terça-feira, 23 de julho de 2013

DEUS NÃO É CRISTÃO


Li recente o livro Deus não é cristão do bispo sul-africano Desmod Tutu.  Como o próprio sub-título aponta, o livro é uma compilação de provocações feitas pelo ganhador do Prêmio Nobel da Paz em palestras e escritos que versam sobre a tolerância e o respeito religioso, a diversidade e a questão da justiça social e internacional e a liberdade, além, é claro, de apresentar um pouco de sua reflexão sobre o regime do apartheid e as experiências da chamada Comissão da Verdade e Reconciliação na África do Sul.
Eu diria, inicialmente, que o pensamento de Tutu é uma inestimável contribuição africana ao cristianismo.  Pois, nas palavras do reverendo: "A teologia negra incidentalmente desafia outras teologias a ser cada vez mais bíblicas."
Mas, o que me chama a atenção em especial é a provocação que dá título à obra: Deus não é cristão!  Antes de pensar em tal afirmação como uma heresia, porém, é preciso ouvi suas palavras e aceitar seu convite à reflexão: "Nossa fé, a sabedoria que diz que Deus está no controle, deve nos preparar para assumir o risco, para sermos aventureiros e inovadores; sim, para ousarmos caminhar onde até mesmos os anjos temem caminhar."
Desmond Tutu parte da assertiva de uma familiaridade com o divino que pode ser vivenciada tanto como indivíduo quanto como comunidade; e isso independe do credo religioso a que se está ligado pois "Deus estava, e está, acessível a todas as criaturas humanas".  Além do mais, reconhece Tutu, é o que ele chamou de "acidentes do nascimento e da geografia" que vai influenciar de modo quase determinante o credo que eventualmente seguimos.
Ora, querer limitar Deus as nossas próprias experiências religiosas (mesmo que legítimas) é descaracterizá-lo, enquanto Deus.  "Deus é infinito e nós eternamente finitos"  e, com certeza, fomos todos criados conforme sua imagem e semelhança para sua glória.  Por outro lado: "Deus continua sendo Deus, quer tenha adoradores ou não."
Sendo verdadeira esta constatação, o que acredito que é, então devo admitir que o Deus cristão revelado e nas Sagradas Escrituras não pode se resumir ao modo cristão de conhecê-lo e adorá-lo.
E mais, ainda segundo Tutu: "Não é desonra alguma para Deus dizer que toda verdade, todo senso de beleza, toda consciência e todo desejo de bondade tem apenas uma fonte, e que essa fonte é Deus, o qual, por sua vez, não pode ser confinado a um lugar, a um tempo e a um povo."
Duas questões então me são apresentadas para a reflexão: se Deus pode ser tocado em outras manifestações religiosas, então: somos afinal todos iguais? E ainda: o que fazer do meu cristianismo?  Permita-me dar a palavra ao próprio Desmond Tutu:
Quanto à primeira questão, é certo que "reconhecer que outros credos devem ser respeitados e que obviamente proclamam verdades religiosas profundas, entretanto, não equivale a dizer que todos os credos são iguais.  Está claro que não são iguais."
E quanto a nossa fé e sua missão:

Oxalá vejam o impacto que o Cristianismo exerce sobre o caráter e sobre a vida de seus adeptos, de modo que os não cristãos queiram, por sua vez, se tornar cristãos, assim como os pagãos dos tempos primevos foram atraídos para a igreja não tanto pelas pregações quanto pelo que enxergavam na vida dos cristãos, o que os fazia exclamar, espantados: "Como esses cristãos amam uns aos outros!"

4 comentários:

  1. Maravilha de Mensagem.Amei!Por isso,amo seu talento,meu Professor querido.Bom dia,Pastor Jabes Filho.Forte Abraço.

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    1. Obrigado, querida, que o Senhor continue concedendo sua bênção a cada um de nós.
      Um abraço.

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  2. Prezado Jabes Nogueira, boa madrugada.
    Infelizmente, ou felizmente, dependendo do ponto de vista, a afirmação acima feita com relação ao conhecimento de Deus, escorrega em um pequeno equívoco, pois também creio que a salvação (advinda de Cristo) não é propriedade exclusiva de uma religião ou denominação, mas convém ao próprio Deus que todos quanto entenderam o Seu propósito de resgate e o aceitaram, receba a vida eterna. Logo, voltamos a questão do conhecimento, que visto pela óptica da aproximação de Deus pelo reconhecimento do sacrifício do Cristo, logo, esse é o saber e o conhecer Dele.
    Depois, existe sim um povo eleito para salvação e isso a bíblia deixa claro. Esse povo não é definido por raça/etnia, nação, classe social, nada disso. Mas um povo que trilhou o caminho ensinado por Cristo, lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, e sem esquecer, entenderam o propósito da morte de cruz.
    Culturalizar a essência de Deus, afim de achar uma explicação para as diversas manifestações de atos "divinos", em suas características, é notoriamente descaracterizar o Deus indescaracterizável, ou seja, um Deus imutável. A Palavra de Deus, é a Sua essência, é a revelação de Sua Pessoa. E nessa verdade que devemos nos alicerçar.

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    1. Querido,
      Boas suas observações. Realmente no plano espiritual a salvação é a aproximação e conhecimento de Cristo e suas prerrogativas. Porém reduzi-la apenas a um plano cultural é menosprezá-la. Entendo que este não era o propósito eterno de Deus. Ele chamou um povo especial para si - e isto é realmente Bíblico - para que tal povo podesse ser uma nação de sacerdotes a anunciar as grandezas de Deus, seu amor e sua intenção de resgatar todo e qualquer ser humano, independente de qualquer circunstância. Então cabe a nós, cristãos, assumirmos nosso papel de profetas do Reino de Deus para todos os povos.
      Abs.

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