terça-feira, 19 de janeiro de 2021

VULGATA – A BÍBLIA EM LATIM

  


Os primeiros manuscritos do texto bíblico surgiram na região que hoje conhecemos como Oriente Médio.  Eles eram escritos em uma língua de origem semítica.  Essa é a origem do nosso Antigo Testamento em Hebraico (há ainda alguns pequenos trechos em Aramaico – uma língua irmã).

Já quanto ao Novo Testamento, ele foi todo escrito inicialmente em Grego – na variante que ficou conhecida como Koiné.

O que essas línguas têm em comum?

Do ponto linguístico quase nada!

Os textos também não foram escritos nessas línguas porque elas eram sagradas ou místicas.  Era apenas a fala comum do povo.  Se o texto era para ser lido e conhecido por todos, então que estive em seu sotaque materno e costumeiro!

 

A igreja primitiva conheceu os textos sagrados nessas línguas – seus membros falavam assim no dia-a-dia.  Mas aos poucos a igreja foi se expandindo para lugares e povos que conversavam em outros idiomas, então surgiu a necessidade de que os mesmos textos sagrados continuassem sendo entendidos.  Era preciso traduzi-los.

 

No centro do Império Romano o povo falava Latim e surgiu a necessidade a ter todo o texto acessível.  A tarefa de tradução foi incumbida a Jerônimo de Estridão que no início do século V entregou a sua Vulgata Versio, isto é "versão de divulgação para o povo".

Essa versão do texto bíblico foi escrita num latim vulgar e cotidiano, diferente dos textos clássicos de Cícero e outros eruditos.

Era para ser lido e compreendido por todo o povo.

E fez mais.  Além de traduzir diretamente do hebraico e grego os textos considerados sagrados e canônicos pelos cristãos, Jerônimo, como teólogo, acrescentou alguns comentários de sua autoria e prólogos críticos ao texto.  Ele também traduziu os que conhecemos como deuterocanônicos e os incluiu numa edição posterior, seguindo uma tradição latina antiga.

Curioso ainda é o caso do Livros dos Salmos que Jerônimo traduziu em colunas paralelas a partir das versões: 1. Em hebraico (Iuxta Hebraicum Translatus) e 2. Em grego (Iuxta Septuaginta Emendatus).

A versão de Jerônimo se consolidou e se tornou popular no uso comum do povo, até que no século XVI o Concílio de Trento a tornou o texto oficial da Igreja Católica Romana.

E finalmente, já no século XX, o Concílio Vaticano II autorizou uma revisão no texto para um melhor uso nas liturgias católicas.

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

FALA DEUS!

 



Fala Deus! Fala Deus!
Toca-me com brasas do altar.
Fala Deus! Fala Deus!
Sim, alegre, atendo ao teu mandar.

 

Eu me lembro de ouvir o cântico “Fala Deus!” nas reuniões de oração em nossa igreja na minha infância aqui em Aracaju.  Naquela pouca idade, eu também pouco conhecia e a melodia era apenas mais um corinho de inspiração que se entoava nos cultos.

Depois, esse hino me acompanhou por vários outros momentos.  Descobri que o corinho era na verdade o refrão do Hino “O Senhor da Ceifa Chama” (nº 127 da Harpa Cristã) e o ouvi em variadas gravações, de Luiz de Carvalho a Cassiane – e até cheguei a cantar com o nosso Coral Idade Feliz em nossa Igreja.

Bem mais recentemente fui em busca de maiores detalhes sobre o hino.  Confesso que não achei muita coisa que alimentasse minha curiosidade.  Sei apenas que a composição original é do sueco Otto Nelson que atuou como missionário das Assembleias de Deus no Brasil nos primeiros anos do século XX – tendo inclusive contribuído na organização da Igreja Assembleia de Deus aqui em Aracaju em 1949.

 

O hino em si tem uma melodia agradável e de fácil memorização – o que só valoriza a canção – e a ouvir ao toque de uma banda de metais da própria Assembleia de Deus levanta qualquer crente.

 

A letra aponta diretamente à experiência do profeta Isaias quando viu o Senhor no trono (capítulo 6) e foi tocado pela brasa viva do altar o capacitando para levar a mensagem.

Porém, bem ao estilo mix pentecostal, a letra nos conduz tanto a compreensão da urgência no anúncio da mensagem pois muitos já se vão expirando quanto a esperar a saudação e o bem-vindo de Jesus no grande dia quando finalmente poderemos descansar dos trabalhos daqui e desfrutaremos das bênçãos que nos aguardam.

