terça-feira, 7 de julho de 2020

MUDE A PERSPECTIVA

 

Considere as situações:

 

Um gigante filisteu está afrontando Israel.

Os israelitas:

— Ele é muito grande, não vamos vencer!

O pequeno Davi:

— Ele é muito grande, é mais fácil acertar!

 

Paulo está preso:

O soldado romano:

— Você está acorrentado a mim, nem tente escapar.

O apóstolo:

— Você está acorrentado a mim, então escute o que tenho para lhe dizer.

 

Os pés de Jesus foram ungidos:

Judas:

— Que perfume caro, podia ter sido vendido!

João:

— Que perfume caro, o cheiro é muito bom.

 

As chuvas voltam às terras de Belém:

Noemi:

— Você não é dessa terra, volte para seu povo.

Rute:

— Eu não sou dessa terra, mas a companhia vale o risco.

 

O que há em comum nessas narrativas?  Uma situação problema e diferentes possibilidades de perspectivas.

O que eu vejo em cada uma delas?  Mais do que um otimismo ingênuo, eu percebo que a capacidade de desenvolver a fé em meio à crise e continuar olhando na perspectiva do Alto, pode fazer toda a diferença.

E você, está olhando a partir de qual perspectiva?

 

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O TAPECEIRO

 

A minha vida é por definição incompleta e está em construção.  Esse me parece ser um bom pano de fundo para o Tapeceiro de Stênio Marcius.

E se você não conhece, permita-me apresentar a canção e seu autor.  Stênio Marcius, compositor do norte do Brasil, lançou em 2002 seu primeiro álbum e desde então vem apresentando composições ricas em originalidade, sem se descuidar de uma boa base bíblica, teológica e cultural.

Naquele primeiro álbum, na primeira faixa - a canção que dá nome a obra - somos logo apresentados ao Tapeceiro que está a tear, fio por fio, toda a nossa história.

Então já aqui, no começo, uma citação bíblica me vem à lembrança para ter um molde para minha tapeçaria: "só eu sei os planos que tenho para vocês, e eles são de futuro e esperança - diz o Senhor" (Jr 29:11).

E olhando bem, cada detalhe se encaixa bem.  Minha vida em construção está se fazendo como uma tapeçaria onde cada fio é laçado e trançado pacientemente.  Mas esse não é um bailado aleatório de linhas e pontos que ao acaso vão se juntando e separando.  Há um artista, divino artista, que conhece a obra como ninguém e tem um plano já bem definido de como quer o resultado de sua obra - sua imagem e semelhança (é inevitável a citação de Gn 1:26-27).

Um detalhe importante.  O Mestre Tapeceiro nunca se cansa e nada pode impedi-lo de completar a sua obra (lembre Is 40:28 e também 43:13).

Assim, posso confiar nele, mesmo que numa primeira olhada minha vida possa parecer uma mistura descuidada de situações e eventos, apenas um bocado de nós e circunstâncias aleatórias sem perspectivas.  Mas preciso olhar direito, e pelo ponto de vista correto do Tapeceiro, para compreender que realmente minha vida é obra de tapeçaria e ela continua sendo tecida, dia a dia, momento a momento com cores alegres e vivas (acho que Ne 8:10 aponta nessa direção).

E só então eu vou finalmente perceber que toda a confecção da tapeçaria de minha vida e história incompleta desenhará a glória de Jesus Cristo.

Talvez esse já seja um ensaio do grande coral que entoará o canto eterno: "Somente o Cordeiro que foi morto é digno de receber honra, glória e louvor" (Ap 5:12).

 

 

Para atender uma solicitação do casal Reginaldo e Layslla de Moraes (@moraes.casal) com satisfação eu escrevi esse texto aí.  E se você quiser ouvir uma versão muito boa, sugiro a interpretação do Casal Moraes que você pode achar no YouTube

 

terça-feira, 30 de junho de 2020

ASSIM É O AMOR (parte 3)

 

Esta é a última parte da lista de atitudes que podem ser reconhecidas no amor, conforme o apóstolo Paulo cantou na sua Carta aos Coríntios.  Veja aí as expressões de 1Co 13:7-8.

 

Tudo sofre (πάντα στέγει) - uma boa opção de tradução seria: o amor tudo aguenta (ou leva nos próprios ombros).  Um bom exemplo foi dado pelo próprio Paulo quando declarou que preferiu aguentar qualquer coisa por amor para não ser pesado à igreja (confira 1Co 9:12).

Tudo crê (πάντα πιστεύει) - eu diria que o amor se baseia completamente na fé.  E é bom lembrar que Jesus declarou que quem nele depositar sua fé, ainda que esteja morto viverá (dito em Jo 11:25).

