terça-feira, 26 de agosto de 2014

TRÊS DIÁLOGOS SOBRE ARTE

O que é arte?
Já li um bocado de definições teóricas sobre a arte em si, o tal estado de arte e outros temas correlatos.   Muito discurso do senso comum ou de viés acadêmico-científico.  Nunca me satisfiz com nenhum deles.  Arte é arte: é algo extremamente humano, e, de certo modo, o que nos faz assim!
Mas isto também não define arte.  Matar sem motivo, ou morrer de fome olhando para comida também é humano – mas nem por isso é arte.
Volto à pergunta: O que é arte?  Por que a fazemos?  Como não tenho uma resposta pronta, então vou tomar três diálogos colhidos em filmes para tentar vislumbrar algum conceito.
E antes que você espere outra coisa, deixe-me alertar:  isto não é artigo sobre crítica de cinema.  É apenas uma reflexão sobre películas que assisti e que me ajudaram a perceber melhor essa coisa humana que chamamos de arte – e com ela o próprio ser humano.  Vamos a eles.
O primeiro deles é A Festa de Babette.  Filme dinamarquês de 1987 que eu assisti a primeira vez após vê-lo citado em um texto do Rubem Alves (o título original é: Babettes Gœstebud).   
A história se passa em 1871 num vilarejo nos confins da Dinamarca e tem seu ponto alto quando Babette – uma cozinheira parisiense refugiada naquele lugar - oferece sua arte para celebrar o centenário do pastor aos ranzinzos fieis.
E eles decidem o conluio contra os estranhos preparativos para o noite festiva com uma oração:
— Que meu corpo se alimente hoje.  Que meu corpo seja escravo de minha alma.  Que minha alma avance para a glória do Senhor.  Amém.
Só que um convidado inesperado chega sem saber nem do boicote, nem da presença da maître francesa.  E diante do tão esplendoroso banquete comenta:
— Essa mulher era capaz de transformar um jantar numa espécie de caso de amor, numa relação de paixão onde era impossível diferenciar o apetite físico do espiritual.
Ao que os convidados respondem:
— Aleluia.
— As estrelas estão mais próximas.
O segundo filme é o brasileiro Tempos de Paz.  Obra de 2009, eu o assisti zapeando pela televisão numa noite sem sono quando me deparei com o início dele e decidi ver um pouco mais para saber do que se tratava, já que nunca tinha nem sequer ouvido falar.  Fui vendo... fui vendo... fui vendo... e quando me dei conta já estava envolvido na história. 
O enredo simples acontece em 1945 com o fim da segunda guerra quando um ator polonês chega ao Brasil e precisa convencer o agende da alfândega a deixá-lo ficar.  E lança um desafio de fazer chorar o duro agente se quisesse ficar:
— O que vocês podem me contar que pode me causar uma emoção diferente em mim?
Lançado o desafio, a arte do teatro surge e finalmente cai um gota de lágrima.
— Seu teatro me fez chorar!  Foi o teatro! (...) E o pior é que não entendi nada que o sujeito disse.  E o que era aquele monte de palavras?
O terceiro filme é Minha Amada Imortal.  Filme biográfico que retrata a vida do compositor L. van Beethoven (original: Immortal Beloved de 1994).  Esse eu assisti por sugestão de um amigo músico.  E se retrata de maneira fidedigna os fatos reais da biografia do músico alemão é irrelevante – é arte! 
Num momento do filme, quando Beethoven encontra pela primeira vez seu amigo Schindler, enquanto é tacada a Sonata para violino nº 9, o compositor provoca:
— A música é uma coisa apavorante.
— O que é?
— Eu não entendi.  O que a música faz?
— Exalta... a alma.
— Bobagem!  Ao ouvi uma marcha, sua alma se exalta?  Não, marcha. Se é uma valsa, você dança.  Na missa, você comunga.  A música tem o poder de fazer a pessoa entender o que se passa na cabeça de um compositor.  O ouvinte não tem escolha.  E como hipnotismo.  Então, o que eu tinha em mente quando compus isso?
Bem, são só fragmentos de diálogos.  Não sei se conseguir clarear as idéias sobre essa coisa humana de arte.  Se não, sugiro que veja as obras por completo, elas com certeza ajudarão.

Quanto à imagem lá em cima: ela é uma reprodução de obra Guernica do espanhol Pablo Picasso pintada em 1937.  Contemplá-la fez brotar um sentimento de dor pelas atrocidades do ditador Francisco Franco cometidas na cidade espanhola: isso é sem dúvida arte!

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