Mas o refrão sempre traz de volta a oração: Fala Deus! Toca-me.  E assim, enquanto espero a manifestação da graça eu me coloco alegremente à disposição para atender o mandar divino.

 

Que seja essa a nossa oração: Fala Deus pois estou atento a ouvir e atender sua voz.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

LIVROS HISTÓRICOS DO ANTIGO TESTAMENTO

Em nossas Bíblias modernas, estão compilados no bloco dos LIVROS HISTÓRICOS DO ANTIGO TESTAMENTO as narrativas da história do povo de Israel, de quando este chegou em Canaã, vindo da escravidão e peregrinação pelo deserto, passando pelos juízes, reis e profetas, ida ao exílio, e restauração para serem novamente o povo de onde haveria de nascer o Enviado de Deus.

A ênfase nestes livros não está necessariamente em questões doutrinárias ou cultuais.  Aqui são narrados fatos tentando mostrar a trajetória de um povo que foi escolhido para ser propriedade exclusiva do Senhor, mas que, nem sempre, soube ser fiel a este senhorio.

 

Vejamos rapidamente os doze livros, um a um:

 

# Josué – O livro leva o nome do herói da conquista.  Josué foi o sucessor de Moisés na liderança do povo, e sob seu comando a nação israelita foi estabelecida na terra, sendo dividida em tribos.  O povo chegou na terra por volta do século XVI a.C.  Depois de ter conquistado o local da promessa, fez um pacto de fidelidade com o Senhor: "Ao SENHOR, nosso Deus, serviremos e obedeceremos à sua voz" (Js 24:24).

# Juízes – Este segundo entre os livros históricos narra o período de transição entre a conquista com o assentamento das tribos numa federação e o estabelecimento do reino judaico.  Este período que cobre quatrocentos anos relata quase que invariavelmente esta sequência: a) fidelidade ao Senhor; b) apostasia e culto aos ídolos; c) queda e ruína sob opressores estrangeiros; d) Deus levanta um juiz libertador; e) com a vitória o povo se arrepende e volta à fidelidade ao Senhor; reiniciando o ciclo.

# Rute – Este pequeno livro do AT traz uma história singular.  Além de apresentar a ascendência do rei Davi, mostra aos filhos de Israel que Deus pode utilizar qualquer pessoa, mesmo uma gentia, para que seus planos sejam executados, cabendo a nós apenas nos colocar em nosso lugar de servos cumpridores da sua Lei e dos seus desígnios.  O livro de Rute era lido na festa anual das Semanas (o NT chama de Pentecoste) e inspirava o povo a celebrar a Deus pela colheita.

# 1º e 2º Samuel – Os dois livros narram a formação do reino judaico.  Começando com o juiz-profeta Samuel que teve o privilégio de ungir os primeiros reis de Israel, passando pelo reinado de Saul, as conquistas de Davi e a formação do Império sob seu comando.  A época era o século X a.C. e a nação estava em plena ascensão.  A disposição do texto é bastante narrativa contando como o povo deixou de ser nômade para se tornar sedentário – de um povo governado por Deus através de juízes esporádicos para um povo administrado por um governo central.

# 1º e 2º Reis – Os livros dos Reis começam com a velhice de Davi e o processo de sucessão e escolha de Salomão – o sábio herdeiro do Império.  Com a morte de Salomão, a nação se dividiu, passando o livro narrar em paralelo os destinos da nação do norte: Israel inicialmente com Jeroboão e do sul: Judá inicialmente com Roboão.  A história seguiu a sequência de reis que fizeram o "que era reto perante o SENHOR, como Davi, seu pai" (1Rs 15:11) e reis que fizeram o "que era mau perante o SENHOR" (1Rs 16:30) até que por fim caíram as nações do norte e do sul por causa dos pecados que cometeram já no século V a.C.

# 1º e 2º Crônicas – Os livros das Crônicas dos reis de Israel retoma a história contada com uma breve resenha genealógica inicial recontando a trajetória dos reis: de Davi ao cativeiro.  Porém, diferentemente dos livros anteriores, aqui a ênfase é dada não na narração histórica sequencial, mas nos feitos e realizações administrativa e militar dos reis, principalmente suas ações no trato das coisas sagradas.  Estão nestes livros a reinterpretação feita por Davi e Salomão do culto e celebração, com o planejamento e a ordenação do sacerdócio levítico em Jerusalém.  O texto conclui com o povo no exílio e o rei persa Ciro autorizando a reconstrução do templo.

