terça-feira, 30 de julho de 2013

Parábola das coisas – UMA MORINGA DE METAL


Finalmente comprei uma moringa de metal.  Já tinha planejado esta compra há algum tempo, mas por razões diversas ainda não a tinha trazido para casa.  Não que fosse algo muito caro por aqui ou difícil de encontrar – lá no centro da cidade pode ser encontrada sem maiores dificuldades.  É daquelas coisas que se vai deixando para outro dia...  Mas finalmente comprei a tal moringa de metal.
Meu objetivo é ter água caprichadamente gelada – do jeito que eu gosto! E ela, a moringa, cumpre bem seu papel.  Além de ser linda! Fiquei satisfeito em tê-la na geladeira.  E apenas a idéia de chegar em casa num dia quente como os nossos e saber que há água na moringa de metal a minha disposição já torna a jornada menos causticante.
Então, olhando para moringa, como é do meu feitio, e como bom nordestino que sou, fiquei matutando que lição espiritual ou teológica eu poderia aprender da moringa – ou que parábola ela poderia evocar.  E preciso confessar: não me ocorreu nada em especial que merecesse citação.  Por mais que meus olhos refletissem no metal da moringa: nada.
Como atribuir profundidade e escrever sobre uma coisa que insiste em não ser nada além que ela mesma: uma moringa de metal!?
Mas, sosseguei.  A moringa é realmente só uma moringa: redonda, bonita, reluzente, útil.  Não há verdades subjacentes.  Não há aforismos filosóficos ou teológicos sobre a essência da existência humana.  Não.  É só uma moringa de metal e dentro dela só há água aguardando para ser bebida.  E me dei por satisfeito com isso.
Afinal o bom mesmo foi relaxar e lembrar que nem tudo na vida é tão sério ou profundo.  Algumas coisas estão aí apenas por estar.  E desfrutar delas sem maiores compromissos faz da caminhada da existência mais suave e gostosa.
Éh!!! Há uma moringa de metal em casa, e nela a água está quieta e gelada, só esperando para ser bebida.  E como isso é bom!

terça-feira, 23 de julho de 2013

DEUS NÃO É CRISTÃO


Li recente o livro Deus não é cristão do bispo sul-africano Desmod Tutu.  Como o próprio sub-título aponta, o livro é uma compilação de provocações feitas pelo ganhador do Prêmio Nobel da Paz em palestras e escritos que versam sobre a tolerância e o respeito religioso, a diversidade e a questão da justiça social e internacional e a liberdade, além, é claro, de apresentar um pouco de sua reflexão sobre o regime do apartheid e as experiências da chamada Comissão da Verdade e Reconciliação na África do Sul.
Eu diria, inicialmente, que o pensamento de Tutu é uma inestimável contribuição africana ao cristianismo.  Pois, nas palavras do reverendo: "A teologia negra incidentalmente desafia outras teologias a ser cada vez mais bíblicas."
Mas, o que me chama a atenção em especial é a provocação que dá título à obra: Deus não é cristão!  Antes de pensar em tal afirmação como uma heresia, porém, é preciso ouvi suas palavras e aceitar seu convite à reflexão: "Nossa fé, a sabedoria que diz que Deus está no controle, deve nos preparar para assumir o risco, para sermos aventureiros e inovadores; sim, para ousarmos caminhar onde até mesmos os anjos temem caminhar."
Desmond Tutu parte da assertiva de uma familiaridade com o divino que pode ser vivenciada tanto como indivíduo quanto como comunidade; e isso independe do credo religioso a que se está ligado pois "Deus estava, e está, acessível a todas as criaturas humanas".  Além do mais, reconhece Tutu, é o que ele chamou de "acidentes do nascimento e da geografia" que vai influenciar de modo quase determinante o credo que eventualmente seguimos.
Ora, querer limitar Deus as nossas próprias experiências religiosas (mesmo que legítimas) é descaracterizá-lo, enquanto Deus.  "Deus é infinito e nós eternamente finitos"  e, com certeza, fomos todos criados conforme sua imagem e semelhança para sua glória.  Por outro lado: "Deus continua sendo Deus, quer tenha adoradores ou não."
Sendo verdadeira esta constatação, o que acredito que é, então devo admitir que o Deus cristão revelado e nas Sagradas Escrituras não pode se resumir ao modo cristão de conhecê-lo e adorá-lo.
E mais, ainda segundo Tutu: "Não é desonra alguma para Deus dizer que toda verdade, todo senso de beleza, toda consciência e todo desejo de bondade tem apenas uma fonte, e que essa fonte é Deus, o qual, por sua vez, não pode ser confinado a um lugar, a um tempo e a um povo."
Duas questões então me são apresentadas para a reflexão: se Deus pode ser tocado em outras manifestações religiosas, então: somos afinal todos iguais? E ainda: o que fazer do meu cristianismo?  Permita-me dar a palavra ao próprio Desmond Tutu:
Quanto à primeira questão, é certo que "reconhecer que outros credos devem ser respeitados e que obviamente proclamam verdades religiosas profundas, entretanto, não equivale a dizer que todos os credos são iguais.  Está claro que não são iguais."
E quanto a nossa fé e sua missão:

