terça-feira, 26 de março de 2019

FÉ E CIÊNCIA – Um Diálogo da Modernidade



Durante o período medieval europeu, o cristianismo ocidental levou a efeito uma sociedade cristã – dita cristandade – que se propôs hegemônica, não somente por seu aspecto geográfico, mas também por se apresentar como portador de soluções universais para todas as questões humanas.
No final do século XV e início do século XVI, porém, uma série de acontecimentos provocou a subversão da arrumação medieval do mundo ocidental. Nesse período os reis católicos unificaram a Espanha; Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral chegaram ao novo mundo; Nicolau Maquiavel publicou O Príncipe; Martinho Lutero afixou as 95 Teses na porta do Castelo de Wittenberg; Leonardo da Vinci pintou a Capela Cistina em Roma, entre outros eventos históricos, precipitaram a transformação do mundo ocidental (já publiquei uma cronologia desta época – veja aqui – link).
Como movimentos humanos, temos a partir daí o protestantismo, o iluminismo, o racionalismo e o positivismo com todos os desdobramentos destes movimentos. Eles tanto propuseram uma nova arrumação à humanidade ocidental como não conseguiram mais dar unanimidade ao pensamento como o tinha dado a cristandade ocidental até então.
Pelo lado protestante, a tradição que se cristalizou a partir do século seguinte seguiu como as duas trilhas do pensamento: a ortodoxia e o movimento pietista dando ênfase a razão e crença respectivamente.
Quanto a isso, Paul Tillich observa que embora a ortodoxia seja a representação mais objetiva que existe da teologia protestante, contudo o pietismo foi mais moderno do que a própria ortodoxia. Pois estava mais próximo da mente moderna na busca pela subjetividade.
E este será o grande tema do debate protestante a envolver a sua teologia: objetividade ou subjetividade – qual deverá ser a marca principal da teologia protestante moderna? A teologia deverá se nortear pela fé ou pela ciência?
Como vimos, ao contrário do pensamento hegemônico da cristandade medieval quando a fé tinha total primazia sobre as questões humanas, agora na tradição protestante, a fé e ciência disputam lugar, lado a lado, como critério de validação das verdades teológicas. A ortodoxia pregando que o conhecimento teológico deve se submeter aos ditames do conhecimento científico e o pietismo enfatizando que todo o conhecimento relativo deve passar pela experiência pessoal e mística.
Sobre isso, ainda Tillich ilustra este debate com a seguinte situação: Os ortodoxos diziam que a teologia era uma ciência objetiva e que, por isso, qualquer pessoa capacitada poderia escrever Teologias perfeitamente válidas sem a necessidade do novo nascimento. O pietismo dizia: “Não, só se pode ser teólogo depois da experiência da regeneração”.
No desdobramento histórico deste embate, chegando ao final do século XIX e início do século XX estas questões modernas entre fé e ciência foram levadas às distintas consequências. Pelo menos três tipos de relacionamento podem ser notados: (1) Fundamentalismo; (2) Pentecostalismo; e (3) Neo-ortodoxia – aqui apresentados sem preocupação cronológica.
Um. O Fundamentalismo admite o relacionamento entre fé e ciência somente nos seguintes termos: a ciência deve ser usada como instrumental para validar a fé; ou seja, para o fiel fundamentalista o último e absoluto critério de verdade é a fé, mas esta fé já está totalmente registrada na Bíblia e a sua leitura que deve ser sempre feita a partir da literalidade consagrada pela tradição protestante ortodoxa reconhecida como tal. Assim o papel da ciência no conhecimento humano é puramente na exegese correta das palavras bíblicas e na corroboração das suas narrativas através das descobertas científicas.
Dois. O Pentecostalismo se mostrou herdeiro – principalmente na sua origem – dos movimentos pietistas e místicos na legitimação da experiência como critério teológico sem fazer uso de qualquer instrumental científico. O movimento pentecostal pode ser considerado como sucessor legítimo dos movimentos que enfatizaram a supremacia pessoal em detrimento de um estudo mais sistemático e metodológico do arcabouço teórico e histórico recebido pelas tradições cristãs.
Três. A Neo-ortodoxia se propõe a usar dos instrumentais e metodologia da ciência para formular sua teologia. Herdeira direta da ortodoxia clássica e do racionalismo protestante, esta tendência tornou-se a forma de fazer teologia predominante nos meios acadêmicos principalmente europeus. Aqui convém citar o nome do teólogo suíço Karl Barth que certamente foi o primeiro entre os pensadores desta linha protestante a se opor ao encaminhamento dado até então pela dita Teologia liberal, mas sem abandonar o diálogo da fé com a ciência. Em seu trabalho, Barth propôs um retorno do conhecimento cristão às bases bíblicas, uma volta às Escrituras Bíblicas – Teologia de Retorno às Fontes – como critério principal da produção teológica, mas sem desprezar as contribuições que a filosofia e as ciências modernas têm a oferecer, estabelecendo sempre um diálogo com elas.




