sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CADÊ DEUS?

Os Salmos 42 e 43 formam um conjunto que abrem a segunda parte do Saltério.  Eles dão expressão à alma do salmista que lamenta a tristeza, a carência e um sentimento de ausência de Deus – sentimento este que só tende a se alargar diante do questionamento: Onde está teu Deus? (42:3 e 10).
Esta é uma questão aterradora: diante da vida e das circunstâncias, onde está meu Deus?  Onde posso encontrá-lo?  O que aconteceu que não estou percebendo o seu agir em minha vida?  Tal questionamento feito ao salmista, muito bem pode ser aplicado à nossa vida hoje: Cadê Deus?  Veja se isto tem ficado perceptível também em sua vida, como ficou para o autor bíblico: porque não sabia onde está Deus, a alma estava sedenta (42:2); somente as lágrimas nutriam a sua vida (42:3) e a alma estava perturbada (42:5).
E tem mais.  O próprio salmista constata que a sensação de isolamento divino era uma cruel realidade mesmo em meio a uma multidão alegre que festejava (42:4).  Ele sabia que o vazio interior de Deus não pode ser preenchido por celebrações exteriores.  É por isto que o desespero só tende a crescer, é um abismo arrastando outro abismo (42:7).
Como acalentar a alma sofrida se Deus está ausente?  Onde está Deus no meio deste deserto? 
Nos Salmos está a única resposta possível a esta carência inquietante.  Por três vezes o salmista observa: ponha a sua esperança em Deus! (42:5; 11 e 43:5).  Deus está na esperança que é a irmã da fé.  Por conta disto o salmista toma a decisão definitiva: então irei ao altar de Deus (43:4).  Não importam as circunstâncias, Deus só pode ser encontrado no altar.  Quando me colocar neste lugar então encontrarei o Deus que me sacia.
Diante desta pergunta que insiste em voltar: onde está teu Deus?  Volte-se para o altar pois é lá que a esperança divina renasce e o encontramos de braços abertos. 
Que assim se torne a nossa alma para a glória de Deus.

(Publiquei inicialmente esta reflexão em 24/09/2010 com o título 'Onde está teu Deus?' no sítio http://ibsolnascente.blogspot.com.br)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Tertuliano: A Bíblia e a Filosofia

Gostaria de pensar um pouco sobre a relação entre a Bíblia e a Filosofia em Tertuliano.  Serão considerações rápidas.  Tertuliano teve uma formação acadêmica e filosófica invejável na cidade de Roma e mesmo quando aceitou o cristianismo manteve sua mente filosófica, quer na maneira de argumentar, quer aproveitando as citações da Filosofia.  Tertuliano foi por formação advogado mas em nenhum momento descuidou do mundo filosófico.  Se ele pôde ser um árduo defensor da verdade cristã, ele o foi porque usou todos os recursos que tinha à mão, inclusive da Filosofia da sua época.
Em dois momentos específicos Tertuliano demonstra conhecer profundamente a Filosofia e a cultura latina clássica e contemporânea sua.  Em De Præsc. XXXIX ele cita Virgílio e Ovídio, mas o faz como uma espécie de ponte entre as idéias dos seus adversários e as das Escrituras.  Nesta passagem, para Tertuliano, o que os hereges fizeram foi apenas mutilar as Sagradas Escrituras como o fizeram os remendões poéticos com os autores clássicos.  O outro exemplo é na exortação aos mártires, que Tertuliano faz um paralelo entre os preceitos do Senhor em Mateus e os fatos da história recente e da Filosofia greco-romana.  Aqui o objetivo é claramente fazer sobressair o texto bíblico sobre a própria Filosofia (cf. Ad. Mart. IV : 1).  Em ambos os casos Tertuliano usa a Filosofia somente com o objetivo de fazer provar seu ponto de vista.  Não vendo assim um valor normativo de verdade,  Tertuliano usa a Filosofia somente por ser rica em exemplos que podem ser usados para ilustrar seus argumentos.
Mesmo usando do recurso da Filosofia, Tertuliano não consegue aceitar a hermenêutica filosófica pois ela é a mãe das heresias (De Præsc. VII).  Em todos os seus argumentos contra os hereges este ponto se mantém inalterado para Tertuliano: os hereges apresentam uma leitura diferente do texto bíblico exatamente porque deixaram o caminho da igreja e deram ouvidos aos filósofos, ou seja, ouvir Platão, Epicuro ou Aristóteles implica em não ouvir Jesus e Paulo.  A questão levantada por Tertuliano é a seguinte: que haverá de comum entre Atenas e Jerusalém? entre a Academia e a Igreja? entre os hereges e os cristãos?  Para Tertuliano, Filosofia e cristianismo sempre que se casaram tiveram como resultado a heresia.
Mas Tertuliano não tem como negar que alguns pressupostos filosóficos se alinham com as verdades cristãs.  Por mais que a Filosofia esteja na gênese da heresia, na própria Filosofia encontramos muitos pontos em concordância com os princípios cristãos.  Para Tertuliano, neste caso, mesmo que assim fosse, as divinas Escrituras são muito anteriores aos livros profanos (De Test. Animæ V).  A comparação aqui é especificamente entre os textos do Antigo Testamento e dos gregos clássicos.  O motivo alegado para a superioridade dos primeiros sobre os últimos é simplesmente cronológico.  Se há alguma concordância entre a Bíblia e a Filosofia é porque os gregos copiaram algumas verdades dos judeus e reproduziram-nas na sua Filosofia.  Sendo assim a Filosofia só vem comprovar posteriormente o valor da verdade cristã já provado a princípio pelos judeus.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A GRANDE CELEBRAÇÃO


Gosto muito de celebrar a Ceia do Senhor com a minha igreja.  Ela é um momento singular na vida, na comunhão, na adoração e nas celebrações da igreja de Cristo.  O coração se enche de solene alegria e nunca faltam motivos para celebrar.
Como elemento memorial, a Ceia atualiza, para a vida dos santos, a certeza de que o castigo que nos trouxe a paz estava sobre ele (leia em Is 53:5).  Juntamente a isto, a Ceia ainda é para os redimidos a certeza de que celebramos a expectativa da vinda do que é perfeito (confira 1Co 13:10).
Nas páginas bíblicas, certamente, é que encontro a descrição da grande celebração que antecipo agora na comunhão dos santos.  Veja como é magnífico Ap 19 onde é narrada a concretização do que já celebramos na Ceia do Senhor – aqui está a força espiritual deste ato.  Venha comigo ao texto:
& Ap 19:6 – Aleluia! Pois reina o Senhor.  A Ceia do Senhor é momento de celebração porque festeja a antecipação da vitória definitiva de Cristo (lembre do brado na cruz citado em Jo 19:30).  É profecia e fato consumado que o Senhor Todo-Poderoso irá reinar para sempre, e na Comunhão da igreja hoje já festejo este Reino eterno.
& Ap 19:7 – Chegou a hora do casamento do Cordeiro.  A igreja é a noiva do Cordeiro e está prometida em casamento com o Filho do Rei dos reis.  Assim celebramos juntos desde agora a alegria de podermos desposar a Cristo, o nosso amado (este momento triunfal está narrado logo depois em Ap 21:2).  Por mais que possa parecer demorar, mas a hora vai chegar – e isto é certo!
& Ap 19:9 – Felizes os convidados para o banquete.  Na sua visão, João ouviu o anjo declarar que são bem-aventurados todos os que são convidados para participarem das bodas eternas.  Hoje eu celebro na Ceia do Senhor a certeza inabalável do convite amoroso de Cristo para entrar no seu gozo perene (confio nas palavras de Mt 25:34).
Neste tempo presente, celebro junto com a igreja a Ceia do Senhor, a comunhão com os santos, a antecipação da glória.  Ali como e bebo a antecipação do Reino, do casamento e do convite eterno de amor de Cristo.  É um momento de festa e comemoração e de deixar o coração ser reverentemente tocado.  É ocasião ímpar da adoração da igreja.
Celebremos assim o estabelecimento do Reino de Deus; a chegada do momento final de vitória; e a alegria de estarmos participando Ceia.  Para a glória do Cordeiro e daquele que está assentado sobre o trono.  Aleluia!

