terça-feira, 6 de outubro de 2020

CONTAGEM DE TEMPO NA BÍBLIA

 

Tenho publicado aqui nessa página várias tabelas sobre o mundo bíblico (lá em baixo vou deixar alguns links para você acessar).  Mas para descrever o tempo e como ele era contado na época em que a Bíblia foi escrita, vou preferir descrever as diversas percepções e métodos.

 


O primeiro povo a criar um sistema de ordenamento do tempo foram os babilônicos.  Eles dividiram o tempo em que o sol está brilhando no céu em 12 horas – o dia – e o tempo em que não há sol em outras doze horas – a noite.  E, a partir daí, todas as outras subdivisões da contagem do tempo em múltiplos e submúltiplos de 60 – pois essa era a base de sua matemática.

Israel e Judá adotaram o mesmo sistema de medição e registro de tempo dos babilônicos.

 

§ A hora equivalia a 1/12 do dia; mas a extensão da hora variava de acordo com a estação do ano. As horas do dia eram contadas a partir do nascer do sol e sempre em relação ao seu transcurso pelo céu (veja Mt 20:1-9).

§ A noite era dividida em vigílias.  Os israelitas dividiam a noite em três vigílias, sendo cada uma de quatro horas (como em Jz 7:19).  Os romanos dividiam a noite em quatro vigílias, com três horas cada uma (como em Mt 14:25).

§ Em geral se denominava de dia ou o total de 12 horas (do nascer ao pôr-do-sol – como em Jo 11:9 e Gn 7:4) ou de 24 horas (de um pôr-do-sol ao outro – Êx 20:8-11).

§ A semana contava com sete dias, terminando com o sábado (considere Êx 20:10 e Mt 28:1).

§ O ano contava com dozes meses lunares iniciando sempre com a lua nova (totalizando 354 dias – veja por exemplo Nm 28:14 e 1Cr 27:1-15).  Porém de três em três anos acrescentava-se um mês (pela repetição do último mês) para tirar a diferença entre os 12 meses lunares e o ano solar.

§ Eles também dividiam o ano nas quatro estações (confira, por exemplo, Gn 8:22 e Tg 5:7).  E a primeira lua nova da primavera indicava o início do ano.

 

Por falar em tempo, os gregos tinham três expressões que podem ser traduzidos por tempo em português:

+ χρόνος (chronos – At 1:7) – usado num sentido sequencial: o tempo do relógio, duração, período.

+ καιρός (kairós – 1Ts 2:17) – demonstrando um momento específico da história humana; tempo oportuno, ocasião, época.

+ αἰών (aión – Ef 2:7) – expressa a ideia de tempo, era, período próprio, fase e algumas vezes é traduzido com século.

 

 

Veja algumas tabelas e listas sobre o mundo bíblico para enriquecer seu estudo:

 

As 12 pedras da Nova Jerusalém

As Cartas do Apocalipse

Calendário Judaico Antigo

Fauna bíblica – Antigo Testamento

Fauna bíblica – Novo Testamento

Festas judaicas

Frutos do Espírito

Juízes em Israel

O Antigo Testamento – livro por livro

O Novo Testamento – livro por livro –

Obras da carne

Os filhos de Jacó

Os nomes de Deus no AT1 e 2

Os sete metais que os antigos conheciam

Os títulos dos Salmos

Países na Bíblia

Palavras latinas no NT grego

Palavras semitas no NT grego

Tabela de medidas bíblicas – peso, volume e dinheiro

TANACH – A Bíblia Hebraica

Utensílios do Tabernáculo

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

A TRANSFIGURAÇÃO

 

Em meio ao ministério público de Jesus, um episódio em particular chamou a atenção do evangelista Lucas, que o narrou para apontar o caráter divino de Cristo: a transfiguração (confira a narrativa em Lc 9:28-36).  Lucas conta que Jesus tomou consigo apenas três dos seus discípulos mais íntimos – Pedro, João e Tiago – e subiu ao monte para orar.

