sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A ENCARNAÇÃO DO VERBO

Chegando à época das festas, é quase que obrigação – ou padrão pelo menos – que se fale de celebração, amor, confraternização – o Natal.  O clima toma conta do ar.  Mesmo para aqueles que não se sentem muito confortáveis neste período, é difícil, quase impossível, se manter indiferente: a decoração nas casas e comércio, as campanhas publicitárias, as festinhas de confraternização, as programações eclesiásticas.  Tudo compõem para o cenário.
Então, aproveitando o ensejo, e já como que conduzido pela ambientação natalina, eu me dei a liberdade de relembrar os anos de magistério teológico quando geralmente iniciava as aulas sobre Jesus Cristo com três perguntas básicas: Uma – quando Jesus nasceu?  Duas – onde Jesus nasceu?  Três – por que Jesus nasceu?
O texto sagrado diz que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (confira em Jo 1:14).  Esse é o ponto de partida necessário para toda compreensão da encarnação – e também uma excelente configuração para dar sentido ao natal.
Vamos lá pensar no tema proposto:
1. Quando Jesus nasceu?
Para esta primeira pergunta, em geral deixava a turma se soltar um pouco.  Sempre tinha aqueles que se mostravam entendidos e traziam respostas sobre a datação dos festejos natalinos e tal...
Ao retomar a palavra, eu oferecia duas respostas simples.  De um ponto de vista histórico, ou cronológico, Jesus nasceu no primeiro século da era cristã – óbvio! – quando Julio César era imperador de Roma e Herodes era rei-vassalo em Jerusalém.
Mas esta não é a resposta principal.  A Bíblia fala em plenitude dos tempos (leia em Gl 4:4).  Isto sim é importante!
Numa visão geral do que Paulo diz, significa que Jesus nasceu quando tudo já estava no lugar devido para que sua missão alcançasse o maior êxito possível.  Era o tempo apropriado e determinado pelo próprio Pai para que se desse a encarnação do Filho.
Além do que, Deus preparou tudo para que nenhum detalhe das profecias falhasse.  Assim, nem antes nem depois do tempo certo: no tempo de Deus.
2. Onde Jesus nasceu?
Bem, aí eles já estavam mais ressabiados e se motivavam em citar referências geográficas da Palestina, cidades como Nazaré e Belém.  Lembro vez ou outra ouvir comentários sobre a encarnação se dá especificamente no ventre da virgem – isso é bonito; está certo; e até dá caldo teológico!
E, sem desmerecer nenhuma desta respostas, acrescentava o que a Bíblia diz: Deus enviou seu Filho ao mundo (palavras de Jo 3:17).  A encarnação se dá no mundo.  Mas não um mundo apenas físico, topográfico, planetário.  Nem ao menos um mundo ideal como pensado e criado por Deus no princípio; um mundo mexido e remexido por homens e mulheres, um mundo humano.
Deus se fez carne em Jesus para viver no mundo do jeito em que nós estamos, o nosso mundo, com todas as mazelas com as quais construímos nossa história.  Ele veio me encontrar exatamente onde eu estou.
3. Por que Jesus nasceu?
Aqui a confusão entre para que – objetivo – e por que – motivação – sempre pareceu inevitável.  Não vou tentar desentranhar esse nó.
Então, depois de alguma discussão sobre pecado, necessidade de remissão, plano de salvação, coerência profética e outros temas de profundidade teológica, se fazia necessário uma ajuda:
— A resposta mais certa é a mais simples!  Não compliquem!
A encarnação aconteceu e Jesus nasceu simplesmente porque ele quis!!!
Deus podia ter feito tudo diferente: remissão, salvação, profecia.  Mas escolheu por que quis demonstrar sua graça, misericórdia e amor desse jeito.  A encarnação é, em sua maior essência, a manifestação da absoluta vontade divina.  Sua soberania.  Seu senhorio inquestionável.
E não me venha falar em cumprimento obrigatório de sua palavra.  Ele também falou por que quis!
A encarnação é o querer de Deus se mostrando histórico e relevante para a humanidade em geral e significativo para mim, apenas um homem.  Deus me ama livre e soberanamente e o demonstrou de maneira inequívoca na encarnação.
É isso que celebramos no natal.  É isso que os anjos cantaram aos pastores de Belém.

... e vimos a sua glória como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e verdade.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O PROBLEMA SINÓTICO

O adjetivo "Sinótico", com o qual são designados os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, vem da palavra grega συνόπτικος que significa "aquele que ver em conjunto" e foi usada pela primeira vez pelo alemão J.J. Griesbach no final do século XVIII.  Desde então o estudo das questões pertinentes à visão sinótica dos evangelistas tem despertado interesses mais variados em diferentes correntes teológicas, produzindo resultados igualmente diferentes.
Quando se pensa no Problema Sinótico duas questões chamam logo a atenção: 1. Qual texto foi escrito primeiro e quem usou quem na sua confecção final?  2. Por que eles são tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes?
Entre as teorias dos usos das fontes e o uso comuns dos próprios Evangelhos, uma das mais aceita é a de que Marcos foi o primeiro a ser escrito e depois os outros dois sinóticos se valeram dele e de outras fontes próprias para a escrita dos seus próprios Evangelhos.  Marcos assim, interpretando a tradição de Pedro, redigiu seu evangelho em primeiro lugar e o compartilhou com a igreja, chegando ao conhecimento dos evangelistas que o usaram como referência.
Segundo especialistas, os argumentos para esta primazia de Marcos são basicamente três:
1. A brevidade de Marcos, ou seja, sendo ele menor e mais resumido, melhor se explicaria o surgimento dos evangelhos com maior conteúdo, e não o contrário; 
2. O estilo canhestro de Marcos, e isto tanto no uso menos elegante do grego, quanto na maior predominância de expressões semíticas, mais uma vez é mais fácil explicar o surgimento posterior – com melhoria e depuração de estilo pelos outros sinóticos que o contrário;
3. A teologia mais primitiva de Marcos, com expressões mais complicadas de se harmonizarem teologicamente com as crenças da igreja.
Mas Mateus e Lucas não fizeram só uso de Marcos.  Há material em ambos que não estão em Marcos, o que nos leva a entender que provavelmente eles tiveram acesso ao uma outra fonte comum; que costumeiramente é chamada de fonte Q – de Quelle em alemão.  Quem primeiro propôs a existência desta fonte foi F. Schleiermacher no século XIX se referindo ao que Papias chamou de logias: compilação das palavras de Jesus. 
Acrescente ainda a este fato a real possibilidade de os evangelistas também terem tido acesso a material exclusivo na composição de seus textos, o que nos daria um esquema, mais ou menos, assim para o processo de surgimento dos Evangelhos Sinóticos:


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ONDE ESTÁ SEU DEUS?