Tudo espera (πάντα ἐλπίζει) - também, o amor vive em toda expectativa (acrescento: boa expectativa).  Temos a garantia de que o Deus que é o amor nos outorga uma esperança a qual não decepciona (ateste em Rm 5:5).

Tudo suporta (πάντα ὑπομένει) - literalmente diria que o amor demonstra resistência. Ampliando o sentido: o amor é o alicerce seguro de tudo.  Aos Hebreus é dito que Jesus suportou tudo pelos pecadores (Hb 12:3).  Isso sim é atitude e exemplo de amor que é a base de tudo.

Nunca perece (οὐδέποτε πίπτει) - a última afirmação sobre o amor: o amor nunca cai derrotado - o amor nunca se rende, nunca se prostra, nunca tomba.  A falta de amor nos faz cair - como Saulo a caminho de Damasco (narrado em AT 9:1-6) - mas o amor divino sempre nos ergue.  Esse é o modelo.

 

Assim, chegamos ao último verso desse capítulo 13 com a afirmação categórica de que fé, esperança e amor (πίστις, ἐλπίς, ἀγάπη) ainda permanecem. Mas entre esses três, sem dúvida, o maior dele é o amor.

 

Leia também:

 

Aqui a 1ª parte - 1Co 13:4

Aqui a 2ª parte - 1Co 13:5-6

 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

SABEDORIA E INTELIGÊNCIA

 

O livro da profecia de Daniel narra, nos sete primeiros capítulos, a trajetória de quatro jovens judeus na corte da Babilônia - Daniel (chamado em língua local de Beltessazar), Hananias (Sadraque), Misael (Mesaque) e Azarias (Abede-Nego).

Logo no começo da narrativa os garotos são apresentados como nobres exilados, levados de Jerusalém depois que o rei Joaquim sucumbiu diante do exército de Nabucodonozor.

Mas o rei conquistador tinha planos para os deportados: incutir neles a cultura, a religião e os hábitos babilônico, fazer deles típicos colonizados - uma recorrente relação de dominação cultural e etnocentrismo, de metrópole e colônia, de racismo e subjugação ideológica.

Aconteceu porém que os quatro heróis decidiram não se conformar com as práticas impostas.  Criado o impasse, os jovens conseguiram uma brecha de dez dias para provar que seu modus vivendi - ou Jewish way of life - apresentaria resultados mais expressivos.

Com um prazo tão curto, a intervenção divina fez toda a diferença.  E o texto sagrado diz: "A esses quatro jovens Deus deu sabedoria e inteligência para conhecerem todos os aspectos da cultura e da ciência" (Dn 1:17 - é interessante continuar lendo até o verso 20).

Se a intenção era capacitar os jovens com as artes e ciências daquela terra, foi-lhes concedida sabedoria e inteligência celeste.  Perspicácia, tirocínio, razão, ciência, intelecto; tudo isso e muito mais cedido de graça por aquele que tudo sabe e tudo conhece (lembro o hino de louvor em Rm 11:33-36 que louva o Onisciente).

Agora, me permita descrever a sabedoria e inteligência que foi dada aos jovens nobres, vinte e quatro séculos atrás, com modos de hoje.  Acho que assim fique melhor de entender.

Depois de se submeterem não ao capricho de um governante temporário, mas àquele que eternamente tudo define, os jovens passaram a dominar também o método, os critérios, os pressupostos e ditames de todo conhecimento científico.

Eles se tornaram versados em ciência pura.  Matemática, física, astronomia, mecânica quântica, química.  A formação e interação de elementos e forças.  Os tempos, os espaços e as sequências.  O Cosmo e o átomo.  O macro e o micro.

Eles dissecaram as ciências da vida.  Bioquímica, botânica, farmacologia, anatomia, ecologia, genética.  As enzimas, os ácidos e as células.  A fotossíntese, os instintos e a reprodução. A bio, a gaia e o zoo.

Eles compreenderam os meandros das ciências humanas.  Psicologia, sociologia, linguística, história, direito, geopolítica, antropologia.  A mente, a alma e seus contornos e cores.  As sociedades e seus mecanismos.  Os impulsos individuais e as pressões coletivas.  O meu e o nosso.

Mas também percorreram as trilhas do saber.  Filosofia, arte, epistemologia, literatura, metafísica, ontologia.  O pensamento e a lógica.  A sabedoria e a erudição.  A ética e a estética.  O belo e o correto.

Então eu, olhando aqueles doutos jovens, posso me ver chegando a duas conclusões.

Primeiro.  A verdadeira piedade cristã se opõe diametralmente ao obscurantismo intelectual.  John Stott já dizia que crer é também pensar.  Fé e ciências precisam ser parceiras e nunca adversárias.

É claro que sempre haverá aqueles momentos nos quais vou concordar com Agostinho que dizia: crede, ut intelligas - "creia para que possa entender".

