É
possível um cristão ser um idólatra?
A primeira
definição a se fazer é sobre o conceito de cristão.
Se para o termo
cristão aplicamos um conceito espiritual de um seguidor de Cristo, então o fiel
que adora com exclusividade o Deus Altíssimo, revelado no Cristo Encarnado, na dependência
do Santo Espirito e busca o seu Reino em primeiro lugar, esse nunca será
idólatra (referências: Dt 6.4 / Jo 1.1-5 / Mt 6.33).
Se para cristão,
chamamos a tradição ocidental com contornos de cristandade cultural, então não
somente é possível essa pessoa e cultura de tornarem idólatras como também há
vários exemplos históricos de que tais desvios aconteceram. Na Bíblia os filhos de Israel se curvaram
para um bezerro de ouro (em Ex 32).
Na história, um
exemplo é o Édito de Tessalônica assinado pelo Imperador romano Teodósio I no ano
380 que tornou o cristianismo a religião oficial do Império – o que acabou
criando a Igreja Estatal e a idolatria que daí se seguiu.
Um parêntese, já
enviesando o assunto: em todo e qualquer
registro e momento da história, toda vez que a igreja abdicou de seu papel
profético diante da sociedade e dos poderes constituídos e se alinhou aos
palácios ela se tornou idólatra e comungou com os pecados. E seu fim foi trágico.
Assim, voltando
para enfatizar: é possível sim um cristão se tornar um idólatra e, por isso,
deve-se manter vigilância constante.
Há
diferença entre praticar idolatria (de forma pontual) e ser um idólatra?
A verdade bíblica
é que idolatria é pecado (confira Ex 20.3-4 / Is 42.8 / Sl 115.4-8 / Mt 4.10 /
1Co 10.14 / 1Jo 5.21). Isso é verdade
inquestionável e fundante de nossa fé cristã.
Também aqui se
faz necessário uma distinção importante.
Embora toda prática pecaminosa (inclusive idolatria) seja reprovável
diante de Deus, as consequências e desdobramentos humanos, históricos e sociais
de cada pecado são distintos.
Uma prática
pontual de um pecado indica desfechos pontuais.
Práticas repetidas e costumeiras de pecados produzem efeitos
perenes. Assim também é com o pecado da
idolatria: adoração idólatra ocasional gera danos ocasionais, adoração idólatra
constante gera danos espirituais repetidos e constantes.
Mas é importante
destacar que, espiritualmente, todo pecado gera morte e a consequente separação
espiritual de Deus (citação de Rm 6.23).
Ou seja, embora possa haver diferenças sociais entre pecados pontuais ou
costumeiros, qualquer deles nos torna devedores para com Deus.
Caso
um cristão venha a dar espaço para ídolos em seu coração, é possível a
restauração?
Aqui continuo a
partir da mesma citação bíblica que terminei o ponto anterior. Se todo pecado gera morte espiritual (o que inclui
a idolatria), também é verdade bíblica essencial para nossa fé cristã que a
dádiva da graça de Cristo é a vida eterna (volte a Rm 6.23).
Outra citação
bíblica importante para compreensão: na sua Primeira Carta João aconselha a seus filhos a não pecarem, mas,
havendo ocasionalmente cometido qualquer pecado – até idolatria – o
procedimento cristão deve ser de arrependimento, confissão e confiança no nosso
advogado (no grego: παράκλητος – o que está ao nosso lado no chamado) que é
fiel e justo para nos perdoar e purificar por completo (leia 1Jo 1.5-10). Essa é a garantia que nos vem do sacrifício
da cruz: o perdão (ainda em 1Jo 2.1-2).
Fechando o tema:
Idolatria é toda prática,
devoção, costume ou adoração em que Deus tenha sido deslocado do centro e
primazia de vida e culto. Quando
atribuímos a qualquer valor: homem, governo, coisa ou ideia, um lugar ou posto
que só cabe ao Eterno Trino Deus, aí está a idolatria (no primeiro mandamento
em Ex 20.3 e repetido por Jesus ao rechaçar o diabo em Mt 4.10).
Toda idolatria é
pecado reprovável diante de Deus e nenhum cristão autêntico e comprometido com
a sinceridade de seu compromisso espiritual deveria sequer cogitar esse
pecado. Isso é abominável diante de
Deus (dito em Dt 27.15).
Com tristeza
temos que constatar, porém, que historicamente, como humanos nessa caminhada da
vida, estamos sujeitos a cometer os pecados que reconhecemos serem mortais. Mas isso não é nosso fim.
Quem blasfemar –
idolatrar – indo atrás de outros deuses pode ser perdoado, pois o único pecado
sem perdão é a rejeição deliberada da obra magnífica do Espírito Santo (Jesus
disse em Mt 12.31-32).
E finalizo com a visão
alentadora do Apocalipse. Quando João
viu a multidão incontável de gentes de toda nação, tribo, povo e língua, em pé,
diante do trono do Cordeiro, celebrando de vestes brancas, foi-lhe dito que se
tratavam daqueles que lavaram e branquearam suas vestes no sangue do Cordeiro
(maravilha em Ap 7.9-14).

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