terça-feira, 7 de julho de 2026

SOBRE CIDADES, CAMPO E ÁGUA

 


O texto bíblico diz que “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida” (Gn 2:7).  Pela compreensão sagrada, nossa vida está intimamente relacionada com a terra e o chão.  E até na sentença pronunciada após o pecado, a relação com a terra está explícita: “maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida” (Gn 3:17).

É do chão que sempre o ser humano tirou seu sustento; e em vários aspectos a própria existência depende do nosso relacionamento com a terra.  Desde os princípios da cultura humana, com a agricultura de subsistência, dependemos do que plantamos e colhemos – caso igual também com nosso gado que criamos.

Com o andamento da história da humanidade, contudo, a busca de algum conforto e segurança da vida coletiva levou a vários homens e mulheres a abandonarem os trabalhos nos campos em busca do que as cidades os podem oferecer.

No Brasil, essa tendência se intensificou a partir dos anos 1970, quando se acentuou o êxodo rural em busca das grandes cidades e oportunidades de emprego; chegando hoje a termos cerca de 85% da nossa população vivendo nas cidades (segundo o Censo IBGE Brasil 2022).

O êxodo rural é apenas um acúmulo de problemas ecológicos e de meio ambiente, tanto para os que vêm para as cidades, como para os que ficam no campo.

O ajuntamento de pessoas nas grandes cidades concentra os problemas.  O grande número de habitantes busca comer e viver com dignidade – o que é direito inalienável de todo ser humano.  Mas, vivendo em aglomerações, as ações humanas resultam em consequências em cadeia para todos.

Pelo menos dois problemas principais devemos encarar quando analisamos a vida humana nas grandes cidades modernas, e eles tem a ver com a água.  E como servos do Criador precisamos dar atenção a isso.

Em relação a água, é preciso cuidar tanto das chuvas, quanto água de consumo, além de como descartar as águas sujas de esgoto.

Sobre a questão das chuvas nos aglomerados urbanos, a situação é a seguinte: com o uso constante de asfalto, concreto e pedras em nossas cidades, os cursos naturais de água são gravemente alterados.  A consequência dessa prática é que as chuvas passam a se acumular nas cidades mudando por completo seus ciclos e causando danos incalculáveis.

Em atenção a esse problema, a solução é manter e cuidar de jardins, parques, hortos e outras áreas onde a terra possa receber livremente as águas da chuva e fazê-las escoar de maneira desimpedida.

Outro problema em relação a água é a contaminação das fontes e dos cursos naturais de águas.  As cidades, em geral, não cuidam de maneira apropriada, deixando que agentes químicos e orgânicos contaminantes poluam e encham de sujeira toda a água que chega disponível para a população.

Nesse mesmo âmbito, e de maneira recorrente, a falta de destinação adequada para a água usada em casas e indústrias, faz com que elas sejam despejadas em esgotos que, por sua vez, voltam aos córregos realimentando o clico de contaminação.

Quando a isso, de maneira simples, a melhor forma de minimizar os problemas com a água nas grandes cidades é reutilizar e reciclar o máximo possível, evitar desperdícios e cuidar das condições de saneamento.

Assim concluímos:

Fomos criados por Deus com amor e graça para viver nesse mundo.  Tudo o que precisamos para ter uma vida saudável e digna ele aqui nos entregou – bem como para deixar para as futuras gerações.  Mas também Deus nos colocou para administrar os recursos que ele nos confiou. 

A vida em sociedade, nos modelos urbanos que temos adotado, tem esgotados os recursos naturais e degradado o mundo belo que Deus criou.  Isso é ofensa e pecado contra o Criador e algo que avilta o ser humano.

Os nossos compromissos cristãos nos impõem a viver e trabalhar pela obra criada por Deus e a nós confiada em compromisso de administrá-lo de modo a poder sempre ver essa terra como um lugar bom – assim como o Criador o viu no sexto dia da criação (Gn 1:31).

