terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO – uma conclusão sobre a doxologia final

O texto do Novo Testamento nos diz que Jesus orou e ensinou os seus discípulos a orar.  Seguindo os ensinamentos do Mestre, a igreja primitiva orou santificando o Pai, suplicando pelo Reino e pelo pão cotidiano, pedindo perdão por pecados e ansiando por livramento do mal.  Em suas liturgias e devoções, os primeiros cristãos se voltaram a Deus-Pai e daí tiraram a inspiração para sua religiosidade e praxes.
Quanto à exaltação triunfante da doxologia final da Oração do Pai-Nosso ensinada por Jesus, tudo leva a crer que o próprio Jesus, naquele contexto, não proferiu aquelas palavras; isto é o que indica a sua ausência no texto paralelo (Lc 11) e a omissão em alguns documentos significativos que testemunham a tradição evangélica.  Mas o fato de estar presente em outros escritos já desde o segundo século, leva-nos a compreender que os próprios cristãos, provavelmente ainda misturados nas sinagogas e por ela influenciados, justapuseram as palavras que hoje podem ser encontradas em algumas versões de Mt 6:13. 
A constatação de que certamente o Jesus histórico não ensinou a orar com a doxologia não prova que em outro contexto os discípulos não tenham ouvido da boca do próprio Cristo tais palavras – suposição sem qualquer referência histórica e que nada diz sobre o uso na Igreja.  Parece-nos certo contudo que, assim como hoje, o cristianismo primitivo se afeiçoou mais da versão de Mateus do que da de Lucas, a usou com mais frequência, e viu nela o contexto ideal para a exaltação doxológica que hoje encerra a Oração.
Talvez tomando como exemplo textos como 1Cr 29:11 e toda tradição judaica, os cristãos se deram a liberdade – com a aquiescência do redator evangélico ou não – de orar exaltando o Pai e reconhecendo que dele é o reino, o poder e a glória para sempre.  Pareceu a eles, como parece a nós hoje, que assim a Oração ficaria “composta”.
Diante disto, e tomando como base a tradição cristã à qual nos referimos acima, parece-nos adequado continuar orando para que venha sobre nós o Reino que pertence ao próprio Pai, para que possamos ser livres do mal no poder de Deus e para que ele seja santificado em glória.  Ensinado pelo próprio Jesus histórico ou não, a doxologia já faz parte de nossa tradição evangélica e, neste caso, uma feliz e acertada tradição, que convém ser respeitada e mantida, mesmo porque não fere em nada as intenções explicitadas pelo Mestre que ensinou a orar.

... por que dele é
o reino,
o poder
e a glória,
para sempre.
Amém!

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