Segundo.  Quando não consigo entender um determinado postulado ou enunciado eu não devo simplesmente relegá-lo a ignorância nem a detratação.  O entendimento joanino de investigar os espíritos, entendo que pode ser estendido para aqui (cito 1Jo 4:1).

Também é bom observar que Tiago instrui a quem não tem sabedoria que peça a Deus que ele dá liberalmente - como fez com os jovens judeus (a referência é Tg 1:5).

E acrescento uma terceira mais, fazendo minhas as palavras de Paulo: comam, bebam, creiam e aprendam; mas façam tudo para a glória de Deus (1Co 10:31).

 

terça-feira, 23 de junho de 2020

ASSIM É O AMOR (parte 2)

 

Dando prosseguimento a lista de atitudes que podem ser reconhecidas nesse amor.  Veja aí as expressões de 1Co 13:5-6 (leia a primeira parte aqui).

 

Não maltrata (οὐκ ἀσχημονεῖ) - não é próprio ao amor agir de forma indecorosa ou comportar-se de maneira desonrosa.  Por outro lado, a recomendação de Paulo é que nossa responsabilidade seja viver decentemente (leia em Rm 13:13).

Não procura seus interesses (οὐ ζητεῖ τὰ ἑαυτῆς) - literalmente buscar ou exigir o que é seu, o próprio.  Pouco antes, o mandamento apostólico foi para que ninguém se ocupe apenas com seu próprio bem, mas dê atenção em cuidar dos outros (em 1Co 10:24).  Esse é o padrão de comportamento do amor cristão.

Não se ira (οὐ παροξύνεται) - ou seja, o amor não explode diante de provocação ou irritação.  Pelo contrário, o autor aos Hebreus instrui que nos provoquemos e motivemos em amor (Hb 10:24).

Não guarda rancor (οὐ λογίζεται τὸ κακόν) - pode ser dito: o amor não cogita - ou não leva em conta - o mal.  A indicação de Paulo aos Filipenses se enquadra no comportamento adequado para o verdadeiro amor: cogitem no que é bom (Fl 4:8).

Não se alegra com a injustiça (οὐ χαίρει ἐπὶ τῇ ἀδικίᾳ) - a tradução aqui é bem direta: a alegria do amor não está na injustiça.  O mandamento apostólico é para que nossa alegria se estabeleça na esperança (em Rm 12:12).

Mas se alegra com a verdade (συνχαίρει δὲ τῇ ἀληθείᾳ) - em oposição à negação anterior, agora o poema enfatiza a se somar na alegria que a verdade deve proporcionar.  A ilustração do corpo para falar da igreja que Paulo usou pouco antes nessa mesma carta mostra que nos amamos enquanto alegramos juntos (1Co 12:26).

 

A riqueza do texto ainda prossegue, ainda vem uma terceira parte da lista de expressões de 1Co 13.

 

Leia aqui a 1ª parte - 1Co 13:4

Leia aqui a 3ª parte - 1Co 13:7-8

 

sexta-feira, 19 de junho de 2020

SE SOU CRISTÃO

 

Recentemente meu irmão Jader relembrou em seu Face a letra da canção "Que estou fazendo se sou cristão?"  Gosto dessa música.

Para quem não conhece, vou apresentá-la rapidamente.  Em 1967, enquanto o Brasil começava a endurecer sua ditadura, o reverendo presbiteriano João Dias de Araújo, juntamente com João Wilson Faustini, entendeu que aquele era um momento de fazer música com uma temática que refletisse as questões cotidianas e de como nosso cristianismo poderia ser uma resposta.  Assim surgiu a letra.

A música que cantamos aqui (está no HCC nº 552) foi composta em 1974 por Decio Lauretti e o seu comentário sobre a obra a descreve bem.

 

A música “Que estou fazendo” é produto da época da ditadura militar.  Tomei conhecimento do poema do Rev. João Dias de Araújo e fiquei muito impressionado pela firmeza das suas palavras.  Pregava um cristianismo engajado na luta contra as injustiças, distante da religião enclausurada nos templos, que busca a ‘salvação da alma’ e ignora o corpo, especialmente os corpos dos desfavorecidos.  Decidi musicá-lo, optando por uma seqüência harmônica barroca num ritmo brasileiro, o baião.

 

Esse hino passou a ser cantado em diversas igrejas do Brasil - de presbiterianos a luteranos - e entrou em nosso HCC no início dos anos 1990.

Mas vários evangélicos brasileiros se recusaram a cantá-lo. Crente não pode cantar isso. Não é hino de adoração. Não tem letra condizente com a Bíblia.

Preciso dizer que discordo, concordo e discordo.  Respectivamente.

Vamos lá da última para a primeira.

