quarta-feira, 20 de abril de 2011

QUANDO TERMINOU O SÁBADO

Marcos em seu evangelho inicia a narração da ressurreição observando que quando terminou o sábado (leia em Mc 16:1) algumas mulheres retomaram o processo de sepultamento do corpo de Jesus, interrompido pela chegada do sábado.
A informação aparentemente banal de que terminou o sábado pode gerar uma interessantíssima discussão teológica sobre o advento pascal como distintivo da superação da aliança vétero-testamentária e sabática e a instauração da nova aliança graciosa.
Bem, embora este seja um tema de real interesse e importância, hoje queria apenas lhe convidar para acordar cedo no primeiro dia da semana e acompanhar as mulheres em sua ida ao lugar da sepultura.  Na mesma tarde da crucificação, quando José de Arimateia levou o corpo de Jesus para colocar num sepulcro novo cavado na rocha, as mulheres apenas acompanharam e observaram o lugar onde ele fora colocado.  Elas ainda compraram especiarias aromáticas para ungir o corpo de Jesus e voltaram ao sepulcro ao alvorecer do primeiro dia da semana (este detalhe é destacado pelos quatro evangelhos).
Naquele início de manhã ainda fria de final de inverno e princípio de primavera, aquelas três mulheres sentiam o peso dos rituais da morte que se impunham.  A morte é dolorosa e não marca lugar na agenda: ela acontece.  Ninguém escolhe.  À dor da perda cruel, acrescia-se o desconforto do levantar muito cedo, trocando o acolhimento de leito matinal pela labuta enfadonha. 
Já era o primeiro dia da semana e chegara o momento de retornar à insana rotina da sobrevivência (lembre que à tarde do mesmo dia dois dos discípulos iam a Emaús com esse intuito – em Lc 24:13-27).  E as especiarias compradas eram um gasto sofrido feito para tentar suavizar a decomposição do corpo e das lembranças.  E ainda tinha a pedra:
— Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?
Quando a vida termina em dura morte só resta uma grande e pesada pedra a enterrar os sonhos, a afastar o aconchego, a sufocar a saudade.  Naquela hora as explicações teológicas – embora corretas – não enxugariam as lágrimas da ausência.
Mas eis que o inusitado acontece: a morte foi tragada pela vitória (gosto da expressão de Paulo em 1Co 15:54).  Nada explica a pedra não mais tapar a cova e o lugar está vazio: não está aqui! – foram as estranhas palavras ouvidas pelas mulheres.
O que era ritual de morte, pesado e imposto pela realidade, se reconfigurou em liturgia de vida, oferecida de graça.  Depois do choro que durou uma noite, o riso chegou com o raiar do primeiro dia (olhando esta cena, leio Sl 30:5 como tendo contornos proféticos).  A pedra removida e os lençois dobrados compunham o cenário perfeito para o sonho frustrado se converter em esperança real, a saudade do aconchego em acolhimento carinhoso e o desencanto da morte em promessa de vida.  Quando terminou o sábado, a morte se foi e a vida brotou.
Antes de terminar, deixe-me ainda lhe chamar mais uma vez a acompanhar as mulheres a vivenciar a chegada do primeiro dia da semana. Quando a vida e a rotina nada mais forem que prenúncios de rituais de morte, levante cedo e vá descobrir que o lugar onde fora posto o corpo inerte agora se converteu em lugar de prostração sagrada e adoração por que Ele está vivo.  Aleluia!

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