sexta-feira, 5 de maio de 2017

PERMANEÇO NO FUNDAMENTO

Quando me perguntam se sou tradicional, com sinceridade, tenho dificuldade em responder.  Bem assim é, se a questão envolve ser conservador – também difícil.  Já quando se fala em ser saudosista, fundamentalista ou ortodoxo, confesso que a primeira resposta que me vem é dizer não! Mas com ressalvas! E explicações.
Reconheço que, de algum modo, todas estas palavras compartilham significados comuns, porém os detalhes semânticos e as conotações históricas que elas têm assumido ultimamente me fazem preterir um ou outro termo.
Já confessei que "Meu cristianismo não nasceu nesta geração!" e continuo entendendo da mesma maneira, porque é verdade.  Então, para deixar tudo mais claro, vou tentar expor algo sobre o tema.  Venha comigo.
Vamos começar citando a Bíblia – é a nossa regra de fé e prática.  E o texto que tomo como base é a ilustração das duas casas e dos dois fundamentos (no final do Sermão da Montanha em Mt 7).  Ali Jesus diz que ouvir e praticar seus ensinos é o fundamento para a proposta de vida que ele estava anunciando, e que hoje chamamos apropriadamente de vida cristã.
E, aprofundando mais, veja o que Paulo diz sobre o assunto: "Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo" (1Co 3:11).  Mais: na carta de Pedro eu posso ler sobre Jesus Cristo: "Pelo que também na Escritura se contém: Eis que ponho em Sião a pedra principal da esquina, eleita e preciosa; e quem nela crer não será confundido" (1Pe 2:6).
Então que fique definido: Jesus Cristo, sua vida, ensino, exemplo e palavras, é o fundamento da minha fé.  E nele permaneço.
Mas aí é que começa o problema! Ao longo da história tantos e quantos leram e interpretaram as páginas sagradas de tantas e quantas formas diferentes que parece até ingenuidade esse tipo de afirmação.
E para piorar, têm os exemplos deploráveis da nossa história que nos fazem corar de vergonha.  Em nome da fé, marchamos para Jerusalém deixando um rastro de sangue pelo caminho.  Condenamos mulheres ditas infiéis na fogueira.  Matamos camponeses alemães.  Desterramos peregrinos na América.  Convertemos negros e índios à força.  Perpetuamos animosidades nas ilhas britânicas.  Justificamos a barbárie nazista.  E isso sem falar nos cristãos de hoje que revestem de sua crença num verdadeiro ódio aos diferentes.  Então vou parar a lista por que o gosto indigesto de sangue já está incomodando.
Mas, quer saber de uma coisa? Permaneço firme no fundamento.  Sei que às vezes é difícil lidar com essas heranças malditas que enlameiam nossa construção histórica daquilo que temos chamado de cristandade. 
Então me vejo olhando para trás e me forçando a continuar construindo com humildade e confissão penitente.  Aquilo tudo foram paredes levantadas sem que o alicerce fosse respeitado.  Então, apenas peço perdão e sigo adiante.
É verdade que há um outro lado na história, e só para lembrar sem deixar o texto muito cansativo, vou passar a palavra a Ariosvaldo Ramos:

Nós sempre propugnamos pela liberdade.  Nós impusemos a Carta Magna ao Principe John, na Inglaterra; construímos o Estado Laico na revolução americana, quando, numa nação majoritariamente cristã, todas as confissões religiosas foram tidas como de direito.  Nós lutamos entre nós pelo fim da escravidão, seja na guerra da Secessão, seja por meio de Wilberforce, premier Inglês, e de tantos outros movimentos.  Nós denunciamos e enfrentamos os que entre nós quiseram fazer uso da nossa fé para legitimar a opressão.  Os maiores movimentos libertários nasceram em solo cristão, e mesmo quando renegavam ao que críamos, não havia como não reconhecer a nossa contribuição à emancipação humana.
Nós construímos uma sociedade de direitos, lutamos por e reconhecemos direitos civis, e não podemos abrir mão disso; não podemos abrir mão da civilização que ajudamos a construir e a solidificar, onde mulheres, homens e crianças são protegidos em sua integridade e garantidos em seus direitos.  Na democracia que ajudamos a reinventar, onde cada ser humano vale um voto, tudo pode e deve ser discutido segundo as regras da civilidade.

Retomando minha reflexão.

Sendo fiel ao fundamento: há verdades essenciais que herdamos junto com todos os cristãos – os latinos diziam: Cristus Dominus.  Há verdades que compartilhamos com irmãos reformados – ainda em latim, sola gratia.  Há ainda verdades que, como Batista me são caras – em bom português, o sacerdócio universal de todos os salvos.
Sei que cada um destes princípios fundamentais pode ser destrinchado e que eles compõem um quadro maior de crenças, mas com certeza, continuam estáveis no alicerce de minha vida e fé.
Assim, em resumo, mesmo envergonhado com manchas na história.  Não importa o que outros disseram ou fizeram: permaneço no fundamento – Jesus, autor e consumador de minha fé.


6 comentários:

  1. Texto lúcido!Tenho crido que essa superficialização da fé se dá justo pelo não entendimento das coisas simples e pautadas pela palavra.

    Convicção é ojeto ou meta, ou um entretom com o qual nos pintamos a bem da conveniência?

    Abraço pastor, sempre bom ser abençoado pela inspiraçãode teus estudos.

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    1. Obrigado querido.
      Cristo é nosso fundamento sólido - e isso é a pura verdade. Se construirmos nossa vida nele e no seu projeto de vida simples e acolhimento do outro, do necessitado, do excluído e não nas esclerosadas interpretações e atitudes de alguns que não honram a herança cristã, nossa fé terá valiado à pena.
      Um abraço.

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    1. Obrigado querida. A glória seja a Cristo, o nosso fundamento

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  3. JESUS,AUTOR E CONSUMADOR DA NOSSA FÉ.EXISTE FUNDAMENTO MAIOR?

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    1. Amém querido. Só Jesus é nosso fundamento verdadeiro e seguro!

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