geral, raramente leio mais de uma vez qualquer título literário, mas com certeza o texto de Yancey merece releituras.  E aproveitei o embalo do trabalho de Lucado para voltar às suas páginas.
É certo que o próprio Yancey se reconhece nos seguintes termos:
Para dizer a verdade, mal provei da graça em toda a sua intensidade, tenho dispensado menos do que recebi e não sou, de modo nenhum, um especialista no assunto.
Mas ao se propor a apoiar-se mais em histórias do que em silogismos preferindo transmitir graça em vez de explicá-la, entendo que ele foi não somente feliz em expor este conceito fundamental ao cristianismo (penso no duplo sentido da expressão fundamental), como também relevante em abordar temas nevrálgicos em nosso sistema de crenças e eclesiologia.
Narrando histórias da ficção, fatos pessoais e outros de conhecimento público, Yancey apresenta um quadro onde o escândalo da graça esbofeteia nossa falsa segurança religiosa e nos desafia ao aceitamento incondicional daquilo que somente Cristo pode realizar a partir de seu sacrifício único.
E os temas delicados se sucedem: alegria, severidade, correção, piedade, imperfeição, perdão. Mas também assuntos concretos com os quais precisamos lidar – e nem sempre a igreja sabe o que fazer com eles: racismo, holocausto, fundamentalismo, homossexualismo, álcool, vícios, corrupção, adultério, política.  Temas que carecem de ser olhados com o devido prisma que somente a graça pode nos fornecer. 
E Yancey nos coloca incomodamente alguns desses desafios.  Denuncia uma fé cristã que se cristalizou ao longo de eras excluindo do seu cerne a preciosa graça e deixou com que a não-graça dominasse o mundo no qual vivemos – mesmo no chamado ocidente cristão.  Veja suas palavras:
A fé religiosa – com todos os seus problemas, apesar de sua enlouquecedora tendência para copiar a não-graça – sobrevive porque sentimos a beleza luminosa do dom imerecido que vem em momentos inesperados de fora.  Recusando-nos a crer que nossas vidas de culpa e vergonha não nos levam a nada a não ser à aniquilação, esperamos, sem nenhuma esperança, um outro lugar dirigido por regras diferentes.  Crescemos famintos de amor e, de maneira tão profunda que não conseguimos expressar, ansiamos por que o nosso Criador nos ame.
Então é tal graça que nos parece por vezes incoerente, absurda, injusta – e somente ela – que nos leva a Deus e nos ensina que Deus nos ama pelo que Ele é, e não pelo que nós somos.  Categorias de merecimento não valem nada.  E nada há que eu possa fazer que produza amor maior ou aceitação da parte de Deus, da mesma forma que nenhuma atitude minha – ou falta dela – que afaste a graça de mim.  Deus simplesmente me ama em Cristo Jesus, e isso basta.
É por isso que Yancey insiste em que a igreja seja aquilo para a qual foi idealizada: que a igreja se torne uma cultura nutridora dessa graça.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os Grandes Princípios Batistas – A SEPARAÇÃO ENTRE IGREJA E ESTADO

Este item amplia a liberdade da igreja.  Ela não está subordinada ao Estado e ela e o Estado têm esferas diferentes.  A igreja é cidadã deste mundo e sujeita-se a leis de justiça e de bom senso.  Mas deve dizer: “Mas Pedro e João, respondendo, lhes disseram: Julgai vós se é justo diante de Deus ouvir-nos antes a vós do que a Deus” (At 4.19).  A lealdade última da igreja é para com Deus e sua Palavra.  Sua pátria mais amada é a celestial.  O Estado também está sob a lei da justiça divina.  No Antigo Testamento, Iahweh escolheu Israel, mas é Senhor de todas as nações e toda a terra.  Devemos nos lembrar disto.
Na Escandinávia, os pastores luteranos são pagos pelo Estado.  No Brasil, constantemente, verbas públicas são usadas para recuperar igrejas católicas, sob desculpa de patrimônio arquitetônico ou cultural.  Mas são lugares de cultos.  Isto é contra nosso princípio de um Estado leigo, que não deve investir em nenhuma religião nem beneficiar nenhum culto.
