sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ANTES DO BURBURINHO


Como de costume, hoje eu acordei antes do burburinho da cidade.  Em especial hoje quem me tirou da cama foi o despertador, mas não vejo isso como um problema, pois temos uma cumplicidade amigável.  Muitas vezes eu o antecipo e quando ele rompe o silêncio do resto de madrugada eu já estou me aprontando para a primeira tarefa do dia.
Antes dos compromissos da agenda profissional; antes da rotina do filho na escola; antes mesmo do quebra-jejum matinal; eu me reservo a um hábito que procuro manter com religiosa sacralidade, pois sei que o Inefável sempre desce para tabernacular pessoalmente comigo nas primeiras horas do dia – e como eu gosto disso e me faz bem!
No fundo de minha casa mantenho armada uma rede onde posso me reclinar nestes momentos preciosos.  Não gosto de me balançar com vigor (em geral me dá tontura), mas o suave marear, embalado pela brisa da manhã, ajuda a me sentir aconchegado em divinos braços paternos.  São momentos como este em que não há palavras nem liturgias, mas a alma é curada.
Entre o concreto que já cerca e abafa a casa onde moro, deitado na rede, ainda posso vislumbrar um pedaço precioso do firmamento.  E nesta manhã o céu está quase intocável, resta apenas um tênue floco de nuvem que mais parece um resto de algodão que foi lavado pelo vento à espera de que alguém o colha.  Cores não são o meu forte – nunca foi – mas o azul da manhã me parece de uma profundidade cativante.  E me sinto convidado e envolvido pelo resto de infinito que me inunda os olhos.
Agora, nada se compara ao canto dos pássaros.  Sou realmente agraciado com uma profusão de inúmeras e diferentes melodias que estes fantásticos cantores entoam toda manhã.  Sei que eles não o fazem para mim em especial.  Eles louvam o Criador.  Mas, como não me sentir celebrante da vida por poder desfrutar de tão esfuziante sinfonia!  Não existe ouro que valha estes minutos!
Então as palavras de Cristo são sussurradas ao meu ouvido: observem as aves do céu.  O Pai celestial as alimenta.  Agora elas são mais que tradição e letra morta; elas estão repletas de significado e atualidade e me dou o direito de simplesmente respirar fundo (antes que a poluição do dia torne isto impraticável) e deixo escapar uma exclamação sincera: Louvado seja teu nome, amado Senhor!
É porque o dia começou em tão sagrada presença que o stress das outras horas, a loucura do trânsito cada vez mais caótico, a correria da agenda insistentemente lotada, as intermináveis filas e contas para pagar, a futilidade das vitrines multicoloridas, a impaciência da convivência urbana impessoal, tudo isso se mostra miraculosamente transformado em apenas um tempo de espera para o próximo encontro pessoal com Cristo amanhã de manhã.

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