sexta-feira, 22 de março de 2019

O REINO: ANSIEDADE, DIVISÃO E SOMA


A instrução de Jesus sobre “não esteja ansioso com a sua própria vida” é bastante conhecido. Ela é citada tanto por Mateus como por Lucas (em Mt 6:25 e em Lc 12:22). Estive lendo esta passagem na língua grega para buscar aprofundar um pouco mais meu estudo sobre o tema – trabalhei de início com Mateus e depois verifiquei que Lucas segue o mesmo padrão.
Em ambos os Evangelhos o fraseado é basicamente o mesmo, eles usam um imperativo com negativo – uma proibição inquestionável. Ou seja, no discipulado proposto por Jesus não é permitida a ansiedade pela vida.
Continuei a leitura dos versos seguintes e um detalhe me chamou a atenção, como se me saltasse aos olhos as palavras. A expressão é: “qual de vocês, por mais ansioso que esteja pode agregar um braço ao seu tamanho”. As frases quase que se repetem em Mt 6:27 e Lc 12:25 mais uma vez, mas há uma pequena diferença, Lucas não anota o numeral um. Então vou continuar a partir de Mateus.
Lendo assim de relance – já fiz isso incontáveis vezes – estas palavras não demonstram a ironia fina com a qual que os evangelistas carregaram a citação. Mas eis que as palavras pularam: estar ansioso e agregar. E me dei ao exercício de exegeta-detetive. E tinha um tesouro a ser encontrado.
Eu não tenho como confirmar quais foram as palavras exatas que Jesus usou em aramaico no dia em que falou. Posso até deduzir, mas isso não me auxiliou no jogo semântico dos Evangelhos. Então vou trabalhar direto no grego de Mateus. Permita-me isso e espero que o uso da língua original não lhe afugente do texto. Garanto: valeu-me o estudo.
A primeira palavra é o verbo ser/estar ansioso (em grego μεριμνάω – fala-se: ‘merimnao). Essa palavra tem uma raiz composta: μερίς + μνήμη = pedaço + mente/lembrança. Então, quando um grego falava em estar ansioso ele queria dizer algo como: ser dividido ou distraído, dividir a alma/mente, perder o foco, preocupar-se ou pensar demais a ponto de fender o juízo.
A segunda palavra, também verbo, é agregar/acrescentar (em grego: προστίθημι – fala-se “prostithemi’). Esse verbo, assim com o acréscimo de preposição, se referia a colocar uma coisa sobre outra, fazendo crescer de tamanho.
Assim, Mateus faz o jogo incoerente – e irônico – de significados: como alguém pode querer acrescentar ou somar algo a sua vida se insiste em dividir e tirar? Se divido e reparto a mente, não posso agregar e somar nada a minha vida! Não faz nenhum sentido!
Vamos voltar à leitura do texto, lembrando que a instrução é clara como uma proibição explícita: Não se preocupem. Não se dividam.
No texto, Jesus está apresentando o que conhecemos como o Sermão do Monte, onde ele dá as instruções principais para o discipulado no Reino de Deus que estava implantando a partir de seu ministério.
Para o Mestre, quem entra no projeto de discipulado de Reino não pode se distrair ou ter a mente dividida entre as prioridades do Reino e as ocupações do curso desta vida. Pois se particiono minhas atenções e intenções jamais poderei acrescentar nada nem a minha existência nem ao próprio Reino.
E mais. Jesus é taxativo: ninguém pode servir a dois senhores (dito pouco antes em Mt 6:24). Quando há divisão em prioridades, um dos dois senhores – ou os dois – serão negligenciados.
Para ser discípulo no Reino é indispensável que o foco e prioridade absoluta esteja no próprio Reino e serviço. Jesus não admite que a ansiedade com os cuidados de comida e vestimenta roube a primazia do Reino.
Além de nada contribuir ou garantir, o juízo dividido pela ansiedade não vai me permitir confiar no Pai celeste que providencia e acrescenta ele mesmo todas essas coisas (Mt 6:32-33 está claro).
No Reino de Deus não há lugar para mente ansiosa, pois o que divide não soma. Assim é o projeto exclusivo que Jesus impõe: “não esteja ansioso com a sua própria vida”. Mantenha o foco no Reino.

