terça-feira, 9 de agosto de 2022

PARA QUE FOI ESCRITA A BÍBLIA?

 


Esta pergunta é fundamental.  Sem conhecermos o objetivo específico deste Livro, ele se torna apenas mais um escrito em nossa biblioteca.  É preciso assim saber exatamente para que este livro foi escrito, preservado, transmitido e chegou até nós.

Deixe-me apresentar duas respostas tiradas do próprio texto bíblico.

1.  Na segunda carta a Timóteo é dito: "Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente preparado para toda boa obra" (3:16-17). 

Ela é proveitosa para ensinar.  Tudo que eu preciso saber para viver aqui eu encontro na Palavra de Deus.  Também é proveitosa para repreender.  Tanto para corrigir nossa rota quando nos desviamos e perdemos o rumo certo de nossa vida, como para nos disciplinar em nossos erros e tropeços para que não sejamos apanhados em falhas.  A Bíblia nos mostra a justiça e correção divina; o seu plano perfeito para a humanidade em geral e para minha vida em particular.  E isto tudo com apenas um objetivo: para que o servo de Deus seja perfeito como Deus o é.

2.  O segundo texto a destacar está em João 20:30-31.  "Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome". 

Aqui é dito de maneira direta o objetivo das Escrituras.  A Bíblia foi escrita para que através dela pudéssemos crer que o homem Jesus é o ser divino – Filho de Deus – que se encarnou por amor da humanidade; e crendo nisto todos nós tenhamos a vida em seu nome.

 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

PRELEST – uma ilusão espiritual

 


Pretendo considerar uma palavra relacionada à Teologia e a fé: PRELEST.  Traduzindo direto da língua russa (ПРЕЛЕСТЬ – com a ajuda do Google) a palavra significa “charme”.  Esse é um termo usado pela Teologia Ortodoxa oriental para indicar uma ilusão, fraude ou engodo espiritual.

(Procurei no Novo Testamento em russo essa palavra e não encontrei.  Com certeza, meu inexistente conhecimento da língua russa não me ajudou e, consequentemente, minha pesquisa na internet não me trouxe citações.)

Vários bons autores ortodoxos escreveram sobre esse tema e aqui eu quero destacar as reflexões do hierarca russo Santo Ignatius Brianchaninov, que escreveu bastante sobre o prelest.  Segundo ele:

― O engano espiritual é o estado de todos os homens sem exceção, e foi possível pela queda de nossos pais originais.  Todos nós estamos sujeitos ao engano espiritual. 
― A consciência desse fato é a maior proteção contra ele.  Da mesma forma, o maior engano espiritual de todos é considerar-se livre dele.

― O mundo está em um estado de engano espiritual e manifesta uma afinidade por aqueles que estão no mesmo estado. Mas despreza e rejeita aqueles que servem à Verdade...

Em linhas gerais, o prelest – ou estado de engano espiritual – acontece quando o ser humano, mesmo com boa intenção e buscando se aproximar de Deus e agradá-lo, se vê enredado por ilusões de procedência diabólicas que são tidas como verdadeiras.  Assim, o fiel acaba por aceitar a mentira como se fosse verdade.

Segundo Santo Ignatius Brianchaninov, dois são os tipos mais comuns de engodo em que o prelest se manifesta:

(1) Imaginação (Воображение).  Nesse caso, a pessoa floresce sua imaginação, sob influência sobrenatural, e tem visões de Jesus, ou de coisas espirituais, sem que tenha se arrependido ou “se purificado de suas paixões”.  Assim, essas visões, ou experiências de ser alcançado pelo sagrado, nada mais são que ilusões espirituais – não sendo verdadeiras, mesmo que tenham acontecido em momentos de devoção sincera.

(2) Autoconceito ou presunção (самомнение).  É aquela falsa ideia de retidão baseada na realização de disciplinas espirituais de piedade e virtudes supostamente dadas por Deus que faz com que se creia ter adquirido “méritos” junto a Deus.  Se no primeiro tipo em geral se confunde o sobrenatural com o divino, aqui a ilusão é mesmo espetacular e consiste em pensar nos próprios sentimentos religiosos como sendo sentimentos santos e divinos quando se ainda está completamente impróprio para eles.

