terça-feira, 16 de abril de 2013

DO PRIMEIRO LUGAR




Em meio à argumentação sobre a ansiosa solicitude pela vida terrena, Mateus cita uma frase que se tornou bastante conhecida de todo crente: Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus... (Mt 6:33), e exatamente por ser bastante conhecida, muitas vezes passam desapercebidas algumas verdades que precisam ser salientadas minuciosamente.
A primeira destas verdades é sobre a essência do Reino de Deus.  O Reino significa o domínio e o controle absoluto que o Senhor Deus em Cristo tem sobre toda a obra criada em geral e onde a sua vontade e Palavra são seguidas em particular.  É onde se reconhece que tudo está sujeito à vontade divina (veja 1Co 15:27s e Ef 1:22).  Neste sentido a igreja já é a manifestação presente do Reino que haverá de vir em glória.
O segundo destaque diz respeito ao imperativo: Busquem.  Isto é mais que um sonho ou projeto, a ordem é para se ansiar, desejar (dito de forma poética em Sl 42:1) e também para tomar uma atitude, trabalhar, fazer acontecer o Reino de Deus (leia uma instrução clara do apóstolo em Cl 3:1-2).
E o texto também estabelece prioridade: em primeiro lugar.  Antes que qualquer outra coisa – e até mesmo minha própria vida e sustento e de minha família – o discípulo radical tem que está envolvido do projeto do Reino de Deus.  É fundamental deixar tudo o mais para segundo plano quando estão em questão os valores do Reino. A simples sugestão da possibilidade da falta de prioridade já torna o discípulo inapto para o Reino (confirme em Lc 9:62).
Só então poderei trazer para o discipulado a promessa: ... e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.  Assim se faz discípulos para a glória do Mestre.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

CONSIDERAÇÕES APOSTÓLICAS


Nos finais de suas cartas, o apóstolo Paulo sempre aproveita para fazer algumas considerações finais – naquilo que eu chamaria de bilhetes de encaminhamento – através das quais apresenta recomendações, manda recados, dá instruções e faz pedidos; sempre num tom pessoal.  São nestes bilhetes que o teólogo dá lugar ao homem, e o doutrinador ao irmão.
Isto é o que ocorre com a primeira carta aos coríntios. Mantendo seu estilo peculiar, Paulo enxerta algumas recomendações em forma de frases rápidas como quem quer dizer: no meio disso tudo – na sua vida cotidiana – façam a diferença (os versos são 1Co 16:13-14).  Assim, também quase que só citando, vejamos o pedido pessoal do apóstolo para a igreja de Deus que está em Corinto.
Estejam vigilantes. Para se fazer diferença no mundo em que se vive é preciso estar vigiando, estar alerta, pronto para agir com destreza e habilidade (o próprio Paulo cita a sobriedade em 1Ts 5:6 – sobre orar e vigiar leia Mc 13:33).
Mantenham-se firmes na fé. Alguns princípios de nossa fé nos são fundamentais; servem como alicerces para tudo o que cremos e fazemos.  É preciso estar bem apoiado neles (ainda é o apóstolo que se recusa a reconhecer um outro fundamento além de Cristo em 1Co 3:11).
Sejam homens de coragem. Covardia e temor não condizem com uma conduta cristã contundente.  É preciso mostrar coragem verdadeira para viver de modo digno do evangelho (em Paulo leia Fl 1:27 e no AT a história da luta do general Joabe contra os amonitas e seu desafio em 2Sm 10:12).
Sejam fortes. É quase o mesmo raciocínio que os anteriores, mas deve ser lembrado que firmeza e coragem sem a devida dose de força e tenacidade pode levar uma luta à derrota.  Para fazer diferença como cristão tem que se valer de uma considerável força espiritual (veja que a apresentação da armadura do cristão em Ef 6:10 se inicia com um desafio ao fortalecimento).
Façam tudo com amor. Este é o coroamento de toda vivência cristã relevante.  Nada de nossa vida e experiência é tão imprescindível quanto isto! O amor é o que nos faz ser o que somos (Jesus disse em Jo 13:35). O amor é o vínculo perfeito que nos une (Paulo em Cl 3:14). E, sem dúvida, o amor é o que deve permanecer entre nós (nas palavras do texto aos Hb 13:1).
Consideremos com a atenção devida as considerações apostólicas. Façamos a diferença e vivamos a relevância do evangelho em nossa vida.