Os Salmos 42 e 43 formam um conjunto poético unificado escrito pelos filhos de Coré – ou coraítas – que era um grupo de levitas de Jerusalém, os quais foram nomeados por Davi para cuidarem das portas do Templo (1Cr 26) e com frequência estavam ligados à prática do louvor (2Cr 20:19).
Demonstrando um abatimento profundo e um estado de espírito decaído, estes salmos apresentam a inquietação pelo distanciamento de Deus e consequente sucessão de sofrimento espiritual:
Abismo chama abismo
ao rugir das suas cachoeiras;
todas as suas ondas e vagalhões
se abateram sobre mim.
(Sl 42:7)
Analisemos o poema do Salmo a fim de que soe para nós com mais propriedade o questionamento levantado ao salmista.
O Salmo 42 começa enfatizando que a alma do poeta bíblico anseia por Deus como a corça pelas águas.  A corça, ou cervo, é um animal de hábitos solitários que se alimenta de ervas, geralmente apenas no nascente e no pôr-do-sol.  Por estas características, a corça sempre foi um animal preferido para a caça tanto humana como de outros animais predadores.  Assim, a sobrevivência dele estava diretamente relacionada a sua capacidade de encontrar um abrigo seguro com água fresca onde podesse se defender de seus perseguidores.
É a esta busca que o salmista se compara: assim como a corça anseia por águas correntes, a minha alma tem sede de Deus (Sl 42:1-2).  Sabendo que seus predadores estão à espreita como homens traidores e perversos (Sl 43:1) o salmista exclama que tem necessidade de encontrar Deus pois sabe que ele é meu salvador e o meu Deus (Sl 42:11 e 43:5).
Alguns outros destaques ainda podem ser notados no poema que nos ajudam a entender a dor do salmista.  Diante da solidão e da necessidade de se reencontrar com um Deus que é abrigo seguro (Sl 31:20) e água que dessedenta (Sl 107:9), o autor do Salmo insiste em trazer à lembrança os tempos em que junto com a multidão de fiéis ia em procissão à casa de Deus (Sl 42:4); parece que neste momento é só o que lhe resta!
O salmista sabe que quando a vida resseca a alma é preciso não perder de vista o foco nem a lembrança dos tempos na presença do Senhor para não perder também a esperança nem a certeza de que somente no abrigo divino se haverá de encontrar o refúgio necessário e água viva (Jo 7:38).
Mas a espera parece estar sendo longa demais:
Quando poderei entrar
para apresentar-me a Deus?
(Sl 42:2)
É neste contexto que o questionamento feito ao salmista lhe soa mais incisivo e duro: “Onde está o seu Deus?” (Sl 42:3 e 10).  Sentindo carência de Deus e procurando consolo e abrigo num Ser que lhe parece tão distante, tudo o que resta nesta vida é experimentar uma agonia mortal (Sl 42:10) provocada pela zombaria dos seus adversários e se nutrir das próprias lágrimas (Sl 42:3) na tentativa desesperada de encontrar respostas.
E o pior é que nem em seu próprio íntimo o salmista encontra refúgio.  Se os outros lhe questionam sobre onde está o Deus que não acode os seus, quando estes estão sendo perseguidos; a alma do salmista é tomada de uma profunda tristeza, melancolia e desespero:
Por que você está tão triste,
ó minha alma?
Por que você está tão perturbada
dentro de mim?
(Sl 42:5 e 43:5)
Talvez mais difícil que não ter resposta àqueles que são seus inquisidores é sentir o ânimo fraquejar diante da solidão divina.  O salmista sabe que mais aterrador que a pergunta feita pelo mundo sobre seu Deus é o vazio interior, e com a alma sedenta ele exclama:
Como água me derramei,
e todos os meus ossos estão
desconjuntados.
Meu coração se tornou cera;
derreteu-se no meu íntimo.
(Sl 22:14)
Diante desta situação o salmista sabe que lhe resta uma saída: voltar-se para seu Deus e dele esperar uma solução para o seu caso.  Esta postura vai, contudo exigir duas atitudes: em primeiro lugar é preciso elevar uma súplica sincera pedindo pelo auxílio divino, afinal o autor bíblico sabe que não há problema espiritual que a companhia do Senhor não resolva:
Conceda-me o SENHOR o seu fiel amor de dia;
de noite esteja comigo a sua canção.
É a minha oração ao Deus que me dá vida.
(Sl 42:8)
Esta primeira atitude leva a uma segunda.  A oração ao Deus que dá vida e a canção de adoração ao Senhor do amor fiel produz uma esperança inabalável no interior do seu servo.  Somente aquele que consegue esperar confiadamente nas providências divinas pode ter respostas aos questionamentos dos seus adversários e as suas dúvidas mais profundas.  A confiança no Senhor produz esperança e esta esperança não nos decepciona (Rm 5:5).  É por isso que o salmista pode repetir por três vezes com toda convicção:

Ponha a sua esperança em Deus!
Pois ainda o louvarei;
Ele é o meu Salvador e o meu Deus
(Sl 42:5; 42:11 e 43:5)