terça-feira, 19 de março de 2019

A SOBERANIA DE DEUS – uma análise de Rm 9:20-24



Vamos fazer uma análise do texto de Rm 9:20-24. Levarei em consideração suas questões, bem como o áudio que você me mandou depois.

Em primeiro lugar: um pouco sobre as palavras gregas mais destacadas do texto.
1. Honra – gr. τιμή. Embora a tradução usual como honra seja boa, é interessante notar que o sentido deriva da ação de atribuir ou reconhecer o valor de algo ou alguém. No grego moderno eles usam ainda para significar preço, valor. No AT, equivale ao hebraico כבוד que pode ser lido, por exemplo, no Sl 8:5 se referindo à dignidade atribuída por Deus ao ser humano ou em Pv 15:33 como acompanhando a humildade. No NT, Paulo instrui a atribuir a quem merece em Rm 13:7 e em Ap 5:13 todas as vozes da criação incluem na proclamação ao que está sentado sobre o trono.
2. Desonra – gr. ἀτιμία. Expressão pouco usada no NT grego, quer nesta forma de substantivo, verbo ou adjetivo. A formação etimológica é α + τιμή = não + honra. O sentido em geral aponta vergonha ou indignidade. Os sinóticos usaram para se referir ao profeta sem honra em sua terra (veja Mt 13:57 / Mc 6:4). Em 2Tm 2:20 a expressão grega encontrada no texto é esta mesma.
3. Vaso – gr. σκεῦος. Literalmente coisa. A tradução como vaso é uma referência ao objeto pela sua múltipla utilidade, principalmente doméstica. Em At 9:15 o Senhor se refere ao próprio Paulo como um vaso escolhido e em 1Ts 4:4 a coisa é o próprio corpo a ser possuído com honra (gr. σκεῦος … ἐν τιμῇ). Aqui em Rm, Paulo se utiliza da alegoria retirada de Jr 18.
4. Ira – gr. ὀργή. Em todo o NT grego esta palavra aparece quase 50 vezes (tanto na forma de substantivo como verbo), geralmente usada por Paulo e no Apocalipse. No verso 22 do texto de Rm 9 ela está em referência à ira mostrada por Deus e aos vasos de ira. Ira, raiva, indignação são boas traduções. Mas ainda em Rm 3:5 e 5:9 talvez julgamento ou punição possam traduzir melhor a mesma palavra.
5. Preparados – gr. κατηρτισμένα (de καταρτίζω). Morfologia: particípio, perfeito, passivo. Literalmente: preparar, deixar pronto, colocar em ordem. Em Lc 6:40 (com a mesma morfologia), a expressão se refere ao discípulo que concluiu a contento as instruções do mestre. Já em Hb 11:3 entendemos que a criação foi formada pela palavra de Deus (aqui infinitivo passivo). No texto de Rm, o fraseado não indica de forma explícita quem é o agente da passiva: quem preparou? Entendo que o apóstolo não estava interessado nessa discussão.
6. Perdição – gr. ἀπώλειαν. Geralmente usada em contextos escatológicos no NT grego, como em Ap 17:8; 2Pe 3:7 ou Mt 7:13. Porém em Mt 26:8 e Mc 14:4 a tradução desperdício é apropriada.
7. Misericórdia – gr. ἔλεος. Essa é uma boa palavra para entender o contexto e ajudar na explicação. Paulo já a havia usado no verso 15 logo antes (citando Êx 33:19 – heb. חנןno maravilhoso texto quando Moisés pode ver a glória do Senhor passando).