 

(A partir de reflexão na Revista DIDASKALIA – 1º quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

Ensaios Teológicos – Volume 2

Nesta presente coletânea de Ensaios Teológicos trago textos abordando variados temas: de história de igreja à teoria do conhecimento.

 

O LOGOS – sobre o fazer teológico – Esse é um artigo que foi publicado originalmente em “O Jornal Batista” em novembro de 2024, nele eu comparo o fazer teológico com as tarefas de ciências em outras áreas.

Tertuliano e o uso das Escrituras – Tertuliano foi o primeiro entre os Pais da Igreja a adotar a língua latina como veículo para apresentação de sua teologia – o que lhe dá relevância e primazia no uso de vários termos e conceitos importantes. 

A fé e a espada – Com o foco na análise da relação entre a Igreja e o Estado, esse texto busca entender um pouco de como se deu a chegada no cristianismo ibérico na América Latina.  Certamente essa compreensão pode ajudar a pensar sobre essa relação atualmente.

Bonhoeffer: Liturgia e Comunhão – Nesse estudo procuro analisar a visão dele sobre temas como culto, liturgia, comunhão e vivência cristã comprometida.  Aproveito para comparar com ideias encontradas em alguns autores brasileiros que trataram do tema.

“Cristo e o Processo Revolucionário Brasileiro” – O objeto do texto é analisar a Conferência do Nordeste que ocorreu no ano de 1962 e sua contribuição para o Brasil em geral e para o protestantismo em particular naquele contexto.

O culto público – Esse ensaio escrito ainda no final do século passado apresenta um estudo sobre liturgia protestante brasileira contemporânea e sua relação com a nossa teologia.

Hermenêutica e epistemologia – Aqui é um texto teórico sobre como se dá a relação entre o método de interpretação – Hermenêutica – e a apreensão da verdade – Epistemologia.

Mudanças dos Tempos – Da Modernidade à Pós-Modernidade – esse texto eu escrevi para embasar minha dissertação final do Mestrado em Teologia em 2004.  Ele acabou não compondo aquela edição final, mas decidi trazer aqui na perspectiva de contribuir com a reflexão.

Um único ser – A partir de estudos sobre a psicologia humana e a sociologia, apresento uma rápida análise sobre a relação entre a crença no monoteísmo e a integridade do ser.

 


Disponível no:
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terça-feira, 23 de junho de 2026

COM PACIÊNCIA

O Século XXI tem levado às últimas consequências a realidade caótica em que o ser humano está envolvido por conta de suas próprias decisões e ações pecaminosas.  Segurança, felicidade e paz há muito deixaram de ser realidade no mundo de hoje – e sei que não estou dizendo nenhuma novidade, fazemos parte disto!

Também não é novidade que sob a ótica de Deus, os seus fiéis não têm que viver sob este regime. 

 

Antes de prosseguir, vamos ler o que o texto bíblico pode dizer nesse contexto:

 

O Salmo 40 registra o testemunho do salmista que experimentou a ação divina.  O poema começa com a afirmação de que tudo começou num ato de esperança e paciência: “Esperei com paciência pelo Senhor”. 

Assim, creio que aqui está o segredo de tudo.  Não temos uma afirmação de que os crentes sempre viverão alheios aos problemas e ansiedades da vida – e disto bem sabemos hoje. 

Também não é dito que as soluções seriam de imediato e no nosso tempo – Deus faz as coisas ao seu modo.

Então entendemos que a única saída que nos resta nesse tempo é com paciência esperar pelo Senhor, pois somente nisto poderemos nos firmar para continuar vivendo e encarando as vicissitudes do cotidiano. 

 

E quem não tem nem paciência e nem esperança em Deus, como é que vive?

 

Vivamos pacientemente nesta esperança para que possamos vislumbrar as maravilhas divinas que “são mais do que se pode contar”.