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

SITUANDO O APOCALIPSE – O final do 1º século cristão

O livro de Apocalipse que lemos na Bíblia é um livro sui generis no conjunto dos nossos livros sagrados.  Sabemos que o autor estava exilado na Ilha de Patmos (cf. Ap 1:9), uma pequena elevação grega no Mar Egeu para onde, na época, os romanos degredavam seus criminosos e opositores.
Mas não foi somente isso que influenciou na produção da obra.  Então, para ajudar a entender melhor o contexto onde o livro surgiu, veja a seguir em linhas rápidas algumas observações sobre o mundo de então:
* A Grande Pirâmide de Gizé já tinha 2.500 anos.  Em Roma, o Coliseu ainda não tinha sido construído.  Os geógrafos da época sabiam que a Índia era no Extremo Oriente, a Etiópia era no extremo sul, a Ibéria para o oeste, e "Scythia" e "Celtica" para o norte.  A Grã-Bretanha já era conhecida, e os estudiosos mediterrânicos tinham uma ideia de que a Escandinávia existia, mas não a sua extensão (este eu copiei de www.fatosdesconhecidos.com.br).
* Desde o século anterior, florescia no Oriente o que ficou conhecido como "estilo apocalíptico" de escrever.  Ele consistia basicamente no uso excessivo – quase abusivo – de mensagens cifradas e figuras (algumas certamente beirando ao surrealismo!), também o recurso de códigos principalmente numéricos para descrever realidades não quantificadas.  Além de narrar o futuro mesclando um ponto de partida histórico com um visionário.
* No final do primeiro século da era cristã, a igreja já havia se expandido a todo o Império Romano e já alcançava diversas regiões além das fronteiras romanas.  Comunidades cristãs organizadas se reuniam em boa parte do mundo conhecido de então.  Com a expansão cristã em um período tão curto e abrangendo áreas tão diversas seria natural que pensamentos e doutrinas estanhas à verdade original da fé começassem a se infiltrar na igreja.
* Observe ainda, na mesma linha, que a expansão do cristianismo colocou a nova igreja em contato com grupos religiosos diversos, gerando uma espécie de concorrência pela primazia da verdade e da fé do povo.  Esta situação, em diversos casos, provocou um endurecimento da postura polêmica da fé cristã em detrimento de sua mensagem de amor e esperança.
* Também com a chegada do final do século, os primeiros discípulos de Jesus já começavam a morrer, silenciando o testemunho primário daqueles que conviveram com o Jesus histórico e que poderiam com autoridade relatar as verdades pregadas pelo Mestre.
* Outro fato marcante para o cristianismo no final do século foi o receio do Império Romano de que este novo grupo – o Caminho como era chamado – desestabilizasse e subvertesse o império, o que provocou o estímulo à perseguição política romana, além da judaica de cunho puramente religioso.
Foi para este contexto que o livro de Apocalipse foi escrito originalmente.  Quando a fé cristã se viu ameaçada em diversas frentes, a Revelação foi dada a João para que este instruísse a igreja e seus líderes – aos anjos das igrejas – sobre como Deus estava no controle da história e que por fim a igreja triunfante transporia todos os obstáculos e mostraria a sua verdadeira face vitoriosa ao lado do Cordeiro – aquele que é o único digno de toda a nossa adoração.

(Na imagem lá em cima, uma foto moderna do Mosteiro de São João, o Teólogo na Ilha de Patmos, construída sobre o local onde se crê que tenha ocorrida a visão de Apocalipse.  O crédito da imagem é do sítio wikipedia.com)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ATOS DOS APÓSTOLOS E A EXPANSÃO DA IGREJA

A expansão oficial da igreja registrada no livro de Atos dos Apóstolos segue a Comissão de 1:8.  Os discípulos estavam reunidos na cidade de Jerusalém aguardando o revestimento do poder do alto conforme instruído pelo próprio Cristo (Lc 24:49) – o que aconteceu no dia de Pentecoste.  Ali começou o ministério da igreja. 
§ Em Jerusalém – Depois da primeira pregação de Pedro alguns discípulos ficaram ainda na cidade de Jerusalém "perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo.  E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos" (At 2:47). 
Esta é a primeira comunidade cristã.  Podemos chamá-la de Primeira Igreja Cristã no Mundo.
§ Na Judéia – A escolha dos sete no capítulo seis apresenta a solução para o problema causado pelos novos cristãos judeus de fala grega que se queixavam de que as suas viúvas estavam esquecidas na distribuição diária de alimentos.  Este primeiro movimento expansionista da igreja foi discreto mas mostrou que o evangelho já havia ultrapassado os limites de Jerusalém e estava alcançando outros judeus além desta fronteira. 
Neste momento a cidade de Antioquia veio se a tornar o grande centro cristão que serviria de base para as futuras expansões missionárias da igreja. 
§ Em Samaria – O capítulo oito começa com a perseguição e dispersão da igreja; e com a perseguição a igreja rompeu novas fronteiras.  "E indo Filipe à cidade de Samaria, pregava-lhes a Cristo" (At 8:5).  Com o trabalho de Filipe, a igreja foi estabelecida em Samaria seguindo o projeto do Mestre. 
Os apóstolos em Jerusalém tendo ouvido falar da conversão dos samaritanos enviaram Pedro e João que "impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo" (At 8:17).
§ Até os confins da terra – O movimento seguinte da igreja começou com a conversão de Saulo (capítulo 9) e iria marcar definitivamente os destinos dos seguidores de Cristo.  A igreja rompeu com as barreiras étnicas e culturais do judaísmo tornando-se uma fé universal – assim como era o projeto original de Deus para seus servos – uma igreja que se projetasse para conquistar o mundo para Cristo. 
Em At 13:2 o Espírito Santo diz: "Separa-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra que eu os tenho chamado".  Este chamado despertou o ânimo missionário na igreja e a impulsionou a chegar nos confins da terra.
Deve ser dito ainda aqui que o Livro de Atos dos Apóstolos é um livro inconcluso.  O último versículo mostra Paulo "pregando o reino de Deus e ensinando as coisas concernentes ao Senhor Jesus Cristo, com toda a liberdade, sem impedimento algum" (At 28:31).  A história não termina assim, ainda falta algo a ser escrito.  É a história da igreja que recebeu uma Grande Comissão de seu Mestre e não terminou ainda de cumpri-la. 
O Livro de Atos, por ser um livro narrativo da ação da igreja, continua aberto pois a igreja de Cristo continua atuante buscando chegar definitivamente com a sua mensagem nos confins da terra, aguardando para ver Jesus descer dos céus assim como para o céu foi visto ir (At 1:11).

(Lá em cima na imagem: um mapa com as viagens do apóstolo Paulo e as principais rotas do Império Romano.  O mapa eu encontrei no sítio fonhbowntos.gr