# Esdras – Curiosamente as últimas palavras de 2Cr são as primeiras palavras deste livro: o decreto de Ciro.  Esdras era o líder administrativo que, ao lado de Neemias, dos profetas Ageu e Zacarias e do sacerdote Zorobabel, iria reconduzir o povo à terra da Palestina e reconstruir a nação, os muros, o templo e o culto.

# Neemias – As narrações deste livro são paralelas às de Esdras.  Neemias era o arquiteto e incentivador da reconstrução da cidade e do templo e seu livro – assim com o anterior – é narrado em primeira pessoa.  A reconstrução se deu no século IV a.C. e teve seu ponto alto na leitura do Livro da Lei e arrependimento e confissão de pecados pela nação (Ne 8 e 9). 

# Ester – Este livro que nem cita o nome de Deus conta a história de uma jovem judia, que estando no palácio de Assuero, pode salvar toda a nação por não ter sido omissa.  O livro narra a instituição da Festa de Purim e era lido anualmente em sua celebração.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

GENTE COMO A GENTE

 



A Epístola de Tiago é um texto bem singular no Cânon do NT, diferente de outros escritos que apresentam longos e bons arrazoados doutrinários e teológicos, essa carta se ocupa apenas em apresentar posições cristãs para situações bem concretas.

É verdade também que alguns renomados líderes cristãos torceram os narizes diante desse texto ao longo da nossa história.  Mas isso só confirma a certeza: Deus fala a igreja nas suas próprias palavras, no seu cotidiano.  Apresenta soluções diretas e vai em busca de gente imperfeita, incapaz, incompleta e às vezes bem incoerente.

 

Certamente as reflexões teológicas tem seu lugar de destaque nas nossas fileiras cristãs.  Eu mesmo lido com esse labor como parte de vivência cristã.

 

Mas, voltando ao texto de Tiago, ele começa já afirmando que sabedoria e conhecimento cristãos não são exclusividade de alguns poucos privilegiados eruditos ou doutos, mas está disponível a todos – a gente como a gente.  Basta pedir que Deus dá (leia em Tg 1:5).

Depois segue pisando nos calos daqueles que mantêm uma atitude de preconceito social, pois para o Senhor todos são igualmente gente como a gente (veja a situação citada em Tg 2:1-9).

Fala ainda da relação entre uma fé de discurso e um cristianismo de atitude (a partir de Tg 2:14).  E faz uma advertência seríssima sobre os perigos da língua (seguindo a partir de Tg 3:1).

E na vida diária de gente como a gente, fica o alerta de se estabelecer os limites da obediência, teimosia, submissão e resistência (atente Tg 4:7).

No último capítulo da Carta ainda restam dois temas.  Um.  Aos ricos e poderosos em nossas comunidades que não se entendem que são gente como a gente, é dito que fiquem atentos por que desgraças podem chegar – e não seriam seus próprios recursos que iram lhes valer (observe Tg 5:1-6).

Outro.  Enfrentando os sofrimentos que insistem em assustar gente como a gente, fica o conselho a manter a paciência (em Tg 5:7-11).

Assim, concluímos essa leitura rápida da Carta de Tiago, destinada a igreja de Cristo – como tribos dispersas – lembrando em nosso cotidiano, diante das incertezas da vida, o exemplo de Elias, que sendo gente como a gente, com a sua oração, ainda assim teve acesso à torneira das chuvas em Israel (confira em Tg 5:17-18).

E que fique o resumo para gente como a gente:

 

Está aperreado? Ore
Está contente? Louve
(Tg 5:13)

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

ESSE ANO

 



No ano em que o rei morreu (Is 6:1)

No ano quarto, no mês quinto (Jr 28:1)

No ano vinte e cinco do nosso cativeiro (Ez 40:1)

Dois anos antes do terremoto (Am 1:1)

Aconteceu no ano quarto do rei Dário (Zc 7:1)

 

Os profetas bíblicos sempre tiveram o cuidado de marcar suas mensagens com datas.  Suas profecias aconteceram em um ponto específico do calendário.

Isso me leva a reflexão sobre a atenção que o próprio Deus dá aos acontecimentos dentro da história.  Até ele mesmo, inclusive, se fez história ao participar da nossa vida e cotidiano.

Eu sei que o calendário, com suas datas e marcações é resultado do trabalho e tendência humana de estabelecer e reconhecer padrões na natureza e mundo que o cerca.

 

Deus criou dias e noites – nós os repartimos em horas e minutos.

