terça-feira, 28 de abril de 2026

SOBRE O ARREPENDIMENTO



Os Evangelhos dizem que Jesus iniciou seu ministério anunciando a chegada próxima do Reino de Deus e a necessidade de arrependimento.

 

O Reino de Deus está próximo!  Arrependam-se e creiam no evangelho!
(Mc 1.15)

 

O tema do arrependimento não seria novo para os ouvintes do Mestre de Nazaré.  Profetas como Ezequiel já haviam abordado o tema (leia Ez 18) e João preparou o caminho do Messias também desafiando ao arrependimento, além de exigir um comportamento adequado (confira Mt 3.2 e 8).

 

Como tema central da mensagem de Cristo, o arrependimento requer uma análise mais minuciosa.  Assim, proponho um estudo no termo e depois uma reflexão sobre o tema.

O termo que os evangelistas usam em grego é μετανοέω (metanoeo – como verbo aparece cerca de 36 vezes no NT), e, na sua forma como substantivo, μετάνοια (metanoia – que ocorre 24 vezes).

A etimologia do termo original me leva a μετά + νοῦς que, literalmente, indica: além/depois + mente.  Ou, numa versão mais costumeira: mudança de mente.  Entendendo que os antigos usavam o termo νοῦς / mente para se referir tanto à sede do pensamento, quanto à faculdade espiritual pela qual a verdade de Deus é apreendida e posta em prática.

Então arrependimento seria uma proposta de mudança tanto de pensamento como apreensão das verdades divinas.

 

O apóstolo Paulo, escrevendo a Roma, fala em transformação (em grego: μεταμορφόω – metamorfoo) e renovação (em grego: ἀνακαίνωσις – anakainosis) da mente.  Enxergo como uma excelente definição de arrependimento no conceito bíblico (em Rm 12.2).

E ainda, para explicar melhor esse conceito, gosto como o pregador batista inglês C.H. Spurgeon (1834-1892) define: arrependimento – mudança de mente – “inclui iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta da iniquidade e ódio para com o pecado…”

 

Nessa compreensão dos termos, penso que é importante diferenciar o arrependimento como padrão cristão (do grego: μετάνοια) para o sentimento de tristeza ou remorso (no grego seria λύπη – lype – Rm 9.2). 

Sobre isso, o texto de 2Co 7.10 esclarece que essa comoção de origem mundana resulta em morte, mas, importante, quando tem origem em Deus conduz ao arrependimento verdadeiro e, daí, a salvação.

 

E com essa citação já podemos nos encaminhar para a compreensão do tema.

 

Voltando à fala de Jesus, a citação é clara: Arrependam-se.  Aqui o verbo grego está no imperativo presente.  Ou seja, é uma ordem direta que precisa ser cumprida já. 

 

A chegada do Reino implica que a ordem divina coloca como condição para participação no Reino que um arrependimento aconteça.  Isso é pré-condição indispensável.  E, usando uma expressão latina: sine qua non!

Continuando a leitura bíblica como referência para nossa compreensão do arrependimento, como disciplina cristã, vamos a 2Pe 3.9.  No texto epistolar é atestado a garantia que o Senhor não está atrasado em sua promessa, mas está sendo longânime, dando oportunidade para todos venham a se arrepender.  Esse é o desejo divino e para isso ele sempre nos atrai (volte ainda a Ez 18.32).

Ainda aos romanos, o apóstolo reconhece que as riquezas do juízo de Deus, através de sua benignidade, paciência e longanimidade, nos levam ao arrependimento e isso nos é dado como recompensa que leva à vida eterna (leia Rm 2.4 e 7).

 

Uma última citação deve concluir nossa compreensão:  (1) o Deus que não quer que ninguém se perca, (2) que exige arrependimento como condição para o Reino, (3) mas providencia por sua bondade o caminho para essa metanoia; é o mesmo se nos apresenta como nosso Παράκλητος (Paracletos) – nosso advogado que nos defende diante do Pai e Juiz, sendo ELE mesmo o sacrifício para nosso perdão.

Assim deve ser a vida dos cidadãos do Reino.

 

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