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

OLHEM O CAJUEIRO

O cajueiro que temos em nosso terreno está todo florido!  Está lindo de ver!  Tudo leva a crer que este ano teremos uma boa colheita de cajus e que o Senhor nos brindará com muitos frutos para desfrutarmos de suas bênçãos nos deliciando com o próprio fruto, sucos, sorvetes, mouses, geléias, castanhas e mais o que a criatividade aprontar.  E pelo jeito vai dar para todos comerem e ainda vai sobrar – Deus sempre faz assim!
A visão do cajueiro me trouxe a pensar nas palavras de Jesus quando alertou para observar a figueira (penso que se fosse por aqui ele tinha apontado o nosso cajueiro).  Citado pelos evangelhos sinóticos (Mt 24:32; Mc 13:28 e Lc 21:29), o Mestre instruiu a entender que como a árvore no seu tempo próprio, a nossa existência aqui também demonstra quando o tempo está para chegar.
É claro que não vou cair na esparrela de tentar marcar data para os acontecimentos vindouros, mas olhando o cajueiro preciso cuidar de ficar atento.  E isso implica em duas posturas iniciais: a) não estar ansioso pois é certo que minhas preocupações nem só não vão mudar em nada a realidade das coisas como por vezes até impedirão minha postura de fé (veja o que Paulo disse em Fl 4:6) e b) não permanecer relaxado, ocioso ou desligado já que tais atitudes me afastam dos compromissos e atitudes cristãs (ainda Paulo em 1Co 16:13).
Voltando ao pé de caju.  A verdade é que o cajueiro não traz ou provoca a chegada do verão, mas também é certa a verdade que ele se prepara para que quando chegar o momento certo possa apresentar o melhor dos seus frutos para quem dele cuidou.  Da mesma forma, eu não provoco com minhas atitudes nem a volta de Cristo nem qualquer outro acontecimento do porvir mas devo me preparar adequadamente para quando eles chegarem.  Como fazer isso?  O próprio texto evangélico nos aponta:
No verso de Lc 21:34 leio que não devo sobrecarregar meu coração com as coisas desta vida.  Se minha prioridade é o reino que está preparado desde a fundação do mundo (palavras de Mt 25:34), então é fundamental não me distrair com outras coisas (sobre isso confira Ef 5:11 e 2Tm 2:4).
Também no verso de Lc 21:35 sou instruído a manter uma disposição de vigilância e oração.  É isto que se espera de todo cristão verdadeiro que vive na dependência exclusiva de seu Senhor e sabe que não resta mais muito tempo (veja a parábola das virgens que segue em Mt 25), ou seja, o crente que espera é o crente que vigia e ora sempre (note a ordem direta em 1Ts 5:17).
O cajueiro está florido e ele está me dizendo que o tempo está próximo.  Que eu possa viver de maneira apropriada aguardando o grande dia do Senhor.

(Esta reflexão eu publiquei originalmente na página da IB Sol Nascente em 25/10/2010.  Na época, estava pastoreando aquela congregação e no nosso terreno, entre outras árvores, havia um grande e frondoso cajueiro, que na ocasião estava todo florido – o que serviu de inspiração para o texto.  Aqui eu o reproduzo com as mesmas palavras de então.  E quanto à imagem: ela foi tirada na época e retrata o próprio cajueiro)

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A necromante de En-Dor – resposta rápida a 1Sm 28

Compartilho aqui mais uma questão que me foi apresentada via e-mail e a resposta que lhe apresentei. 


Bom dia querido.

O texto de 1Sm 28 é bastante interessante e tem algumas lições a nos ensinar.  Mas antes vamos considerar suas questões:

1) Saul se comunicou com o espírito de Samuel?
Toda a narração conta o que aconteceu no encontro de Saul com a médium sem lhe atribuir valor.  Veja a sequência:
-> A mulher pergunta: "Quem devo fazer subir?"
-> Saul responde: "Samuel"
-> Depois do susto da mulher e da insistência de Saul...
-> A mulher diz: "Vejo um ser que sobe do chão"
-> A conversa prossegue e Saul é quem deduz que fosse Samuel pela descrição.
* O importante aqui é destacar que no original a palavra usada para indicar o "ser" que subiu é elohim (אלהים) que em alguns textos se refere ao próprio Deus, mas que pode muito bem ser traduzido como "deuses" ou "espíritos" – talvez seria melhor: "entidade".

2) Na Bíblia, há evidências que isto, verdadeiramente ou não, aconteceu? 
Esse evento narrado aqui é único na Bíblia.  Em nenhum outro lugar se conta algo parecido.  Mas convém ressaltar:
A Bíblia trata como pecado a tentativa de consultar mortos sobre qualquer questão.  Leia o que diz Dt 18:10-12.  Também Is 8:19 (e aqui a expressão para o 'espírito' é a mesma que encontramos em 1Sm!).
Lembre também que o próprio rei Saul foi punido por esse ato – note 1Cr 10:13-14.

3) No verso 15, mesmo na tradução de Almeida atualizada, afirma: "Samuel disse a Saul"...as principais traduções em português se baseiam em fatos verídicos. Entendo que aquilo que é relatado não é fruto da imaginação de Saul, estou certo ou errado?
Vamos lá.  O que se espera de uma boa tradução é que seja fiel ao texto original.  Avaliações críticas e interpretações ficam por conta da exegese e hermenêutica do texto.
Na citação em particular, o enredo é narrado a partir percepção de Saul (induzido, tendencioso, equivocado !!!).  Neste sentido a tradução fiel diz o que está no original.  Cabe a nós entender a passagem.

4) Como entender a visão da mulher necromante no verso 12?
Lá na resposta da primeira questão já apontei alguns caminhos que devem ajudar a responder esta aqui.  O trabalho de necromancia (mediunidade) está presente em diversas e diferenciadas culturas humanas ao longo de toda a história.  O desejo de obter conhecimento dos mistérios e das divindades nos acompanha!
O texto porém deixa claro que nem mesmo a mulher sabia direito o que estava vendo – observe o comentário dela no verso 13.

Permita-me ainda acrescentar um comentário.  Tenho trabalhado com o "Comentário Bíblico Africano" – ele é bom. E em se tratando deste assunto, nossos irmãos da África parecem dominar mais o assunto.  Veja o que ele diz comentando o texto:

Esses espíritos consultados são demônios, mas geralmente assumem a forma de algum parente ou pessoa conhecida com o intuito de oprimir e exigir sacrifícios.
(...)
O mundo espiritual existe e está repleto de atividade, mas o filho de Deus é vitorioso sobre as atividades do mal porque no calvário Cristo despojou "os principados e as potestades" e nos deu a vitória (Cl 2:14-16) (p. 375).