 

 

§ Você pode ler também sobre o tema da paciência como um bago de jaca do Fruto do Espírito aqui no Escrevinhando – link

 

terça-feira, 16 de junho de 2026

O GRANDE APERREIO



No Sermão Escatológico, que o Evangelho de Mateus registra no capítulo 24, Jesus fala em guerras, fomes, pestes e terremotos. Embora enfatize que "ainda não é o final" (Mt 24.6).

Nesse contexto, Jesus também fala numa grande tribulação ímpar e na garantia de que esses dias deverão ser abreviados (nos versos 21 e 22).

 

Esse tema da Grande Tribulação é recorrente nos estudos de Teologia Escatológica – em vários sentidos e com várias correntes.  Não quero aqui percorrer entre tais posicionamentos.  Quero lhe atrair para uma leitura bíblica.

 

— 0 que está escrito no Texto Sagrado?

 

A palavra grega citada no Evangelho é θλῖψις μεγάλη (fala-se: thlipsis megalē).  Ela usualmente é traduzida do Koiné como tribulação, angústia, aflição, dificuldade ou opressão. 

Da mesma raiz do verbo grego θλίβω (fala-se: thribo) significando, oprimir, pressionar ou apertar para baixo.  O grego moderno usa esse verbo para indicar: entristecer, contristar, penalizar, mortificar – tanto num sentido físico como figurado.

Uma curiosidade sobre o termo “tribulação” em português.  Na origem latina está a palavra tribulatio que, por sua vez, vem de tribulum, uma ferramenta agrícola de madeira com pontas afiadas usada para separar o trigo da palha (debulhar). Tertuliano foi o primeiro autor cristão a usar no sentido teológico-escatológico para se referir ao conceito das perseguições e dificuldades que purificavam e testavam a fé dos cristãos.  Depois deles, vários pais da igreja depuraram o conceito.

 

Vamos ao texto.  O início do verso de Mateus 24.21 foi traduzido assim (em destaque a expressão):

→ Vulgata Latina – Erit enim tunc tribulatio magna.

→ Grego Moderno – Τότε γὰρ θέλει εἶσθαι θλίψις μεγάλη.

→ Hebraico – כי אז תהיה צרה גדולה

→ Inglês (KJV) – For then shall be great tribulation.

→ Inglês (NVI) – For then there will be great distress.

→ Inglês (MSG) – This is going to be trouble on a scale beyond what the world has ever seen.

→ Alemão (Luther, 1912) – Denn es wird alsbald eine große Trübsal sein.

→ Italiano (Riveduta, 1927) – Perché allora vi sarà una grande afflizione.

→ Espanhol (Reina Valera) – Porque habrá entonces grande aflicción.

 

As versões em Português desse mesmo verso dizem:

→ Almeida (ARC) – Porque haverá, então, grande aflição.

→ NVI – Porque haverá então grande tribulação.

→ NTLH – Porque naqueles dias haverá um sofrimento tão grande.

→ NVT – Pois haverá mais angústia que em qualquer outra ocasião.

→ BJ – Pois haverá então uma tribulação tão grande como nunca houve.

 

E eu, sendo estudante da Bíblia aqui no Nordeste do Brasil, traduziria:

 

— Porque existirá um grande aperreio.

 

Deixe-me citar (e comentar rapidamente) outros textos onde a palavra ocorre.  Deve ajudar a compreender o sentido:

 

    Jesus disse que o mundo nos empurraria para baixo, mas que no fim a vitória chegaria (confira Jo 16:33).

    Paulo aos romanos diz que nenhum aperreio pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8:35) e, além do mais, através daquele que nos ama, somos invencíveis (v. 37 – na versão tradicional de Almeida: “mais que vencedores”).

    Na visão de Apocalipse, um dos anciãos afirma que os vestidos de branco diante do trono do Cordeiro são os que, tendo vindo do grande aperreio, lavaram e branquearam suas roupas no sangue do Cordeiro (em Ap 7:14).  E Deus vai limpar dos seus olhos toda lágrima (leia até o verso 17).