Tendo considerado estas análises linguísticas, vamos ler o texto todo e entendê-lo melhor.

Antes, permita-me uma citação. Escrevi recentemente algo sobre PANOS DE HONRA que toma como base esse texto de Rm 9:20-21. Ali me dei a liberdade de vagear no encontro de outros horizontes possíveis de interpretação do texto apostólico. Sua leitura pode ajudar (link aqui).

Paulo aos Romanos. A base teológico-doutrinária que o apóstolo argumenta na Epístola é a superioridade da graça em relação à Lei. Para embasar sua tese ele usa de várias analogias, comparações e citações do AT, começando por Abraão que foi justificado não pela Lei (Rm 4:13), passando pela escolha divina por Jacó (Rm 9:13) e principalmente afirmando que diante de Deus todos são igualmente pecadores – os que vivem sob a Lei e os que não vivem – logo falta-lhes a glória de Deus (Rm 3:23 – gr. ὑστεροῦνται de ὑστερέω – mesma palavra para indicar o que faltava ao jovem rico em Mc 10:21).
Vou insistir com Paulo. Mais importante que qualquer outra garantia, a manifestação da soberania é o que determina que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8:1) e que a promessa a Abraão se cumpre não pela descendência através da carne mas nos filhos da promessa (Rm 9:8).
Assim é que o apóstolo chega ao capítulo 9 argumentando que a garantia do perdão dos pecados está na graça soberana de Deus e não na linhagem de sangue dos judeus – esse argumento é forte para Paulo! Lembre-se de que ele está em um embate ferrenho com os judaizantes no meio da igreja que ameaçava fazer sucumbir e invalidar toda a missão paulina aos gentios e, consequentemente, a própria igreja cristã com seu alcance universal.
Antes de prosseguir lendo o texto: – E a questão dos preparados antecipadamente? Querer usar esta citação como alicerce para uma doutrina da predestinação – como se Deus já houvesse antes do ato da criação em Gn 1 escolhido o destino de todas as criaturas – ou apenas descartá-la buscando exegese alternativa que suavize a questão é apenas atribuir a Paulo uma sistematização teológica completamente alheia a sua doutrina. Questões como esta só teriam destaque na Teologia cristã séculos depois.
Outro ponto antes de voltar ao texto é sobre a personalização ou individualização de nossa fé cristã. Nossa compreensão de um destino pessoal e eterno a ser certificado hoje é muito resultado de desenvolvimento posterior da doutrina cristã – também sob influência do individualismo moderno e do pietismo europeu.
Assim, voltando ao texto analisado.
Embora a Bíblia reconheça que há dois caminhos (confira Mt 7:12-13), Paulo no texto aos Romanos passa de largo desta questão. Honra/desonra, ira, perdição não são usados neste direcionamento. Aqui o ponto é sobre a soberania de Deus e de como ele a manifestou primeiramente aos judeus e depois aos gentios-cristãos para neles fazer conhecido sua graça e glória.
Deus é o Senhor e criador de todos. Primeiramente ele escolheu Abraão, Jacó e seus filhos para serem os portadores da Lei. Mas a Lei somente aponta/descrimina o pecado, não o redime – explicita pecados, não refaz a criatura moribunda (Rm 5:17). É por isso que a Lei e seus guardiães são vasos onde Deus apenas manifestou sua ira, sua vingança, sua punição. Creditou o salário do pecado (Rm 5:20 / 6:23).
Mas não era o fim que Deus pretendia. Esse vaso estava destinado a ser transitório, apenas preparar o caminho para o definitivo. Assim, para que todas as riquezas de sua glória fossem conhecidas, Deus preparou também por sua soberana graça vasos de misericórdia (Rm 9:23). Esses sim, atingindo judeus de sangues e gentios alcançados. Aqui estão os vasos de honra: todos os que são chamados filhos do Deus vivo (Rm 9:26).
Não faz muito sentido, dialogando com Paulo a partir de Romanos, que ele trate de indivíduos como vasos predestinados à ira. Os judeus, embora portadores da primeira aliança – a Lei –, eles também precisam, aqui individualmente, invocar o nome do Senhor para serem redimidos de vasos de ira para vasos de honra. Para Deus não há distinção entre ninguém (Rm 10:11-13).
Todos nós, humanos corrompidos pelo pecado, nascemos na carne sob o jugo da Lei, escravos do pecado, vasos desonrados – e os judeus mais ainda porque a conheciam em primeira mão. Todos somos feitos da mesma massa de oleiro. Mas Deus por sua graça soberana e misericordiosa preparou desde a fundação dos tempos um modelo de vaso de honra no qual quer nos tornar em Cristo Jesus.
Importante: Não há plano “B” de Deus e no plano “A”, onde a justiça/ira se funde ao seu amor gracioso, há incontáveis gentes de toda nação, tribo, povo, língua (Ap 7:9-10).
Contudo:
A responsabilidade é pessoal – certo! (Rm 14:12).
Deus não quer que ninguém se perca – certo também! (volte a Ez 18:32).
Deus ama a todo o mundo – certíssimo! (conhecido Jo 3:16).
Não há um justo sequer – é o que diz a Lei, logo todos são vasos de desonra (Rm 3:10-11).
Podemos deixar de ser escravos para sermos filhos de Deus – gloriosa certeza! (Jo 1:11-13).
Roupas brancas é promessa para os que se lavam no sangue do Cordeiro – seremos transformados na eternidade em vasos de honra (Ap 22:14).