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

NINGUÉM EXPLICA DEUS

Confesso que não é comum uma música me chamar a atenção assim de cara – principalmente quando se trata da mais recente hit parade.  Talvez com isso eu também esteja confessando um resquício de preconceito, se for, por favor me perdoem!  Mas reconheço que a chancela da história me traz sempre um conforto intelectual e espiritual.  Ainda mais em se tratando de música para a alma.
Então deva ser por isso que as primeiras vezes que ouvi os acordes da canção: Ninguém Explica Deus, da banda mineira Preto no Branco, ainda nos meados do ano passado, não me atiçaram as idéias, nem acalentaram o espírito.
Mas o tempo passou...  Não muito...
Então, eis que mais uma vez a canção volta aos meus fones de ouvido.  Agora parei e dei a atenção devida.  Sim!  Chamou minha atenção.
É verdade: Ninguém explica Deus!
Longe de mim querer analisar aqui o projeto da banda; a escolha das palavras que compõem a música; ou as tendências e critérios do mercado fonográfico.  Não tenho um 'para quê' fazer isso aqui.
O certo é que a melodia calma e a letra da canção me convidaram para passear com as idéias sobre fé, certezas dogmáticas e Revelação.  Penso que essa deve ser a tarefa de todo bom trabalho teológico.
E talvez eu esteja indo longe demais...  mas vou insistir ainda um pouco por aqui antes de voltar à canção.
Agostinho no século IV já dizia: "Fizeste-nos, Senhor, para ti e o nosso coração está inquieto até descansar em ti".  E entendo que ele se referiu bem àquilo que instiga a alma humana: o universal desejo inato de dar sentido a nossa existência passageira nesta terra.
Por isso foram feitas as poesias.  Por isso se contaram as mitologias.  Por isso se descreveram as ciências.  E humilde ou ousadamente: a Teologia.
Isso mesmo.  Tenho trilhado já há algum tempo pelas sendas teológicas (reconheço que ainda em sua periferia!).  Mas tenho experimentado o labor teológico bem mais que um acadêmico "tratado sobre Deus".  Para mim Teologia é uma conversa de fé sobre Deus.  Porque aqui o logos não é ciência – não deve ser – é discurso, diálogo.
E o prefácio do Evangelho de João fica mais nutritivo.  E eu sei que aqui teríamos muito pano pra manga...
Mais do que explicações que casem o Big Bang – ou a última novidade dos achados científicos que comprovem qualquer coisa – pois isso no máximo alimenta minha curiosidade, mas jamais vai tirar minha sede (e como não lembrar da conversa de Jesus com a mulher samaritana em Jo 4!?)
Mais que o Deus que se explica; a minha alma tem sede de Deus; do Deus vivo (Sl 42).  Um Deus que tudo sabe, tudo pode, mas se compraz em seu povo (Sl 149).
Mais que um Deus que elabora tratados: um Deus que me sussurra no silêncio e dá sentido à minha caminhada.
E assim eu vou continuar teologando: não em busca de explicações, mas desfrutando do aconchego de um relacionamento sem igual.
Então vou voltar à canção, ao preto no branco, para poder falar do inexplicável Deus:

Nada é igual ao seu redor.
Tudo se faz no seu olhar.
O universo se formou no seu falar.
Teologia pra explicar,
Ou Big Bang pra disfarçar.
Pode alguém até duvidar.
Sei que há um Deus a me guardar.

Dono de toda ciência, sabedoria e poder.
Oh, dá-me de beber da água da fonte da vida.
Antes que o haja houvesse,
Ele já era Deus.
Se revelou ao seus,
Do gentio ao Judeu.
Ninguém explica Deus.


terça-feira, 21 de novembro de 2017

AS CARTAS DE PAULO

Por muito tempo se habituou a chamar os escritos apostólicos do NT pelo termo clássico: Epístola.  Mas aqui vamos chamá-las apenas de Cartas.  Os dois termos são praticamente sinônimos, contudo este segundo parece expressar um português mais coloquial e assim uma linguagem mais próxima do nosso cotidiano, o que com certeza deveria ser o objetivo dos autores bíblicos: trazer a fé para a simplicidade do dia-a-dia.
Vejamos então as Cartas do Apóstolo Paulo que encontramos em nossa Bíblia uma a uma:
+ Romanos – A maior entre as cartas de Paulo, a Carta aos Romanos pode estar incluída entre as mais belas páginas da literatura mundial pela sua riqueza estilística e clareza de argumentação.  A igreja cristã na cidade de Roma, capital do Império, não foi fundada pelo apóstolo, mas recebeu toda atenção da parte de Paulo.  O tema central desta carta é a relação entre Lei e Graça e a justificação pela fé. 
Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.
(Rm 5:1)
+ 1ª e 2ª Coríntios – Paulo, provavelmente, escreveu mais cartas aos coríntios, mas somente duas foram conservadas em nossas Bíblias.  O apóstolo esteve na cidade de Corinto em sua segunda viagem, quando fundou a igreja local e entre as igrejas do período do NT talvez esta tenha sido a igreja mais problemática.  Aos Coríntios, Paulo escreveu enfatizando a pureza da vida cristã e a necessidade de boa conduta. 
Fugi da impureza. (1Co 6:18)
+ Gálatas – A Galácia era uma região da Ásia Menor visitada por Paulo na sua terceira viagem missionária.  A carta deveria ser algo como uma cartacircular a ser lida por todas as igrejas da região.  Gálatas pode ser considerada uma espécie de resumo da Carta aos Romanos por seu conteúdo e ênfase. 
Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão vale coisa alguma; mas sim a fé que opera pelo amor. (Gl 5:6)
+ Efésios – A igreja na cidade de Éfeso foi fundada por Paulo em sua segunda viagem e por ela o apóstolo nutria um carinho todo especial.  Os assuntos que dominam esta carta são a salvação pela fé em oposição às obras e a conduta cristã na família e na sociedade. 
Portanto, vede diligentemente como andais, não como néscios, mas como sábios.
(Ef 5:15). 
+ Filipenses – Paulo esteve em Filipos na segunda viagem onde ficou preso.  Quando escreveu a carta, também deveria estar preso, o que não impediu de que a Carta aos Filipenses fosse aquela em que o apóstolo mais enfatiza a alegria de ser cristão. 
Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos. (Fp 4:4).
+ Colossenses – A cidade de Colossos deve ter sido visitada por Paulo na sua terceira viagem missionária.  Esta carta, que deveria ser também compartilhada com os cristãos laodicenses, demonstra um certo distanciamento entre o apóstolo e os primeiros leitores mas, mesmo assim, expressa a preocupação do autor com a fé e o crescimento cristão da igreja. 
Pois quero que saibais quão grande luta tenho por vós, e pelos que estão em Laodiceia, e por quantos não viram a minha pessoa. (Cl 2:1)
+ 1ª e 2ª Tessalonicenses – Estas devem ter sido as primeiras cartas escritas por Paulo conservadas no NT.  Paulo esteve em Tessalônica na sua segunda viagem e escreveu as cartas com a clara intenção de fortalecer a fé dos cristãos e animá-los quanto à esperança da volta de Cristo. 
E o próprio Deus de paz vos santifique completamente; e o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
(1Ts 5:23).
+ 1ª e 2ª Timóteo – As cartas a Timóteo são obra do final do primeiro século quando já a igreja se mostrava com uma relativa organização interna.  Timóteo era um jovem cristão que acompanhou Paulo em sua segunda viagem e se tornou líder da igreja.  As cartas foram escritas como manuais de orientação para líderes. 
Ninguém despreze a tua mocidade, mas sê um exemplo para os fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. (1Tm 4:12).
+ Tito – O personagem Tito não é citado no livro de Atos dos Apóstolos mas Paulo faz referência a ele aos coríntios como sendo alguém de sua relação pessoal.  O objetivo da carta é aconselhar a diversas classes de cristãos a cerca do bom comportamento. 
Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina. (Tt 2:1).
+ Filemom – A pequena Carta a Filemom – na verdade um bilhete – é um encaminhamento do escravo fugido Onésimo que, tendo sido alcançado pelo Evangelho pregado por Paulo, agora retornava ao seu senhor Filemom; devendo ser então recebido com amor cristão. 
Assim pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. (Fm 17)