 

E mais uma citação.  Comentando o texto do Apocalipse, eu fiz a seguinte reflexão:

 

Então, independente da compreensão que se tenha do evento escatológico específico que possa ser denominado como a grande tribulação, João em sua visão, contempla uma multidão de selados por Deus que, vindo das tribulações, agora podem adorar diante do trono.  Eles já podem experimentar em suas próprias vidas o desfecho final da certeza que a leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação (2Co 4:17).  O vidente não sabe como eles chegaram ali, nem a extensão dos tormentos que antecederam aquele momento, embora possa imaginar a partir das suas próprias tribulações e exílio.  Mas lhes foi dito que eles sobreviveram aos infortúnios da vida e, mesmo ainda lá, poderam ter a companhia do Deus que é fortaleza em tempos de tribulação (leia o Sl 46:1).  E a narração continua: razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário (Ap 7:15).

(No livro: Tu És Digno).

 

 


Indico a leitura do livro  TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

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terça-feira, 9 de junho de 2026

OS MORTOS LEMBRAM?

 



Estudo bíblico-teológico sobre o tema do que ocorre com o pós-morte. Os mortos podem ou não lembrar do que aconteceu nesse lado da existência? O que a Bìblia tem a dizer sobre o tema da vida depois da morte?


“Por que os vivos sabem que vão morrer; mas os mortos não sabem de nada e nem mais que terão recompensa. 
E a memória deles é esquecida.”
(Ec 9:5)



terça-feira, 2 de junho de 2026

ORAÇÕES E LEÕES

 


 

Chegando ao reinado de Dario, Daniel ainda continuava com prestígio na corte, enquanto outros homens da corte “procuravam um motivo para acusar Daniel” (Dn 6.4).

Usando de um estratagema, os adversários de Daniel levaram Dario a assinar um decreto proibindo, num prazo de trinta dias, a adoração a qualquer deus que não o próprio rei e que quem descumprisse tal decreto fosse lançado aos leões (Dn 6.7).

O decreto, contudo, não intimidou Daniel e quando ele foi flagrado orando ao seu Deus (Dn 6.11) foi denunciado e sentenciado, sendo jogado na cova dos leões para ser devorado (Dn 6.13-16).

Na manhã seguinte, o próprio rei foi verificar o que teria acontecido com Daniel e, para sua surpresa, constatou que o Deus vivo “enviou seu anjo e fechou a boca dos leões” (Dn 6.22).

Ficou então demonstrado tanto a intenção dos adversários em perseguir Daniel e o destruir, como a sinceridade de Daniel, que era fiel às suas obrigações e ao rei, e cuja intenção não foi afrontar Dario, mas manter sua fé no seu Deus.

Então, “porque havia confiado em seu Deus”, Daniel foi poupado de maneira milagrosa por Deus. E quando o tiraram da cova “não acharam ferimento algum nele” (Dn 6.23).

Assim, mais uma vez, o Deus de Daniel foi honrado e, com um decreto real, ficou ordenado que “os homens tremam e temam diante do Deus de Daniel, pois ele é o Deus vivo. Ele livra e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra” (Dn 6.26-27). Como ficou demonstrado no livramento de Daniel da cova dos leões.

 

(A partir da revista COMPROMISSO – Convicção Editora; Ano CXVII; nº 468.  Na imagem: Daniel in the Lions' Den – óleo sobre tela do pintor flamenco Peter Paul Rubens – cerca de 1614 a 1616; atualmente exposto no National Gallery of Art / Washington, D.C. – fonte: wikipedia.org)

 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Bioética Cristã

 

econtato: 79 98874-2129 ou contato@setebase.com.br

Nesta videoaula sobre Bioética Cristã, são abordados os principais desafios éticos da atualidade à luz dos princípios cristãos e da cosmovisão bíblica. A aula é direcionada a compreender como a fé cristã orienta decisões em questões complexas relacionadas à vida, saúde e dignidade humana.