A prática de orar de maneira reserva foi bastante comum durante o ministério terreno de Jesus.  O Mestre gostava de procurar lugares tranquilos longe da agitação das pessoas para ocupar-se com a oração.  Desta vez, entretanto, foi diferente.  Ele não foi sozinho e os discípulos poderam testemunhar algo maravilhoso.

O Evangelho diz que enquanto orava seu rosto mudou de aparência, suas vestes ficaram brilhantes e dois personagens apareceram para conversar com Jesus – que foram identificados como Moisés e Elias.  O texto não dá detalhes sobre o teor da conversa, apenas relata que era sobre o que estava por acontecer em Jerusalém.  Talvez porque a ênfase não estaria na conversa em si, mas no que se seguiu.

Apesar de estarem como sono, Pedro e seus companheiros ficaram tão maravilhados com aquela manifestação da glória de Deus que exclamaram: bom é estarmos aqui (Lc 9:33).  O que Pedro estava declarando é que o melhor lugar para se estar é na presença de Deus e onde sua glória se manifesta.

Então Pedro se dispôs a preparar tendas para que Jesus e as ilustres figuras pudessem se abrigar (veja 9:33).  E, embora o próprio texto reconheça que ele não sabia as implicações do que dizia, ele certamente pensava em se ocupar em fazer algo para que aquele momento perdurasse.

Também muito importante é a voz ouvida a seguir: Este é o meu Filho (Lc 9:35).  Tal declaração confirmou para os discípulos ali envolvidos na nuvem que Jesus era o próprio Filho unigênito de Deus, revestido de divindade e autoridade.

(Da Revista “Lucas” – Editora Sabre)

 

 

terça-feira, 29 de setembro de 2020

PONTO RETORNO

 
 


Tem se falado muito nesses dias sobre o novo normal.  Serão novos tempos, novos valores, novos padrões, novos paradigmas.

E a pergunta inicial é essa: — Seremos novos humanos?Nova sociedade?

Sinceramente não acredito que o dito novo normal por si só vai fornecer respostas satisfatórias para essas perguntas iniciais.  E tenho uma justificativa simples: de semente de pimenta não nasce goiabeira!  Por mais que se adube a terra!

Mas não sou pessimista.  Pelo contrário: tenho um gene que insiste em acreditar naquele que há de vir.  Aí teremos novos céus, nova terra e certamente novo normal.

Então, sem perder essa perspectiva, vou esmiuçar um pouco esse quadro.

 

Bem, aqui resolvi eu mesmo tomar um ponto retorno.  Já tinha escrito vários outros parágrafos bem sérios e áridos sobre o como e o porquê do novo normal.  Tinha falado sobre objetividade, perspectivas, ressignificação e seguia por aí.

Apaguei tudo.  Estava bem chato e com cara de apenas textão de internet.

 

Então, vou apenas concluir essas poucas letras com uma certeza.  Aceito que chegamos a um ponto de retorno no qual precisamos decidir o que fazer com nossa caminhada.  Para onde estou indo e para onde está apontado meu oriente.

É verdade que não se muda sedimentos de séculos acumulados em meses de com máscaras no nariz.  Não se dá cavalo de pau em transatlântico!

Mas, agora nesse ponto retorno da história, que roteiro tomarei?

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

TEM PÃO NO CÉU?

 


Mexendo em coisas de cozinha, André me veio com essa:

— Tem pão no céu?

E de pronto, sem nenhum tipo reflexão ou análise teológica eu respondi:

— Tem sim. Jesus é o pão da vida.  E ele está no céu!

 

Passou-se algum tempo.  As ideias ficaram lá num canto qualquer da cabeça.  Ocupei-me com outras tarefas.  E agora, retomo as cogitações.

 

Pensando bem: teologia e comida são irmãs.  Talvez até não tenham nascido do mesmo útero, mas com certeza foram embaladas no mesmo colo.

 

Então, e quanto ao pão no céu?  Vamos trabalhar com o conceito para chegar a uma resposta.