Em geral:
Nas cartas de Paulo nós encontramos dispostas todas as principais doutrinas da fé cristã, assim como vários conselhos úteis à vida do fiel cristão neste mundo.  Estas cartas são ricos documentos que nos inspiram e ensinam o que devemos crer e como devemos nos comportar.


sexta-feira, 17 de novembro de 2017

SOMOS O BARRO

Ouvi, não faz muito tempo, uma valiosa mensagem proferida pelo amigo e colega pastor Pedro Alexandre (da IB de Estância – aqui em Sergipe).  A reflexão tomou como base o texto da profecia de Isaías que diz: 
Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai,
nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro;
e todos nós, obra das tuas mãos. 
(Is 64:8)
Logo depois da celebração do culto, fui falar com o colega e solicitei autorização para compartilhar pelo menos o esboço e algumas ideias principais aqui neste espaço.
Assim, com a devida aquiescência, comecemos de novo com os pontos principais e alguma pitada pessoal.

SOMOS O BARRO


O ensinamento bíblico diz que nós fomos feitos pelo próprio Deus a partir do pó da terra – do barro.  E é observando o barro que aprenderemos quem somos e quem realmente poderemos ser.
Estas são algumas características do barro.
1.       Nulidade – o barro em si não vale nada.  Não gera riqueza.  Tem muito dele por aí e ninguém luta por ele.  As nações lutam por recursos: ouro, petróleo; mas não por barro.  Ele é comum e frágil.
2.      Fragilidade – diferente de metais ou outros materiais, o barro é sempre frágil.  Em estado natural pode ser diluído facilmente com apenas um pouco de água.  Deformado e reformado.  E se vai ao forno, de lá sai quebradiço.
3.      Involuntariedade – ele pode tomar diversas formas.  Pode ser constantemente deformado e reformado – desfeito e refeito.  E qualquer punhado de barro pode servir para se fazer qualquer coisa. 
E aqui começa a diferença.  O segredo e potencial nunca está no barro – ele continua sendo sem valor, frágil e sem vontade própria.
— Barro não faz birra!
Então, exatamente por isso, o barro se converte na matéria prima perfeita nas mãos do artista.
Quando uma simples matéria prima, um barro qualquer, passa pelas mãos do artista o que era mediocridade vira arte.  O que era nulidade ganha valor – vale uma fortuna.  O que era fragilidade enriquece em densidade – alcança significado.  O que era involuntariedade se objetiva, toma forma – encontra razão de ser.
E antes que haja dúvida: Deus é um eximindo artista, criativo e fecundo!
Assim, quero terminar como o profeta, com um reconhecimento e uma oração:
Meu Deus e meu Pai.  Com alegria me entrego completamente a ti.  Tu és o gracioso oleiro e eu um simples barro.  Em tuas mãos a arte santa e eterna se fazem mim.  E que seja para tua glória.  Amém.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

O Seminário "liberal" onde estudei

"Há sempre algum proveito quando o mestre não é de inteira confiança: o aprendiz precisa convencer-se a si mesmo sobre as verdades"
(Soren Kierkgaard, em "As obras do amor")

Estudei em um seminário taxado pejorativamente de "liberal".  Digo pejorativamente porque há um misto de desonestidade e pequenez intelectual em quem a ele aplica este termo. 
DESONESTIDADE, porque a intenção de quem usa o termo não visa construir pontes em busca do fortalecimento da unidade na diversidade.  Antes, quem assim o taxa geralmente é um construtor de muros, amante da discriminação alheia, em busca de proteção do próprio status quo, de sua zona de conforto, do incômodo de quem o contesta, da hegemonia do seu poder.
PEQUENEZ INTELECTUAL porque o termo liberal pode significar tanta coisa que, por paradoxal que possa parecer, até de conservador pode ser sinônimo.  Por exemplo: o capitalista conservador é liberal, pois defende a manutenção do liberalismo nas relações de mercado.  Para ele, conservar as relações de produção e consumo distantes do controle do Estado seria o melhor caminho à vida em sociedade. 
Outro exemplo: os batistas nasceram sob a bandeira da defesa da liberdade.  Liberdade de crença, de pensamento, de opinião, de interpretação das Escrituras, de reunir-se, de organizar-se, de autogerir-se como igreja local, de cooperar com outras igrejas e não controlá-las, defendendo tudo isso bem distante das "garras" do Estado que controlava a Igreja Anglicana e as manifestações religiosas na Inglaterra do século XVII. 
Logo, ser um batista conservador deveria ser apegar-se e lutar para conservar essas raízes "liberais".  Isso, entretanto, contraria o agir daqueles que se autodenominam "conservadores", cuja práxis – teoria e prática – insiste em pretender uniformizar e controlar o pensamento coletivo, movido por uma visão político-empresarial diametralmente oposta aos exemplos de Jesus e que, sob pretexto de unificar forças visando fortalecimento denominacional e crescimento numérico, estão agindo como o Estado inglês agia com os insurgentes da igreja quando do nascimento do movimento batista.
O seminário "liberal" onde estudei era – e era aqui não significa juízo de valor sobre o que hoje é, mas minha percepção histórica dos tempos em que lá estudei – um espaço PLURAL.  Embora autônomos e com senso crítico regido por razão, não por rancor, não percebia postura desafiante da parte dos professores com os quais estudei em relação à denominação mantenedora.  Era visível o predominante conservadorismo em torno do respeito à liberdade de pensamento no corpo docente.
Essa pluralidade – que alguns equivocada, maldosa e pejorativamente classificam como "liberalismo" – foi decisiva no preparo de muitos líderes com postura de "servos não subservientes" que têm se destacado em todos os espaços decisórios dentro e fora da denominação batista.
No seminário "liberal" onde estudei, éramos estimulados a ler diretamente o que pensavam os que pensavam a teologia, a missão, a eclesiologia, enfim, em vez de ficarmos restritos ao pensamento dos professores sobre o que pensavam os que pensavam esses assuntos.  Os professores expunham seus pensamentos, tinham opinião própria, mas o espírito não era substituir a cabeça do aluno por suas cabeças, pois isso não seria educação desejável, mas lavagem cerebral. 
Ninguém é exclusivamente liberal ou conservador.  A pessoa consciente de si, do grupo com o qual caminha e dos grupos alternativos ao seu redor, reconhece que esses conceitos precisam ser continuamente entendidos, redefinidos, e se misturam em nós – trocadilho -, em maior ou menor grau, dependendo do assunto e do contexto.  Apequena-se, portanto, quem usa a palavra "liberal" politico-teologicamente de forma pejorativa, visando desvalorizar, marginalizar ou destruir o outro, seja por ignorância ou má-fé.
Tornei-me um pastor e líder conservador quanto aos princípios da tradição batista mais antiga por ter estudado em um seminário cujos professores foram competentes, honestos e tiveram autonomia para nos ensinar a estudar, em vez de programar nossas jovens mentes para tornar-nos meras mãos e mentes de obra manipuláveis por pessoas inescrupulosas que se aproveitam daqueles que cultivam boa-fé 
Qualificar o seminário onde estudei de "liberal" é um elogio, se entendido o significado amplo dessa palavra e seu vínculo com as mais remotas histórias dos batistas.  Por outro lado, chamá-lo de "conservador", em termos populares, como usado por alguns político-ideólogos de religião, pode ser agressivo às histórias dos batistas, pois esses ideólogos, em vez de conservarem o espírito de liberdade, criam camisas-de-força, identificando-se com, repito, o Estado inglês do século XVII do qual nos libertamos, quando levantamos a bandeira da liberdade para nós e para todos.
Em resumo: no Seminário "liberal" onde estudei, fomos estimulados a considerar seriamente a veracidade das palavras de Jesus: "Eis que vos envio como ovelhas em meio a lobos, portanto, sejam simples como as pombas, mas prudentes como as serpentes".  Ainda bem que estudei nesse Seminário "liberal" e aprendi bem essa lição!

