sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PORTABILIDADE RELIGIOSA

Na semana passada eu republiquei uma reflexão bíblica que havia escrito em 2010 sobre a experiência dos amigos do profeta Daniel intitulada Com o Quarto Homem (leia aqui).  Desde então, uma expressão que coloquei naquele texto tem voltado às minhas ideias como uma bolinha de ping-pong – elas vão e voltam: a tal da portabilidade religiosa.  E sobre ela quero aqui compartilhar um pouco do que está pingando na minha cabeça.
Devo começar constatando que hoje em nosso Brasil em particular, e no chamado ocidente cristianizado moderno em geral, já não é crime nem absurdo qualquer ser humano simplesmente decidir mudar de religião.  É, de certa forma, até natural ver alguém se assumindo:
— Antes eu seguia aquela doutrina, agora me converti e sigo uma nova fé!
E é bom que seja assim.  Um pouco se deve ao rico legado cristão que oferecemos à nossa cultura.  Mas isso é outra discussão que não vou me ater por agora – quem sabe em um outro momento...
Também sei que, enquanto escrevo estas palavras na intenção de publicá-las com toda liberdade, a alguns não está sendo dado o direito de escolher sua fé e professá-la com a mesma liberdade e dignidade.  O que já é outra discussão e acho que devo igualmente me resguardar para analisar em outra ocasião...
Olhando por este ponto de vista, a liberdade de poder escolher de modo consciente, responsável e desimpedido a religião que pretendo abraçar e seguir seus preceitos e ditames sem que isso me cause constrangimento de qualquer espécie – e quantas vezes me for adequado – é sinal de uma sociedade saudável.
Afinal, sobre a minha religião, suas implicações e doutrinas, convicções e cultos cabe a mim e ao meu Deus somente avaliar e julgar.  E se este é um valor precioso que defendo como princípio de minha fé, então é imperioso que eu o estenda a todo e qualquer ser humano como direito básico.
Abrindo um parêntese: sou crente batista e o princípio da liberdade religiosa faz parte da estrutura doutrinária fundamental da minha crença. 
Outro: não sou alienado para desconsiderar a realidade que toda decisão pessoal, inclusive religiosa, traz implicações sociais e históricas em seu bojo que não posso desconsiderar em hipótese alguma.  Fecho o parêntese.
Mas, voltando às ideias sobre a portabilidade religiosa, tudo o que é bom pode ser estragado (infelizmente).  Os tempos em que vivemos distenderam o conceito de conversão e portabilidade religiosa a um ponto tal que em muitos casos já o esgarçou.  Hoje se troca de fé ou de igreja não por convicção ou convencimento; mas por conveniência pura e rasa.  E isso é ruim!
Migra-se de religião e de comunidade de fé como quem troca o recheio do sanduíche na lanchonete da esquina.  Adere-se a nova formulação espiritual como quem opina sobre o último modismo ou tendência.  Negocia-se com a doutrina como quem escolhe um produto no supermercado.  Fala-se de sacerdotes como quem fofoca sobre um pop star.  E a vida vai-se diluindo.
Uma religiosidade moderna (pós?) assim, carece de experiências profundas como as Agostinho de Hipona; convicções inabaláveis como as de Francisco de Assis; disposições firmes como as de Martinho Lutero ou engajamento consequente como o de Albert Schweitzer.  Homens que ao longo da vida foram levados a conversões religiosas, mas que fizeram de tais portabilidades apenas instrumento de crescimento para si e para suas comunidades.  E por isso mesmo nos deixaram tão rica herança.
Volto a dizer – pingando mais uma vez a bolinha das ideias – que bom que a portabilidade é possível!  E se não fosse eu bem que honraria minha herança e lutaria por ela.  Mas que ela não empobreça meu espírito.

6 comentários:

  1. O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas; E de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra, determinando os tempos já dantes ordenados, e os limites da sua habitação; Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. (Atos 17:24-28).

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  2. Concordo com o texto, estamos vivendo momentos de muitos "religiosos" e poucos "cristãos" verdadeiros, alguns por modismo, outros por interesse, mas poucos realmente se voltam a Deus, e acredito meu amigo que nos próximos anos a tendência da "moda" será o ateísmo e muitos se desligarão de Deus e confesso que não sei como isso vai terminar, vamos orar !

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    1. Embora isso seja verdadeiro: infelizmente estamos caminhando para um ateísmo, e talvez a culpa seja de muitos de nós que se dizem cristãos pois falta compromisso com a essência dos ensinamentos do Mestre, mas ainda acredito que embora haja males na troca desenfreada de confissões religiosas este é um valor que que não podemos desprezar.
      Em todo caso, o certo é não desistir. Vamos orar!

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  3. Faz parte dos fim dos tempos, Jesus já tinha nos alertado.
    “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência”. – (I Timóteo 4:1-5)

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    1. Que as palavras bíblicas continuem sendo um farol para nortear nossas convicções religiosas.

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