sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O VOTO NA BÍBLIA


Os exemplos de voto na Bíblia são sempre complicados. Como este tema é delicado, nem sempre os personagens bíblicos souberam adequadamente fazê-lo ou que tipo de expectativa gerar a partir dele. Sabemos, porém que o texto sagrado não esconde erros e falhas de seus herois. Mesmo apontando para a intervenção benéfica de Deus, os fatos equivocados estão narrados na Bíblia a fim de que até deles possamos extrair lições para a nossa vida de disciplina hoje. Vejamos três casos citados no AT.
Em primeiro lugar vejamos o patriarca Jacó. Depois de ter enganado seu pai e fugir de sua presença, Jacó dormiu e sonhou com a presença do Senhor em forma de uma escada que partia do céu e chegava a terra. Ao acordar ele teve medo (Gn 28:17) – note que embora seja uma motivação possível, esta não é a melhor para se buscar o Senhor e com ele estabelecer um pacto. A partir do medo, pela consciência da presença do Senhor naquele lugar, Jacó propôs um acordo com Deus, e deste acordo – segundo Jacó – haveria uma necessária implicação divina e uma contrarresposta do patriarca.
Observe que o voto de Jacó começou com uma condicional: se Deus estiver comigo... (Gn 28:20), e terminou com o seu compromisso: ...certamente te darei o dízimo (Gn 28:22). O erro de Jacó foi querer condicionar Deus ao seu voto. A companhia divina é certa e suas bênçãos são sempre independentes de nossas ações (veja Mt 28:20 e 1Co 12:11). Jacó ainda precisava aprender que sua atitude para com Deus devia ser sempre resposta à manifestação da graça e não uma provocação.
O segundo personagem que citaremos é Jefté. No caso dele, o voto está comprometido com uma série de incorreções, veja o texto:
E Jefté fez um voto ao SENHOR: "Se entregares os amonitas nas minhas mãos, aquele que estiver saindo da porta da minha casa ao meu encontro, quando eu retornar da vitória sobre os amonitas, será do SENHOR, e eu o oferecerei em holocausto".
(Jz 11:30-31)
Jefté repetiu o erro de Jacó em querer condicionar Deus e acrescentou uma promessa de entregar ao Senhor em holocausto aquele que viesse ao seu encontro. O erro do juiz de Israel estava em implicar uma terceira pessoa no seu voto (como disciplina o voto deve ser sempre pessoal) e acreditar que Deus seria honrado se uma vida humana lhe fosse entregue morta em holocausto. Ora, todas as vidas já são de Deus (veja Ez 18:10) e não há prazer divino na morte de ninguém (veja Ez 18:32).
O voto de Jefté foi precipitado por que não avaliou estas questões. Deus poderia dar a vitória sobre os amonitas independente do voto, como o fez em diversas outras ocasiões, e Jefté poderia ter oferecido a Deus outros sacrifícios de gratidão já previstos na própria Lei (veja a prescrição sobre ofertas pacíficas em Lv 7:11-21). E o resultado não poderia ser mais triste: quem saiu ao encontro de Jefté foi sua única filha, a qual teve que ser morta para pagar um voto desnecessário (veja Jz 11:34 e 39).
A santa mulher de Deus Ana é o terceiro exemplo de voto. Por se sentir desprezada em relação a Penina diante do seu marido Elcana, já que não tinha filhos, Ana fez um voto ao Senhor, e neste voto ela suplicou que sua humilhação fosse retirada recebendo a graça de gerar uma criança. A contrapartida de Ana seria que ela dedicaria ao Senhor o seu filho (veja 1Sm 1:11).
É importante acompanhar a história e perceber que o voto de Ana não foi um ato desesperado, nem foi inconsequente. O que mais aquela mulher queria era poder gerar um filho, seria sua maior graça, e ela estava disposta a devolvê-lo ao Senhor. Note a diferença entre Ana e Jefté: enquanto Jefté prometeu e entregou ao Senhor uma morte com tristeza de coração; Ana prometeu e devolveu ao Senhor uma vida como prova de sua gratidão!
E mais. O voto de Ana foi acompanhado de oração e quebrantamento na presença do Senhor (veja 1Sm 1:12-13). O voto era o compromisso pessoal da serva do Senhor em ofertar daquilo que tinha recebido das mãos poderosas, graciosas e divinas e não uma forma de querer "comprar" Deus.
Na sua oração, Ana se colocou em seu devido lugar aguardando a manifestação livre e soberana de Deus. Mais uma vez o resultado foi bem diferente em relação a Jefté. A criança que Deus deu a Ana foi Samuel, o juiz-profeta que marcou de maneira singular a história de Israel naqueles dias.
O voto livre, consciente e consequente de Ana não mudou os planos de Deus, mas permitiu que sua família fosse abençoada em participar de tais planos.
Um voto assim impacta toda nossa vida espiritual.

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