 

A Bíblia nunca forneceu uma cartografia precisa do porvir, nem deu detalhes do cardápio que será servido nas bodas do Cordeiro.  Mas é fácil notar que a percepção do paraíso perdido nutriu a idealização do céu e o recheou de ilustrações.  A nostalgia do Éden arquitetou o céu.

O Éden é pura fruição, é a delícia que nos sacia, é o lar que nos acolhe.  O céu é a esperança de sua restauração.  Então aquilo que a queda nos tirou, a graça nos concederá.

E assim os filhos de Israel – que viviam cercados das areias do deserto – descreveram seu paraíso como um jardim.

Se fossem siberianos citariam uma morada quentinha e aconchegante.

Mas a vida não se resume a geografia.  A vida se faz mais que isso.  E o Éden do náufrago é a terra firme, do órfão é o colo materno, do solitário é o abraço fraterno, do faminto é a mesa farta.

Esse vazio imenso que me consome por dentro como uma fome de vida, eu sei que receberei como um banquete eterno.

— Tem pão no céu?

— Sim. E tem mais. No céu tem jardim, tem morada quentinha, tem terra firme, tem colo materno, tem abraço fraterno e tem mesa farta.

 

"Porque ele vai enxugar toda lágrima que ainda molha seu rosto. Daí não haverá mais nem morte, nem choro, nem lamento, nem dor. É que tais coisas ficaram para trás" (Ap 21:4).

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

CAUDILHOS ECLESIÁSTICOS

 


Segundo o dicionário, caudilho é um chefe militar, geralmente de forças irregulares que lhe são fiéis; um chefe político que possui uma força militar própria.

Essa prática política herdada da dominação ibérica se caracterizou por um lado pelo uso da força e violência em defender latifúndios e grupos conservadores, e por outro por sempre se revestir de um discurso populista e paternalista.

Em nossa história latino-americana ela foi quase hegemônica no século XIX vindo depois a perder força ao longo do século seguinte.  Vimos vários caudilhos se sucederem na dominação de nosso povo, desde Manuel Oribe no Uruguai e López de Santa Anna no México, passando por Fulgêncio Batista em Cuba e pelos Duvalier no Haiti.

 

— Aqui mando eu e vocês têm que se curvar à minha vontade.  Eu tenho direitos e vocês obrigações.  Eu cuido de vocês se me forem fiéis!

 

Quando eu olho hoje para algumas igrejas e comunidades de fé tenho visto se repetir esse padrão.  Há caudilhos em nossas instituições religiosas e eclesiásticas. — Aqui mando eu ...

Ressalva importante: não tenho dados estatísticos para atestar minhas observações, mas quero manter a esperança e crença de que os caudilhos eclesiásticos são exceção, embora reconheça que atitudes como essas não são exatamente novidade na história da igreja – infelizmente.

Esse fenômeno, contudo requer análise mais amiúde.  Em linhas gerais vou listar dez atitudes e posturas que caracterizam um caudilho eclesiástico e como identificá-lo.

 

1.      Administra e controla a sua comunidade de fé a partir da imposição do poder das regras religiosas.  Excesso de legalismo e rigidez normativa.  Usa sempre a lei e a sua interpretação ao seu favor.

2.      Apresenta-se com o representante oficial da divindade tendo com isso uma autoridade personalista e individual.  Toda a ligação entre o sagrado e a comunidade tem que passar por seu crivo.

3.      Seu discurso se baseia em ameaças de terror e medo imposto.  As condenações divinas e o castigo são usados como um instrumento controle comunitário.

4.      Mantém uma atitude paternalista, comportando-se como o pai /patriarca na fé que supre as necessidades e tem todas as respostas espirituais do rebanho.  É sempre ele, e somente ele ou seus prepostos, quem cuida e tem o alimento espiritual para a comunidade e quem faz a leitura e interpretação particular da Bíblia.