Concluindo:
A Lei foi dada para que a desgraça fosse exposta – vaso de ira, vergonha, desonra e punição. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça – vaso de honra para glória de Deus (Rm 5:50). Esse é o plano predeterminado. Assim é a soberania cheia de graça de Deus em Cristo Jesus


sexta-feira, 15 de março de 2019

Doenças da Alma – HIPERTENSÃO


Estive lendo algumas coisas como subsídio para poder pensar algo sobre a hipertensão como uma doença da alma. É sempre bom se certificar com quem entende mais do assunto antes de emitir opinião. Então, inicialmente vamos assinalar sobre uma definição geral da doença para depois refletir sobre o mal em si que aflige a alma humana e suas implicações.
Segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão – SBH, a hipertensão, usualmente chamada de pressão alta, é ter a pressão arterial, sistematicamente, igual ou maior que 14 por 9. A pressão se eleva por vários motivos, mas principalmente porque os vasos nos quais o sangue circula se contraem.
Ainda de acordo com o Hospital Israelita Albert Einstein, somente no Brasil cerca de dois milhões de adultos sofrem com problemas ocasionados pela pressão alta – e a maioria nem se dá conta.
É verdade: esse é um mal silencioso. Em geral a hipertensão não apresenta sintomas claros e algumas indicações comuns como dor de cabeça ou tontura muitas vezes são apenas percebidas como "mal estar" e então, quando se vai atentar para os reais motivos, o estrago já está feito.
Mas não quero apresentar aqui dados médicos, prevenção ou cura – há bons especialistas que podem fazer isso melhor que eu. Quero pensar na hipertensão da alma, suas implicações, causas e consequências espirituais. Além de possível prevenção e cura.
Observe: a hipertensão da alma é também, certamente, um mal silencioso. Vai aos poucos corrompendo e deteriorando nosso melhor estado de saúde espiritual e quando vamos nos atentar para os reais motivos, o estrago já está feito.
Infelizmente acontece. Muitos cristãos já estão com as suas veias e artérias espirituais tão entupidas e comprometidas que correm sérios riscos, e nem se dão conta.
Então o recomendado é manter a prática regular de exames preventivos. Veja o que a Bíblia fala. Entendo que uma boa indicação está na celebração da Ceia do Senhor. Ela é – deve ser – uma realização comunitária e regular. Ao celebrar periodicamente o pão e o vinho, o cristão está se colocando na obrigação do "examine-se pois a si mesmo" (a instrução paulina pode ser lida em 1Co 11, aqui cito o verso 28).
Mas devo ir além. A oração de Davi no Salmo 139 termina com uma súplica que contempla o perfeito acompanhamento e prevenção necessária, principalmente por ser feita com a supervisão do Médico Excelente. "Sonda-me... Conhece... Prova-me... Vê...". E a determinação de seguir a recomendação do especialista: "e dirige-me pelo caminho eterno".