§ A letra tem ampla base bíblica.  Os profetas do AT tiveram suas mensagens absolutamente recheadas de conteúdo com apelo a justiça e engajamento social (confira por exemplo Am 5:24 / 8:4-18 e Mq 6:8).  Também importante destacar que o objetivo expresso na Lei é para que não haja pobres entre vocês (Dt 15:4-5).

Mais significativa, porém, é a interpretação que Jesus faz da profecia de Oseias (compare Mt 9:13 e 12:7 com Os 6:6).  Nas duas ocasiões, o Mestre enfatiza que é indispensável no relacionamento com Deus uma preocupação e misericórdia com os mais necessitados.  Um não pode acontecer sem o outro (1Jo 4:20-21 e Tg 1:27 / 5:1-6 entenderam bem as lições de Cristo para a igreja).

§ Realmente essa canção não é um hino de adoração.  Adorar é curvar-se, prostrar e submeter. Também é declarar a glória absoluta que pertence só a Deus (a cena dos anciãos diante do trono em Apocalipse capítulo cinco demonstra bem isso).

Na adoração e no louvor eu exalto e bendigo quem é Deus e o que ele faz na história - e isso eu não declaro com a letra da música.  Mas aqui já olho para o próximo ponto.

§ Todo crente não apenas pode, mas deve cantar assim.  A adoração cristã é voltada somente a Cristo.  Só que essa verdade não vai impedir que nossa fé nos leve a olhar na horizontal para aqueles que precisam ser alcançados pela força revolucionária do amor e das ações do evangelho.

Então o questionamento é bem pertinente e transformá-la em uma canção que me mova a um compromisso cristão que se assemelhe com o empenho do próprio Senhor tem que fazer parte de nossas liturgias.

Devo sim colocar minha fé e minhas práticas religiosas contra a parede:

 

Que estou fazendo se sou cristão?
Se Cristo deu-me total perdão?
Há muitos pobres sem lar, sem pão.
Há muitas vidas sem salvação.
Meu Cristo veio pra nos remir:
o homem todo, sem dividir.
Não só a alma do mal salvar,
também o corpo ressuscitar.

 

terça-feira, 16 de junho de 2020

ASSIM É O AMOR (parte 1)


O apóstolo Paulo insere em sua carta aos Coríntios um belo e fantástico poema sobre o amor (em 1Co 13).

Ali ele canta o amor verdadeiro, puro, sincero, despretensioso.  Ele se refere ao amor em sua forma essencial e usa a palavra grega ἀγάπη para indicar de que tipo de amor ele descreveria ali.

Só lembrando: (1) os gregos tinham diversos vocábulos que hoje traduzimos como amor em nosso vernáculo (já postei sobre isso - você pode acessar aqui); e (2) essa é a mesma palavra que João usa para descrever Deus em 1Jo 4:8.

No poema, Paulo começa afirmando que o amor assim não pode ser descrito em linguagem humana ou angelical, vai além do entendimento de ciência e mistério, não pode ser captado por fé nem expresso em profecia e transcende a ações caridosas.

Segue-se então uma lista de atitudes que podem ser reconhecidas nesse amor.  É como se o apóstolo dissesse: assim é o amor.

 

Paciente (μακροθυμεῖ) - esse verbo grego indica a ação de pacientemente mostrar-se tolerante e com perseverança nunca desistir, mesmo que isso provoque algum sofrimento.  Paulo descreve o fruto do Espírito com um adjetivo da mesma raiz em Gl 5:22.

Bondoso (χρηστεύεται) - a ação de ser gentil e estar disponível para servir os outros são características indispensáveis ao amor.  A Filemon (em Fm 1:11), Paulo usa um jogo de palavras a partir desse verbo para descrever a mudança na vida de Onésimo - de inútil para útil.

Não inveja (οὐnζηλοῖ) - uma atitude e sentimento negativo que o amor não pode demonstrar: ciúme, inveja, desejo de posse.  Em Gl 5:20 esse comportamento é descrito como obra da carne.

Não se vangloria (οὐ περπερεύεται) - esse verbo só aparece aqui no NT grego.  O sentido, no grego antigo, é de gabar-se, falar ou se comportar de maneira ostensiva e arrogante.  O amor nunca é assim.

Não se orgulha (οὐ φυσιοῦται) - no grego esse verbo descreve o ato de inflar ou soprar.  Daí, estar cheio de si mesmo, ser prepotente.  Uma das duras críticas que Paulo faz a Igreja de Corinto é que eles se tornaram orgulhosos - auto-suficientes - em sua própria fé e experiência (1Co 4:18-19).

 

Pelo visto, a riqueza do texto é grande, então decidi dividir a análise em partes.  Aqui estão listas as expressões de 1Co 13:4.

 

. Leia aqui a 2ª parte - 1Co 13:5-6

. Leia aqui a 3ª parte - 1Co 13:7-8