Oxalá vejam o impacto que o Cristianismo exerce sobre o caráter e sobre a vida de seus adeptos, de modo que os não cristãos queiram, por sua vez, se tornar cristãos, assim como os pagãos dos tempos primevos foram atraídos para a igreja não tanto pelas pregações quanto pelo que enxergavam na vida dos cristãos, o que os fazia exclamar, espantados: "Como esses cristãos amam uns aos outros!"

terça-feira, 16 de julho de 2013

Parábola das coisas – A TORNEIRA

Ainda ontem, lavando os pratos, aproveitei para fazer duas coisas que muito me agradam: cantarolar (de preferência louvores antigos) e deixar a mente vaguear (ajuda a oxigená-la).  E sabe mais? Faço isso como quem dá um coçadinha nas idéias – pode não ter muita explicação científica, mas é gostoso e só faz bem...
Mas vamos à parábola.
Diante da pia, observei naturalmente a torneira.  Numa primeira vista, é um pedaço de encanamento que se sobressai e serve para controlar o fluxo de água (acho que esta é uma boa definição).  Em tese, uma torneira funciona como algo capaz de liberar ou reter a água.  Não importa se feita de metal, plástico ou outro material; se grande ou pequena; se ornamentada ou simples; se delgada ou resistente a altas pressões.  Torneira é simplesmente isso.
Mas tem mais.  Uma torneira só será útil se estiver devidamente ligada a um encanamento e este a uma fonte de água.  A torneira sozinha não produz o líquido.  Pode ser bonita como for, sozinha é inútil.
Hoje já existem torneiras modernas e luxuosas: abrem e fecham sozinhas, detectam mãos se aproximando, agregam tecnologia e fazem outras coisas tantas.  Porém só será torneira se for capaz de deixar a água fluir quando isso lhe for requerido!
E eu me vi ali, naquela torneira simples de casa.  Lembrei que o Mestre Jesus se apresentou como sendo a água viva que mata toda sede eterna (lembra o papo dele com a mulher samaritana?), e que eu deveria apenas ser um canal para fazer tal água chegar às pessoas que estão ao meu alcance.
Sei que toda parábola é naturalmente limitada em sua aplicação.  Não dá para ser diferente.  Então me permiti, enquanto lavava os pratos, aprender mais esta lição:  Cristo é a água.  Que eu seja uma torneira aberta aos outros.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

