Os
Evangelhos dizem que Jesus iniciou seu ministério anunciando a chegada próxima
do Reino de Deus e a necessidade de arrependimento.
O Reino de Deus está próximo!
Arrependam-se e creiam no evangelho!
(Mc
1.15)
O tema
do arrependimento não seria novo para os ouvintes do Mestre de Nazaré. Profetas como Ezequiel já haviam abordado o
tema (leia Ez 18) e João preparou o caminho do Messias também desafiando ao
arrependimento, além de exigir um comportamento adequado (confira Mt 3.2 e 8).
Como
tema central da mensagem de Cristo, o arrependimento requer uma análise mais minuciosa. Assim, proponho um estudo no termo e depois
uma reflexão sobre o tema.
O
termo que os evangelistas usam em grego é μετανοέω (metanoeo – como verbo
aparece cerca de 36 vezes no NT), e, na sua forma como substantivo, μετάνοια (metanoia
– que ocorre 24 vezes).
A
etimologia do termo original me leva a μετά + νοῦς que, literalmente, indica: além/depois
+ mente. Ou, numa versão mais
costumeira: mudança de mente. Entendendo
que os antigos usavam o termo νοῦς / mente para se referir tanto à sede do
pensamento, quanto à faculdade espiritual pela qual a verdade de Deus é
apreendida e posta em prática.
Então
arrependimento seria uma proposta de mudança tanto de pensamento como apreensão
das verdades divinas.
O apóstolo
Paulo, escrevendo a Roma, fala em transformação (em grego: μεταμορφόω – metamorfoo)
e renovação (em grego: ἀνακαίνωσις – anakainosis) da mente. Enxergo como uma excelente definição de arrependimento
no conceito bíblico (em Rm 12.2).
E
ainda, para explicar melhor esse conceito, gosto como o pregador batista inglês
C.H. Spurgeon (1834-1892) define: arrependimento – mudança de mente – “inclui
iluminação, a iluminação do Espírito Santo. Acho que inclui uma descoberta
da iniquidade e ódio para com o pecado…”
Nessa
compreensão dos termos, penso que é importante diferenciar o arrependimento
como padrão cristão (do grego: μετάνοια) para o sentimento de tristeza ou
remorso (no grego seria λύπη – lype – Rm 9.2).
Sobre
isso, o texto de 2Co 7.10 esclarece que essa comoção de origem mundana resulta
em morte, mas, importante, quando tem origem em Deus conduz ao arrependimento
verdadeiro e, daí, a salvação.
E com
essa citação já podemos nos encaminhar para a compreensão do tema.
Voltando
à fala de Jesus, a citação é clara: Arrependam-se. Aqui o verbo grego está no imperativo
presente. Ou seja, é uma ordem direta
que precisa ser cumprida já.
A
chegada do Reino implica que a ordem divina coloca como condição para participação
no Reino que um arrependimento aconteça.
Isso é pré-condição indispensável.
E, usando uma expressão latina: sine qua non!
Continuando
a leitura bíblica como referência para nossa compreensão do arrependimento,
como disciplina cristã, vamos a 2Pe 3.9.
No texto epistolar é atestado a garantia que o Senhor não está atrasado em
sua promessa, mas está sendo longânime, dando oportunidade para todos venham a
se arrepender. Esse é o desejo divino e
para isso ele sempre nos atrai (volte ainda a Ez 18.32).
Ainda
aos romanos, o apóstolo reconhece que as riquezas do juízo de Deus, através de
sua benignidade, paciência e longanimidade, nos
levam ao arrependimento e isso nos é dado como recompensa que leva à vida
eterna (leia Rm 2.4 e 7).
Uma última
citação deve concluir nossa compreensão:
(1) o Deus que não quer que ninguém se perca, (2) que exige arrependimento como condição para o Reino, (3) mas
providencia por sua bondade o caminho para essa metanoia; é o mesmo se
nos apresenta como nosso Παράκλητος (Paracletos) – nosso advogado que
nos defende diante do Pai e Juiz, sendo ELE mesmo o sacrifício para nosso perdão.
Assim
deve ser a vida dos cidadãos do Reino.

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