5.      Estabelece uma rígida hierarquização da comunidade de fiéis, separando-os entre mais e menos santos/espirituais/doutrinados.  Oferece pouco espaço para leigos. Valoriza cargos e títulos, mesmo que espirituais.  Ele mesmo se posiciona em relação a outras lideranças como sendo de uma casta superior.

6.      Ênfase excessiva em números, resultados e performance tanto social, como espiritual e institucional.  Leva a comunidade a se comprometer com seus alvos, metas e projetos e sua visão única da fé e do cristianismo.

7.      Estabelece limites de convívio e contato dos seus fiéis com outros líderes e comunidades cristãs.  É exclusivista.  Não tolera comparações, e nem permite que sua igreja seja vista dentro de um espectro maior e histórico da igreja.

8.      Carismas e manifestações espirituais são mantidos sob controle rígido.  Estimulando ou rechaçando; incentivando ou proibindo de acordo com seus próprios critérios.  Consequente manipulação das bênçãos.

9.      Conservadorismo em assuntos de liturgia e costumes.  Ao estabelecer um padrão de forma de culto, louvor e adoração, esse deve ser repetido e mantido inalterado.  Da mesma forma as regras de costumes, moda, linguajar e relacionamentos.

10.  Não concede nenhum espaço para reflexão ou crítica de nenhuma forma.  Tudo que é dito, pregado ou ensinado deve ser acatado, seguido e defendido sem qualquer tipo análise ou avaliação – nem teológica, nem histórica, nem bíblica.

 

Cada um desses pontos possibilitaria uma desconstrução a partir do longo e rico lastro que o cristianismo nos legou, mas vou apenas ler o nosso texto sagrado, nossa única regra de fé e prática individual e eclesiástica, e a partir da sua ótica estabelecer critérios.

O apóstolo Pedro na sua primeira carta instrui aos presbitérios que pastoreiem e cuidem de seus rebanhos sem ganância, mas com a atitude de serviço.  E nunca ajam como caudilhos daqueles que lhes foram confiados pelo Supremo Pastor (1Pe 5:1-4).

E o Mestre estabeleceu o critério de vivência e relacionamentos na igreja que ele fundou, e o posicionamento a ser esperado de sua liderança: "o padrão entre vocês será o seguinte: mais prestígio terá quem se submeter, e vai liderar quem servir". E o exemplo é o próprio Cristo (Lc 22:26-27).

Que nos dê o Senhor da igreja líderes com espírito servil para a sua glória.

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DEMONSTRANDO PODER

  


Uma maneira de Jesus evidenciar o Reino de Deus foi através de operação de milagres, curas e outras demonstrações públicas de seu poder e autoridade.  Não que com isso Jesus estivesse interessado em transformar seu ministério em espetáculo, mas com a realização de tais atos sobrenaturais, Jesus estaria tanto atendendo as pessoas em suas necessidades quanto atestando sua autoridade.

É interessante, contudo, observar que a cada nova manifestação de poder, as reações eram sempre diferentes.  Embora acompanhadas de temor e admiração.

Note alguns: a) quando acalmou a tempestade, seus discípulos questionaram seu poder (em Lc 8:25); b) quando tratou do endemoniado gadareno, seus conterrâneos pediram que se retirasse (em Lc 8:37); c) quando ressuscitou a filha de Jairo, este ficou maravilhado (em Lc 8:56); d) igualmente os pais do jovem possesso que foi liberto (em Lc 9:43); e e) a multidão ficou saciada depois de se alimentar com os pães e peixes multiplicados (em Lc 9:17).

Ou seja, é impossível ficar indiferente diante da manifestação do poder e autoridade de Jesus e do que ele realiza na vida de seus discípulos.  Alguns sempre perceberão o que Jesus tem realizado e, tomados de temor, o reconhecerão como o verdadeiro Cristo, o filho de Deus; enquanto outros, por causa de igual temor, procurarão fugir e não se comprometer com ele.

(Extraído da Revista “Lucas” – Editora Sabre)