 

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Mais informações: entre em contato: (79) 9 8874-2129 ou contato@setebase.com.br


quarta-feira, 20 de maio de 2026

AI DA CIDADE

O relacionamento de Deus com o povo de Israel se estabeleceu baseado numa aliança mútua. O Senhor que tirou o povo do Egito deu a eles seus estatutos e normas “pelas quais o homem viverá ao cumpri-las” (Ez 20.11). Mas o povo não seguiu as instruções divinas nem lançou “fora as abominações que encantavam os seus olhos” (v. 8).

Embora o Senhor tenha dado seus estatutos para que servissem de testemunho entre Deus e Israel (Ez 20.20), o povo, a começar por seus sacerdotes, não fez diferença entre o santo – aquilo que deveria ser separado para Deus – e o profano – aquilo que deveria ser rejeitado (Ez 22.26).

É verdade que o Senhor nunca desistiu do seu povo pois continuou buscando “entre eles um homem que levantasse o muro e se pusesse na brecha” (Ez 22.30); mas não achou ninguém dentre os filhos de Israel que fizesse esse compromisso com Deus e com o povo.

Restou o lamento: “Ai da cidade que derrama sangue sobre si mesma e faz ídolos contra si mesma, para se contaminar!” (Ez 22.3). E o conjunto de acusações contra a cidade infame incluía: derramar sangue (v. 6), desprezar os pais, oprimir estrangeiros, ser injusto com órfãos e viúvas (v. 7), profanar coisas santas (v. 8), caluniar (v. 9), adulterar (v. 11) e extorquir o próximo (v. 12). Todos pecados que afastam o ser humano dos caminhos de Deus.

Diante de tal quadro, o Senhor entregou ao profeta Ezequiel sua palavra. E o fez através da parábola das duas irmãs: Oolá e Oolibá; as quais ele mesmo identificou pelo nome: “Samaria é Oolá, e Jerusalém é Oolibá” (Ez 23.4).

Na narrativa, as duas irmãs “seguiam o mesmo caminho” (Ez 23.13) de prostituição com seus amantes assírios e egípcios e como consequência o Senhor já havia dado sua sentença: “Farei subir uma multidão contra elas e as entregarei ao tumulto e ao saque” (Ez 23.46).

E quando a sentença se cumpriu com a queda da cidade, registrada com data no livro profético (Ez 24.2), o Senhor ainda usou uma tragédia pessoal de Ezequiel para servir de sinal. Com a morte da mulher do profeta (o desejo dos seus olhos – Ez 24.16,18), ele foi instruído a não demostrar luto e a gemer em silêncio (v. 17), simbolizando a tragédia que se abateria sobre a nação os faria definhar e gemer (v. 23).

O motivo principal, contudo, de toda essa situação seria para que no fim todos soubessem quem é o SENHOR (Ez 26.27).

 (Da revista “COMPROMISSO” – Convicção Editora – Ano CXVII – nº 468)



Você pode ler um ensaio sobre o profeta Ezequiel no livro ENSAIOS TEOLÓGICOS

Disponível no:
Clube de autores
amazon.com

Conheça também outros livros:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão
PARÁBOLA DAS COISAS

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

DIVERSIDADE DE DONS


 Entendemos que os dons distribuídos pelo Espírito têm por objetivo primeiro edificar a igreja em áreas que o próprio Deus entende necessárias.  E que, quando isso ocorre, toda a comunidade de fé é edificada e cresce.

Com base nas relações de dons que encontramos no Novo Testamento, gostaria de classificá-los por sua área de atuação.  Lembrando mais uma vez que todos são importantes na medida da necessidade e que não há hierarquia entre eles.

A primeira área de atuação dos dons seria mais pessoal.  Como citação, seria o dom de conhecimento, de sabedoria e variedade de línguas.  Neles, embora a ação se dê na área pessoal de cada crente, capacitando-os para ter uma compreensão mais aguçada das coisas espirituais, o objetivo final é levar a igreja a perceber melhor as verdades espirituais.

