terça-feira, 28 de agosto de 2012

Parábola das coisas – a feira


Em qualquer cidade ou povoado sempre haverá uma feira: um lugar, uma praça, um espaço destinado ao comércio, onde produtos são expostos e pessoas compram e vendem – ou simplesmente trocam – o que para ali se leva e traz.
Sei que não foi Deus quem criou a feira.  Isso é resultado da construção social humana. E até por isso é impossível determinar um modelo ou padrão que atenda a todas as variedades culturais com a qual a feira se travestiu ao longo da história.
Mas feira é feira e mesmo sem muita explicação, as chamadas feiras-livres que povoam nossas cidades estão aí como parte significativa de nossa convivência: geralmente na rua, explicitando alguns traços bem característicos de nossa identidade com uma generosa dose de improvisos e espontaneidades.
Ir a feira – dizem os habituès – é mais do que um costume, requer certos maneirismos e muito de intuição e jogo-de-cintura.  O ideal é sair bem cedo, caminhar, pechinchar, escolher e só trazer o que realmente valha o carrego.
Por outro lado, gosto de olhar a feira como um paraíso dos sentidos.  É ali, no meio de toda aquela agitação que me agrada deixar aflorar cada uma das janelas que meu Criador me presenteou.  Desfrute um pouco comigo.
Comece pela visão.  Uma verdadeira feira-livre, daquelas que se instalam no meio do cinza das cidades, é um extasiar de cores: tomates vermelhos, alfaces verdes, melões amarelos, ovos brancos, macaxeiras marrons, além de laranjas, beterrabas, coentros, mangabas, siriguelas e por aí vai...
Dê atenção a audição.  Numa feira, cada bom vendedor canta enquanto tenta seduzir seu freguês numa mistura de toadas que se sucedem, misturam e ecoam, fluindo pelos ouvidos.
Ah! E o olfato.  Qualquer feira que se preze tem que deixar acontecer seus aromas.  Principalmente quando seus produtos se destinam ao prato.  O peixe fresco tem seu cheiro próprio.  Mas não é só ele.  Cada fruta, verdura, legume ou o que mais ali esteja tem que me convencer pelo nariz.
Não se esqueça do tato.  Cada hortaliça tem sua textura devida, umas naturalmente mais lisas e suaves, outras mais ásperas e enrugadas.  O toque tem que passear pelas bancas enquanto se frequenta uma feira.
E, claro, finalmente o paladar.  Não há feira de verdade em que não se fique de água na boca.  O gosto do amendoim cozido ou do beiju molhado.  A fatia de queijo experimentada e testada.  A fruta discretamente beliscada.  A água de coco enquanto se retoma o fôlego para continuar a caminhada...
Olhando assim: feira é festa dos sentidos.  Não sei se você já parou para pensar nisso, mas para mim a feira é uma oportunidade sempre inusitada de glorificar ao Pai Celeste por cada um dos sentidos que estão ali exuberantemente estimulados para me lembrar o quanto Deus é criativo e caprichoso.
E eu continuo a louvá-lo assim!

2 comentários:

  1. Nasci na feira! Cresci nela...

    Em qualquer feira pelos Caminhos, os cheiros me levam prazerosamente as minhas origens.

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    1. Querido, é verdade que algumas vezes são os cheiros que nos trazem de volta para casa. E como é bom sentir taç aconchego.
      Obrigado pelo comentário. Um abraço.

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