(Texto revisado da publicação original no sítio  http://ibsolnascente.blogspot.com.br em 27/02/2009)

terça-feira, 9 de abril de 2013

DA ANSIOSA SOLICITUDE




Como parte de seu projeto de Discipulado Radical, Jesus aborda o tema da ansiosa solicitude pela vida terrena (Mt 6:25-34).  O Mestre que havia interiorizado a Lei divina e levado seus discípulos a uma intimidade com o Senhor no quarto fechado, agora apresenta a não preocupação com esta vida como sendo uma disposição interior necessária ao discipulado.
Aqui há uma ordem direta: Não se preocupem... (Mt 6:25).  Para ser discípulo de Cristo é necessário me ocupar com aquilo que é realmente importante e que não me preocupar com a minha própria existência aqui na terra.  Até parece simples: “Entregue o seu caminho ao Senhor” (Sl 37:5).  Todo o meu sustento e cuidado devem ser colocados nas mãos de Deus; e, estando lá, não há motivos para ainda alimentar qualquer ansiedade – é uma questão de obediência e fé.
Isto só é possível porque confio que Deus supre todas as minhas necessidades.  E Jesus apresenta exemplos: olhem as aves... olhem os lírios... (nos versos 26 e 28).  Ainda é uma questão de obediência e fé, pois não há nada que eu possa fazer senão confiar que ele providencia meu sustento enquanto eu durmo (veja a beleza do Sl 127:2).
E Jesus conclui me desafiando: Basta cada dia seu próprio mal (verso 34).  Eu tenho que viver meu discipulado hoje de maneira intensa e significativa, sem me ocupar com o amanhã, pois Deus já o tem providenciado para mim – obediência e fé na graça que tudo faz: “Portanto, estejam com a mente preparada, prontos para agir e coloquem toda a esperança na graça que lhes será dada quando Jesus Cristo for revelado” (1Pe 1:13).  Vivamos descansados na graça de Deus.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

CANTA, Ó FILHA DE SIÃO


Quando pensamos em celebração, vem a nossa mente sempre uma ocasião especial. Celebramos as grandes conquistas, as datas festivas, os eventos marcantes. O dia a dia permanece na sua normalidade sem maiores motivações. Esta disposição transferimos para nossos cultos e diferenciamos os grandes eventos festivos da adoração simples e cotidiana.
Não é este o modelo bíblico. Na Bíblia, o tema do Dia do Senhor – e sua respectiva celebração – aparece sempre associado ao agir divino seguro, mas não eventual. Nesta perspectiva, o pequeno livro do profeta Sofonias nos oferece uma leitura apropriada: “Canta alegremente, ó filha de Sião; rejubila, ó Israel; regozija-te, e exulta de todo o coração, ó filha de Jerusalém” (Sf 3:14). No seu poema profético, Sofonias conclama a filha de Sião (hoje relemos como a igreja) a cantar e celebrar ao Senhor naquele dia – o Dia do Senhor.
Colocando em destaque o verso 17, ele nos aponta motivos para esta celebração dominical.
Em primeiro lugar porque “o Senhor teu Deus está no meio de ti”. O principal motivo para que cada encontro dominical seja uma celebração e uma festa é porque Deus está presente no meio da congregação. Como estar na presença e não transformar este momento em expressão de alegria? O salmista celebra ao Senhor pois conhece a alegria plena da presença divina (tanto Sl 26:7 como Sl 16:11).
Também é motivo de haver celebração contínua o fato de que o Senhor “renovar-te-á no seu amor”. Assim como as misericórdias do Senhor que são feitas novas a cada manhã, somos também renovados e isso é motivo de celebração. Se Deus age assim conosco, que mais podemos fazer senão nos regozijar? O canto do salvos na eternidade é motivado pelo amor misericordioso de Deus (a promessa está em Lm 3:22-23 e a concretização profética em Ap 21:5).
O verso termina dizendo que o próprio Senhor “regozijar-se-á em ti com júbilo”. A experiência dos santos em celebrar com alegria o encontro com o Senhor renovado em seu amor enche o coração de Deus também de alegria. Que mais podemos esperar? Deus tem feito grandes coisas no nosso meio e cada vez que nos reunimos em sua casa para adoração é sempre uma festa espiritual e uma celebração de alegria (veja no também pequeno livro de Jl 2:21 e no Sl 122:1).
Que todo novo culto na casa do Senhor, mesmo quando nos reunimos rotineiramente no seu dia, possa ser revestido de motivos tantos de alegria e júbilo que se transforme em contínua celebração na presença do Senhor. Que seja para nós uma lei cumprida com prazer sempre: “canta, ó filha de Sião”. Para a glória de Deus.