Só que nem sempre a vida segue como deveria. A agenda eclesiástica torna-se tão cheia que a exigência da performance abafa o relacionamento espiritual saudável. Mais. Por pressa, comodidade, descuido ou desconhecimento muitos cristãos têm se alimentado de fast food espiritual demais. Também por motivos idênticos se privilegia uma vida espiritual sedentária.
E os perigos só se agravam! As veias espirituais estão se entupindo e o mal da hipertensão da alma não tem permitido o divino sangue de Cristo circular adequadamente.
As nossas igrejas têm se enchido de crentes hipertensos, espiritualmente doentes, alguns crônicos, e muitos nem atentam para a real seriedade da situação. Então que se considere a recomendação do autor aos Hebreus: alimento adequado para adultos e exercícios espirituais constantes (Hb 5:14).

terça-feira, 12 de março de 2019

Carta de Bonhoeffer a Bethge


Lembro-me de uma conversa que tive há 13 anos na América com um jovem pastor francês.
Simplesmente, nos pusemos a perguntar um ao outro sobre o que afinal desejávamos da vida. Então ele disse: eu gostaria de tornar-me um santo (e eu acredito que ele o conseguiu). Aquilo me impressionou profundamente. Mesmo assim eu me opus e disse, com efeito, que eu gostaria de aprender a crer. Por muito tempo não compreendi a profundidade deste contraste. Pensei que pudesse aprender a ter fé, vivendo eu mesmo algo como uma vida santa...
Mais tarde eu experimentei e experimento até este momento que só vivendo plenamente neste mundo aprendemos a crer. Quando desistimos completamente de fazer algo importante de si mesmo, ou seja, ser um santo ou um pecador convertido ou um eclesiástico, um justo ou um injusto, um doente ou são.
Viver plenamente neste mundo significa viver na plenitude das tarefas, dos problemas, dos sucessos e fracassos, das experiências e perplexidades, assim nos lançamos completamente nos braços de Deus, e não mais levamos tão a sério os nossos próprios sofrimentos, mas levamos a sério o sofrimento de Deus no mundo, e então vigiamos com Cristo no Getsemane, e penso que isto é fé, isto é arrependimento. Assim nos tornamos cristãos e homens. Quem se tornaria arrogante com os sucessos ou desanimado com os fracassos, tendo uma vida assim, participando dos sofrimentos de Deus?
Creio que entendes o que quero dizer, mesmo que o diga assim em poucas palavras. Sou muito grato por ter podido descobrir isso e sei que só o pude mesmo reconhecer no caminho que tive de andar. Por isso lembro com gratidão e em paz do que passou e permaneço assim no presente...
Deus nos guie com sua bondade através dessa época, mas acima de tudo Deus nos guie até a sua presença.
Carta escrita por Dietrich Bonhoeffer no presídio de Tegel (Berlim) para Eberhard Bethge em 21/07/1944.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Doenças da alma - TORCICOLO