 

Ambas as possibilidades de prelest indicam um certo padrão:

     a. A sinceridade espiritual;
b. Inconsistência entre a vida de busca de santidade e falta de arrependimento e quebrantamento;
c. Percepção equivocada da realidade espiritual;
d. Confiança nos sinais exteriores de santidades;
e. Aparência de cristianismo;
f. Apego à mentira e à ilusão em detrimento da verdade bíblica e divina.

Em todo caso, a melhor advertência ainda é a que nos foi dada por Tiago em sua epístola canônica:

Tornem-se praticantes da Palavra e não apenas ouvintes que se enganam a si mesmos.
Tg 1:22

Na imagem lá em cima: 
óleo sobre tela do russo Nikolai Nikolaevich Ge, 
intitulado Аэндорская волшебница (A Feiticeira de Endor), 
pintado em 1856. 
Atualmente na Galeria Estatal Tretyakov, Moscou.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 3ª parte

 


SIMÃO PEDRO DE NOVO – A RESTAURAÇÃO

Leia o início dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª parte – link
SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª parte – link

 

Faltava uma vida a ser restaurada – Simão Pedro.  Pedro sempre demonstrou um perfil de líder com espontaneidade e disposição para tomar atitudes.  Mas este ímpeto o levou a decisões vergonhosas.  Ele ainda precisava ser restaurado por Cristo.

Logo depois da cerimônia do lava-pés, Pedro tinha se disposto a seguir a Jesus, mesmo que fosse preciso morrer por isso; mas logo depois o havia negado (compare Jo 13:37 com 18:26-27).  Isto abrira uma ferida enorme na alma do discípulo e Jesus estava ali para curá-lo e devolvê-lo à missão.

Então, depois de terem comido (leia Jo 21:15), Jesus pôs em prática o processo de restauração de Simão Pedro.  A mesma pergunta foi repetida três vezes, e uma resposta dada a cada uma delas.  Mas ali cada detalhe era importante para que aquele homem pudesse voltar a ser o escolhido de Cristo.

Observe que Jesus o chamou de Simão, filho de João.  O próprio Jesus tinha colocado nele o nome de Pedro – a rocha (veja Jo 1:42).  Mas chamá-lo de Simão trazia à sua lembrança o homem anterior.  Naquele momento, Jesus estava restaurando Simão para que ele o capacitasse a chegar a ser Pedro.

É como se Jesus dissesse: eu te chamei para ser Pedro, e você por conta própria nunca vai fazer isso acontecer.  Só eu transformo vidas.

E por três vezes Jesus insistiu: — Tu me amas? (v. 15-17).  Aquela repetição desarmou o espírito de Simão e Jesus o restaurou (leia o verso 17). 

O ponto central mais uma vez é o amor.  A condição para que Simão Pedro cumprisse a missão de apascentar as ovelhas que Jesus lhe confiava não era sua personalidade ou seu ânimo impulsivo e voluntarioso, nem o seu perfil de liderança, era o amor (considere Jo 14:15). 

E foi com este amor que Jesus lhe restaurou.

 

Leia o início dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª parte – link
SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª parte – link

 

* Na imagem lá em cima, uma arte pintada aqui em Aracaju na parede da IB Graça (@gracaigrejabatista), pelo Korea Graffiti (@korea.jpz).
Verdadeiramente divina!

 

sexta-feira, 22 de julho de 2022

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª parte

 SIMÃO PEDRO DE NOVO – PEIXE NA PRAIA

 

Volte à primeira parte dessa reflexão – link 

João continua a narrativa com o amanhecer do novo dia (em Jo 21:4).  Depois da noite frustrante, Jesus estava ali na praia, mas nenhum dos discípulos o reconheceu à princípio.

Na sequência do texto: Jesus perguntou sobre o que havia para comer, os pescadores assumiram que não tinham nada, mas resolveram atender à instrução de lançar mais uma vez as redes ao mar (acompanhe a leitura em Jo 21:5-6).

Somente com as redes completamente cheias é que perceberam que era Jesus quem falava com eles (veja o v. 7).  Pedro então, mais uma vez tomou a iniciativa e foi até à praia ao encontro com Jesus.

Tudo naquela situação era inesperado e surpreendente: Jesus na praia (v. 4), o número de peixes pescados já com dia alto (v. 6 e 11), haver peixes na brasa e pão na praia (v. 9) e a rede não ter se partido (v. 11).