(Texto publicado originalmente em 20/03/2009 – http://ibsolnascente.blogspot.com.br)

terça-feira, 2 de abril de 2013

DOS DOIS SENHORES




Voltando novamente ao estudo sobre a proposta de Jesus para um Discipulado Radical que encontro no Sermão do Monte, quero trazer à reflexão apenas um verso: Ninguém pode servir a dois senhores... (Mt 6:24).  E é bom começar já chamando a atenção para o pronome de negação: Ninguém.  O que Jesus tem a dizer inclui todo ser humano, vale para qualquer um e para todos, independente de qual seja a situação: ninguém está excluído da argumentação do Mestre.
Observo mais.  Quando Jesus diz que não se pode servir a dois senhores, ele está dizendo que há um real conflito de interesses entre os postulantes ao senhorio humano, e que por isto quem se volta para um lado necessariamente exclui o outro de sua vida (veja Mt. 12:30).
Também entendo que o Mestre fala em amor e dedicação.  Com isso Jesus está dizendo que na vida do discípulo deve haver amor verdadeiro pelo seu senhor e também dedicação, empenho voluntário, serviço e devoção (vá a 1Jo 5:3).
E Jesus apresenta um exemplo claríssimo da incoerência entre os dois senhores: servir a Deus ou servir às riquezas!  Há verdades, objetivos e valores nas riquezas – personificação do reino das trevas deste tempo presente – que são incompatíveis com os valores do Reino de Deus.  O discípulo não pode viver buscando riquezas e bens nesta terra, pois elas sempre nos fazem desviar do foco principal de nosso discipulado (compare ainda Cl 1:13 e 1Tm 6:10).
Por ter sido gloriosamente alçado à condição de discípulo, devo me dispor inteiramente a viver sob a tutela, amor e serviço do único e verdadeiro Senhor de minha vida, para a glória de Deus Pai.  Amém.