Uma segunda classificação, chamaria de social.  Os textos falam em contribuição, cura, ensino, fé, liderança, hospitalidade, pastoreio, serviço, entre outros (esse é o grupo com mais diversidade).  Aqui o objetivo claro é atender necessidades sociais, psicológicas, emocionais e funcionais da comunidade.

Uma última classificação seria a dos dons litúrgicos, ou de culto e celebração.  Seriam os dons de profecias, interpretação de língua, exortação, evangelismo, discernimento de espíritos.  Enquanto a igreja se reúne para cultuar e celebrar a Cristo as diversas manifestações espirituais acontecem, e os dons se manifestam para que ela possa ser conduzia de modo correta a uma adoração digna.

(Da Revista DIDASKALIA – 1º
quadrimestre / 2023 – IBODANTAS)


Você pode ler mais sobre Dons Espirituais no Escrevinhando:
Para um estudo simples das palavras gregas que o apostólo Paulo usa para descrever os dons, indico os seguintes links do Escrevinhando:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Os selados do Apocalipse

 



Ap 7:3 – “...até que selemos as testas dos servos do nosso Deus”.


Os que receberam o selo de Deus em suas testas são os que foram comprados pelo Cordeiro de toda as tribos, línguas, povos e nações para se constituírem reis e sacerdotes.


Leia mais sobre esse tema no Escrevinhando - link

terça-feira, 28 de abril de 2026

SOBRE O ARREPENDIMENTO



Os Evangelhos dizem que Jesus iniciou seu ministério anunciando a chegada próxima do Reino de Deus e a necessidade de arrependimento.

 

O Reino de Deus está próximo!  Arrependam-se e creiam no evangelho!
(Mc 1.15)

 

O tema do arrependimento não seria novo para os ouvintes do Mestre de Nazaré.  Profetas como Ezequiel já haviam abordado o tema (leia Ez 18) e João preparou o caminho do Messias também desafiando ao arrependimento, além de exigir um comportamento adequado (confira Mt 3.2 e 8).

 

Como tema central da mensagem de Cristo, o arrependimento requer uma análise mais minuciosa.  Assim, proponho um estudo no termo e depois uma reflexão sobre o tema.

O termo que os evangelistas usam em grego é μετανοέω (metanoeo – como verbo aparece cerca de 36 vezes no NT), e, na sua forma como substantivo, μετάνοια (metanoia – que ocorre 24 vezes).

A etimologia do termo original me leva a μετά + νοῦς que, literalmente, indica: além/depois + mente.  Ou, numa versão mais costumeira: mudança de mente.  Entendendo que os antigos usavam o termo νοῦς / mente para se referir tanto à sede do pensamento, quanto à faculdade espiritual pela qual a verdade de Deus é apreendida e posta em prática.

Então arrependimento seria uma proposta de mudança tanto de pensamento como apreensão das verdades divinas.

 

O apóstolo Paulo, escrevendo a Roma, fala em transformação (em grego: μεταμορφόω – metamorfoo) e renovação (em grego: ἀνακαίνωσις – anakainosis) da mente.  Enxergo como uma excelente definição de arrependimento no conceito bíblico (em Rm 12.2).

E ainda, para explicar melhor esse conceito, gosto como o pregador batista inglês C.H. Spurgeon (1834-1892) define: arrependimento – mudança de mente – “inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado…”

 

Nessa compreensão dos termos, penso que é importante diferenciar o arrependimento como padrão cristão (do grego: μετάνοια) para o sentimento de tristeza ou remorso (no grego seria λύπη – lype – Rm 9.2). 

Sobre isso, o texto de 2Co 7.10 esclarece que essa comoção de origem mundana resulta em morte, mas, importante, quando tem origem em Deus conduz ao arrependimento verdadeiro e, daí, a salvação.

 

E com essa citação já podemos nos encaminhar para a compreensão do tema.

 

Voltando à fala de Jesus, a citação é clara: Arrependam-se.  Aqui o verbo grego está no imperativo presente.  Ou seja, é uma ordem direta que precisa ser cumprida já. 