Depois de Pedro, que seguiu na frente à nado, os outros pescadores também chegaram à margem e então Jesus estabeleceu um diálogo, do qual pelo menos duas lições podem ser extraídas:

Primeira.  Já havia peixe e pão na brasa (veja o verso 9).  Jesus Cristo os providenciara de antemão.  Mas mesmo assim ele pediu para trazer os peixes que haviam sido pescados (v. 10).  Jesus não precisava dos esforços dos pescadores – ele já tinha os peixes assados – mas mesmo assim queria contar com o esforço daqueles homens, e os valorizava.

Segunda.  Jesus os chamou para comer (leia no v. 12).  A cena deve ter trazido à memória o episódio da multiplicação de pães e peixes lá no início do ministério de Jesus (volte a Jo 6:1-13).  É como se Jesus, com isso, estivesse ensinando que ainda era o mesmo e continuava pronto para atender todas as necessidades daqueles que o seguissem.

 

Leia mais dessa reflexão ...

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª parte – link

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 3ª parte – link

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 1ª parte

 SIMÃO PEDRO DE NOVO – VOU PESCAR

 

O texto do Evangelho diz que Jesus tornou a se manifestar aos discípulos (leia Jo 21:1).  Desta vez às margens do mar de Tiberíades.  Naquelas águas Jesus tinha encontrado vários pescadores de profissão e os chamado ao discipulado.  Aquele tinha sido o ambiente costumeiro de Simão Pedro antes de seguir a Jesus.

Sete dos homens que acompanharam a Jesus durante seu ministério estavam voltando à rotina de pescadores comuns (veja o verso 2).  Eram Simão Pedro – o líder do grupo, Tomé – o que foi restaurado (em Jo 20:26-29), Natanael – que Jesus já havia reconhecido como verdadeiro israelita (volte a Jo 1:47), os filhos de Zebedeu e mais dois discípulos anônimos.

Mesmo depois de todas as experiências presenciadas ao longo do ministério ao lado do Mestre; mesmo depois das instruções íntimas; mesmo depois dos encontros com o ressuscitado; mesmo assim, todos aqueles homens ainda careciam de que lhes reanimasse a fé.

Simão Pedro então anunciou: — Vou pescar! (Jo 21:3). 

Nesta simples declaração e disposição, Pedro demonstrou toda a sua frustração consigo mesmo em particular e com a situação em geral.  Ele deu a entender que, apesar de ter visto com os próprios olhos o túmulo vazio e o Cristo ressurreto e glorificado, as esperanças ainda estavam mortas, as cicatrizes ainda estavam abertas e a decepção ainda era um peso insuportável.

Os outros discípulos, também desorientados, resolveram seguir a Pedro.  E para piorar a situação, naquela noite não apanharam nenhum peixe (confira Jo 21:3).

 

Continue lendo a reflexão ...

 

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 2ª parte – link

SIMÃO PEDRO DE NOVO – 3ª parte – link

 

 

 

terça-feira, 12 de julho de 2022

SOBRE O JOÃO BATISTA

 


João Batista é citado nos quatro Evangelhos e sua participação nos eventos que dariam início do ministério de Jesus é singular. Vale dar uma olhada nele.

Ele foi encomendado (gostei da expressão!) para preparar os caminhos e exerceu bem essa função.  Lucas narra sobre seu nascimento e como isso foi resultado da intervenção direta de Deus (em Lc 1:13).

Olhando os textos sagrados ainda vamos constatar que Marcos cita a profecia de Isaías acerca daquele que prepararia o caminho como sendo uma referência a João Batista (Is 40:3 => Mc 1:3).

E ainda Lucas cita a fala de Jesus sobre João Batista dizendo que entre os que nasceram normalmente – de mulher – não houve um profeta maior que ele (Lc 7:28). Mas completa afirmando que o menor no Reino de Deus ainda é maior que ele.

Um detalhe: o nome de nascimento de era apenas João (conforme Lc 1:63).  E a alcunha Batista foi-lhe dada depois em referência a sua prática de banhos rituais – batismo.