(Texto publicado originalmente no sítio http://ibsolnascente.blogspot.com.br em 17/12/2010)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tertuliano e a autoridade das Escrituras

Tertuliano sempre faz afirmações categóricas.  Seus postulados sempre são colocados de maneira tão convicta que nem sequer abre espaço para questionamento por parte de seus opositores.  Se naturalmente seu espírito já se mostra de estar em busca da verdade, sua formação acadêmica em advocacia lhe forneceu as armas para defendê-la de maneira a todas as vezes a sua visão da verdade mostrar-se como a única autorizada e absolutamente certa.  Mas suas afirmações não são feitas no vazio.  Tertuliano convoca sempre para si o peso das Escrituras Sagradas como aval das suas verdades.  Faz-se necessário também lembrar que eventualmente ele cita diversos autores como os da Filosofia greco-romana, mas nitidamente estas já não têm o mesmo valor das retiradas do texto bíblico.
Nosso pai latino não coloca em cheque em momento algum a autoridade dos textos sagrados que usa e nem sequer dá espaço para o levantamento da questão.  Para Tertuliano o texto bíblico deve ser tomado como normativo pela igreja por conta de ser obra da bondade de Deus (Adv. Marc. 2:4).  Mas a força da Escritura vai além: a Bíblia não é só uma dádiva divina, é principalmente a palavra de Deus.  Na sua Apologia, Tertuliano defende os cristãos frente ao império romano colocando o texto sacro nas mãos dos seus oponentes: Examinai a Palavra de Deus, nossas Escrituras (Apol. XXXI).  Logicamente não vamos pensar que Tertuliano fosse esperar que os magistrados do império romano lessem a Bíblia com os mesmos olhos dos cristãos, mas ele sabe que sendo as Escrituras um preceito que imperiosamente manda nos cristãos então estes só podem ser julgados levando-a em consideração.  Em resumo Tertuliano concorda com Paulo quando diz que toda a Escritura própria para edificar é inspirada por Deus (Fem. I 3:3 e 1Tm 3:16).
Cronologicamente Tertuliano pode ser considerado com o meio do caminho entre os apóstolos e o Concílio de Nicéia (ano de 325), mas ele já pensa como se estivesse às vésperas do Concílio.  Em Tertuliano pouco mais de um século se tem passado desde que apareceram os escritos dos apóstolos e estes já circulavam livremente nas diversas comunidades cristãs.  O Antigo Testamento também já estava devidamente incorporado ao uso da igreja – apesar da implicância de Marcião.  Eusébio de Cesareia informa que alguns textos eram lidos inclusive como parte da liturgia cristã.  Tertuliano usa então os textos que já eram conhecidos e usados pelos cristãos, mas já não questiona sua autoridade, como aos poucos começam a fazer seus contemporâneos cristãos.  Em outras palavras, muito da postura dogmática de Tertuliano com relação ao texto sagrado foi sinal de que esta postura já começava a ganhar corpo no seio da igreja cristã no segundo e terceiro século de sua história e de que Tertuliano foi um dos principais influenciadores.
Mas Tertuliano enfrenta um problema que ainda é problema para nós cristãos hoje: pontos de vista diferente e interpretações várias cabem à Bíblia.  Sendo assim, qual seria a leitura autorizada?  A posição de Tertuliano é clara em relação a este problema, ele afirma que tão longe estão os homens de acreditarem na nossas Escrituras, das quais ninguém se aproxima senão quem já é cristão (De Test. Animæ I).  Mesmo essa assertiva ainda podia indicar uma multiplicidade de interpretações, pois no próprio meio do cristianismo há diferentes leituras do texto bíblico.  Para Tertuliano aqui também não existe problema.  Don Auletta na sua introdução ao texto sobre a Prescrição contra os Hereges soube interpretar bem este ponto de vista de Tertuliano: “só a igreja é legítima depositária e proprietária das Sagradas Escrituras, porque só ela pode demonstrar, possuir estes tesouros, por meio da tradição apostólica”.  Nas palavras do próprio Tertuliano:

É evidente então a força da nossa tese, de que os hereges se não deve admitir a discutir as Escrituras, pois nós, sem recorrer a ela, podemos provar que eles nenhum direito têm à Escritura.  Com efeito, se são hereges não são cristãos, pelo fato de não terem recebido de Cristo aquilo que por própria iniciativa admitiram na qualidade de hereges.  Se não são cristãos não podem invocar nenhum direito à literatura cristã. (De Præsc. XXXVII).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

MAIS PERTO QUERO ESTAR

Um dos hinos mais tradicionais que cantamos diz Mais Perto Quero Estar Meu Deus de Ti.  Poucos adjetivos podem descrevê-lo com exatidão – talvez apenas belo, profundo e tocante.  É uma oração.
Reza a lenda que durante o naufrágio do Titanic seus acordes foram tocados pelo conjunto que acompanhava a embarcação.  Como lenda, tem sua função pedagógica.  Mas, alheio a isto, esta canção tem história.
O texto original (em inglês: Nearer My God to Thee) foi escrito em 1822 pela inglesa Sarah Flower Adams – a primeira mulher a ser reconhecida como compositora evangélica – e musicada inicialmente por sua irmã Eliza.  Porém a letra só veio a ganhar notoriedade em 1856 quando Lowell Mason – conhecido como o pai da música na igreja americana – compôs uma melodia intitulada Bethany e colocou na letra de SF Adams.  E é esta melodia que cantamos até hoje.
De lá para cá, o hino fez parte de sucessivas coleções e gravações e, por tradição da América, é entoado em velórios e datas solenes.  No Brasil, foi incluído em diversos hinários também tradicionais (com pequenas variações de versão): está no Cantor Cristão – nº 283; no HCC – nº 399; no Hinário Adventista – nº 427; na Harpa Cristã – nº 187; no Salmos e Hinos – nº 360; e no Melodias de Vitória – nº 119; por exemplo.
A harmonia e linha melódica são em si um convite à prece, mas merece atenção destacada a letra do poema.  Conta-se que Sarah Adams estava meditando na passagem do sonho de Jacó (Gn 28) quando se sentiu inspirada para compor o hino, então escreveu (cito aqui na versão do CC):
Mais perto quero estar, meu Deus de ti,
Inda que seja a dor que me una a ti!
E os versos se seguem:
Andando triste aqui, na solidão,
Paz e descanso a mim, teus braços dão.
 Assim a letra continua extremamente atual como expressão de nossa súplica.  Quando a dor, a tristeza, a solidão ou cansaço tão vividamente presentes em nossa caminhada cotidiana ameaçam fazer sucumbir nossa alma, uma prece constante e verdadeira deve está em nossos lábios e corações: Mais Perto Quero Estar Meu Deus de Ti.  E somente isso trará conforto e esperança.
Então o poema de Sarah Adams termina oferecendo um pouco de luz para os dias sombrios:
There in my Father’s home, safe and at rest,
There in my Savior’s love, perfectly blest;
Age after age to be, nearer my God to Thee.
Em meu português:

