terça-feira, 19 de agosto de 2014

A força revolucionária do amor cristão

Na pequena epístola a Filemon, Paulo se apresenta unicamente como prisioneiro: para o objetivo que tinha em mente pouco importava a autoridade do título de apóstolo.  Ele tinha uma oportunidade ímpar de colocar em prática seu evangelho e não iria perder a chance.
Alguns comentaristas vêem neste texto uma acomodação de Paulo diante da escravidão ou até um desinteresse em enfrentar o problema de frente.  Isto devido ao fato de que, segundo os mesmos comentaristas, o apóstolo simplesmente ter mandado de volta o escravo à casa de seu senhor.  Mas é significativo notar que Paulo não escreve ao escravo pedindo que aceite a sua situação com resignação, mas escreve ao senhor pedindo que este receba de volta um escravo que se tornou irmão.
Paulo teria muitas maneiras mais eficazes para resolver o problema de Onésimo.  Talvez se tivesse comprado a sua liberdade encerraria o caso: qualquer um faria isso.  Concordo com J. Comblin quando diz que “Paulo quer mostrar na casa de Filemon que um novo mundo fundado na ͗αγάπη não somente é possível mas é uma realidade.  Ele não estava interessado numa libertação do tipo da ocorrida da América, e em especial no Brasil, no século XIX mas em propor e colocar em prática a força revolucionária do amor.
Porém não se deve confundir aqui o conceito contemporâneo de amor – que não passa de um disposição subjetiva do indivíduo – com o que Paulo realmente tinha em mente: ele vai além.   Amor não é simples disposição do sujeito, mas um tipo de relacionamento social, tipo este traduzido na solidariedade.  Não é, pois, de se estranhar que ele afirme que o cumprimento da Lei é a ͗αγάπη (Rm 13:10).
A proposta de Paulo era que o evangelho seria capaz de destruir todo o sistema social de dominação não pela força da lei (tanto que nem manda, mas pede), nem pelo abandono dela, nem muito menos com uma revolução armada, mas que os cristãos fossem capazes de inaugurar hic et nunc um novo mundo, uma sociedade, um reino de liberdade regido pelo amor.  Reino este onde não há mais δουλοι e sim διάκονοι e onde o serviço é comum a todos e para todos e expresso através da colaboração mútua.  No Reino de Deus todos são livres e todos são iguais (Gl 3:28).
Outro detalhe é que o amor para Paulo não é uma coisa espontânea.  Ele é produto da fé e do poder do Espírito Santo de Deus.  No evangelho pregado por Paulo andam paralelamente o amor e o poder, sem imposições mas livres.  No entanto sobre isso convém ouvir as palavras de Agostinho de Hipona:
"Não somos livres para escolher entre o amor e o poder, somente somos livres para escolher as alianças entre eles: ou o poder do amor ou o amor ao poder" (citado por Rubem Alves).
E Paulo vai além: a irmandade cristã alcança o ser humano nas suas entranhas (σπλάγχα – v. 20) e na carne (σάρξ – v. 16), ou seja, atinge o ser humano no seu interior e daí fluindo para todo o seu ser.  Para Paulo o homem não é uma ilha, e o evangelho que prega, portanto, atinge-o na sua comunidade produzindo nela novas relações sociais baseadas na ͗αγάπη e na πίστιϛ no Senhor Jesus (v. 5).

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