sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A GRAÇA – de Lucado a Yancey

Aproveitei uns dias de folga no final do ano para atualizar a leitura.  Na minha biblioteca caseira sempre há alguns volumes que acrescento ao longo da caminhada e que por razões diversas vão sendo preteridos.  Assim foi com o texto de Max Lucado: "Graça".  Não lembro exatamente quando ele chegou, mas nunca foi lido, até este fim-de-ano.  Assim, eu o peguei e li quase de uma tomada só.
O tema em si já é naturalmente empolgante: A GRAÇA.  Entre as declarações que embasaram a Reforma Protestante nos séculos XVI e XVII uma delas afirmava: sola gratia – somente a graça.  A nossa fé e toda a nossa formulação cristã estão firme e profundamente alicerçadas na crença que somente a graça divina, manifesta em Cristo, conforme relatada nas páginas sagradas, é o que pode aliviar o peso que sobrecarrega nossa alma e pode nos abrir os portais eternos de volta à casa Paterna.
E assim Lucado começa a descrevê-la: A graça é a melhor ideia de Deus.  O pecado e a culpa sempre pesam sobre nós, corroendo nossa vida e a transformando numa antecipação do inferno.  Esse é o problema central da humanidade.  E é exatamente para resolver tal problema que a graça se manifestou em Cristo Jesus.  E nesta equação entre pecado, culpa, castigo e amor divino é que a graça se manifesta.  Como colocar tudo isso numa mesma fórmula?  Lucado assim resolve:
Deus não ignorou seus pecados, para que não suceda que concorde com eles.  Ele não puniu você, para que não suceda dele destruir você.  Em vez disso, ele encontrou uma maneira de punir o pecado e preservar o pecador.  Jesus assumiu sua punição e Deus deu a você o crédito pela perfeição de Jesus.
E então é por conta desta ideia maravilhosa que Lucado chega à conclusão de seu livro com a seguinte proposta:
Deixe-o fazer o trabalho dele.  Deixe que a graça triunfe sobre sua história de prisão, crítica e consciência culpada.  Veja a si mesmo pelo que você é – projeto pessoal de reconstrução de Deus.

Então, voltando ao meu roteiro de leituras de fim-de-ano, resolvi ler mais uma vez o texto de Philip Yancey sobre o mesmo tema.  O título em inglês é What's So Amazing About Grace? (em português: Maravilhosa Graça).  Em geral, raramente leio mais de uma vez qualquer título literário, mas com certeza o texto de Yancey merece releituras.  E aproveitei o embalo do trabalho de Lucado para voltar às suas páginas.
É certo que o próprio Yancey se reconhece nos seguintes termos:
Para dizer a verdade, mal provei da graça em toda a sua intensidade, tenho dispensado menos do que recebi e não sou, de modo nenhum, um especialista no assunto.
Mas ao se propor a apoiar-se mais em histórias do que em silogismos preferindo transmitir graça em vez de explicá-la, entendo que ele foi não somente feliz em expor este conceito fundamental ao cristianismo (penso no duplo sentido da expressão fundamental), como também relevante em abordar temas nevrálgicos em nosso sistema de crenças e eclesiologia.
Narrando histórias da ficção, fatos pessoais e outros de conhecimento público, Yancey apresenta um quadro onde o escândalo da graça esbofeteia nossa falsa segurança religiosa e nos desafia ao aceitamento incondicional daquilo que somente Cristo pode realizar a partir de seu sacrifício único.
E os temas delicados se sucedem: alegria, severidade, correção, piedade, imperfeição, perdão. Mas também assuntos concretos com os quais precisamos lidar – e nem sempre a igreja sabe o que fazer com eles: racismo, holocausto, fundamentalismo, homossexualismo, álcool, vícios, corrupção, adultério, política.  Temas que carecem de ser olhados com o devido prisma que somente a graça pode nos fornecer. 
E Yancey nos coloca incomodamente alguns desses desafios.  Denuncia uma fé cristã que se cristalizou ao longo de eras excluindo do seu cerne a preciosa graça e deixou com que a não-graça dominasse o mundo no qual vivemos – mesmo no chamado ocidente cristão.  Veja suas palavras:
A fé religiosa – com todos os seus problemas, apesar de sua enlouquecedora tendência para copiar a não-graça – sobrevive porque sentimos a beleza luminosa do dom imerecido que vem em momentos inesperados de fora.  Recusando-nos a crer que nossas vidas de culpa e vergonha não nos levam a nada a não ser à aniquilação, esperamos, sem nenhuma esperança, um outro lugar dirigido por regras diferentes.  Crescemos famintos de amor e, de maneira tão profunda que não conseguimos expressar, ansiamos por que o nosso Criador nos ame.
Então é tal graça que nos parece por vezes incoerente, absurda, injusta – e somente ela – que nos leva a Deus e nos ensina que Deus nos ama pelo que Ele é, e não pelo que nós somos.  Categorias de merecimento não valem nada.  E nada há que eu possa fazer que produza amor maior ou aceitação da parte de Deus, da mesma forma que nenhuma atitude minha – ou falta dela – que afaste a graça de mim.  Deus simplesmente me ama em Cristo Jesus, e isso basta.
É por isso que Yancey insiste em que a igreja seja aquilo para a qual foi idealizada: que a igreja se torne uma cultura nutridora dessa graça.


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