Há na casa do meu Pai, segurança e repouso,
Há no amor do meu Salvador, bênção perfeita;
E pelos séculos dos séculos estarei perto de ti meu Deus.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Tertuliano de Cartago

Quintus Septimius Florens Tertullianus, ou simplesmente Tertuliano, nasceu provavelmente no ano 160 em Cartago no norte da África; filho de uma abastada família pagã – o pai era um centurião proconsular romano.  Contrastando com a abundância dos seus escritos (trinta e um ao todo que se conservaram) pouco ou quase nada se sabe sobre sua vida.  Sobre sua juventude ele mesmo confessa que foi pecadora e intelligenti pauca, mas as virtudes cristãs já lhe haviam impressionado.  Recebeu uma formação intelectual invejável em Roma e lá exerceu a profissão de advogado.  E, como muitos intelectuais contemporâneos seus, deveria dominar fluentemente o grego e o latim.
Por volta de 195 converteu-se ao cristianismo.  Deixou então Roma e voltou para Cartago de onde não mudaria mais de residência.  Jerônimo o considerou como sacerdote, mas esta é a única referência que temos do fato, pois até o próprio Tertuliano se refere a si mesmo como leigo, logo não podemos ter certeza alguma quanto a sua ordenação clerical.  Mas o rigor cristão não foi suficiente para saciar sua alma, então aderiu ao montanismo em 207.  Não se sabe exatamente como foi seu contato com Montano e J.L. Gonzalez chega afirmar que é impossível dizer por que Tertuliano se fez montanista.  Mas a verdade é que deste período que provêm os mais apaixonados dos seus escritos, quando ele desce a minúcias e detalhes na defesa de seus pontos de vista.  Mais tarde rompeu com o montanismo e fundou sua própria seita – os tertulianistas – e mais ou menos em 220 encontramos seus últimos escritos o que leva-nos a crer que teria falecido em Cartago pouco depois deste ano, ou nele mesmo.
Seu primeiro escrito – Ad Nationes – apareceu por volta do ano 197 e pode ser considerado como um esboço do que viria a ser o seu Apologeticum, que foi escrito provavelmente no final do mesmo ano ou mais propriamente no ano seguinte.  Sem dúvida alguma o Apologeticum é a obra prima de Tertuliano e nela ele se revela por inteiro.  O texto foi originalmente dirigido aos magistrado romanos – o senado – mas foi rapidamente traduzido para o grego.  Eusébio de Cesaréia fez freqüentes alusões a ele na sua História Eclesiástica.  Em resumo as suas obras podem ser divididas em três grupos: a) os escritos apologéticos, nos quais fez a defesa do cristianismo; b) os dogmáticos, nos quais refuta as heresias e c) os práticos-ascéticos, nos quais versa sobre a moral cristã.
Com toda certeza Tertuliano foi o mais fecundo e rico dos pais latinos da igreja.  Ele foi mestre em língua mas não se limitou às possibilidades que a língua lhe oferecia.  Como ele supercarregou seus escritos da emoção e do arrebatamento espiritual que freqüentemente sentia, ele abandonou o acento romano e utilizou o sotaque africano do latim criando palavras novas quando julgava necessário, desprezando a sintaxe quando esta não lhe era conveniente e utilizando-se constantemente de todos os seus recursos: ora a retórica ou a sofística clássica, ora a chicana e a casuística populares.  A. Harmann assim se refere ao Tertuliano escritor: “Este artífice do verbo triturou, renovou, adaptou, enriqueceu a língua latina.  Forjou um vocabulário para exprimir as verdades da fé.  (...) Ele é o desespero dos tradutores”.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

POSSO E MEREÇO

Ainda ontem, em uma avenida aqui em Aracaju, na minha frente estava um carro com placa de São Paulo parado no sinal (como era de lá, vai como se fosse paulista: "parado no farol") e pude ler o que o cidadão escreveu no vidro (a foto que tirei na hora com o celular não ficou muito boa, mas está aí):
Faço o que posso.
Deus me dá o que mereço.
Não sei se fez aquilo por idiotice, desinformação ou ele acredita mesmo naquela frase.  A verdade é que, confrontando tal ideia com o que diz a Bíblia, a coisa fica séria.
Quanto a primeira afirmação: Faço o que posso, não há muito drama, embora deva-se manter um sinal de alerta sempre ligado.  Fazer o que se pode não é o problema.  Veja dois exemplos bíblicos:
O texto diz que Cornélio era um homem piedoso e religioso.  Ele fez o que pôde.  Então Deus providenciou completar o que lhe faltava e mandou o apóstolo Pedro ao seu encontro como resposta às suas orações (a história está narrada em At 10).   Neste caso, suas intenções e ações foram válidas, embora não suficientes.
Um  outro caso: o jovem rico que procurou Jesus querendo saber como alcançar a vida eterna, também tinha feito o que podia ao longo de sua vida.  Ele era cumpridor da lei desde a infância.  Mas, no caso dele, Jesus entendeu que não bastava.  Era preciso abandonar as riquezas e o apelo delas para poder seguir e alcançar a vida (a história está narrada nos três evangelhos sinóticos – Mt 19:16-24 / Mc 10:17-31 / Lc 18:18-30).
Ou seja, embora seja interessante – e até necessário – fazer o possível para valorizar o Reino de Deus, se for só isso, está muito longe de ser significativo quando o assunto é a vida que Cristo nos oferece (considere ainda Jo 10:10).
Então vem a segunda frase: Deus me dá o que mereço.  E aqui está todo o problema!  Aplicando um simples raciocínio lógico à palavras bíblicas chego a conclusão que, como ser humano pecador sou (Rm 3:23), o que eu realmente mereço é a condenação e a morte (Ez 18:3 e Rm 6:23).  Neste caso é melhor Deus não me dá o que de fato eu mereço.
E graças a Deus ele não me dá nada do que mereço.  O mesmo texto aos Romanos (6:23), aliado a outros tantos que me falam da graça que advém do amor e do sacrifício de Cristo (por exemplo Ef 2:8-10 e 1Pe 1:3-9), garante que a dádiva que recebo de Deus não é resultado de merecimento algum (ainda bem!) mas da única e exclusiva graça dele (considere também Tg 1:16-18).  E assim eu vou continuar crendo, pois minha vida depende disso.
Quanto ao que o cidadão escreveu, volto a dizer: não sei se fez aquilo por idiotice, desinformação ou ele acredita mesmo naquela frase.  O que eu sei é que bem melhor será ele abandonar esta insanidade de merecimento e voltar-se humilde e confiante para a graça de Cristo, pois ela nos basta.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Hermenêutica e epistemologia