 

A chegada do Reino implica que a ordem divina coloca como condição para participação no Reino que um arrependimento aconteça.  Isso é pré-condição indispensável.  E, usando uma expressão latina: sine qua non!

Continuando a leitura bíblica como referência para nossa compreensão do arrependimento, como disciplina cristã, vamos a 2Pe 3.9.  No texto epistolar é atestado a garantia que o Senhor não está atrasado em sua promessa, mas está sendo longânime, dando oportunidade para todos venham a se arrepender.  Esse é o desejo divino e para isso ele sempre nos atrai (volte ainda a Ez 18.32).

Ainda aos romanos, o apóstolo reconhece que as riquezas do juízo de Deus, através de sua benignidade, paciência e longanimidade, nos levam ao arrependimento e isso nos é dado como recompensa que leva à vida eterna (leia Rm 2.4 e 7).

 

Uma última citação deve concluir nossa compreensão:  (1) o Deus que não quer que ninguém se perca, (2) que exige arrependimento como condição para o Reino, (3) mas providencia por sua bondade o caminho para essa metanoia; é o mesmo se nos apresenta como nosso Παράκλητος (Paracletos) – nosso advogado que nos defende diante do Pai e Juiz, sendo ELE mesmo o sacrifício para nosso perdão.

Assim deve ser a vida dos cidadãos do Reino.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O NOME DO LIVRO DE APOCALIPSE

 


Apocalipse é o último livro na absoluta maioria das edições da Bíblia cristã.  Talvez apenas por ter sido o último a ser escrito, advogam alguns, ou por trazer a mensagem e ensinamento das últimas coisas, remetem outros, ou por ter sido alvo de intermináveis controvérsias e contestações ao longo da história, afirmam ainda outros.  A verdade é que desde as primeiras coleções de escritos cristãos seu texto encontra-se referido.

O título em português sempre foi Apocalipse.  Esta é a primeira palavra do livro em língua grega, e assim ele é nomeado.  No léxico grego-português do Novo Testamento, para esta palavra, aparece a sugestão de tradução: revelação ou exposição.  E além do título do último livro do cânon, aparece em Lc 2:32; Rm 8:19 e 1Pe 1:13 por exemplo.  Jerônimo ao produzir sua Vulgata – traduzindo o texto do grego para o latim popular – preferiu não traduzir esta expressão, mantendo-a apenas como transliteração, o que acabou gerando um termo técnico cristão a partir do latim: Apocalipse.  Ou seja, Jerônimo intitulou o livro: Apocalypsis Ioannis, e o primeiro verso ele traduziu: Apocalypsis Jesu Christi.  Daí seguiram-se várias traduções ocidentais.

Mas nem em todo lugar foi assim.  E para enriquecer o argumento, aí vai uma pequena relação: em alemão Lutero chamou o livro de Offenbarung e traduziu o verso como Dies ist die Offenbarung Jesu Christi.  A edição em inglês de King James nomeia o livro como Book of Revelation e traduz 1:1 assim: The Revelation of Jesus Christ.  Já em espanhol a edição Reina-Valera intitula: Apocalisis e o verso: La revelación de Jesucristo.  Semelhante ao francês (edição de Louis Segond) – título: Apocalypse; verso: Révélation de Jésus-Christ e ao italiano (Versione Riveduta) – título: Apocalisse; verso: La rivelazione di Gesù Cristo.  O que parece oferecer um critério europeu de divisão entre línguas neolatinas (preferindo a transliteração proposta pela Vulgata) e línguas mais ao norte (preferindo a tradução do termo).

Sendo assim, João Ferreira de Almeida seguiu o mesmo procedimento e usou o título Apocalipse para o último livro bíblico já em sua publicação do Novo Testamento em português que apareceu em 1681 – termo com o qual nos acostumamos até hoje.  E ele iniciou a tradução do texto propriamente dito com: Revelação de Jesus Cristo (aqui com a grafia da atualizada).