Voltando a questão inicial: ainda com isso tudo, João Batista foi pecador pois é verdade bíblica que todos os seres humanos são, em sua essência, pecadores desde a sua concepção (confira textos como Rm 3:10 e 23 / 11:32 / Gl 3:22).

Também a própria fala e confissão de João, quando Jesus se apresentou para ser batizado, reconhecendo que ele mesmo precisava ser batizado (em Mt 3:14 – e lembre que a condição para o batismo de João era o arrependimento de pecados – Mc 1:4).

As intervenções divinas são sempre surpreendentes – e distintas.  Mas a única intervenção que tira o pecado do mundo é o que ele fez através da obra do Cordeiro (Jo 1:29).

 


quinta-feira, 7 de julho de 2022

OS NOMES NO TEMPO DO AT

No tempo do AT os nomes eram escolhidos para que representassem a realidade da criança ou da sua família no momento do seu nascimento, e que futuro poderia se esperar dela.  Assim Moisés – em hebraico: משה – recebeu este nome pois seu nome parece soar “tirei” – em hebraico: מקח – uma referência ao fato de ter sido tirado das águas pela filha do Faraó (Êx 2:10).  E Samuel – em hebraico שמואל – teve seu nome escolhido por ser equivalente a “pedir a Deus” – em hebraico שאליו יהוה – porque a criança era resposta ao pedido da mãe (1Sm 1:20). 

Na mesma linha de compreensão, no mundo antigo, mudar o nome de alguém seria o mesmo que promover uma mudança radical na vida e personalidade deste alguém; ou reconhecer um novo papel e destinação histórica deste.  Exemplos bíblicos mais uma vez são apropriados: Abrão – em hebraico אב + רום, ou seja: pai + elevar, erguer; daí םאבר – após a aliança da circuncisão teve seu nome mudado para Abraão – em hebraico אב + עם = pai + povo, gente, clã; daí םאברה – (Gn 17:5). 

E Jacó depois de lutar no vale do Rio Jaboque viu seu nome ser mudado para Israel (Gn 32:28).  Note: Jacó em hebraico é יעקב que provém do verbo עקב: enganar, cujas consoantes equivalem ao substantivo calcanhar – talvez uma referência ao seu nascimento segurando o calcanhar do irmão.  Já Israel, em hebraico em ישראל, é composto dos radicais שרה+ אל: lutar, litigar + Deus. 

Em relação aos seus deuses, os povos vizinhos do antigo Israel assumiam ideias similares.  Conhecer o nome da divindade era conhecer a essência e o poder dela.  Poder falar o nome divino seria ter certo controle sobre o deus e isto era tido como garantia em caso de guerra ou coisa parecida: nos embates entre povos diferentes e suas divindades, o povo que estivesse de posse do nome divino mais poderoso venceria a batalha.

Em Israel não foi diferente.  O nome de Deus (יהוה) não era simplesmente uma referência a alguém que deveria ser reverenciado nas celebrações de culto e festas cíclicas.  Os relatos bíblicos nos mostram que Deus se revelou dando a conhecer o seu nome não apenas para que Israel acrescentasse mais uma informação linguística, mas com dupla finalidade: a) Para que Israel soubesse exatamente quais as características essenciais do Deus a quem ele deveria se curvar e adorar, e esta identificação faria o povo poder descansar, porque sendo Deus o que o seu nome expressa ser, então Israel não teria porque temer o futuro; ou seja, a salvação dependia exatamente de uma identificação não-ambígua de seu Deus em contraste com a generosidade do numinoso.

E b) tendo conhecimento do nome de Deus, Israel tinha uma espécie de pré-garantia de que o poder deste Deus Todo-Poderoso estaria a favor e a disposição da nação sempre que se fizesse necessário enfrentar lutas e embates.  Conhecendo o nome de Deus, os filhos de Israel estariam prontos para guerrear e garantir vitórias.  Assim foi na saída do Egito, assim foi na conquista da terra prometida e assim seria enquanto o povo se mantivesse fiel ao nome de Deus.



Você pode ler um ensaio completo sobre esse tema no livro ENSAIOS TEOLÓGICOS
Disponível no:
Clube de Autores
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Conheça também outros livros:
TU ÉS DIGNO – Uma leitura de Apocalipse
DE ADÃO ATÉ HOJE – Um estudo do Culto Cristão
PARÁBOLA DAS COISAS