UMA PÉROLA DE GRANDE VALOR

As parábolas foram o método que Jesus se utilizou para ensinar algumas de suas mais valiosas e importantes lições.  Através de comparações e enredos simples, mas com ricas referências ao cotidiano das pessoas, o Mestre apresentou verdades que são fundamentais na doutrina e estilo de vida dos seus seguidores.
Um dos temas centrais foi o Reino de Deus.  Jesus veio anunciar o Reino e convidar as pessoas a entrarem nele, assim ele expôs a grandeza e glória deste Reino através de suas histórias, e também a necessidade de comprometimento e renúncia para se fazer parte dele.  Em dois pequenos versos, Mateus nos conta de uma parábola simples que encerra toda a extensão daquilo que o Mestre entendia ser o Reino de Deus – Mt 13:45-46 – o Reino é como uma pérola de grande valor!
Veja quanta lição só nestas poucas palavras.  Inicialmente Jesus não nega que há valores no mundo em que se vive.  Foi o próprio Deus quem o criou e nós, os seres humanos, o construímos também com nosso trabalho.  Deus nos fez para vivermos nesta terra e é natural que nos adaptemos bem a ela.
Agora, a parábola apresenta um valor imensamente superior: uma pérola de grande valor.  Diante da realidade do Reino de Deus; sua presença e sua glória entre nós, qualquer outro valor com o qual se queira comparar; o Reino apresentado por Jesus será sempre de maior valor.  É muito melhor viver com o Mestre, seja qual for a circunstância, que trocá-lo por outro pequeno valor desta vida.
Jesus então diz que quem o encontra, vende tudo e troca pela pérola escolhida.  Quando encontramos o Reino de Deus e reconhecemos o seu real valor, nos dispomos a abrir mão de qualquer outra coisa somente para podermos estar dentro do Reino de Deus.
Então eu pergunto: o que estou disposto a trocar e abdicar para que possa obter a pérola de grande valor?  Que o Senhor me conceda fazer a escolha certa para sua glória.

terça-feira, 9 de julho de 2013

PORQUE AMO SERGIPE

Entre nós há muitos pernambucanos, alagoanos, baianos e outros tantos – são todos muito bem vindos e os queremos bem aqui; eles que me compreendam, mas eu amo Sergipe!  Eita terra boa!
Eu amo Sergipe não por ela ser a terra de homens como Tobias Barreto, Silvio Romero ou Inácio Barbosa, ou por ser o menor Estado do Brasil com pouco mais de 21 mil km² e sua capital, Aracaju, ter algo em torno de 500 mil pessoas morando.
Eu amo Sergipe não por suas praias (a bem verdade nem ando muito na Atalaia), suas flores e paisagens (e como tem lugar bonito aqui!).
Eu amo Sergipe também não pela minha história pessoal: nasci aqui há mais de quarenta anos, cresci e estudei, fui batizado nesta terra e Deus me encontrou fazendo-me vocacionado, aqui também me casei e me tornei pai.  Também não é porque apenas tenho trabalhado com a igreja aqui há mais de 15 anos.
Eu amo Sergipe apesar de problemas urbanos recentes e da violência que teima em chegar (lembro da infância em que não tinha nada disso!); apesar de nosso histórico complexo de isolamento e pequenez; apesar de nossa forte tradição religiosa que às vezes parece maior que a busca sincera pela verdade – o que mais parece acomodação – mas não é de todo o mal maior.
Eu amo Sergipe porque Deus tem me chamado para pastorear este povo – sim amo mais o povo que o chão! (ainda ouço como para mim as palavras de Jesus a Pedro em Jo 21:16-17). 
Eu amo Sergipe porque acredito que o Senhor vai fazer dessa nossa gente um povo todo seu – afinal sei que é verdade que posso todas as coisas naquele que me fortalece (como Paulo diz em Fl 4:13). 
Eu amo Sergipe porque o Senhor tem me dado ainda sonhos sobre este lugar e posso confiar que a destra do Senhor fará proezas (é a promessa do cântico que está no Sl 118:15).
Eu amo Sergipe porque acredito que para tal tempo Deus me colocou aqui e que não haverei de ouvir as pedras clamando sobre o meu silêncio (vou assumir o conselho dado à rainha Ester em Et 4:14 e me cuidar da advertência de Jesus na entrada de Jerusalém em Lc 19:40).
Por isso eu amo Sergipe e por isso quero levá-lo a amar mais e mais o Senhor da glória.