Em seu julgamento de Jesus, Pilatos lhe perguntou: Quid est veritas? (Que é a verdade?)  Pergunta esta que mereceu um silêncio por parte de Jesus.  Naquele contexto uma definição de verdade talvez escapasse a objetivos filosóficos ou teológicos.  Ou talvez o quarto evangelista desejasse remontar às palavras do próprio Jesus pouco antes, quando disse: eu sou ... a verdade (Jo 14:6).  Mas o fato nos chama a atenção: um conceito de verdade pode ter muitos vieses, e cada um deles com suas implicações e desdobramentos, cabendo a um hermeneuta a escolha.
Considerando a Hermenêutica como a atividade humana que busca interpretar a realidade e assim fornecer subsídios para que este ser humano possa se achegar à verdade e dela usufruir a consistência; então dependendo de como for minha Hermenêutica, assim poderei vislumbrar a verdade.  Nesta relação há uma sujeito analista/intérprete e um objeto/interpretado e dependendo de quais critérios sejam estabelecidos, a interpretação caminhará em um ou outro sentido e, logicamente, a verdade que daí brotará, trará as feições destes critérios.  Se compreendo a Hermenêutica como uma atividade objetiva, terei uma verdade objetiva.  Se por outro lado, a Hermenêutica configura-se como subjetiva, a verdade ser-me-á subjetiva.
O trabalho objetivo de buscar e interpretar a realidade e estabelecer a verdade conduzirá a se fazer ciência.  Cujo critério de validação é exatamente a possibilidade de o objeto ser captado objetivamente, sem qualquer interferência do sujeito que busca conhecê-lo.  A verdade está aí, disposta no mundo, como o estão os objetos dados a serem investigados, cabe apenas ao investigador ser capaz de fazer as perguntas certas e ouvir os dados que lhes são apresentados.  Neste caso a verdade conhecida independe de quem a conhece, é sempre imutável e, mesmo que possa ser questionada por diferentes pesquisadores, sempre apresentar-se-á como uma verdade dada.
Por outro lado, como se propõe a fazer a Hermenêutica de cunho religioso, o método a ser adotado será o de uma investigação subjetiva, onde o sujeito interpretador influenciará na pesquisa, já que suas premissas pessoais acabam sendo projetadas para o objeto de pesquisa e, consequentemente, para a verdade que dela emanará.  A verdade não está no objeto e por isto não cabe simplesmente procurar lá. A verdade está essencialmente no ser humano que projeta seus valores e anseios para a realidade, procurando dar-lhe significado, mesmo que isto implique numa negação da realidade objetiva e uma projeção de desejos que serão divinamente revelados e mediados.
Pensando nos termos de L. Feuerbach: “A verdade é um sonho do espírito humano”.  E este sonho continuará a instigar o ser humano a conhecer-lhe sua verdadeira face.  Ou como ciência, ou como religião a verdade acompanhará o ser humano apontando-lhe possibilidades e revelando-lhe a realidade.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

PECADO LAVADO

O tema do pecado não é um dos mais populares hoje em dia.  O mundo moderno pouco espaço tem deixado para sua percepção.  Até nossos púlpitos têm evitado usá-lo com referência.  É bem verdade que pecado não é assunto para as ciências humanas ou sociais; também nada tem a ver com leis ou política.
Contudo, é impossível se falar em cristianismo verdadeiro e vida cristã autêntica sem que se faça referência à realidade do pecado na vida humana.  Sua citação é bíblica e o cuidado em relação a ele – bem como as responsabilidades de suas consequências – não podem ser ignorados por homens e mulheres que querem seguir o modelo de Cristo.
Então, para refletir sobre o tema do pecado, vamos fazer algumas citações tiradas do Novo Testamento.  Acompanhe a sequência do pensamento bíblico:
Primeiro: Paulo afirma que todos os seres humanos são pecadores (leia Rm 3:23 e 5:12).  A verdade é que na doutrina bíblica há uma verdadeira generalização: Deus olhou para sua criação e encerrou todos debaixo do pecado e sujeitos às suas circunstâncias.  Não há um justo sequer.  E, por conta disso, todos nós carecemos da graça divina já que estamos desgarrados dela (leia mais Is 53:6).
Segundo: o pecado cobra o seu preço – e este é a morte (ainda é Paulo em Rm 6:23).  Sendo verdade que todos pecaram, então sobre todos nós pesa a dívida eterna pela rebelião espiritual.  Por sermos responsáveis pelo abandono do direcionamento divino em nossas vidas, então devemos também assumir os desdobramentos desta decisão (volte aos profetas antigos, agora Ez 18:3).
Terceiro: de acordo com a verdade bíblica, o pecado exige remissão através de sangue derramado (dito explicitamente em Hb 9:22).  Não há outra possibilidade de se livrar do pecado e suas penas senão por meio de sangue.  Se o pecado nos afasta de Deus, a única maneira de retomar o contato é vertendo sangue – isso também é lei natural criada eternamente por Deus (o sangue do cordeiro pascal aspergido em Êx 12:21-23 é uma boa ilustração desta verdade).
Antes de prosseguir, deixe reafirmar uma verdade gloriosa: “Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores” (Rm 5:8).
Quarto: há no sangue de Cristo poder suficiente para nos perdoar e purificar de todo pecado (a declaração é de João em 1Jo 1:9).  Na cruz do Calvário Jesus tanto pagou nossa dívida para com Deus como garantiu a remoção completa de nossos pecados (veja o que a fidelidade divina nos outorga segundo Mq 7:19).
Quinto: os que são lavados neste sangue herdam a vida eterna (foi o que João viu em Ap 7:17 e 22:14).  A promessa é garantida para todo aquele que teve seu pecado lavado – seu coração restaurado – no sangue precioso: habitará nas moradas eternas.  Não há outro caminho (Pv 28:13 reafirma esta certeza).
O tema do pecado pode não ser popular, mas é inevitável.  Pode não ser científico, mas é um problema espiritual.  Que nos lavemos neste sangue então para que nos livremos dele e de suas consequências.  Para a glória do Cordeiro (termine cantando como em Ap 5:9).

(Texto publicado originalmente em 15/05/2009 – http://ibsolnascente.blogspot.com.br)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CIDADEZINHA QUALQUER

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Carlos Drummond de Andrade
Do livro "Alguma poesia" (1930)

Encontrei este poema por acaso.  Folheando alguns livros na biblioteca da Faculdade, na tentativa de estudar Teoria Literária, eu me deparei com este versinhos – sem nenhum menosprezo – do poetinha mineiro Carlos Drummond de Andrade.  O autor da gramática o colocou no livro com o intuito de exemplificar qualquer coisa da tal Teoria.
Veja o que aconteceu...  Mas, antes, deixe me justificar.  Não vou comentar nada sobre o inigualável Drummond – é desnecessário.  Lembro apenas que o meu professor se referia a ele como o segundo maior poeta da história do Brasil (o primeiro foi Gregório de Matos).  Também não sou crítico literário, e nem pretendo ser para fazer análise teórica da poesia.  Tem gente que já faz isso.
Então, veja o que aconteceu.  Passados anos do meu primeiro contato com o poema, não tenho a mínima lembrança daquele livro onde o encontrei, e nem sequer a qual aspecto da teorização o autor se referia – isso o tempo me fez o favor de deletar da memória.  Mas as palavras do poema estão ainda bem vivas. 
Nem fiz questão de decorá-lo na hora, mas ainda hoje sou capaz de repeti-lo.  Não sei exatamente por que, mas ficaram gravadas.  Talvez por ter dado uma boa risada quando o li pela primeira vez. 
Isso sim é poesia.  E não precisa de teoria para entendê-la ou defini-la.  As palavras fazem seu trabalho: do título ao ritmo preguiçoso de cada verso.  E para terminar, a quebra do último verso: Eta vida besta, meu Deus.  Pronto.  Completo.
Ora, não tenho como saber qual era a intenção principal de Drummond ao escrever, mas eu sei que estes versos têm poder de provocar em mim aquela gostosa sensação da vida do interior – com toda a nostalgia que inclui.  E para mim isso é saudável!