Os gregos nos legaram a concepção de um ser humano particionado. De um lado a alma e/ou espírito (para o que eu quero trazer aqui não vai fazer muita diferença se em um ou dois) e do outro o corpo, como essências distintas. Sinceramente acho difícil um hebreu entrar nessa discussão. Mas isso é só um pretexto para começar o que vou dizer.
A Bíblia diz que do pó da terra Deus moldou o ser humano – homem e mulher – e nele soprou o hálito da vida (confira em Gn 2:7). Todo o ser humano é uma criação única de Deus: o pó e o hálito se mesclaram de tal forma que se tornaram uma obra-prima singular.
Com essas considerações, quero iniciar aqui algumas reflexões sobre doenças e males que afligem o ser humano e em especial o cristão. Eu as estou chamando de doenças da alma, mas são males que nos maculam, entortam, enfeiam, sujam e danificam por inteiro.
A primeira dessas doenças da alma é o torcicolo. Na internet, o sítio Wikipédia define este mal como uma "contração, espástica ou não, de músculos do pescoço, de modo que a cabeça permanece inclinada para um dos lados e o queixo chega a projetar-se para o lado oposto."
Mas não é só o corpo que sofre, o ser humano inteiro padece com o mal do torcicolo.
Conhece aquelas pessoas que vivem olhando apenas para um lado – ou para trás – como se toda a verdade e essência estivesse lá? Ou gente que repete sumas do tipo: Bom era naquele tempo!
São homens e mulheres a quem o tempo enrijeceu o pescoço e já não conseguem viver ou sequer olhar para outro lado que não um passado memorável. Eles sofrem de torcicolo da alma.
Parece que a vida se exauriu no que ficou para trás e por isso não lhes resta mais vida adiante. O pescoço duro não permite ao menos observar que o Deus que agiu poderosamente no passado continuou agindo.
Veja que o problema não está em elogiar ou negar o passado. Ele ficou lá com seus triunfos e fracassos. E realmente algumas vezes devemos confessar que foi bom tê-lo vivido.
O problema do torcicolo da alma que acomete o cristão é quando sua vida se resume a esse passado.
Mas deixe-me ler alguma coisa na Bíblia sobre o tema. Não há receituário melhor para tratar das nossas doenças da alma.
O primeiro verso que encontro que denuncia este mal vem da sabedoria do pregador: Não diga: "Por que os dias do passado foram melhores que os de hoje? Pois não é sábio fazer tais perguntas." (Ec 7:10).
Realmente, quem vive na perspectiva das boas novidades (já considerou o significado do termo evangelho?) nunca pode se apegar aos dias passados como se eles fossem os melhores – isso é torcicolo na alma.
Além do mais, vivemos na expectativa da promessa daquele que diz fazer novas todas as coisas (declaração diante da gloriosa visão da Jerusalém celeste em Ap 21:5).
Também cuidado! Ter o pescoço espiritual curado também não significa esquecer o passado. Afinal, estamos rodeados de tão grande nuvem de testemunhas (fraseado de Hb 12:1).
Sim, a história, e o legado dos heróis, que nos chegou até aqui é uma herança riquíssima que não pode ser esquecida nem desprezada. Então ter o pescoço endurecido e vidrado apenas nas novidades sem considerar a fé dos pais é também uma forma de torcicolo da alma tão nociva quanto qualquer outra.
Ora! Deus nos criou perfeitos e com toda a musculatura do pescoço apta para olhar e direcionar nossa atenção para todos os lados. Há histórias, bênçãos, riquezas e manifestações divinas espalhadas por todo lado. E eu não devo me empobrecer preso num torcicolo espiritual que me impede de enxergar o dedo de Deus onde quer que ele aconteça.
Mas quero terminar esta primeira reflexão sobre as doenças da alma – e em especial sobre o torcicolo espiritual – apontando o mais eficiente antídoto para qualquer torcicolo. Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa (Hb 12:2).