(A foto lá em cima eu tirei num final de tarde Parque na Sementeira aqui em Aracaju.  Quanto ao texto, eu já o havia publicado originalmente no sítio http://ibsolnascente.blogspot.com.br em 30/10/2009)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

GARANTIA DA VITÓRIA

A certeza final garantida em Rm 8:39 de que nada será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus é sempre motivo de alegria e celebração por parte dos cristãos.  Lendo o contexto, porém, somos levados a compreendê-la não apenas como uma promessa solta; mas indicando o resultado de uma vida de entrega e engajamento completo. 
Citando o Sl 44:22, Paulo apresenta a vida cristã neste modelo – Rm 8:36.  E o que mais chama a atenção é a expressão: enfrentamos a morte.  Antes da garantia da vitória há a necessidade da batalha. Examinemos melhor.
Tudo começa com a motivação: por amor.  A vida cristã começa com a certeza que tudo faremos motivados pelo amor de Cristo que nos constrange (2Co 5:14).  O próprio Jesus já havia dito que por amor dele era preciso deixar pai e mãe (Lc 14:26), o que deveria implicar em tomar cada dia sua cruz (Mt 16:24).  É fácil entender que se faz necessário uma disposição a morrer pelo amor de Cristo para que se viva a partir dele.
E o Salmo citado pelo apóstolo vai além: somos considerados como ovelhas para o matadouro.  Ora, uma ovelha só vai ao matadouro quando é destinada à morte.  E mais, ela faz isso em silêncio.  Ou seja, como cristãos que somos, o nosso destino natural é morrer pelo evangelho que abraçamos, é assumir a nossa cruz e nos dispor a morrer.  Este é o nosso modo de ser e de viver e Paulo sabia exatamente todas as implicações desta vida quando afirmou que foi crucificado com Cristo (Gl 2:20).
Agora voltemos à garantia da vitória.  Quem quiser ser mais que vencedor (Rm 8:37) tem que estar disposto a se entregar todo dia à morte, voluntariamente e por amor.  E a glória será do nosso Senhor. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

IDOSO OU VELHO

Idoso é quem tem muita idade;
Velho é quem perdeu a jovialidade.
A idade causa a degenerescência do espírito.
Você é idoso quando se pergunta se vale a pena;
Você é velho quando, sem pensar, responde não.
Você é idoso quando ainda aprende;
Você é velho quando já nem ensina.
Você é idoso quando se exercita;
Você é velho quando apenas descansa.
Você é idoso quando ainda sente amor;
Você é velho quando só sente ciúmes.
Você é idoso quando o dia de hoje é o primeiro do resto de sua vida;
Você é velho quando todos os dias parecem o último de uma longa jornada.
Você é idoso quando seu calendário só tem amanhãs;
Você é velho quando só tem ontens.
O idoso se renova a cada dia que começa;
O velho se acaba a cada noite que termina,
Pois quando o idoso tem seus olhos postos no horizonte,
De onde o sol desponta e ilumina a esperança,
O velho tem a miopia voltada para as sombras do passado.
O idoso curte o que lhe resta da vida;
O velho sofre porque se aproxima da morte.
O idoso leva uma vida ativa.  Plena de projetos e plena  de esperanças.
Para ele o tempo passa rápido, mas a velhice nunca chega.
Para o velho sua hora se arrastam destituídas de sentido.
As rugas do idoso são bonitas, porque foram marcadas pelo sorriso;
As rugas do velho são feias, porque foram fincadas pela amargura.
Em suma, o idoso e o velho podem ter a mesma idade no cartório,
Mas têm idades diferentes no coração.


(Veja como este texto me chegou: eu o encontrei no livro "Musicalização na Terceira Idade" de Alzira M.B. de Araújo que o citou do trabalho de Isabelle Almeida Belchior, que, por sua vez o transcreveu de Luiz Farias aos seus 79 anos)