Deus criou a lua com suas fazes – padronizamos os meses com suas semanas.

Deus criou as estações – e as agrupamos em anos.

E assim, somamos décadas, séculos, eras... e continuamos contando.

 

Depois desses alinhamentos iniciais com contornos mais teóricos, começo a pensar no instante em que vivemos.  E enquanto estou Escrevinhando essas primeiras palavras já em 2021 também começo a deixar a mente vagar.

 

Será que com o anoitecer da última quinta-feira e amanhecer da sexta-feira seguinte mudamos o chip? Ou foi somente mais uma alvorada que se seguiu à apenas mais um ocaso?

Ao mudar o registro do ano, unicamente lhe acrescentamos uma sequência? Ou damos um restart em nossa trajetória e perspectiva?

 

Eu hoje não tenho as respostas – como disse estou Escrevinhando apenas no início de 2021 – e pode ser que ao ler essas linhas em outras viradas de ano mais adiante eu até ache curioso.  Mas o tempo e a história são feitos assim: o que hoje é incerteza, amanhã é acontecido.  O que hoje é expectativa, amanhã é relato.

Assim, encerrando 2020, com tudo de interrogação que ele nos trouxe, e olhando para esse ano que estamos começando a trilhar como incontáveis outras interrogações (reconheço que algumas são as mesmas!), quero ler, como reforço de fé e esperança, as palavras do salmista:

 

Esse é o tempo que o Eterno fez.
Vamos celebrar e nos alegrar nele.
(Sl 118:24)

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

APENAS HOJE

 

 

2020 está chegando ao fim.  Embora todo fim de ano proporcione reações diversas. Algumas tradições e atitudes são basicamente esperadas.

As decorações abusam das luzes, a televisão se enche de especiais de natal e retrospectivas do ano, as confraternizações envernizam o espírito natalino, as promessas são proferidas e repetidas (algumas bem antigas), e por aí vai...

Mas, alguém vai negar que 2020 é diferente?

Quem é da minha geração vai lembrar da hecatombe nuclear e da ameaça comunista, do fim-do-mundo no ano 2000 e do bug do milênio, da revolta das máquinas e do HIV.  E ainda aguardando...

Posso comparar a 2020?

E se olhar mais longe na história: a peste negra, a guerra do ópio, o crash de 1929, a sombra nazista.  Quantos dados...

Será que 2020 se assemelha?

Utopias foram e voltaram, sonhos e expectativas se alimentaram e definharam, projeções e modelos de basearam e diluíram.  Mas...

E então, 2020 está chegando ao fim. Talvez até tenha quem encontre algum vestígio para celebrar.  Desconfio.  Porém acho que a maioria vai apenas suspirar: Ufa!!! Já foi!!!

Agora, pois, vendo os últimos lampejos de 2020 indo, eu me ponho a fazer o que me cabe: continuar Escrevinhando e ousando teologar tendo como base a herança sagrada que a Bíblia me fornece.

Quando Noé saiu da arca, depois da quarentena imposta pelo diluvio, ele ofereceu uma oferta ao Senhor, e isso lhe foi agradável.  Então o próprio Eterno lhe retribuiu com uma garantia/constatação: Enquanto durar a terra, plantio e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite jamais cessarão (Gn 8:22).

Muito mais que um convite à resiliência, o suspiro divino diante da oferta cheirosa do patriarca é a certeza que, seguindo a cada noite, uma alvorada sempre surgirá.  Nenhum terror noturno vai impedir o renovo da aurora da misericórdia.

Assim é que depois da noite que pode produzir choro e escuridão incerta, o amanhecer é inevitável e trará alegrias e misericórdias renovadas (Sl 30 e Lm 3).

Então eu me lembro das palavras do próprio Mestre:

– Não se percam por aí com ansiedade pelo que pode vir!  Basta a cada dia a sua pandemia! (Mt 6:34)

2020 realmente foi duro – os ingleses diriam: hard!

Mas, e o que nos aguarda 2021?

E eu insisto na sabedoria cristã:

– Por mais aperreado que você esteja, pode por acaso antecipar um segundo do futuro, fazendo-o agora? (Mt 6:27)

Ora, apenas hoje, você está vivo agora.  Apenas hoje perceba que 2018, 2019, 2020 chegaram e se foram.  Apenas hoje tire 2021 dos seus cuidados.

Apenas hoje. Olhe os lírios e os pássaros.  Eles vivem, um dia de cada vez, apenas hoje!

Apenas hoje, louve o Criador (Sl 150).