(Na imagem lá em cima, a reprodução do quadro "Entre morros e roda d'água" pintado por Anita Malfatti, na década de 1950)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DIAS PROFÉTICOS

Estava ouvindo o radio enquanto dirigia aqui em Aracaju numa estação dita evangélica(!).  Gosto de fazer isso – é interessante, mesmo que sempre me sinta na necessidade de colocar uma exclamação ou algo parecido no adjetivo usado.  Um dia vou falar mais sobre o tema.
Mas, voltando ao que comecei a dizer, estava ouvindo o rádio do carro quando o locutor-apresentador-bispo (sei lá o que ele é) insistiu em repetir que, por estarmos vivendo dias proféticos, o carnê da campanha deveria se quitado.
Duas questões me ocorreram então.  Em primeiro lugar, já em casa enquanto almoçava, conversei sobre qual a relação entre os tais dias proféticos e o carnê quitado da campanha.  Depois de algumas hipóteses, cada uma mais esdrúxula que outra, chegamos à conclusão que só nos restava a ignorância.  Mesmo com todo o tempo de igreja, algumas leituras completas da Bíblia, a ajuda inestimável de mulher e filho na reflexão em casa e a formação acadêmica em Teologia devo confessar que ainda não consigo fazer a ponte entre estes dias, o carnê e a Bíblia.  Então resolvi deixar para lá...
Mas ainda tem a outra questão: o que são dias proféticos? Seriam os dias em que as profecias se cumprem? Ou quando elas são proferidas? E quais profecias? Elas são gerais para a igreja? Ou específicas para alguns cristãos em particular?
Como no caso citado também não tenho respostas, resolvi fazer um inventário de expressões que têm se tornado moda em nosso universo evangélico brasileiro – termos que andei recolhendo na internet, no rádio e principalmente em vários púlpitos por aí.
É comum ouvir falar de: atos proféticos, louvor profético, adoração profética, ritual profético, unção profética, visão profética, palavra profética, intercessão profética, olhar profético, coração profético, choro profético, bênção profética, dança profética, avivamento profético e por aí vai.  Alguns eu até posso desconfiar do que se trata, embora, na sua absoluta maioria, não os veja citados na Bíblia – o que para mim é o mais importante.
Virou padrão acrescentar adjetivos assim às expressões, mesmo que vazios de significados, pois o importante parece ser o efeito de marketing que produz.  E as nossas igrejas vão se contaminando com esse tipo de penduricalhos, mas carentes de vida cristã e compromissos espirituais autênticos, ressequidas sem a água que só pode ser bebida na Palavra.  E acabam comendo areia como se fosse bife.
Repito o que já disse várias vezes e em vários contextos diferentes.  Não tenho nem o direito e nem a propriedade para julgar ninguém; muito menos quem se diz falar em nome do Senhor (afinal isso é profecia), mas não sei se estou ficando ranzinza ou démodé ou se há algo realmente muito errado com isso tudo!
O que posso afirmar com convicção é que profecia mesmo é ter coragem de transformar nosso tempo em dias proféticos clamando que o machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada no fogo (palavras de João Batista em Lc 3:9).  Nem que isso nos custe o pescoço.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

A Crença no Monoteísmo e a Integridade do Ser

O ser humano tem consciência de si, e nisto está a sua incerteza quanto à sua própria existência.  Quem seu eu?  Qual a minha função?  Qual o meu destino?  São questões que precisam ser respondidas para que a existência humana possa se mostrar íntegra; integridade que, segundo sugestão de Freud, está indissoluvelmente ligada as suas crenças.  Ao passar do pai primevo ao totem e daí ao politeísmo, vindo depois a aceitar o monoteísmo, o ser humano forjou uma identidade íntegra que é capaz de lhe fornecer as respostas necessárias para que sua existência faça sentido.
Quem sou eu é respondido pela crença num único Deus, que se revelou em Jesus Cristo, explicitando que o ser humano é alguém criado para se relacionar com o divino que ao mesmo tempo transcende e está imanente a este ser humano.  Qual a minha função encontra resposta na certeza dogmática oriunda da afirmação de um Deus trinitário: que sendo um, também pode ser três.  Qual o meu destino deve ser respondido na esperança cristã escatológica de que o Reino de Deus se realizará na história e a despeito dela, rompendo-lhe todas as limitações, reconstruindo o paraíso.
Aqui a afirmação de Paul Tillich de que Deus deve ser a preocupação última do ser humano demonstra-se como a chave que une todos os pontos em questão.  Qualquer preocupação relativa que queira usurpar o status da ultimicidade se configura como idolatria, ou seja, algo que pretenda ocupar o lugar que cabe exclusivamente a Deus.  E, exatamente por isto, esta absolutização idolátrica do finito decompõe o ser fazendo-o fragmentário e sujeito ao domínio do não-ser.  Por ser criatura, o ser humano vive constantemente entre o limite do ser e do não-ser e somente o apego incondicional a Deus, como realidade última, é que poderá fazer com que o não-ser seja finalmente dominado pela essência do ser – Deus – dando assim sentido a existência humana.
A integridade do ser está ligada à pureza de coração – que é querer uma só coisa – e, desdobrando daí, ao sumum bonum – o centro da lealdade humana.  Quem está com o centro divido pela deposição na crença em mais de uma divindade não pode ter pureza de coração, logo não vive uma existência íntegra.  Por outro lado, então, e certamente, a crença exclusiva em um único Deus coloca a existência humana centrada em um único leal objetivo.  Um único Deus faz a vida humana íntegra.  Esta conclusão faz das palavras de Jesus serem portadoras de significados existenciais bem mais profundos:

“Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas”
(Mt 6:33)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