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

PANOS DE HONRA


Estive ocupado em tarefas domésticas e, enquanto as desenvolvia, algumas migalhas de lembranças começaram a se intrometer em minhas ideias. Deixei-as germinar. Lembrei um estudo que ouvi quando ainda seminarista no qual uma mestra atualizava a figuração paulina dos diversos vasos que servem de utensílios em uma casa: vasos de honra e vasos de desonra (o texto seria Rm 9:20-21). Na atualização proposta, em vez de se referir aos vasos ela se referiu aos diversos panos de uma casa.
Assim, mesmo não conseguindo reunir mais que fragmentos das lembranças, ou já nem podendo diferenciar entre lembranças e elaboração posterior (nem o nome da professora eu tenho mais certeza, daí, para evitar imprecisão, devo propositadamente omitir), vou tentar compartilhar algo sobre panos de honra.
O texto bíblico diz: "Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?". Quem decide para qual objetivo cada vaso será utilizado é o oleiro – ou a dona da casa.
Da mesma forma, em qualquer casa ainda hoje há diversos panos confeccionados para distintas utilizações. Todo enxoval de uma casa deve conter panos de uso comum ou apenas pessoal: toalhas, lençóis, panos de prato, flanelas, panos de chão, colchas, guardanapos, fronhas e por aí vai...
Além das visíveis diferenças de tamanho e proporção, os distintos usos dos panos de uma casa nos ajudam a compreender melhor os ensinamentos bíblicos. E para não precisar citar todos tipos e usos, podemos tomar apenas dois como exemplo: há panos de prato e panos de chão.
Então, atentando para este dois panos em casa, tiremos lições.
Primeiro. Em geral a matéria prima é a mesma: algodão. Do mesmo algodão, é possível fazer diversos tipos de panos – e mais roupas delicadas ou grosseiras e outras tantas aplicações. Mas note, já na confecção de cada tecido, mesmo a partir de um mesmo algodão, o pano de prato e o de chão são diferenciados: a delicadeza da trama dos tecidos e os detalhes de acabamento sugerem qual destinação cada um terá.
O texto bíblico aqui quer enfatizar a soberania de Deus em fazer e escolher tudo e todos a partir de sua vontade absoluta. Deus escolhe fazer um pano mais fino e outro mais rústico, e ninguém tem nem o direito nem a prerrogativa de questioná-lo. Fomos feitos por Deus para sermos exatamente conforme a sua vontade.
No nosso caso, a Palavra do Tecelão nos garante que fomos criados para a glória de Deus (leia a constatação profética em Is 43:7). Deus nos teceu caprichada e cuidadosamente, cheio de amor e boa vontade, para sermos panos de honra e assim habitarmos em lugar de destaque em sua casa e o exaltarmos em sua glória.
Segundo. Mesmo sendo feitos para a honra, o desgaste e as intempéries da vida e do uso acabam por indicar à dona da casa que um tecido de origem mais nobre deve ser desonrado e rebaixado à condição de pano de chão. E o que tinha sido criado para ser uma toalha ou uma colcha agora é retalhado para servir como pano de chão e passe a cumprir tal papel.
É fácil fazer a associação com o sal que para nada mais presta e só lhe resta o destino de ser pisado pelos homens (Jesus usou esta ilustração em Mt 5:13). Assim, o pano é rebaixado às funções desonrosas de limpar chão de banheiro ou de outras imundícies quaisquer numa casa, conforme o uso e a necessidade da própria dona de casa.
E novamente olhando para o nosso caso, mesmo vivendo no mais desonroso que um ser humano possa chegar, o milagre pode acontecer (considere a parábola do filho pródigo em Lc 15). A dona de casa – na parábola, o Pai – pode nos receber de volta em casa e devolver à situação de honra que perdemos e nos restaurar à destinação para o qual fomos criados.
Deus nos criou para sermos panos de honra. O pecado nos despiu e envergonhou, condenando-nos ao chão e à desonra. Mas o próprio Senhor, por sua misericórdia e poder sempre está disposto a manifestar sua graça sobre nós devolvendo a honra de vivermos para sua glória.