Este texto foi escrito pelo colega e amigo Edvar Gimenes (ele publicou no dia 31/10/2017 no sítio blogdoedvar.blogspot.com.br) e, por ter estudado no mesmo Seminário e ter recebido as mesmas boas influências, tomo a liberdade de republicar aqui – assim com os devidos créditos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A FORTALEZA DE LUTERO

Neste ano de 2017 celebramos os 500 anos da Reforma Protestante.  A data em si se refere ao episódio que foi tomado como marco significativo para o estopim do movimento: o momento em que o alemão Lutero fixou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg em 31 de outubro de 1517 nas quais questionava várias posições da Igreja de seu tempo.
Detalhe 1: o que ficou conhecido como as 95 TESES na verdade foram 95 PROPOSIÇÕES ou FRASES que Lutero escreveu para iniciar o debate.
Detalhe 2: fixar teses a serem defendidas em um debate público na porta do principal templo, na época seria o mesmo que postar 'textão' em uma rede social hoje e se preparar para o debate pesado e acalorado quando viralizar – foi isso que Lutero fez!
Mas, voltemos ao assunto.  Neste ano de celebração – afinal 500 anos é marca mais que significativa – muito se tem falado, escrito, proposto, debatido, refletido sobre o tema.  O que realmente faz jus ao contexto e propósitos originais.  Eu mesmo, não somente já publiquei aqui uma cronologia da época aproveitando o ensejo (veja aqui), como também tive a oportunidade de participar de alguns eventos nesta intenção aqui em Aracaju.
Além do que, a própria internet aproveitou bastante a ocasião para citar e comentar (e como sempre: está inundada de gente a favor e contra).  Então vou me poupar o trabalho de citações históricas e análises mais aprofundadas.
Quero trazer a lume (gostei desta frase!) apenas algumas observações que me sobressaíram à cabeça nestes dias de reflexão sobre o assunto: a música da Reforma.
Não é segredo para ninguém que gosto de música, e relacioná-la à fé e à vida me atrela de um jeito visceral a Lutero e à herança protestante.  Entre os trabalhos e contribuições do reformador alemão estava em fazer o povo cantar a sua fé. 
Lutero sabia que a música ajuda a memorizar e acatar a doutrina, enleva a alma e produz um gracioso senso de comunidade e pertencimento – além de louvar a Deus: claro!  Ele mesmo compôs, arranjou e publicou várias canções e hinos sacros tornando o culto luterano mais alegre e participativo e deixando uma herança tão formidável que dela vem ninguém menos que J.S. Bach – mas isso já merecia uma outra crônica.
Por outro lado: como batista, sou um herdeiro indireto dos reformadores do século XVI.  Mas me sinto bem à vontade, em casa, entre eles.  Chamá-los de irmãos é reconhecer nossa raiz comum: a própria fé cristã e os ventos de renascimento social e eclesiásticos que sopraram naquela velha Europa.
Assim, eu canto os mesmos hinos dos irmãos luteranos, presbiterianos, metodistas, episcopais, e por aí vai...  alguns hinos de cinco séculos, outros recebidos da renovação wesleyana do século XIX, e outros, igualmente inspirados e abençoados dos cristãos do século XXI.  Todos fazendo jorrar o caudaloso rio da música protestante.
Nós cantamos.  Lutero nos ensinou.  E eu gosto muito de cultuar assim.
Mais uma vez, voltemos ao assunto, antes que me delongue muito – se bem que agora nem me desviei muito.
Falar da música de Lutero é lembrar de Castelo Forte – em alemão: Ein feste Burg ist unser Gott.  Linda.  Forte.  Cativante.  Inspiradora.
Para se ter uma ideia de como esta música está entranhada em nossa tradição, veja onde eu posso encontrá-la em português: No Cantor Cristão (é o hino de número 323), no HCC (# 406) – ambos batistas; no Hinário Luterano (# 165); no Hinos do Povo de Deus (# 97 – também luterano); e mais: Salmos e Hinos (#640); Hinário Adventista (# 33); Harpa Cristã (# 581); Hinário Presbiteriano Novo Cântico (# 155).  E se procurar mais, sei que vai achar.
Quanto ao hino?
Lutero, em meio as muitas batalhas travadas enquanto prosseguia tentado reformar a igreja, ele sempre teve como alento o Salmo 46 que diz: O Senhor é nosso refúgio e fortaleza.  Foi daí que ele tirou a inspiração para cantar (aqui na versão em português do HCC):
Castelo forte é nosso Deus, escudo e boa espada.
Com seu poder defende os seus, a sua igreja amada
com força e com furor nos prova o Tentador,
com artimanhas tais e astúcias infernais
que iguais não há na terra.
(...)
Sim, que a Palavra ficará sabemos com certeza,
pois ela nos ajudará com armas de defesa.
Se temos de perder família, bens, poder,
e, embora a vida vá, por nós Jesus está
e dar-nos-á seu Reino.
Deus é o nosso castelo forte, a nossa fortaleza sólida.  É esta convicção que mobilizou e animou Lutero, e ainda nos inspira hoje.  Um Deus forte que nos forma – reforma, sustenta e protege.  É o socorro bem presente na hora da angústia.  E nos somamos a Lutero neste canto de afirmação de fé e adoração.
=> E quanto as imagens:
Lá em cima, Retrato de Martinho Lutero pintado por Lucas Cranac em cerca de 1540. 
Aqui em baixo uma reprodução de Castelo Forte com a assinatura de Lutero