EM SIQUÉM COM JOSUÉ

O texto final do discurso de Josué, quando ele declara com convicção: "eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (encontra-se em Js 24:15), está entre as mais conhecidas e citadas passagens sobre família em toda a Bíblia.  Talvez seja por isso que sempre que nós nos propomos a refletir sobre ele corremos o risco de ser repetitivo ou pouco criativo e, por isso mesmo, desinteressante.
Tudo bem.  Eu estou disposto a correr este risco.  Mas para isso quero lhe convidar a usar sua imaginação espiritual – esse dom maravilhoso e engenhoso que nos foi dado pelo próprio Deus – a serviço da compreensão do texto.  Então, por favor, queira me acompanhar que eu vou a Siquém, tentar me juntar ao grupo que estará ali para ouvir o último discurso de Josué.
Sabendo que seus dias já se aproximavam do fim (ele disse isso em Js 23:14), o grande líder nacional Josué convocou todos os chefes de famílias e clãs de Israel para uma última reunião da confederação das tribos de Israel sob o seu comando (é no meio dessa gente que eu quero me misturar!).
É claro, aquela não seria apenas mais uma reunião como tantas outras reuniões eclesiásticas que enchem nossas agendas – com o velho Josué na liderança nunca seria assim!
O texto não fala sobre o horário da reunião – e nem é importante – mas já que estou usando minha imaginação espiritual, deixe-me compor o cenário, isso ajuda: a reunião deve ter acontecido logo nas primeira horas do dia, ou talvez já com o sol a se por (acho melhor! Para alinhar com a viração do dia em Gn 3:8).  Não acho que o sol estava a pino. 
Juntos, a liderança de cada casa de Israel se postaria para ouvir o que Josué ainda tinha para dizer.  É verdade que a tarefa da conquista não tinha sido concluída, mas era inegável que Deus não havia faltado com nenhuma de suas promessas (compare Js 13:1 com Js 23:14).
Quando então Josué tomou da palavra, eu conseguiria perceber um silêncio respeitoso na assembleia.  Aquele homem tinha o que dizer, e valeria a pena ouvi-lo.  Não era apenas um velho remoendo suas memórias gastas pelo passar dos anos.  À nossa frente estaria um ancião ainda vigoroso, cuja idade só lhe serviu como coroamento de virtudes raras e preciosas.
— Esse momento em Siquém para ouvir o velho Josué eu não perderia por nada!
As rugas certamente emolduravam sua face, mas elas me diriam que o espírito do guerreiro depurou-se.  Talvez já não houvesse o ímpeto juvenil, agora porém transbordavam sabedoria e maturidade.  Certamente estas compensavam aquele, e com vantagem!
Olhando o filho de Num, da tribo de Efraim, estaríamos diante da prova viva da ação e intervenção do Senhor em nossa história: nascido em tempos de escravidão no Egito (dali só restavam agora ele e Calebe de Judá), os anos pelo deserto, os passos como pupilo de Moisés e a liderança na conquista da terra só atribuíam credibilidade às suas palavras.
Diante de nós não estaria um aventureiro da fé ou um oportunista com um discurso religioso bonito.  Era um líder cuja vida testemunhava a favor de si – a estes valem a pena ouvir.
Tudo ali era significativo.  Até o próprio local da reunião.  Não sei por que não escolheram Siló, onde estava provisoriamente instalada a Tenda do Encontro e a Arca da Aliança.  Talvez poderia ser a opção mais lógica.  Penso que foi mais por razões históricas e não espirituais.
O encontro aconteceu em Siquém, cidade-refúgio dada aos levitas nas montanhas de Efraim (confira em Js 21:21).  Foi naquele lugar, sob o carvalho de Moré, que o patriarca Abraão ergueu o primeiro altar em adoração ao Senhor logo que chegou na terra (narrado em Gn 12:6-7).  Aquele quinhão de terra tinha história.  Toda a atmosfera transpirava aliança e compromissos antiquíssimos.  Além do mais, ali também era terra santa, onde Deus se habituara a falar com o povo.
Voltemos ao encontro.
Ao silêncio respeitoso, do qual já falei lá em cima, seguiriam-se as palavras de Josué.  Primeiro uma excelente, embora resumida, resenha histórica.  Mais que narrativas alheias, o que se ouviria naquele dia seria um testemunho de fé em primeira pessoa, de alguém que, pela própria experiência, era capaz de crer em um Deus que sempre intervém na história, e o faz por amor e aliança.
Então Josué terminaria desafiando o povo.  Parece que ele entendia que uma coisa deveria levar à outra.  Eu sei que estamos acostumados a recitar Js 24:15 como promessa, profecia, herança, declaração de garantia, súplica ou algo que o valha.  Mas naquele dia, em Siquém, as palavras não me pareceriam ter saído da boca do líder Josué com nenhuma destas conotações.  Era compromisso.  Era disposição.  Era um projeto de vida que começava pelo chefe da família e, a partir dele, contagiaria a todos.
Nas montanhas de Efraim, Josué estaria me desafiando a assumir a responsabilidade diante do Senhor de conduzir a minha família nesta senda sagrada: a minha casa servirá ao Senhor na exata medida em que eu assumir o eixo condutor deste serviço e adoração.
E tendo à frente um modelo e padrão como o de Josué, em Siquém eu ouviria o povo responder com convicção ao desafio: "nós também serviremos ao Senhor" (leia Js 24:18).
Volto a lembrar o exercício de imaginação espiritual proposto lá no início destas palavras.  Estando você comigo a ouvir o chamamento de Josué, que resposta daremos a ele? Faremos coro com os líderes de família de Israel? E na prática, em nossa vida e história, que resposta daremos?
E que o Senhor nos dê homens da estirpe de Josué.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MAR IMENSO

Gente como eu teve o privilégio de nascer em uma cidade de frente para o mar.  Mas sei que muitos nunca sequer colocaram os olhos numa praia – e para não fugir do jargão comum: não sabem o que estão perdendo! E mais: é preciso ver para crer!
Estou bem ciente que João no final de seu Apocalipse observa que diante da Jerusalém escatológica o mar já não existe (confira em Ap 21:1).  Mas tal palavreado técnico se refere a outro assunto.  Penso depois, em outro momento, falar também sobre ele.
Então, voltemos ao mar imenso.  E como ele é fascinante!
Estou me lembrando agora de um garoto de nossa igreja lá em Dracena – interior de São Paulo onde tive a oportunidade de também pastorear, cidade distante mais de meio dia de viagem do mar.  Ele jamais tinha visto uma praia e vivia me dizendo que se morasse numa cidade como Aracaju ia a praia todo dia.  Eu achava interessante sua disposição e geralmente lhe respondia:
— Isto é na primeira semana.  Depois você se acostuma e arruma mais o que fazer.  E a vida simplesmente segue...
Eh! Talvez este seja exatamente o problema: nasci aqui e com certeza já fui a praia incontáveis vezes.  Já fui de manhã cedo ver o sol nascer.  Já fui com o sol a pino.  Já vi o dia se findar olhando o mar.  Já fui com calor e frio (e nem sei se isso acontece mesmo por aqui).  Já fui também em dia com chuva.  Já fui apenas tomar banho, ou conversar.  Já fui jogar bola na areia.  E sei lá quantas outras vezes e sob quais outras circunstâncias.  Então, a gente se acostuma e arruma mais o que fazer.  E a vida simplesmente segue...
Então acaba guardando o fascínio pelo mar em alguma gaveta esquecida da alma.  O brilho nos olhos fica fosco.  E o seu som perde eco e se esvazia.
Mas de vez em quando o mar imenso insiste em se mostrar.  Futuca quem esteve quieto.  Quebra suas ondas no espírito adormecido.  Acaricia a face com o toque suave de sua brisa.  Traz à tona impressões longínquas.  E insiste misturar tudo num caldeirão de memórias e ideias.  O mar tem destas coisas!
Então me pego mais uma vez embevecido pelo fascínio do mar.  Ele não é apenas grande.  Ele é imenso.  É desafiante.  Tem contornos de mistério – mas é maravilhoso.
Sim, é claro que alguns argumentarão que o mar pode causar medo e arrepios.  Também impõe perdas e separações, e por vezes irreparáveis.  Mas nada embaça seu fascínio.  Pois pense bem a partir daqui:
— Você sabe que na praia de Atalaia, olhando bem de frente, do outro lado está a África!  Mas meus olhos não alcançam.
Pois então, com os olhos dispersos no mar imenso, como diria o Chico Buarque, meio até remoçando, me pego cantando sem mais nem porque...

E que mais posso dizer? Se o mar imenso é assim, imagine quem o criou!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AO MEU REDOR

