terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Oração do Pai-Nosso – comparando Mateus e Lucas

Para se comparar os textos paralelos dos evangelistas Mateus  (6:9-13) e Lucas (11:2-4) devemos pensar tanto nas semelhanças quanto nas dessemelhanças que há entre os relatos.  Independentemente das questões sinópticas a Oração do Pai-Nosso se nos apresenta material suficiente considerável para uma observação própria paralelamente à observação sinótica.
Em ambos os Evangelhos, o texto deixa transparecer que Jesus está ensinando um modelo de oração para que os seus discípulos podessem ter um padrão para suas devoções diárias, quer individuais, quer coletivas.  É claro também que não seria um padrão tão rígido como alguns poderiam pensar, mas apenas algo que norteasse os discípulos.  Comparando as orações em Mateus e Lucas, L. Morris observa que há uma variação mesmo na semelhança entre os evangelistas: “a variação seria natural se Jesus tivesse interesse num padrão ao invés de uma só forma de palavras”.
Semelhante entre as versões de Mateus e Lucas, e digno de nota, é a estrutura seqüencial da Oração, senão vejamos:  a) a Oração é dirigida ao Pai;  b) o Nome deve ser santificado;  c) pede-se pelo Reino;  d) pede-se pelo pão cotidiano;  e) pede-se perdão por pecados;  f) relaciona-se o perdão divino ao humano e  g) pede-se livramento da tentação e do maligno – ou do mal.
Mas as semelhanças param por aí.  R.V.G. Tasker observa que Mateus acrescenta à versão lucana quatro pontos:  a) em Mateus o Pai é Nosso – o que nos conduz a uma oração coletiva;  b) o Pai está nos céus – uma expressão de cunho judaico;  c) toda a cláusula “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” – provavelmente uma explanação da vinda do Reino e  d) a cláusula “livra-nos do mal” – conduz à compreensão de que o mal não é proveniente de Deus e nem ele é o autor da tentação.
Ainda Tasker chama atenção para o fato de que Mateus no verso 12 se refere ao pecado como “dívidas” (no grego: τα όφειλήματα), ao contrário de Lucas que diz no verso 4 άμαρτίας.  Esta concepção de pecado como uma dívida contraída para com Deus é tipicamente judaica e, como os leitores de Lucas talvez não estivessem muito familiarizados com a teologia hebraica, o autor usa o termo grego mais comum como que para dar uma interpretação àquilo que Jesus teria dito ao ensinar a sua Oração.  Contudo Lucas mantém a estrutura original quando conclui a cláusula relacionando o perdão dos pecados ao perdão das dívidas (no grego: όφείλοντι), mas como asseverou Morris, “isso não faz com que uma ação humana, o perdão dos outros, seja a base do perdão”, e acrescenta que o NT “deixa claro que o perdão brota da graça de Deus”.
Quanto à doxologia final.  A ausência dela em Lucas é uniforme.  Mesmo o Evangelho buscando expressões exuberantes de louvor ausentes nos outros sinóticos (como por exemplo os cânticos de Maria e Zacarias – Lc 1:46-56 e 1:67-80 respectivamente), a Oração encerra-se na súplica pelo livramento da tentação, seguindo então, já no verso seguinte, a parábola do amigo importuno.  Já Mateus dá um caráter mais litúrgico com configurações bem judaicas – como o é todo o seu texto.

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