quinta-feira, 21 de março de 2013

COM DUAS PERNAS


Deus me fez com duas pernas! Creio piamente em cada uma das palavras desta frase.  Discussões sobre criacionismo à parte, acaso ou necessidade, esta frase, de verdade, tem muito a dizer sobre a minha fé.
Mas, por que eu estou falando isso tudo? Já vou dizer: Esta semana uma crise de ácido úrico me deixou de "bota branca" (a foto está aí para comprovar, é verdade!).  E nestes momentos é que nos damos conta de várias coisas.  Então deixe-me compartilhar um pouco.  Para começar, é claro que o tempo forçosamente livre – estive de licença médica e limitado pela condição – estimula as ideias, não só porque elas ajudam a passar as horas como também arejam a mente contribuindo para sanidade.
Em tempo, não quero em absoluto me comparar com aqueles que vivem de modo perene com limitações físicas, não há juízo de valor ou qualquer outro referencial.  Vou apenas falar de ideias que me povoaram a cabeça nestes dias "no estaleiro".
Entre outras tantas que pipocaram, pelo menos duas eu quero destacar para compartilhar, e para isso vou me permitir ser ancorado por duas palavras.
A primeira é agenda.  Mais que um caderno de notas (agora já é eletrônico!), a ideia da agenda reporta para relação de compromissos marcados e inadiáveis, mas veja: Sem muita opção, me vi forçado a simplesmente não fazer nada – esperar a crise passar e o dedo parar de doer.  E não é que todas as urgências esperaram uma semana! Prioritário é ter saúde...
Por falar nisto, lembrei-me de Rubem Alves chamando a atenção para nosso credo: "creio na ressurreição do corpo..." Sim, de vez em quando é preciso lembrar novamente que agenda é para organizar projetos de vida (que nos é dada em abundância) e não sufocar o cotidiano.
A outra palavra eu trago da África: ubuntu (Desmond Tutu sugere traduzir esta expressão como: "existo porque pertenço").  Significativo foi perceber que com a limitação das circunstâncias aflorou mais uma vez a certeza que não vivo sozinho – eu preciso dos outros até para ser eu mesmo.
Deus me fez com duas pernas, é verdade, mas também me colocou para viver em sociedade e sem ela – a sociedade – eu jamais alcançarei ser aquilo para o que eu fui criado.
E antes que esqueça: como sou grato pelo Senhor ter me dado uma família maravilhosa que cuidou de mim nestes dias!
'Taí: sei que cada uma destas ideais mereceriam um desenvolvimento maior e com certeza muitas outras verdades e lições surgiriam, mas só tenho duas pernas e agradeço a Deus por cada uma delas.  Que outros me acompanhem nesta caminhada e a levem adiante.  


sexta-feira, 8 de março de 2013

Salmo 90 – CONTANDO OS DIAS


Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria” (Sl 90:12).
Ainda lendo o Salmo Noventa, devo me deter um pouco no verso 12: Ensina-nos a contar os nossos dias...  Tradicionalmente este texto é usado em festividades de aniversário – e não está errado – mas aqui quero me dá a liberdade de trabalhar com o significado do termo usado na nossa tradução, atribuindo-lhe significados:
CONTAR pode significa numerar.  O salmo instrui a numerar os meus dias, saber quantos são para que tenhamos consciência de minha finitude e fragilidade.  Numerar os dias também me aponta para a urgência de nossa vida, o tempo está passando e com ele a minha existência aqui.  Por isso, contando o passar do tempo vou tomando também consciência de que me resta pouco tempo e por isso devo aproveitá-lo da melhor maneira possível – creio que este é o sentido mais preciso do que o salmista tinha em mente.
Considere ainda que esta numeração dos dias deve me fazer comparar a finitude humana com a eternidade divina.  Veja que enquanto um dia para o Senhor é como mil anos a minha vida passa depressa e nós voamos (no mesmo Salmo 90, nos versos quatro e dez respectivamente).
Mas CONTAR também, em língua portuguesa, pode me induzir a pensar em narrar.  Assim o conselho do salmista seria no sentido de que devo aprender a narrar a minha vida e todas as experiências que tenho na vivência com Deus.  Este é o único meio de conhecê-lo!  Por isso preciso desta vivência para que minha vida em Cristo faça sentido.  Narrando minha vida com Deus reafirmo minha fé e certeza da companhia e do cumprimento das promessas feitas em Cristo Jesus.
Concluindo ainda é preciso observar que para contar os dias se faz necessário aprender a fazê-lo; por isso a súplica do salmista: Ensina-nos Senhor...
Que faça eu tal súplica e que aprenda a contar os meus dias para que esta vida faça sentido.