Uma das lembranças musicais que tenho de minha infância é ouvir uma velha gravação na voz de Feliciano Amaral.  Ele cantava Ao Meu Redor – lembro até o chiado do vinil.  Se tem algumas memórias que são preciosas, esta sem dúvida alguma é uma delas.  Não sei até que ponto a lembrança é fidedigna à realidade dos fatos, pois ela está naquele grupo de memórias que valem mais pelo que simbolizam do que pelo que apontam.  Então vai merecer sempre o registro.
Eu resolvi trabalhá-la em nosso coral aqui em Aracaju.  Então me pus a procurar um arranjo na internet (ou pelo menos uma partitura original que me ajudasse).  Assim ocupei algumas horas (sim, horas!) com esta música.  Valeu a pena com certeza.
A gravação de Feliciano Amaral é de 1961 na obra A Sombra da Cruz – e eu achei o áudio na internet.  Ouvi-la novamente só reascendeu as boas lembranças.
Já sabia que ela tinha sido regravada por Luiz de Carvalho (se não me engano em 1963), mas descobri que o grupo Vencedores por Cristo, ainda sob a batuta de Jaime Kemp, também a gravou em 1968 e, depois disso, outras gravações se sucederam: de Carlinhos Felix a Shirley Carvalhaes.  É um verdadeiro clássico.
Mas todas elas são versões.  Se minhas pesquisas estiverem certas, a canção original intitulada  My God is Real é do americano Kenneth Morris.  Eu a achei gravada na voz de Mahalia Jackson.  Não sei se é a primeira gravação, e o que posso dizer é que, embora as lembranças de Feliciano Amaral me sejam muito caras, mas a interpretação daquela negra americana é sublime e incomparável.  Merece ser ouvida repetidas vezes.
Assim diz o refrão original:
Yes, God is real
Oh, He's real in my soul
Yes, God is real
For He has washed
And made me whole
Sei que a versão em língua portuguesa não foi absolutamente literal e tem o seu valor, mas ouvir aquela mulher cantado que o seu Deus é real em sua alma pois ele a lavou e a fez inteira atrai-nos para mais perto deste Deus.  Note que entender a língua inglesa até ajuda mais não é indispensável.  Ela canta com a alma e de lá faz ecoar sua música até a nossa alma (os negros norte-americanos apropriadamente chamam isso de soul).
Bem, agora me sinto a alma mais enriquecida com as duas versões, cada uma com seu lugar em meu baú de tesouros musicais: Ao Meu Redor com Feliciano Amaral e My God is Real com Mahalia Jackson.
Só mais duas coisas antes de terminar.  Reconheço cada dia mais a rica herança dos negros americanos para nossa fé e tradição cristão-evangélica – depois quero escrever mais sobre eles.  E quanto à partitura, ainda não a achei.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Uma visão da liturgia protestante brasileira contemporânea

O protestantismo nunca foi um movimento que apresentasse um corpo unificado, mas por diversos vieses históricos o movimento que chegou ao Brasil com as missões no século XIX apresentou uma certa unicidade.  Sem dúvida, a principal razão foi que as principais denominações trouxeram uma forma semelhante de cultuar; o avivalismo metodista norte-americano foi o mote desta liturgia que aliava as propostas tradicionais protestantes a uma tendência espiritualizante da fé.  Assim razão e emoção foi o binômio que impulsionou a nascente igreja protestante no Brasil.
Passado pouco mais de um século e meio constatamos que o que mantém o protestantismo brasileiro unificado, muito mais que templos, como edificações para a realização do contato com o sagrado – já que teologicamente o protestantismo brasileiro não deu muita importância ao santuário em si – continua sendo sua liturgia: denominações diferentes cantam os mesmos cânticos – agora já bem mais abrasileirados que no princípio – já que é isto o que os mantém cônscios de estarem dentro de um mesmo universo sagrado.
Se é verdade que “dizei-me como e onde cantas e dir-te-ei quem és!” então poderemos dizer que mesmo o protestantismo brasileiro estando cada vez mais preocupado com seus templos, mas é cantando que se sente unido.  Certo também que mesmo não abandonando as tradições recebidas dos primeiros missionários, o protestantismo canta cada vez mais brasileiro e canta a certeza do senhorio de Cristo e a sua vitória final desde agora, pois é nisto que ele crê e espera.
O protestantismo chegou cantando a salvação e a esperança de sair deste mundo e se reunindo em salas que não se pareciam templos.  Hoje continua cantando só que agora acontece sua liturgia em espaços sagrados que se destacam como símbolos de um novo tempo que já irrompe com o anúncio da marcha triunfal da igreja de Cristo.  

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

QUANDO TRAGO MINHA OFERTA

A OFERTA DA VIÚVA – Conclusão

Temos compreendido que Jesus observa individualmente cada fiel adorador que se achega com o coração contrito.  Aprendemos que na contabilidade de Deus o que realmente conta é a sua graça e não os nossos esforços pessoais – muito menos monetários.  E ainda tendo como pano de fundo a atitude da viúva vimos que a vontade de Deus é nossa santificação e adoração e então nossa oferta, nosso culto e nossa vida têm que ser baseados nestas premissas.
Agora na última reflexão desta pequena série sobre a também pequena narração da oferta da viúva pobre, deixe-me apresentar três conclusões livres que o estudo do episódio me traz. 
Em primeiro lugar, na percepção de Cristo, a diferença das ofertas não está no esforço que cada um emprega em trazê-las: não é o sacrifício pelo sacrifício!  É bom lembrar que em meio às reprimendas feitas ao Israel obstinado, Deus fala através do profeta que mais importante que o sacrifício e os atos de culto em si é a atitude de misericórdia e aproximação – conhecimento – a Deus (leia Os 6:6).
No contexto da oferta da viúva, a diferença foi que os ricos trouxeram o sobejo, a sobra, o que não mais lhes servia, e Deus não aceita nada menos que o melhor (lembre das prescrições das ofertas em Lv 1:10; 3:6; 4:3 e outros).  A viúva, por sua vez, trouxe não somente o melhor, mas a totalidade de sua vida e a colocou no altar do Senhor e ela, junto com sua oferta, foram aceitas por Deus.
Uma segunda conclusão que a narração da oferta da viúva me traz é que minha relação com Deus, mesmo no culto público, é individualizada.  Assim, nem a minha oferta e culto pessoal, nem a resposta de Deus em termos de aceitação e bênção podem ser medidas, avaliadas ou comparadas com mais ninguém (veja a advertência paulina em Rm 14:4).
É importante aqui também lembrar que na contabilidade de Deus, ele usa critérios próprios e diferenciados na sua relação com seus servos.  Ou seja, nem os ricos foram julgados pela viúva, nem o contrário, mas para Deus cada um foi visto a partir do seu próprio interior e de sua própria atitude (considero fundamentais as palavras proféticas em Ez 18).
E finalmente, já extrapolando a própria narração da história da oferta, quando o meu culto e minha oferta são aceitos, sou também igualmente aceito pelo Senhor.  E isso sim faz toda a diferença!  Esta é a oração e o desejo do salmista: ser aceito por Deus e poder viver na sua casa (lá no Sl 27:4).
É, contudo, na parábola do fariseu e do publicano onde Jesus apresenta esta verdade mais claramente (leia toda a parábola em Lc 18:9-14).  Enquanto o primeiro apresentou uma oração liturgicamente correta mas vazia de santa intenção, o segundo na sua humildade apenas à distância batia no peito e sem os recursos da oratória clamava por misericórdia.  E Jesus conclui que este último voltou para casa recompensado.
Assim posso compreender também que a viúva voltou para casa com a alma recompensada por ter apresentado um culto agradável a Deus (penso que ela se enquadraria perfeitamente em Rm 12:1).  Que seja também assim a nossa oferta e o nosso culto para a maior glória de Deus.

