terça-feira, 25 de junho de 2013

Parábola das coisas – A GRAVATA

Habitando uma área limite entre o adorno puro e a adequação social, a gravata em si é uma coisa completamente desnecessária, do ponto de vista prático.  Como peça de vestuário, não cobre nada que já não esteja coberto e, como recurso, também nada acrescenta (talvez psicológico!) às capacidades que eu já não as tenha (não falo melhor porque estou com ou sem gravata!).
Quanto a sua origem, consta que a gravata, este pedaço de pano que se amarra no pescoço, chegou à moda e à indumentária ocidental lá pelo século XVII, quando militares franceses viram os croatas com aquelas peças, gostaram e adotaram.  Daí não saiu mais.  Mas veja bem, algo que esteja entre nós há tanto tempo não pode ser simplesmente relegado à inutilidade.  Ninguém sobrevive tanto se não estampar algum significado!
Vamos a gravata como parábola.  Como disso lá em cima, ela está situada naquele lugar eminentemente humano do limite, da margem, do equilíbrio entre possibilidades distintas.  E isto começa pela constatação de que gravatas não são unanimidades.  Enquanto alguns as têm como peça cotidiana (por opção ou por necessidade profissional), para outros, só a simples menção da possibilidade de ter que usar, já se é um problema...
Nós humanos somos assim: vivemos saltitando todo dia entre a necessidade escolhida e a liberdade imposta.  Sempre é difícil fazer escolhas! (Se o seu caso é ter de usar e só dispor daquela no armário, sem dúvida você não se encaixa neste paradigma, mas, em geral não é este o caso).
Ora, pensando em gravatas, escolhê-las requer sempre uma certa dose de arte, bom gosto, intuição e técnica.  Por isso ela pode muito bem ilustrar o ser humano como alguém diante de possibilidades.
Uma bela gravata pode dar um toque de peculiaridade e distinção em trajes muitas vezes sisudos; mas pode tornar uma composição mais leve, suave e alegre.  Em boa parte das vezes é somente no uso da gravata que o estilo pessoal é demonstrado.  No seu colorido, estampas ou textura está toda uma gama de possíveis variações individuais.
Mas a situação é limite...
Sem o devido cuidado, a peça no pescoço torna-se ostentação e arrogância.  O que era para ser simples adereço, escorrega além do limite e descamba com facilidade para a vaidade.  A distinção torna-se arrogante  e pedante.
Mas além de pessoal, a gravata é coisa que só existe no mundo social, pois o seu uso naturalmente contradiz a intimidade.  Veja que tirá-la parece sempre indicar:  estou em casa...  Neste sentido a escolha de uma boa gravata pode indicar garbo, finura, elegância e até nobreza.  Sempre situações de reconhecimento e aprovação social.
Mas continuamos na situação limite....
Forçando um pouco a situação, a aprovação transfigura-se em imposição e anulação.  A gravata já não demonstra qualidades ou individualidades.  Meu currículo fica pendurado no pescoço: eu uso gravata!  Assim me anulo completamente enquanto indivíduo para assumir o papel que me é imposto ao adotar a indumentária de reconhecimento público e social.
Isso tudo só complica a decisão:  eu uso ou não a gravata?  Se vou usá-la, como e qual escolher?  Uma vez com ela, que mensagem estou transmitindo?  É intencional? 
Vou parar por aqui.  Ainda bem que meu Jesus não usou gravata...  Então que ele me ajude a viver nesta vida, sempre habitando em situações limites, sem que me consuma ou destrua, mas que me permita ser eu mesmo, para a glória dele.

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