 

Extraído do livro: TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse

 

 


Leia todo o livro TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse.  Texto comovente, onde eu coloco meu coração e vida à serviço do Reino de Deus. Você vai se apaixonar por este belíssimo texto, onde a fidelidade a Palavra de Deus é uma marca registrada.

 

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terça-feira, 14 de abril de 2026

VÍSCERAS DE COMPAIXÃO

O evangelista Mateus diz:

 

[Jesus], vendo as multidões, tem compaixão delas porque estavam angustiadas e espalhadas como ovelhas que não têm pastor.
(Mt 9.36)

 

Em linhas gerais, Mateus está narrando que o Mestre, enquanto percorria as cidades e vilarejos, notava as pessoas largadas e esquecidas na periferia do mundo e da religião.  E isso mexeu com ELE de uma forma única.

 

Aqui o grego bíblico registra uma palavra rara e com uma pronúncia complicada para nós falantes do português brasileiro: σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai – talvez um falante nativo do grego moderno tenha facilidade com esse conjunto de letras – eu com certeza não!).

Eu entendo que a compreensão dessa palavra evangélica seja fundamental para entender a passagem.

 

Antes.  Para situar.  Os gregos antigos tinham três palavras para descrever o sentimento e atitude de compaixão:

→ ἔλεος (eleos – a forma mais comum).  Literalmente misericórdia.  O termo era comum nas saudações cristãs (confira, por exemplo, Gl 6.16 e 1Tm 1.2).  Esta palavra está na raiz da expressão ἐλεημοσύνη (eleemosyne) – esmola.  Os gregos usam esse termo para traduzir o hebraico חסדhesed – o amor leal de Deus (como no Sl 5.8).

→ οἰκτιρμός (oiktirmos).  O sentido é de clemência e compaixão.  Aos colossenses Paulo instrui a nos revestir de compaixão (leia em Cl 3.12).  Essa é a palavra grega que o AT usa para a queixa do profeta Jonas ao Senhor por ser clemente e compassivo (em hebraico: חנוןhanun – em Jn 4.2).

→ σπλαγχνίζομαι (splanchnizomai).  Essa é a palavra usada por Mateus.    E quero me aprofundar em seu estudo.

 

No Grego Clássico esse verbo é quase desconhecido.  Mas a sua raiz etimológica é bem conhecida. Siga comigo.

Os antigos usavam o substantivo σπλάγχνα (splanchna) para indicar as partes da vítima que eram oferecidas em sacrifício aos deuses. O termo se referia às partes consideradas mais nobres dos animais: fígado, coração, rins e pulmões. Usava-se também para designar os órgãos sexuais masculinos e o útero ou ventre materno como locais dos poderes da concepção e do nascimento.

Então, daí eles começaram a usar a forma verbal para designar o ato de comer as entranhas dos animais sacrificados como forma obter poderes místicos e dominar as artes adivinhatórias.

Mas, somente no judaísmo helênico tardio que o termo σπλαγχνίζομαι começou a ser usado como uma espécie de sentimento que move as vísceras (e o cristianismo herdou essa compreensão).  

 

É a descrição daquele misto de sentimento que nos mexe por dentro, na intimidade e essência do que somos e não se arrefece até que nos leve a uma ação prática em favor do necessitado.  Mais do que pena ou dó, mais do que piedade ou caridade, é compaixão visceral que, como bom nordestino eu diria: “que me embola as tripas” e me toma por completo de uma gastura existencial pela situação do outro.

 

Foi esse mover das vísceras, das entranhas, do mais profundo do seu ser essencial que tomou Jesus ao ver as multidões carentes da periferia (e Tiago vai dizer que Deus é cheio dessa misericórdia – em Tg 5.11).

E humana e completamente envolvido por essa misericórdia essencial Jesus instrui os seus discípulos de forma apaixonada:

 

A tarefa é tão grande e tem tão pouca gente para fazer!  Peçam ao Senhor da obra que traga mais pessoas para se compadecer desses!
(Mt 9.37-38)