Leia mais sobre a "A OFERTA DA VIÚVA":

Parte 1
Parte 2
Parte 3

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A VONTADE DE DEUS

A OFERTA DA VIÚVA – Parte 3

Antes de continuar a refletir a partir da oferta da viúva observada por Jesus, permita-me fazer uma pequena digressão e, sem a pretensão de esgotar o assunto, embasar mais a nossa reflexão examinando qual a vontade de Deus para cada um de nós.
Para isso gostaria de tomar como base a carta de Paulo aos cristãos de Tessalônica.  Nela encontramos claramente dois direcionamentos da vontade de Deus para a igreja.
1. "A vontade de Deus é que vocês sejam santificados" (1Ts 4:3).  Deus tem como objetivo para a vida de cada um dos seus servos uma existência de santificação; sem a qual ninguém o verá (confira em Hb 12:14).  Ou seja, ser exatamente como ele é (em Levítico várias vezes e em 1Pe 1:16 explicitamente). 
Isso traz algumas implicações, a saber: primeiramente é preciso estabelecer prioridades: Jesus determinou em Mt 6:33 que o seu Reino e justiça ocupassem o primeiro lugar.  Mas também se faz necessário sair do aconchego e da zona de conforto para viver o evangelho em sua plenitude e até, se preciso, renegar pai e mãe, aos quais devemos honra (veja Lc 14:26).  Certamente não haverá santificação sem renúncia e disposição ao sacrifício voluntário.  Não posso me esquecer que Jesus colocou como condição ao discipulado a negação das demandas pessoais e o assumir da cruz (considere para sua vida Mt 16:24).
2. "Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus" (1Ts 5:18).  A vontade de Deus é claramente que cada homem e mulher – suas obras primas – vivam e existam para o seu louvor e glória.  E isso é mais que apenas um convite (mesmo no Sl 95:1).
Veja como este aspecto da vontade de Deus para minha vida é expresso nos páginas bíblicas: o Livro dos Salmos apresenta em seu último verso uma ordem direta: tudo o que é vivo e respira deve louvar ao Senhor (é o Sl 150:6), e isso não é opção, é mandamento sagrado!  Além do mais, Paulo instruiu a igreja a manter como tema e conteúdo de toda fala, conversa e pensamento aquilo que sirva de louvor ao Senhor (leia com atenção Cl 3:36).
Porém sem dúvida a mais importante citação quando se trata da vontade de Deus sobre a vida de adoração e louvor é Is 43:7 – "... a quem criei para minha glória".  Fui criado para a exclusiva glória de Deus.  A vontade do Senhor para minha vida é ser um instrumento de seu louvor e glória, e diante desta prerrogativa todas as outras perdem valor e importância: a minha própria subsistência ou vontade tem que se submeter à vontade divina e servir a sua exaltação.
Hoje posso entender que a viúva pobre que Jesus observou entregando a sua oferta naquele dia tinha uma convicção muito clara da vontade de Deus em sua vida.  E antes de prosseguir no estudo do caso, que eu possa já hoje fazer refletir a vontade Deus sobressaindo sobre a minha, para a sua glória.

Leia mais sobre "A OFERTA DA VIÚVA"

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O BOLERO DE RAVEL

Repetir dois ou três compassos com pouquíssima ou nenhuma variação por quase quinze minutos não parece ser a melhor ideia para uma composição, principalmente de sucesso.  Mas este é o caso do Bolero de Ravel.  Em tom quase monótono, a música se estende repetindo o tema.  Quando parece que vai acabar, ela simplesmente se repete... se repete... se repete... e se repete...
Em linhas gerais, só para identificar do que estou falando, o francês Maurice Ravel compôs seu Bolero em 1928 a pedido da dançarina Ida Rubinstein, que a encenou na sua avant premiere.  De lá para cá a obra já foi executada em diversas variações, inclusive no desfile cívico-militar do Sete de Setembro deste ano pela tropa da Polícia Militar da Paraíba, que desfilou ao som do Bolero de Ravel, adaptado pela Banda de Música da PMPB.
Sei que, com certeza, outros detalhes técnicos e partituras, bem como diversas curiosidades sobre a obra, podem ser encontrados na própria internet, é só procurar.  Então não vou me deter neles.
A verdade é que não sei exatamente porque, mas eu gosto deste Bolero.  Já fiquei minutos intermináveis parado no trânsito engarrafado ouvindo seus acordes repetidos.  E talvez aqui esteja o segredo: a sua interminável sequência se repetições parecem transmitir uma sensação de equilíbrio e continuidade.  É como se quisesse me dizer que sempre haverá algo mais e, de certo modo, a vida continua.
Sim, é gostoso ouvir o Bolero também porque não somente é repetitivo, mas é alegre.  Não sei se esta era a intenção original de Ravel, mas a música parece me dizer que a monotonia e padronização forçada da vida moderna (lembre que a obra é do século XX) não precisa ser necessariamente um tédio ou uma chatice: pode ser alegre, vibrante, exuberante.  E até com um pouco de atenção e ouvido acurado, dá para perceber as pequenas variações da vida lhe trazem um colorido diferenciado.
É bom ouvi-la.  Mas imagino que para os músicos deva ser cansativo executá-la.  Só que esta não é minha questão.  Não sou músico profissional e nem tenho a obrigação de fazê-lo.  Então que eu aprecie a obra, e isto me basta.
E para terminar, permita-me uma sugestão que vai ajudar a ver o Bolero de Ravel de maneira mais divertida.  Achei na internet uma animação do pessoal da Escola de Belas Artes da UFMG que faz as notas brincarem na pauta ao som da música.  É muito legal!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A CONTABILIDADE DE DEUS

A OFERTA DA VIÚVA - Parte 2

Na semana passada comecei a refletir sobre a história da oferta da viúva observada por Jesus e descrita de forma sucinta pelos evangelistas.  A ênfase da reflexão recaiu sobre aquilo que Jesus viu enquanto notava as ofertas sendo entregues no santuário.  Hoje quero continuar refletindo com base na mesma narração procurando compreender como se mostra a contabilidade de Deus em correlação à contabilidade humana.
Estou bem consciente que minha especialidade não é na área de Ciências Contábeis – sei que entre nós há alguns irmãos bem mais habilitados.  Porém mesmo nesta olhada leiga de temas contábeis, mas buscando aprofundamento nas verdades bíblicas posso destacar duas diferenças fundamentais.  Convido-os a analisar comigo para depois também concluir.
Em primeiro lugar a contabilidade de Deus não é baseada na aritmética nem é estruturada a partir da arte de composição numérica.  Ao chamar a atenção de seus discípulos para a atitude daquela mulher, Jesus estava mostrando que o mais importante não era a quantidade – o valor da moeda – da oferta.  Deus não soma e subtrai números procurando fechar empiricamente seu balancete, mas considera e ama aquele que com simplicidade dá com alegria (veja 2Co 9:7).
Em segundo lugar, Deus não baseia sua contabilidade numa relação causal, ou seja, não está subordinado às leis de causa e consequência.  Esta lei natural foi dada a mulheres e homens (tanto em 2Co 9:6 quanto Gl 6:7).  Deus, por sua vez, age e contabiliza baseado em seu poder e seu amor e não está submetido a lei alguma (compare Is 43:13 com 1Co 3:7).
Estas duas constatações – e não são as únicas possíveis – devem me levar a pelo menos três conclusões; e elas deverão me servir de base na hora trazer minha oferta ao Senhor.
Dízimo e oferta não é pagamento de dívida ou quitação monetária.  É retribuição de amor e gratidão pela graça favorecida (veja o que se propõe o salmista no Sl 116:12-19).
Concluo também que minha oferta não deve estar vinculada ao registro de fatos passados – materiais ou espirituais – numa relação de ativos e passivos contábeis.  É uma antecipação graciosa do futuro que está por vir (gosto em especial do que Paulo disse Fl 2:13).
Também importantíssima é a conclusão que chego de que oferta não é nem investimento nem poupança nesta vida ou na vindoura.  Primariamente é uma observância a uma ordem direta: é um ato de fé e obediência (no AT lemos Ml 3:10 e no NT Jesus fala em observar a benevolência sem omitir os ditames da lei em Mt 23:23).
Hoje devemos refletir sobre a contabilidade de Deus e trazer nossas ofertas e dízimos baseados naquilo que ele mesmo fez e faz por nós para sua glória
Na próxima semana pretendo continuar refletindo ainda com base neste episódio.

Leia mais sobre "A OFERTA DA VIÚVA":
Parte 1
Parte 3
Conclusão