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Geração resgatada por Deus, restaurada por Jesus

Faço parte de uma geração que viu a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética; que ouviu falar pela primeira vez no vírus da AIDS; que migrou das fitas cassetes e discos de vinil para os CDs e DVDs; que começou a usar computadores em casa; que lutou pelas DIRETAS JÁ e viu o fim do governo militar; que comprou com Cruzeiro, Cruzado e Real.
Faço parte de uma geração que viveu a década de ouro dos Vencedores por Cristo; que ficou chocada com a morte trágica do cantor Jairinho, do Grupo Ele, e viu nascer o Grupo Logos; que começou a ouvir os cantores Armando Filho e Jailton Santos; que adotou os cânticos  das Comunidades Evangélicas nos momentos de louvor.
Faço parte de uma geração que viu o antigo templo da PIBA ir ao chão e viu erguer-se o novo, inclusive ajudou a limpar para a inauguração; que entrava no micro-ônibus para fazer evangelismo nos bairros de Aracaju e no interior, contribuindo para a formação de congregações e igrejas; que começou a frequentar o Manaim quando só existia uma casa velha; que timidamente começou a usar guitarra e bateria nos cultos, mas que também levantava a voz com um entusiasmo contagiante para louvar com cânticos e hinos (até do Cantor Cristão, acredita!?).  participei do Conjunto Embaixadores de Cristo e ouvi o Grupo Alfa.
Mas não sou saudosista.  Não quero dizer que "no meu tempo é que era bom".  Foi bom mesmo, mas "esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo" (Fl 3:14-15).
Faço parte da Geração Retrô (palavra que significa algo que remete ao passado, mas volta a estar na moda).  Faço parte da geração que volta a entrar no ônibus, ou em seus próprios carros, para percorrer Sergipe de alto a baixo cantando a levando a Palavra; da geração que faz acampamento no Manaim e também no Coco Beach; que se encontra para orar juntos ou só mesmo para rir.
Que privilégio!  Faço parte de uma geração que foi resgatada por Deus e restaurada por Jesus;  toda a glória a Deus!

Emilia Cervino Nogueira – Retrô
(do Boletim da PIBA em 05/11/2017)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

LOUVORES DO APOCALIPSE

Apocalipse – o último livro da Bíblia cristã – foi escrito como uma ode de alegria e esperança.  Com base nessa compreensão, tenho lido e interpretado o texto.  Não tenho dúvidas que em Apocalipse há mais expressões de louvor e adoração Àquele que é Digno que em qualquer outro texto no Novo Testamento.
Isso eu tenho repetido sempre que falo, estudo ou escrevo sobre este livro.  Mas aqui não quero apresentar um tratado exegético sobre o Livro da Revelação, suas visões, vaticínios e profecias. Estou trabalhando nisso, mas não aqui.
Então, pensando em Apocalipse como um compêndio de adoração e louvor, resolvi fazer uma lista de hinos e canções baseados no livro bíblico.  Não será uma lista extensa, apenas algumas me vieram à mente em meia horinha de exercício de memória.  Sei que há inúmeras outras composições baseadas em Apocalipse.
Veja a relação, como sugestão de louvores do Apocalipse:
A primeira canção que me vem naturalmente é o Canto do Apocalipse.  Em português gravada pelo grupo Diante do Trono em 2010.  O original em inglês – Revelation Song – foi composto por Jennie Lee Riddle no ano anterior.  Gosto em particular desta música.  Melodia e harmonia se casam bem e posso crer que consiga reproduzir um pouco do que foi a canção triunfante que João testemunhou.
Penso que o trabalho de Sérgio Lopes gravado em 2004 intitulado Carta às 7 Igrejas apresentou um grau maior de dificuldade para ser confeccionado.  Mas ficou muito bom o resultado.  O que seria naturalmente esperado, considerando o compositor.
Tem mais.  No Hinário para o Culto Cristão (HCC) temos o de número 43, uma composição de P.M. Mills em 1963 e baseada em Ap 4:11 – Tu és Digno.  Melodia que nos conduz à reflexão e à adoração.
Ainda no HCC (número 80 – este eu já conhecia antes de ir para o hinário) – da obra de Guilherme Kerr de 1985: Bendito Seja sempre o Cordeiro (a gravação original foi intitulada: De Todas as Tribos).  Uma excelente adaptação do Ap 7:9-10.
Também me ocorre lembrar da música Primeiro Amor, de Aurélio Rocha gravada pelo Rebanhão em 1988 que dizia "eu quero voltar ao primeiro amor" e que claramente tem por base Ap 2:4.  Este se tornou um hino – um clássico.
Outros louvores que nós, da igreja brasileira, aprendemos e cantamos com alma:
-) Alfa e Ômega do compositor Livingston Farias, baseado em Ap 1:8 / 21:6 / 22:13.  Já cantei tanto em versões congregacionais quanto corais.
-) Glória pra Sempre.  A autoria é de A.T. Queiroga e foi gravado por Vencedores por Cristo em 1975.  A base é o capitulo cinco de Apocalipse.  Indispensável em qualquer relação de louvores para a igreja.
-) Santo é o Senhor.  Refrão que conheci gravado na voz de Asaph Borba em 1984 e que repete as palavras de Ap 4:8.  Fácil de decorar e de cantar.
-) Ao que Está Sentado.  Também de Vencedores por Cristo gravado em 1980.  O texto base é Ap 5:13.  Nunca nos cansamos de entoá-lo novamente.
-) Rei das Nações.  Ainda Vencedores por Cristo, desta vez em 1988 com as palavras de Ap 15:3.  Desde o começo do louvor que diz: "Grandes são as tuas obras" até o refrão, sempre eleva a igreja em adoração.
-) Aleluia, Salvação e Glória.  Este é do grupo MILAD, trabalho de 1986.  Cantamos Ap 19:1.  A sequência melódica é gostosa e a letra bíblica, um canto completo.
E antes que fique cansativa a lista – observe que todas aqui listadas são do fim do século XX e início do XXI – vou terminar com a obra atemporal do grande G.F. Handel.  No magnífico oratório "O Messias", a sua mais significativa música: ALELUIA toma as palavras de Ap 11:15 – estes são os louvores do Apocalipse:
O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre. (NVI).
Aleluia!