Diferentemente de grupos anabatistas e outros radicais do século 16, os batistas não questionam o Estado por ser Estado.  Mas não o sacralizam.  O Apocalipse mostra o Cordeiro contra um Estado que deseja ser Deus.  Nosso compromisso é com a justiça, com a honestidade e com a dignidade humana.  Podemos nos rejubilar de termos em nossa história um Prêmio Nobel da Paz, o Pr.  Martin Luther King Jr, assim agraciado pela sua luta pelos direitos dos negros norte-americanos.  Mas, quando a turma de formandos do Seminário do Sul, em 1968, o tomou como seu paraninfo, alguns dos missionários americanos que lecionavam no Seminário, bem como parte da cúpula batista brasileira, ficaram indignados com os alunos.  Sintonizados com o regime militar, achavam que King era um comunista, um agitador.  Que miopia!  E perda de senso de história!
Uma igreja batista não é da direita nem da esquerda nem mesmo do centro.  É de cima.  Seus valores são espirituais e celestiais.  Uma igreja batista faz parte da igreja de Cristo, que é multirracial, multi-étnica, multigeográfica.  Sou brasileiro e não me envergonho disto.  Digo como Fernando Pessoa: “minha pátria é a língua portuguesa”, ou seja, tenho uma identidade lingüística.  Amo meu idioma, dizendo como Olavo Bilac: “em que da voz materna ouvi: ‘meu filho’”.  Foi na língua portuguesa, no Brasil, que ouvi minha mãe, Nelya Werdan, uma filha de suíços, me chamar de “filho”.  Foi neste país, o Brasil, que duas famílias estrangeiras, os portugueses Gomes Coelho e os suíços Werdan Suhett me deram origem.  Mas, mais que brasileiro e descendente de portugueses e suíços, sou cidadão do reino do céu.  Os princípios do reino celestial devem reger minha vida.
Deus não é brasileiro nem tem nacionalidade alguma.  Devemos ser patriotas, mas devemos discordar do Estado quando este invade área que não é sua.  Não lhe compete nos ditar fé ou perspectivas religiosas.  Pagamos impostos, servimos ao exército, damos nossa parcela para este país.  Mas não o sacralizamos nem o deificamos.  O culto ao Estado produziu a aberração chamada “Cristãos Alemães”, que queria uma igreja germânica, de raça pura.  Mas não admitimos a ingerência do Estado em nossa vida.  Nem transigimos nossos padrões por causa do Estado.  As casas de prostituição pagam taxas e são estabelecidas legalmente, mas a prostituição é pecado.  O que é legal nem sempre é moral.  O casamento de homossexuais pode ser tolerado civilmente, mas é pecado.  Uma batista deve dizer como Lutero: sua consciência é cativa da Palavra de Deus.
Somos cidadãos como todos os demais e não devemos esperar tratamento especial.  É errado igrejas batistas pedirem ônibus às prefeituras e órgãos públicos para fazerem piqueniques.  Se não têm dinheiro para alugar um ônibus, não andem de ônibus! Vão a pé ou não façam piquenique! Se nos incomoda ver dinheiro público sendo usado para levantar estátuas a Iemanjá em cidades da orla marítima, deveria nos incomodar também o uso de dinheiro público para monumentos à Bíblia.  O poder civil não pode patrocinar nenhuma religião! Nem a nossa!
Nunca fomos subversivos.  Mas não podemos ser coniventes com um Estado desumano, corrupto, desvalorizador do homem.  Nosso norte são os valores da Palavra de Deus.  Olhamos para eles e seguimos nossa jornada.  O que se desvia deles, isso recriminamos.  Não é se nos beneficia, mas se é um princípio bíblico.

Extraído de uma palestra preparada pelo Pr.  Isaltino Gomes Coelho Filho (1948-2013) para um congresso doutrinário em Altamira, Pará, novembro de 2009.